segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Culpa é do Fidel! (La faute à Fidel!)

Com muitos estereótipos, metáforas e bom humor a diretora Julie Gavras nos apresenta seu filme, que nos remete aos anos 70, no conturbado período pelo qual o mundo passava. Com a consolidação da Revolução Cubana, a eleição de Salvador Allende no Chile e o governo fascista de Franco na Espanha, acompanhamos a família da pequena Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) na França, cujos pais são militantes de esquerda e a babá, vinda de Cuba, extremamente reacionária, causando grande confusão tanto para ela quanto para o irmão mais novo.

Se por um lado os pais mergulharam cegamente na ideologia comunistas, preocupando-se até mesmo com símbolos inúteis como pintar as paredes do novo apartamento de vermelho, a babá é o símbolo extremo de uma ideologia reacionária. Velha, teimosa, ranzinza e sem querer abrir mão da tradição que favorecia economicamente sua família, passa conceitos errados para a menina, que os absorve mesmo sem compreender muito bem o que significa os tais “barbudos vermelhos”.

A menina, perdida entre os dois extremismos que não costumam primar pela argumentação, simboliza bem a população como um todo, ou seja, aquela maioria que não chega a se preocupar com o rigor teórico das ideologias que dividiram o mundo durante a guerra fria, mas que acabam tomando partido pela informação recebida de alguma forma.

É evidente que a princípio a babá leva vantagem ao tentar persuadir a jovem, já que é uma família tradicional, na qual Anna cresceu por quase dez anos, até que mudam para um apartamento menor, com outra babá e outros hábitos. A simples ideia da mudança já pode assustar e gerar desconfiança, sendo que uma mudança baseada em decréscimo econômico sem dúvida irá desagradar uma criança que ainda não entende muito bem o que motiva tudo aquilo.

Já seus pais, levados à militância graças ao assassinado de um parente espanhol pelo regime franquista, passaram a ver na ideologia do partido tudo o que procuravam, mas parecem ter esquecido de que essa transição nada tinha de natural para os filhos. Mergulhados em muito trabalho, optavam pelo caminho mais rápido em relação às crianças, assim passaram a proibir o catecismo da filha, mudaram a rotina da menina e deram poucas explicações sobre tudo o que estavam vivendo.

Dentro do universo infantil, que tem a deliciosa tendência de fantasiar o dia-a-dia, o choque entre as imagens criadas pela babá e as vividas em contato com os pais gera muita confusão, até que algumas peças comecem a se encaixar e a menina possa tirar suas conclusões baseadas tanto no que ouve quanto no que vive.

A vantagem que a menina leva em relação à sociedade é poder viver próxima de situações conflitantes do ponto de vista ideológico, para só então comparar certos fatos e tirar as próprias conclusões, ainda que tendenciosa por viver o tempo todo com os pais. Talvez os tais barbudos vermelhos não fossem tão maus quanto dizia a babá, que não explicava muito bem o que estava querendo dizer. Por outro lado, talvez o grande valor que os pais davam ao comportamento em grupo poderia ser apenas como uma ovelha que acompanha o rebanho. Portanto as fontes de informações, ainda que parciais, são multifacetadas, diferente da maioria da população com acesso majoritário à mídia oficial.

Chama a atenção ao longo do filme o maniqueísmo com que a menina é tratada, da mesma forma que a clivagem entre capitalismo e comunismo é apresentada ao longo da história. Tanto os pais quanto a babá limitam-se a exaltar os pontos que defendem e criticar a oposição de forma vazia, sem deixar muito claro o porquê das divergências – possivelmente por ignorarem os reais motivos, sobretudo a babá que evidentemente não tem nenhuma clareza sobre o que é a ideologia comunista.

Diante destas certezas tão frágeis que são defendidas ao longo do filme, a dialética parece ter espaço para atuar e formar uma conclusão multifacetada, baseada não somente em opiniões com pouco fundamento, mas comparando diversas fontes para uma decisão mais sólida e fundamentada, diferente da opinião pública, que desde os anos 70 parece abrir mão cada vez mais de uma ideologia fortemente embasada, aceitando qualquer opinião difundida pela mídia, por mais que soe como um conto de fadas. Chegam até mesmo a acreditar que a culpa, de tudo, é de Fidel.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Linha de passe

Esta parceria dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas nos traz o cotidiano de uma família do subúrbio de uma grande cidade, focando estereótipos bastante reais para apresentar um estilo de vida muito comum, repleto de dificuldades e inundado de sonhos.

A matriarca Cleuza (Sandra Corveloni) cria seus quatro filhos sozinha, grávida mais uma vez e se esforçando para trabalhar como doméstica até o limite que sua gravidez impuser. Sem carteira de trabalho assinada, ela não tem direitos trabalhistas e, mesmo com três filhos já adultos, depende de sua renda para sustentar a casa.

O meio social de um indivíduo não determina seu futuro, mas evidentemente influencia nas escolhas e decisões, ainda que inconscientemente. Cada um a sua maneira, os quatro filhos de Cleuza mostram como as dificuldades econômicas, a ausência da figura paterna e outras influências externas acabam contribuindo com detalhes, que quando somados resultam em uma perpetuação da condição de vida da família, na qual todos tentam driblar as dificuldades a seu modo.

Enquanto o quinto filho de Cleuza não nasce, o caçula é Reginaldo (Kaique de Jesus Santos). Ainda criança sua principal preocupação é distinta dos irmãos mais velhos. Reginaldo é obcecado por conhecer o pai. Ainda não superou esta falta e gosta de passar o dia em um ônibus circular por desconfiar que o motorista seja seu pai. Este resquício de origem familiar é suficiente para inspirar o menino a seguir os passos do pai e ele sonha em ser motorista. Há uma bonita cena em que o homem ensina o garoto, sem saber da relação de paternidade. A influência familiar na escolha da profissão é forte em todas as camadas sociais. Antes de pensar nas vantagens e desvantagens que uma carreira pode trazer, uma criança como Reinaldo se espelha no primeiro herói da criança, seu pai, para sonhar com o futuro.

Com o passar dos anos a tendência é que a realidade da ausência do pai ganhe espaço. Dario (Vinícius de Oliveira) já não busca o pai, mas mantém um futuro utópico ao tentar ser jogador de futebol. Sua grande categoria esbarra em dois empecilhos, a idade avançada para iniciar a carreira profissional – mesmo tendo apenas dezoito anos – e a falta de dinheiro, pois pagar ao olheiro facilitaria o caminho para a tão sonhada oportunidade. A ilusão criada pelo mundo milionário dos grandes clubes de futebol seduz muitos jovens como Dario, que podem inclusive abrir mão de possibilidades reais em prol do mundo de sonhos que se concretiza para tão poucos. Sua mãe, também com pouca instrução e muitos problemas e fanática por futebol, não chega a instruir o filho a seguir seus sonhos mantendo uma hipótese mais plausível em vista.

Denis (João Baldasserini) em um aspecto parece ter seguido os passos da mãe, pois já é pai e a pensão do filho é só mais uma das obrigações financeiras da qual o jovem não dá conta. Com pouca qualificação, o trabalho de motoboy toma boa parte de seu tempo. Quase sem referências familiares e com poucas relações sociais para procurar alternativas à sua realidade, o jovem é constantemente tentado a entrar para o mundo do crime. Uma saída perigosa, criticável e que deve ser evitada, mas as alternativas de Denis não são as mais atraentes.

Por fim, Dinho (José Geraldo Rodrigues) aparentemente tem uma vida mais estável e menos problemática, trabalhando como frentista e dedicando sua vida ao engodo de uma igreja evangélica, com as famigeradas técnicas de sedução de fiéis, imputando nestes a culpa por problemas cotidianos muitas vezes atribuídos à falta de fé. Se por um lado Dinho leva dinheiro para casa e tenta aconselhar os irmãos, por outro parece fadado a uma vida estagnada naquela condição, mais controlado pelo pastor da igreja do que responsável pelas próprias escolhas.

Linha de passe está longe dos filmes de ação hollywoodianos ou das comédias sem graça da Globo Filmes, porém próximo da realidade de uma parcela considerável da população. Se o filme parece lento, é por retratar a vida de personagens que vivem para trabalhar, sacrificando distrações para viver as preocupações de uma vida difícil.

Culpar cada um individualmente pela condição de vida que leva é uma ideia tão sedutora quanto falsa. A baixa qualificação, os sonhos quase impossíveis, as decisões equivocadas não devem ser atribuídas a outros fatores distintos do capital social que cada um carrega, criando um campo de possibilidades extremamente restrito, que só não impõe barreiras aos sonhos, que inspira cada personagem a seguir em frente. Em meio a tantas dificuldades, talvez haja momentos de prazer para colorir um pouco o trabalho da vida.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

XXY

Como o título já indica, o longa da diretora Lucia Puenzo aborda, através da protagonista Alex (Inés Efron), a vida de uma pessoa com cromossomos XXY, que possui, portanto, características físicas femininas e masculinas. Em uma sociedade ainda presa a rótulos, em qual se encaixa a sexualidade de alguém que biologicamente foge dos padrões da maioria das pessoas?

Alex tem 15 anos, idade confusa para qualquer adolescente, repleta de dúvidas, confusões pessoais, conflitos internos e externos, etc. Além de não fugir dessa fase, a protagonista ainda tem que lidar com ambiguidade física de seu corpo, que lhe garante grande confusão quanto ao seu próprio gênero.

Para evitar o assédio dos médicos que insistiam em oferecer uma cirurgia, que pelos diálogos do filme parece mais uma oportunidade de estudo de um caso raro de medicina, do que uma real preocupação com o bem estar da paciente, a família mora em uma pequena vila de pescadores no Uruguai.

É mais difícil evitar o assédio da população local, que ao perceber que há algo diferente em Alex, criam várias especulações sobre sua vida. Infelizmente o preconceito em relação ao que foge dos padrões tradicionais não se restringe à pequena vila isolada, nem somente aos casos de indivíduos com cromossomos XXY. Estes apenas confundem os que insistem em impor um padrão fechado a ser seguido.

Em tempos em que o deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica, luta para que psicólogos sejam autorizados a curarem homossexuais, o filme de Lucia Puenzo pode se tornar mais uma tentativa de explicar o que nem deveria ser tão difícil de entender: a sexualidade não é uma doença. Tão pouco se restringe às características biológicas dos corpos.

Diante da obrigatoriedade maluca imposta aos indivíduos de seguir a sexualidade do próprio corpo em uma heteronormatividade, o que fazer com um indivíduo cujo corpo não define claramente ser um homem ou mulher? Com a puberdade a menina deve tomar comprimidos para evitar o crescimento de barba e o desenvolvimento de outras características masculinas no corpo, mas a sexualidade extrapola a vontade externa. Alex para de tomar os remédios, mas não tem certeza se quer assumir as características masculinas. Qualquer adolescente tem dúvidas diante de questões muito mais simples, que dirá diante de algo que afetará toda sua vida.

Os pais tem papel fundamental na vida de Alex. Kraken (Ricardo Darin) e Suli (Valeria Bertuccelli) não sabem muito bem como agir em várias situações – como quando a menina decide parar de tomar os remédios – porém a obrigatoriedade de lidar com a situação, e a relação afetiva de pais e filhos, faz com que o casal aprenda na prática a tolerar o que é diferente do que esperavam. Esta é uma importância fundamental do cinema e outras formas de arte, pois tem o poder de expor casos extremamente condizentes com a vida real, naturalizando o que muitos ainda veem como errado dado à falta de conhecimento e falta de contato com o que é diferente do que estão habituados.

Os homofóbicos, sempre curiosamente preocupados em impor um comportamento, deveriam notar através de XXY que a sexualidade não se restringe às características físicas dos indivíduos, e respeitar a orientação de cada um já é uma grande evolução para um comportamento que há séculos reprime de forma violenta uma parcela da população, simplesmente por não seguir um padrão imposto com toda força e ignorância.

A homossexualidade pode ser coibida através da força, como fazem em países como Irã ou Afeganistão e como já foi feito em nossa sociedade, onde inacreditavelmente há saudosistas interessados em resgatar essa prática patética. O filme Maurice (de James Ivory, 1987) mostra bem como alguém pode ceder às pressões sociais e abrir mão dos sonhos para seguir um padrão de vida imposto. Difícil entender como as pessoas que fazem questão de ditar regras de comportamento se satisfazem com isso; mais fácil é notar a frustração de quem deve lutar contra algo que bate de frente com seus próprios sentimentos.

Para a protagonista Alex não há a opção de lutar contra os sentimentos para se encaixar no padrão que lhe oferecerem. Talvez o melhor seja tentar viver a vida, que como qualquer outra terá vários problemas, e deixar as pequenas mentes presas em padrões retrógrados perderem tempo discutindo sua situação.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Febre do Rato


O diretor Claudio Assis trouxe a expressão popular “febre do rato” para o título de seu filme, traduzindo muito bem o protagonista Zizo (Irandhir Santos). Está com febre do rato aquele que está fora de controle, assim como o personagem, poeta do subúrbio de Recife, que com muita arte e cultura constitui um foco de resistência contra a desigualdade social e a condição de vida difícil à qual boa parte da população brasileira é relegada.

A periferia retratada no filme tem elementos da dificuldade cotidiana, porém o foco principal está em algo além dos problemas, em algo que move aqueles que não deixam de viver por conta de uma situação socioeconômica repleta de empecilhos. E em um ambiente que em geral é falsamente estereotipado com base na simplicidade extrema, Zizo ganha destaque pela sofisticação de seus versos, usados principalmente para o amor e para a contestação política de sua condição de vida.

A arte nem sempre é simples, nem óbvia, nem trivial. Mas há em sua essência uma motivação questionadora, que faz florescer naqueles que admiram suas formas multifacetadas a dúvida diante do que já está estabelecido. Assim são os poemas de Zizo para seus amigos. Em um meio carente de cultura vemos personagens como Pazinho (Matheus Nachtergaele) com dificuldade para compreender as palavras difíceis do poeta – o que rende cenas divertidas –, mas também é notável o valor que se dá ao elemento lúdico, que é fundamental para aliviar as tensões da vida. Os próprios filmes de Claudio Assis são exemplos claros disso. Assim como seus antecessores – Amarelo Manga e Baixio das Bestas – o atual trabalho não tem nada de óbvio, instigando a reflexão de quem assiste, como é característico do chamado cinema de autor.

Para tocar na que talvez seja a maior e mais incurável ferida do país, ou seja, a desigualdade social gritante, o longa trabalha pontos pouco atraentes para filmes de massa, explorando a nudez e a falta de pudor, que sem dúvida é chocante, mas somente para aqueles que veem a desigualdade social, que deveria gerar a real perplexidade, de forma impassível.

O uso dos corpos para a exploração de sua fonte de prazer, sem falsa moral ou pudor, já era conhecido na Grécia antiga, e sofre censura relativamente recente na sociedade, sobretudo depois da reforma protestante. Esse embate entre prazer e censura é bem simbolizado por Eneida (Nanda Costa), tentada pelos enigmáticos versos incompreendidos de Zizo ela resiste às suas seduções, porém não por moralismo, mas talvez esta seja sua forma de brincar com o cotidiano, quebrando com o esperado, de forma semelhante ao poeta, mas sem sua habilidade para a escrita.

Este é um ponto em que o cinema de arte é frequentemente atacado. Felizmente a crítica se desfaz por sua própria falta de conteúdo, pois enquanto filmes belíssimos como ‘Febre do Rato’ são produzidos, suas críticas negativas caem no engodo de classificá-los negativamente pelo excesso de nudez e a exibição das classes baixas, enquanto convenientemente fazem vista grossa à essência do roteiro, que é o embate entre classes sociais, tema indicado como esgotado por quem é beneficiado pelo abismo econômico da sociedade, mas triste e assustadoramente presente no dia-a-dia.

A síntese do sujeito com a febre do rato vem de uma espécie de dialética entre arte e realidade. A sociedade brasileira, que há quase meio século viu a intervenção militar castrando ideologias políticas, coibindo artistas e reprimindo a vida daqueles que querem de fato vivê-la, parece ter vergonhosamente se acostumado com a repressão militar, que hoje fica a cargo da polícia, mantenedora do histórico hostil e metodologia avessa ao diálogo.

Quantos Zizos há na periferia de Recife, São Paulo, Manaus, ou qualquer cidade brasileira, produzindo sua arte e contestando sua própria condição social, é difícil saber. Mas sem dúvida eles são tolerados enquanto mantém suas formas de expressão restrita aos guetos da pobreza. A partir do momento que tentam quebrar a ordem para conseguir, de fato, o progresso, o conservadorismo daqueles que estão no topo da pirâmide social não se contenta mais em apenas criticar a falta de pudor ou moral. É necessário usar isso como argumento para suprimir a voz que exige seus direitos.

Em tempos em que a violência policial é vista como necessária para suprimir a voz daqueles que já são suprimidos de tantas outras formas, Febre do Rato deixa implícito a alternativa de uma vida vivida em sua plenitude, repleta da arte que a ilustra e instiga, sem amarras, sem bloqueios, sem alienação e com o prazer ilimitado que ela pode conter.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Hasta la Vista - venha como você é (Come as you are)


Através do longa de Geoffrey Enthoven somos levados em uma viagem muito especial, da Bélgica à Espanha, na companhia de três jovens. Em essência uma história bastante comum, ou seja, amigos que acabaram de sair da adolescência e usam como pretexto aos pais conhecer vinícolas espanholas, para na verdade visitar um bordel em Punta Del Mar.

A particularidade é que a ideia partiu de Philip (Robrecht Vanden Thoren, em atuação brilhante) que é tetraplégico, portanto precisa de ajuda para praticamente tudo o que faz. Uma das inspirações para a viagem é seu amigo Lars (Gilles De Schrijver), paraplégico devido a uma grave doença que pode tirar sua vida a qualquer momento, de forma que Philip quer garantir um pouco de diversão. Fechando o trio temos Jozef (Tom Audenaert, garantindo as cenas mais engraçadas) que é cego e gosta da ideia de conhecer ‘El Cielo’, um prostíbulo adaptado para portadores de necessidade especiais. É com o objetivo real de perder a virgindade que os amigos driblam resistências e dificuldades rumo à Espanha.

Entre as inúmeras formas possíveis para trabalhar este argumento, vemos uma opção interessante do filme, mostrando que uma viagem assim é possível e bastante viável, já que é passível de problemas como para qualquer viajante disposto a por os pés na estrada. O roteiro poderia ter sido todo escrito em tom de denúncia, mostrando o quanto as cidades são despreparadas para as necessidades dos portadores de determinada deficiência, porém no filme essa denúncia permeia as situações vividas pelos três amigos de forma bastante cômica, fazendo com que a crítica seja exposta de forma positiva, mostrando que a viagem da qual muitos duvidavam é possível.

Para ajudar na viagem eles são auxiliados por Claude (Isabelle De Hertogh), enfermeira que, com uma van adaptada, transporta os amigos e cuida da estadia. Alguns problemas pessoais da enfermeira – revelados durante o filme – e seu estereótipo alvo de brincadeiras de Philip e Lars fazem com que ela, mesmo distante da realidade dos amigos, fique talvez mais próxima de um sentimento de distanciamento da sociedade. Em pouco tempo os quatro viajantes já demonstram união e a profissional contratada para acompanhar parece mais uma amiga, sobretudo após apresentar aos amigos seu ‘hotel 1000 estrelas’.

Hasta La Vista evidencia que várias características daqueles que portam necessidades especiais não devem ser vistas com um olhar de compaixão ou algo do tipo. A deficiência física não os faz menos humanos, logo não deixam de ter os mesmos sentimentos, virtudes e falhas que qualquer pessoa. Não é necessário mais do que um pouco de bom senso para notar que Philip algumas vezes tem um comportamento questionável, principalmente em relação a Claude, porém nesse aspecto sua deficiência pode ser abstraída para notarmos que qualquer pessoa possui temperamento instável e que nem sempre a razão prevalece sobre as ações. Ao julgarmos equivocadamente como ingratidão uma atitude de quem não quer ser ajudado, fechamos os olhos para nossa própria ingratidão, muito menos justificável, ou ainda para o simples desejo que todos temos (com ou sem necessidades especiais) de um momento de privacidade, autossuficiência e afirmação pessoal.

A presença dos familiares, sobretudo de Philip, que requer maior auxílio, e de Lars, que tem a saúde mais frágil, é pequena e presente somente para dar fluência no enredo e indicar a necessidade de discernimento entre o que é realmente necessário em termos de atenção e o que extrapola esse limite, resultando em uma destruição desnecessária dos sonhos. Mais uma vez é factível a relação dos três jovens com outros quaisquer, sem limitações de movimento ou de visão, afinal, com cerca de vinte anos, qualquer jovem é seduzido pela ideia de uma viagem escondida, com fins distintos do que foi dito aos pais. A preocupação da família é compreensível, mas a intervenção desta deve sempre ser limitada para não limitar.

A comédia sutil e a crítica contida na aventura dos três amigos formam um filme que emociona e inspira, podendo ir além do senso comum baseado no engodo de que há ‘problemas maiores que os nossos’. Fica nas entrelinhas que todos passam por grandes dificuldades em determinadas situações, o que tem duas implicações: a primeira é que isso não é motivo para fugir da vida; a segunda (e mais importante) é que ninguém, nem mesmo os pais, têm o direito de coibir os sonhos sob o argumento proteger os sonhadores.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Paraísos Artificiais


Com este longa o diretor Marcos Prado traz para as telas um tema bastante complexo, sobretudo pela falta de informação correta a respeito. O consumo de drogas sintéticas segue como tema proibido, de forma que o conhecimento que poderia auxiliar no discernimento sobre o consumo ou não das substâncias segue oculto na sociedade, que insiste em encarar todas as drogas da mesma forma, sem sequer saber ao certo quais os efeitos e malefícios de cada uma.

O roteiro demora um pouco para engrenar. O filme começa com alguns elementos desconexos para mostrar o romance da DJ Érika (Nathalia Dill) com Lara (Lívia de Bueno), e entre alguns flashbacks e momentos presentes vemos Nando (Luca Bianchi), que de alguma forma ronda a vida das duas. Mesmo com a história entrecortada, o início do filme tem longas cenas de raves, que apesar das belas paisagens litorâneas, não chegam a empolgar muito. É na segunda parte, quando as histórias começam a ser costuradas, que o filme começa a ganhar ritmo.

Mais que o enredo que guia o filme, ou seja, a história entrelaçada dos protagonistas, que forma uma trama interessante, o longa abre espaço para uma rica discussão sobre a forma como as drogas, sobretudo as sintéticas, são tratadas na sociedade, e geralmente de forma bastante negligente.

O filósofo Michel Foucault escreveu sobre a história da sexualidade, investigando o comportamento histórico para desvendar os motivos que levam o tema a ser encarado com tanto tabu. Apenas para citar alguns tópicos, Foucault atribui a repressão sexual a alguns fatores econômicos, visto que para jornadas de trabalho que duravam quase vinte horas era importante que os trabalhadores não gastassem energia com mais nada. Aos poucos a interdição da sexualidade propiciou sua mercantilização, gerando lucro de diversas formas, tanto com a produção de material voltado para o tema, quanto com a criação da necessidade de apoio psicológico, para quem não conseguia controlar um desejo que supostamente deveria ser reprimido.

Fazendo um paralelo com o consumo de drogas, evidentemente restrito dado ao caráter instintivo da sexualidade, ainda que Foucault tenha apontado sua construção social, vemos no filme personagens jovens, que vivem nas festas e sem o menor compromisso com uma vida regrada e economicamente produtiva. Condiz com a preocupação de poupar energia dos trabalhadores do séc. XVIII, através da interdição sexual, as consequências do consumo de drogas que podem comprometer a força produtiva da população.

O desdobramento da proibição das drogas tem o potencial de criar um mercado paralelo, não apenas dos entorpecentes em si, mas também através de clínicas de recuperação, auxílio psicológico, combate ao tráfico, campanhas preventivas e uma série de outros processos, que somados movimentam grande quantidade de dinheiro, gerando uma verdadeira cadeia produtiva, economicamente invejada por boa parte dos produtores e comerciantes.

Toda essa pressão voltada para criminalizar o consumo de boa parte das drogas tem, entre outras, duas consequências fundamentais. Uma delas é, a exemplo da repressão sexual estudada por Foucault, a vontade de saber, ou seja, inevitavelmente cria-se uma curiosidade em relação aquilo que é proibido de forma negligente, sem muitas explicações e geralmente de maneira equivocada. Ao descobrir empiricamente que as consequências do uso de drogas podem não ser tão dramaticamente exacerbadas quanto à imagem socialmente criada, uma rede de usuários passa a criar uma contra imagem sedutora e atraente para aqueles que nunca utilizaram drogas.

A outra consequência é que a proibição implica em silêncio, e este em falta de conhecimento. Há uma infinidade de drogas sintéticas, cada uma com efeitos, consequências e dosagem particulares. Partindo do princípio que a simples proibição vem se mostrando historicamente insuficiente para coibir o consumo de entorpecentes, seria muito mais seguro explicar detalhadamente as características das novas drogas – sem a ideia absurda de que isso estimularia o consumo – do que vender a falsa imagem que a realidade muitas vezes desconstrói e deslegitima.

O próprio filme em questão corrobora a ineficiência da atual postura social diante de entorpecentes, já que, generalizando para não revelar detalhes do final da trama, mostra os perigos que evidentemente existem em relação ao consumo de substâncias potencialmente letais, mas também mostra que muitos dos riscos vêm da falta de conhecimento e que o consumo não é necessariamente um poço sem fundo rumo ao inferno.


terça-feira, 29 de maio de 2012

O Corvo (The Raven)



E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á nunca mais! 



Os escritos geniais de Edgar Alan Poe tiveram reconhecimento tardio. O grande responsável pela notoriedade do escritor foi Baudelaire, que ao traduzir as obras para o francês chamou a atenção dos fãs de literatura para a qualidade das obras, ricas em mistério, terror e criatividade. Com linguagem rebuscada, apesar de objetiva, Poe segue como autor ímpar em seu estilo, talvez sem tanto reconhecimento quanto merece.

Com personagens muito focados no aspecto psicológico, cujos distúrbios ou insanidades podem explicar muitos casos aparentemente sobrenaturais, os contos de Poe são pouco explorados no cinema. As histórias fantásticas já ganharam algumas adaptações, que costumam ser conhecidas principalmente entre os amantes do chamado cinema de arte. Este longa, do diretor James McTeigue, traz uma saída interessante para abordar a obra de Poe e dar notoriedade ao autor.

Inspirado nos livros, não há uma história adaptada, mas um roteiro de ficção formado pelo recorte de várias obras, mantendo o clima de suspense, investigação e uma pitada de terror, com a presença do próprio Edgar Alan Poe (John Cusack). É evidente que não há nenhuma pretensão de documentar a vida do escritor e mesmo as obras citadas são distintas do original, já que o terror de Poe, conforme citado, é focado no psicológico. No filme, por ter como guia um fã do autor que coloca em prática suas ideias mirabolantes, as cenas de terror são mais diretas e explícitas, o que evidentemente segue uma prática, sempre questionável e criticável, de seduzir os espectadores.

O que chama a atenção no longa é a transição existente na mente brilhante de Poe entre sua vida e sua obra. De fato as verdadeiras ações da vida do autor ocorreram majoritariamente em suas obras, relegando à realidade uma existência sofrida, bastante dura em todos os sentidos e, sobretudo solitária. A principal companhia de Poe eram mesmo seus personagens, que provavelmente viviam um duplo de sua própria personalidade. Meticulosos, detalhistas, calculistas e extremamente tensos em suas ações, tal qual seu criador.

Entre as várias histórias citadas no filme, algumas apenas com leves menções, como o incêndio que remete os fãs ao conto “O gato preto”, uma delas não é sequer citada, porém a essência do conto “Willian Wilson”, no qual um misterioso duplo do protagonista o persegue, vivendo como uma sombra misteriosa de seu próprio eu, pode ser identificada, ainda que não tenha existido a intenção desta analogia no roteiro. No filme, o assassino que tem como base as histórias de Poe – sem nome aqui, para não estragar nenhuma surpresa – pretende claramente seguir como uma espécie de duplo do autor, dando corpo à mente do escritor que possuía incrível capacidade de fantasiar a realidade, tornando-a fantástica, quem sabe com a intenção de uma fuga da própria vida angustiante que teve.

Ainda que o tipo de violência do filme seja muito mais explícito do que é sugerido nos contos, não chega a ser uma falha na adaptação, já que a fidelidade ao texto não era a intenção do filme. Seguindo a mesma mudança de literatura para cinema, o grande amor de Poe no longa é Emily Hamilton (Alice Eve), que apesar de manter o estilo angelical das descrições femininas do escritor, corresponde em parte às complexas histórias de amor, tanto dos escritos quanto da vida real de Poe. O escritor sempre permeou sua vida com amores platônicos, sendo que os poucos concretizados sempre acabaram por trazer mais sofrimento à sua difícil vida. Nas obras é possível encontrar personagens mais próximos a Emily, que pode até corresponder ao amor, mas de forma alguma chega a ser factível.

Para unir os diversos elementos trazidos às telas, há o detetive Emmett Fields (Luke Evans), uma versão do personagem August Dupin, que por sua vez representa toda a meticulosidade de autor. Não tão ativo no filme, Fields tem seu trabalho complementado pelo próprio personagem de Poe no desfecho do mistério central da obra, o que também aproxima mente e corpo, pois Dupin traz muito de seu criador e é uma tradução muito clara do estilo de vida que, baseado na contemplação do que o cerca, tira conclusões precisas e encantadoras.

A produção de McTeigue pode ser criticada por muitos aspectos, sobretudo pela tentativa exagerada de tentar dar um verniz moderno a uma obra que retrata meados do séc. XIX, porém a ideia de colocar o escritor em contato com suas próprias obras, fazendo uma espécie de ponte entre o que Poe vivia e escrevia, é bem interessante. O desfecho que cria uma versão para a morte do escritor é apenas uma parte da trama, afinal Edgar Alan Poe morreu em circunstâncias muito menos misteriosas do que tentam nos passar. Um período mais difícil que o normal culminou no consumo excessivo de álcool, levando a um coma alcoólico nas sarjetas de Baltimore. Como toda sua vida, o desfecho foi bem menos romântico que o de suas obras.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Shame


O protagonista Brandon (Michael Fassbender) é o estereótipo do estilo de vida moderno em grandes cidades. Vivendo sozinho em um apartamento de Nova York, ele tem um bom emprego, sem grandes laços afetivos e permeia suas atividades cotidianas com sexo, virtual ou real, porém mantendo distância de relações duradouras.

O diretor Steve McQueen consegue criar um conflito muito interessante em seu longa quando Sissy (Carey Mulligan) aparece de repente para morar com o irmão Brandon. A partir de então o personagem passa a enfrentar um embate gerado pela diferença de suas atitudes em relação ao que espera da irmã. Entre o instinto de aproveitar a liberdade para conquistar o maior número de mulheres possível e a pressão social de cultivar relações estáveis e duradouras, o filme transita da tradição familiar ao estilo moderno de incluir o sexo de forma descompromissada no dia-a-dia, geralmente criticado por quem esconde atrás do moralismo sua vontade de adotar esse estilo.

É possível ver no comportamento de Brandon algumas teorias do antropólogo Lévi-Strauss, segundo o qual, resumindo ao extremo, a proibição do incesto obriga a troca de mulheres entre os homens. A afirmação deixa de ser machista quando é lançada para a compreensão de comportamentos primários da vida em sociedade, dos quais não nos livramos totalmente. Assim sendo, o protagonista busca mulheres fora de seu círculo, ideia que acaba sendo reforçada pelo fato de ser um irlandês que mudou para os E.U.A. deixando a família para trás.

A presença da irmã, com a qual o relacionamento é proibido, indica a possibilidade de relacionamento para outra pessoa – por isso a troca de mulheres – ainda que com a mesma falta de compromisso com a qual Brandon encara seus relacionamentos relâmpagos. O problema é que lado a lado com essa premissa existem os padrões sociais desenvolvidos ao longo da história, e ao personagem não lhe agrada ver a irmã fora dos padrões morais que ele não quer para si.

Bem longe de esclarecer seus conflitos internos, o protagonista passa a não suportar a pressão dessa incoerência, desenvolvendo uma vergonha (shame) não de seu julgamento em relação à irmã, mas de seu próprio comportamento sexual. Isso faz com que o título do filme seja bastante questionável, por indicar que o problema do filme seja a suposta compulsão do personagem, uma patologia que não existe clinicamente, mas socialmente, graças aos moralistas mencionados acima. Ainda que a vergonha em questão apareça pela percepção de que a irmã pode ser tratada da mesma forma com que ele trata outras mulheres, há o machismo de acreditar que a falta de compromisso seja um desejo exclusivamente masculino.

Certos cuidados podem ser indicados para as atividades de Brandon, como por exemplo, não inundar o computador do escritório com materiais pornográficos, para não comprometer sua vida profissional, ou ainda se ater a certos limites quando a garota que desperta sua atenção está acompanhada, se tornando um grande problema em potencial, mas mesmo assim seu comportamento não destoa de seu estilo de vida, podendo tranquilamente ser mantido sem consequências negativas, desde que fizesse pequenas mudanças em seu cotidiano, a partir do momento que não estava mais morando sozinho e algumas mudanças, dessa vez bem mais profundas, em sua forma de encarar os padrões sociais.

Era quase inevitável a Steve McQueen cair no nó atado entre tradição e modernidade. A opção fica em relação ao caminho a seguir a partir deste ponto. É possível aceitar a vergonha como uma imposição sem lógica, para assim superá-la e assumir que a presença da sua irmã não destrói seu estilo de vida, ou dar um verniz moderno ao romantismo do século XVIII, impondo uma forma de vida que limita e inibe.

Obrigar alguém que, como Brandon, está habituado a um estilo de vida condizente com a cidade de Nova York – ou qualquer outra grande cidade – a voltar a viver segundo preceitos tradicionalistas é optar por insistir em negar possibilidades, pois ainda que o comportamento sexual do protagonista não seja obrigatório em nenhum lugar do mundo, sua opção é viável e distante de qualquer patologia, culpa ou vergonha. Ajudar a irmã, ou ser ajudado por ela, dependendo do momento pelo qual cada um está passando, não implica em impor mudanças ou coibir desejos, mas sim em tolerar comportamentos e libertar-se de padrões tão válidos quanto desnecessários.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um método perigoso (A dangerous method)


O diretor David Cronenberg traz às telas sua versão para a obra de Christopher Hampton, que mostra um pouco da genialidade de Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender), cuja aptidão para compreender os enigmas da mente humana não impediu que a vaidade e preciosismo de ambos se tornassem empecilho para o desenvolvimento das pesquisas na área da psicanálise.

É notória a dificuldade de aplicar o rigor de um método científico sobre um objeto tão multifacetado quanto à psique humana. Por mais que a epistemologia defina certos limites e regras, o próprio pesquisador está sujeito a surpresas, tanto provenientes do paciente quanto de seus próprios sentimentos, que podem fugir do controle – nem sempre de forma perceptível – fazendo com que as mais brilhantes mentes fiquem suscetíveis aos imprevistos.

Desta forma Sabina Spielrein (Keira Knightley) ganha destaque na história (da psicanálise, portanto do filme), ao se tornar primeiramente paciente de Jung, para depois contrariar toda metodologia do psicanalista e vir a ser sua amante. Cada personagem do filme mereceria um longa com a própria história e Sabina não é diferente. A começar pela atuação impecável, capaz de encenar toda a angústia, desespero, medo e insegurança da personagem, que nos faz pensar sobre algumas posturas atuais diante de pessoas com supostas patologias.

O tratamento de Sabina, que se mistura com experiências para as teorias de Jung, consiste a princípio de atenção e respeito. Não há grandes intervenções por parte do psicanalista além de dar ouvidos aos relatos angustiados de sua paciente e encarar seus desabafos com a clareza de quem enxerga um potencial de cura, ao invés de menosprezo a um problema que, para quem não o tem, pode parecer menor. Pode ser uma conduta elementar, não somente para quem cuida de um paciente, mas para qualquer um que ouça um relato, mas a prática nem sempre é tão evidente, sendo que problemas negligenciados são mais frequentes do que possa parecer.

Por parte de Freud e Jung é interessante notar os debates sobre a gênese de uma teoria psicanalítica, em uma fase em que esta área ainda não havia sido inundada pela indústria farmacêutica, prometendo remédios milagrosos até mesmo para males que não necessitam de intervenções químicas.

A beleza da ciência desenvolvida e tão bem apresentada no filme é que seus estudos inevitavelmente caminham no incerto. É necessário vagar pelo estreito e tortuoso caminho formado entre a lucidez e a loucura, lidando com a tendência inconsciente dos pacientes de manipular certos sintomas, além do próprio olhar possivelmente viciado do psicanalista, que deve ser dominado.

Como se toda essa dificuldade não fosse suficiente, as inúmeras variáveis contidas em cada indivíduo ainda estão imersas em um contexto social, fundamental na constituição da personalidade e com um potencial enorme para agravar certas tendências de comportamento, ou seja, determinadas vontades e desejos podem não ter nada de patológico, mas por ser algo socialmente recriminado, qualquer um pode acreditar piamente em um distúrbio pessoal e até mesmo agir no sentido de corroborar esta crença.

Desfazer esse emaranhado de influências, que podem causar sérios danos ao paciente, nem sempre é tarefa fácil. Ainda que para quem analise um paciente a solução de seus problemas seja simples, quem vive em meio ao caos dos próprios problemas costuma oferecer grande resistência às mudanças; em outros casos os sinais fornecidos pelos pacientes e passíveis de análise são complexos e confusos para o psicanalista.

Jung, a quem o filme dá mais destaque, via em Freud uma grande fonte de saber e alguém em quem se espelhar; ao menos até ganhar notoriedade no meio acadêmico e ser tocado pela vaidade da própria fama. Já Freud reconheceu logo, no jovem que buscava auxílio, um sucessor para suas teorias, pois já fazia ideia do impacto de suas ideias sobre a psicologia. O trabalho em conjunto, recorrente entre os profissionais que frequentemente precisam de uma segunda opinião sobre determinado caso, tinha tudo para ser extremamente produtivo e benéfico, porém as mesmas influências que agem sobre a psique de um paciente atuam também sobre os analistas, tendo a vaidade um grande potencial de destruição.

Difícil dizer quanto o rompimento dos dois pesquisadores influenciou na psicanálise, mas ao longo da história não faltam exemplos de mentes brilhantes que esbarraram no próprio ego. Entre erros e acertos do método exibido no filme fica a sensação de algo talvez perigoso, pelos percalços exibidos, mas também a admiração pelo esforço do desenvolvimento de um trabalho psicanalítico livre de medicamentos, cuja eficiência costuma ser duvidosa, e baseado na atenção e respeito aos relatos dos pacientes, fato que nem sempre vemos nos consultórios de hoje.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Para a sorte de quem admira o cinema nacional, mais uma obra literária de Marçal Aquino ganha uma adaptação para as telas. A parceria de sucesso com o diretor Beto Brant é mantida, com o auxílio de Renato Ciasca. As obras de Aquino podem não ser muito fáceis de adaptar, afinal o autor tem amadurecido seu estilo e aprimorado cada vez mais as histórias paralelas que recheiam a narrativa, sempre rica e detalhada. Apesar disso a experiência adquirida ao longo de vários trabalhos com Beto Brant faz com que o roteiro consiga extrair a essência da obra, fazendo uma verdadeira adaptação cinematográfica, transpondo os pontos necessários à trama.

Cauby (Gustavo Machado) continua sendo o narrador, porém sem a voz ativa do livro, apenas com sua presença marcante em todas as cenas, fazendo com que o seu ponto de vista em relação aos fatos seja passado ao público. Diferente do personagem mais intelectualizado do livro, aqui temos uma personalidade mais leve e solta, distante de compromissos mais profundos e interessado em viver de forma mais simples, ainda assim sempre intensa.

Lavínia (Camila Pitanga), como não poderia deixar de ser, mantém todo o esplendor da personagem do livro. Com grande interpretação, que consegue manter toda a intempestividade e complexidade da personagem, cujo humor alterna rapidamente. Somos fisgados pela curiosidade e vontade de conhecer um pouco mais sobre os mistérios que se escondem por trás da bela moça. Seria um casal perfeito, sem grandes laços familiares, em uma cidade distante, com a possibilidade de algo próximo ao ‘felizes para sempre’, que insistem em tentar nos vender. Porém, as histórias de Marçal Aquino retratam muito bem a realidade.

Ernani (Zecarlos Machado) é o pastor que prega seus cultos aos índios locais e, para a insatisfação de Caubi, é casado com Lavínia. A religião do pastor no filme é um pouco mais próxima à realidade local, já que no livro a ideia parece ter sido a continuidade de uma igreja que, desde o descobrimento do Brasil, busca fiéis entre os índios, suprimindo as características locais. O pastor das telas é mais descontraído e visa alertar os moradores sobre o risco da exploração por parte da mineradora e de madeireiros, porém sem abandonar completamente o poder de doutrinação da palavra religiosa.

Um triângulo amoroso bem estruturado e com fortes relações entre os personagens já forneceria material suficiente para um longa, mas Marçal Aquino tem grande facilidade em utilizar problemas sociais locais para engrandecer suas obras, encaixando muito bem uma série de personagens entrelaçados, que dão fluência à obra.

A poesia do título condiz com o relacionamento de Lavínia e Cauby. A magia encantadora de um casal recém-formado é permeada por fotografias artísticas e um estilo de vida que se encaixa perfeitamente com o relacionamento construído. O que chama a atenção em Lavínia, talvez até mais que sua alternância de humor, é sua lealdade em relação ao pastor Ernani. O fato de a moça ter o coração dividido entre duas paixões faz com que sua situação seja bastante real. A fidelidade cobrada pelo tradicional amor romântico é facilmente tentada frente a determinadas situações e a confusão de Lavínia, que reconhece a importância de seus dois amores, fazendo o possível para corresponder a ambos, sem conseguir abrir mão dos benefícios distintos que cada um tem a oferecer, a torna ainda mais distante de uma simples personagem.

A inserção do trio no meio social em que estão revela como ainda é forte a cobrança social em relação ao comportamento individual. Sobretudo quando a população é fortemente influenciada pela igreja e o pastor desta tem sua reputação manchada por um forasteiro descompromissado. Se por um lado a igreja retratada cumpre o interessante papel de alertar e informar a população sobre os problemas causados pela mineradora e pela extração de madeira – ainda que esta não seja uma responsabilidade religiosa – por outro é quase inevitável que a doutrinação religiosa acabe cerceando certas crenças locais. Este é, estruturalmente, o ponto mais distinto entre livro e filme, já que nas telas a igreja de Ernani é menos estereotipada, mesclando diversos elementos para formar a religião. Ainda assim fica evidente que certos problemas, como a tensão gerada pela existência do triângulo amoroso, já são complexos o suficiente sem a intervenção de outras pessoas.

Profundo e poético, ‘Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios’ chama a atenção por vários aspectos. Tem talento de sobra, desde a concepção do livro por Marçal Aquino, passando pela direção competente de Beto Brant e Renato Ciasca, até a atuação impecável dos atores, sobretudo de Camila Pitanga, que definitivamente deveria abandonar as novelas e nos presentear com mais atuações no cinema.


terça-feira, 10 de abril de 2012

The Wall

Don't be surprised, when a crack in the ice
Appears under your feet
You slip out of your depth and out of your mind
With your fear flowing out behind you
As you claw the thin ice


The Wall, da banda Pink Floyd, poderia ser apenas um álbum bastante intimista, já que Roger Waters, seu idealizador e principal compositor, expõem ao longo da obra muitos de seus traumas e medos acumulados desde a infância, que culminam em um músico que, apesar de bem sucedido, continuava enclausurado pelo muro que construiu pouco a pouco na tentativa de se afastar do sentimento de inadequação frente à sociedade. Entretanto a genialidade do quarteto britânico permitiu a produção de um dos discos mais vendidos da história, dando base para concretizar a ideia da produção de um longa-metragem, que mais parece uma aula de história e vai dos aspectos mais gerais aos sentimentos mais particulares.

Várias histórias permeiam a produção do filme, desde desistências até brigas e desapontamentos. O fato é que o resultado final traz o roteiro de Roger Waters dirigido por Alan Parker, com o protagonista Pink vivido por Bob Gedolf. O próprio Waters gostaria de atuar no papel principal, mas, sem querer questionar seu potencial artístico, dificilmente sua atuação seria tão primorosa, com as expressões de desespero e a cara de demência de Gedolf em “Nobody home”. O resultado de todos esses talentos é um filme que há trinta anos reúne fãs, não apenas pela qualidade técnica ou pela presença das músicas mais que consagradas, mas principalmente pelo sentimento bastante atual que a obra ainda transmite.

Os pais de Pink formam os primeiros tijolos de seu muro. A ausência da figura paterna devido à morte do pai na Segunda Guerra soma-se ao amor incondicional e egoísta da mãe que, mesmo com a melhor das intenções, acaba não preparando o filho para os percalços da vida. Ainda que com agentes diferentes, este cenário familiar é bastante comum, principalmente a ideia de pais superprotetores que não percebem os problemas do excesso.

Com os alicerces do muro já preparados, Pink vê na escola mais uma instituição castradora, inibindo sonhos e projetos. O professor imerso em problemas pessoais parece encontrar em suas aulas sádicas a redenção de seus próprios sentimentos. Sob um ponto de vista mais abrangente, a escola é uma das principais formas de massificar os alunos, padronizando comportamentos e hostilizando diferenças. Estes talvez sejam os tijolos mais imutáveis desde a época retratada no filme. A frustração do personagem encontra cúmplices em qualquer escola, em qualquer período histórico que seja analisado, em qualquer série da formação escolar.

A despeito das dificuldades, Pink chega à vida adulta e se torna um astro do rock. Resta a dúvida se ele realmente superou os traumas ou o gelo fino da normalidade pode quebrar a qualquer momento. O que parecia ser o início de uma superação é para o protagonista a confirmação do isolamento. A tentativa de um romance esbarra na complexa relação inconsciente com a mãe superprotetora e a famosa metáfora sexual das animações com flores indica como o complexado protagonista encontra mais material para seu muro com a rejeição da esposa.

Permeando a família, a escola e a fama, temos o estado totalitário impondo políticas e sufocando os indivíduos de diversas formas. Não é necessária uma guerra propriamente dita para tais absurdos. A águia alemã que rasga a terra em “Goodbye blue sky” não é outra senão o imperialismo, não necessariamente nazista, que constrói muros para destruir crenças e sonhos individuais, massificando desde os judeus rumo ao campo de concentração, até crianças na escola conforme a sequência de “Happiest days of our lives”.

Sem o refúgio da família, sem muitas referências externas e bombardeado pelo ritmo frenético de trabalhar ininterruptamente para poder consumir, Pink se vê sufocado e tenta encontrar seu lugar na sociedade. Em meio à juventude que, sem dinheiro para o consumo, mas seduzida pelo estilo de vida consumista, saqueia lojas, ou que resolve se entregar à luxúria Pink só consegue reviver os traumas do passado, o isolamento e a rejeição.

Aqui cabe o grande ponto da depressão, retratada com maestria no filme. Nesta fase de sua vida Pink não tinha grandes problemas aparentes. Vivia em um apartamento gigante, com uma linda garota, uma banda de sucesso e todas as condições para desfrutar a vida. Se os problemas fossem evidentes e notórios ele estaria simplesmente triste, porém as cicatrizes invisíveis de ferimentos profundos são as responsáveis pela apatia tão incompreendida, seja no personagem ou em tantas pessoas reais, que por uma conjunção de fatores não conseguem se livrar de seus traumas. Haja tijolos para tantos muros.

Cada vez mais enclausurado e introspectivo, as memórias de Pink não são nada animadoras, culminando em um estado que beira a demência. Seria impossível romper o muro sem ajuda, mas em meio a novas rejeições o artista é resgatado pelos 'vermes' para viver o outro lado da moeda e passa a impor as mesmas hostilidades sofridas ao longo de sua vida. A mesma dureza apresentada em "What shall we do now", o mesmo sufoco é mostrado em "Waiting for the worms", mas ao invés do consumo é a ideologia imposta que massacra, que impede a vida. Tanto o consumismo quanto o autoritarismo levam a exaustão e esgotam suas forças escassas.

Com os principais pilares de sua vida minados ao longo do filme resta a dúvida: vale a pena destruir o muro construído ao longo da vida, ou encarar a sociedade que forneceu cada tijolo seria uma condenação? Evidentemente o mundo atual é diferente do pós-guerra que inspirou diretamente o filme, mas ainda tem fortes raízes neste período da história e as semelhanças continuam a gerar traumas pessoais muito condizentes com os retratados por Roger Waters. Em uma sociedade que cobra o hedonismo ilimitado sem oferecer muitos elementos para isso, The Wall se mantém imprescindível. A obra ensina, perturba e instiga a mobilização contra tantos absurdos aos quais somos submetidos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Xingu

O filme de Cao Hamburger tem como guia a história dos irmãos Villas-Bôas e a empreitada destes na expedição Roncador-Xingu, que culminou com a criação do Parque Nacional do Xingu, há cinquenta anos. Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas (Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat) viajam rumo ao Brasil central e começam a contatar os primeiros índios, para pouco a pouco fazer o intermédio entre duas sociedades bastante distintas.

Por parte dos irmãos vemos uma sensibilidade que deveria ser básica e óbvia, visto que apenas olhavam para os índios como habitantes locais, com valores distintos e estranhamento diante de cada detalhe de uma cultura desconhecida. O que torna essa postura especial é o fato de tantas pessoas – desde o descobrimento do Brasil até hoje em dia, passando pela época retratada – verem os índios com desprezo, como se fossem eles os invasores de terras, que por direito supostamente seriam dos brancos.

Alguns equívocos dos Villas-Bôas foram inevitáveis, sobretudo graças às situações novas e inusitadas, muitas vezes até sem solução, pelas quais tiveram que passar. Mas além da saga dos três irmãos, o filme nos apresenta questões antigas, abertas até hoje e que frequentemente ganham notoriedade. É um papel importante do cinema alertar para diversos pontos, facilitando a compreensão da sociedade e desfazendo preconceitos fortemente enraizados.

Ainda que seja antiga a e óbvia a evidência de que os índios foram os primeiros a chegarem em terras hoje brasileiras e, consequentemente, ocuparam o território colocando em prática um estilo de vida totalmente diferente do que estamos acostumados, é visível no filme como este uso raramente é respeitado. Em linhas gerais ou a posse das terras aparece repentinamente nas mãos de algum latifundiário, visando à lavoura ou criação de gado, ou o estilo de vida indígena é desconsiderado, de forma que a tentativa de conciliação entre as duas sociedades se dá com base na sociedade urbana, espremendo pessoas em pequenos lotes, inviabilizando a caça, pesca e qualquer atividade indígena.

É importante ressaltar que a visão indigenista atual difere da apresentada no filme, já que a tentativa dos Villas-Bôas de manter os índios afastados dos brancos e conservar sua cultura sem a presença de elementos herdados dos colonizadores é inviável. Pelo tanto de adeptos, parece sedutor defender que os índios devem manter os próprios costumes intactos, caso contrário, devem parar de reivindicar seus direitos e adaptar-se ao modo de vida dos brancos. Porém nossa sociedade vive em um caldo cultural formado por elementos heterogêneos. Herdamos dos índios muitos hábitos de vida, costumes e práticas que se somaram a tantos outros elementos culturais distintos, assim como as tribos incorporaram muito de nossos hábitos em seus cotidianos.

Cobrar de tribos indígenas a vida isolada e livre de elementos de nossa sociedade seria cobrar um retrocesso que não impomos aos nossos próprios hábitos. Podemos pensar que o estilo de vida em grandes cidades no início do séc. XX era mais saudável, menos agressivo ao ambiente e viável para a sociedade, porém seria absurdo propor a volta dos mesmos moldes de vida, dado que os desdobramentos históricos não são reversíveis. Os problemas devem ser resolvidos com base em elementos presentes, não com proposta de volta ao passado.

Responsabilizar os índios pelos conflitos atuais pela disputa da terra é fechar os olhos para injustiças históricas, sem que para isso tenhamos que retornar a um passado muito remoto. Vemos em Xingu que na época retratada fazendeiros já invadiam terras do norte do país para construírem suas fortunas através do cultivo de monoculturas, geralmente voltados à exportação, que sequer fornece alimento ao próprio país.

Além disso, militares já impunham sua ignorância por meio de força política e bélica para por em prática vontades insanas, que a despeito dos indígenas visavam à instalação de bases onde nunca foram necessárias, tão pouco úteis. Com o advento da ditadura militar a questão indígena, como todas as outras em território nacional, foi ainda mais negligenciada. O símbolo máximo de desrespeito é apresentado no filme através do início da construção da Rodovia Transamazônica. A obra colocada como imprescindível pelos militares, cujo progresso nada poderia barrar, segue até hoje como uma rota esburacada, muito pouco útil e marcada pelos impactos socioambientais gerados.

A beleza das paisagens exuberantes do Xingu e o trabalho dos irmãos Villas-Bôas diante das insanidades políticas contra os indígenas devem ser reverenciados, porém sem esquecer alguns absurdos que rondam ainda hoje a relação desnecessariamente complicada entre índios e brancos. A quem soa absurdo destinar uma área equivalente à Bélgica aos índios, resta a dúvida: não é mais absurdo concentrar vinte milhões de pessoas no perímetro urbano da grande São Paulo?


terça-feira, 27 de março de 2012

A Onda (Die Welle)

E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada.
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada.
A história se repete mas a força deixa a história mal contada.


Saber que o roteiro do filme de Dennis Gansel foi baseado em fatos reais só o torna mais perturbador e instigante. A tentativa pedagógica do professor Reiner Wenger (Jürgen Vogel) de por em prática um regime autocrático com seus alunos até perder o controle da situação pode parecer absurda, mas o longa é bem conduzido ao ponto de convencer que a experiência é assustadoramente viável, bastando que o líder saiba quais os pontos certos a serem trabalhados. Dizer que a Onda é uma loucura é uma conclusão rasa diante de tudo que dá estrutura à ideia.

A escola inevitavelmente tem grande influência no sistema de pensamento do indivíduo. É uma etapa fundamental no processo de socialização de cada um e trabalha em um processo de formação individual, consequentemente de formação da própria sociedade. Outro importante pilar desse processo de formação é a família, como indica o filme através de Karo (Jennifer Ulrich), que contesta ordens escolares principalmente depois de ter sido alertada pela mãe sobre a importância de lançar um olhar crítico em relação às ordens recebidas. Uma análise possível é que as principais críticas não devem ser destinadas apenas ao professor, mas ao ensino prévio que os estudantes tiveram, pois todos encontraram na Onda pontos que a escola deveria oferecer desde os primeiros anos, porém acompanhados de senso crítico.

O grande atrativo da Onda acabou sendo a oferta do que os estudantes, mesmo sem se dar conta, demandavam, ou seja, respeito e tolerância para evitar o bullying, como no caso de Tim (Frederick Lau); o trabalho em grupo; uma meta a ser seguida por adolescentes confusos; desafios a serem vencidos; etc.

Evidentemente que o trabalho do professor é censurável. Para exemplificar, quando os estudantes não querem marchar e o professor coloca como sentido para tal atitude atrapalhar a aula da outra turma, ele passa (junto com a ideia de trabalhar em grupo) a intolerância e a rivalidade negativa aos alunos. Vemos nessa cena como os adolescentes gostam e querem uma meta, um desafio, portanto cabe ao professor encontrar formas de lhes estimular, porém sem criar rivalidades hostis como no filme.

Entretanto o docente viu desde o início que os estudantes preferiam sua aula, mesmo com um tema menos atrativo, à aula de anarquia com um professor extremamente conservador e desinteressante. Além disso, talvez nada seja mais estimulante a um professor do que seu plano de aula se mostrar extremamente bem sucedido, ao menos aparentemente, fazendo com que os limites de Reiner se tornassem quase inexistentes.

Além do desdobramento do experimento dentro da escola, o lado político do implemento de um regime autocrático, sobretudo na Alemanha, torna-se bastante inquietante. Mais de meia década após a queda do Terceiro Reich não faltam obras de arte, em todas as suas vertentes, retratando os horrores da Segunda Guerra. Até mesmo no filme, quando o Reich é mencionado, alguns alunos se mostram enfadados com o assunto recorrente. Fora das telas, sempre que algum material novo sobre o tema é lançado alguém comenta sobre o suposto esgotamento.

A lição explícita da Onda é que um regime autocrático não está tão distante e tão inerte quanto parece, ou quanto deveria. Em uma época carente de ideologia, quando ser politizado é quase um absurdo, um bom orador pode muito bem maquiar certos termos fascistas e exaltar o conteúdo integralista de um regime autocrático para dar vazão ao potencial de um grupo unido diante de um objetivo.

O que fica implícito no filme é que talvez seu conteúdo não esteja restrito a uma sala de aula alemã, distante da vida real. Em uma sociedade baseada no consumo, onde as pessoas são induzidas a comprarem roupas semelhantes, ouvirem músicas parecidas, consumirem os mesmos alimentos, etc., não é muito difícil supor que as pessoas abdiquem de sua individualidade, mesmo sem perceber, e prefiram um padrão a ser seguido a refletir sobre suas próprias vontades e necessidades. Acostumadas com a falta de senso crítico, ficam mais susceptíveis a ideologias políticas que aparentemente as fortalecem.

Não é raro vermos, por exemplo, uma polarização política no Brasil, através da qual eleitores do sudeste tendem a se posicionar como superiores à população nordestina, sem perceber a manipulação que permite a exploração do povo, já que este está mais preocupado com falsas disputas regionalistas do que com o combate à exploração como um todo. Mesmo dentro de uma cidade é possível identificarmos falsas clivagens que criam pequenos grupos, forjando uma superioridade tão falsa quando a Onda.

Os problemas sociais que permitem a criação de um grupo como a Onda devem ser combatidos em suas raízes, não em suas aparências. Esta é uma das grandes lições que a sociedade insiste em não aprender depois do Nazi-Fascismo.

terça-feira, 20 de março de 2012

Raul - o início, o fim e o meio

Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem filé come pão e osso duro
Quem não tem visão bate a cara contra o muro


O filme do diretor Walter Carvalho acompanha a vida de Raul Santos Seixas do início ao fim. O material filmado para a produção foi extenso e diversificado, além disso, a própria vida de Raul Seixas foi cheia de altos e baixos, com fases distintas e divergências que fizeram da metamorfose ambulante um dos artistas mais consagrados do Brasil. Mesmo com essa diversidade o resultado final é um ótimo documentário, que mostra vários depoimentos sobre cada tema, deixando que a conclusão seja tirada por cada fã.

Foi ainda na infância que Raul começou a ter contato com o rock, estilo que também vivia sua infância, dando os primeiros passos desajeitados com Elvis Presley. Entre o mar de fãs de Elvis estava o menino baiano, que desde cedo mostrava divergências com os padrões sociais, enfrentando a família não como desrespeito, mas para traçar o próprio destino, como descreveria anos depois na canção ‘Sapato 36’. A descoberta e paixão pela música acabaram canalizando a criatividade do garoto que poderia não saber muito bem para onde estava indo, mas sabia que estava em seu caminho.

O novo estilo musical chegava timidamente ao país. Ainda desconhecido e primando sempre pela liberdade, contestação e questionamento, o rock se encaixou perfeitamente à personalidade intempestiva de Raul, que desde sua primeira banda, Raulzito e os Panteras, contribuiu decisivamente para o desenvolvimento de um rock brasileiro, misturando elementos nacionais como o baião, a MPB, o acordeom, mas sem perder as influências internacionais. Essa síntese fica clara em “Let me sing, let me sing”, na qual o músico mostra muito bem seu estilo despojado, com personalidade forte, que conseguiu encaixar ritmos nordestinos em meio a muito rock, blues e country.

A genialidade de Raul não costumava andar só. Ao longo da vida o artista contou com vários parceiros para letras e melodias, muitos deles aparecem no filme com depoimentos emocionantes e divertidos. Tendo uma vida marcada por fases tão diferentes, é natural que algumas entrevistas se mostrem contraditórias entre si, mas um ponto alto do filme é manter exatamente uma característica muito presente na vida e obra de Raul, ou seja, a fuga do maniqueísmo para mostrar que o mundo é mais complexo do que a divisão entre certo e errado pode sugerir.

As parcerias não renderam apenas músicas. Com os grandes amigos que fez durante a vida, Raul desenvolveu suas ideias sobre temas recorrentes em suas canções. Religião, drogas, amor, política, etc. Cada um desses temas poderia render um documentário à parte, já que as letras não costumavam ser diretas e claras.

Repletas de metáforas e com assuntos complexos – ainda que abordados propositalmente de forma simples – algumas músicas de Raul, sobretudo as que foram compostas em sua fase mais mística, possuem diversas interpretações que muitas vezes chegam a conclusões contrárias. Gerar polêmica era a provável intenção do músico; se equivocam aqueles que pensam compreender definitivamente uma das obras daquele que já dizia ter passado por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas. Que aos onze anos já desconfiava da verdade absoluta.

Com o auge de sua carreira no auge da ditadura militar, Raul driblou várias vezes a censura, mostrando de forma direta e discreta o ouro de tolo que era o crescimento econômico do período. Não deixou de engrossar o número de exilados da época, fazendo do período que passou nos Estados Unidos uma grande aprendizagem. Ainda que a carreira internacional que tanto almejava não tenha decolado, o artista deixou algumas de suas marcas no país, como suas músicas e familiares.

As entrevistas com as companheiras que Raul Seixas teve ao longo da vida permeiam o documentário com depoimentos que revelam um lado muito terno. Não dá para pensar em uma família nuclear e tradicional por parte de quem cantou o amor em sua forma mais livre, que se por um lado pode machucar – característica inerente a este sentimento – por outro também liberta e agrega a cada indivíduo que o experimenta. Raul sabia muito bem que um amor a dois profana o amor de todos os mortais, sendo este mais um aspecto vivido intensamente pelo músico, até o fim de sua vida.

Com muita competência a vida de Raul Seixas foi condensada nessas duas horas de documentário, que servem tanto de memória aos que presenciaram a carreira do artista, quanto de apresentação deste que é um dos maiores nomes da música nacional. Sua vida pode ter sido curta, mas de intensidade infinita, guiada na palma de sua mão. Raul Seixas morreu dormindo tranquilamente, deixando uma legião de fãs e um legado para o rock nacional. Não importa quem esteja no palco, alguém na plateia sempre gritará: TOCA RAUL!




terça-feira, 13 de março de 2012

Nossa vida não cabe num Opala

O filme do diretor Reinaldo Pinheiro conta a história de quatro irmãos que, depois da morte do pai (Paulo Cesar Pereio), continuam a vida dura, com uma série de problemas e que, principalmente através da relação de dependência com Gomes (Jonas Bloch), revelam implicitamente relações de poder impostas por questões de gênero e, sobretudo econômicas.

Para ganhar a vida os dois irmãos mais velhos, Monk (Leonardo Medeiros) e Lupa (Milhem Cortaz), roubam carros. Os dois têm perfis diferentes, já que o primeiro chega a ser criticado por ter estudado, gostar de leitura e não ter, materialmente, ganhado nada com isso, enquanto Lupa, que ganha destaque com a ótima atuação e com a quebra certas tensões com um pouco de humor, sempre se orgulhou de, aparentemente, viver a vida da forma que lhe convém, avesso às formalidades e imposições sociais. O estudo parece não ter feito diferença entre os irmãos e o alvo dos roubos não é qualquer carro, mas Opalas, carro antigo que sempre foi símbolo de masculinidade.

O irmão mais novo é Slide (Gabriel Pinheiro), que tem os mais velhos como referência e mesmo contra a vontade deles quer seguir os passos de ladrão de carros. Um ponto em comum entre os três, herdado do pai da mesma forma que a profissão, é a dependência de Gomes, que financia a família e faz com que os roubos sejam lucrativos. Evidentemente que essa relação não é harmoniosa e os irmãos são explorados economicamente. Todos têm consciência disso e a todo o momento lembram Gomes que o finado pai foi arruinado por ele, que deixa claro sua indiferença.

Por fim, a única irmã é Magali (Maria Manoella), que apresenta outra relação de dominação muito presente na história. O machismo é latente ao longo de todo o filme, a ponto de incomodar, indignar e envergonhar qualquer pessoa. Todos os homens do filme são machistas, cada um de sua forma, e Magali é o principal alvo, sobretudo de Gomes. A tímida tecladista que se apresenta em um bar, onde é obrigada a abandonar suas preferências musicais e tocar músicas bregas, para atrair clientes ainda mais bregas, acaba sendo assediada de forma repugnante, por homens que insistem em tratar mulheres como mercadoria. Gomes, indicado como o melhor cliente, é o que mais considera como virtude ter dinheiro para pode pagar pelo que quer.

Até aqui o filme, infelizmente, retrata o cotidiano. Não faltam exemplos reais que corroboram os estereótipos encenados, porém é interessante notar a submissão do machismo ao poder econômico, indicando inclusive, ainda que historicamente mulheres sejam as grandes vítimas desse absurdo sem nenhum sentido, que o machismo em si não chega a ser benéfico para o homem, a menos que ele detenha também o poder econômico.

Os três irmãos, orgulhosos em ostentar a virilidade quando estão juntos, acabam ocasionalmente saindo com Silvia (Maria Luiza Mendonça) e ela é o exemplo mais claro de como muitas vezes a imagem que o machismo impõe ao homem é insustentável, sobretudo quando estes são sobrepujados por outras relações de poder. Aqueles mesmos machos que contam vantagem nos botecos com histórias nas quais são mais que heróis, mostram-se perdidos diante de Silvia, tão submissos diante das mulheres quanto diante daqueles que os oprimem economicamente. O único que consegue se manter um pouco mais coerente é Monk – que fique claro que ser coerente para sustentar o machismo não é nenhum triunfo.

De maneira sutil, por vezes cômica, o filme mostra como a vantagem que o machismo oferece à maioria dos homens não passa de migalhas para confortar ignorantes, que caso percebessem os absurdos ao que se sujeitam, poderiam unir forças contra a dominação econômica, ao invés de contar vantagem sobre uma falsa postura, que sustenta uma superioridade que na maioria das vezes não beneficia quem a detém.

No caso do filme, o machismo é o elemento que satisfaz os irmãos, que com exceção de Monk mal se dão conta da própria condição de marionetes, pois quem realmente ganha com toda a situação exposta é Gomes, que por deter o poder econômico diante dos irmãos, inclusive Magali, pode até utilizar as táticas mais mesquinhas para obter o que quer, sem a oposição por parte dos desarticulados oprimidos, jogados uns contra os outros por uma estrutura social predatória.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...