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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Bingo - o rei das manhãs

Uma grossa camada de maquiagem, a roupa espalhafatosa e uma peruca engomada. Essa é a parte fácil para criar um palhaço, o problema é em quem colocar todos esses adereços.

Nos anos 1980 o desafio era ainda maior. Não bastava ser um palhaço, mas era necessário corresponder às expectativas da marca Bozo, que devido aos direitos autorais foi retratado no filme do diretor Daniel Rezende como Bingo.

Entre tantos atores que exerceram o papel, o filme retrata seu precursor e principal responsável pela consolidação do personagem, o ator Augusto Mendes, interpretado por Vladimir Brichta. Não é um documentário, mas mostra a ascensão do programa que chegou a liderar a audiência da TV durante as manhãs.

Diante da hegemônica Rede Globo, com a tradicional obsessão monárquica que criou a ‘rainha dos baixinhos’, a meta do maior investimento do SBT era bem mais modesta que a liderança.

Contrariando as expectativas, o fenômeno do palhaço norte-americano, adaptado à realidade brasileira, competiu pela liderança de igual para igual em uma época que a hegemonia da Globo era ainda maior do que hoje. A concorrência mais justa seria muito benéfica para a televisão brasileira, porém nem tudo foi positivo nessa atração infantil.

Com muito menos rigor em relação ao controle de conteúdo apresentado às crianças, as emissoras não poupavam esforços para garantir a audiência, apelando sem escrúpulos à sensualidade ou a qualquer outro recurso que garantisse alguns pontos a mais na disputa com outros canais.

Em pouco tempo ficou evidente que o palhaço era apenas uma peça do capital. Levado a acreditar que estava no controle, Augusto Mendes fez a parte mais difícil do trabalho, emplacando uma atração nova e desconhecida, cativando pequenos telespectadores e sendo responsável pela venda de incontáveis produtos que levavam a estampa do personagem que ele representou com maestria.

Dentro da lógica do lucro, Augusto foi substituído quando já não trazia apenas benefícios. Na guerra por audiência, o palhaço foi reduzido à maquiagem e roupa. Já não importava quem dava suporte aos adereços. Era mais lucrativo substituir uma engrenagem do sistema, que resultaria em números mais elevados aos patrocinadores, aos fabricantes de produtos com estampas do palhaço, ao caixa da emissora.

Levar um palhaço ao palco da televisão pode ter sido um sucesso televisivo e, consequentemente, econômico, mas a arte milenar de atuar como palhaço acaba desviada e até desvirtuada nas telas.

Enquanto nos circos o palhaço é um falso coadjuvante, que atua à margem das atrações e acaba roubando o brilho para si, o programa de televisão o colocava como protagonista, com todas as implicações de ser apresentado em rede nacional.

No picadeiro do circo o palhaço atrai as crianças para um evento lúdico, que já teve seu auge como principal entretenimento das cidades por onde a trupe passava. Na televisão a ideia é quase oposta.

Não há mais o programa familiar de sair de casa e acompanhar um espetáculo. O palhaço passa a cumprir seu papel evitando que as crianças saiam de casa e mantendo todas em frente ao televisor, com toda a comodidade e exposição ao marketing televisivo.

Com o tempo o próprio personagem passou a ser descartável. Não bastava substituir o ator por trás da máscara, mas o palhaço, explorado ao limite, estava desgastado. Seu custo era muito alto e não era viável manter o programa no ar.

Restrito ao ator Augusto Mendes e as ambiguidades trazidas pelo sucesso de seu principal personagem, o filme retrata as dificuldades pessoais somadas aos obstáculos existentes na carreira de um ator. Salvo exceções que conseguem consolidar uma carreira, a grande maioria precisa batalhar cotidianamente em busca de um papel com destaque suficiente para render um salário digno.

O que o tempo mostrou ao ator é que a realização de um sonho não corresponde ao que idealizamos. Entre toda a megalomania que cercava o palhaço, o aparente conforto acumulava problemas em uma bolha prestes a explodir.

Sendo ator, parece que o real desejo de Augusto Mendes, despido do fetichismo do sucesso, era o palco. Um local onde pudesse expressar sua arte de forma livre, real e intensa, sem a necessidade de um ponto no ouvido transmitindo ordens e sem a obrigação de interromper sua apresentação para fazer propaganda dos produtos que financiam o programa de televisão.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Como nossos pais

É um fato quase predestinado. Despertamos dos sonhos da adolescência, embalados pela rebeldia característica, e entramos na fase adulta nos aproximando cada vez mais dos valores e hábitos herdados dos pais.

As mudanças sociais ocorrem lentamente e ficam mais evidentes quando observadas sob a luz da história. Assim como a protagonista Rosa (Maria Ribeiro), quando temos o protagonismo dos fatos, dificilmente notamos a repetição de comportamentos que criticamos.

Dessa forma, aos poucos a diretora Laís Bodanzky nos guia pelas contradições entre a ideologia e o pragmatismo dos personagens, que vislumbram um futuro melhor, mas na prática ainda são os mesmos, a reproduzirem padrões sociais injustos, desde que se beneficiem disso.

Entre todas as nuances de comportamento reproduzido, o que mais se destaca é o machismo, presente inclusive entre as mulheres da história. A relação de Rosa com a mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), tem fatores bem agravantes que influenciam na tensão entre as duas, mas o machismo de Clarice fica evidente não somente quando ela privilegia o filho, que poderia ser encarado como uma predileção materna por um dos filhos, mas quando dá mais atenção ao genro que a Rosa.

A filha é preterida em relação a Dado, interpretado por Paulo Vilhena. O ator, cuja carreira é marcada por atitudes boçais que vão desde confusões com elenco até cuspir em um jornalista, parece dar a própria vida ao personagem, já que Dado também cultiva uma boa imagem para ocultar atitudes reprováveis. Ambos, ator e personagem, contam com a proteção de um status que não se sustenta com um olhar mais atento.

Um personagem que a princípio parece estar acima dos comportamentos reprováveis é o pai de Rosa. Homero (Jorge Mautner) tem um lado divertido, remetendo a um hippie descompromissado que passou a vida negando valores enraizados na sociedade em que vive. Entretanto, por trás de suas filosofias de boteco, a forma encontrada para se manter em uma sociedade capitalista sem vender sua força de trabalho, é se fazer de vítima para conseguir viver às custas das mulheres que caírem em sua lábia.

Rosa parece ser o ponto de apoio para os comportamentos abusivos e injustos dos demais personagens. Não é por acaso que ela lida com uma culpa imensa, da qual tenta se libertar de várias formas ao longo do filme e só consegue por um curto período, quando está distante de todos, sozinha em um quarto de hotel.

A culpa é ferramenta essencial da exploração. As relações de dominação do filme não ocorrem por meio da força ou superioridade hierárquica, elas se afirmam com sutileza, envolvendo a personagem e criando uma aparente dependência. Para quem assiste é mais fácil de perceber, mas para Rosa as situações vividas parecem inevitáveis e ela não enxerga uma saída.

O marido ganha destaque nas culpas incutidas na personagem. Em casa ele fica com a parte mais fácil da criação das duas filhas, enquanto deixa a aplicação de deveres por conta da mãe. É ela quem acaba abrindo mão da carreira para cuidar das filhas, da casa, do próprio marido, podendo reivindicar livremente seus direitos, pois as reivindicações sequer serão consideradas.

É evidente que um casal nessas condições entrará em crise. Rosa não tolera as injustiças que vive, mas acaba suprimindo as reações, absorvendo as culpas que Dado joga em seu colo e se transformando em uma panela de pressão prestes a explodir.

Em determinado momento a protagonista afirma ser “pura fachada”, sem se dar conta de que os demais personagens merecem esse rótulo de forma muito mais contundente. Eles têm consciência de qual seria o comportamento ideal, mas se recusam a abrir mão de facilidades trazidas pela exploração.

Dessa forma, mesmo que alguns comportamentos não combinem com aquilo que os personagens defendem através da ideologia, eles não demonstram disposição para a mudança de atitudes. Não há uma reação radical diante de situações de tensão, existem reações suaves, quase imperceptíveis, de quem quer mudança sem alterar a estrutura do problema.

As pequenas explorações cotidianas, que vão crescendo e acumulando ao longo do tempo, conforme o filme nos mostra, podem ser solucionadas com o equilíbrio. Rosa oferece facilidades para as pessoas próximas, mas não recebe nada em troca. É um desequilíbrio claramente injusto, que pode ser corrigido com algumas mudanças de comportamento.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Matador

Um solo rico em pedras ou metais preciosos tem uma incrível capacidade de empobrecer a população local. Útil pela beleza que adorna os corpos da elite econômica, as pedras costumam deixar um rastro de sangue por onde são extraídas.

Essa é a base o filme do diretor Marcelo Galvão. Em uma pequena cidade pernambucana, na primeira metade do século 20, é a deslumbrante Turmalina Paraíba que move o ciclo de riqueza e desgraça.

O protagonista Cabeleira (Diogo Morgado) foi criado longe da sociedade, cresceu sozinho e difere muito pouco de um animal selvagem. Por um lado, como qualquer animal, não entende que valor pode ter uma pedra que não mata a fome nem a sede. Por outro, em pouco tempo aprendeu que as pessoas fazem qualquer coisa pela tal pedra.

As pedras lapidadas e com preços exorbitantes não aparecem no filme, mas é simbólico que o matador local, que criou Cabeleira, seja conhecido como Sete Orelhas (Deto Montenegro), uma referência ao mórbido colar feito com as orelhas de sete de suas vítimas. Ao que parece, o valor simbólico do ornamento está ligado às tradições locais. As orelhas do matador podem representar uma crueldade tão grande quanto as pedras garimpadas.

Com poucas adaptações o enredo do filme pode ilustrar diversas épocas da história do Brasil. Com ciclos de extração de ouro e território rico em pedras preciosas, nenhum território explorado reflete a riqueza que o solo abrigava. O material bruto sempre foi extraído com o suor de pequenos exércitos de trabalhadores, enriquecendo uma pequena quantidade de europeus.

No filme, o personagem que enriquece é o francês Monsieur Blanchard (Etienne Chicot). Mais um europeu que fugiu do velho mundo e aproveitou dois fatores que seguem assombrando o desenvolvimento nacional.

Um deles é a reverência à hegemonia cultural. Tudo o que vem da Europa, posteriormente dos Estados Unidos, é visto por muitos como sendo naturalmente superior e melhor. Assim os cangaceiros do filme, temidos e respeitados pela população local, baixam a cabeça resignados diante do francês, que não tem nada além de prestígio.

Outro fator é a herança escravagista. Hoje, um século após a história do filme, as diferenças geradas pela escravidão ainda parecem marcadas à ferro quente na história do país. No desenrolar do filme a escravidão já havia sido legalmente abolida, mas na prática o Estado não tomava nenhuma medida contra aqueles que, a exemplo de Blanchard, mantinham trabalhadores em regime de escravidão.

É muito cômodo olharmos para as questões retratadas no filme e imaginarmos uma subserviência consciente dos personagens, que poderiam tomar alguma atitude contra o francês e mudar o destino de exploração e maus tratos. Porém a ideia de continuidade é desenvolvida ao longo do filme.

Ter consciência sobre a cadeia produtiva de uma pedra preciosa, desde sua extração até o comércio de uma joia, nos dá grande vantagem em relação aos explorados que só sabem que as pedras são importantes, por algum motivo que eles desconhecem.

Cabeleira tem um comportamento extremo de quem não possui nenhum freio moral para obter o que deseja. Para ele isso se resume em matar pessoas a mando de Monsieur Blanchard em troca de pedras, que serão trocadas por sexo. Exigir que ele tenha uma noção mais ampla do mundo que o cerca é de uma utopia infantil.

A falta de socialização, que é gritante em toda a vida do protagonista, se expressa em níveis distintos nos outros personagens. Considerar uma pedra de Turmalina Paraíba mais valiosa que a vida de uma pessoa é uma barbárie, porém só possuímos essa noção graças a valores distintos da realidade do filme que recebemos ao longo da vida.

Para a população local, um assassinato em plena luz do dia é fato corriqueiro, sobretudo a mando do francês ou por parte de algum matador renomado. Foi passado através de várias gerações que as ordens eram dadas pelos europeus e obedecidas pelos cidadãos locais.

Essas leis informais foram vigentes no sertão da Turmalina Paraíba, nas Minas Gerais do ciclo do ouro, na Serra Pelada recente e selvagem. Estendendo o raciocínio para outras cadeias produtivas informais e predatórias, veremos que a exploração de recursos naturais raramente é feita de forma responsável. O ganho de poucos é marcado pela exploração humana e devastação ambiental.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O filme da minha vida

Segundo o dito popular, ‘quem conta um conto, aumenta um ponto’. Na verdade quem conta uma história, dá sua própria versão aos fatos. Uma versão inevitavelmente parcial, restrita e sujeita à memória, que pode incluir ou excluir detalhes – os tais ‘pontos’ referidos no ditado.

É assim que acompanhamos a história narrada pelo protagonista Tony Terranova (Johnny Massaro), desde a infância até a juventude. Tony relembra a própria vida na tentativa de entender um pouco de sua relação com o pai.

O francês Nicolas (Vincent Cassel) fora o herói de Tony, o pai exemplar, aquele que marcou a infância do personagem, ensinou a andar de bicicleta, transmitiu o gosto por motocicletas e ensinou a língua francesa, que posteriormente garantiria o emprego do protagonista como professor. Tudo perfeito, até que Nicolas voltou subitamente para a França e nunca mais deu notícias.

Se por um lado abandonar a família sem dar satisfações é uma atitude covarde e reprovável, as obsessões que vinculam uma pessoa à vida de outra também são questionáveis. Não que Tony deveria seguir sua vida como se nada tivesse acontecido, o problema é que condicionar a própria felicidade à presença de outra pessoa exige ignorar uma série de relações complexas – por isso a versão que Tony dá à própria história é parcial e restrita.

Selton Mello tem influência dupla na história. Além de diretor, que opta por como a história será exibida, também vive o personagem Paco. Amigo de Nicolas e sempre próximo a sua família, Paco aconselha Tony a seguir em frente e não contar com o retorno do pai, pois se houvesse alguma preocupação por parte do francês, ele mandaria ao menos uma carta.

Até então a não há dúvidas quando ao conselho de Paco. O único indício de parcialidade viria pelo interesse do personagem na mãe de Tony, porém nada mais racional do que estimular o envolvimento do protagonista com Luna (Bruna Linzmeyer) para que a vida seguisse o curso esperado. Formar a própria família provavelmente faria com que Tony superasse a ausência paterna.

O que Tony não tem como saber, por falta de indícios, e não tem como suspeitar, por falta de experiência, é que as respostas para suas dúvidas podem estar muito mais próximas. Não precisa cruzar o Atlântico até a França. Talvez seja suficiente pegar um ônibus até a fronteira.

É uma metáfora interessante. Talvez a fronteira seja mais que o limite entre dois países. Tony pode ter que cruzar a fronteira do ‘eu’ para perceber que cada indivíduo tece diversas relações ao longo da vida. Por mais condenável que seja a atitude de Nicolas, é inegável que muitas vezes as atitudes individuais geram conflitos de interesses difíceis, por vezes impossíveis, de conciliar.

De fato, como o título indica, trata-se do filme da vida do protagonista, entretanto a questão principal seria abordada de forma distinta se fosse narrada por qualquer outro personagem, envolvido na trama e influenciando diretamente na vida de Tony.

É curioso que o protagonista do filme é antagonista de uma história complexa, por envolver uma série de personagens, cada um com seus próprios interesses, com seus conflitos interiores e exteriores, com sua vida que esbarra em outras pessoas de forma inusitada e geralmente desagradável.

Ainda que o filme seja da vida de Tony, muito do que é apresentado se estende para muitas outras vidas, daqueles que assistem ao filme. Um exemplo é a maturidade que seria esperada de Nicolas. O personagem está em uma fase da vida em que não é tolerável escolher um caminho desconsiderando os impactos que serão causados por essa escolha.

Mesmo que atitudes irresponsáveis sejam tomadas, afinal todos tomam atitudes irresponsáveis ao longo da vida, as consequências devem ser tratadas de forma responsável. Fugir ou distorcer os fatos, que por si já são bastante complexos, não traz resultados muito promissores.

Por fim, o que fica claro no filme é que por mais que o caráter individual da vida pese em nossas decisões, o mundo não gira ao redor de indivíduos. É difícil ver uma pessoa em quem depositávamos tantas esperanças nos decepcionar, mas invertendo as peças, é frustrante saber que eventualmente alguém deposite em nós esperanças que não temos a menor pretensão de corresponder. A equação de interesses nem sempre é equilibrável.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Corações Sujos

As batalhas europeias da Segunda Guerra costumam ser estudadas a fundo nas aulas de história. Porém o Japão, que fazia parte dos países do eixo, só costuma ser lembrado por aqui devido ao ataque de Pearl Harbor e às bombas atômicas que encerraram definitivamente a Guerra.

O Brasil começou a abrigar, no início do século 20, uma das maiores colônias japonesas do mundo. Com o início da Guerra esses imigrantes, que já sofriam certo preconceito devido às particularidades culturais, passaram a sofrer forte repressão por parte do Estado e da sociedade.

Os conflitos sociais do pós-guerra gerados no Brasil são amplamente descritos pelo jornalista Fernando Morais, no livro Corações Sujos, e ganharam as telas com o trabalho do diretor Vicente Amorim.

É difícil compreendermos com clareza a devoção dos japoneses à pátria e ao imperador. Até o fim da Guerra o imperador tinha caráter divino e abrir mão desse status foi um dos itens de rendição do imperador Hirohito.

Quando as rádios e jornais brasileiros começaram a divulgar a derrota dos países do Eixo, muitos japoneses simplesmente se recusavam a acreditar que o Japão havia perdido a guerra, um fato até então inédito na história milenar do país. Mesmo as mensagens em japonês que confirmavam a derrota eram encaradas como propagandas falsas dos Estados Unidos.

O problema é que os japoneses que aceitavam o fim da guerra passaram a ser considerados traidores. Eram os chamados ‘corações sujos’, que após terem a casa marcada – semelhante aos judeus na Alemanha – eram condenados à morte.

Não era um simples assassinato. À vítima era oferecida uma alternativa, que as diferenças culturais também dificultam nossa compreensão. Os considerados traidores tinham a possibilidade de cometer suicídio, uma forma de morrer com honra, que normalmente era uma alternativa recusada, levando à execução.

As autoridades brasileiras, responsáveis por impedir os conflitos, não sabiam como resolver o problema. Mais que isso, desde a Segunda Guerra costumavam ser hostis aos japoneses, considerados inimigos quando o Brasil passou a combater o Eixo.

Um episódio marcante, que deu origem à organização de japoneses destinada a combater os corações sujos, foi a abordagem policial na qual um soldado brasileiro usou uma bandeira do Japão para limpar a bota. A bandeira nacional é considerada sagrada pelos japoneses, a ponto de ser oferecida junto com uma adaga aos condenados que optassem pelo suicídio.

Os conflitos começaram a tomar grandes proporções, mas ninguém conseguia convencer os japoneses mais radicais de que a guerra havia, de fato, acabado com a rendição japonesa. A dificuldade de identificar membros da seita responsável pelos assassinatos era um agravante. Milhares de imigrantes chegaram a ser presos, mas muitas vezes não havia provas de ligação com os conflitos.

A organização criminosa foi desmanchada aos poucos, com alguns líderes presos e outros assassinados. Já a discriminação em relação aos imigrantes japoneses foi mais duradoura.

É interessante pensarmos em como a tolerância aos imigrantes varia ao longo do tempo. Hoje é estranho pensarmos em japoneses hostilizados, ou mesmo no medo que havia entre os brasileiros de que o Brasil pudesse, por influência dos imigrantes, passar a ser como o Japão.

Quando crises internacionais fazem o sentimento de nacionalismo voltar a ganhar força, os exemplos históricos nos ajudam a compreender como certos discursos não fazem sentido em longo prazo.

Tanto a fidelidade dos japoneses radicais, dispostos a matar seus conterrâneos por aceitarem a derrota que de fato ocorreu, quanto o preconceito contra os imigrantes fomentado por uma política estatal alinhada aos combates da Guerra se mostraram absurdos com o tempo.

Não faltam exemplos históricos que nos ensinem como o nacionalismo, que nasce com o pretexto de exaltar qualidades de um povo, logo se transforma em ódio a um segmento adotado como inimigo. O resultado não costuma variar muito.

Levado ao extremo o nacionalismo deixa um grande número de mortos, segregações e limitações de pessoas que poderiam ser brilhantes, mas são ofuscadas pelo preconceito que as reduz a um rótulo descabido.

Hoje o Japão é visto como exemplo a ser seguido, graças ao desenvolvimento tecnológico e econômico. As colônias japonesas no Brasil estão mais adaptadas culturalmente e também são respeitadas, porém o duro período vivido pelos imigrantes em meados do século passado deve ser lembrado, sobretudo para que não se repita em relação a outros imigrantes.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Batismo de sangue

Um Estado governado por militares, com tortura de cidadãos civis, eventuais assassinatos e ocultação de cadáveres por parte daqueles que deveriam zelar pelo bem estar da população. Na economia, um falso crescimento amparado pela dívida externa que aumentava exponencialmente. A corrupção era facilmente dissimulada, tanto através da censura institucionalizada quanto pelas formas violentas que o estado de anomia oferecia aos militares para inibir denúncias.

As linhas gerais do que foi o período de ditadura militar no Brasil não nos dão uma ideia exata do que sofreram aqueles que foram politicamente perseguidos. Neste ponto o livro ‘Batismo de sangue’ de frei Betto, aqui adaptado pelo diretor Helvecio Ratton, elucida o terror vivido pelas vítimas do regime, detalhando as arbitrariedades, as torturas físicas e o terror psicológico imposto pelas autoridades.

O argumento insano de que bastava não cometer crimes para não ter problemas com o Estado, ainda que possuísse alguma legitimidade, era falso. Mesmo os criminosos reais devem ser punidos com respeito à dignidade humana, não obstante, é notável no filme que inocentes foram torturados, até que a suspeita de envolvimento com a guerrilha fosse desfeita.

A tortura e toda forma de punição pelo suplício é inaceitável qualquer que seja o aspecto analisado. É no mínimo frustrante pensar que hoje algumas pessoas vejam os métodos utilizados nos porões da ditadura, que incluíam dias de privação de sono, choques elétricos nos órgãos genitais, estupros, queimaduras e o que mais a criatividade sádica pudesse criar, como algo minimamente construtivo.

A narrativa se restringe ao recorte histórico da perseguição a frades dominicanos, sob a alegação de contribuir com guerrilheiros liderados por Carlos Marighella (Marku Ribas). Questionar um governo ditatorial e lutar pela democracia não é crime. Ainda que atos políticos pudessem ser nivelados com crimes comuns, a justiça baseada em leis, com direito à defesa e contraditório são ganhos sociais pelos quais lutamos duramente.

Um dos destaques da história, até por ser o autor do livro, é frei Betto (Daniel de Oliveira), que não sofreu torturas físicas por influência familiar. Militante político com habilidade rara de tecer alianças entre a Igreja e os combatentes, após quatro anos de cárcere o dominicano produziu várias obras aproximando os valores cristãos de uma política social voltada aos necessitados.

Essa proximidade, que deveria ser elementar, nem sempre é valorizada pela instituição política representada pela igreja Católica. Contrariando dogmas religiosos, algumas figuras notórias da Igreja distorceram interpretações bíblicas com o intuito de relativizar a atitude dos militares e tentar atribuir alguma culpa a ser punida, por parte dos frades.

A omissão custou caro, sobretudo a frei Tito (Caio Blat). Em resposta à covardia acima da média de sua sessão de tortura, Tito resistiu estoicamente para livrar seus companheiros do mesmo suplício pelo qual passou. Porém os efeitos da tortura não são mesuráveis. Assim como a resistência à dor é variável, portando aquele que cede às pressões não pode ser criticado, os traumas gerados pelo sofrimento são imprevisíveis e, no caso de frei Tito, irreversíveis.

No outro extremo da história, o destaque é o torturador Sérgio Fernando Paranhos Fleury (Cássio Gabus Mendes). Um pai dedicado e amoroso, que defendia valores morais e a instituição familiar; tudo lavado com o sangue de civis torturados impiedosamente.

O autoritarismo em nome da liberdade do ‘cidadão de bem’ que precisava ser protegido da ameaça do comunismo não se sustenta. O período de tensão política e forças divergentes que culminaram no golpe de 64 nunca chegou a ter um movimento de esquerda coeso e forte a ponto de almejar o poder.

O que muitos tentam impor através do discurso histórico como ações terroristas foram, na verdade, reações ao autoritarismo que tomou o poder, barrando avanços sociais e trabalhando em prol de uma elite econômica que até hoje concentra a maior parte da riqueza do país.

Há alguns anos atrás poderíamos pensar em Batismo de Sangue como um documento histórico obrigatório. Hoje, com o avanço da extrema direita e grupos de manifestantes clamando pela volta do regime militar em carros de som, a obra ganha tom de alerta. Quem sabe as cenas de tortura – inevitavelmente desagradáveis e repugnantes – não sirvam de aviso para a falta de limites daqueles que em nome da ordem instalam um caos silencioso e sangrento.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Luz nas trevas - a volta do Bandido da Luz Vermelha

Bandido da Luz Vermelha foi como ficou conhecido João Acácio Pereira da Costa. Na década de 60 ele entrou na casa de suas vítimas utilizando uma lanterna com luz vermelha e os assassinatos entraram para a história da literatura policial do país.

As tragédias, imediatas para as vítimas e posterior para o próprio João Acácio, chegaram ao cinema em 1968, na obra dirigida por Rogério Sganzerla. Sob a influência do cinema novo, Sganzerla apresentou uma crítica social em forma de sátira, que se tornou um clássico do cinema nacional.

Depois de 50 anos a história volta a ser contata nas telas, desta vez dirigida por Ícaro Martins e Helena Ignez, que recorreram à obra original e utilizam trechos de sons e imagens, sobretudo para enfatizar um ambiente caótico e perturbado.

Esta versão também não visa uma cinebiografia. A sátira e as metáforas são formas eficazes de indicar que excluindo algumas peculiaridades de João Acácio, como a luz vermelha que destacou seus crimes, a essência do caso se assemelha a tantos outros que juntos colocam o país entre os mais violentos do mundo.

Todos os países têm casos isolados de assassinatos que chamam a atenção, pela quantidade de vítimas, crueldade extrema ou peculiaridade no método adotado pelo criminoso. Porém aqui o Bandido da Luz Vermelha (Ney Matogrosso) tem sua notoriedade diluída no mar de presos de uma cadeia superlotada.

A atuação do artista que, apesar de sempre muito performático, fez carreira na música, é baseada em monólogos de um presidiário com ampla visão crítica, tanto do sistema prisional quanto da estrutura social na qual esteve imerso até a detenção.

Há quem critique a análise do histórico social de criminosos, alegando que nada justifica os crimes cometidos. De fato, a maioria das pessoas expostas desde a infância às mesmas privações passam a vida sem recorrer aos crimes. Portando seria reducionista alegar que todo o problema vem da desigualdade social.

Mesmo assim, é inegável que as pessoas reagem de formas distintas aos estímulos sociais que recebem. Muitos, como João Acácio, optam por arcar com as possíveis consequências legais e desfrutar os lucros de assaltos. A eventual morte de uma vítima pode ser somada a tantos corpos, nem sempre criminosos, que amanhecem nas favelas.

O sistema prisional vingativo e corrupto, que visa proporcionar ao detento a pior condição de vida possível, lucrando com propinas de quem tenta comprar um resquício de dignidade, vem dando provas históricas de sua ineficiência. O índice de reincidência, a criminalidade fora de controle e a criação de facções criminosas parecem ser fatores cuidadosamente despercebidos pelos que defendem tratamento desumano aos detentos.

De forma difusa, o filme dá uma versão social para a criação de um criminoso, que não quer roubar pela mera sobrevivência, mas por uma vida de extravagâncias almejada por qualquer um e que nada justifica ser restrita a uma pequena parcela da população.

Uma sociedade mais igualitária e consequentemente mais justa não deve ser buscada como forma profilática para eventuais crimes bárbaros. O sangue dos latrocínios, no Brasil, é a ponta visível de toda uma estrutura de violências cotidianas, geralmente tão tradicionais que sequer são identificadas como tal.

O título ‘Luz nas trevas’ é ideal para a proposta do filme. Foge do estereótipo e expande a ideia de retratar o caso específico do ‘bandido da luz vermelha’. Além de resgatar a atmosfera do primeiro filme, mesclando crítica social e fatos históricos através da sátira, Ícaro Martins e Helena Ignez dão continuidade ao trabalho anterior, com uma roupagem moderna, mas abordando temas ainda presentes em nossa sociedade, mesmo depois de meio século.

Talvez o filme de Rogério Sganzerla pudesse ser visto em sua época com um pouco de esperança. João Acácio havia acabado de ser preso, com uma condenação que garantia o teto de trinta anos de encarceramento. A sociedade poderia seguir em frente, livre do assassino que povoou o imaginário do país.

Hoje sabemos que o bandido da luz vermelha do filme mais recente é puramente ficcional. O culto, consciente e artístico personagem interpretado por Ney Matogrosso em nada se assemelha ao João Acácio que deixou a cadeia depois de trinta anos, com evidentes problemas mentais e assassinado poucos meses mais tarde.

A realidade, despida dos floreios da arte, segue nos apresentando apenas o lado ruim dos problemas estruturais da sociedade, retratados nos dois filmes. Seguimos reproduzindo as condições ideais para a formação de criminosos e exibindo ícones do crime, quando presos, como troféus de caça.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Éden

O diretor Bruno Safadi usa estereótipos bem conhecidos, sobretudo nas periferias das grandes cidades, para estruturar o enredo de seu longa metragem. A protagonista Karine (Leandra Leal) vive um drama conhecido por muitas jovens brasileiras, o de encarar o fim da gravidez sozinha, por conta do assassinato do namorado.

A ausência paterna, por morte, prisão ou simples abandono, compromete o planejamento familiar de várias formas, jogando sobre jovens mulheres, muitas ainda adolescentes, um enorme peso de responsabilidades individuais e familiares.

Em uma sociedade conservadora as igrejas veem nesse cenário um espaço para reduzir o impacto social das famílias desestruturadas ao campo moral, incluindo no fardo carregado pelas mulheres o peso da culpa. No filme esse discurso é realizado pelo pastor Naldo (João Miguel), na sugestiva Igreja Evangélica do Éden, o paraíso bíblico do qual a humanidade foi expulsa por conta de um pecado feminino.

No desenvolvimento social da humanidade a religião sempre teve papel de destaque no campo do conhecimento. São as primeiras tentativas de explicar os questionamentos do homem que deram origem à figura divina. Não por acaso o chamado ‘pecado original’ se dá com o consumo do fruto que tira do criador o monopólio do conhecimento.

Na igreja do Éden o pastor é o líder supremo, que fala em nome de Deus e atua como se fosse seu representante direto – a exemplo de tantos religiosos que parecem crer serem o próprio deus. A igreja oferece a cura para um mal que ela mesma cria, pois transforma condutas individuais em pecado e oferece a remissão dos mesmos.

É como se o criador, ao invés de expulsar em definitivo os pecadores do paraíso oferecesse uma segunda chance, simbolizada pelo batismo que lava as impurezas da carne. Para isso os fiéis devem voltar a viver sob a égide do conhecimento retido pela igreja.

O pastor Naldo impõe aos fiéis, sob o pretexto de se manterem longe do pecado em suas diversas formas, distância dos meios de comunicação, restringindo assim a visão de mundo que os frequentadores da igreja terão. Aquele que desobedecer e simbolicamente comer o fruto do conhecimento é quem historicamente trai a confiança divina.

Desta forma Naldo tenta acolher Karine e dissipar suas angústias em troca de sua fé e de todo o simbolismo que a maternidade proporciona, que também é trabalhado para criar uma imagem positiva da igreja, que será explorada em propagandas voltadas para atrair mais fiéis – e mais dízimo.

Para a Igreja, Eva é a protagonista do pecado original. O rompimento do monopólio do conhecimento proporcionou o castigo divino que agora os representantes da vontade divina, em uma interpretação de parábolas nada objetivas, afirmam ter a capacidade de reparar.

Como vemos no filme, a realidade é mais complexa do que as vontades de um pastor. Uma religião cujos dogmas foram pensados há mais de dois mil anos torna-se ideologicamente anacrônica diante de problemas contemporâneos de uma sociedade moderna.

Por mais que a Igreja nunca tenha deixado de influenciar em questões sociais, o monopólio do discurso é insustentável em meio a tantas fontes de informação e o domínio sobre os fiéis tenta se manter com o controle psicológico por parte de seus líderes.

O filme de Bruno Safadi é bastante sensitivo. Nem tudo é dito explicitamente e a expressividade de Leandra Leal facilita bastante a compreensão de nuances da personagem. Esta é uma forma bastante abstrata de comunicação que, tanto quanto uma metáfora bíblica, é aberta à interpretação de quem assiste.

O que difere a narrativa religiosa, abstrata e de ampla interpretação, da narrativa cinematográfica é que esta não restringe o público a uma versão oficial, cuja contestação implica em pecado passível de punição. As artes, mesmo quando relacionadas diretamente com a fé religiosa, sempre assumiram o protagonismo do questionamento.

Cabe pensarmos se Karine, diante de uma escolha, irá optar por voltar ao simbolismo do Jardim de Éden e aceitar a vida mantida pelas rédeas do Pastor Naldo, ou se a protagonista assumirá as consequências de seus atos, simbolizando uma Eva moderna que não hesita em pagar o preço pela liberdade.

Em tempos de extremismo religioso em evidência, a possibilidade de questionar dogmas e optar pela vida livre de rédeas é sedutora. Necessitamos mesmo de um Éden que nos dá um aparente conforto em troca do conhecimento?


quarta-feira, 10 de maio de 2017

A despedida

A visão de mundo que temos, além de muito particular, oscila ao longo da vida. Por vezes de forma tão gradual que sequer percebemos. Da adolescência em que doze horas de sono não são nenhum absurdo, passando pela maturidade em que a necessidade de estabilização pessoal e profissional traz inseguranças, atravessamos nuances comportamentais até que alguns chegam em uma fase presumivelmente final.

De repente o corpo mirrado passa a pedir uma fralda geriátrica para estancar a falta de controle dos esfíncteres, sair sozinho da cama demanda um esforço que questiona se aquilo é mesmo pertinente, o banho matinal deve ser sentado e com toda a atenção para que um mero deslize não resulte em uma queda fatal, a barba insiste em crescer ignorando a falta de firmeza das mãos que mal dão conta de empunhar a lâmina de barbear. Neste cenário a bênção da consciência intacta é amaldiçoada pela percepção das habilidades perdidas.

Contrariando o provável pouco tempo restante de vida, o corpo exige paciência monástica para sustentar um resquício de orgulho e se vestir sozinho. Essa é a tarefa repetida diariamente ao longo de noventa e dois anos e que agora reduz as expectativas do velho Almirante (Nelson Xavier).

Sair sozinho para tomar café na rua. Difícil imaginar o que passa pela cabeça de alguém que ao anunciar algo que qualquer criança pode fazer, desperta no filho – com razão – temor e receio. O que o personagem ilustra é algo muito comum em pessoas cuja idade compromete severamente as habilidades físicas.

Aquele antigo almirante, de passado incógnito, mas que inevitavelmente prezava pelo físico militar, mal tem condições de caminhar pelas calçadas e ruas esburacadas. Caminhar sozinho é uma opção. O filho poderia acompanhá-lo, mas a necessidade é de provar a si mesmo que ainda pode ser independente. Como convencer um almirante de que agora nem à padaria ele pode ir sozinho?

Driblar os buracos no caminho, em uma cidade excludente para quem tem alguma dificuldade de locomoção, mostra quanto o descaso do poder público pode tornar ainda mais difícil a vida daqueles que merecem atenção direta e indireta do Estado. Seja através de serviços e benefícios, seja através de uma cidade estruturada, a atenção aos idosos é uma mínima retribuição aos serviços prestados ao longo da vida.

Diante da presunção de um fim próximo algumas necessidades podem ganhar peso, visando não deixar pendências. O antigo desafeto deve ser procurado, não para realçar os desaforos, mas para admitir os erros, pedir perdão e selar a paz com um abraço fraterno. Pouco importa o que houve no passado, talvez até mesmo o erro tenha sido bilateral, mas pode ser assumido sozinho, desde que isso sirva para tirar dos ombros debilitados o peso simbólico de uma culpa.

A despedida não estaria completa sem a presença de um amor. A relação com a amante, a enigmática Fátima (Juliana Paes), poderia render várias análises, explorando a questão patriarcal e os problemas envolvendo um relacionamento com idades tão díspares. Porém esse não é o objetivo do diretor Marcelo Galvão. 

Fátima não demonstra apenas carinho, afeto e respeito em relação ao amante, mas também respeito à sua condição física e consideração com seu esforço pela independência. Diferente dos familiares, ela não o trata como um objeto de cristal fino, mas como um homem debilitado pelos mesmos anos que proporcionaram conteúdo intelectual.

O impacto das situações extremas do filme, que é baseado em uma história real, pode despertar reflexões sobre temas recorrentes no contato entre idosos e pessoas mais jovens. É formado um conflito de interesses quando um lado quer preservar a integridade física de quem já está debilitado e outro quer lutar contra os efeitos adversos da idade.

Mais do que bater de frente com quem supostamente é teimoso e inconsequente, o filme mostra ser válida a tentativa de se colocar no lugar do outro, valorizando suas pequenas conquistas. Ao Almirante, e a tantos idosos em situação semelhante, o corpo já impõe regras suficientes.

Recusar um cuidado paternal que, invertendo a lógica, passa a vir dos filhos, não é teimosia nem falta de reconhecimento, mas sim uma tentativa de resistir e preservar a dignidade do que resta a ser vivido. Quando só a consciência está intacta e isso é encarado como algo ruim, ninguém tem o direito de privar o indivíduo até mesmo de suas próprias decisões.


* Eu estava na metade deste texto quando soube da morte do ator Nelson Xavier. Fica minha singela lembrança.


terça-feira, 25 de abril de 2017

O silêncio do céu (Era el cielo)

O diretor Marco Dutra fez uma escolha interessante ao inserir em seu longa um personagem roteirista. Num filme em que, conforme o título indica, o silêncio prevalece, a construção dos personagens e de suas complexidades ajuda a dar ritmo para o clima tenso e difícil de ser encarado.

Uma das formas de filmar uma história é construindo personagens que quebrem a expectativa, desta forma – sem nenhum spoiler já que está no trailer e a cena abre o filme – a protagonista Diana (Carolina Dieckmann) sofre um estupro. Entre as inúmeras formas que cada vítima vivencia e reage a esse crime, Diana opta pelo silêncio.

Aqui cabe uma ressalva. Independente de como qualquer filme aborde o estupro e mesmo que cada pessoa tenha sua forma de reação, uma violência deve ser denunciada às autoridades. Por mais difícil, constrangedor e doloroso, o próprio filme indica a importância das primeiras horas após o ato, tanto para medidas jurídicas quanto para os exames necessários.

É compreensível que Diana tente seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Existem fatores sociais que fazem algumas vítimas de estupro tentar ocultar o caso. A vergonha, o medo, o machismo que historicamente tenta culpar a vítima, o receio quanto à reação das pessoas próximas, etc.

A particularidade é que Mário (Leonardo Sbaraglia), o roteirista e marido de Diana, viu parte da cena. Só não teve tempo de reagir nem atitude de falar abertamente sobre o fato. Aderiu ao silêncio da esposa, porém sem a menor pretensão de seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Diana é a única vítima da história. Essa observação poderia ser desnecessária, mas não podemos esquecer que durante muito tempo o estupro era visto como um crime contra a honra do marido. Claro que Mário não seguirá sua vida normalmente e às pessoas próximas também se abre um leque de sentimentos e reações diante de um estupro, porém nem toda reação é justificável.

Parece existir um pacto silencioso entre o casal, no qual cada um busca indícios para decifrar sentimentos e mesmo uma construção de histórias paralelas, que se aproximam pelos fatos e se afastam pela vivência.

Em outras situações o silêncio pode ser interessante em uma relação. O mistério, a imaginação, as várias formas de expressão que podemos descobrir na ausência das palavras pode tornar o contato diário mais instigante e aumentar a cumplicidade de quem é capaz de trocar longas frases por um olhar. Restringir toda a comunicação à fala é um grande passo rumo à monotonia.

Por outro lado, restringir todas as reações da vida conjugal ao silêncio é um convite às interpretações, que quando seguem o exemplo e se mantêm em silêncio formam uma bola de neve. Algumas palavras seriam esclarecedoras, dialéticas para que ambos compreendessem um pouco mais sobre o que aconteceu e até mesmo sobre os próprios sentimentos.

A proteção oferecida por Mário é extremamente bem-vinda. Da menor injustiça à maior violência, qualquer vítima quer o amparo de alguém disposto a oferecer abrigo. O problema é que a tal honra masculina, que diferente do medo só tem amparo em padrões sociais, também grita no silêncio interno do marido.

Passado o estupro, as violências particulares se expressam de forma silenciosa e simbólica. Várias vezes os cactos cultivados na casa ganham notoriedade. A fragilidade de uma planta inerte contrastada com o poder de dano de seus espinhos sintetiza as tensões entre personagens.

Em aparente tranquilidade, todos no filme estão à beira de um ataque de nervos e prestes a utilizar seus espinhos contra qualquer toque. O silêncio do céu, explorado em vários planos longos e sem nenhuma trilha sonora, é complacente com os personagens silenciosos, mas não oferece alternativas.

Até mesmo o roteirista, habituado a buscar alternativas aos seus personagens e a pesquisar na realidade as características que serão utilizadas na ficção, parece não encontrar nenhuma alternativa racional que dê vazão ao turbilhão de sentimentos silenciados, mas nunca controlados.

Os medos, as angústias, as dúvidas e tantos outros sentimentos são abordados de formas diversas pelo cinema, aqui o diretor opta pelo silêncio, que parece tão simples, tão contido, mas oferece as maiores complexidades. Dependendo do contexto pode ser sedutor e misterioso, mas diante da ação e reação de uma violência acaba sendo acima de tudo perigoso.


terça-feira, 28 de março de 2017

Chatô - o rei do Brasil

Condensar uma biografia na duração de um filme não é tarefa fácil, sobretudo quando o biografado foi uma pessoa influente e sua história se confunde com vários aspectos do país, como é o caso de Assis Chateaubriand, interpretado por Marco Ricca.

Baseado na biografia esmiuçada de Fernando Morais, o diretor Guilherme Fontes optou por dar ênfase na relação dos canais de comunicação de Chateaubriand com o presidente Getúlio Vargas, utilizando recursos lúdicos para guiar as inúmeras faces do protagonista, como o julgamento fictício que traz como argumentos de acusação e defesa os fatos vividos pelo protagonista.

Além das inúmeras dificuldades que envolvem a produção de um filme, Chatô contou ainda com problemas judiciais e processos que atrasaram bastante a produção. Tudo isso acabou fazendo com que o lançamento do filme coincidisse com um momento extremamente tenso da política nacional, que nos remete aos entraves vividos na era Vargas.

Fica claro o quanto é antiga a relação promiscua entre imprensa e governante. Com personalidade bastante destoante dos círculos sociais que frequentava e tendo os bastidores retratados no filme, Chateaubriand não costumava usar eufemismos para exaltar o peso dos anunciantes não somente na economia do jornal, mas também no conteúdo e viés das matérias publicadas.

Igualmente tendencioso em relação à política, é notável que não haja decisão tomada em um grande veículo de comunicação que não seja amparada por uma intenção, cuja eventual nobreza não reflete nada além do interesse do proprietário do jornal. Qualquer candidato a cargo eletivo que negue ser político não faz mais do que ocultar dos eleitores as alianças firmadas por trás das manchetes de jornal. Isso já ficou claro em meados do século passado.

Mas Chateaubriand não se resumia a ligações espúrias com o governo. Amigo próximo dos artistas responsáveis pela semana de arte moderna, realizada em 1922, havia um lado inovador e revolucionário no magnata de aparências contraditórias e faro para os investimentos.

O problema é que suas contradições não se restringiam ao aspecto privado de sua vida. Os caprichos do magnata também atingiam em cheio a forma e o conteúdo de seu jornal. Neste os entraves com anunciantes tinham repercussão na esfera privada e qualquer irregularidade deveria ser investigada neste sentido. É na esfera pública que a arbitrariedade de parcerias atinge diretamente a população.

O direito à informação não pode ser refém de interesses do jornal, nem da amizade baseada na troca de favores entre governante e empresário do setor de comunicações. Atualmente os proprietários de grandes jornais do país – podem ser contatos com apenas uma das mãos – são mais discretos e cuidadosos para que os problemas pessoais não manchem a imagem empresarial.

Diante de tantos escândalos políticos seria difícil um fato inesperado vindo do Planalto, mas ainda assim a disputa pelo amor da primeira dama não é um fantasma que ameace a relação presidencial com a grande mídia. Atualmente a ligação é mais sólida e formal, com concessões muito bem selecionadas e diversos deputados vinculados diretamente a redes de rádio e tevê.

A estrutura frágil que unia mídia e governo nos tempos de Chateaubriand e Vargas foi muito bem lapidada por seus sucessores, de forma que questões pessoais sejam devidamente blindadas e os benefícios dessa relação de mutualismo político siga sendo vantajosa para as duas partes e um consequente entrave para a população, que segue com um viés tendencioso do que é noticiado.

Uma possível solução para ao menos reduzir o caráter tendencioso do que é ou não divulgado sobre políticos seria o já proposto controle social da mídia. A solução é convenientemente divulgada como censura por jornais tão isentos quanto Chateaubriand, interessados em manter a atual liberdade de concentrar o poder nas mãos de poucos, divulgando o que é interessante aos jornais e aos políticos que não ameaçarem o atual quarto poder formado pela mídia.

O que, não por acaso, é omitido pelos setores de comunicação é que a mídia é socialmente regulada nos principais países do mundo. Talvez a única grande democracia que permita grandes blocos formados por rádio, tevê, jornal e portais de internet unificados nas mãos de um único proprietário seja mesmo o Brasil. É possível que seja uma característica temporária, não pela dissolução dos monopólios midiáticos, mas pelo fim da democracia, que desde o impeachment apoiado e estimulado pela grande mídia, anda mesmo por um fio.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O outro lado do paraíso

Uma terra em que o sucesso é garantido e onde os problemas não chegam é um sonho antigo da humanidade. Desde a metáfora bíblica, passando pela promessa de reinos, impérios, reichs e por fim cidades é sedutora a ideia de um local onde haja justiça e prosperidade.

Em um país continental e desigual como o Brasil os ciclos migratórios de um local que passa por dificuldades para uma região próspera fazem parte da história. Uma dessas grandes migrações foi gerada com a construção de Brasília, abordada pelo diretor Andre Ristum.

As notícias que se espalharam na época do início das obras eram da gênese de um paraíso, onde não faltava trabalho e consequentemente ascensão social. A ideia de morar próximo ao presidente, que por sua vez vive no Palácio da Alvorada, atraiu milhares de trabalhadores da construção civil, que acreditavam no sonho de que a riqueza era uma questão de tempo.

Entre esses migrantes estava Antônio (Eduardo Moscovis), religioso, sonhador, que vivia em busca da mítica Levitah. A decisão de mudar com a família para Brasília veio depois de um encontro inesperado com uma serpente e a interpretação da bíblia, que como de costume é muito mais uma criação de narrativa que justifique a vontade do que uma análise da metáfora religiosa, que é bastante abstrata.

Hoje é fácil pensar no desenvolvimento histórico de Brasília e acreditar que Antônio não deveria ter mudado, mas além do futuro no sertão de Minas não ser dos mais promissores, havia uma propaganda institucional de que o futuro estava na nova capital da república.

O primeiro choque de realidade foi perceber que Brasília foi construída por muitos, para servir a poucos. Os migrantes foram alojados precariamente em cidades satélites, que não seria um grande absurdo, não fosse a total falta de infraestrutura e o abismo social existente entre a Capital rica e a periferia miserável.

Olhar para o período retratado no filme é especialmente interessante dado o caráter cíclico dos eventos históricos. Há divergências entre historiadores quanto à motivação do golpe militar no Brasil. A versão de que era necessário combater o movimento comunista convence quem se recusa a uma análise mais profunda e as divergências sociais, sobretudo entre as vertentes elitistas, é muito mais condizente com a realidade.

Assim como a situação política atual, a situação do país no início de 1964 indicava uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O presidente Jango, longe de ser um ditador prestes a se perpetuar no poder, não tinha força política para apaziguar os interesses divergentes que convivem em permanente hostilidade na história do país e que por vezes entram em ebulição.

Estabelecido o golpe, o desenrolar tem resultado parecido com o que vemos hoje, ainda que obtido por caminhos distintos. De forma muito menos reticente, os militares sufocaram todo o movimento operário que lutava por justiça social em nome de uma suposta ordem que levaria ao progresso.

O filme não chega a abordar o resultado histórico do golpe, se restringindo a mostrar o outro lado do paraíso idealizado por Antônio. Sua Brasília rica e próspera na verdade era uma cidade satélite pobre e precária, com injustiças contra as quais sua luta passou a ser punida por um governo autoritário e ilegítimo.

É claro que um paraíso idealizado nunca se concretiza. A maior serventia é a de estímulo ao trabalho que nos leve o mais próximo possível do que consideramos perfeito. Entretanto, ao longo da história do Brasil vemos uma constante manipulação por parte do Estado, que leva a idealizações forjadas nas quais o trabalho da população não remete à concretização de sua própria noção de paraíso, mas à perpetuação das classes dominantes.

Basta olharmos para os problemas deixados pela ditatura que se impôs na época da história retratada para desconstruirmos a ideia de uma intervenção em prol do país. Não é sequer necessário abordar temas subjetivos como a herança autoritária, basta um olhar sobre a disparada da dívida externa, inflação e para as próprias cidades satélites de Brasília, que seguem com a mesma infraestrutura precária e a mesma marginalização de moradores, para percebermos que o ‘milagre econômico’ que se seguiu ao golpe não passou de falsa propaganda.

O olhar histórico que podemos lançar sobre a narrativa do filme não serve somente para compreendermos o passado, mas também para entender e nos precaver dos problemas atuais. Não é necessário seguirmos os passos de Nando (Davi Galdeano), o filho pequeno de Antônio, e achar que ficar longe da pretensa namoradinha é o pior que poderia acontecer. Já deveríamos ter maturidade para ampliarmos nossos horizontes e visão política para saber que as consequências vão além de questões particulares.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Permanência

As mudanças de comportamento social costumam ser absorvidas lentamente, de forma que não nos damos conta de como o período em que vivemos é diferente daquele das gerações passadas. Se hoje as pessoas se casam cada vez mais tarde, com muitas optando por uma vida de solteiro sem que isso seja um problema, há poucas gerações o mais comum era um matrimônio ainda no fim da adolescência, que de uma forma ou de outra seria mantido até o fim da vida.

Manifestações do movimento feminista associadas a movimentos libertários, sobretudo a partir dos anos 60, alteraram o rumo desse destino quase predeterminado da primeira metade do século passado. Diferente do que correntes conservadoras argumentam, não foi a instituição familiar que passou a ser desfeita, mas uma ilusão de casamento perfeito que sempre existiu somente na teoria.

Neste longa do diretor Leonardo Lacca vemos uma história típica de relacionamentos contemporâneos, que não são engessados pela necessidade moral de serem eternos; o que não faz com que a vida seja mais fácil. Avançamos socialmente ao admitirmos que relacionamentos nem sempre são insolúveis, mas os sentimentos nunca serão um apanhado de conclusões racionais.

A história tem início quando o fotógrafo Ivo (Irandhir Santos) chega de Recife para sua primeira mostra em São Paulo e fica hospedado na casa de sua ex-namorada Rita (Rita Carelli). Não temos nenhuma informação sobre o passado do casal, mas fica claro que diferente do relacionamento, o sentimento entre eles não acabou.

Mesmo com o desejo latente, ambos se casaram e o atual marido de Rita se esforça para não evidenciar seu ciúme – sentimento que nesse caso é exponencial ao perceber que Ivo é muito mais interessante e condizente com a personalidade de Rita.

Diferente de um conceito que só funciona nas propagandas de margarina, onde o amor é único e eterno, atuando de forma homogênea para todos os casais, no filme vemos um sentimento múltiplo. O fato de Ivo ser casado não é suficiente para que seu sentimento por Rita acabe, tão pouco o impede de ter um caso com Laís (Laila Pas), envolvida na produção de sua exposição.

Ainda que não seja personagem de grande destaque na história, Laís reúne em si características resultantes de avanços sociais. Uma moça livre para viver sua própria vida, desprendida de valores morais que até pouco tempo atrás tornavam impensável uma noite de amor com um quase desconhecido, sem a menor pretensão de continuidade.

Essas transições sociais não possuem um ponto final. São valores que mudam com o tempo, somados à necessidade urgente de romper com um machismo que relegava às mulheres a vida de submissão. Se por um lado atingimos maior liberdade nos relacionamentos, por outro essa liquidez não está totalmente desprendida de valores tradicionais, muito menos de sentimentos conflitantes, para os quais não há regras que evitem frustrações.

Os mais imediatistas poderiam pensar que não fossem os ideais liberais postos em prática, Ivo e Rita ainda estariam juntos, já que demonstram grande afeto um pelo outro, porém o sentimento presente ressalta que independente do que tenha motivado a separação, foi algo relevante a ponto de superar o que sentiam. Poderiam ter continuado o relacionamento e afetivamente estariam, talvez, mais felizes, mas isso fica restrito ao campo das hipóteses.

No passado as opções ao longo da vida eram muito mais restritas. Casar cedo, ter filhos e trabalhar por décadas na mesma empresa ou ficar em casa cuidando da família era um roteiro que resumia a vida de grande parte das pessoas. Agora o dinamismo de uma vida profissional caótica, as infinitas possibilidades de estudo e os caminhos entrecruzados ao longo da vida fazem com que seja tarefa árdua encaixar um relacionamento que possa conciliar todos os compromissos de um casal.

A vida moderna se torna cada vez mais complexa, reflexo de uma liberdade pela qual a sociedade vem lutando há muito tempo. Seria muito superficial se ater às frustrações românticas para emitir um julgamento final sobre nosso estilo de vida. A luta pela liberdade universal implica em cruzarmos com pessoas igualmente livres, com outras ambições e planos muito bem traçados.

O encontro de duas pessoas que aceitem seguir pelo mesmo labirinto de caminhos que se estendem pela frente é raro. Antigamente não era mais fácil, a diferença é que muitas pessoas eram arrastadas por caminhos indesejáveis.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Califórnia

Em seu primeiro longa de ficção a diretora Marina Person nos leva até meados dos anos 80 para acompanhar a adolescente Estela (Clara Gallo). Permeando os problemas característicos dessa fase da vida temos uma série de referências à cultura pop que florescia na época, além de fatos históricos marcantes. Com tudo isso somado o resultado vai muito além de um filme adolescente e agrada a quem assiste de várias formas.

Não há nada de excepcional na vida de Estela. É uma adolescente que, como tantas outras, enfrenta um turbilhão de dúvidas e angústias quase inevitáveis para a sua idade. O tabu da sexualidade, a descoberta do mundo que começa a aparecer fora da influência dos pais, o sonho que se torna meta de vida – que no seu caso é ir para a Califórnia, encontrar com seu tio Carlos (Caio Blat).

Entre os problemas corriqueiros cabe destaque à ironia de ter que lidar com o pai conservador e reacionário vivido por Paulo Miklos, que na época do filme despontava nos Titãs como ícone de rebeldia e contestação. Os Titãs se juntam a uma trilha sonora que reúne clássicos nacionais e internacionais dos anos 80, para deixar qualquer um que tenha vivido e efervescência cultural da época animado a relembrar histórias pessoais.

Hoje temos acesso tão fácil a determinadas coisas que frequentemente nos esquecemos de como era difícil ouvir uma música recém-lançada, conseguir uma camiseta de banda ou mesmo ter privacidade para falar ao telefone na única linha fixa da casa.

A dificuldade acaba valorizando as conquistas. Aquela camiseta importada que era lavada com todo cuidado, até desbotar e continuar quase como uma segunda pele, virando marca registrada do dono; a fita cassete que ao ser gravada não remetia apenas às músicas, mas também à pessoa que gravou, que muitas vezes torcia para que aquela lista de músicas ajudasse na expressão de sentimentos – era quase um perfil de rede social; saber do lançamento de um filme em Hollywood significava a espera de meses até que chegasse a um cinema nacional.

Nem tudo são flores na referida década. Mesmo que muitas diferenças sejam tecnológicas, a economia precária do país era crucial para que até uma camiseta fosse festejada. Além disso, aos poucos fica claro que tio Carlos precisa voltar ao Brasil por conta de uma doença que começava a se apresentar ao mundo, ainda desconhecida e negligenciada.

Essas referências temporais são fundamentais para que o filme deixe de ser apenas uma história adolescente. A obra também não se restringe ao saudosismo. Com a história retratada em uma época turbulenta, logo após a campanha das diretas já, que marcaram o início de uma nova fase do país, podemos estabelecer um paralelo entre as carências e esperanças da época com a situação que encontramos cerca de trinta anos depois.

A base das alegrias e problemas de uma jovem adolescente segue muito semelhante. Características sociais mudam lentamente e a tecnologia desenvolvida nas últimas décadas apenas deu uma roupagem nova à relação dos jovens com o mundo que os cerca.

Politicamente se na época retratada o país lutava para superar uma fase difícil e consolidar a democracia, acompanhada da abertura comercial e desenvolvimento, hoje colhemos muitos frutos provenientes da geração da personagem. Toda a luta expressa no filme pela correspondência de Estela com Carlos foi decisiva para que o país virasse uma página tão triste de sua história.

Por outro lado aquela foi uma geração marcada pela utopia e pelo otimismo. O fim da ditadura cultivava a esperança de melhorias, que de fato vieram. Os que dizem hoje que o país passa pela pior crise de sua história ‘esquecem’ da inflação galopante e dos assassinatos políticos da década de 80.

Nem mesmo em relação à AIDS podemos negar o progresso da ciência. Ainda que não tenhamos chegado à cura, a prevenção e a expectativa de vida dos que contraem o vírus não se comparam ao que tínhamos na época do filme.

O aspecto que aparenta ter regredido vergonhosamente é a postura política da sociedade em geral. Parece termos saído de uma utopia vanguardista para um conservadorismo que se resigna ao retrocesso. Claro que o roteiro do filme não foi pensado como uma crítica à postura política atual, mas diante dos fatos recentes a comparação é tristemente inevitável.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Aquarius

Mais uma vez os conflitos sociais urbanos chegam às telas pelo olhar do diretor Kleber Mendonça Filho, que já se destacou em ‘O som ao redor’ e agora nos oferece uma história baseada nos interesses do capital financeiro, que podem moldar uma sociedade para além da vontade de seus indivíduos.

O edifício Aquarius tem apenas dois andares acima do térreo, com poucas mas suficientes vagas para os carros dos moradores e espaços internos amplos, característico das construções mais antigas e menos lucrativas.

Um roteiro mais que conhecido nas grandes cidades tem como base a expansão de uma área economicamente atrativa. Logo as grandes construtoras começam a comprar imóveis e demolir, abrindo espaço para edifícios majestosos. Muitos moradores do local consideram a prática uma benção, já que acabam recebendo um valor acima do mercado, que permite uma mudança de vida, inesperada, mas que acaba sendo bem-vinda.

A questão é o que fazer quando por algum motivo alguém se recusa terminantemente a vender o imóvel. Pior, quando é um apartamento que acaba interferindo na negociação de diversos moradores, como é o caso da protagonista Clara (Sonia Braga).

O diretor constrói a personagem de modo a deixar claro que o dinheiro não é um problema para ela. Aposentada e com imóveis alugados, sua renda é mais que suficiente para suas necessidades, não há uma preocupação com o futuro financeiro dos filhos e as memórias guardadas em cada canto do apartamento não podem ser compradas ou transportadas para um novo local.

Mais que uma personagem, Clara é a personificação de um estereótipo que coloca os valores pessoais acima dos financeiros – característica que evidentemente só é possível graças à condição de conforto econômico. E na outra extremidade está Diego (Humberto Carrão). Neto do dono da construtora, recém-chegado do exterior, está, em suas palavras, com sangue nos olhos para concluir a compra e construir o novo edifício. Sem dúvidas mais um arranha-céu à beira mar, daqueles que fazem sombra na praia.

Com exceção de uma expropriação estatal não há nada que obrigue o proprietário a vender seu imóvel, ainda que fosse uma cabana de madeira emperrando a construção de um imenso investimento imobiliário. A lógica do capital econômico como valor supremo é tão enraizada que por vezes nos esquecemos de que nem todos querem coloca-la em prática, e todos que vivem em um prédio deveriam estar cientes de que entraves como o do filme não têm, ou não deveriam ter, uma solução que excedesse o diálogo.

Pensando no filme como um exercício constante de empatia a quem assiste, é possível imaginar que aos antigos vizinhos que agora querem finalizar a venda a atitude de Clara é egoísta, mas até esse ponto todos estão dentro de seu direito. O inaceitável é que uma senhora de idade mais avançada, que já passou por momentos felizes e outros de extrema dificuldade, seja agora chantageada e emocionalmente fragilizada por um jovem mimado, que passa a usar técnicas tão infantis quanto sua personalidade indica para forçar Clara a vender seu apartamento.

Os impasses que surgem nos conglomerados urbanos não tem uma solução exata, que resolva todos os casos da melhor forma aos envolvidos. Assim, não há um veredito final sobre o que fazer em um impasse como o que é apresentado no filme. Uma coisa é certa, Clara tem plena consciência do que quer e não faz nada de errado, somente tenta seguir sua vida e resolver as coisas com serenidade. Bem diferente de Diego.

Vale a pena lembrar o protesto no festival de Cannes, da equipe do filme contra o golpe. Claro que o processo de criação de um filme é longo e quando o diretor começou a desenvolver o projeto de Aquarius o golpe no Brasil não estava articulado – ao menos não de forma explícita. Porém acaba sendo bastante simbólico que em meio ao lançamento do filme os interesses do capital financeiro não obriguem uma moradora a vender seu apartamento, mas forcem uma troca presidencial.

O lado ruim da repercussão do protesto seria uma polarização desnecessária, levando as pessoas a assistirem ao filme com um lado político escolhido anteriormente, sabendo de antemão se gostariam ou não da história. Por outro lado, sendo um filme voltado ao circuito alternativo, que inevitavelmente luta por uma sala de exibição, é de se supor que a imensa maioria das pessoas que se sentiram incomodadas com o protesto e por isso taxou o filme sem assisti-lo, já não deixariam um blockbuster de lado para ver um filme alternativo.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

A frente fria que a chuva traz

A desigualdade social no Brasil é uma das maiores do mundo. Diversos fatores históricos e muitas forças ainda atuantes contribuem para essa triste marca, que se expressa de várias formas em nossa sociedade.

O Rio de Janeiro é uma cidade onde por características geográficas o abismo entre classes interage de forma curiosa. Espremida entre montanhas, a cidade de natureza exuberante e paisagens privilegiadas relegou aos pobres, desde a época da escravidão, os lugares de difícil acesso, cujas vistas paradisíacas do mar até hoje são usadas como um suposto privilégio daqueles que moram nos morros.

De fato uma vista do mar é valorizada em qualquer lugar, porém esse valor simbólico tem alto custo. A infraestrutura precária de uma região que cresceu sem planejamento faz com que os moradores tenham dificuldade de ir diariamente para o centro ou para as regiões nobres para trabalhar, o deslocamento na comunidade é feito por vielas estreitas e o Estado só marca sua presença com violência policial.

O diretor Neville D'Almeida mostra em seu longa uma forma de integração social mais recente e também muito específica do Rio. Não são os moradores do morro que descem para trabalhar para a classe média alta, mas os jovens da classe média que buscam diversão subindo o morro em uma espécie de turismo a um lugar diferente.

Como qualquer hotel que cobra mais caro de acordo com a vista do quarto, Gru (Flávio Bauraqui), morador do Vidigal, aluga a laje de sua casa para Alison (Johnny Massaro) organizar festas para um grupo de jovens em busca de diversão. A primeira crítica às relações do filme costuma girar em torno do comportamento hedonista dos jovens, afinal para eles a vida se resume a festas regadas a drogas e sexo.

Porém esse comportamento é até secundário se comparado aos problemas sociais capilarizados na trama do filme. Não são os jovens ricos que só querem saber de aproveitar a vida, tentando supervalorizar pequenos problemas e acreditando que a vida para eles também é difícil; na verdade esse é o desejo de qualquer um, que não é posto em prática por falta de recursos.

A diversão, seja bancada pela mesada dos pais ou por alugar parte da própria casa, é igualmente legítima. O que realmente incomoda é ver como essa aparente aproximação entre classes é unilateral e restritiva, contribuindo para a segregação social ao invés de combatê-la. É um equívoco pensar, diante das injustiças mostradas no filme, que as relações deveriam ser baseadas na essência das pessoas, ao invés de seus bens, pois isso também é posto em prática junto ao poder econômico.

Por mais que Gru ganhe dinheiro alugando sua laje e até frequente as festas, ele nunca será parte integrante do grupo de jovens. Ainda que entre eles os jovens façam brincadeiras pejorativas que chegam a causar transtornos, quando essas brincadeiras são com Gru fica claro que estão se referindo a alguém de fora.

A convivência em um ambiente fora do próprio condomínio, que poderia ser ótima para apresentar uma realidade distinta e assim ensinar outros valores, acaba somente corroborando preconceitos que são exatamente baseados no status social, independente do poder econômico.

No meio do caminho entre as duas realidades está a personagem Amsterdã (Bruna Linzmeyer). Com uma beleza estonteante a jovem tem mais integração com o grupo, desde que esta aceitação seja vista como um favor dos mais ricos à garota que não tem família que a sustente, não tem um barraco com vista para o mar, mas tem um belo corpo como moeda de troca e se prostitui para conseguir dinheiro e drogas.

O filme retrata cada personagem em seu papel social. O problema não são valores morais que censurem a sexualidade – liberada desde que dentro do próprio grupo, com exceção de Amsterdã –, tão pouco as drogas que poderiam render um capítulo à parte desta análise.

Todas as relações do filme são baseadas em troca de bens, materiais ou simbólicos. Essa troca de bens obedece a regras implícitas muito claras. O que difere Amsterdã, que entra no carro de um desconhecido para se prostituir por cinquenta reais, e a jovem de classe média que presta o mesmo serviço em troca de drogas é que esta só se sujeita a isso quando quem pede sexo é o amigo próximo. Diferente de Gru e Amsterdã, Alisson não precisa do dinheiro e o sexo poderia ser obtido de outra forma, mas a relação de poder leva à troca de bens simbólicos.

Em uma cidade que une a população por conta da geografia, seria ótimo se houvesse relações sociais reais, que permitisse às diversas classes um contato instrutivo. Isso permitiria tanto a desconstrução de preconceitos quanto a própria redução de desigualdades. Infelizmente há muito mais forças atuando para que as desigualdades persistam.


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