quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Preso na Escuridão (Abre Los Ojos)

O diretor Alejandro Amenábar não chegou a brilhar diretamente com seu longa metragem, mas a obra deu origem à refilmagem “Vanilla Sky”, dirigido por Cameron Crowe. Sem querer diminuir a obra de Crowe, seu trabalho foi muito mais fácil; pegar uma boa trama, analisar os pontos falhos, reencenar com grandes astros como Tom Cruise e Cameron dias, além de Penélope Cruz, presente em ambos, e tudo isso amparado por um orçamento milionário.

Amenábar tem o mérito de lançar a obra original em um país com muito menos tradição que a badalada Hollywood e encantar por brincar com a ideia de espaço e de tempo através de uma aparentemente simples história de amor.

A princípio o enredo é o mesmo de qualquer novela da Globo. O galã César (Eduardo Noriega), rico e bem sucedido, se encanta pela bela Sofia (Penélope Cruz). Ao aceitar uma carona de Nuria (Najwa Nimri), a quem até então estava tentando se desvencilhar, César se envolve em um acidente, no qual a moça morre e ele tem seu rosto completamente desfigurado.

Poderíamos imaginar que a história se desenvolveria com a dificuldade de um personagem como César lidar com uma condição inusitada, em que seu dinheiro não pode resolver um problema. De um lado o narcisismo arrogante de quem sempre teve tudo e está habituado a se tomar como modelo a ser seguido, de outro o discurso vazio e pouco eficaz que tentaria diminuir a importância das cicatrizes, valorizando o conteúdo.

Diante de uma situação semelhante o que resta às pessoas próximas é realmente tentar dissociar a pessoa de sua aparência. Teoricamente está correto, pois nenhum fator externo deveria ser tão preponderante diante do que somos. Já na prática esbarramos em dois problemas:

Primeiro que pelo pouco que vemos César não chega a ser um exemplo de conteúdo e mesmo sendo um exímio desenhista, se destaca principalmente pela aparência e bens materiais. Além disso, a tentativa de dissociar a essência da aparência falha por ser falsa.

Não somos indivíduos que têm uma aparência, separada do ‘eu’, como uma roupa natural que nos veste, protege e identifica. O que é aparente aos que nos veem é indissociável do que somos, desfazendo assim qualquer hierarquia do que vem a ser mais importante. Erramos ao tentar classificar pessoas que preferem cuidar do corpo e pessoas que preferem cuidar da mente – ou alma, espírito, consciência; como queiram. De uma forma ou de outra são cuidados dispendidos ao indivíduo, indissociável.

O filme dá algumas pinceladas em pessoas que optam por congelar os corpos depois de mortas, na tentativa de voltarem à vida quando houver tecnologia para ressuscitar os corpos. Walt Disney deve ser o mais famoso dos corpos nessa situação. Somos levados a pensar que o rico e indignado César vai recorrer a essa técnica para voltar à vida quando as técnicas de cirurgia plástica forem eficientes a ponto de poderem restaurar seu rosto.

Aos poucos as peças desconexas e confusas vão ganhando coerência e sentido. Sem detalhar o enredo daqui para frente – para evitar surpresas e não influenciar na impressão de cada um – o que vemos é uma realidade paralela muito intrigante e simbólica.

Até onde se sabe o desfecho é pura ficção, mas forma uma metáfora muito interessante sobre as impressões que temos sobre nossa vida e nosso passado. À certeza de que nossa memória tende a nos guiar, por vezes é atirada uma realidade conflitante com provas suficientes para nos deixar sem argumentos.

Para Walter Benjamin a memória é construída a cada vez que nos lembramos de determinado fato. Resumindo ao extremo, é como se o que chamamos de verdade fosse uma somatória de fatos que ocorreram e pequenas distorções que fazemos a cada vez que pensamos em tais fatos.

A confusão proposital da narrativa do filme, misturando sonho, realidade, presente, passado, etc., é uma forma de levar para as telas a bagunça de sentimentos e lembrança que sintetizamos em uma espécie de ‘versão oficial’, a qual chamamos de verdade.

Lidar com mudanças bruscas que nos obrigam a bater de frente com o que acreditávamos não é fácil. Quando se trata de reformular toda a vida, como é o caso de César, não basta tirar uma roupa e vestir outra mais adequada à ocasião. Conforme já citado, essa ‘roupa’ não existe separadamente, ela é parte intrínseca do indivíduo, que deve, portanto, se reconstruir por inteiro.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Junho

Grandes manifestações políticas no Brasil são raras. As razões para isso são diversas, por exemplo, pensando em nossa história recente passamos vinte anos em um regime militar, que não só proibia manifestações como punia até com a morte aqueles que ousavam expressar descontentamento ou divergência.

O sucateamento da educação, iniciado na ditadura e mantido com muito afinco depois da redemocratização, forma gerações de cidadãos que acreditam poder restringir a democracia ao ato de votar a cada dois anos. O estranhamento à política é tão gritante que a sociedade aceita o dito popular de que “política não se discute”, mesmo sendo a política uma discussão em sua essência.

Por isso e muito mais o mês de junho de 2013 merece tanto destaque em nossa história. Não é este documentário do diretor João Wainer que esgotará o tema, muito menos este texto, porém o filme traz questões pertinentes que nos permitem algumas conclusões após mais de um ano de protestos.

Em um país tão carente em qualquer área, não faltam motivos para que a população proteste, porém o que deu início às mobilizações foi o aumento de passagens na cidade de São Paulo. Como sempre acontece depois de um aumento, o MPL (Movimento Passe Livre) começou a organizar passeatas, bem menos numerosas do que o auge dos protestos, mas representativa o suficiente para irritar boa parte da população e inflamar o discurso da mídia tradicional, que exigia um basta por parte da PM.

Até o dia 13 de junho de 2013 não havia nada de novo. Parecia que mais uma vez as manifestações iriam contar com cada vez menos participantes, até que o aumento de passagem fosse assimilado e aceito. Mas naquela quinta-feira a PM exagerou na dose do abuso de poder. Mesmo uma sociedade complacente com a violência policial cotidiana ficou indignada com tamanha desproporção de força, tomando as ruas em massa no ato seguinte.

A grande mídia não gosta de manifestações populares. São poucas as famílias que controlam os meios de comunicação no Brasil e, como todo oligopólio, há muito cuidado para que essa hegemonia não seja quebrada. Não por acaso a Rede Globo tentou noticiar o início das Diretas Já como uma festa do dia do trabalhador. Desta vez não foi diferente. De Arnaldo Jabor dizendo que errou ao desqualificar os manifestantes ao Datena tendo que mudar o discurso ao vivo, a mídia a princípio mudou a crítica e passou a dar razão à demanda popular.

Enquanto a pauta era restrita à redução das passagens, era bem mais fácil manter uma grande quantidade de pessoas unidas. Porém depois que as tarifas voltaram ao valor anterior (ainda alto) a despolitização da população tornou-se gritante. O apoio genérico às manifestações era quase unânime, mas é evidente que as demandas das classes mais altas são diferentes e por vezes diametralmente opostas às das classes mais baixas.

É evidente que o país precisa melhorar a saúde pública, melhorar a educação – pública e particular, que têm problemas distintos, mas graves – melhorar a segurança – até para que a PM pare de agir como rottweilers treinados para matar. O problema é que quando o povo toma as ruas exigindo a redução das passagens, o governo pode atender de uma hora para outra, enquanto ir para as ruas exigindo educação de qualidade não pode ser resolvido com uma canetada.

Pensando em um cenário ideal, em que toda a verba necessária para saúde ou educação fosse empregada de forma competente, sem desvios e com todo o profissionalismo, os resultados apareceriam depois de vários anos. Foi nessa brecha criada pela despolitização que a mídia voltou a ter poder sobre o povo.

Há suspeitas de policiais à paisana infiltrados em protestos e instigando ações violentas. Como nada foi provado, é prudente manter o foco no que é inegável. O mesmo Jabor que teve que engolir o orgulho e pedir desculpas por criticar os manifestantes conseguiu emplacar uma revolta contra a Pec 37, ainda que poucos soubessem a fundo seu significado e implicações.

O documentário de João Wainer não é conclusivo. Ele visa exibir os fatos entrevistando jornalistas, cientistas políticos, etc., sem entrar no campo das hipóteses de desdobramento dos atos. Apesar disso, entre tantas análises possíveis podemos pensar em alguns números posteriores aos fatos.

Até junho tanto a presidenta Dilma Rousseff quando o governador Geraldo Alckmin tinham altíssima taxa de aprovação, ambas incompatíveis com a realidade de cada governo. Hoje, a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições, Dilma pode até ser reeleita, mas será em uma eleição extremamente disputada, enquanto Alckmin, a quem a PM que deu início às grandes manifestações com sua onda de abuso de autoridade é subordinada, já foi reeleito com uma vantagem insana para o governo do estado.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Miss Violence

Uma das principais referências para a cultura ocidental, mesmo tendo tido seu ápice há mais de dois milênios, a Grécia nunca foi um grande polo de cinema. Ainda assim o diretor Alexandro Avranas lançou essa grande obra, com o cotidiano de uma família grega que infelizmente pode se repetir em qualquer país.

Não é um filme dos mais fáceis, tão pouco agradáveis; ainda assim é indispensável, pois o cinema não serve apenas para entreter. Uma das tantas funções de um filme é exatamente retratar fatos que a realidade costuma maquiar.

Sem nenhum spoiler por aqui, já que um grande atrativo do filme é a aura de mistério que paira sobre a família aparentemente comum, vemos no trailer a tão inquietante primeira cena. Durante a festa de aniversário de 11 anos, restrita aos avós, mãe e irmãos, Aggeliki (Chloe Bolota) mantém as feições impassíveis, esboçando um leve sorriso apenas alguns segundos antes de pular da sacada.

Crianças têm o mundo inteiro a ser descoberto, tanto de forma física quanto sensorial. Se essa exploração de tudo que as cerca, juntamente com os sentimentos que transbordam dentro de cada uma, não é feita de forma mágica, algo está errado. O desânimo prolongado na infância indica problemas. Nem a condição de vida chega a influenciar muito, pois basta prestarmos um pouco de atenção em crianças de rua – aquelas que costumamos fingir que não existem – para ver que entre tantas dificuldades elas arrumam brechas para brincar e se divertir com o cotidiano.

A naturalidade com que os familiares, inclusive as crianças, lidam com a morte da menina é evidentemente suspeita. Tão suspeita quanto a apatia das crianças durante a festa. A versão oficial dada aos assistentes sociais é a de que a queda foi acidental e que a família estava fazendo o possível para que tudo voltasse ao normal. O problema é que pelos poucos elementos que temos do passado, notamos que o dia-a-dia da família não parecia tão “normal” assim.

Para quem olha de fora não há nada de errado com a família do filme. O patriarca (Themis Panou) busca um emprego onde aparentemente ganhará pouco, mas nada que destoe dos que estão próximos, já que o país todo está em crise econômica, com altas taxas de desemprego e consequentemente baixos salários.

Dentro de uma situação econômica que por si já nivela a sociedade em um patamar insatisfatório, e mais baixo do que a média que as pessoas estavam habituadas, o tempo poderia fazer com que a nova realidade fosse assimilada, sobretudo pelas crianças, ainda sem responsabilidades econômicas diretas.

É o que ocorre no campo particular que pode agravar os problemas individuais a níveis insuportáveis, por isso são tão difíceis de serem solucionados. É fácil darmos uma volta pelo quarteirão e afirmar, como tanto vemos, sobretudo em época eleitoral, que devemos preservar a família tradicional, como se esta fosse garantia de que tudo correrá bem no plano individual.

De fato, muitas famílias tradicionais têm as relações entre seus membros desenvolvidas de forma satisfatória e, se por um lado enfrentam problemas e divergências, por outro conseguem solucionar seus impasses sem grandes traumas entre os envolvidos. O problema é que essas famílias não precisam de ajuda ou defesa externa, como prometem os que insistem em atuar como defensores da vida privada.

As intervenções que são de fato necessárias, como seriam no caso da história do filme, passam despercebidas, ocultadas pelo verniz de família ideal, que é comprado com a maior facilidade. A particularidade de um enredo cinematográfico infelizmente se repete, com variações que não chegam a aliviar o cerne do problema, em muitas famílias aparentemente felizes.

Com um pouco mais de abstração a história do filme até pode ser interpretada como uma metáfora da situação econômica da Grécia. O Estado como uma família feliz e independente, que esconde dos olhos dos vizinhos os absurdos cometidos da porta para dentro. Tudo caminha relativamente bem, até que um incidente expõe problemas e fragilidades, desestruturando a frágil aparência de felicidade.

Em comum, tanto a interpretação metafórica quanto literal podem indicar que certos problemas podem até ser resolvidos ou interrompidos com o tempo, mas os traumas individuais tolerados por um longo período deixam cicatrizes bem mais profundas do que uma aparente normalidade deixa transparecer.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Vestido

Para este longa o diretor Paulo Thiago partiu de uma adaptação literária um pouco inusitada, pois a obra de origem não é um romance, mas o poema ‘Caso do Vestido’, de Carlos Drummond de Andrade. É um detalhe relevante, já que os romances adaptados são inevitavelmente simplificados para serem adequados ao formato cinematográfico. Neste caso a história teve que ser desenvolvida, dando detalhes à trama e aos personagens, que estão ausentes no poema. A comparação sobre qual seria melhor é infundada, já que são linguagens muito distintas, mas o filme proporciona uma história interessante.

Frequentemente as roupas ganham um status simbólico que ultrapassam seu valor de utilidade, por isso os vestidos de noiva costumam ser guardados por toda a vida, por vezes passando de mãe para filha. Aqui o vestido em questão não é de casamento, mas também guarda lembranças de uma história.

Quando Ângela (Ana Beatriz Nogueira) ganhou o tal vestido de seu marido Ulisses (Leonardo Vieira) ela parecia viver seu conto de fadas particular. Casada e com duas filhas, dedicava a vida a cuidar do marido e da casa em uma pequena cidade do interior.

Para compreender o contexto da história e seu desenvolvimento, é necessário lembrar que essa família nuclear era praticamente uma regra social vigente no país até meados do século XX. O destaque do poema de Carlos Drummond de Andrade é exatamente evidenciar o casamento em crise, a separação e abalos na vida familiar, que hoje não chegam a ganhar tanto destaque, mas era uma novidade na sociedade, que a corrente literária modernista exteriorizava em suas obras.

No filme esse elemento inovador é a personagem Bárbara (Gabriela Duarte), que se aproxima da família de forma dúbia, pois por um lado faz amizade com a angelical Ângela, por outro questiona seus valores morais e a suposta felicidade inabalável que o modelo de esposa ideal defendia. Fica evidente desde o início que Ulisses terá uma atração pela moça que vem da capital e isso irá abalar seu casamento.

A sociedade pode ter mudado desde a época retratada, porém, como em uma fase de transição, seguimos entre uma postura mais liberal, com a mulher se distanciando da vida exclusiva de dona-de-casa, e a tradição de valores morais, que desde aquela época eram mantidos muito mais por força do que por vontade.

O problema dessa transição social – que é benéfica e necessária, por dar à mulher o direito de ter escolhas ao invés de uma vida pré-determinada – é que a nova realidade é mais complexa, escancarando problemas que sempre existiram, mas costumavam ser mais discretos e socialmente aceitos, como a infidelidade masculina. A incoerência de valorizar a família tradicional e nuclear para a mulher e tolerar a infidelidade masculina passou a ser questionada, juntamente com o aumento dos pedidos de divórcio.

Pode ser um alívio não ser mais obrigada a tolerar traições, o que não torna mais fácil ver o sonho de uma família dita perfeita desfeito. Além do trauma pessoal e do choque emocional de uma crise no relacionamento, Ângela simboliza mulheres que na época não tinham referências sociais desta situação. Ainda que o filme não retrate a mesma fase histórica em que o poema foi escrito, os cenários fazem referências ao passado ao longo de todo o filme.

Através de Ulisses podemos ver uma transição mais suave, já que em uma sociedade que permanece machista, o homem segue com certas facilidades. O caso não chega a ser uma dicotomia na qual buscamos quem está certo ou quem está errado, é apenas cômodo aos homens culpar o casamento pela frustração de uma vida que supostamente seria de grandes aventuras e usar isso como justificativa para trocar de esposa.

Com uma transição social longe de ser consolidada, ainda vemos a história do filme com influências tanto de visões mais tradicionais quanto de comportamentos modernos. Mesmo assim, é inegável que a vida de um casal é desenvolvida em conjunto, com responsabilidades de erros e acertos compartilhadas. Da mesma forma que a desculpa masculina de uma vida grandiosa frustrada pelo casamento torna-se insustentável depois do divórcio, já que a vida do marido segue entediante; a felicidade inabalável de uma família padrão também não se sustenta sozinha.

Não é a toa que Carlos Drummond de Andrade é uma referência na literatura. Encaixar os vários aspectos da vida social em versos de um poema é uma tarefa para poucos, que aqui foi transposta para as telas repaginando características que continuam influenciando em nossa sociedade.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Lilet never happened‏

O cinema de cada país costuma ter seu próprio estilo. A cultura local acaba influenciando fortemente nos temas e roteiros. Isso deixa ainda mais curioso o fato de um filme rodado do outro lado do mundo ter um enredo tão globalizado e familiar para os brasileiros. Este longa, do diretor Jacco Groen, é um ótimo exemplo.

Na periferia de Manila, capital das Filipinas, a protagonista Lilet (Sandy Talag) é uma menina de doze anos. Por vezes se apresenta como Branca de Neve e seu comportamento também alterna entre o rude e agressivo de uma realidade cruel e o sonho da criança frágil, em busca de proteção.

A situação econômica precária da família empurra as crianças para a rua, os pais, imersos em problemas, não apenas negligenciam a educação dos filhos como em casos extremos – como o de Lilet – exploram as crianças. Primeiro com a venda de produtos nos semáforos, depois, quando situação se agrava, recorrem ao mercado sexual, sustentado pelo fetiche de homens insanos o suficiente para manter a prostituição infantil.

Apesar das crianças terem um futuro quase pré-determinado por essas condições, o futuro de meninos e meninas começa a ser separado. Enquanto elas aprendem desde cedo os recursos que seus corpos têm a oferecer, eles permanecem nas ruas e logo percebem que há atividades mais rentáveis do que a venda de quinquilharias. Atividades ilegais, mas como cobrar cidadania de alguém que não tem os mínimos direitos garantidos?

Socialmente a reação diante dos problemas de uma infância destruída também é diferente. O caráter de vítima das meninas raramente é negado, porém a reação não vai muito além de uma indignação distante, sem nada de concreto. Já em relação aos meninos seduzidos pelo crime a indignação ultrapassa completamente a tentativa de compreensão.

A violência contra meninas que se prostituem é um crime inaceitável, porém tem como principal vítima as próprias meninas. É possível fechar os olhos e fingir que nada acontece, ou que são casos distantes. Já a violência sofrida pelos meninos se reflete na própria sociedade, que sentirá os efeitos diretos através dos furtos cometidos.

Diante deste cenário a reação mais comum é a fúria voltada contra os menores, incriminados por não cumprirem um dever, ignorando as condições críticas em que nasceram e cresceram.

No filme esse estereótipo é representado por Nonoy (Timothy Mabalot), que nutre uma paixão adolescente por Lilet. Isso divide o jovem entre a vida nas ruas, estimulada pela jovem, e o abrigo criado por Claire (Johanna ter Steege), visando oferecer o mínimo de cidadania que as crianças precisam.

Por mais bem intencionado que seja o trabalho de pessoas como Claire, o caminho não é nada fácil. Além de lutar contra a simbologia de uma pessoa estrangeira se aproximando das crianças locais, muitas vezes chegando de países responsáveis pela exploração que causa tantas mazelas sociais, é necessário lutar também contra a sedutora liberdade oferecida pelas ruas.

Em uma escola tradicional, estruturada, em que os alunos não precisam lidar em casa com problemas financeiros, já não é fácil convencer os estudantes de que o ensino é necessário e benéfico, sendo que muitos frequentam as aulas diariamente simplesmente por obrigação. Imaginar que a importância do estudo seja encarada como elementar pelas crianças, sobretudo em um local onde fará pouca diferença no futuro, é uma utopia.

Conforme já mencionado, esse é um filme que com poucas alterações poderia ser filmado em vários outros países, aparentemente distintos. O que acaba unindo esses países é a necessidade de manter boa parte da população marginalizada, com uma esperança que nunca será concretizada, mas costuma ser suficiente para manter a paz social, mesmo diante de um abismo econômico.

A solução para os problemas apontados no filme é complexa, pois extrapola o caso individual de Lilet. Não basta convencer uma das crianças a tentar mudar devida, até porque a mudança não tem como ser garantida. Os problemas sociais, que muitas vezes não passam de reflexos bem indiretos de uma estrutura social comprometida, devem ser combatidos em sua base.

Preocupar-se com furtos de menores infratores serve apenas para tirar o foco de verdadeiros problemas, que não são combatidos por serem de responsabilidade de pessoas com grande influência econômica e política. Enquanto houver uma concentração de renda que exija um contingente de mazelas sustentando uma pequena parcela da sociedade, o roteiro deste filme seguirá verídico e universalizado.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

A Pedra da Paciência (Syngué sabour)

A psicanálise, em linhas bem gerais, estimula que a pessoa analisada fale sobre sua própria vida e aos poucos pequenos detalhes encaixados acabam revelando fatos de seu inconsciente, do qual nem a própria pessoa se dava conta.

Claro que para isso o psicoterapeuta deve estar presente, ninguém consegue ‘se analisar’ sem ajuda. Apesar disso, algumas linhas psicanalíticas podem ser notada neste longa do diretor Atiq Rahimi.

Em estado vegetativo após levar um tiro na nuca, um homem afegão (Hamidreza Javdan) passa o dia sob os cuidados da esposa (Golshifteh Farahani). Como se isso não fosse uma situação complicada o suficiente, esses cuidados não são ministrados em um hospital, com profissionalismo, mas no quarto de casa, com uma mísera sonda de soro ligada à boca e um pano húmido para o banho.

Em região constantemente bombardeada e sob o fogo cruzado de milícias afegãs, a esposa vive o dilema de abandonar o marido – pelo qual no fundo não tem grande sentimento afetivo – ou arriscar a própria vida para cuidar dele.

Neste contexto entra em cena a metáfora da pedra da paciência, uma pedra mágica para os persas, que ouve os lamentos de um interlocutor, até que se rompe libertando a pessoa de seus traumas. Ao saber dessa lenda a esposa começa a se aproximar aos poucos do marido e a falar sobre sua própria vida, como se fosse ele sua pedra da paciência.

O machismo em si já é uma expressão da ignorância. Nada de bom pode surgir de um pressuposto de superioridade sem nenhum fundamento. Porém o machismo levado ao extremo, como em regimes mais conservadores que se baseiam em fundamentalismo religioso, como vemos no Afeganistão e como vimos por muito tempo no Brasil de algumas décadas atrás, proporciona algumas cenas tragicômicas, como vemos no filme.

Qualquer animal tem seus mecanismos de defesa. Os humanos também, e com a intervenção da racionalidade. Em uma sociedade em que a mulher segue sendo tratada ora como uma escrava, ora como ferramenta para o marido, é inevitável que estratégias sejam traçadas para que as punições não sejam postas em prática.

Conforme as confissões da afegã são narradas, vemos que ela não almejava nada muito grandioso. Reclamava da falta de contato com o marido, que beijava suas codornas utilizadas em rinhas, mas nunca a esposa; narrava as estratégias utilizadas contra o próprio marido, não por desejo de enganá-lo, mas por necessidade de não ser punida por uma culpa que não era sua; e uma série de eventos inimagináveis para uma sociedade com a nossa, ou seja, ainda muito machista, porém longe do extremismo afegão.

O sentimento da esposa em relação ao marido é bastante ambíguo. Chega a amaldiçoa-lo, mostrando seu ódio, mas após tanto tempo de convivência forçada, ela não abre mão da esperança de que as coisas melhorem, caso ele volte do coma.

Essa complacência pode ser encarada com certo romantismo e esperança feminina, mas há também uma motivação racional. O machismo é sempre muito bem blindado contra reações femininas. A esposa sabe que mulheres que já foram casadas são vistas como um objeto de segunda mão, com pouco ou nenhum valor de mercado. Longe de querer aceitar a vida que levava, também não é uma boa opção assumir o papel de divorciada ou mesmo de mãe de dois filhos sem um pai presente.

Além de um retrato da sociedade afegã vista de dentro, o filme mostra quem ganha com o machismo vigente, ou seja, ninguém. É evidente que as mulheres são as que mais sofrem, tanto física quanto psicologicamente, mas não dá para dizer que os problemas não atingem também os homens.

Sem querer transformar os agressores em vítimas, o homem em coma é o retrato do machista sob as consequências dos próprios atos. Frio a ponto de dispensar mais atenção a uma codorna que à própria família, enganado graças a sua imposição de regras insanas, ferido em uma discussão desnecessária.

Colocado desta forma parece uma situação distante da que vivemos por aqui. De fato superamos algumas ações do machismo, mas enquanto mulheres seguirem sendo agredidas, violentadas, por vezes assassinadas, e com direitos restritos em relação aos dos homens, não podemos nos orgulhar de termos superado o machismo. Ele existe, nos cerca, nos envergonha e se não tomarmos cuidado, nos seduz.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Leva

O título do longa das diretoras Juliana Vicente e Luiza Marques não vem do verbo levar, mas do substantivo, “ajuntamento de pessoas; recrutamento; grupo, coletivo”, conforme indicado no início da obra. Uma leva de sem-teto que luta pelo direito constitucional à moradia.

Pessoalmente eu cresci ouvindo e acreditando que um grupo de pessoas que ocupa um prédio, ainda que abandonado, comete um crime. Deveriam ser punidos por invadir um imóvel que não lhes pertence e se querem de fato um lar, que trabalhem para compra-lo. Tento reduzir minha vergonha de ter acreditado nessas bobagens com o fato de nunca ter sido apresentado aos argumentos em prol dos movimentos sociais.

Esse é o ponto principal do filme, pois dá voz aos excluídos, àqueles que normalmente são retratados pela mídia que representa a especulação imobiliária, criando uma imagem diametralmente oposta à real atuação dos movimentos sociais que se organizam pela busca de moradia.

Ao contrário da desordem e bagunça comumente associada ao MTST e suas subdivisões, com apenas algumas entrevistas de lideranças vemos uma aula de política suficiente para envergonhar a maioria esmagadora daqueles que criticam as ações, mas restringem a própria atividade política ao voto bienal. 

Política, gostando ou não, se faz de forma cotidiana e diária. Os movimentos de ocupação que se organizam no centro de São Paulo – que é o foco do documentário – não fazem outra coisa senão lutar por direitos constitucionais dos quais todos deveríamos ser beneficiados. A diferença é que grande parte da população brasileira restringe sua indignação diante da falta de serviços estatais a comentários preconceituosos, com raízes históricas que ratificam a criminalização da pobreza e são de grande utilidade aos que estão no poder.

Em um país em que a desigualdade social é uma das maiores do mundo, a ilusão de ascendência social faz com que mesmo os que estão economicamente mais próximos dos integrantes de movimentos sociais mostrem repúdio em relação aos seus membros, tentando assim uma proximidade com as classes mais altas, compostas em parte por proprietários de imóveis desocupados, geralmente herdados há várias gerações, que permanecem aguardando uma valorização imobiliária.

“Mas eu trabalhei duro para comprar minha casa e não é justo que algumas pessoas ganhem um apartamento de graça”. O filme desconstrói essa falácia com muita competência, mostrando tanto o equívoco quanto as nuances econômicas que tornam a questão bem mais complexa do que a suposta meritocracia de pagar por um imóvel. A questão que fica implícita no filme e não caberia no documentário é como a sociedade brasileira acaba prejudicada pelo preconceito que estabelece contra os movimentos sociais.

É justo que um trabalhador consiga, depois de tanto esforço, comprar sua sonhada residência. Ainda mais justo é que todos tenham pelo menos a oportunidade de ganhar um salário descente, para sanar suas necessidades imediatas como alimentação, educação, etc., e poupar o suficiente para um dia – ainda nesta encarnação – comprar sua casa própria.

Injustos não são aquelas pessoas que ocupam um prédio abandonado há décadas, fugindo assim das ruas ou de moradias que não oferecem o menor conforto ou mesmo dignidade. Injustos são os poucos proprietários que concentram diversos imóveis, mantendo vários deles fechados por pura especulação. Sequer a famigerada meritocracia pode ser aplicada na maioria dos casos, já que uma sondagem histórica indica que a origem de tantas propriedades é fruto de várias ações, nenhuma relacionada ao trabalho, esforço ou mérito pessoal.

Enquanto a especulação imobiliária atinge negativamente a cidade, com consequências que extrapolam as fronteiras da moradia, os proprietários de imóveis vazios encontram respaldo em uma disputa social desnecessária e maléfica, que insiste em criminalizar as vítimas por um problema.

Um dos desdobramentos de uma sociedade tão heterogênea e desigual é que o discurso oficial da mídia é controlado por pouquíssimas pessoas ricas. Ainda que numericamente os movimentos sociais sejam dominantes, seu discurso não tem espaço. É mais cômodo acreditar na versão simplista de que os errados são os que ocupam uma propriedade ao invés de investigar as origens desta propriedade e os impactos sociais de mantê-la fechada.

Uma alternativa a esta tradição elitista é a produção independente de obras como Leva, para mostrar um lado cuidadosamente ocultado ao longo de todo o desenvolvimento de grandes cidades com São Paulo. Felizmente há tempos mudei meus paradigmas e assisti ao filme ciente da condição dos militantes dos movimentos sem-teto, ainda assim gostaria que de ter tido contato com alguma obra deste tipo durante a adolescência.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Uma longa viagem (The Railway Man)

A Segunda Guerra Mundial é um dos eventos históricos mais documentados em obras de arte – talvez o mais documentado. Isso não é exagero, pois tamanha barbárie deve ser constantemente lembrada, na esperança de que não volte a acontecer. A particularidade deste filme do diretor Jonathan Teplitzky é mostrar um lado pouco retratado do combate.

Longe da Europa muitos soldados viviam o inferno da guerra no front asiático. O filme em questão é baseado em uma história real, essa informação nem sempre é benéfica, já que se por um lado dá veracidade aos fatos retratados, por outro nos induz a olhar para o filme como um retrato fiel do que aconteceu – o que nem sempre é verdade.

O exército britânico, historicamente imperialista e dominador, teve parte dos seus soldados capturados pelos japoneses e utilizados na construção de uma ferrovia na região da Tailândia. No próprio filme um dos personagens ressalta a inversão de papéis que o episódio proporciona. Entre os soldados está Eric Lomax (Jeremy Irvine e posteriormente Colin Firth, protagonista).

Difícil falar em lado certo ou errado de uma guerra. Olhando de forma pontual, como no caso do filme, temos a tendência de ver Lomax e seu exército como vítimas, já que são os escravizados e torturados em questão, mas para isso temos que abstrair as barbáries cometidas pelo mesmo exército em outros fronts.

O fato é que Lomax e seus companheiros de batalha, já idosos, nunca superaram os traumas da guerra. O vislumbre de alívio na vida do protagonista aparece quando ele conhece Patricia (Nicole Kidman), que ao menos no início do relacionamento consegue desfazer um pouco da tensão do personagem.

O curioso é que Patricia define Lomax como um homem maravilhoso, mas perturbado. Ela tenta com muito empenho livrar o marido dessas perturbações, como se quisesse despi-lo dos traumas deixando apenas sua essência. O problema é que essas duas características de Lomax são indivisíveis, cada uma contribuindo um pouco para a formação do indivíduo.

Depois de tanto tempo sozinho o protagonista acaba desaprendendo a conviver e a aceitar diferenças. Isto somado ao estilo metódico dos ingleses, às vezes incompreensível e cômico aos latinos, faz com que o convívio seja difícil até mesmo com a pessoa amada.

Enquanto Patricia busca o homem por trás dos traumas, como se isso fosse dissociável, Lomax não esconde o passado da esposa, esconde de si mesmo. Sabe que sua vida no front não é nada atrativa e tem a ilusão de viver a partir de quando conhece a esposa, passando uma borracha no passado, como se isso fosse possível.

Essa atitude não é exclusiva de Lomax, tão pouco daqueles que passaram por um grande trauma como a guerra. Por vezes queremos mesmo esconder o passado até da pessoa que mais amamos, não por mal, mas por uma necessidade inconsciente de escondê-lo de nós mesmos. Não é uma postura fácil de aceitar, como no caso de Patricia, mas um pouco de compreensão é sempre bem-vinda. Os traumas pelos quais passamos, ainda que bem menores que o cotidiano de uma guerra, formam nossa personalidade. Somos o que somos graças ao que vivemos de bom e de péssimo.

Como era de se esperar, Lomax encontra Nagase (Hiroyuki Sanada), soldado que não o torturou, mas foi complacente, servindo de tradutor nos interrogatórios guiados por violência. O que fazer diante de um torturador nestas condições? Por um lado é demagogia dizer que Nagase foi apenas tradutor. Isso o tornaria ao menos complacente, que já não é pouco, mas no topo da hierarquia militar estão os que, entre tantas barbáries, conseguem motivar seus soldados aos atos mais vis, fazendo-os acreditar que a crueldade é necessária.

Não por acaso o filme nos leva a tomar o partido de Lomax. Mesmo suavizando as cenas de tortura, o protagonista é construído com base na gentileza, lealdade e várias virtudes que nossa sociedade valoriza, enquanto o exército japonês, incluindo Nagase, é apresentado como vilão da história.

Voltando ao início, olhando para esse episódio isoladamente essa distinção entre bem e mal pode ser tolerada, mas não devem faltar exemplos de papéis invertidos, com soldados britânicos aterrorizando prisioneiros de exércitos inimigos. Crimes de guerra que não chegam a ser culpa dos soldados, mas de patentes e cargos bem mais elevados.

Diante do terror multifacetado da guerra, o fim do filme (sem detalhes por aqui) pode nos emocionar e, sobretudo ensinar várias lições, basta abstrairmos os limites da guerra e ampliarmos a ideia para temas cotidianos.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Confia em mim

A confiança é um sentimento extremamente difícil de ser dosado. Inconscientemente atribuímos um nível de segurança para cada um que nos cerca e também para nós mesmos, sendo que uma série de fatores, como o tempo e as experiências vividas, acabam influenciando nesse nível imaginário.

Conforme o título indica, é esse o eixo central do diretor Michel Tikhomiroff. O roteiro traz uma trama bem amarrada e ainda que fique restrito a um cotidiano de poucos personagens de classe média alta, o que facilita o trabalho, aborda com competência os históricos golpes que formam um jogo de xadrez entre policiais e golpistas.

A protagonista Mari (Fernanda Machado) trabalha como chefe de cozinha e a primeira ideia de “confia em mim” é desenvolvida em relação à própria personagem, mais especificamente sua autoconfiança. Mari demonstra extrema insegurança, que pelo pouco contato que temos com seu histórico de vida, poderia ser justificada pela relação familiar. Não é necessário muito tempo para percebermos que sua mãe e sua irmã não têm confiança na moça.

Nossa primeira tendência costuma ser pensar a confiança a partir do outro, ou seja, quais as atitudes que nos inspiram confiança em um primeiro contato, porém não percebemos o quanto a nossa autoconfiança – ou falta dela – interfere na relação, seja ela qual for. Se pessoas inseguras sofrem as consequências disso em contatos banais e cotidianos, que dirá em situações mais densas como uma vaga de emprego que demanda tomada de decisões.

A insegurança de Mari tem influência direta para a aproximação de Caio (Mateus Solano). Em um encontro aparentemente fortuito o personagem sempre demonstrou ser um porto seguro, uma referência, passando a confiança que toda jovem insegura sonha em ter. O filme chega a ficar entediante com o romance de conto de fadas, até que a protagonista descobre que o mundo cor-de-rosa da classe média também pode sofrer com atitudes condenáveis.

Diante de uma atitude à margem da lei somos reducionistas e simplistas. Entretanto alguns golpes são aplicados há séculos e existe toda uma literatura desenvolvida em torno da aura de romantismo que cerca os golpes baseados na perspicácia e astúcia. Ressalto, não há violência física, muitas vezes não chega a haver um crime direto, mas um jogo psicológico tenso que induz as vítimas a serem enganadas e cometerem erros quase infantis para quem olha o caso a distância.

Todos podem ser ludibriados em alguma situação, fato que está diretamente ligado à confiança citada no início. O que fica claro no filme é que Mari nunca foi nem um pouco preparada para lidar com certas situações, o que acabou fazendo dela uma presa fácil. Isso envolve, como sempre, a autoconfiança.

Esse traço de nossa personalidade é desenvolvido com o tempo, baseado em nossas experiências de vida. Por suas atitudes no emprego e pela relação que mantém com os demais personagens, vemos que Mari não demonstra segurança nem quando todas as evidências justificam essa atitude. Dá a entender que nunca foi estimulada a confiar em si mesma e a tomar decisões, ainda que tenha que arcar com as consequências de eventuais equívocos.

É um ciclo que se inicia com a falta de confiança que os pais têm nos filhos, isso gera insegurança para aqueles que alvos dessa desconfiança e crescem com a necessidade do crivo dos pais para toda e qualquer decisão que precisam tomar. Ao não serem estimulados a tentar e a correr riscos, a autoconfiança vai sendo minada ao longo da vida, fechando o ciclo como adultos inseguros, despreparados, que sofrerão as consequências dessa falta de atitude em diversas fases da vida – quando não chegam ao extremo de serem alvos fáceis, como no caso do filme.

Sendo o primeiro longa metragem do diretor, o trabalho satisfaz ao apresentar um roteiro bem trabalhado, com elementos aparentemente soltos, que cedo ou tarde demonstram algum sentido. Apesar de causar certo desconforto a homogeneidade social do filme, sem classes antagônicas e com personagens restritos à elite, a história se encaixa na proposta de trabalhar tanto o universo marginal dos golpistas que selecionam suas vítimas entre a classe média alta, quando a relação de confiança, que pode ser destrutiva ou essencial, sendo o grande desafio ter maturidade para distinguir cada situação com antecedência.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Nenhum a menos (Yi Ge Dou Bu Neng Shao)

O cinema de um país diz muito sobre sua cultura e seu momento histórico. Dependendo do estilo do filme é uma ferramenta importante para termos ao menos uma noção de costumes e hábitos. Com isso os filmes chineses podem ser interessantes para desvendar certos mistérios, desde que rompa com o controle estatal do país.

Neste sentido o diretor Zhang Yimou nos apresenta o retrato de uma China distante das megalópoles que sustentam um crescimento econômico de 10% ao ano. O enredo se desenvolve em uma escola da pequena província de Shuiquan. Região rural, com a escola caindo aos pedaços, é possível lembrar o Brasil em vários pontos do filme.

A protagonista é a professora Wei (Wei Minzhi), uma menina de apenas 13 anos, pouco mais velha que os alunos da escola primária, mas que é a única opção para substituir o professor titular durante o mês em que ele ficará fora para cuidar da mãe.

Não dá para encontrar pontos positivos ou atrativos na escola. O chão de terra batida, carteiras quebradas, quadro negro precário, etc. Não é difícil achar problemas naquele local em particular, mas aquela escola escondida no interior da China abre espaço para uma crítica ao sistema educacional como um todo.

Pelo pouco conteúdo das aulas, notamos que há influência do estilo de governo. A bandeira hasteada, as crianças marchando com formação semelhante à militar, a canção com metáfora para o regime. Porém essa é mais uma crítica que serve às escolas de qualquer país. A educação serve ao capital, de uma forma ou de outra.

A escola é uma das mais homogêneas instituições. Do interior chinês à mais desenvolvida cidade, é possível notar semelhanças. Formar mão de obra vem à frente de formar cidadãos, seja em uma escola de fachada, onde os alunos mal aprenderão a ler e sairão para um mercado de trabalho simples e desqualificado, até uma escola de ponta, que visa formar empreendedores voltados ao mercado, não à sociedade.

A diferença é que em uma escola com todos os recursos necessários é mais fácil motivar os alunos esquematizando um futuro – e mesmo assim aparecem dificuldades dado ao caráter disperso natural da infância –, mas em uma escola em que o único recurso é um giz branco, racionado, manter a atenção de crianças concorrendo com as brincadeiras infantis é totalmente impossível.

Somado a essa dificuldade existe a problema econômico. A realidade social de uma criança cujos pais são formados e com bons salários não se compara com a situação rural, onde é mais comum a necessidade das crianças trabalharem para ajudar financeiramente em casa. Essa é a história de Zhang Huike (Zhang Huike), que abandona a escola para tentar ganhar dinheiro na cidade grande. Entre os problemas que essa decisão implica, aqui há a particularidade de que a professora receberia mais dinheiro caso não faltasse nenhum aluno depois do mês de ausência do professor titular. Com isso existe o esforço desmedido da professora para resgatar o aluno.

Depois de muito esforço para viajar até a cidade, de imediato há o choque cultural, com estereótipo de morador do campo chegando à cidade grande. É notável o despreparo em relação a tudo o que a jovem encontra. Seria ótimo se de acordo com a realidade do estudante, o conteúdo lecionado fosse útil ao seu cotidiano e ao mesmo tempo o preparasse para a vida fora de seu círculo social.

O que normalmente acontece, sobretudo na zona rural que tem a grade curricular baseada na que é formulada para as cidades, é que os alunos aprendem matérias distantes de seu cotidiano e não têm formação que os prepare para qualquer quebra de rotina de um cotidiano quase pré-estabelecido.

É evidente que a questão educacional é complexa em todo o mundo, de forma que não é um filme, tão pouco um texto de blog, que irá solucioná-lo, mas é bom notar que a precariedade do espaço físico é apenas um ponto e talvez até o mais fácil de solucionar.

Supomos que haja investimento na parte física, seja na escola do filme, seja em qualquer outra escola semelhante mundo a fora, melhorando as instalações e oferecendo mais que um toco de giz e um quadro negro. Como será a formação dos professores, já que tanto Wei quanto o professor titular não são bem preparados? E pior, como resolver o problema do jovem Zhang, sem pai, com a mãe doente e sem dinheiro?


terça-feira, 15 de julho de 2014

Hoje eu quero voltar sozinho

Em 2010 o curta-metragem ‘Eu não quero voltar sozinho’, do diretor Daniel Ribeiro, chamou a atenção pela qualidade e pelos temas abordados. Deixou também espaço para que a história fosse desenvolvida e a trama fosse aprofundada. Felizmente o material foi complementado por este longa-metragem, que não apenas chama a atenção para o cotidiano de um adolescente cego como ainda mistura a descoberta da sexualidade nesta conturbada fase da vida.

O protagonista Leonardo (Guilherme Lobo) é cego desde que nasceu. Sem memória visual, o adolescente frequenta uma escola comum e precisa apenas de algumas adaptações para que sua vida seja bastante próxima à de seus colegas. Claro, ele sempre precisará da máquina para escrever em braile, além de uma ou outra ajuda cotidiana, mas no filme o maior obstáculo para Leonardo acaba sendo sua própria mãe.

É compreensível que a proteção materna, que frequentemente ultrapassa os limites do necessário, ganhe corpo quando o único filho chega à adolescência – fase naturalmente contestadora e conflituosa – demandando liberdade e autonomia, independente de sua deficiência. O problema é quando o pretenso cuidado materno se transforma em empecilho.

Em seu dia-a-dia Leonardo conta com a ajuda de Giovana (Tess Amorim) para as atividades na escola. A amizade faz com que essa relação de ajuda seja reduzia a atos cotidianos, que parecem não estigmatizar a deficiência visual. Essa naturalidade é quebrada pela presença do bullying, praga escolar que apesar de antiga, frequente e grave, ainda conta com a condescendência de professores e diretores.

A chegada de Gabriel (Fabio Audi), novo aluno na sala, é a inclusão de um elemento diferente na amizade entre Leonardo e Giovana. O primeiro ponto que chama a atenção no personagem são as gafes bastante comuns por parte daqueles que não costumam ter contato com determinada deficiência. Muitos desses deslizes parecem absurdos quando vistos de fora, mas são inevitáveis em um primeiro contato.

Construindo aos poucos uma relação de empatia entre personagens e telespectador, nos envolvemos com a história a ponto de compreender um pouco melhor o descontentamento que algumas vezes os deficientes visuais demonstram diante de uma tentativa de ajuda. Costuma ser muito evidente que a intenção de ajudar é uma atitude bastante nobre, o que nem sempre percebemos são os sentimentos do indivíduo que não rejeita a ajuda por arrogância ou algo do tipo, mas simplesmente por buscar sua autonomia. Quantas vezes não temos que nos esforçar para manter a diplomacia diante de uma situação social que nos desagrada?

Finalmente, o que faz com que o filme salte do cotidiano de um adolescente cego – que já não seria pouca coisa – para uma obra bem desenvolvida e trabalhada com muita sensibilidade, é o desenvolvimento dos sentimentos ao longo da adolescência. A ausência da visão acaba obrigando a apuração dos outros sentidos para suprir uma deficiência, assim Leonardo está exposto a todas as dúvidas, angústias e problemas de todos os seus amigos; a deficiência visual acaba nos mostrando caminhos diferentes dos que estamos habituados a seguir, mas que talvez levem aos mesmos locais.

Relacionamentos nunca chegam a ser fáceis. Por mais evidente que seja o sentimento entre duas pessoas, dúvidas e hesitações sempre vêm à tona, sobretudo quando a imaturidade ainda dá as cartas. Com a falta da visão somos estimulados a pensar: o que faz com que nos sintamos atraídos por outra pessoa?

Indo além, o fato de Leonardo ser cego elimina o aspecto visual da atração. A partir disso, o que faz com que uma atração seja reprimida? Como costuma ser feito no cinema e em outras formas de expressão artística, aqui a visão é suprimida para que o amor ganhe uma forma mais intensa e sublime. É como se a forma fosse uma barreira para o conteúdo, de maneira que sua ausência reduzisse o sentimento a sua expressão mais pura.

Saindo um pouco da parte sentimental e abordando o filme com um viés mais sociológico, fica notável como a pressão social influencia sobre as relações, tanto de amizade quanto amorosas. Com tanta gente preocupada em definir o que pode e o que não pode acontecer em relacionamentos – como se tal absurdo fosse possível –, Leonardo nos mostra de uma forma carregada de simbolismos que a vida já nos rende problemas suficientes, a parte disso nos resta encontrar algum alento, independente de opiniões execráveis.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Uma Noite (Una Noche)

O filme da diretora Lucy Mulloy é resultado de uma parceria inusitada entre Cuba e Estados Unidos. Na guerra ideológica que os dois países travam há décadas, o cinema sempre foi uma ferramenta importante para a defesa do ponto de vista de cada um. Rodado em Cuba, por uma diretora norte-americana, Uma Noite tem um viés crítico pouco explorado, voltado mais para a corroboração de estereótipos.

Por se tratar de uma ilha, a ligação de Cuba com outros países é facilmente controlada. Isso somado aos mais de cinquenta anos de embargo ajuda a distorcer tanto a visão que o mundo tem de Cuba, quanto a que os cubanos têm de outras culturas, sobretudo o vizinho inimigo.

Após um longo período de prosperidade econômica, graças aos laços políticos e econômicos com a União Soviética, Cuba teve que pagar o preço de não ter se industrializado. Atualmente, com a economia baseada no turismo, o país vive o dilema de manter os ideais da revolução – com o país voltado ao seu povo – valorizando os turistas que injetam dinheiro na economia.

Este cenário abre espaço para a história do protagonista Elio (Javier Nuñez Florian), que trabalha no restaurante do Hotel Nacional, ganha pouco e sonha com a hipótese de ir para Miami. O que poderia ser um devaneio adolescente ganha urgência quando seu amigo Raul (Dariel Arrechaga) agride um turista e coloca a fuga para os Estados Unidos como única saída para não ser preso.

O sonho de ambos é baseado na idealização do desconhecido. Economicamente Cuba enfrenta muitas dificuldades, assim como seus vizinhos caribenhos, com a peculiaridade de um estado forte, tentado alocar poucos recursos em áreas que tragam benefícios à população. O que seduz Elio e Raul é a riqueza material que Miami pode oferecer.

A única personagem que tenta, timidamente, trazer as esperanças para a realidade é Lila (Anailín de la Rúa de la Torre), irmã de Elio. Em uma fala pouco explorada, já que poderia ser mais bem desenvolvida mesmo sendo feita por uma adolescente, ela indica que a exploração do trabalho também ocorrerá em Miami, com o agravante de não ter certos benefícios existentes na ilha, como saúde gratuita.

Fica a cargo de quem assiste perceber que, da mesma forma que os adolescentes idealizam uma realidade ignorando o que não é conveniente aos sonhos, nós também somos guiados ao longo da maior parte do filme para um viés exagerado.

Sem cometer a inocência de achar que Cuba vive hoje da mesma forma que no ápice econômico da década de 80, não podemos esquecer que a comparação direta entre Cuba e Estados Unidos é completamente descabida. Muito mais plausível, apesar de incomum, seria uma comparação entre realidades e histórias semelhantes. Há cubanos dispostos a tentar cruzar noventa milhas em uma balsa precária e isso é um sério problema a ser evitado, entretanto é uma realidade que chama a atenção – além do fator político – devido a Cuba ser uma ilha.

Pensando que latinos de todos os países, inclusive do Brasil, juntam todas as suas economias para viajar ao México e de lá tentar cruzar a fronteira terrestre para os Estados Unidos, muitos morrendo devido ao calor extremo dentro da cabine de um caminhão, ou fuzilados pelos guardas da fronteira, notamos que o problema da imigração extrapola a guerra de aparências entre Cuba e Estados Unidos.

Pinçando exemplos de sucesso econômico em meio ao mar de latinos explorados nos Estados Unidos, ratifica-se a imagem de uma terra de prosperidade e modelo a ser seguido pelos demais países, desconsiderando que do ponto de vista do indivíduo, para cada exemplo de sucesso há uma massa de compatriotas em situação oposta; e do ponto de vista do estado, a economia americana é sustentada – entre outras coisas – por juros de dívidas de países pobres.

Uma Noite é um filme interessante, porém como primeiro trabalho da diretora, deixa claro a inexperiência e o potencial subaproveitado, que deve ser suprido por quem assiste ao filme para que este não se transforme em um panfleto de doutrinação, como tantos exemplos hollywoodianos.

Cabe ressaltar um detalhe do filme. Os personagens caminhando pela orla de Havana, onde o mar quebra no chamado malecón, um muro onde se pode sentar e ouvir o barulho do mar, por vezes sentindo o respingo da água salgada que espirra na calçada. Lugar único, extremamente atrativo e emblemático.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Cine Holliúdy

Ao longo do séc. XX Hollywood se tornou a maior referência do cinema em todo o mundo. É na década de 70, no interior do Ceará, que se desenvolve a história do diretor Halder Gomes, fazendo referência ao polo norte-americano e mantendo as raízes locais, resultando no primeiro filme falado em ‘cearencês’.

Uma forma de entretenimento atrativa e potencialmente barata, o cinema já foi bem mais popular até sofrer concorrência com a popularização da TV. Ainda que a programação seja bem diferente a televisão, junto com vários outros fatores, foi determinante para o declínio das salas de cinema.

Felizmente o cinema conta com apaixonados como o protagonista Francisgleydisson (Edmilson Filho), que dedica sua vida para manter uma sala de exibição. Após fracassar, sua nova tentativa é na cidade de Pacatuba.

Antes mesmo de entrar no campo do cinema, a história do filme trabalha com os sonhos. Não é apenas através do objetivo de Francisgleydisson de abrir um cinema, mas toda a vida do personagem é permeada por um universo onírico que extrapola as fronteiras tradicionais e cotidianas do real.

Essa insatisfação com o cotidiano é fundamental para o cinema, que tem como uma das funções o entretenimento, mexendo com o imaginário popular. Inserir novos elementos no dia-a-dia daqueles que vivem na eterna rotina de trabalho desgastante amplia horizontes e dá novos sentidos ao que vivemos.

Se a questão fosse somente o conteúdo a televisão poderia, ao menos em parte, suprir a lacuna da falta de uma sala de cinema, porém, como fica claro no filme, uma sessão em uma sala específica proporciona grande mobilização direta e indireta. Exibir um filme implica em reunir pessoas, aproximar vizinhos e apresentar desconhecidos.

Diferente da programação televisiva, que tende a ter um fim em si mesma, uma exibição coletiva proporciona a interação e a troca de impressões entre os presentes, sendo os benefícios indiretos desse contato muito valiosos.

A intervenção dos televisores é paradoxal na época retratada no filme, pois a pequena quantidade de aparelhos, restritos às famílias mais ricas, acabavam reunindo várias pessoas para acompanhar a novidade de assistir a um filme ou a um programa no conforto do lar, porém não demorou muito para que a popularização dos televisores mantivesse cada família entretida na sala de sua própria casa.

Hoje essa individualização chegou ao extremo de cada cômodo ter um aparelho de TV, possibilitando a cada membro da família permanecer em seu próprio quarto, ainda que sintonizando o mesmo canal.

Com uma programação pobre e grade cinematográfica repetitiva, a supremacia da televisão foi construída a passos largos e hoje se sustenta com facilidade. As salas de cinema são raras e concentradas em grandes centros urbanos. Distantes da periferia e com ingresso mais caro do que muitas famílias podem pagar, as grandes empresas do ramo se instalam em shoppings, vendendo a imagem de segurança e comodidade para a pequena parcela de frequentadores.

Assim como é demonstrado através da pequena Pacatuba, a população pode não ter o hábito de ir ao cinema – pudera com tantos fatores contrários à prática –, porém existe grande demanda por entretenimento e muita curiosidade para conferir os filmes na telona.

Sem adiantar os conflitos necessários para o enredo da obra, notamos que não é apenas o filme que atrai a população, mas o universo onírico que encanta crianças e adultos. Em uma sociedade ainda não contaminada pelo espírito utilitarista que impõe uma vida regrada e séria, os moradores seguem muito mais próximos da tranquilidade e vida despojada, aberta às histórias fantásticas e fantasiosas do cinema e de Francisgleydisson.

Quem deveria estar atento e próximo à vontade da população seria o prefeito da cidade, mas como sempre a política tende a colocar os próprios interesses acima do interesse do povo, jogando com o investimento cultural conforme os votos que este possa garantir.

Cine Holliúdy é uma forma lúdica de mostrar um problema sério, que teve início por volta da década de 70, mas com desdobramentos extremamente presentes em nossa sociedade. As salas de cinema são cada vez mais raras, a população carente de cultura e os políticos negligenciando essa expressão artística com enorme potencial, que pode muito bem ser melhor aproveitado.


terça-feira, 10 de junho de 2014

O Passado (Le Passé)

Apesar de o diretor Asghar Farhadi ser iraniano, esta é uma produção francesa. O protagonista Ahmad (Ali Mosaffa) retorna de Teerã a Paris para legalizar o divórcio com Marie (Bérénice Bejo). A consequência dos quatro anos de separação é que Marie queria oficializar o fim do matrimônio para casar-se novamente.

A francesa mantem um relacionamento com outro iraniano, Samir (Tahar Rahim), e o que chama a atenção é que a presença de elementos da cultura iraniana não chega influenciar diretamente na trama. A tensão e o desconforto dos encontros e desencontros do filme são típicos da cultura ocidental, que por si já é machista, porém livre dos extremismos islâmicos que exacerba as diferenças de gênero no Irã.

O que o filme proporciona com muita competência é a reflexão sobre o conflito entre hábitos que vêm se concretizando na sociedade recentemente e valores morais ainda não superados. Até pouco tempo atrás a quantidade de divórcios era muito menor e, ao menos no Brasil, o divórcio só passou a deixar de ser proibido por lei em 1977 – claro, não quer dizer que as separações não acontecessem informalmente.

Nem estado nem igreja devem ter o poder de intervir na vida dos indivíduos a ponto de obrigarem um casal a permanecer juntos. Assim, o direito ao divórcio é uma conquista que hoje nos parece bastante óbvia – no Brasil ou na França, mas não no Irã. Porém a liberdade individual de poder dissolver um casamento não foi acompanhada de uma conciliação equilibrada entre indivíduo e sociedade.

Por mais que por ventura nos identifiquemos com o individualismo contemporâneo, não podemos, e no fundo nem queremos, nos afastar totalmente da vida em sociedade. Assim o divórcio ocorre, mas as relações sociais ainda existem e deve ser rearranjadas.

É com base nessas relações tensas que o filme de Farhadi se desenvolve, afinal, Ahmad não se opõe ao divórcio nem tem pretensão de retomar o relacionamento, porém isso não desfaz a tensão e o desconforto de seu encontro com Samir. Em nenhum momento é colocada a questão da divisão de bens ou algum problema mais direto, mas o estranhamento entre os dois conterrâneos é visível.

Conflitos são inevitáveis e é diante deles que nossa racionalidade deve se sobrepor, dando uma solução viável para o problema. Apesar disso as relações sociais são complexas, assim como os conflitos que surgem diante da necessidade de rearranjar cenários. Ainda que os três adultos em questão tenham atitudes relativamente maduras, eles não são os únicos envolvidos na história.

Marie tem uma filha pequena, mas é o filho de Samir, mais ou menos da mesma idade que a menina, quem mais sofre com a separação e novo relacionamento do pai. Sobretudo depois dos anos 70 as gerações vêm enfrentando grandes mudanças em relação à predecessora. O choque de gerações pode ser bastante comum, porém há certa continuidade dos valores.

Uma grande mudança, como o súbito aumento de divórcios e novos casamentos que ‘herdam’ os filhos de uma relação anterior, implica em uma nova geração sem muitas referências sobre como agir. Por um lado há a liberdade de agir, por outro a dificuldade de não saber balancear as vontades individuais com as obrigações diante das poucas pessoas envolvidas.

Não bastassem as crianças pequenas, Marie ainda tem uma filha adolescente com Ahmad, que não aceita o novo relacionamento da mãe e tem um sério problema com a ex-mulher de Samir, que está em coma. Paira sobre os motivos desse estado de coma uma trama bem interessante, com várias hipóteses plausíveis. É fato que ela está nesse estado por tentar suicídio bebendo detergente, mas o que a levou a tomar essa decisão pode ou não envolver a adolescente.

Por um lado podemos pensar em como as partes envolvidas em um caso complexo devem se relacionar com cuidado, mantendo seus direitos ao mesmo tempo em que levam em consideração o impacto que algumas atitudes terão sobre as pessoas próximas. Por outro lado, para Samir, haveria alguma maneira de permanecer ao lado de alguém capaz de cometer suicídio por ele?

Asghar Farhadi traz influências do cinema iraniano para o filme, mas retrata uma estrutura social muito identificada com a cultura ocidental. Mostra um tipo de relação social cada vez mais comum, mas que ainda é tratada de forma bastante imatura por muita gente. Em muitos pontos ‘O Passado’ pode ser encarado como didático, mas deixa claro que separações e novos relacionamentos são permeados por relações bem complexas.


terça-feira, 3 de junho de 2014

7 Caixas (7 Cajas)

O protagonista do filme de maior destaque do cinema paraguaio é Vitor (Celso Franco), um jovem de 17 anos que trabalha como carregador no Mercado 4. Em meio às vielas cobertas precariamente com lonas e divisórias improvisadas com caixotes de madeira, o garoto é um dos que passam o dia a procura de compras para carregar e conseguir algum trocado.

Os diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori dão à história daquele que poderia ser apenas mais um carregador uma intrincada rede de problemas, expondo vários absurdos naturalizados por uma sociedade habituada a viver da maneira retratada.

Para os que passam o dia no mercado, independente de qual seja a função, o cotidiano é hostil, competitivo e violento. Não obstante, Vitor se encanta com um celular com câmera, que passa a ser seu sonho de consumo. Racionalmente o objeto não faria nenhuma diferença em sua vida. Não haveria muito que filmar, tão pouco muitas ligações a fazer ou receber.

Ao olharmos para alguém que julgamos precisar de outros bens, mas dá preferência para algo aparentemente inútil, costumamos cometer o erro de não olhar para nossas próprias compras ou desejos. Imersos em um sistema capitalista, somos induzidos o tempo todo a comprar algo que não precisamos, mas que aparentemente nos dará status, respeito, aparência, etc.

Com a ideia fixa de ter um aparelho celular, Vitor aceita um bico de transportar sete caixas pelo mercado, sem saber qual o conteúdo e sem um destino certo. Ele apenas receberia uma ligação em um celular emprestado e teria as instruções. Para o serviço aparentemente simples receberia cem dólares.

Misturando ainda mais nossa noção de certo e errado há o personagem Nelson (Víctor Sosa), que também é carregador e não tem dinheiro para comprar remédio para o filho. Costuma ser tolerável que um pai não meça esforços para cuidar da saúde do filho e isso faria com que déssemos preferência a Nelson no lugar de Vitor. Porém os personagens são construídos de forma invertida.

O conteúdo das caixas demora a ser revelado (e não será revelado aqui), mas desde o começo fica evidente que se trata de algo proibido. A partir daí a imagem de Vitor é construída como a de um menino explorado, que tenta a todo custo driblar os perigos que o cercam e realizar seu objetivo. Enquanto isso Nelson lidera um grupo que não medirá esforços para conseguir as sete caixas e, de alguma forma, transformá-las em dinheiro.

Talvez pela cena em que Nelson não consegue comprar remédio na farmácia ser muito curta, isso acaba tendo pouco peso ao longo do filme, contribuindo para a montagem de uma falsa dicotomia entre bem e mal, onde o agora herói Vitor luta ao lado de poucas personagens contra todo o resto que, cada um a sua maneira, promove trapaças e ilegalidades para ter alguma vantagem.

O desenrolar da história mostra uma trama bem amarrada e desenvolvida, com crimes, elementos policiais, amores e desavenças, mas diferente das grandes produções hollywoodianas, aqui a história acontece no submundo, onde o cotidiano dos personagens, mesmo sem o cerne do enredo, já seria o de luta pela sobrevivência em um mundo hostil.

Alguns momentos cômicos do filme vêm exatamente das paródias criadas com base de conteúdo consagrado em clássicos policiais, devidamente adaptadas ao cenário do mercado. O fato de o enredo ser verossímil pode indicar certas semelhanças sociais entre países distintos, porém os grandes filmes policiais costumam mostrar os protagonistas em um episódio de exceção em seus cotidianos. Em Sete Caixas a impressão é que aquele é o cotidiano.

Excluindo as tais caixas e toda a confusão que elas proporcionaram, o que o mercado de Assunção tem a mostrar? Os mesmos carregadores que trabalham desde cedo levando mercadorias pelas vielas, os policiais facilmente subornados, um ambiente hostil em que as pessoas vivem tensas, comida de baixa qualidade, trabalho mal remunerado, etc.

Uma estrutura social tão precária e condições de vida tão duras não justificam atitudes ilegais, mas ao menos nos colocam em uma posição muito mais desconfortável ao tentar julgar o comportamento de alguns personagens. Podemos saber o preço de um remédio, mas seu valor só pode ser dado pelo pai que precisa compra-lo ao filho.

Menos relevante, um celular de cem dólares pode não despertar grandes sentimentos para quem vive cercado de tecnologia, porém o impacto sobre um adolescente que vive para trabalhar e comprar comida é distinto e um simples aparelho com câmera pode se tornar um desejo de consumo dos mais irresistíveis. 


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