quinta-feira, 28 de julho de 2011

O senhor das moscas (Lord of the flies)

Adaptado do romance homônimo, escrito por William Golding, a obra do diretor Harry Hook mantém o valor pedagógico de análise social. Após a queda de um avião militar no meio do oceano um grupo de jovens cadetes sobrevive e consegue chegar até uma ilha, sem a presença de adultos, salvo um militar gravemente ferido e impossibilitado de coordenar as crianças.

O início do filme mostra um pouco das características que os meninos já tinham antes de chegar à ilha. Como nos indica o casal de sociólogos Peter e Brigitte Berger, as instituições começam a agir sobre o indivíduo muito cedo e no filme fica clara a presença da educação militar recebida pelos garotos, com hierarquias e respeito pelas patentes, a prática de bullying – principalmente ao Piggy (Danuel Pipoly), que deixa claro sempre ter sido tratado daquela forma – e a impressão que os meninos têm do exército.

Como já indicava Émile Durkheim, o indivíduo é moldado pela sociedade, portanto cada um reagirá de acordo com a forma que foi socializado. É notável no filme como as crianças repudiam a educação militar quando cantam uma música que refuta as práticas militares e quando temem que o militar ferido se recupere, de forma que sugerem tratar o adulto com rigidez, assim como eram tratados. Ainda de acordo com Durkheim, há uma separação do ser individual e do ser social, sendo a educação proveniente de diversas instituições (inclusive do estado, formando indivíduos também voltados à sociedade), assim podemos compreender melhor um ponto fundamental do filme.

Dado que o processo de socialização começa muito cedo, e age continuamente sobre os indivíduos, vemos no filme indicações de práticas sociais presentes em todas as sociedades, como as histórias contadas em roda como uma forma de transmissão de conhecimento, jogos e brincadeiras auxiliando no aprendizado, ou rituais de pintura do corpo e utilização de adereços corporais para diferenciação do grupo. Aos poucos notamos também a presença de elementos individuais, como a preocupação de Ralph (Balthazar Getty) com os demais – por vezes impondo rigidez ao comportamento dos outros –; já Piggy é extremamente centrado, mais humano e racional, que provavelmente são características da educação familiar, e o garoto não rompe com as instituições que lhe foram apresentadas na infância, pois quer até construir um relógio (objeto que não tira do pulso); Jack (Chris Furrh) simboliza muitos daqueles que querem se divertir, sem tanto compromisso com os deveres, empurrando os mesmos até que a situação torne-se insustentável.

Passada a euforia da anomia os garotos concordaram que precisavam de regras, mas, como em toda a história da humanidade, é difícil – se não impossível – um consenso sobre as leis, de forma que a fratria foi inevitável entre as crianças. Os dois grupos chegam a lembrar Esparta e Atenas, pois os liderados por Rlph eram baseados na Razão, defendiam a assembleia e buscavam consenso para o bem comum, semelhante a Atenas. Já os liderados por Jack eram baseados na caça e treinavam como guerreiros, impunham a lei através do medo ou compravam apoio com a carne caçada. Esta prática de oferecer benefícios aos derrotados lembra a forma imperialista de dominação oferecendo o produto final e omitindo os meio através dos quais os bens foram obtidos.

O grupo de Jack reflete a síntese entre a educação obtida no colégio militar, impondo a força e dominando o inimigo, e a instituição familiar, que é comprovado quando um dos garotos conta que o líder foi para o colégio militar por ter roubado um carro. Já o grupo de Ralph também tem características militares como a disciplina e a obediência frente uma hierarquia, porém quando a maioria é seduzida pela força do outro grupo sobram os que aparentam ter uma referência familiar mais forte e coesa, como notamos em Simon (James Badge Dale), que demonstra afeto arrumando um animal de estimação – diferente dos caçadores que buscam suas presas.

Muitos comportamentos das crianças são condizentes com suas idades, afinal eles brincam, jogam, brigam e por vezes cedem à pressão do que estão vivendo. A cena em que o óculos de Piggy é quebrado deixa claro o quanto o diretor quis explicitar a infância, pois o garoto chora copiosamente e baba feito uma criança de colo. Outro comportamento da infância é a necessidade de transgredir o direito do outro. Assim, quando uma criança quer um brinquedo que não lhe pertence, a tendência é que ela use a força, até que algum adulto intervenha para sua socialização. Na ilha, como não há instituições que reprovem o uso da força, é válido a vontade amparada pelo poder da força.

Os líderes dos grupos são os dois mais velhos, entrando na puberdade, ou seja, pela socialização que tiveram até então essa é a idade em que os meninos têm a necessidade de dominar o meio em que vivem e se impor diante dos demais. Esse comportamento foi encarado como natural do ser humano, até que os estudos da antropóloga Margaret Mead mostraram que em algumas tribos os homens não exercem dominação sequer na adolescência e as mulheres podem dominar a tribo. O desdobramento do filme é uma hipótese plausível. Mesmo sem revelar detalhes, é possível ressaltar aqui um mesmo fato executado de três maneiras diferente, acidental, praticado na emoção de uma ação social e uma atitude extrema da falta de mecanismos de socialização.

É um filme muito bom para ser trabalhado em escolas, inspirando debates e elucidando a importância da socialização, talvez na contramão da individualização da sociedade. Aos que gostam, há um episódio dos Simpsons inspirado no filme, evidentemente que com muito humor e bem distante da tensão de muitas partes da obra original. O episódio é intitulado “O ônibus” e foi exibido na nona temporada.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Quarta B

Este filme do diretor Marcelo Galvão foi lançado em 2005 e continua extremamente atual e relevante, principalmente com as recentes manifestações pela descriminação da maconha apoiada por muitos intelectuais e artistas. O filme não é panfletário, muito menos visa fazer uma análise séria sobre o tema, mas sim lançar um olhar bem humorado através de estereótipos muito bem articulados.

Um argumento muito utilizado pelos que defendem a descriminação é o livre arbítrio e a autonomia do indivíduo para decidir se quer ou não consumir drogas, mas quando um tijolo de maconha é encontrado em uma sala da quarta série, a solução não pode ser deixada na mão dos supostos usuários mirins, portanto uma reunião com os pais em pleno domingo chuvoso foi marcada, para que todos encontrassem em conjunto alguma solução satisfatória.

Em pouco tempo de reunião fica claro que a questão das drogas ainda é tratada com muito preconceito, hipocrisia e até mesmo ignorância em relação ao tema, de forma que se em uma pequena sala de aula um grupo de menos de vinte pessoas esbarra na criação desnecessária de impasses, uma solução nacional para as drogas é incomparavelmente mais complexa e deve ser acompanhada de muito debate e esclarecimento, ao invés da implícita lei do silêncio que a sociedade tenta impor desde o início do séc. XX.

Ao serem informados do motivo da reunião a primeira reação de todos, como era de se esperar, foi a negação do envolvimento do próprio filho. Essa reação é natural por vários motivos, alguns poucos podem realmente ter essa certeza baseada em motivos reais, porém a maioria afirmaria o mesmo graças à devoção dos pais aos filhos, cujo excesso pode facilmente atrapalhar a relação familiar, fechando os olhos dos responsáveis para as reais demandas dos filhos, não apenas em relação às drogas, mas a quaisquer outras demandas que as crianças possam ter. Além disso, não é difícil imaginar que em uma situação como a do filme, qualquer um que assumisse a participação do filho no incidente seria crucificado ou incinerado em praça pública, como toda sociedade que mantém fortes raízes moralistas insiste em agir.

Em uma sequência infelizmente realista, após a negação geral de quem seria o dono na maconha encontrada, era necessário encontrar um culpado, já que a culpa é outra característica antiga e extremamente enraizada na sociedade. Como é inadmissível um problema que não tenha culpados, sendo ainda muito mais confortável culpar quem estiver por perto, conseguindo a isenção da responsabilidade, são usados os argumentos mais preconceituosos por parte dos pais na tentativa de encerrar o problema, como se a existência de um bode-expiatório permitisse que todos voltassem para suas obrigações e deixassem a educação dos filhos a cargo da escola, sem que isso tome grande parte do tempo dos pais.

Apesar da trama do filme girar em torno da maconha encontrada na classe, cabe notarmos como a educação dos filhos pode ser precária quando deixada nas mãos de pais que não são capazes de entrar em um acordo, preferindo ratificar preconceitos, como se estes fossem suficientes para que a criança desenvolvesse um bom caráter. Parece que o imediatismo da sociedade moderna, que exige resultados instantâneos e faz com que cada dia seja pautado pelo atraso, reflete na forma com que os problemas são encarados. Desta forma a educação dos filhos também tende a ser encarada como aspectos pontuais, ao invés do esclarecimento geral que terá como consequência o discernimento da criança sobre como agir em determinadas situações imprevistas, ou seja, se as drogas chegam à sala de aula, o mais fácil seria encontrar um único culpado e puni-lo exemplarmente, ao invés de conversar com as crianças sobre o tema, de forma clara e elucidativa, ao invés de carregada de preconceito e equívoco.

Como desfazer eventuais equívocos sobre o tema? A proposta do filme é uma das mais inusitadas, que rende cenas muito engraçadas: fumar a maconha na reunião para ver quais os reais efeitos do consumo. Claro que nem todos concordam imediatamente com a proposta, mas o principal é que os efeitos da droga fazem com que os pais revelem as próprias fraquezas e inseguranças. Depois das risadas que o filme proporciona, não é difícil perceber o porquê de tanto autoritarismo e certezas (ainda que para ratificar atitudes patéticas). A postura apenas reflete a insegurança que cada um carrega dentro de si, e se esforça para esconder, até que se sinta relaxado a ponto de expor as próprias fraquezas. Alguns podem até achar que o resultado é ruim, afinal conflitos particulares não devem vir a público, mas ao menos diante de atitudes absurdas, tais conflitos podem ser esclarecedores.

De forma descompromissada, Marcelo Galvão apresenta vários desfechos para a trama. Mostra a diversidade de possibilidades para o desfecho de um tema tão controverso, o que pode ser visto como alternativas para um problema que muitos ainda insistem em olhar como encerrado, desde que reduzido à repressão e proibição. Independente de qual a opinião individual sobre as drogas, a repressão pura e simples não tem surtido efeito. Talvez o esclarecimento seja mais útil, melhorando não apenas a relação das pessoas com as drogas, mas também com outros preconceitos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Chuva (Lluvia)

Acho que a chuva ajuda a gente a se ver.
(Caetano Veloso)


Este longa da diretora argentina Paula Hernández tem enredo bastante simples e conta com basicamente dois personagens interagindo ao longo do filme. Apesar da simplicidade, o trabalho proporciona grandes reflexões, evidenciando de forma bastante curiosa a relação, tanto do indivíduo com a cidade onde habita, quanto deste com outras pessoas.

Em meio a uma tempestade que deixa Buenos Aires com o trânsito bastante familiar aos paulistas, Alma (Valeria Bertuccelli) dá de cara com um desconhecido que entra em seu carro, fugindo misteriosamente de uma multidão enfurecida. Aos poucos ela descobre que o desconhecido é Roberto (Ernesto Alterio) e quem assiste descobre que, apesar da fuga inusitada, ele não é muito mais misterioso que Alma, que carrega sempre um porta-malas cheio com seus pertences e parece morar em seu carro.

Não demora a descobrirmos que Alma abandonou o marido e agora está sozinha. Mesmo em uma grande cidade como Buenos Aires a personagem, além de não encontrar um lugar para viver, tem que lidar com o sentimento de solidão e desamparo, capaz de fazer com que até o desconhecido Roberto ganhe status de grande amigo, apenas para ter com quem interagir. O mais curioso é que essa parece ser uma opção de Alma, já que ela conversa com a mãe pelo telefone e reencontra com amigos em uma festa, mas parece realmente desejar abandonar seu passado, ao menos enquanto a tempestade de sua vida, em conjunto com a chuva que não cessa ao longo do filme, não passa. Nem mesmo os telefonemas do marido, abandonado sem maiores esclarecimentos, são atendidos.

A princípio Roberto veio da Espanha para resolver alguns problemas de família, passando a lembrar da conflituosa relação com o pai. Não é por acaso que o objeto que marca a relação com o pai, e até acaba ajudando no encontro com Alma, é um piano, ou seja, algo que pode produzir belas melodias, sendo ao mesmo tempo pesado, trabalhoso e difícil de carregar. Durante a viagem ocorre o inesperado encontro. Se uma grande cidade tem a capacidade de isolar pessoas, mesmo abrigando tanta gente que convive diariamente, ainda que por obrigação, esta mesma grande cidade também proporciona encontros únicos, como o que vemos no filme, e infelizmente costumam não ser tão bem aproveitados quando ocorrem na vida real. Na ficção, Alma e Roberto, depois de certa resistência natural, começam a expor suas vidas e em pouco tempo a amizade entre os dois proporciona para ambos uma espécie de análise, na qual falando dos próprios problemas os personagens começam a perceber os próprios defeitos e a encontrar soluções satisfatórias.

Para a protagonista o novo amigo é a possibilidade de uma alavanca para retirá-la de um estado quase letárgico – resta saber se ela aproveitará isso. Ambos não são mais dois adolescentes com tantas certezas erráticas sobre a vida, de forma que podem perfeitamente tirar proveito da nova amizade, sem tornarem-se dependentes ou mesmo prejudicar um ao outro. Pode não ser tarefa das mais fáceis, mas sem dúvida a experiência de vida pode auxiliar muito, desde que as pessoas envolvidas tenham vivido dispostas a aprenderem com o tempo.

Roberto tem um papel que a princípio pode parecer mais fácil, pois em breve retornará ao seu país e reencontrará sua família, diferente de Alma que deve reestruturar toda sua vida, porém a gentileza do personagem, notada desde o início, e a forte identificação que tem com a moça podem gerar grandes dilemas a serem superados. Ou seja, é necessária uma síntese entre os benefícios que a nova amizade lhe trouxe, ajudando a esclarecer melhor seus próprios problemas e sentimentos, e os novos problemas que podem surgir.

Através de problemas bem comuns fora das telas, vemos atitudes plausíveis dos personagens, que têm o mérito de aceitar muito bem os encontros casuais que uma metrópole proporciona. Novos contatos nos proporcionam novas experiências e uma troca de conhecimentos que permite maior crescimento dos indivíduos. Impasses são naturais, se não buscarmos nenhum, eles nos encontrarão; mas experiência e conhecimento para lidar com os problemas e com as dúvidas da melhor maneira possível dependem muito da disposição que temos para obtê-los. Se por um lado a chuva incomoda e torna os dias cinzas, por outro lava e renova.

Mais uma boa produção argentina, que não ganhou grande destaque nas telas brasileiras. Produções conjuntas entre os dois países seriam muito bem vindas.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Poesia (Shi)

Poesia pode até ser interpretado como a forma da protagonista Mija (Yun Jeong-hie) encarar a vida, cheia de percalços. Pode indicar uma certa função da arte, de auxiliar a descrever as experiências que vivemos, para assim ordenar nossos pensamentos e facilitar resolução dos problemas, mas o que mais chama a atenção no longa do coreano Lee Chang-dong é o machismo, que atinge a protagonista pelas três gerações de homens com quem ela deve conviver.

A protagonista é uma senhora que cuida de um velho homem rico, com sequelas de um AVC, e vive com o neto adolescente, que junto com um grupo de amigos estupra uma jovem na escola, provocando o suicídio da mesma e fazendo com que os pais dos agressores tentem comprar o silêncio da família da vítima. A reação patética dos pais mostra outra trama interessante do filme, a conhecida tradição oriental sendo substituída pelas leis vorazes do mercado, onde o dinheiro supostamente poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a família pobre da menina violentada.

Em meio as dificuldades da vida Mija começa a frequentar aulas de poesia, buscando nas belezas do mundo a inspiração para o poema, que teima em não vir. Contempla a natureza, tenta praticar esportes, busca nos cinco sentidos palavras que se encaixem para formar seus versos, mas não consegue fazer seu poema. Apesar do otimismo e esforço da personagem, o que vem ao seu encontro é bem menos poético.

Em casa o neto é mais um adolescente que vive na letargia entre a televisão e o videogame e, ainda que a idade do jovem seja conhecida pelo desinteresse e afastamento, nunca é demais lembrar que o comportamento é formado ao longo de toda a infância, de forma que mesmo com a intempestividade própria da idade, todo adolescente age dentro de um campo de possibilidades, composto pelas experiências e valores adquiridos. Assim, a forma com que a avó é tratada parece típica e inquestionável de alguém acostumado a tirar vantagens de uma estrutura social machista, que pode culminar no estupro de uma amiga da escola.

No emprego Mija deve lidar com as grosserias de um homem na mesma faixa etária que ela, obtendo assim o próprio sustento e também o do neto. Seria compreensível a irritação de alguém que no fim da vida sofre com a debilidade de movimentos e talvez por isso acabe perdendo a paciência diante de situações corriqueiras, que de repente tornam-se grandes obstáculos, como tomar banho ou alimentar-se. Mas as reações do velho homem extrapolam a condição de vítima de um AVC e passam a explorar tanto a condição econômica, de quem paga uma pessoa e acredita que por isso pode fazer o que quiser, quanto a relação entre gêneros, ao utilizar um estimulante sexual para ‘ser um homem’ sem se importar com o que sua empregada acha disso. A imposição de poder, sexual e econômico, não se extingue sequer diante dos problemas de saúde, ainda que a protagonista tente driblar essa situação.

Entre as duas gerações retratadas vemos os pais dos garotos que violentaram a jovem na escola. A vergonha nas culturas orientais é um sentimento muito forte, podendo levar até mesmo ao suicídio como indicado no próprio filme, através da menina que, como é comum na cultura machista, se sente culpada pela violência que sofre. Os pais em questão também sofrem vergonha pela atitude dos filhos, que sem dúvida pode prejudicar o futuro dos mesmos, mas o poder econômico se associa bem ao machismo para superar o irreparável e a proposta, já que a família da jovem é pobre, é comprar seu silêncio. É assim que Mija é pressionada para conseguir pagar sua parte da dívida, com a qual não concorda, mas não tem outra opção.

Através das três gerações vemos o machismo perpetuado, em contraposição à protagonista que busca a beleza da vida. Da mesma forma o conteúdo pesado do enredo é quebrado pela suavidade das imagens e pela figura terna da senhora sempre bem vestida e de paciência quase ilimitada. Mija parece ter aprendido na prática que o passado não deve ser esquecido para que os erros não voltem a acontecer, assim, mesmo com o mal de Alzheimer recém diagnosticado, ela é a única a tentar manter viva a memória da vítima de seu neto.

O que a velha senhora ainda pode aprender é que a beleza de um poema não depende da beleza de sua inspiração, de forma que lindas obras têm frequentemente origem em fatos terríveis, indo além de uma simples descrição do que é belo e atingindo o caráter de idealização diante das tristes atitudes humanas. Sem querer adiantar o final do filme, vale a pena chamar a atenção para a forte presença feminina nas últimas cenas, quem sabe com o ideal de encerrar tantas atitudes vergonhosas dos personagens masculinos, tristemente tão reais.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Estrada Real da Cachaça

Cachaça, peço o favor que não me aborreça.
Desça para a barriga, mas não suba para a cabeça.


O road-movie de Pedro Urano percorre o interior do Brasil, principalmente de Minas Gerais, para contar algumas histórias e mostrar como a cachaça se tornou a bebida típica do país, marcando presença ao longo de todos os ciclos econômicos desde o descobrimento, com produção rudimentar, até hoje, com algumas marcas valiosas.

Tendo sua origem e predileção entre os populares, a bebida sempre teve a fama de estar à margem da sociedade, com uma imagem até pejorativa, mas como podemos ver no documentário, seu consumo vai além de alcoólatras incorrigíveis e sua história pode ajudar a compreender até mesmo a estrutura de poder da sociedade brasileira, tanto pelas classes que mais a consomem, quando pelas que mais a marginalizam.

Muito barata e acessível, a bebida forte sempre serviu de combustível para trabalhadores explorados, sendo bastante eficiente nesse sentido. Os escravos utilizaram seus benefícios no ciclo da cana e na mineração, após a abolição da escravatura os trabalhadores semi-escravos continuaram a consumir a cachaça para espantar o frio das manhãs, as dores – do corpo e da alma –, o cansaço e, talvez principalmente, o desânimo da vida explorada que se resume na rotina de ir diariamente da casa para o trabalho e do trabalho para a casa. Serve também de companhia para os viajantes, que precisam passar longos períodos longe de casa e da família. Um trabalhador que bebe cotidianamente nunca foi bem visto pela sociedade, e de fato o consumo excessivo da bebida tem efeitos devastadores, mas a marginalização do consumo não tem base na preocupação com o indivíduo e sim com sua força de trabalho, que irá baixar quando estiver alcoolizado, reduzindo assim o lucro do empregador que o explora. Desta forma é mais barato denegrir a imagem daqueles que consomem a cachaça do que evitar os motivos que levam os trabalhadores ao alcoolismo.

Como qualquer produto que cria raízes na cultura de uma sociedade, a cachaça não tem apenas seu aspecto prático, tendo se espalhado pelos hábitos de seus consumidores, o que também gerou preconceito de muitos. A igreja católica, que desde seu surgimento não mede esforços para barrar qualquer outra crença religiosa, sempre se empenhou em suprimir o Candomblé trazido pelos escravos utilizando técnicas bem distantes de seus próprios dogmas. De agressões aos adeptos às associações mentirosas dos elementos sagrados do Candomblé com o demônio dos católicos, a igreja viu na cachaça – utilizada em alguns rituais da religião africana – uma forma de tentar desmoralizar o culto aos Orixás. O curioso é que a miscigenação que ocorre em praticamente todos os sentidos na sociedade brasileira se estendeu às religiões, sendo que ao invés de enfraquecer o Candomblé, o catolicismo agora tem que aceitar alguns de seus adeptos utilizando a temida bebida em alguns ritos. O filme não tem a intenção de entrar em qualquer polêmica religiosa, ou mesmo de criticar a igreja, mas evidentemente não é muito coerente criticar o uso da cachaça enquanto se associa o vinho ao sangue de um profeta – isso sim, só é tolerável depois de consumir muito álcool.

O humor está presente em várias partes do filme, o que é quase inevitável diante da forma com que a bebida é conhecida, associada à descontração e ao modo descomprometido de viver. As sequências que deixam mais evidente o lado cômico são as que trazem as pessoas mais simples apresentando versos antes de virarem suas doses, o que contribui também para compreender como essas pessoas veem o produto. É possível notar que existe plena consciência de que a bebida é prejudicial e que pode aprisionar quem abusa de seu consumo, porém diante das situações apresentadas, ou seja, o consumo em botecos de pequenas vilas ou propriedades rurais, podemos questionar qual a alternativa oferecida em troca do alcoolismo, já que aos que bebem moderadamente, mantendo o controle frente à bebida, são oferecidas condições de vida bem semelhantes aos alcoólatras, que sempre são discriminados, mas raramente tratados e muitas vezes preferem abrir mão da saúde para não ter que encarar “a seco” a dura realidade.

O diretor perde um pouco o ritmo ao dar muita ênfase à forma como os mineradores trabalham atualmente, extraindo e vendendo suas pedras, pois apesar do tema estar relacionado com o cerne do documentário, visto que o trabalho pesado dos mineradores é muito seduzível pelos prazeres da cachaça, a sequência acabou fora de contexto, no entanto isso não compromete a qualidade do longa, sendo que as imagens envelhecidas em preto e branco, para resgatas a origem antiga das tais estradas reais, surpreendem positivamente, chamando mais a atenção do que os pontos negativos.

O filme é uma viagem muito prazerosa pela história da bebida que, apesar de sempre à margem, acompanha a história do Brasil bem de perto. Uma ótima opção, tanto para divertimento quanto para informação.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Estamos Juntos

Neste longa o diretor Toni Venturi costura diversas faces de uma grande cidade como São Paulo, mostrando a diversidade, que pode convergir para o isolamento das pessoas, expresso sob diversas formas. O paradoxo de Estamos Juntos é que a tal união que o título sugere vem pela solidão dos personagens de diversas ramificações do enredo.

A trama principal é de Carmem (Leandra Leal), jovem com futuro promissor, que vem do interior para estudar medicina em São Paulo. Além de ser residente em um hospital público ela presta serviços de orientação em um prédio ocupado no centro de São Paulo. Quem vem à capital buscando livrar-se das amarras das pequenas cidades acredita chegar vacinado contra os problemas que encontrará, e de fato algumas adversidades não são difíceis de driblar, mas é a partir do diagnóstico de um tumor que a vida de Carmem se mostra mais frágil do que ela mesma esperava. Vale ressaltar que as reações da personagem foram muito bem dosadas por Venturi, passando toda a angústia necessária, mas sem transformar o fato em um dramalhão de novela.

Como se não bastasse todos os problemas repentinos, Carmem ainda tem que suportar o peso da responsabilidade alheia, tanto do músico argentino Juan (Nazareno Casero), cujos galanteios desajeitados e o sotaque castelhano proporcionam os momentos mais engraçados do filme, quanto do amigo Murilo (Cauã Reymond), homossexual que sonhava em conquistar Juan, antes de seu affair com Carmem. Os três mostram a fragilidade das relações de amor e amizade, formando um triângulo solitário graças ao comportamento extremamente egoísta de negar a personalidade do outro, adotando a postura egocêntrica de atribuir às pessoas próximas o próprio fracasso. Posto desta forma pode parecer, e de fato é, um comportamento absurdo, porém bastante comum fora das telas. Novo mérito a ser ressaltado é a força da personagem de Carmem, pois mesmo sendo a que mais tem motivos pessoais para explodir e disparar contra todos que estão a sua volta, ela é a única a manter a sensatez, suportando calada e compreensiva muitos absurdos. É ela quem mostra a força real diante da fraqueza que os homens insistem em tentar, sem sucesso, esconder. Talvez por isso Juan vai minguando aos poucos até sumir da trama.

Longe da família e sem o apoio dos amigos (com exceção do enigmático amigo sem nome vivido por Lee Taylor), Carmem tenta uma espécie de fuga da dura realidade pela qual passa se entregando ao trabalho no hospital, onde é possível notar em cada personagem um pouco da referida solidão, que, ao meu modo de ver, indica que estão mesmo todos juntos, no mesmo barco – quase um “barco dos loucos”, sem rumo, de Hieronymus Bosch. A princípio parece justo que a personagem mantenha uma ocupação que lhe distraia, porém não é mesmo sensato que alguém em situação tão delicada – tanto física quanto psicologicamente – exerça a medicina.

Resta a Carmem o trabalho no edifício ocupado, onde a jovem enfrenta um grande choque de realidades. A mesma imposição de valores percebida entre Juan e Murilo é vista aqui, apenas com enfoques diferentes. Talvez a trama do MSTC (Movimento Sem-Teto do Centro) pareça um pouco deslocada do desenrolar do filme, mas remete a outro longa de Toni Venturi, “Dia de Festa”, que aborda diretamente a questão da ocupação de edifícios vazios e sem função social. A princípio os militantes do edifício ocupado dão uma lição de vida ao driblar os problemas da classe média, retratada pelos médicos e músicos, resta saber até que ponto resistirão antes da tal solidão mostrar as garras.

Sem adiantar o desfecho da trama, é possível dizer que a diversidade dos personagens faz com que seja difícil a quem assiste não se identificar ao menos um pouco com a trama, ainda que as dificuldades de Carmem pareçam intermináveis. Ao menos a solidão que uma cidade tão grande tem a oferecer é bem real, uma das funções históricas do cinema é a de alertar, com suas metáforas, para que possamos aprender com os erros fictícios e evitar, ao menos um pouco, os problemas reais.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quanto vale ou é por quilo?

O diretor Sergio Bianchi tomou o conto “pai contra mãe”, de Machado de Assis, como ponto de partida para seu filme. A obra original gira em torno de uma escrava fugitiva que é capturada por um capitão-do-mato (negros que, para salvar a própria pele, trabalhavam para os senhores evitando fugas). A partir disso o roteiro desenvolve mais que um filme de época, pois faz um paralelo entre a escravidão institucionalizada, descrita por Machado, e a atual condição da população explorada no Brasil – em sua maioria formada por negros.

Do ponto de vista da literatura, podemos ver o quanto a obra do escritor infelizmente permanece atual. É possível identificar o poder atuando de forma capilar e onipresente, conforme foi muito bem teorizado por Michel Foucault em “Vigiar e punir”; a parcialidade no cumprimento das leis em favor dos mais ricos; e as origens do ranço asqueroso do racismo, que permeia nossa sociedade e atua diariamente, variando apenas sua intensidade.

Hoje, fora das telas de cinema e das páginas dos livros, conforme ações que visam à equidade social sofrem com o ataque retrógrado dos que defendem direitos supostamente iguais – alegando que cotas, leis e incentivos raciais e sociais iriam ferir o a premissa da igualdade – seus defensores costumam alegar uma dívida histórica contra a população negra e indígena, porém este é o grande equívoco, já que não há dívida histórica nenhuma. Só poderíamos alegar dívida histórica se seu conteúdo estivesse relegado aos tempos de escravidão legalizada, porém o preconceito que impede a camada mais pobre – não necessariamente negros – de ascender economicamente é extremamente atuante e está tão enraizado na sociedade que seus efeitos tendem a ser atenuados até por quem o sente na pele. Este é um dos grandes destaques de Quanto vale ou é por quilo?.

Ninguém nega a barbárie de um sistema equivalente a um holocausto de quatro séculos, mas assumir simplesmente deixaria brechas para que os subjugados reivindicassem direitos verdadeiramente iguais, a partir daí moldam-se os argumentos das formas mais tragicômicas possíveis, como alegar que os próprios negros africanos escravizavam tribos rivais, o que tiraria a barbárie das mãos dos exploradores, não fosse o fato dessa escravização não ter sido espontânea, mas forçada sob a ameaça de extermínio caso a captura não fosse feita pela tribo em questão. Desconsiderando ainda que uma pessoa utilizar escravos, ainda que não tenha capturado o indivíduo em sua terra natal, não diminui a responsabilidade de quem escraviza.

Um recurso do cinema muito bem explorado é a construção da imagem, para destacar o que nossa memória heterodirigida tende a atenuar. Quando queremos suavizar alguma lembrança ou fato, o cérebro irá inconscientemente construir uma imagem mais tênue, ou seja, imaginam-se negros presos, acorrentados pelos pescoços ou atados a troncos, mas para tentar diminuir o terror de uma atitude tão vil não imaginamos o desespero causado pela privação dos movimentos, o sangue que escorria das feridas causadas pelas pesadas peças de ferro e outros detalhes, ressaltados no filme quando a trama se desenvolve no século XIX.

Transpondo o enredo aos dias atuais as cenas são menos agressivas, afinal a violência que atua sobre a população oprimida hoje é mais simbólica, ainda que não menos nociva. O sentimento falso de superioridade continua fornecendo base para abusos, com a diferença que hoje é necessário encontrar brechas na lei – nada muito difícil, visto que estas são formuladas pelos opressores.

O desvio de verbas de doações, como apresentado no filme, permite que empresas enriqueçam às custas do governo, ou seja, dos impostos pagos pela população, e ainda agreguem valor à sua marca com suposta responsabilidade social. O poder exercido pelos mais poderosos, que se aproveitam do conhecimento negado aos explorados, permite a utilização de “laranjas” para golpes que sequer são notados pelos donos das contas. A comparação direta da condição atual de negros com o período legalmente escravista. Esses e outros exemplos do filme culminam na reação extrema, que é praticamente a única, pois se a única alternativa a política é a guerra, a alternativa a uma política igualitária entre classes, sempre negada pelos poderosos, é a violência direta, que é condenável, mas bastante compreensível.

Quanto vale ou é por quilo? mostra que a exploração continua manchando nossa sociedade, que quando muito aboliu a legalidade dos castigos físicos arbitrários, desta forma não é por acaso que a violência – tanto entre classes distintas, quanto entre as classes mais baixas, que precisam salvar a própria pele – continua desenfreada. A simples repressão às classes mais baixas vem sendo aplicada há séculos sem sucesso, talvez a equidade social seja uma alternativa que vale a pena testar.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Viajo porque preciso, volto porque te amo

Neste longa o cearense Karin Aïnouz grava seu road-movie por estradas do nordeste. Talvez um dos motivos do filme ter tido grande repercussão nos festivais internacionais foi o cenário pouco convencional, pois os caminhos percorridos não passam por pontos turísticos ou pelas paisagens deslumbrantes que a região possui, mas pela terra seca, árida e esquecida, por onde espalham-se pequenos vilarejos cujas carências são ilimitadas e os estrangeiros pouco conhecem.

No Brasil o filme também teve grande sucesso, mas também foram muitas as críticas repetitivas sobre a temática supostamente esgotada das mazelas do nordeste. Tais críticas são infundadas, não só pela temática do filme ser diversificada ao invés de restrita aos problemas, mas também pelo fato de que nenhuma denúncia em relação ao descaso com a população local surtiu efeito. É possível afirmar que em se tratando de problemas sociais, o tema só está saturado após a resolução definitiva do problema.

A característica fundamental que o torna bastante particular entre as obras de estilo road-movie é a ausência de personagens, pois até mesmo o protagonista restringe-se a narrativa de José Renato (Irandhir Santos) que apresenta sua viagem de um mês a trabalho, geralmente em tom de relato para sua “galega”. Retomando a tradição da literatura modernista de guiar a obra através de um funcionário público, o geólogo fornece alguns aspectos técnicos do seu trabalho, que visa a análise do solo para a construção de um canal hidrográfico, e apesar de não citar nominalmente, a referência é a transposição do rio São Francisco. Pensando na relação entre estado e população, é curioso ver a disparidade entre o poder das classes mais altas, que em uma cidade como São Paulo têm o poder de influenciar os locais onde devem ou não ser construídas estações de metrô, e a impotência de cidadãos em condições sub-humanas, que são enxotados de uma situação já precária para que a terra em que vivem seja inundada em nome de um suposto progresso, que, conforme a história nos indica, beneficiará apenas grandes fazendeiros.

O cenário encontrado por José Renato é degradado e os moradores retratados vivem em meio ao nada. É possível que a construção de um canal conforme o sugerido traga algum benefício ao local, afinal não é difícil beneficiar uma população tão sofrida, porém as demandas por escolas, hospitais, lazer, ou seja, atenção e cidadania são latentes e não podem esperar até que uma obra faraônica seja concluída para, talvez, serem sanadas. É evidente que uma população sem opções de cultura buscará alternativas ao invés de conformar-se com o descaso, e as opções costumam restringir-se ao bar, à prostituição na beira da estrada com profissionais degradadas e, para finalmente ter um pouco de arte, ao velho circo que se esforça para seguir com as apresentações. A passividade diante dos problemas é indicada quando o personagem começa a elaborar uma crítica, mas rapidamente conclui dizendo que não está lá para isso e sim para a conclusão do relatório sobre o solo.

Outro viés do filme faz referência à segunda parte do título, pois ao viajar pela necessidade do trabalho o protagonista conta, desde o início, os dias e as horas para rever sua amada. O que surpreende, e desencanta os mais românticos, é que apesar do título bastante chamativo, um dos fatores que mais incentivou a viagem de José Renato foi o fim do relacionamento – que é revelado rapidamente, portanto não é nenhuma grande surpresa – que força o protagonista a se afastar do problema na tentativa, frustrada, de esquecê-lo. A ficção do funcionário público que, como tanta gente, busca na viagem a simbologia de afastar-se de um problema na ilusão de esquecê-lo e na esperança de que tudo esteja resolvido na volta, é mesclada com a realidade do depoimento de alguns moradores, revelando a solidão que gera uma angústia até inconsciente.

Aquele que no início conta as horas para voltar e relata o serviço adiantado, com o tempo desanima, atrasa e bate de frente com a falta de opção. A viagem torna-se chata, cansativa, repetitiva em um cenário que independente da quilometragem percorrida é sempre o mesmo; mas qual a alternativa, se voltar implica em encarar a dor do relacionamento interrompido? Em um dilema bastante parecido estão os moradores entrevistados, pois assim como o personagem, eles relatam uma vida dura, a esperança de melhora, mas no contexto em que estão inseridos fica a mesma dúvida, qual a alternativa para sair de uma condição tão hermética, que reduz a pluralidade humana a um destino quase pré-estabelecido?

A morosidade indicada pelos que não estão habituados ao dito “cinema de arte” é compreensível, até pela estrutura do filme fugir muito ao habitual, mas uma das técnicas de montagem do cinema é adequar o ritmo da obra para que fique condizente ao vivido pelos personagens, assim, acompanhando um pouco da viagem de José Renato, vemos que o filme não poderia ser diferente.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cópia Fiel (Copie Conforme)

Cinema iraniano é visto no Brasil quase como um signo de filmes chatos e mal produzidos, o que é compreensível em se tratando de produções carentes de tradição e recursos e, sobretudo, com uma cultura bem diferente da ocidental, que aborda temas alternativos com uma concepção de tempo bem diversa. Aqui o diretor Abbas Kiarostami rompe as fronteiras de seu país e apresenta essa produção franco-italiana, que mescla cinema europeu com as fortes influências do diretor iraniano.

O filme é mais lento do que em geral costumamos ver, alguns pontos ganham mais ênfase que o necessário e o enredo é bastante linear, o que costuma desagradar muitos espectadores. Já os planos externos filmados na Toscana, que mais parece um cenário a céu aberto, agradam até os olhares mais desatentos. É em meio aos cenários românticos e inspiradores que Elle (Juliette Binoche) e James Miller (William Shimell) passam a maior parte do filme travando grandes discussões por sustentarem pontos de vistas divergentes em cada detalhe.

James é crítico de arte e foi para a Itália para o lançamento de seu novo livro, Cópia Fiel, no qual defende basicamente que algumas cópias de obras de arte podem ter tanto valor quanto a original. Só este tema já possibilita diversas análises e debates entre artistas, críticos e apreciadores, porém o foco do filme não está em chegar a uma conclusão sobre o valor da cópia de uma obra, mas utilizar essa ideia e as divergências das personagens acerca dela como metáfora para as relações diversas entre as pessoas. Elle é uma personagem mais complexa, pois a comerciante de arte, sempre em busca do original, apesar de fazer de tudo para se aproximar do crítico e agradá-lo, tenta convencê-lo de que sua tese é equivocada. A divergência somada a algumas atitudes nos leva a acreditar que o interesse dela é mais pessoal que profissional. Com a metáfora estruturada – e extremamente desenvolvida na primeira parte do filme – o roteiro começa a fazer um jogo de verdade e ficção muito instigante.

A partir do momento em que são confundidos com um casal em um café passam a agir como casados. Seria uma união verdadeira ou uma cópia? As discussões, até então mais técnicas e voltada para obras de arte, cujo valor é muito subjetivo, passam a ter como tema as divergências de um casamento que já dura quinze anos. Em sua busca pelo significado da vida James acredita ser este a diversão, não importa se através de cópia, desde que esta desperte emoções. A obsessão de Elle pelos originais não é restrita às obras, mas chega aos sentimentos e insiste em impor sempre com muita seriedade seus valores, que para ela são inegavelmente corretos.

Os dois pontos de vista sobre os temas debatidos pelo casal são válidos e bem argumentados, sendo que dificilmente aquele relacionamento poderia ser mantido com harmonia por muito tempo, não por um dos dois estar errado, mas pela divergência latente em relação ao modo como devemos levar a vida. James adota uma postura mais individualist, portanto o relacionamento seria mais distante, sem o compartilhamento total de alegrias e problemas; proposta interessante, desde que para mantê-la durante o casamento as responsabilidades, como a criação dos filhos, não sejam empurradas integralmente para a esposa. Já Elle exige maior comprometimento, exaspera o romantismo e sente falta de mais atenção do companheiro; proposta interessante, não fosse a imposição de comportamento e de sentimentos por parte da personagem, quase como se tudo que é diferente dela não tivesse valor, tal qual uma cópia da obra de arte original, segundo sua concepção.

Diferente do cinema ocidental, com enredo fechado e conclusões prontas, Kiarostami apresenta um diálogo bastante linear, mas que não oferece um final fechado e que suscita a reflexão. Os dois formam um casal ou uma cópia fiel? O que caracteriza um casal original? O que caracteriza um sentimento original? Em geral, costumamos colocar nossos sentimentos e nossas expectativas como originais e corretos, mas lidamos muito mal com as situações em que se invertem os vilões e heróis.

Sem trailer legendado  =/


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ninguém escreve ao Coronel (El coronel no tiene quien le escriba)

Gabriel García Marquez escreveu a novela “Ninguém escreve ao coronel” em Paris, durante seu exílio, mas as referências da história deixam claro que seus personagens estão na terra de Marquez, até mesmo fazendo menção à fictícia Macondo, na qual posteriormente o autor desenvolve a história do romance “Cem anos de solidão”. Ainda que a obra seja um dos primeiros passos no desenvolvimento de Macondo e da família de Aureliano Buendía – também citado –, acabou se tornando um bom complemento com elementos que indicam o que aconteceu fora da cidade enquanto o coronel Buendía lutava na revolução.

Apesar na narrativa do livro ser bastante linear, favorecendo bastante a transposição fiel ao cinema, o diretor Arturo Ripstein apresentou algumas alterações que tiveram resultado bastante positivo no filme. O longa foi rodado no México, mas mantém as características de floresta equatorial, com chuvas intensas, clima quente e, socialmente, o vilarejo pobre e afastado da cidade. Há também a inclusão de fatos e personagens destacando certos sentimentos dos personagens, que vai à contramão das adaptações, pois geralmente na transposição trechos são suprimidos.

A princípio nos parece estranho ver um coronel nas situações expostas, afinal foge da realidade brasileira um militar aposentado, que aqui recebe altíssimos salários após degradar o país por duas décadas, passando por sérias dificuldades devido à pensão prometida pelo governo, que nunca chega. A realidade do casal é condizente com a maioria dos idosos de países pobres, racionando os alimentos escassos, tendo que se contentar com as roupas velhas, com a casa degradada pelo tempo e sempre torcendo para que nenhuma doença apareça com a demanda de remédios que sacrifiquem ainda mais a vida sofrida. O único elemento realmente destoante em relação ao que estamos acostumados no Brasil é o fato do idoso em questão ser militar, que aqui vivem em condições verdadeiramente opostas às descritas anteriormente.

Aos poucos entramos no cotidiano do Coronel (Fernando Luján), tão opressor e degradado em todos os sentidos. A cidade pobre e isolada sofre também com o clima quente e úmido; na pequena casa velha, que o militar divide com sua esposa Lola (Marisa Paredes), sobram poucos objetos após a venda dos mesmos para conseguir algum dinheiro; além das dificuldades físicas da idade, os idosos ainda precisam enfrentar os percalços psicológicos tanto da humilhação por não terem como se sustentar – situação agravada pela hipoteca da casa, que não é descrita no livro – quanto da dor de ter perdido o filho.

Mesmo sem um personagem presente, é através do filho Augustin que boa parte do enredo se desenvolve, pois aos poucos vemos que o clima de censura política vigora até mesmo na cidade que beira a um simples povoado, onde os amigos de Augustin dão continuidade à tentativa do jovem de driblar o controle e divulgar informações de forma clandestina. Além disso, o autor expõe a importância das brigas de galo na cidade, das quais o jovem participava tendo deixado como principal lembrança aos seus pais um galo de briga, supostamente o melhor da cidade, alvo de apostas que poderiam livrar o casal de idosos das dificuldades financeiras. Neste ponto Arturo Ripstein complementa o texto original incluindo a personagem Julia (Salma Hayek), a prostituta com a qual Augustin se relacionava e talvez tenha sido fundamental no assassinato do mesmo. Há mais de uma interpretação para a tragédia envolvendo os elementos políticos e passionais.

Através da moça o autor mostrou a agonia do coronel por não deixar herdeiros, superando até o tradicional moralismo para chorar diante da prostituta e afirmar que gostaria que o filho tivesse lhe deixado um neto. A presença da moça no enredo humaniza a trama e ajuda na composição do sentimento pela imagem, já que a obra original conta com a descrição detalhada com palavras, ou seja, com um recurso bem diferente do cinema.

Mesmo sendo um dos primeiros trabalhos literários de Marquez, que serviu de experiência para o desenvolvimento do trabalho que lhe rendeu o Nobel de 1982, “Ninguém escreve ao coronel” já mostra o grande talento do escritor, apresentado não apenas através da literatura, mas do ativismo político e vários outros trabalhos pela América Latina.


Não encontrei o trailer, mas dá para ver o filme todo no Youtube (áudio em espanhol, legenda em inglês)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Amor?

"O mais importante não é o amor. O mais importante é a gentileza."
(Dostoiévski)


Em seu novo trabalho o diretor João Jardim trabalha com um sentimento extremamente complexo, multifacetado e marcante na vida de qualquer um. A interrogação do título já sugere, antes mesmo de vermos o filme, a dúvida: seja lá o que for abordado, é realmente amor?

A montagem do longa é pouco convencional, pois não foi elaborado um roteiro. Após realizar várias entrevistas com pessoas que falaram abertamente sobre seus relacionamentos conflituosos o conteúdo foi encenado por atores bastante conhecidos. Isso ajudou a manter os entrevistados no anonimato, estimulando o detalhamento das histórias sem receios em relação às consequências, e também torna o filme mais impessoal, pois um desconhecido daria a impressão de um caso isolado, já a forma que é apresentada, com atores, aumenta a identificação das pessoas com o conteúdo do filme.

É claro que histórias tão complexas e ricas em detalhes são muito particulares, mas é impossível assistir ao filme sem encontrar alguns pontos em comum com nossas próprias vidas em meio às histórias apresentadas. Esse mosaico de sentimentos que montamos a cada entrevista exibida mostra como as desavenças, que aparecem quando nos relacionamos com alguém, costumam ser muito comuns e ainda que o sentimento seja particular, suas expressões têm uma base possível de ser encontrada entre pessoas muito distintas entre si.

O que o filme deixa bem evidente é a forma que todos os entrevistados encontraram para lidar com os atritos, sempre através da violência física e psicológica. Assim, qualquer um que já tenha vivido os sentimentos descritos pelos personagens pode se identificar, mas hesita em procurar mais pontos em comum em virtude da violência, entretanto podemos concluir que as agressões descritas mostram apenas um caminho – bastante criticável – para solucionar conflitos bastante comuns como ciúme, insegurança, etc.

Algumas vezes é tentador responder à pergunta do título do filme apenas com um “não”. Negar que aqueles relacionamentos cercados de ameaças e agressões possam ser classificados como amor. Porém os seres humanos são bem mais complexos do que uma simples definição e, por mais estranho que possa parecer aos que estão distantes das situações descritas no filme, uma agressão pode até mesmo ser interpretada como forma de atenção, pois se uma pessoa está agredindo é porque, supostamente, se importa com a agredida.

Talvez para contornar o absurdo da agressão e não admitir que um relacionamento seja inviável nessas condições, um sentimento recorrente nas entrevistas é o de culpa. Ninguém assume toda a responsabilidade pela violência, pois é mais confortável justificar tal ato através das provocações sofridas. Da mesma forma nenhuma pessoa agredida deixa de assumir uma parcela de culpa por apanhar. O fato é que independente da provocação ou do conflito existente, nada justifica o abandono do diálogo, da razão, em prol da barbárie de uma agressão.

Em meio a tantos estereótipos que são criados em torno de um relacionamento geralmente nos vemos na imposição de uma vida a dois, pouco importando a qualidade dessa união ou até mesmo a anulação mútua que ela gera, pois é frequente nas entrevistas apresentadas no longa o relato de casos em que o casal praticamente interrompe a vida, que passa a ser voltada exclusivamente para um relacionamento quase doentio.

Existe uma infinidade de motivos pelos quais as pessoas podem se sujeitar a uma relação na qual toleram a violência, mas não é por acaso que agressores e agredidos lançam um olhar de arrependimento sobre o tema. Apesar de ser uma coletânea de entrevistas, o diretor João Jardim tem o mérito de escolher histórias muito bem articuladas, que muitas vezes dialogam entre si, além de dirigir muito bem os atores para que os depoimentos ganhem tom de naturalidade, ao invés de um texto ensaiado. O diretor mostra, de forma cada vez mais eficiente, as particularidades por trás dos estereótipos e busca no fundo de cada um o suficiente para estimular quem assiste a pensar de uma forma diferente sobre o tema abordado, sempre com muita arte.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Olhos Azuis

Com este filme o diretor José Joffily aborda um aspecto da imigração nos EUA. Não trata de ilegais que tentam cruzar o deserto e começar vida nova, mas de pessoas que tentam entrar legalmente, para trabalhos temporários, estudo ou turismo, porém devem passar por um verdadeiro pente fino, sob critérios bastante questionáveis.

No filme Marshall (David Rasche) é um oficial da imigração no aeroporto e está em seu último dia de trabalho antes da aposentadoria. A data especial mereceu uma comemoração regada a doses de uísque ao longo do dia, mas apesar disso o oficial prezava em seus discursos pela ordem e pelo cumprimento da lei. Já Nonato (Irandhir Santos) é o brasileiro que mora legalmente nos EUA e após um breve retorno ao Brasil, para visitar a filha, tem que enfrentar os amplos questionários aplicados aleatoriamente aos imigrantes oriundos de países subdesenvolvidos.

O foco do filme é mesmo os critérios – ou a falta deles – aplicados a quem desembarca, ainda que legalmente, nos Estados Unidos, mas o desenrolar do enredo abre espaço para uma análise sobre as relações de poder, baseadas no preconceito de quem o detém. Em uma escala global podemos ver um policial norte americano, que no alto de sua arrogância considera-se melhor que os imigrantes simplesmente por ter nascido em um país rico, desconsiderando também as origens desta riqueza. Reduzindo a escala e invertendo a polaridade do norte rico e sul pobre, vemos cotidianamente (e de forma muito mais intensa logo após as últimas eleições para a presidência) a mesma postura lamentavelmente preconceituosa dentro do Brasil, do sul e sudeste em relação ao norte e nordeste. Seria possível citar várias outras magnitudes em que o mesmo conteúdo preconceituoso se revela.

O próprio título da obra pode causar desconforto. Olhos azuis. Os olhos azuis de Marshall, que por vezes lacrimejam tanto pelo remorso que o assola em uma das partes do filme, quanto pela dor física provocada por um tumor, diante do qual não há ricos ou pobres. É evidente que a cor dos olhos em nada influencia no caráter de um indivíduo, assim como a cor de sua pele ou qualquer característica física, mas a metáfora que associa os olhos azuis à qualquer situação tradicionalmente é aplicada para coisas boas. Quando os olhos azuis são associados ao preconceito de Marshall contra latinos não nos incomodamos tanto, afinal temos a tendência de tomar partido do brasileiro, porém quando o ex-presidente Lula associa a culpa de uma crise econômica à gente loira e de olhos azuis, não faltam críticas acompanhadas de argumentos muitas vezes risíveis. Seria até plausível se os que bradaram contra Lula focassem a falsa associação de um estereótipo com uma atitude, mas a metáfora foi claramente associada aos países ricos e a indignação se deu por dois motivos, primeiramente porque seu conteúdo era irrefutável, pois a crise foi mesmo iniciada por gente rica que precisou mendigar ajuda milionária do governo. Depois porque o alvo da crítica foi uma classe social que há séculos utiliza outra metáfora pejorativa: “isso é coisa de preto”.

É curioso como quando as classes mais altas são contra atacadas, defendem-se com discursos baseados na liberdade de expressão, igualdade, diversidade de ideias, etc. Tudo muito bonito, por serem pontos verdadeiramente indispensáveis em uma sociedade, não fosse o fato de que na prática esses valores são encontrados unilateralmente, de forma que as classes economicamente superiores reivindicam o direito a atacar e expor claramente seu poder aos demais, porém estes não podem sequer ousar o contrário.

Recentemente encontramos um Marshall brasileiro, o deputado Jair Bolsonaro, que depois de declarações racistas e homofóbicas despertou a ira de muitos, mas também conquistou grandes fãs. Nas diferentes esferas em que a relação poder x preconceito se apresenta, muitos podem, até mesmo sem perceber, reproduzir o discurso imperialista, que após reprimir determinadas classes sociais durante muito tempo ainda colocam nos oprimidos a culpa de suas mazelas.

Não é difícil criticar Marshall diante das acusações absurdas, principalmente quando são dirigidas a um brasileiro, mas o mais importante é perceber que o mesmo discurso apresentado no filme pode ser reproduzido de várias formas e em várias esferas de poder.


quinta-feira, 24 de março de 2011

É proibido fumar

O longa dirigido por Anna Muylaert gira em torno dos encontros e desencontros de um casal. Até aqui poderia ser mais um filme romântico, mas o que chama a atenção é que Baby (Gloria Pires) e Max (Paulo Miklos) não são adolescentes descobrindo a vida e buscando um conto de fadas; ambos na meia-idade, com a vida estruturada e morando sozinhos, se conhecem quando Max aluga o apartamento ao lado de Baby, que logo percebe algo especial no novo vizinho.

É de se esperar que a maturidade ofereça a possibilidade de lidar melhor com as adversidades de um relacionamento e que as experiências acumuladas ao longo do tempo facilitem nas escolhas individuais, para que estas reflitam numa vida a dois mais prazerosa – tanto para evitar erros quanto para saber lidar com os erros do outro. Porém nem sempre essa vantagem que o tempo nos oferece é aproveitada, de forma que vemos Max ainda muito ligado ao seu antigo relacionamento e Baby sem saber o que fazer para controlar as crises de ciúme.

Se por um lado o casal pode contar com a experiência, por outro a companhia da solidão durante os anos implica em hábitos bastante rígidos, que dificulta o súbito convívio com alguém até então desconhecido, que inevitavelmente vai demandar certas mudanças de comportamento. Aqui essa característica é mais notada em Baby, que aparenta ser mais solitária, introspectiva e preza pelas coisas feitas ao seu modo, implicando até com a irmã por um sofá deixado de herança. Já Max tem uma vida mais solta, faz novos amigos até no balcão da padaria, reúne sua banda em uma divertida festa – para desespero da namorada que vê seu apartamento, até então sempre vazio, cheio de gente desconhecida, com quem ainda acaba disputando a atenção de Max.

De um casal promissor, que a primeira vista tem tudo para dar certo por, aparentemente, terem muito a acrescentar um ao outro, passamos pouco a pouco a acreditar que as diferenças são muitas e cada vez mais gritantes, ao ponto de provavelmente inviabilizar a relação. Mas não ficam claros durante o filme os motivos que levaram Baby a viver sozinha. Podemos no máximo, pelas suas atitudes, supor um exagerado rigor em relação às pessoas ou o fato de não abrir mão de sua personalidade. O fato é que independente do que ocasionou a solidão da moça, ela realmente está disposta a mudar isso e investir em seu novo relacionamento e parece que o desafio dela em relação às mudanças necessárias para uma vida junto com outra pessoa, será maior.

É evidente que nem tudo se resume a desafetos entre o casal e os detalhes de afeto acabam, pouco a pouco, fazendo a diferença para que ambos se esforcem a continuar. Os ensaios com a banda incomodam, mas o gosto por música é o mesmo; o apartamento, que antes era exclusivo e agora passa a ser dividido, também proporciona bons momentos juntos. Enfim, a tolerância aos pequenos conflitos e a disposição de mudar pequenos hábitos pode contribuir para o aumento da cumplicidade do casal, ajudando a superar dificuldades realmente relevantes. É possível identificar uma metáfora interessante para ver que tolerar os vícios alheios é melhor do que impor uma mudança, que pode culminar em tragédia.

“É proibido fumar” mostra muitas proibições que somos tentados a atribuir aos relacionamentos, entretanto qualquer tipo de contato impõe restrições com as quais não teríamos que nos deparar quando sozinhos, o que não é necessariamente ruim, já que em contrapartida esses contatos também nos estimulam, ensinam e oferecem a oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores, cabe a cada um aproveitar ou não tais oportunidades.


quinta-feira, 10 de março de 2011

O Discurso do Rei (The King’s Speech)

Parece não ser difícil aceitar que um chefe de estado deve ser competente mais com suas ações que com suas palavras. Entretanto em 1936, com a ascensão de Hitler totalmente baseada em sua oratória impecável, fica difícil negar o potencial que o domínio da palavra pode oferecer, ainda que para uma figura já simbólica na época, visto que as principais decisões durante o reinado de George VI (Colin Firth) ficavam por conta do primeiro ministro, na época, para desespero do resto do mundo, Winston Churchill (Timothy Spall).

Talvez a falta de ações diretas do rei, que servia quase como escudo para as ações durante a guerra – o que já não é pouco – valorizasse ainda mais o peso de seu discurso, pois o que restava ao monarca era exatamente explorar a tradicional figura de realeza para tentar encorajar e motivar os britânicos. Desta forma, nada pior do que gaguejar em um discurso para responder a uma ofensiva alemã. Não mostraria apenas a tensão, mas também medo, hesitação e todos os sentimentos exatamente opostos aos pretendidos; pior, mostraria inferioridade britânica já partindo do discurso do chefe de estado.

Apesar do enfoque do filme dirigido por Tom Hooper não ser a biografia de George VI, é possível notar traços do personagem condizentes com a superioridade com a qual membros da família real costumam ser educados. O estereótipo que costumamos criar para membros da monarquia, encenados a exaustão nos filmes, é de pessoas soberbas, por vezes verdadeiros carrascos para seus súditos. George VI não chegou a inspirar o terror, o que era mais comum durante a Idade Média, de forma que a tentativa de impor sua superioridade, geralmente frustrada, já que a mínima discórdia culminava em palavras embargadas, vinha da simples tradição da monarquia inglesa; basta pensarmos que se um jovem príncipe não tem o direito de ser canhoto, sendo forçado a escrever com a mão direita, também não deverá ter o direito de portar-se diante dos súditos sem certa arrogância.

A superioridade, que já era difícil de sustentar diante da insegurança que tinha em si, ficou completamente abalada diante de Lionel Logue (Geoffrey Rush), que em troca de alguns exercícios contra a gagueira cobrava a igualdade. É neste ponto que vemos o quanto é difícil deixar de lado hábitos adquiridos ao longo de toda a vida, muito mais difícil deve ser para um rei cantarolar um discurso sério, mesclando palavras de baixo calão durante os ensaios para evitar gaguejar.

É curioso para quem não é membro da corte ver a igualdade e simplicidade sendo impostas, mas estranho mesmo é a supervalorização de características secundárias para um governante, ou seja, falar bem (neste caso específico, sem gaguejar) tornou-se mais relevante que o conteúdo do discurso; pior, o primeiro sucessor ao trono inglês seria o Rei Edward VIII (Guy Pearce), que não tinha nenhum problema de dicção, mas tinha a intenção de cometer um ato imperdoável diante da população: casar-se com uma mulher divorciada.

O primeiro impacto ao vermos alguns bastidores da história – como valorizar a forma do discurso mais que seu conteúdo, ou julgar um escândalo sexual como fator preponderante na vida do governante – pode parecer alguma maluquice histórica, mais uma entre tantas insanidades que rondaram a Segunda Guerra. Porém o hábito de colocar a aparência muito acima da essência permanece intocável.

Para permanecer apenas com os pontos citados em relação ao filme, vimos recentemente o Brasil ser governado durante oito anos por um ex-operário com pouco estudo. Lula pode, e deve, ser criticado por diversos fatores políticos, mudanças drásticas em relação ao longo período em que foi oposição e escândalos que abalariam a popularidade de qualquer outro político. No entanto uma das críticas mais frequentes é em relação à sua fala, ainda que os inúmeros erros de português não impeçam a expressão do pouco que resta do político que de fato visava governar para os pobres. O conteúdo dos discursos de Lula raramente é considerado e as críticas plausíveis pelas atitudes, que nem sempre são condizentes com as palavras, quase nunca são formuladas, mas a aparência do discurso desconstrói a falsa imagem de governante onipotente.

Deixando o Brasil para uma analogia com a abdicação do trono por parte de Edward VIII, já vimos Bill Clinton ser perdoado por criar guerras para, mais uma vez, aquecer a indústria norte americana, para logo em seguida quase perder o poder graças a um escândalo sexual envolvendo sua estagiária; mais recentemente podemos acompanhar Silvio Berlusconi (uma espécie de Paulo Maluf da Itália) ter sido eleito após várias denúncias de corrupção e agora ser julgado, também por escândalos morais.

Em todos os casos aqui abordados, do filme ou não, podemos notar que as críticas mais explícitas podem até ser justificáveis, mas sem dúvida tiram o foco sobre as reais atribuições de um governante, que sem dúvida deve prezar por sua aparência, mas deve ser realmente cobrado pelas ações políticas.


quinta-feira, 3 de março de 2011

O diário de Anne Frank (The Diary of Anne Frank)

Sinto-me como um pássaro a quem cortaram as asas e bate contra as grades da gaiola estreita. Em mim soa como que um grito: para fora! Tenho saudades, quero sair. Sair daqui, para o ar livre, quero poder rir à vontade! Não há resposta! Mas sei que esses gritos não têm poder, e deito-me na cama para matar estas horas tão terrivelmente silenciosas e cheias de angústia.
(trecho do diário de Anne Frank)

Anne Frank foi uma jovem alemã e com a ascensão do Nazismo sua família foi mais uma a ter que sair do país que passou a perseguir judeus. Como se esse êxodo forçado não fosse bastante absurdo, o Reich expandiu suas fronteiras e, consequentemente, a caça aos judeus. Com isso os Frank foram obrigados a encontrar um esconderijo na Holanda. Com o auxílio de amigos a única opção foi o sótão de uma fábrica, dividido com a família Van Daan e posteriormente também com Albert Dussell.

O diário que a jovem iniciou pouco tempo antes de se refugiar foi atualizado durante os dois anos em que as duas famílias dividiram um pequeno espaço, com comida racionada e com a necessidade de manterem-se escondidas até mesmo dos funcionários da fábrica que funcionava no andar abaixo. O diário de Anne Frank virou livro, publicado na íntegra, e posteriormente foi para as telas com a direção de George Stevens. No cinema o título perde um pouco do sentido, pois não tem o tom pessoal do relado de Anne (interpretada por Millie Perkins), mas tem a grande vantagem de retratar com precisão as dificuldades encontradas pelas famílias, o espaço minúsculo para oito pessoas, e como a insanidade de uma guerra proporciona o desencadeamento de uma série de outras loucuras, que seriam inimagináveis.

O longa foi rodado no esconderijo real, com poucas cenas externas e, somado à estética em preto e branco a sensação de opressão pelo pouco espaço e pelas dificuldades mais que naturais geradas pelo confinamento chega com clareza às telas, evidentemente muito distante da real sensação dos refugiados.

Essa situação extrema de confinamento da margem a uma série de análises, porém a situação de Anne Frank chama a atenção, não apenas por ser a autora do diário, mas também pela transformação na vida de uma adolescente, que ainda tem muitos conceitos a serem formados. Oito pessoas em um cubículo por mais de dois anos é uma tortura para qualquer um, sendo possível notar nuances de como o sofrimento se exterioriza para os personagens.

Os adultos têm seus hábitos consolidados, se por um lado a experiência deveria ajudar a superar os momentos difíceis, por outro as manias das quais não querem abrir mão costumam acarretar grandes discussões e conflitos. Anne é a mais jovem – entrou no abrigo com apenas treze anos –, sua irmã Margot (Diane Baker) e Peter Van Daan (Richard Beymer) são alguns anos mais velhos; as transformações da adolescência geram grandes problemas – imagine confinar pessoas em uma idade que costuma ser marcada por descobertas, desafios aos limites e por vezes rebeldia – e isso é o que nos faz prestar mais atenção em Anne, pois é notável seu amadurecimento ao longo do tempo e a adaptação à sua nova realidade.

O rigor dos estudos e a repressão severa ao comportamento dos jovens são mantidos pelos adultos durante todo o tempo que ficam presos, o hábito de infantilizar os filhos é bem evidente e a tentativa dos pais de manter o controle até mesmo sobre os sentimentos dos adolescentes muitas vezes é levado ao extremo. Além dos danos físicos aos jovens, que são privados até mesmo do Sol, há o terror psicológico de não poder conversar durante todo o dia, ser afastado das antigas amizades – sabendo que os amigos provavelmente estão sofrendo em um campo de concentração – e lidar com as transformações da adolescência, que costumam demandar exatamente o contrário do que os jovens viveram.

O filme é longo e denso, o que aumenta ainda mais a incredulidade de como as oito pessoas suportaram uma situação tão extrema por tanto tempo. Os horrores da guerra foram narrados em infinitas obras, há centenas de livros, filmes, quadros, esculturas, ficções, narrações, etc. O impacto que cada uma traz é muito variável, mas poucas são tão chocantes quanto o Diário de Anne Frank, talvez pela forma com que a jovem encara a situação pela qual vive, conseguindo reprimir seus sentimentos na maior parte do tempo, deixando transparecer bom humor e amabilidade, por vezes até assumindo culpas que poderiam ser atribuídas a qualquer um, menos à vítima. Esperamos por uma explosão, que seria mais que justificada, o rompimento, ainda que em lágrimas, mas as reações são sempre centradas, com a maturidade que nunca esperaríamos de uma menina de treze anos.


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