
O diretor Julian Schnabel tem o mérito de trabalhar bem com o tema, transpondo a história de forma satisfatória para a linguagem cinematográfica, sem tornar o enredo um tipo de auto-ajuda ou cair na banalidade do drama excessivo. Algumas vezes o preciosismo faz com que o trabalho beire um documentário e o ritmo fica mais lento, afinal Jean-Do não se recuperou das sequelas, mas o livro que originou o filme foi escrito por ele.
A princípio isso seria inimaginável, mas o olho esquerdo do protagonista serviu primeiramente para respostas simples, algo como piscar uma vez para dizer sim e duas vezes para dizer não. Com o tempo sua ortofonista reorganizou o alfabeto colocando as letras na ordem que elas mais aparecem na língua francesa, com isso ela repetia as letras até que uma piscadela indicava quando parar. Desta forma criaram palavras, frases e por fim um livro.
O que mais me chama a atenção nesta história tão particular é a necessidade que o protagonista teve de superar diversos sentimentos, dentre eles a ansiedade. Essa característica tão marcante do mundo ocidental, que para o editor de uma grande revista deve ser mais que constante, teve que ser drasticamente dominada. Para a maioria das pessoas cinco minutos na fila do banco irrita, dez minutos de atraso parecem eternos e podemos encontrar infinitos exemplos de como o imediatismo do mundo moderno nos influencia. De repente Jean-Do passou a viver “como um legume” de acordo com suas próprias palavras. Ir ao banheiro precisava de ajuda, a alimentação só era possível quando alguém se dispunha a checar suas vontades, mudar o canal da TV, olhar os filhos e simplesmente falar. Uma conversa cotidiana tinha que passar pelo trabalhoso, porém indispensável, método de piscar o olho na letra correta.
Isso me fez pensar em como somos cada vez mais acostumados com a ideia de desejar algo “para ontem”, de forma que esta ansiedade exacerbada passa despercebida, assim como seus efeitos. Fica a dúvida se não deveríamos buscar algumas referências no ritmo de vida das pequenas cidades, ou mesmo nas milenares sociedades orientais, onde a paciência não é menos importante, mas existe a consciência de que algumas vezes o que nos resta é esperar. Nossa impotência diante de determinados fatos pode ser desesperadora e é inquietante o fato de não haver nada a fazer. Pois então, esperemos.
Jean-Do morreu em 1997, dez dias após o lançamento do livro, em decorrência de uma pneumonia. Não pode ver o filme lançado em 2007. Ambas as obras são indispensáveis, das quais podemos extrair grandes lições sem a banalidade do senso comum.