quarta-feira, 26 de maio de 2010

Notícias de uma guerra particular

A princípio este parece ser mais um filme sobre o aparentemente interminável conflito entre policiais e traficantes, desta vez sob a ótica de Katia Lund e João Moreira Salles. A diferença não está apenas no fato de ser um documentário, isento de fabulações, mas ainda que todo documentário esteja subordinado à visão do diretor, aqui a dupla trabalhou com as principais partes envolvidas, ou seja, ao longo do trabalho vemos entrevistas de moradores, policiais e traficantes, intercaladas. A comparação nos permite identificar conclusões em comum dos três setores, além de percebermos que diferente das brincadeiras infantis de polícia e ladrão, na vida real mocinhos e bandidos não são tão facilmente distintos.

O maniqueísmo que o senso comum tenta impor é quebrado pelos próprios policiais quando o então chefe da polícia civil, Hélio Luz, dá declarações polêmicas, assumindo a corrupção entre policiais – fato que seria inegável – e dizendo claramente que a polícia garante a segurança dos ricos, pois na favela é necessário manter a ordem e a ferramenta para isso é a repressão. Poderíamos pensar na legitimidade do uso da força pelo estado para estabelecimento da ordem, não fosse pelas declarações de moradores afirmando que antes do domínio do tráfico os policiais entravam na favela com muito mais agressividade, pois não havia reação dos moradores, e os papeis se misturam a partir do momento que moradores tinham eletrodomésticos e objetos de maior valor levado pelos policiais, que alegavam ser produto de roubo, ainda que sem provas.

Evidentemente que com isso não podemos concluir que há uma simples inversão de valores, pois se por um lado o tráfico supre certas necessidades dos moradores, que seriam dever do estado, é latente a crueldade com que dívidas são cobradas e que crimes são cometidos. Ainda que, segundo traficantes entrevistados, o surgimento do crime organizado tenha sido para melhorar a vida de presos e dos próprios moradores da favela, com o intuito de “regulamentar” a violência entre traficantes rivais e oferecer resistência frente à polícia, é indispensável lembrar que os envolvidos com o tráfico de drogas entram para o crime ainda muito jovens e têm toda sua formação marcada pela banalização da violência.

Ainda que uma porcentagem baixa da sociedade entre para a criminalidade – como bem lembrado por Hélio Luz, se essa fosse uma opção generalizada o crime não seria um estado paralelo, mas tomaria o poder de fato – já é um número significativo para abalar a sociedade como um todo, e isso desconstroi a opinião do policial que considera uma guerra particular os conflitos na favela. Pela fala dos três setores entrevistados não é difícil perceber o que leva os jovens à marginalidade. É muito clara a diferença entre os que não entram para o crime e optam por trabalhar nos empregos legalizados, sentindo as consequências de um estado omisso em relação à qualificação profissional. Geralmente com pouco estudo, o salário baixo do subemprego é quase fatídico e o alto lucro do tráfico torna-se extremamente sedutor por proporcionar condições de manter um padrão de consumo mais elevado. Muitos preferem uma vida curta a uma longa exploração legal.

Talvez o maior consenso do filme seja a indicação da miséria como fonte dos conflitos. Essa percepção com base no cotidiano é comprovada por pesquisas que não colocam os municípios mais pobres como mais violentos, este posto é ocupado pelos mais desiguais. A discrepância entre o padrão de vida de um trabalhador e um traficante; a diferença de tratamento pelos policiais entre um morador de favela e um bairro nobre; a omissão do estado para uns e a corrupção para outros. Todos esses fatores que podem parecer repetitivos e cansativos, mas que persistem há séculos, com pequenas mudanças de forma, mas com o eterno conteúdo de exploração culmina em um documentário como este.


O filme pode (e deve) ser assistido integralmente no Youtube.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre meninos e lobos (Mystic River)

Sobra talento individual neste longa dirigido por Clint Eastwood, a começar do próprio. Em adaptação do livro homônimo, Eastwood faz um filme policial em Hollywood, entretanto descontroi diversos estereótipos e na maior parte do longa fica distante da abordagem convencional de diretores norte-americanos. Não se trata de um bang bang moderno com tiroteios pelas ruas movimentadas, nem do maniqueísmo que separa mocinhos e bandidos tentando eliminar qualquer ponto em comum entre ambos. Vemos uma mistura de meninos e lobos – um bom título em português – representada pelos protagonistas, que podem estar ora de um lado, ora de outro da linha extremamente tênue, se não inexistente, entre o certo e o errado.

Os referidos protagonistas são nada menos que Jimmy (Sean Penn), Dave (Tim Robbins) e Sean (Kevin Bacon), três amigos na infância que o tempo, com influência do sequestro de Dave, reduziu a vizinhos distantes. Até neste ponto o roteiro mistura bem e mal, pois uma tragédia, alfinetando a pedofilia na igreja católica, separa os amigos que só voltam a ter contato e a revisitar as memórias após outro fato trágico, desta vez com a família de Jimmy.

O título original, Mystic River, remete ao rio que corta a cidade de Boston, mas também forma uma interessante metáfora para a história cercada de mistérios e personagens mergulhados em si, cada um com suas mágoas de forma a beirar o ocultismo. As vidas carregadas por um passado bastante traumático desencadeiam fatos que culminam em um quebra-cabeças para o agora policial Sean e seu parceiro Whitey (o coadjuvante (!) Laurence Fishburne). Mesmo sendo guiado pelo mistério de um crime não solucionado, não é este o ponto forte do filme, pelo contrário, pois a dúvida não chega a prender tanto a atenção e as hipóteses que tentam montar vários suspeitos são facilmente desconstruídas.

Chama a atenção a densidade dos personagens e a fragilidade da história construída por nuances que só funcionam se estiverem cuidadosamente estruturadas de forma impecável. Esse encadeamento dos fatos culminando em um ponto específico é citado no próprio filme quando Jimmy diz que a mãe de Hitler cogitava um aborto, o que poderia ter mudado a história da humanidade. E com quantas pequenas tragédias cotidianas não nos deparamos durante a vida? Fatos inexplicáveis nos quais há tantos detalhes, individualmente irrelevantes, mas indispensáveis ao todo, que, talvez por comodidade, culpamos o destino.

Por fim, adeptos da justiça com as próprias mãos e defensores da pena de morte, sobretudo diante da confissão do criminoso, talvez tenham que reestruturar seus argumentos depois do que o enredo nos apresenta. Será válido analisar um fato sem levar em conta sua história, para que uma decisão tão drástica e definitiva seja tomada? Com que legitimidade nos colocamos do lado dos meninos, se a qualquer momento um destes – talvez nós mesmos, dependendo do ponto de vista – age como um lobo? O trabalho de Eastwood mostra uma lógica segundo a qual cada detalhe é tão relevante e tão frágil que a qualquer momento uma tragédia pode encobrir a outra.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

As melhores coisas do mundo

Laís Bodanzkiy mergulhou no universo dos adolescentes de classe média alta através do personagem Mano (Francisco Miguez), e com os estereótipos bem encaixados dos elementos que circundam o jovem a diretora consegue evidenciar fatos cotidianos que nos levam a contestar alguns paradigmas sobre esta conturbada fase da vida e sua relação com a fase seguinte, dos pais.

A ideia bastante consensual transmitida aos filhos é a de que eles estão vivendo em uma fase sem problemas ou preocupações, uma vez que não precisam se preocupar com o pagamento das contas ou o sustento da família. Entretanto esta visão simplista do que são as “verdadeiras” dificuldades remete ao fato de que os problemas que ocorrem conosco sempre parecem piores do que os das outras pessoas. Ao passar pelo filtro do tempo os pais parecem esquecer as angustias, as pressões e os sentimentos intensos desta fase naturalmente cheia de dúvidas, em que ainda não estamos plenamente inseridos nos processos sociais e acreditamos que tudo é definitivo e dramático.

A opinião unanime dos jovens é a de que os pais cometem erros bobos e quando tiverem filhos tudo será diferente, pois a relação será pautada na amizade. A doce ilusão chega ao fim quando os filhos nascem, crescem e, quando chegam à adolescência, estragam tudo, ou seja, todo o planejamento de uma relação amigável cai por terra devido à personalidade do jovem não ser condizente com a construída pelos pais quando eles eram adolescentes. Apesar de ser fácil concordar que é necessário respeitar a individualidade, as vontades e a personalidade do outro, na prática tudo fica diferente quando este “outro” é alguém com quem sonhamos há anos, com cada detalhe de comportamento, preferências, etc.

Não é apenas dessa forma subjetiva que a diferença entre o que achamos correto e o que achamos correto que aconteça conosco aparece no filme. Sem querer estragar surpresas, Bodanzky trabalha muito bem temas polêmicos que as pessoas costumam tolerar sem problemas, desde que só aconteça com os outros. A intolerância é mais curiosa entre os mais velhos, pois seria de se supor que a maior bagagem cultural e o acumulo de experiências vividas servissem para trabalhar os fatos de forma mais eficiente, sem a herança do romantismo que é tão presente nos jovens, e bem abordado no filme pelo personagem Pedro (Fiuk); mas na adolescência os desdobramentos de atitudes hostis podem não ter um final tão harmonioso quanto a fabulação permite nas telas.

A hostilidade no ambiente escolar é antiga – tanto que qualquer um que assiste ao filme reconhece algumas situações como familiares –, a diferença é que hoje o desenvolvimento da tecnologia, que facilita as pesquisas escolares e contribui para a formação dos estudantes, também pode ser utilizada para fazer com que pequenos fatos da vida particular dos alunos tornem-se públicos. Somando os insubstituíveis hábitos de troca de bilhetes e comunicações mais tradicionais com as mensagens de texto, blogs, etc., a escola continua sendo o ponto chave dos processos de socialização pelos quais todos passamos; o lugar onde acontecem as melhores coisas do mundo, mas ao mesmo tempo bastante coercitivo.


Para terminar, uma nota a parte: a magia dos Beatles parece mesmo eterna, como Laís Bodanzky nos mostra através de Something. Certa vez me disseram para nunca confiar em alguém que não gosta do quarteto de Liverpool, e tenho comprovado isso empiricamente =)



segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Fita Branca (Dass Weiße Band)

A Fita Branca teve indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Não ganhou a estatueta e de fato não era para tanto, pois apesar de muito interessante o corte final ficou muito longo, com trechos cansativos. O diretor austríaco Michael Haneke mostra aspectos da sociedade alemã pouco antes da Primeira Guerra, indicando que aquele modo de vida culminou na geração do nazismo, duas décadas mais tarde. Uma ideia talvez sedutora, fortemente baseada nas teorias de Theodor Adorno, porém o fenômeno nazista é complexo demais para ser reduzido apenas a uma única explicação.

A história ocorrida na pequena vila alemã é narrada pelo professor de música (Christian Friedel), que deixa claro já no início se tratar de um relato pessoal, portanto parcial, e que são acontecimentos importantes para compreender os eventos dramáticos ocorridos na Alemanha posteriormente.

Mais importante que os fatos é o contexto em que eles ocorrem. Haneke nos mostra uma sociedade protestante, com adultos moralistas impondo leis draconianas às crianças, o pastor (Burghart Klausner) chega a amarrar as mãos do filho Martin (atuação muito marcante do jovem Leonard Proxauf) para que ele não se masturbe, porém a hipocrisia é revelada quando os defensores da moral têm atitudes extremamente machistas e chegam a abusar das próprias filhas – fatos ocorridos há um século que lembram as recentes acusações de pedofilia na igreja católica. Quando Martin se equilibra sobre o corrimão de uma ponte, alegando dar a Deus a chance de matá-lo, vemos a metáfora da vida das crianças, sempre no fio da navalha entre o pecado e a arbitrariedade dos adultos.

É nessa sociedade em que estranhos atentados acontecem. Tentativas de assassinato, um incêndio criminoso, crianças encontradas com sinais de tortura e vários detalhes que nos lembram os horrores do Holocausto. Por desobedecerem ao pai, os filhos do pastor devem andar com uma fita branca atada ao corpo, tal qual os judeus eram marcados na Alemanha nazista para serem diferenciados da suposta “raça pura”; entre as crianças vemos Karli (Eddie Grahl) que tem síndrome de Down e é uma das vítimas agredidas, assim como deficientes foram alvo de extermínio dos nazistas, para os quais um estado beligerante não deveria tolerar aqueles que não poderiam servir ao exército. E seguem algumas nuances que indicam a relação daquelas crianças com a geração que promoveu o Holocausto.

Na dúvida de quem seria o autor dos crimes cometidos na vila até as crianças são suspeitas e chama a atenção o fato da suspeita ser plausível, ou seja, mesmo a narrativa da história sendo parcial – pois quem narra a história é o professor que começou a suspeitar da idoneidade das crianças – não seria impossível que as vítimas do autoritarismo tenham se voltado contra os agressores, ainda que a resolução dos crimes não seja o alvo do filme, sendo impossível concluir sem dúvidas quem é o criminoso.

Evidentemente a descrição de fatos de uma pequena vila não basta para finalizar as causas do nazismo, e esta explicação é no máximo uma peça do quebra-cabeça que forma o Holocausto. Apesar do filme não ser uma grande obra prima, vale a pena ser visto, se não pela suposta origem do nazismo, pela transição da sociedade e uma verdadeira inversão de comportamento. Enquanto hoje vemos as pessoas presas à juventude eterna, buscando rejuvenescer a qualquer custo, no início do século XX tínhamos a infância suprimida, com as crianças forçadas à vida adulta desde as vestimentas até a forma de agir e de serem punidas (ou agredidas).


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sonhos Roubados

Sonhos Roubados é a versão cinematográfica da diretora Sandra Werneck para o livro “As meninas da esquina”, de autoria da jornalista Eliane Trindade. O filme é o retrato da vida de três adolescentes que vivem em uma favela carioca - poderia ser em qualquer outra cidade - têm famílias bastante desestruturadas e descobrem cedo as durezas da vida, como o contato constante com a violência em suas diversas formas, o tráfico de drogas e a prostituição como um meio rápido, porém nada fácil, para conseguir dinheiro. No longa, algumas histórias foram unificadas para dar ritmo ao trabalho e algumas partes suavizadas.

Atualmente, a crítica imediata ao enredo do filme é a de que o cinema nacional está viciado em violência, pobreza, sexo e temas do tipo, entretanto o argumento pode ser facilmente refutado, visto que as últimas grandes bilheterias não abordam quaisquer destes temas. Além do mais, os cineastas que desejam filmar um pouco da sociedade brasileira cairão inevitavelmente nos problemas que a permeiam. Logo as críticas caberiam não aos filmes, mas à estrutura social que produz os elementos abordados nos mesmos.

Conforme Machado de Assis já indicava em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a pobreza não reduz o desejo do indivíduo às necessidades extremamente básicas, sendo que mesmo aquele que pede esmolas deseja mais que a indispensável alimentação. Esta característica ganha força na sociedade atual, com o consumismo muito mais cultuado do que na época machadiana, e as adolescentes retratadas, como não poderia deixar de ser, também são suscetíveis à moda, ao consumo e às tendências que chegam aos jovens, sejam eles de classe média sustentados pelos pais, sejam da periferia precisando buscar sustento logo cedo e lidar com tantos obstáculos.

As amigas, Jéssica, Sabrina e Daiane (Nanda Costa, Kika Farias e Amanda Diniz, formando a nova geração do elenco) sonham com um namorado, com roupas novas ou uma festa de 15 anos. Tudo muito simples, não fosse a gravidez que chega de forma inesperada, os abusos sexuais dentro da própria casa por parte do tio pedófilo, o pai ausente que insiste em manter a indiferença diante da filha, que sonha com a figura paterna idealizada, e uma infinidade de fatos que chegam a parecer fabulação aos que estão distantes dessa realidade, mas que grande parcela da população conhece bem – aliás, a parcela que não vai ao cinema, logo, a que não opina sobre o suposto viés monotemático dos filmes nacionais.

Há grande atuação também dos atores consagrados, coadjuvantes do filme. Marieta Severo encena a cabeleireira Dolores, que na medida do possível ajuda Daiane oferecendo emprego em seu salão (cujo salário a menina complementa com a prostituição), orientando-a a denunciar o Tio Pery (Daniel Dantas) e a cobrar pensão do pai (Ângelo Antônio). Nelson Xavier é o avô de Jéssica, o idoso que precisa manter a oficina de bicicletas para aumentar um pouco a renda da família, ao invés de descansar e aproveitar a aposentadoria, que neste caso é um sonho inatingível.

Diante das várias propostas de roteiro que Eliane Trindade recebeu para seu livro, optou pelo de Sandra Werneck, sendo um dos motivos o desejo de dar um olhar feminino para a história. O resultado é um filme que mostra uma realidade infelizmente mais comum do que pensamos, sem julgamentos ou lição de moral, que critica de forma competente as diversas faces da violência sexual, desde o milenar machismo até a falta de escolaridade e formação profissional – quando Sabrina está grávida, por exemplo, lhe resta entregar panfletos no sinal para ganhar dinheiro, serviço menos censurável, mas menos rentável.

O livro e o filme podem trazer à tona um tema que não agrada, mas não seria mais pertinente mudar as condições de vida do que as temáticas abordadas?


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Utopia e Barbárie

Silvio Tendler é o diretor que consegue destaque no cinema nacional mesmo com documentários, gênero que costuma chamar a atenção apenas de um público bastante específico. Desta vez sua obra é um recorte histórico da segunda metade do século XX, mostrando as utopias de uma geração sedenta de mudanças e as barbáries promovidas pelos detentores do poder.

O longa é formado pela colagem de montagens que levou 19 anos para ser concluída. Este tempo fora do comum é facilmente compreendido ao pensarmos no formato do filme, que é praticamente uma aula de história e como tal, pode começar de um ponto específico escolhido pelo narrador – aqui é o período pós Segunda Guerra, com algumas imagens do holocausto –, mas não é fácil colocar um ponto final.

A ideia inicial seria começar os relatos com depoimentos sobre a segunda guerra; passar pelo ano de 68, que para Tendler e tantos outros revolucionários teve vários eventos orgásticos; relatar acontecimentos na Europa, América, África e Ásia; até a queda do muro de Berlin, que inicialmente marcou o fim do século. Porém houve o ataque às torres gêmeas, que prorrogou o marco do fim do século fazendo com que até Hobsbawn cometesse o equívoco de falar em “breve século 20” após o fim da União Soviética.

Ao prolongar o filme ao “novo fim do século” Tendler pode abordar o resultado da primeira eleição presidencial no Brasil após a ditadura militar, que para a geração do diretor, em contraponto ao ano orgástico de 68, foi uma das maiores brochadas da história. Após o atentado de 11/9 veio a eleição de um operário para a presidência do Brasil, de um índio para a Bolívia, de um negro para os EUA, a maior crise econômica desde 1929, ou seja, o encadeamento de fatos históricos tornaria este trabalho interminável, e só chegou ao fim com a eleição de Barack Obama por definição do diretor.

Outro ponto sempre difícil, mas talvez agravado neste tipo de documentário, é a edição final. Após juntar muito material, entrevistas com mais de 60 pessoas entre cineastas, historiadores, filósofos, vítimas de barbáries, etc. foi necessário colocar tudo em 120 minutos. Evidentemente que muitas partes tiveram que ser cortadas ou resumidas, mas isso não chega a comprometer a versão final.

Além de apresentar a história através de entrevistas com importantes atores políticos e imagens históricas – algumas bastante cruas e difíceis de assistir, porém o que sentimos ao ver é apenas um vislumbre dos sentimentos de quem viveu as situações – o filme nos instiga a pensar nos dias atuais e até mesmo no futuro, pois a montagem de Tendler é permeada por discursos e atitudes similares, quando não cíclica. Ao vermos no início do filme a tentativa norte-americana de justificar as bombas atômicas como necessárias para fazer com que as pessoas parassem de sofrer, temos a impressão de que há uma cartilha pronta de como justificar atos de terrorismo, já que Obama quando (pasmem) recebeu o prêmio Nobel da paz, afirmou em seu discurso que algumas vezes (acreditem) a guerra é necessária para chegar à paz.

Para o Brasil o filme passa a imagem de melhora em relação aos tempos de ditadura, indiscutível e consensual, principalmente para a geração do diretor. Só não podemos esquecer, entre tantas coisas que o filme nos lembra, de que a democracia não se resume às eleições periódicas e de que democracia institucional é muito pouco se comparado a necessidade urgente de democracia social pela qual nosso país grita – principalmente a classe formada pelos milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria, sem citar números devido à imprecisão e a vergonha que isso acarretaria.

Silvio Tendler nos traz um filme importante para aprendermos e lembrarmos muitos acontecimentos não tão distantes. É triste saber que é um documentário, não uma obra de ficção, para podermos olhar para cenas deploráveis que os detentores do poder proporcionaram e recorrermos à famosa frase “só em cinema mesmo”. Mas já que todos os fatos são reais, o melhor é não esquecer os crimes, menos ainda das impunidades. (até o momento da publicação deste artigo temos 46 anos e 9 dias desde o início da ditadura militar no Brasil, sem um único militar punido)


segunda-feira, 29 de março de 2010

Babel

A Babel bíblica é o palco da famosa torre cujo objetivo da construção era chegar ao céu e unir a população. Porém a ideia foi frustrada por Deus que deu línguas diferentes aos povos, fazendo com que a comunicação durante a construção da torre fosse impossibilitada. Já a Babel de Alejandro Gonzáles Iñarritu mostra os problemas da falta de comunicação, que não envolve apenas empecilhos promovidos por diferentes línguas, mas também por choque culturais, intolerância em diversos níveis e o individualismo levado ao extremo, uma característica cada vez mais evidente no mundo moderno.

Um caçador japonês viaja ao Marrocos e presenteia o guia local com um rifle, pelo bom serviço prestado. Sua filha Chieko (Rinko Kikuchi) é surda e muda; uma adolescente que tem as grandes dificuldades da adolescência agravadas pelo problema de comunicação. Sentindo-se rejeitada a garota decide buscar a iniciação sexual, ainda que com algum desconhecido, procura o conforto das drogas para vencer a inibição, mas sempre esbarra em dificuldades que frustram seus planos de inserção social.

No Marrocos os irmãos Ahmed e Yussef (Said Tarchani e Boubker Ait El Caid) saem para brincar com o rifle que o pai comprou para defender a propriedade de chacais. Em meio às inconsequências da infância, disputando para ver quem atira melhor, Yussef dispara contra um ônibus de turistas estrangeiros. Ao ver que a brincadeira havia tomado um rumo inesperado as crianças tentam esconder o rifle e fingir que nada havia acontecido.

Um casal de norte americanos, Richard e Susan (Brad Pitt e Cate Blanchett) deixam os filhos com uma babá mexicana, Amélia (Adriana Barraza), e viaja ao Marrocos contra a vontade de Susan. Eles sentem na pele o que um mal entendido pode acarretar, sofrem com o descaso e o individualismo dos demais turistas de seu grupo e superam os desentendimentos internos do casal após muitos problemas ao longo do filme.

Nos EUA uma imigrante ilegal quer participar do casamento do filho no México. Sem outra opção resolve levar as crianças que estavam sob sua tutela juntamente com seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal). Aparentemente não haveria com o que se preocupar, mas eles precisavam voltar para os EUA de forma ilegal.

O filme é bastante complexo, o suficiente para que esta breve abordagem seja bem superficial, mas é com o entrelaçamento dessas histórias que Iñarritu nos mostra peculiaridades interessantes, como diferenças e semelhanças de sociedades distintas e a maneira com que personagens reagem diante de tantas adversidades. Todo o trabalho é mostrado com estereótipos bem marcados que, se por um lado irritam um pouco pela generalização, por outro deixam claro o ponto a ser evidenciado.

Na Babel filmada a linguagem comum a todos os cenários é a violência, não necessariamente a coerção física, mas muitas vezes velada como um modo de dominação. Para a filósofa Hannah Arendt, quando não há diálogo a violência é inevitável para a resolução de conflitos, e no longa a falta da comunicação é demonstrada de várias formas. Notamos a presença de seis idiomas diferentes, a linguagem de sinais de Chieko, abismos culturais que parecem intransponíveis e diante de tantas divergências, um caminho que conflui para o uso da força.

O que haveria de comum entre a sociedade marroquina e a norte americana? A força desmesurada de seus policiais contra a população, tal qual um policial brasileiro tomando uma favela. Apenas os policiais japoneses mostram-se mais preparados, porém não enfrentaram nenhuma situação de tensão para uma comparação mais precisa. Atualmente, após um período de grande tolerância da população diante da violência civil, causada por governos autoritários, que indiretamente incitavam até pensadores como Jean Paul Sartre a apoiar reações severas do povo, esta forma de violência é cada vez mais rechaçada. Em contrapartida há em alguns países, majoritariamente fora da Europa, tolerância e apoio da população às ações enérgicas da polícia, por coibirem um tipo de atitude condenável. Depois de assistir ao filme torna-se ainda mais pertinente um olhar crítico para o modo de agir da polícia, questionando o velho chavão de agir primeiro e perguntar depois.

Outro ponto presente nas entrelinhas, mas que pode gerar grandes questionamentos é o papel da mídia. Evidentemente que a imprensa livre é fundamental e inquestionável em qualquer estado que almeje o bem estar de sua população, entretanto como cobrar o compromisso da mídia com a verdade? Pois é notável o poder dos meios de comunicação de transformar, intencionalmente ou não, um fato isolado em grave incidente diplomático. É uma questão relevante diante da divulgação de materiais preconcebidos sobre temas como armas nucleares, confrontos políticos, atitudes governamentais e tantos outros que circulam por campos extremamente minados.


Não encontrei o trailer legendado, mas acabei gostando, pois entra no clima de Babel =)

terça-feira, 16 de março de 2010

Feliz Natal

Não confundir com o homônimo francês de Christian Carion. Este é o primeiro longa dirigido pelo consagrado ator Selton Mello, que também escreveu o roteiro com Marcelo Vindicatto. A história mergulha na família do protagonista Caio (Leonardo Medeiros), proprietário de um ferro-velho – fato curioso após a revelação de um fato de seu passado –, ovelha negra da família de classe média sustentada pelo seu irmão, o bancário Theo (Paulo Guarnieri). Evidentemente a direção pode ser criticada em alguns aspectos, mas não há nenhuma grande falha, ou seja, tudo dentro do esperado para uma experiência inicial.

A metáfora do Natal ilustra a trama de “essência x aparência” explorada ao longo do filme. Assim como a data tem seu significado ofuscado pelo consumo e os apelos para aquecimento da economia, a família – cujo sobrenome não é revelado – tem duas faces distintas. Caio chega à bela casa de Theo na véspera do Natal e encontra uma bela decoração, a festa reúne amigos e parentes empolgados com a troca de presentes e as maçantes músicas natalinas, por outro lado as relações familiares são tensas. Sua cunhada Fabiana (Graziella Moretto) o trata com frieza; Theo pede para que o irmão não apronte nada; o pai, Miguel, (Lúcio Mauro) demonstra raiva ao ver o filho e ignora as tentativas de contato; sendo que sua mãe, Mércia (Darlene Glória), é a única a receber bem o filho e demonstrar efusivamente a saudade que sentia. Não por acaso a matriarca da família tenta fazer alusão à verdadeira comemoração natalina, mas é ofuscada pela nora e termina falando sozinha.

Além das frias relações pessoais, cada personagem da casa demonstra pontos moralmente questionáveis. Os patriarcas, separados, vivem brigando e sustentados por Theo – Miguel para comprar Viagra e corresponder a namorada bem mais nova; Mércia para sustentar o vício em bebida e barbitúricos. O próprio Miguel apenas traz dinheiro para casa e acata ordens de todos. Fabiana tenta administrar a casa, os conflitos e os problemas, entretanto, assim como seu marido, não é capaz de dar atenção aos dois filhos pequenos, que recorrem à internet quando querem aprender o significado de alguma palavra.

Fugindo deste ambiente Caio reencontra velhos amigos. Em um estereótipo de casa habitada só por homens (bagunçada, suja, com comida estragando e muita cerveja) Caio encontra a verdadeira amizade e demonstrações calorosas de afeto, ausentes na família. Seus amigos Neto e Thales (Thelmo Fernandes e Cláudio Mendes) representam um laço com seu passado. Caio é um personagem obscuro, misterioso e intimista – bem mais que o próprio filme – e aos poucos, de forma bastante satisfatória, o longa oferece dicas indiretas sobre seu passado, como peças de um quebra-cabeça que devemos montar ao assistir. A história do protagonista vai ficando mais clara com o desenrolar do filme, e desvendamos inclusive a cena tensa em que ele revela quem está sepultada no túmulo que procura no cemitério da cidade.

A obra termina como certo maniqueísmo às avessas. A ovelha negra com o bônus de lentamente superar traumas e problemas do passado, estruturando nova vida mesmo sem o apoio da família. E o ônus fica com o orgulho da família, o bancário que vê seu império desmoronando por uma série de problemas.

Apesar das críticas que sofreu, talvez por ser um filme bem diferente dos que Selton Mello costuma atuar, é um ótimo trabalho da nova geração de diretores brasileiros. Vamos aguardar “O Palhaço” que Mello lançará em breve.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Histórias de amor duram apenas 90 minutos

O roteirista Paulo Halm já havia mostrado seu talento em diversos longas como Guerra de Canudos (1997) ou Amores Possíveis (2001). Desta vez, além de escrever o roteiro, Halm assumiu com competência a direção deste filme que traz a história de um complicado triângulo amoroso, permeado por cenas cômicas e fazendo referências à obras literárias.

Zeca (Caio Blat) é o protagonista. Sonhando em ser escritor, o personagem tem um promissor romance na cabeça, mas não consegue escrevê-lo. É sustentado pela mesada do pai e seus hábitos lembram o byronismo, pessimista, angustiado, mas ao mesmo tempo egocêntrico e na eterna busca de um relacionamento amoroso perfeito, que tenta sanar com Júlia (Maria Ribeiro). Não haveria nada de errado se Zeca fosse um adolescente que, como tantos outros, vivesse os ideais do romantismo. O problema é que ele já tem trinta anos e poucos resultados concretos na vida.

Sua esposa aparenta ter muito pouco em comum com ele. Júlia é professora e dedica-se ao sonho de fazer seu mestrado em Sorbonne, sendo que este projeto toma a maior parte de seu tempo e muitas vezes ela recusa a atenção de Zeca para não prejudicar os estudos. Uma de suas alunas é Carol (a argentina Luz Cipriota), que talvez seja a personagem mais carioca do filme, aproveitando os prazeres da Lapa e das praias do Rio.

Quando a amizade entre professora e aluna estende-se para fora da sala de aula Zeca, apesar de seu estilo de vida digno de escritores do romantismo, tem uma atitude de Dom Casmurro, personagem mais conhecido do realismo, suspeitando de que sua mulher esteja lhe traindo com Carol. As semelhanças machadianas param por aqui, pois o desenvolvimento da história acarreta em uma sequência de atitudes imaturas de Zeca – lembrando algumas vezes o personagem Cristiano que Caio Blat interpretou em Cama de Gato, apesar de este ter sido muito mais trágico – e como todo adolescente perdido, é ao pai que o jovem recorre.

A presença de Daniel Dantas é curta, porém muito marcante tanto para o lado cômico (assim como a de Hugo Carvana), quanto para compreendermos o protagonista. O pai acredita muito no potencial do filho e joga para ele a própria esperança, frustrada, de ser escritor. Os constantes mimos ao longo da vida fizeram com que Zeca ficasse acomodado até os trinta anos, sem maturidade para solucionar os problemas ou traçar metas concretas que rompam a barreira dos sonhos.

Carol em determinado momento é o elemento que inspira a vida de Zeca, como a realização de seus desejos que servem para inspirar seu romance inacabado e dão sentido para sua existência, porém o triangulo amoroso é insustentável, e a ideia fixa de que Carol e Júlia têm um caso persiste. A resolução deste impasse cabe ao personagem que finalmente tem uma responsabilidade da qual não pode fugir.

É interessante a presença de Zeca como narrador, pois seria um elemento dispensável, mas sua existência indicando claramente se tratar da narração de um filme sugere que a obra a ser composta pelo personagem, a princípio um romance, acabou sendo um filme; não de ficção sobre a vida de outras pessoas como ele sonhava, mas sobre sua própria vida.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O prisioneiro da grade de ferro (auto-retratos)

Paulo Sacramento nos apresenta um documentário gravado no presídio do Carandiru, meses antes da desativação do mesmo. É uma visão mais realista que o longa mais conhecido sobre o tema (Carandiru, 2003, de Hector Babenco), não só pelo estilo de documentário despido de fabulações, mas também por muitas filmagens terem sido feitas pelos próprios detentos.

Evidentemente as tomadas feitas pelos presos podem ser taxadas de parciais e podem mostrar apenas o pior lado do sistema prisional – assim como qualquer edição ou qualquer obra que vise o circuito comercial –, de qualquer forma é interessante acompanharmos os dias e noites que mostram a diversidade que existe entre a massa de detentos, tratados da mesma maneira, independente do delito que tenham cometido.

Os dias longos de cárcere demandam atividades que variam entre trabalhos simples, como confecção de pipas e bolas de futebol; atividades artísticas como desenhos e esculturas, algumas rudimentares, mas outras que impressionam pela qualidade; religiões diversas contam com adeptos do catolicismo, candomblé, evangélicos, etc. E atividades ilícitas como produção da chamada “maria louca”, a cachaça de restos de comida; separação de pedras de crack e papelotes com maconha. Há uma série de equívocos por trás da presença de drogas na cadeia, afinal alguém permite que estas substâncias cheguem até os presos, os carcereiros sem auxílio policiais – quase sempre mal preparados – não têm condições de arriscar a própria vida para coibir o tráfico interno e devemos considerar o fato de que drogas como o crack geram alta dependência do usuário. É extremamente difícil abandonar o vício quando em liberdade e com apoio de pessoas próximas, mais ainda quando o usuário está encarcerado, sem tratamento para desintoxicação e estimulado pelos presos a continuar.

Algumas críticas que um filme desse tipo recebe são previsíveis. Antes mesmo de assistir, apenas pela descrição da obra, logo diversos indignados se reúnem dispostos a acenderem suas tochas e partirem para a caça às bruxas, argumentando que os detentos não estão em hoteis cinco estrelas, que devem pagar pelos seus erros e contam com mais regalias do que deveriam. De fato alguns daqueles homens proporcionaram terrores inenarráveis às suas vítimas, e devem pagar pelos seus erros, porém tratá-los como animais selvagens não atestaria seus comportamentos desumanos? Além disso, nem todos os detentos cometeram crimes hediondos, sendo que muitos por delitos leves vivem em meio aos ratos, com atendimento médico que permite que uma úlcera ressalte na barriga de um detento tal qual um alien prestes a nascer, uma perna fique necrosada ou que uma tuberculose ganglionar deforme completamente o pescoço de um ser humano.

Há um consenso nas sociedades em geral de que as condições de vida em um presídio devem ser piores que as piores moradias dos que não estão presos. Isso explica um pouco dos motivos que levam a cidade mais rica do país manter jaulas de seres humanos tão precárias, pois não há outra forma de manter um presídio pior que palafitas e favelas, diante das quais o governo insiste em não tomar providências. Agrada a classe média que defende o sofrimento dos detentos – mesmo que esses maus tratos venham sendo aplicados sem resultados há décadas – e, como indica um detento, mantém os presos sem instrução e sem senso crítico que possa gerar protestos conscientes contra um estado corrupto, que desvia rios de dinheiros sem nenhum tipo de punição para classes que economicamente formam o topo da sociedade, mas em atitudes formam uma escória de ladrões impunes.

Diante das imagens que mostram detentos sendo tratados de forma semelhante aos escravos, ou até pior, fica a dúvida: se a sociedade os trata tão mal, como eles tratarão a sociedade quando forem libertados?

(O filme pode ser conferido integralmente no YouTube)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Só dez por cento é mentira

Este é um documentário do diretor Pedro Cezar em homenagem ao poeta Manoel de Barros. O cineasta tem o mérito de ter conseguido filmar a entrevista com o poeta, que tem aversão a qualquer registro que não seja escrito, pois diferencia o próprio ser em biológico e poeta, sendo que o que importa no poeta é o que escreve. E o mérito do cineasta não para por aqui.

O filme não se restringe a expor a obra do poeta e as entrevistas, mas transpõe a essência de seu trabalho para a linguagem cinematográfica. Com uma fotografia impecável – fortemente influenciada pelas ideias de Barros – Pedro Cezar traduz em imagens, de forma muito competente, os versos que expressam a realidade inventada pelo poeta.

A obra foi chamada de “desbiografia”, um termo do chamado “manuelez”, a linguagem bastante peculiar do poeta, que por vezes cria termos que ampliam o mundo. Os versos simples, sem métrica ou rima – que deixariam a obra muito racional, ao contrário da intenção de seu autor –, condensam imenso conteúdo que não tem base na realidade, mas na imaginação. É citado o exemplo do Pantanal que Manoel de Barros conhece tão bem, mas que em seus poemas ganham uma perspectiva diferente do real, já que a intenção não é descrever, mas ampliar a realidade.

Vivendo no ócio conspícuo vemos um poeta em tempo integral, que diz não saber fazer mais nada além de compor em seu “cantinho de ser inútil”. A atividade rompe com a correria do mundo moderno, para escrever o material utilizado continua sendo os caderninhos feitos a mão e os lápis. Em sua obra não há razão, tão pouco ciência. A ideia é retratar o mundo com suas lembranças da infância através da poesia, que ironiza dizendo ser inútil e obra de vagabundo, mas sem o sentido pejorativo do termo. O poeta faz uma analogia com o personagem Carlitos, o vagabundo tão simpático que também em meio ao ócio traz diversão e sonhos para quem o assiste, mantendo-se atual como os livros de Barros, ainda entre os poetas mais lidos do país.

Outro ponto alto do longa é mostrar como a poesia do autor influenciou outras formas de arte. Além da influência no cinema, notada no próprio documentário, vemos o artista plástico criando esculturas que dão nova função e imagem aos objetos que iriam para o lixo; o inventor que constroi brinquedos para dar forma às ideias do poeta – como a máquina para esticar o horizonte –; a filha de Manuel de Barros que faz ilustrações sem o intuito de relacioná-las com os poemas, mas com os quais o próprio poeta faz a associação; e outras formas de expressar a essência do trabalho do homem que amplia a realidade. Sua influência faz com que esta ampliação seja feita não apenas em versos e leva suas características de imaginação, que transformam um rio em uma cobra de vidro, de sinestesia, que dão sabor às cores ou cheiro aos sons e de invenção, que é diferente da mentira, para outras áreas que podem contribuir para deixar o mundo ainda maior.

O documentário mostra o mundo de sonhos contido na obra de Manoel de Barros, cuja base talvez seja compreendida por poucos nos dias atuais, com o mundo preso à práxis do capitalismo, para o qual toda produção precisa ter um fim prático e lucrativo.


Noventa por cento do que escrevo é invenção.
Só dez por cento é mentira.
(Manoel de Barros)


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Eles não usam black-tie

Este é um dos maiores clássicos do cinema nacional. Baseada na peça do final da década de cinquenta, o filme homônimo dirigido por Leon Hirszman estreou em 1981 mostrando um pouco das grandes greves que tanto influenciaram o país no fim da ditadura militar. Entretanto o foco principal é o movimento grevista visto por dentro, mais que suas implicações.

Depois de quase trinta anos, podemos notar que muitos problemas infelizmente continuam idênticos para os trabalhadores brasileiros. A desigualdade de renda persiste e muitos empregados precisam trabalhar muito, em lugares distantes, para ganhar um salário nem sempre suficiente para sustentar a família; o que os leva a cortar gastos com lazer e conforto, mantendo o mínimo necessário para sobreviver.

O interessante é notar as mudanças estruturais ocorridas durante os anos. Atualmente a modernização das indústrias reduziu drasticamente a quantidade de trabalhadores necessária na produção, a onda de terceirização diminuiu ainda mais o vínculo entre os que vendem sua força de trabalho e os que as compram e, por fim, o terceiro setor cresceu muito, aumentando vertiginosamente os empregos informais no país e desfazendo a força de uma classe unida, como a dos operários do início da década de 80.

Somado às mudanças citadas há nas entrelinhas a marginalização do movimento grevista como um todo. Setores da imprensa, desde que ficou evidente a força que o movimento grevista pode ter, trabalham para criar uma imagem de baderneiros e vagabundos que aos poucos foi comprada por boa parte da população. Além disso, empresários procuram driblar o direito constitucional de greve e punir as lideranças, coibindo assim futuras ações, como é claramente mostrado no filme.

Com os esforços para marginalização das greves e as mudanças estruturais no mercado de trabalho, um dos poucos setores que continua combativo, porém cada vez mais desgastado, é formado pelos estudantes universitários, que lutam continuamente contra a degradação que as universidades brasileiras vêm sofrendo. Neste ponto é possível notar a atualidade do tema do filme e como suas cenas retratam com fidelidade os elementos envolvidos em um movimento de greve.

Podemos separar muito claramente no longa as opiniões divergentes sobre o mesmo assunto, encontrando os que estão dispostos a dialogar ao máximo; os mais radicais, aos quais a única linguagem compreendida pelos patrões são as máquinas paradas; os chamados “pelegos”, que no caso é um termo que generaliza todos que querem furar a greve; e ganha destaque o personagem de Tião (Carlos Alberto Riccelli) que não é exatamente contra a greve, mas por medo da intimidação dos patrões prefere colocar os interesses individuais em primeiro plano, para a decepção de Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), seu pai, que ficou preso três anos por liderar uma greve.

Esta obra prima ainda nos mostra Romana (Fernanda Montenegro, que mesmo com quase trinta anos de experiência a menos, já era genial) no papel da mulher que cuidava da casa com pulso firme, quando o movimento feminista já estava em ascensão, porém a quantidade de mulheres no mercado de trabalho ainda não era tão grande. Em contrapartida Maria (Bete Mendes) já dava sinais de mudança trabalhando na fábrica, lutando pelos seus direitos através da greve e recusando a submissão ao homem.

Um filme claro e objetivo, que apesar de ter marcado a história do cinema nacional, atualmente não tem a evidência que merece. Naturalmente ninguém espera que um dia este filme possa ser exibido na Rede Globo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Céu de Suely

Esta obra do diretor Karim Aïnouz se mantém longe do romantismo tão frequente na história do cinema. Logo nos primeiros minutos o filme se aproxima do realismo, por vezes bastante ácido, que surpreende e deixa a expectativa em quem assiste. Até a última cena ficamos em dúvida se o final voltará ao romantismo habitual, ou se o realismo será mantido.

A protagonista é Hermila (Hermila Guedes) que após as juras de amor eterno da juventude viaja com Mateus para São Paulo e tem um filho, Mateus Jr. A narrativa tem início com mãe e filho chegando de volta na pequena Iguatu, sertão do Ceará, onde passam algumas semanas esperando por Mateus que chegaria mais tarde. Ao descobrir que foi abandonada pelo marido Hermila deve seguir sua vida, mas já não se reconhece na pequena cidade e almeja viajar de novo, desta vez para a região sul.

Não faltam filmes nacionais com a saga dos retirantes que tentam a vida em grandes cidades, porém aqui Aïnouz nos mostra a cidade de origem, a vida de seus habitantes – dos que querem ficar e dos que querem sair – e as influências culturais presentes no cotidiano das pessoas. A trilha sonora contribui muito para essa percepção, pois a música principal é “Tudo que eu tenho”, uma versão nacional de “Everything I Own” que ao longo do filme é seguida por várias outras versões para clássicos internacionais. As pessoas não abandonam suas raízes, o tradicional forró é a trilha sonora das festas, porém o estrangeirismo foi incorporado à cultura local.

Além das músicas podemos notar nas vestimentas, comportamentos e detalhes sutis as influências culturais externas que colocam o tradicionalismo e o provincialismo de uma pequena cidade do interior cearense contra o modernismo que chega até os habitantes através dos meios de comunicação, ou dos retirantes que voltam à terra natal, como Hermila que regressa com uma mecha loira nos cabelos, caracterizado por uma moradora local como um cabelo “meio loiro, meio ruim”, ou seja, a tendência é ver elementos exógenos como superiores. A protagonista, juntamente com uma amiga, experimenta drogas e cheira acetona buscando uma fuga da dura realidade na cena em que as duas jovens parecem duas crianças de rua inalando entorpecentes. A maturidade que a idade poderia oferecer é limitada pela falta de cultura que deveria ser adquirida ao longo da adolescência.

Decidida a deixar novamente a cidade, Hermila precisa de dinheiro para a passagem. A solução encontrada foi fazer uma rifa, na qual o prêmio seria seu próprio corpo por uma noite. Aqui entra o heterônimo da personagem, Suely, que promete uma noite no paraíso para o vencedor. A personagem deixa claro para sua tia que não estava se prostituindo, e é interessante frisar este ponto, pois aos que estão distante desta realidade várias atividades poderiam ser descrita simplesmente como prostituição, mas aos que nela estão envolvidos há diferenciações claras, como já exploradas no filme Baixio das Bestas de Cláudio Assis.

Evidentemente a decisão de rifar o próprio corpo altera o cotidiano da pacata cidade, onde as notícias correm rápido. A oposição do tradicionalismo é forte e Hermila sofre ameaças, preconceitos, além da dificuldade de lidar com o problema dentro de sua própria casa. Entretanto qual a alternativa para ganhar todo o dinheiro necessário para comprar a passagem e deixar a cidade, se esta, apesar de valorizar o consumo, não oferece infra-estrutura para que seus habitantes acumulem capital?

As contradições sociais, o choque cultural e as técnicas de filmagem que exploram o improviso e talento dos atores (valorizando ainda mais o gênero realista) chamam a atenção para este filme que, entre vários outros sobre retirantes, destaca-se com muita competência.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Balada de Narayama (Narayama Bushi-Ko)

A Balada de Narayama é um filme baseado na história de Shichiro Fukazawa. Vencedor do Festival de Cannes de 1983, o longa do diretor Shohei Imamura nos mostra o cotidiano de uma pequena vila no norte do Japão, no final do século XIX. Isolados entre as montanhas seus habitantes têm um cotidiano restrito basicamente à produção de alimentos, que mesmo com todo o esforço dos habitantes, é bem limitada.

Deparamos-nos com um modelo de sociedade cujo modo de produção difere drasticamente do que estamos acostumados e isso implica em muitas curiosidades. Nossa sociedade capitalista é baseada no consumo e acumulação, assim cada trabalhador produz muito mais do que pode consumir para que o excedente possa ser comercializado. Na pequena vila japonesa cada um produz sua própria unidade de consumo, não há trabalho alienado ou exploração do mesmo por terceiros gerando mais-valia, mas as técnicas de plantio e caça são rudimentares e o inverno rigoroso, sendo que quando a produção é baixa não há excedentes para a parcela improdutiva da população, ou seja, crianças muito pequenas para o trabalho e idosos já incapazes de produzir. A solução para este problema não é exclusiva da sociedade em questão, mas para nossos padrões é verdadeiramente inimaginável.

Não existe a possibilidade de aumento da população, portanto novas crianças só são aceitas quando há alguma morte – uma espécie de reposição, deixando densidade populacional estável. Para resolver o problema de um nascimento quando não houve nenhum óbito as meninas são vendidas, sendo levadas para longe da vila, e os meninos são mortos, enterrados ou jogados no riacho.

Não menos chocante é o destino dos idosos. Quando começam a perder os dentes (por volta dos setenta anos) devem deixar a vila, ainda que estejam lúcidos e possam contribuir com trabalho. Os dentes perdidos são uma espécie de sinal de que já não podem contribuir para o próprio sustento, logo se tornarão um peso para seus descendentes. Os idosos são levados por um membro da família até Narayama, uma montanha que abriga os restos mortais de diversas gerações de idosos, para perecer e assim deixar espaço sociedade para um novo membro. Podemos notar no filme que certas vezes este ritual (bastante mórbido para nossos padrões) é encarado com relutância pelos idosos, porém a grande tradição faz com que outros aguardem ansiosamente pela data, por vezes contribuindo para adiantar o afastamento, acreditando que esta é uma oportunidade de rever os antepassados. Todo o conhecimento e experiência de vida de um sexagenário, ainda mais valioso em uma sociedade sem tradição escrita, deve ser refutado em prol dos mais novos.

Há uma forte influência naturalista em diversas tomadas cuja sequência mostra animais e insetos alimentando-se de outros ou procriando, indicando uma semelhança entre estes e os seres humanos, cuja vida limita-se basicamente a trabalhar, colhendo alimentos para o estoque que deve durar todo o rigoroso inverno, e procurar por sexo – fato enfatizado aos homens – ainda que a procriação só seja permitida após a morte de algum integrante da sociedade. Outra aproximação mais sutil com o mundo animal é notada diante de situações conflituosas, resolvidas geralmente com brigas e agressões.

Em relação à sociedade moderna, notamos entre os japoneses uma grande preocupação com a alimentação além da versatilidade e variedade dos pratos asiáticos. Geralmente essa característica é atribuída aos períodos de guerra, que muitas vezes castigaram a população local espalhando a fome pelo oriente. Neste filme notamos mais um fator, ou seja, os períodos cujas técnicas de produção eram rudimentares ao ponto de não haver alimentação suficiente para todos. No Brasil vivemos a outra face da moeda, e o lado ruim de nossa falta de experiência com a grande escassez de alimentos é notado no paradoxo de um país que exporta comida para o mundo todo, vendo sua própria população passar fome em muitas regiões, com cerca de 30% da produção de alimentos perdida durante o transporte ineficiente da mesma.


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mutum

Transpor uma obra literária para a linguagem cinematográfica não é tarefa das mais fáceis, que dirá quando se trata de um trabalho de Guimarães Rosa. Pois o filme dirigido por Sandra Kogut é uma boa versão para a vida de Miguilim, narrada por Guimarães em Campo Geral.

Se por um lado os romances deste singular autor são permeados de reflexões interiores, com personagens imersos em pensamentos profundos mesmo quando fazem parte do universo infantil, por outro a diretora soube explorar a ideia de que uma imagem diz mais que mil palavras para dar sua versão visual à muitas partes do filme. É evidente que o livro sempre resulta em uma obra mais profunda e completa, porém este filme é um exemplo que conseguiu transpor de forma satisfatória a essência do romance.

Dois personagens centrais tiveram os nomes alterados, e o resultado não foi muito agradável. Miguilin virou Thiago (interpretado por Thiago da Silva Mariz) e seu irmão Ditinho virou Felipe (Wallison Felipe Leal Barroso) com a interpretação de ambos chamando a atenção pela qualidade, que frequentemente é sofrível entre atores infantis.

Kogut soube retratar o universo infantil mostrando que para as crianças o mundo é mágico. O sentimento de encanto diante de novidades, o temor de involuntariamente cometer algum pecado e o senso do que é certo e errado – evidente quando Thiago é requisitado pelo tio Terez (Rômulo Braga) para entregar um bilhete para sua mãe – ganha um aspecto visual e mesmo a característica pensativa do garoto, que observa atentamente o mundo para aprender com o que a vida tem a lhe oferecer, é notada no longa. Apesar de muitas reflexões presentes no livro não se adequarem ao filme, as características gerais do garoto foram bem encenadas.

Felipe é o irmão mais velho que no livro serve mais de espelho ao mais novo que vê o primogênito como um exemplo a ser seguido. Na versão filmada os dois garotos mantêm a forte amizade e descobrem juntos a vida, debatem sobre o que é pecado ou permitido, dividindo as responsabilidades e brincadeiras. Tal qual no livro é extremamente angustiante acompanhar a tensão da família depois que Felipe corta o pé e sofre com uma infecção. Este pode ser o elo principal do filme com uma das possíveis críticas sociais contida na obra. A cineasta faz questão de mostrar em dois planos sequência cédulas de dinheiro, e a moeda é o Real, ou seja, apesar de ser uma história escrita no início da década de 60, ainda hoje a região pode ser retratada da mesma forma. Sem escolas para as crianças, sem assistência médica e a dificuldade de locomoção que torna Mutum uma terra distante e isolada.

No filme, como não poderia deixar de ser, aparece o médico que chega a cavalo – nada mais que o próprio Guimarães que se transformou em personagem literário para relatar suas viagens como médico pelo sertão – e descobre que Thiago é míope. Essa é uma das muitas metáforas contidas na obra do escritor, dialogando com a dúvida se Mutum é ou não um lugar bonito. Thiago só sana essa dúvida quando coloca os óculos do médico, indicando que uma das interpretações possíveis é a que Mutum sempre foi bonito, para ser melhor aos olhos de seus próprios moradores faltam alguns detalhes de fora como os óculos, ou remédios para Felipe, ou uma escola para as crianças.

Sandra Kogut fez um belo filme que merece ser visto, depois do livro que é leitura obrigatória.



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