terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Gloria

Uma mulher que não se contenta com a solidão. Este é o ponto de partida do diretor Sebastián Lelio. A protagonista Gloria (Paulina García) faz de tudo para viver a vida de forma intensa, mesmo que sozinha sai para dançar, canta, frequenta bares e busca um romance. Não seria uma história muito atrativa se ela não estivesse beirando os 60 anos.

A possibilidade de uma mulher dessa idade viver a vida livremente e preferir lidar com os percalços cotidianos a render-se ao papel estigmatizado para idosos é recente. Os avanços sociais em termos de igualdade de gênero e até mesmo de idade são lentos e historicamente não favorecem as mulheres.

Mesmo com os hábitos em processo de mudança, os homens, de uma sociedade machista, sempre gozaram de mais liberdade e menos censura, chegando à terceira idade com possibilidades de encontrar um novo amor, sair com mulheres mais jovens ou qualquer atividade que os faça felizes.

Às mulheres, depois de passar a vida em função do marido e filhos, restava uma velhice tranquila e insuportavelmente monótona. A prova de que essa herança cultural ainda nos persegue é que Gloria, mesmo com toda sua disposição, demonstra não ter fortes laços de amizades que poderiam ter sido cultivados ao longo da vida.

De seu passado sabemos apenas que foi casada, graças a um encontro com o ex-marido, atualmente casado, e a presença dos filhos, cuja relação com a mãe também evidencia um período de transição social. Gloria é uma mulher forte, mas ao mesmo tempo carente, demonstrando não ter superado o fato dos filhos terem crescido e não precisarem mais de seus cuidados.

A protagonista sofre os efeitos de apostar em uma relação próxima aos filhos, mas não ser correspondida. Talvez o que demandasse um pouco mais da atenção que ela tanto gostaria de proporcionar seria um neto, mas sua filha engravidou de um suíço e irá deixar o país.

É sozinha, carente e jamais entregue que Gloria encontra um novo amor, Rodolfo (Sergio Hernandez), também separado – ao menos é o que ele diz –, mas ao contrário dela, ele é extremamente conectado com as filhas, com as quais está sempre no telefone.

Apesar de cada vez mais comuns, os casais formados na terceira idade ainda não têm muitas referências históricas. Pensando nos tradicionais casais formados na adolescência, com a interferência dos pais, falta de dinheiro, inexperiência, etc., podemos esperar que os mais velhos levem vantagem e enfrentem menos problemas. Ilusão.

Gloria é a protagonista, portanto é ao redor dela que gira a história e, ainda que possamos criticar algumas nuances de seu comportamento, Rodolfo se mostra bastante despreparado, para não dizer infantil mesmo já tendo passado dos sessenta, em relação ao namoro. Tanto a insegurança ao conhecer o ex-marido de Gloria quanto à dificuldade de lidar com a dependência das filhas já adultas nos remete a um casal adolescente, que não consegue construir ou manter um relacionamento prazeroso.

Os problemas dos dois nos mostram o quanto somos complexos e como um relacionamento é difícil. Não se trata apenas de experiência e maturidade. Se hoje os casamentos têm durado menos tempo e as relações conjugais estão mais frágeis, não é por falta de empenho. A diferença é que até pouco tempo o divórcio era proibido, os casamentos arranjados e a mulher criada desde pequena para servir ao marido.

Não havia separações, mas havia satisfação? Sem dúvida Gloria tem que lidar com frustrações que não existiriam se ela aceitasse uma velhice tranquila dentro de casa, mas como iria lidar com sua carência e a sensação de vazio deixada pela independência dos filhos?

Gloria representa muito bem um novo comportamento social, adotado por pessoas que perceberam que o aumento da longevidade pode e deve ser acompanhado de qualidade de vida. Em uma sociedade que busca a juventude a qualquer preço não é nada fácil conciliar a pressão social para ser escrava da juventude e, ao mesmo tempo, trabalhar a quebra de paradigmas que permite aos mais velhos uma vida para além dos lamentos e saudosismos.

Um ponto chave que Gloria ensina para lidar com essa fase da vida é algo que deve ser bem cultivado desde cedo: as amizades. Podemos envelhecer ao lado de algumas pessoas que nos acompanharam ao longo da vida, um dando suporte ao outro, mas é claro que nunca é tarde para conhecer pessoas que, diferente de amores românticos, tem muito mais chance de corresponder às expectativas.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Redentor

O filme não chega a ser uma grande obra do cinema nacional, mas traz questões extremamente relevantes quanto ao crescimento desordenado das cidades e suas implicações. Uma pena que depois o diretor Claudio Torres cai em uma tentativa de realismo fantástico que não atinge grandes resultados.

A base da história é um edifício construído pelo pai de Otávio Sabóia (Miguel Falabella), na promissora região da Barra da Tijuca, que na década de 70 ainda não era o símbolo da ascensão social de hoje. Ao lado do condomínio, os mesmos operários que construíram o prédio construíram também uma favela para moradia própria.

Por problemas financeiros que levaram seu pai ao suicídio, Otávio não entregou os apartamentos, prejudicando o pai de Célio (Pedro Cardoso), que sonhava com o novo lar, já quitado. Este cenário, tão comum em qualquer grande cidade brasileira, costuma ser analisado como problemas distintos e as providências geralmente são tomadas contra os mais pobres.

Favelas ao lado de condomínios não é exclusividade da Barra da Tijuca, nem mesmo do Rio de Janeiro. Em grandes conglomerados urbanos, que escancaram a desigualdade social, as áreas mais ricas contratam o serviço dos trabalhadores mais pobres, para a realização de tarefas pesadas como a construção civil exibida no filme.

O problema mais evidente de manter esses trabalhadores distantes, imaginando uma divisão urbanística em que favelas e bairros pobres ficassem distantes dos condomínios, é o custo e o tempo que o trabalhador levaria para se deslocar diariamente. Com as tarifas elevadas e a malha viária mal planejada, as cidades sofrem com o transporte em horários de pico. Além disso, tem a questão da segregação social causada pela formação de guetos, com critérios econômicos.

A ponta da pirâmide social também sofre as consequências de um crescimento desordenado, com base na especulação. Uma metrópole deveria ter seu desenvolvimento guiado por critérios mais técnicos, de forma que novas áreas residenciais fossem planejadas, diferente de um aval conseguido com propinas.

Se tudo der certo, depois que os grandes condomínios forem construídos e habitados a região passa a lidar com o trânsito caótico e a falta de estrutura para acomodar tanta gente de repente. Mas toda essa estrutura de construção e venda de imóveis torna-se frágil quando a incorporação imobiliária não trabalha com margens de erro.

Na prática os empresários (como o pai de Otávio) começam a construir um prédio e a vender os imóveis na planta. O dinheiro das primeiras vendas financia a continuidade da obra e posteriormente serve de base para a construção de um novo edifício. Em pouco tempo são várias obras em andamento, uma financiando a outra com o dinheiro de apartamentos parcelados em vários anos.

Tudo anda muito bem, até que a taxa de inadimplência começa a subir e a corrente se rompe. Com a falta de dinheiro as construções param, quem já pagou fica sem o apartamento (como o pai de Célio), quem pagou parte das parcelas acaba perdendo o dinheiro investido e os trabalhadores que eram sustentados pela obra acabam sem emprego.

Nossa tendência é culpar somente os inadimplentes, por adquirirem uma dívida que não teriam condições de quitar, esquecendo assim dos corretores que na hora da venda transformam tudo em benefícios, convertem os problemas em virtudes e fazem promessas imperdíveis para quem sonha em fugir do aluguel, sem contar as frequentes propinas e ilegalidades cometidas pelas construtoras.

Entre as partes envolvidas, os empresários são os que apesar de ter ido à falência, costumam ou ter grandes reservas em contas no exterior ou condições de se reerguer, conforme Otávio tenta a todo custo, literalmente. Célio é um personagem bastante específico, pois ao mesmo tempo em que foi lesado ao não ter o apartamento entregue, é jornalista e tem acesso a um meio de comunicação, usando como chantagem sua possibilidade de publicar algo que pode salvar ou destruir definitivamente a vida de Otávio.

Quem não tem dinheiro, destaque ou poder são os trabalhadores, que além de ficarem sem salário ainda são criminalizados pela construção da favela, como se morar em um barraco ao lado de um prédio vazio fosse uma opção desejada. Para quem não tem alternativa, os operários fazem uso inconsciente da função social de um imóvel, ocupando os apartamentos que construíram.

Na vida real esse é o momento em que no meio de uma estrutura que já nasce fadada ao fracasso, a polícia apara uma das arestas com a violência física que recai sobre os mais fracos. No filme as tensões geram a intervenção do Redentor que batiza a obra e torna-se seu ponto fraco.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Com mais uma trama marcada pela tensão entre personagens nada nobres, o diretor Martin Scorsese entra no mundo milionário das ações de Wall Street através do jovem e exímio vendedor Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio). A ascensão do protagonista é rápida e o ritmo frenético do filme ajuda a da a impressão de que o sonho de ficar milionário aconteceu de repente para Belfort.

Inversamente proporcional à fortuna, os escrúpulos vão diminuindo à medida que o personagem atinge seus objetivos e funda a corretora Stratton Oakmont. Apesar do filme ser baseado em uma história real, é possível traçar um bom panorama sobre a história econômica recente dos EUA e sua relação com investidores, utilizando este como um estudo de caso.

A carreira de Belfort começou em uma pequena corretora, cujas ações valiam centavos e a comissão chegava a 50%. O problema é que negociavam papéis de empresas de fachada, que não valiam sequer centavos, que dirá os milhares de dólares que o hábil vendedor arrancava dos clientes.

Este foi basicamente o estopim para a quebra da bolsa em 1929, quando, resumindo ao extremo, a economia norte americana cresceu tanto para reconstruir a Europa do pós-guerra, que quando o velho continente se recuperou os estoques de mercadoria dos Estados Unidos foram sustentados por ações sem valor, que ao começarem a quebrar geraram uma reação em cadeia.

Apesar das crises econômicas serem cíclicas, é muito difícil que a bolsa de valores repita este erro. As empresas de fachada continuam sendo criadas e, como vemos no filme, não faltam compradores que se atolam em dívidas com a ilusão de enriquecer através de papéis sem valor. Porém os governos estão menos inocentes em relação à especulação.

Em meio ao bom humor com que o assunto é tratado por Scorsese, ora com uma ironia fina, ora com atuações escrachadas, vemos que o equilíbrio de poderes entre corretores e investigadores é tênue, extremamente tenso e por vezes beira as explosões de violência recorrente em outras obras do diretor. Aqui os impasses são mais psicológicos.

O lobo do título remete à voracidade com que Belfort encara seus negócios, desde as primeiras vendas até as palestras motivacionais para seus funcionários. Mas comparando com o comportamento dos investigadores, é possível dizer que entre esses lobos não há cordeiros.

Seria louvável que o FBI agisse de forma a proteger aqueles que investem a economia de toda uma vida em ações que não valem nem um centavo, porém a preocupação gira em torno de proteger o próprio mercado. Indiretamente cumprem o papel de agir em prol da população, pois ações descontroladas, como a história ensina, podem dar prejuízos para todo o país, porém pouco é feito diretamente em relação aos pequenos investidores.

A postura de tolerância seletiva em relação aos crimes por parte da polícia norte americana pode ser verificada também através de algumas nuances do filme. Belfort e seus sócios justificam o estereótipo de corretores viciados. Todos se entopem de álcool, barbitúricos e cocaína. Que muitos milionários fazem uso de drogas ilícitas não chega a ser um grande segredo, porém a repressão neste mercado é muito mais forte em relação aos fornecedores, traficantes de países subdesenvolvidos e as ‘mulas’, que se arriscam para levar a droga aos EUA. Ainda que esta não seja uma polêmica debatida pelo filme, vale a pena indicar os desdobramentos de um crime.

Por parte daquele que comete o delito, parece quase inevitável e universal a sedução que o sucesso econômico exerce. O poder que acompanha o dinheiro é a combinação para que a ambição não veja limites, porém eles existem mesmo entre os milionários. Ultrapassá-los com cautela pode dar direito a correções, porém a cautela não é uma característica daqueles que vivem do mercado imprevisível de ações.

Toda a rede de delitos do filme é baseada no campo econômico, o resultado não é evidente. Diferente de assassinatos, agressões, etc. os crimes financeiros não deixam sangue e suas consequências são difusas, abstratas, deixando uma camada de verniz sob seu formato ilegal.

É possível procurar culpados objetivos. Subornos, complacências, falta de caráter entre tantos fatores identificáveis, porém o inegável é que todo o sistema econômico mundial gira em torno de falso capital. Ações que da noite para o dia podem levar seus acionistas à ruína ou à glória sem que nada seja produzido fisicamente.

Os governos tentam intervenções que não rompam com a tolerância em relação aos crimes mais convenientes, porém é inevitável que periodicamente algum vulcão do mercado entre em erupção. O caso mais grave até hoje foi a quebra da bolsa em 1929, o mais recente foi a crise do setor imobiliário em 2008. Quando será a próxima crise é tão imprevisível quanto as tendências do mercado.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Jovem e Bela (Jeune & Jolie)

Certa vez assisti a uma entrevista de Elza Soares. Quando questionada sobre o que seria se não fosse cantora, ela avisou que a resposta era pesada e disse que seria uma grande prostituta.

Talvez mais que a profissão, o que choca a sociedade nessa resposta é a escolha. O senso comum quer acreditar que a prostituição é a falta de opção. O que sobra para quem não tem outra escolha, a viciada que precisa de dinheiro para se drogar, a mãe solteira que não tem como sustentar os filhos, às vezes até a universitária esforçada que não tem como pagar os estudos.

O filme do diretor François Ozon vem para desconstruir esse mito, talvez até mesmo essa vontade de uma sociedade moralista, de que a prostituição seja restrita a uma escória. Em alguns casos pode ser, mas em outros muitos é uma opção de quem não se prostitui pelo dinheiro, ou pelo menos poderia tranquilamente conseguir um trabalho menos censurado.

Isabelle (Marine Vacth) é quem desconstrói o estereótipo popular. A jovem e bela de 17 anos finge ter 20 para não espantar os clientes. Homens mais velhos. Muito mais velhos. Dispostos a pagar 300, até 500 euros (cerca de 1600 reais) por um programa que Isabelle deve manter em segredo, principalmente da família.

A associação de moralismo com machismo convenciona as críticas, sobretudo em relação às garotas como Isabelle, que não têm necessidade econômica de fazer programas, e à relação da prostituta e sua família. O que irão pensar, o que irão dizer, como vão lidar com o suposto problema e o consenso de que nenhuma mãe cria a filha para ser prostituta.

Durante muito tempo a profissão de uma pessoa era praticamente definida desde a infância. O status social era muito ligado à família e dificilmente alguém conseguia escolher o que gostaria de fazer. Felizmente isso vem mudando e hoje podemos pensar no quanto deve ser infeliz uma pessoa – homem ou mulher – que é criado para satisfazer a vontade dos pais.

O filme é bastante reticente. Mostra pouco da vida dos personagens, assim como um programa as relações parecem curtas, superficiais e frágeis, até mesmo na família de Isabelle. Apenas com o irmão mais novo ela tem um pouco mais de cumplicidade, ainda assim não o suficiente para contar seu segredo. A dúvida que fica é se essa revelação faz alguma falta na vida da jovem, afinal entre os fatores que a atraíram para a prostituição, parece estar o desafio de manter um segredo.

Em relação aos clientes de Isabelle tudo é ainda mais misterioso, condizente com o mundo da prostituição. Diante de uma necessidade tão forte de manter uma moral tão hipócrita, era de se esperar que a prostituição acabasse naturalmente, entretanto muitos dos que a criticam publicamente, servem-se de seus serviços às escondidas. É assim que os velhos casados encontram Isabelle em um site de prostituição, assim que ela é abordada na rua e recebe o convite para seu primeiro programa, assim que muitos clientes moralistas sustentam o que tanto criticam.

Garotas como Isabelle – elas existem aos montes na vida real – são o paradoxo do machismo. São alvos de suas críticas, mas também sustentadas por suas atitudes. A mulher, até então subjugada e humilhada pela necessidade de prostituir-se, passa a dominadora, escolhendo ganhar a vida com a hipocrisia materializada do machismo.

Não fossem imposições absurdas provenientes de uma sociedade patriarcal, que se contradiz doutrinando meninos a serem caçadores de mulheres e meninas a serem adeptas incondicionais da moral cristã, poderíamos ter um cenário em que as relações fossem tratadas com igualdade para homens e mulheres, dispensando assim o comércio de sexo.

Dado que esta evidência está longe de ser posta em prática, o enredo do filme seguirá fiel à realidade por um bom tempo. Garotas que optam por vingarem-se do machismo golpeando suas contradições e homens patéticos que no desespero para afirmar supremacia, recorrem ao poder econômico para na privacidade de um quarto exporem suas fraquezas.

Alguns buscam sexo, outros buscam companhia, outros a ilusão de que podem utilizar uma mulher por serem superiores, quando na verdade sustentam a hipocrisia que transforma em mercadoria o que não é comercializável.

Durante o filme as relações são tênues, sempre implícitas, ocultas e por vezes violentas, mas a que realmente marca é a cumplicidade de uma conversa madura entre a protagonista e uma velha senhora. Ambas com poucas palavras, conforme o filme exige, conseguem se entender, se respeitar e deixar claro uma à outra que as mulheres podem ser fortes diante de atitudes retrógradas e imaturas.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Serra Pelada - A Lenda da Montanha de Ouro

Com dimensões continentais, o Brasil sempre foi um país naturalmente rico. Desde o pau-brasil que nos batizou até a soja que hoje alimenta o mundo, fomos fornecedores de matéria prima já no descobrimento, passando pela cana, café, minério, petróleo e o sempre valorizado ouro.

Ponto em comum para todos esses ciclos: a riqueza natural vai, a pobreza social fica. E o ouro nos proporcionou essa ascensão e queda duas vezes, a primeira – bem mais expressiva – no ciclo do ouro, século XVIII, quando a extração do metal sustentou não só o Brasil, mas praticamente toda a Europa; e a segunda, uma versão muito mais reduzida, porém recente e amplamente documentada, em Serra Pelada, aqui documentada pelo diretor Victor Lopes.

A expressão mais comum quando se fala na exploração da região é a de “formigueiro humano”. Talvez. Os corpos sujos, enlameados, formando uma camuflagem forçada sobre o solo terracota; seres em fila indiana carregando cargas pesadas nas costas por longas distâncias; trabalho puramente mecânico. Porém em um formigueiro todas as formigas trabalham por um bem comum. Não é o que vemos em Serra Pelada.

Assistindo ao documentário percebemos que a palavra chave sobre todo o processo, da descoberta do ouro até hoje, é irresponsabilidade. Seja social, ambiental, econômica, governamental, o fato é que mais uma vez a riqueza natural foi explorada ao extremo, sem nenhum controle, enriquecendo alguns poucos e deixando um saldo bastante negativo para o país.

Meio ambiente contaminado com mercúrio, cidades criadas sem infraestrutura, royalties desperdiçados pelo governo e exército de trabalhadores que hoje sofrem para sobreviver, passada a febre do ouro.

Criou-se o falso consenso de que os garimpeiros são culpados pela atual situação. Basta pegar alguns casos reais de pessoas que esbanjaram o dinheiro das formas mais estapafúrdias possíveis, criticar os gastos com bebida e mulheres que a censura moral termina o trabalho.

Claro que entre milhares de garimpeiros, muitos gastaram o que receberam com futilidades, nunca tiveram preparo para lidar com o dinheiro, mas isso não justifica a exploração do seu trabalho. A quantidade de trabalhadores que mantiveram uma vida relativamente confortável após o fim do garimpo é baixíssima perto do total de garimpeiros envolvidos, de forma que colocar a culpa na má administração do dinheiro por parte deles é uma forma de eximir-se da real responsabilidade.

À exemplo de como Foucault abordou a ideia de “corpos dóceis”, os trabalhadores não podiam beber, não podiam ter mulher, tinham que seguir padrões rígidos de comportamento, e todo este controle era vendido como justiça social, pois supostamente todos eram tratados da mesma forma. Dentro do campo de trabalho sim, mas economicamente as dezenas, por vezes centenas, de quilos de ouro extraídos diariamente renderam uma fortuna para poucos.

Aos garimpeiros, que nunca tiveram nada, o valor recebido parecia muito, mas é perceptível que o real sustento daqueles trabalhadores sempre foi muito mais a ilusão que o dinheiro. Dentro de uma ideologia bem característica do governo militar, vigente no auge de Serra Pelada, o nacionalismo era inflamado na multidão de trabalhadores e sonho de enriquecer mantinha a população conformada e trabalhando.

Não somente o trabalho braçal interessava ao governo. Mecanizar a extração significaria desempregar milhares de trabalhadores sem especialização, em uma região desprovida de recursos e repleta de latifúndios que poderiam ser alvos dos súbitos sem-terra.

A manipulação se torna risível e patética quando algumas entrevistas culpam a chegada das prostitutas pelo fim do garimpo e pela suposta bagunça estabelecida. Alegam que por causa das mulheres os homens queriam trabalhar menos para cuidar da aparência.

É curioso como o país quer crescer, todos querem viver em uma nação desenvolvida, mas a história de exploração é cíclica e sequer mudam os argumentos. Hoje as forças políticas seguem atuando na região, utilizando garimpeiros como massa de manobra. Seguem culpando os oprimidos, acusando-os de má administração do próprio dinheiro e de uma forma ou de outra, conseguem colocar a culpa de qualquer problema nas mulheres.

O futuro de Serra Pelada é uma incógnita. Oficialmente a mina secou. O ouro acabou. Não há nada mais que resquícios que não cobririam o investimento no local. Porém evidentemente existem rumores de que boa parte do ouro segue cravado na serra. Parte dessa crença ainda é sustentada pelo sonho, como do velho garimpeiro que acredita estar sobre uma mina de diamantes, com uma pedra do tamanho de uma geladeira; mas parte é sustentada pela grande atenção que governo e multinacionais ainda dispensam ao local. 


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 & 2)

Abdellatif Kechiche trouxe às telas a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos) em um longo filme, que apesar das três horas de duração flui muito naturalmente desde o início, com uma Adèle bastante menina e angelical, até suas transformações baseadas em algumas experiências vividas.

Ao longo da vida a adolescência é o período mais confuso. Além dos hormônios bagunçados, a transição entre infância e vida adulta e diversas experiências novas, somos imaturos para lidar com todas essas turbulências. Adolescentes são mesmo seres perdidos e incoerentes, não por opção, mas geralmente por ainda não saberem como lidar com tantos caminhos pela frente.

O curioso é que muitas vezes aqueles que deveriam tentar utilizar um pouco da experiência adquirida ao longo da vida para auxiliar esses jovens, acabam se esquecendo de como foi passar por essa fase e bloqueando as reações contraditórias que tiveram quando passaram por esses anos confusos.

É por esse furacão de sentimentos e emoções que Adèle está passando e é com a incompreensão de quem já passou pelos mesmos tormentos que ela terá que lidar, ou seja, além das dificuldades quase inerentes ao período, ainda temos que carregar o peso desnecessário criado pelos que nos cercam, e isso não se restringe aos personagens do filme, pois pode também ser notado em algumas críticas que insistem em reduzir todo o conteúdo da obra às duas cenas de sexo apresentadas.

A menina confusa do começo do filme tem que aprender rápido a lidar com as pessoas próximas. Amigos, parentes, professores, todos acostumados a criticar a diversidade expressa no outro, forçando a acostumar-se com uma padronização medíocre, que apenas disfarça as contradições internas que todos temos.

Que Adèle não sabe bem o que quer da vida é quase inegável. Mas quem tem essa certeza, sobretudo ainda no ensino médio? O que é notável nas pessoas próximas à protagonista é a censura ao risco e principalmente à busca pelo prazer. O mais cômodo é fingir ter certeza para poder fingir ter cumprido as próprias metas, se tornando uma pessoa realizada. Um ideal romântico, quase onírico.

De todos que passam pela vida da menina, a única que contribui positivamente é Emma (Léa Seydoux), uma paixão que Adèle precisa esconder, ou ao menos tentar esconder de todos, diferente de sua companheira. Emma não sofre nenhuma censura ao apresentar a namorada aos amigos e aos pais, o que contribui, entre outras coisas, para que ela seja mais autoconfiante e centrada que Adèle, além, é claro, de ter mais experiência de vida.

Os personagens do filme, por vezes de forma abrupta, vão desaparecendo. O que para o enredo pode não ser tão bom, simbolicamente indica muito bem as fases da vida que Adèle deixa para trás. Na medida em que vai amadurecendo ela não precisa mais aturar certas pessoas, certas atitudes, certas cobranças infundadas. Em geral aqueles que somem não fazem falta e é de se imaginar que buscam outras implicâncias para maquiar as próprias frustrações.

O que resta é a vida que a própria personagem constrói e como não há um apogeu de conhecimento, principalmente para uma pessoa tão jovem, ela seguirá pagando a conta da inexperiência e de algumas atitudes impulsivas, sem que isso a faça uma fracassada. Qualquer que seja seu futuro, os erros foram baseados em escolhas próprias que trouxeram experiência.

Qual seria a alternativa para a jovem? Provavelmente reprimir sua atração por mulheres – o que neste caso talvez não fizesse tanta falta já que ela também sente atração por homens –, encontrar alguém com quem casar, formar a família tradicional que só costuma funcionar em comerciais de margarina e barrar qualquer tentativa que os filhos tenham de quebrar padrões, ratificando a ideia de que as contradições internas da adolescência são esquecidas quando ficamos mais velhos.

Só para não passar em branco, conforme já mencionado, duas cenas de Adèle e Emma na cama são bem mais explícitas que a maioria dos filmes costuma mostrar. Vemos a moça vivendo intensamente cada experiência nova, de uma manifestação política a uma mudança completa de paradigmas. Por que não a veríamos em um momento de prazer?

De fato essa naturalização ainda está distante das plateias de cinema. Cenas de casais héteros ainda podem chamar mais atenção que o filme como um todo, em se tratando de duas jovens há ainda o incremento do preconceito. Uma pena. Chegar ao fim do filme preso às duas cenas é sinal de que seu conteúdo não foi compreendido.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Feliz Natal (Joyeux Noël)

O filme do diretor Christian Carion traz no título a ironia de boa parte dos votos de ‘Feliz Natal’, ou seja, dificilmente é de fato feliz. Este tem a particularidade de inspirado em fatos reais, mostrar a noite de Natal em uma trincheira da primeira guerra, com alemães, franceses e escoceses duelando até a morte, sem saber muito bem pelo quê.

Marco histórico que dá início ao século XX, a primeira guerra ainda apresenta fortes traços de combates bem menos tecnológicos. Há relatos de soldados indo de bicicleta para o front de batalha e mesmo no filme é possível ver os soldados franceses com as características calças vermelhas, que relutaram tanto em abandonar.

Por outro lado, pensamentos que hoje estão naturalizados em nosso cotidiano, começavam a ganhar força naquela guerra, que contribuiu para definir as grandes potências mundiais e difundir ideais globalizados.

A incapacidade de diálogo para resolver conflitos de forma diplomática se desdobrou em um conflito armado, que passou a ser também lucrativo ao contar com indústrias pesadas para a produção de armamentos. O desenvolvimento tecnológico também passou a contar com saltos repentinos ao receber orçamentos cada vez maiores de governos envolvidos em batalhas.

Alheios a tudo isso, soldados abandonavam suas famílias e às vezes por vontade própria, iludidos por uma propaganda beligerante, marchavam rumo à morte nos campos de batalha, rendendo uma medalha de condecoração póstuma aos familiares.

Neste cenário de crescimento econômico à custa de vidas, chegamos à véspera de Natal, em uma trincheira coberta de neve, com soldados cansados e desiludidos após uma batalha sangrenta cujos mortos sequer haviam sido recolhidos devido ao risco de contra-ataques.

Àqueles que comandam a guerra de salas bem seguras e distantes de qualquer combate, o problema é que os soldados são seres humanos racionais e em meio a tanto terror logo percebem as contradições às quais estão expostos. O Natal é apenas um símbolo que faz explodir o sentimento que todos tinham individualmente.

Até que ponto vale a pena trocar tiros com desconhecidos ao invés de baixar as armas, compartilhar a comida escassa, a pouca bebida e fazer com que toda a disputa se restrinja a uma partida de futebol improvisada na neve? Foi o que os soldados das três nacionalidades em questão fizeram naquele Natal. E depois, haveria como motivar os exércitos para voltar a matar uns aos outros mesmo após a confraternização?

Pode ser que a história termine assim, sobretudo tendo sido inspirada em um acontecimento real, mas o potencial metafórico do filme vai muito além disso. Estamos nos aproximando de mais um Natal e, consequentemente, das contradições que a data implica.

Claro, não estamos em guerra declarada – ao menos no Brasil – e isso pode nos levar ao conforto de pensar que poderia estar pior. De fato poderia, mas esse é o tipo de pensamento que nos afasta do que realmente é melhor, que seria a eliminação permanente de contradições que são abafadas somente no período de festas.

É a época da confraternização, portanto os patrões compram um kit de Natal para os funcionários, desde que encontrem um kit bem baratinho; os funcionários presenteiam as empregadas domésticas com um panetone, desde que encontrem um bem baratinho; os mais dedicados irão ao correio realizar o pedido de alguma carta enviada por uma criança, desde que o pedido não seja nada caro; haverá até amigo secreto na empresa, do qual todos sairão reclamando que deram um presente bom e ganharam alguma porcaria.

Depois passa, o tal espírito natalino morre e voltamos para guerra, digo, ao cotidiano de dar ordens, receber ordens, explorar, ser explorado, ignorar crianças carentes e hostilizar adultos carentes.

Da mesma forma que o filme desconstrói o valor religioso do cessar-fogo natalino, mostrando um soldado que admite estar emocionado com a conciliação mesmo sendo judeu, vale ressaltar que a ideia não é a superação de conflito por conta de obrigações religiosas. Ainda que a moral cristã atue forte sobre boa parte da população, ela é variável, por vezes tendenciosa e questionável.

Ao baixarmos a guarda para a associação inusitada entre uma trincheira da primeira guerra e os dias atuais, vemos que manter a hipocrisia de um cessar-fogo simbólico na última semana do ano para logo depois retomarmos a guerra velada com todos os que estão próximo é baixar a cabeça para quem comanda a guerra à distância, longe dos efeitos do conflito direto.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Muito além do peso

O título do filme resume muito bem seu conteúdo. A diretora Estela Renner fez sua estreia em longas metragens mergulhando em um grande problema contemporâneo, que aparentemente só tende a crescer.

Enquanto muita gente ainda sofre sem ter o que comer, boa parte da população passa pelo problema inverso, sofre com a má alimentação que desencadeia uma série de problemas de saúde, alguns tão indiretos que muitas vezes sequer são percebidos.

A diretora mostra que o problema vai além da mesa e é influenciado por diversos fatores, desde culturais até a intervenção direta do marketing, que vê nas crianças alvos fáceis, sem muito discernimento sobre qual a melhor opção.

Não bastasse os apelos comerciais de redes de fast food e os avanços tecnológicos na área de entretenimento, que prendem as crianças por horas a fio diante de um jogo de vídeo game, muitos pais alegam a falta de espaço para lazer, considerando o risco dos filhos saírem sozinhos de casa.

O problema econômico influencia de várias formas. Existem as atividades físicas como aulas particulares de algum esporte, porém costumam ser bem caras; o baixo preço dos alimentos de baixa qualidade; a falta de recursos para tratar do problema, uma vez que a obesidade já esteja estabelecida, e mais uma série de fatores que pesam fundo no bolso das famílias.

Não bastasse a influência direta da economia, existe ainda a influência relativa desta. Um dos grandes atrativos da comida industrializada é sua praticidade. As carnes processadas já vêm praticamente prontas para o consumo, o suco em pó que fica pronto ao ser misturado na água, o macarrão que cozinha em três minutos. A economia de tempo é sedutora, sobretudo para quem trabalha o dia todo, estuda e chega em casa exausto. A conta vem com o tempo.

Por parte da indústria, até existe a necessidade química da adição de conservantes e outros produtos para que o alimento não estrague antes de chegar à mesa do consumidor. Por outro lado, como o próprio nome diz, são indústrias, e têm como objetivo vender e lucrar. Muitos alimentos são literalmente construídos para que o sabor final agrade aos consumidores, cabendo ao marketing ressaltar os pontos positivos (ou mesmo criar tais pontos) e omitir ao máximo os problemas.

Não é raro que um adulto caia nas armadilhas do marketing, não apenas em relação à alimentação, mas quantas vezes não percebemos ao chegar em casa que compramos algo inútil, apenas pelo impulso, ou seduzidos por um cartaz de oferta? Basta pensar que o simples fato de anunciar um produto com preço de 19,99 ao invés de 20,00 já tem efeito positivo sobre a venda. O que dizer sobre lanches servidos com embalagens mirabolantes e brinquedos relacionados os filmes que estão fazendo sucesso? Os pais têm o desafio duplo, pois além do apelo comercial, há ainda a pressão social quando as crianças veem os amigos com esses brinquedos.

Muitos exemplos do filme impressionam pela extrema falta de conhecimento. Tanto adultos, acreditando que o pacote de batata frita tem pouco óleo, quanto crianças, que não sabem sequer identificar frutas e vegetais, mostram grande deficiência na formação nutricional. Essa falta de discernimento sobre os alimentos abre espaço para que a indústria se aproveite da boa fé do consumidor.

Quando uma personalidade muito conhecida associa sua imagem a um produto, a tendência é que as pessoas ignorem o fato de haver um contrato firmado entre empresa e personalidade, que recebe (muito) para indicar tal produto. O que acaba realmente influenciando é a falsa ilusão de que se uma pessoa famosa consome, é porque tem qualidade.

Efeito semelhante tem o peso de uma marca conhecida. Grandes indústrias são vistas quase como sinônimo de qualidade e confiança, na contramão do fato de que para chegar ao topo tiveram que suprimir concorrentes, reduzir custos de produção (leia-se usar ingredientes mais baratos e com menos qualidade) e aumentar as vendas a qualquer custo, mesmo que prejudicando seus consumidores.

Atualmente passamos por uma situação no mínimo curiosa. A humanidade produz alimentos suficientes para alimentar toda a população (vamos, por ora, desconsiderar que essa produção não aconteça de forma sustentável). Enquanto nos vangloriamos de nossa racionalidade, uma parte considerável da população passa fome, enquanto outra luta contra a obesidade.

A desinformação das pessoas em relação aos alimentos não se restringe à nutrição. Parece que o déficit cultural alcança níveis mais elevados, deixando o consumidor sempre em uma condição passiva, recebendo propagandas sem o senso crítico mínimo para julgar idoneidade das mesmas.


(esse é o trailer, mas o filme está disponível no Youtube)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O segredo dos seus olhos (El Secreto de Sus Ojos)

Elija bien, lo único que nos queda son recuerdos. Al menos que sean lindos, ¿no?

Neste filme o diretor Juan José Campanella intercala personagens interagindo no tempo vigente com lembranças de um crime cometido vinte e cinco anos antes, em 1974. Vencedor do Oscar e merecedor de qualquer prêmio que tenha ganhado, ‘O segredo de seus olhos’ tem a sutileza do silêncio, do olhar, da palavra não dita, do sentimento não vivido. Pensando no conjunto, a obra me remeteu a uma história de Edgar Alan Poe com essência contemporânea.

O enredo que guia o filme é um crime. Liliana Coloto (Carla Quevedo) foi estuprada e assassinada. Um caso misterioso e com poucas pistas, sem muitos recursos tecnológicos na década de 70, portanto a ser desvendado através da reflexão – semelhante ao detetive Auguste Dupin, de Poe.

Aqui os investigadores em questão são Benjamín Expósito (Ricardo Darín) e Pablo Sandoval (Guillermo Francella), que em meio a toda tensão da história, utilizam o talento de Darín como ator e o alcoolismo de Sandoval como personagem para garantirem algumas cenas de comédia mais engraçadas que muitos filmes criados com essa finalidade.

Junto ao crime misterioso, há também a idealização feminina. Assim como as mulheres de Poe, aqui também vemos a mulher idealizada, perfeita, angelical e inatingível. Isso se expressa mais claramente na quebra da relação entre Liliana e seu noivo Ricardo Morales (Pablo Rago), que passa a ter na vingança seu único propósito de vida.

Porém um olhar mais atento encontra muitas semelhanças com a vida de Expósito, a partir do momento que ele conhece Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), sua chefe no departamento. Ainda que por motivos bastante distintos, também é um amor que apesar de correspondido, não é vivido, e por isso é perfeito no sentido de que não conta com desgastes naturais do tempo, para tirá-lo de um nível onírico e trazê-lo para o plano real.

Nem tudo é encarado com o romantismo que pode marcar presença até mesmo na resolução de um crime hediondo. Contextualizando o filme em seu período histórico, existe a tentativa, na Argentina prestes a iniciar a ditadura militar, de conseguir uma confissão sob tortura para supostamente encerrar o caso; existe o machismo que influencia na investigação de um crime contra a mulher; além do revanchismo, que prejudica qualquer investigação.

À parte de burocracias, machismos e corrupções, Expósito e Sandoval seguem a busca através de pistas abstratas, utilizando como base um olhar, uma intuição, uma paixão. Esses elementos que têm pouco valor jurídico carregam muito mistério e podem revelar segredos mais profundos, desde que bem interpretados.

É com essas provas pouco objetivas que Expósito chega a outro ponto que lembra Alan Poe. No conto ‘O demônio da perversidade’ (The imp of the perverse) o escritor desenvolve brilhantemente a ideia de atos cometidos com a consciência do erro e posteriormente a confissão, já que de nada serviria ao narrador guardar para si determinado feito – ainda que a confissão fosse um erro do ponto de vista pessoal.

Com base nisso Expósito trabalha sua intuição de forma tão bem estruturada que leva todos que estão próximos a crer que ele está certo. O trabalho em equipe complementa a investigação com os papéis fundamentais de Irene, uma mulher inteligente que sabe usar a ignorância do machismo a seu favor, induzindo uma confissão que se mostra, ao assassino, menos importante que sua virilidade; e Sandoval, que utiliza seu alcoolismo e os amigos de bar para indicar a força da paixão, sobretudo ao time de futebol, que é incondicional. Em breve cena num estádio Campanella consegue mostrar a magia do futebol como poucos conseguiram.

O curioso é que segundo Sandoval um sujeito pode trocar de tudo, menos de paixão. A metáfora ilustrada pelo futebol se aplica aos dois amores do filme por estes não terem sido vividos. A verdade é que a paixão, sim, termina, porém não até que seja vivida em sua plenitude. Ela tem seu próprio tempo, que quando não é cumprido a deixa latente. Podemos fingir que não existe, empurrar para baixo do tapete, mas acabar mesmo, somente se for vivida, assim a convivência mostra ao poucos os defeitos, as desilusões, as decepções que esfriam o ímpeto inicial.

Apesar de parecer pessimismo, trata-se de um tema antigo na literatura. O debate de como seria a vida de Romeu e Julieta caso tivessem passado a vida juntos leva a discussão ao menos até o tempo de Shakespeare. Aliás, é possível indicar uma relação ainda mais forte de Expósito e Irene com o casal shakespeariano.

Há na Argentina certa clivagem social com base nos sobrenomes. Os de origem europeia têm mais status que outros e isso fica bem evidente quando um desafeto do investigador, ao notar o clima de romance o provoca dizendo que ela é uma Menéndez Hastings e ele é apenas um Expósito. Mais que o sobrenome ela tem o amparo legal de uma família influente no meio jurídico, ele é apenas um sujeito esforçado, talentoso, em um mundo que nem sempre valoriza o esforço e o talento.

Claro, um amor, mesmo que correspondido, pode não acontecer por uma série de fatores. A diferença social é um dos aspectos, mas independente dos motivos que impeçam a paixão, o fato é que ela permanecerá presente. Ricardo, o noivo de Liliana, não tem opção e tem que conviver com o peso de uma paixão interrompida pela morte. Benjamín e Irene seguirão com uma paixão pendente, que dura ou até a morte, ou até ser vivida e cumprir seu próprio tempo.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

7 dias em Havana (7 días en la Habana)

A história do cinema cubano está intimamente ligada à revolução do país, em 1959. Uma das primeiras medidas ligadas à cultura foi a criação do ICAIC (Instituto Cubano del Arte y la Industria Cinematográficos) que livrou a ilha dos melodramas até então produzidos e deu início à criação de uma identidade local para os próprios filmes.

Apesar do forte controle estatal, alguns diretores como Alea e Espinosa utilizaram várias vezes seus privilégios, provenientes da amizade pessoal com o alto escalão do governo, para poder retratar a sociedade cubana permeando algumas críticas ao governo, ainda que o apoiassem.

Com a atual crise econômica do país, parte proveniente de décadas sob embargo econômico, parte pela própria dificuldade de girar a economia na contramão do modelo econômico global, o ICAIC não tem condições de patrocinar a grande quantidade de filmes que já foi produzida em décadas passadas. Com isso o país volta a recorrer à ajuda externa, que geralmente ocorre através de parcerias onde o talento para a produção, desenvolvido pouco a pouco no país, é fornecido pelos cubanos e o dinheiro para a produção vem de outros países.

Uma variação deste tipo de parceria é encontrada na produção deste longa. Seis diretores estrangeiros e um cubano produzem sete curtas-metragens, um para cada dia da semana, mostrando algumas características de Havana, sua população, seus costumes e algumas vezes a relação da cidade com estrangeiros, já que o turismo tem peso crescente na economia da ilha.

Apesar do risco de se formar uma visão externa falsa do cotidiano da cidade, exatamente um dos pontos que se queria evitar no início da revolução, além da exposição de ideais contrários aos das mudanças em curso na sociedade, a maioria das histórias mostram a diferença entre cubanos e turistas que permitem críticas ou exaltações, dependendo do olhar que se lance ao filme.

Há em comum certa alienação por parte dos turistas que visitam a ilha, uma visão que beira a inocência, quando comparada ao engajamento dos personagens cubanos. Alguns estrangeiros mostram total falta de comprometimento, encarando a viagem como uma grande festa, repleta de mulheres e bebidas, que geram respectivamente frustrações e problemas.

Entre os cubanos é evidente que, como em qualquer país do mundo, surgem problemas tanto sociais quanto econômicos. O machismo histórico, tão fortemente presente na América Latina, foi combatido ao longo da revolução, porém ainda é fortemente notado, tentando ser contornado no filme com um pouco de romantismo, mas ainda assim com presença marcante.

Outro ponto importante, que pode ser visto como virtude ou problema, é a versatilidade do povo cubano. No lugar da especialização exacerbada, que costuma dominar os profissionais, tomando todo o tempo que o indivíduo tem disponível, notamos que os cubanos exercem suas profissões, mas também são extremamente habilidosos em seus hobbies ou atividades complementares.

Desde o taxista com extrema desenvoltura com o trompete até a psicóloga que vende doces para aumentar a renda, driblando a falta de ingredientes para suas receitas por conta das dificuldades do país, vemos uma sociedade muito mais horizontalizada. Para muitos pode parecer inadmissível que uma psicóloga tenha que cozinhar – uma atividade tão ligada à servidão em nossa cultura –, porém é notável que não haja muitos privilégios de classe e as dificuldades do país são compartilhadas por seus habitantes, não por somente uma parcela deles.

O espírito festivo dos cubanos não poderia ficar de fora, sendo que entre os habitantes da ilha há uma ponderação entre as festas e o trabalho, enquanto os estrangeiros querem apenas a diversão e o hedonismo com fim em si mesmo. Além das comemorações, está presente a religiosidade, seja através da Santeria – uma espécie de candomblé, que une a religião africana ao catolicismo – seja através da devoção à santa católica, na construção de um altar.

Nesses sete dias em Havana temos uma leve noção de como é a vida na cidade. Sem as interferências políticas, vemos que se trata de mais uma cidade, com suas particularidades, diferenças entre estrangeiros e habitantes locais, problemas e virtudes de uma sociedade que, em meio a uma globalização tão feroz mantém um resquício de originalidade, talvez tênue quando vemos jovens dançando algo bem parecido com os detestáveis “pancadões” que temos por aqui, mas indiscutivelmente importantes quando vemos pessoas politizadas e multifacetadas.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Frances Ha

Em meio às megaproduções, com efeitos especiais megalomaníacos e cenas que despertam o famoso comentário “só no cinema”, por vezes aparecem algumas obras que quebram essa tendência e se destacam mesmo sem esses elementos.

Sem efeitos especiais e filmado em preto e branco, Frances Ha, do diretor Noah Baumbach, traz um enredo simples, um recorte da vida da protagonista Frances (Greta Gerwig), que vive em Nova York, com um estilo de vida tão caótico quanto a cidade que a acolhe e bem diferente da vida tranquila que sua família leva em uma pequena cidade do interior.

O filme tem sido muito elogiado e com mérito. É divertido, bem produzido, com boa trilha sonora e em pouco tempo nem percebemos que o preto e branco da fotografia é incomum para o cinema atual. Apesar disso, o filme tem um elemento a mais para algumas pessoas: a identificação.

O roteiro se repete em qualquer metrópole, que a exemplo de Nova York atrai jovens de várias partes do país, atraídos por oportunidades de emprego, estudo, diversidade cultural e a possibilidade de construir a vida de forma distinta das opções de pequenas cidades.

Claro que nem tudo são flores na vida de Frances. Diga-se de passagem, nem tudo são flores na vida de ninguém. Os contatos pessoais em sua vida ficam por conta das amizades, que são fortes, intensas e verdadeiras, mas que geralmente esbarram em conflitos de interesses difíceis de serrem sanados.

Os laços familiares têm influência muito maior em nossas decisões. Podemos recusar oportunidades ou mudar de planos. Quando nos frustramos ao sacrificar desejos em troca de melhor relacionamento familiar, a sensação de obrigação tenta equilibrar a frustração. Entre amigos, por mais forte que seja o elo, diante de um impasse muitas vezes é necessário tomar uma decisão mais individualista, sem que isso seja errado ou condenável. São apenas caminhos paralelos que chegam a uma bifurcação.

Além dos impasses entre amigos, as grandes cidades como oportunidades de emprego costumam criar algumas frustrações. De fato oferecem mais vagas e mais diversidade de carreiras, o que é fundamental para Frances, que é bailarina. Porém a concorrência também é grande e a visão utilitarista que persiste na sociedade faz com que algumas profissões sejam pouco valorizadas.

Independente de como esteja a situação profissional, as contas são implacáveis. O aluguel é caro, o pagamento é inadiável e não importa se o emprego que sustenta o morador simplesmente desaparece. As peças de reposição em um grande centro urbano são numerosas e se alguém não pode pagar, deve simplesmente sair e dar lugar à outra pessoa. Não importa para onde vai ou como vai viver. Injusto, sem dúvida, mas real.

Com tantos percalços, o que segura Frances em Nova York, ao invés de retornar e viver a vida tranquilamente com sua família?

A protagonista é o tipo de pessoa que não caberia em uma pequena cidade. Dribla as dificuldades para poder viver intensamente os problemas e vitórias, faz novas amizades, muda de apartamento, de emprego, só não abandona o estilo despojado que marca sua personalidade.

A excentricidade, comumente criticada, porém com mais ênfase em locais homogêneos, com pouca diversidade, costuma encontrar pares em grandes centros, gerando um sentimento de identificação e conforto. Frances só tem os amigos. Abriu mão do namorado e apesar de procurar alguém, não coloca essa busca como única meta de sua vida, pois como fica evidente, seu tempo está bastante ocupado para se adequar a alguém.

Relações mais distantes, como a amizade, permitem a flexibilidade necessária para que a personagem se mantenha excêntrica, sem que isso atrapalhe sua vida. Pode assim aproveitar o Natal na casa dos pais, viajar a Paris e voltar em dois dias para procurar um emprego, desabafar com pessoas que mal conhece e buscar seus sonhos sem que isso signifique um romantismo vazio.

Se por um lado as raízes de Frances são frágeis, o que não lhe garante estabilidade, por outro a moça encara os problemas com a consciência de que nem tudo é eterno, usando a instabilidade da vida a seu favor. Sabe abrir mão do que gostaria de manter, mas não pode. Respeita o tempo para que sua grande amiga viva uma história particular longe dela, antes de reatar o contato. Procura emprego, amigos, diversão, tudo.

Que o filme é bom, não há dúvidas. O que vale a pena ressaltar é como o filme atinge quem encontra na vida de Frances um pouco de si.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Saneamento básico, o filme

A princípio este longa do diretor Jorge Furtado é definido como uma comédia, porém o enredo vai além de simplesmente fazer rir – talvez esse nem seja sua principal característica –, guiando os espectadores por caminhos entre a reivindicação de direitos perante o poder público e a metalinguagem da produção de um filme.

Para condensar tudo isso vemos os moradores de uma pequena vila de colonização italiana, chamada Linha Cristal. Eles precisam somente de uma fossa para tratar o esgoto que vem sendo jogado diretamente no rio, mas a prefeitura só dispõe de uma verba cultural, para a realização de um filme. Dez mil reais. Suficiente para a realização da obra.

A solução encontrada para utilizar o dinheiro foi realizar um filme e utilizá-lo como pretexto para o financiamento da fossa. A partir daí vemos que a produção de um vídeo, ainda que simples, tem muito mais detalhes do que imaginamos. Apesar disso, esta mesma produção costuma ser tão envolvente que até mesmo um projeto descompromissado passa a engajar os envolvidos, que passam a ter grande dedicação.

O paradoxo do filme é reunir grandes nomes do cinema brasileiro e coloca-los para atuar como se fosse amadores. Desta forma Marina (Fernanda Torres) começa a desenvolver a história do vídeo com seu marido Joaquim (Wagner Moura). Sem sequer saber muito bem o que é um filme de ficção, os dois começam meio sem rumo, agregando ideias desconexas que lentamente, e com a ajuda de pessoas próximas que pouco a pouco se envolvem na produção, ganham forma e começam a preencher os dez minutos necessários para o vídeo.

Uma das formas de aprender a fazer cinema (incluindo desde longas metragens até pequenos vídeos) é a mais tradicional, ou seja, estudar e partir do conhecimento teórico para realizar a prática. A outra, que pode ser mais eficiente de acordo com a facilidade que cada um tem para aprender, é realmente tentar por uma ideia em prática e solucionar os problemas conforme vão aparecendo.

Com um método de trabalho quase construtivista, os personagens do filme se transformam por sua vez em personagens do vídeo, também buscam patrocínio, sugerem sequências, dirigem e se desdobram para superar todas as dificuldades que quem produz filmes sem muitos recursos conhece bem.

Mesmo com pequenas desavenças que surgem ao longo da produção, em geral o vídeo tem a capacidade de unir os moradores da vila em torno de um objetivo em comum, que aos poucos passou a ser mais as filmagens do que a própria fossa, que deu origem a todo o trabalho.

Bastante realista é o aproveitamento do trabalho por parte do prefeito, fazendo de tudo para colher os frutos que nunca ajudou a plantar. Ainda que pareça absurdo uma prefeitura ter verba para um vídeo enquanto o saneamento básico precisava de obras, de fato o orçamento é dividido em pastas, até para que não fique todo concentrado em uma única área.

O problema – tanto na tela quanto fora dela – é a incapacidade de gerir recursos e aloca-los de forma eficiente de acordo com as demandas da população, sem falar na incapacidade das instituições de desenvolver projetos artísticos em conjunto com a educação.

Assim como no filme, a verba que os municípios destinam para a cultura costuma ser mal aproveitada e nem sempre surge um grande projeto casual como a produção de um vídeo que mobilize a população. Se nos livrarmos da visão utilitarista que estamos habituados a ter diante de novos projetos, veremos que os moradores de Linha Cristal não viraram diretores, roteiristas, atores ou qualquer outra profissão relacionada ao cinema. É possível que até mesmo a fossa pudesse ser construída de outra forma, porém é inegável que aprenderam muito com as filmagens.

Quando a educação é entrelaçada com a cultura, ambas se desenvolvem de maneira muito mais fluente, já que uma dá sentido para a outra, resultando em indivíduos mais completos e críticos por terem melhor visão do todo, ao invés de limitarem-se às partes.

Assim como os personagens do filme foram imersos em um problema, vendo na prática as dificuldades de soluções que parecem simples, qualquer pessoa que passe por processo semelhante, não necessariamente com a produção de um vídeo, irá treinar aspectos de argumentação, criação e percepção, que são indiretamente úteis em quase tudo o que fazemos, e são muito influentes em demandas populares em relação ao poder público.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

O Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex)

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem.
Bertolt Brecht

Atualmente a Alemanha destaca-se como o país, economicamente, mais importante da Europa. Como sempre, a economia aquecida proporciona também o poder político na região, porém o caminho até essa condição não foi fácil. Na metade do séc. XX o país estava destruído, física e politicamente, tentando se recuperar e juntar os cacos espalhados pelo território dividido entre ideologias da guerra fria.

Diante de uma vertente imperialista do estado alemão, que consequentemente marginalizava ou apoiava a marginalização de minorias, muitas vezes dizimando as mesmas em conflitos armados, um pequeno grupo radical revoltou-se contra uma série de injustiças institucionalizadas. A opção foi o confronto direto através de atentados.

O grupo ficou conhecido como Baader-Meinhof, pois no começo eram liderados por Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Ulrike Meinhof (Martina Gedeck). Sua história, pouco conhecida no Brasil, com exceção da intervenção nas Olimpíadas de Munique, marcou a segunda metade do século e influenciou toda a política alemã da época.

A violência das ações do grupo não chegou a resolver problemas ou sanar as reivindicações, pelo contrário. Conforme vemos no filme do diretor Uli Edel, inspirado no livro homônimo de Stefan Aust, vários membros da RAF (como o grupo ficou conhecido) sofreram consequências graves por seus atos.

O ponto central ao tentarmos entender as ações em questão é que nem a RAF nem nenhuma outra organização semelhante pretende utilizar a violência como um fim em si mesmo, mas como um meio para evidenciar problemas. Todo governo adota políticas que geram controvérsias, aqui o apoio (ou complacência) à guerra no Vietnã e a causa Palestina foram os principais alvos.

Quando a grande mídia é confluente com o governo, qualquer voz destoante que tente propor um diálogo ou ao menos questionar certas políticas será suprimida sem espaço ou direito à opinião. A reação violenta do oprimido, ou daquele que o defende, é como um grito de quem pede socorro, pois ainda que seus atos sejam noticiados como vandalismo, suas causas serão postas em evidência, sobretudo se as ações perdurarem.

O mais comum é que os atos de violência física sejam criticados, dado à barbárie intrínseca que possuem. Porém vale ressaltar que nem toda violência é física. A explosão de uma bomba pode ser resposta à violência simbólica, apenas se expressando em outra linguagem, como alguém que sofre uma tentativa de assalto e reage com socos e chutes contra o assaltante.

Se por um lado somos seres racionais, com potencial para abrir mão das agressões e solucionar desavenças mediante negociação, por outro muitas vezes a famigerada democracia se resume a uma fachada que oculta e, sobretudo manipula dados para que os conflitos sejam atenuados, a ponto de passarem despercebidos.

Até mesmo em virtude desta capacidade de negociação muitos rejeitam atos violentos alegando a existência de outros caminhos para protestos. De fato, em teoria esses caminhos existem, mas pensando pelo lado dos manifestantes, são cidadãos comuns que se arriscam, tanto pela própria violência dos atos que cometem quanto pela repressão estatal, que em nome da lei e da ordem chega a mobilizar o aparato militar do estado para neutralizar manifestações.

Os que estão dispostos a correr todos os riscos veem nas ações diretas a única forma de gritar contra as injustiças que vivenciam, e se gritar – metaforicamente – pode dar margem para uma falsa associação com imaturidade, vale lembrar que mesmo os bebês, cujo único recurso é o choro, conseguem o que querem com o grito.

Por fim, uma das funções do estado é a mediação de conflitos. Em último caso é o único a ter monopólio legítimo sobre a violência, o que daria o direito institucional de reprimir manifestações. Porém essas repressões não devem ser ilimitadas. Há, sim, um claro limite entre a autoridade e o abuso de autoridade.

Com a falácia de que em um conflito entre manifestantes e policiais os ânimos estão exaltados e ambos cometem excessos, passa despercebido o fato de que a polícia é exaustivamente treinada para agir em situações de tensão, enquanto por parte dos manifestantes, existe apenas um aglomerado de cidadãos civis, em um movimento horizontalizado, que não conta com ordens ou estratégias.

O grupo retratado no filme, que começou com Baader e Meinhof seguiu por várias gerações, de forma muito menos centrada do que pretendiam seus criadores, mas ainda assim com o mesmo espírito de luta, movido pela indignação perante injustiças sociais.

Não é por acaso que o conteúdo do filme se encaixa com o que o Brasil tem vivido graças aos Black Blocks. Aqui, na Alemanha e em qualquer outro lugar, sempre haverá pessoas que preferem a violência à letargia. Quando suas reivindicações são justas, resta pensar se o combate deve ser com mais violência ou com o bom senso de reivindicações atendidas.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Metallica: Through the Never

No começo dos anos 80 o Metallica era um grupo formado por quatro moleques, dispostos a beber o máximo possível e exteriorizar seus sentimentos através da música. Misturando power chords com influência do punk e do heavy metal, os garotos foram os precursores do thrash, estilo do qual foram se afastando ao longo da carreira.

Desde o início da década de 90, com o lançamento do black album, o Metallica não é mais somente uma banda, mas uma marca. Uma espécie de grife, que não vende apenas música, mas qualquer coisa que leve seu logo.

Inovadores desde sua origem, a nova empreitada é o lançamento do filme em 3D, que leva às telas de cinema um show da banda, recheado com uma história de ficção, que fica em segundo plano e não chega a atrapalhar a apresentação das músicas.

Uma característica da banda é a grande energia que transmitem ao público nos shows. É claro que em estúdio as músicas têm qualidade, mas a execução parece muito mais contida. O único que conseguiu reduzir um pouco essa diferença foi o produtor Bob Rock, depois de muito trabalho no black album.

Como era de se esperar, toda essa energia em uma tela de cinema, com recurso 3D e toda a edição de imagens, resulta em um espetáculo bem atrativo para os fãs da banda, que têm o desafio de se conter na cadeira do cinema aos sons dos clássicos que consolidaram a banda como uma das mais influentes do rock.

O trabalho do diretor Nimrod Antal não deve ter sido fácil. Com o objetivo de filmar uma história paralela para não lançar somente um show em 3D, Antal corria o risco de interferir muito no show, que independente de qual seja a expectativa de quem for ao cinema, vira prioridade logo na primeira música.

A ficção mostra o roadie Trip (Dane DeHaan) maravilhado no backstage do show, como qualquer fã ficaria se estivesse nessa situação, porém no fim da primeira música recebe a ordem de buscar uma encomenda na cidade e voltar antes do final da apresentação.

A partir disso a história começa a se desenvolver de forma linear, depois foge completamente da realidade, ficando mais interessante e prendendo a atenção, mesmo em meio às apresentações fantásticas das músicas. Logo dá para perceber que a jornada de Trip está encadeada com as músicas do show, portando tudo vai ganhar mais sentido se você conhecer pelo menos o tema da letra da música.

Dentro da história, que é curta por ter elementos somente entre as músicas do show, há um grande mistério (sem entrar em detalhes aqui, para não estragar a surpresa de quem ainda não viu) que torna ainda mais importante saber sobre o que a música em questão está falando. Ainda que não exista uma resposta exata para o tal mistério, o filme dá uma sugestão.

Em relação ao Metallica, as expectativas são correspondidas. Ótimos músicos que são, contam com a edição de imagens e as tomadas captadas em mais de uma apresentação que, associadas ao efeito 3D, oferecem uma ótima perspectiva de visão, que em nenhum ponto da plateia é possível conseguir.

Filmado no Canadá, em shows realizados especificamente para fornecer material ao filme, só o palco já é uma atração à parte. Tecnologia de ponta, trazendo uma coletânea de marcas importantes ao longo da história da banda, como a estátua da justiça se despedaçando, as cruzes de Master of Puppets (com direito a uma bandeira do Brasil de relance na plateia) e o acidente encenado durante Enter Sandman.

O filme cumpre bem seu papel. Oferece mais que um show e explora bem os recursos cinematográficos. O curioso é que o retorno não tem sido tão bom quanto o esperado e sem dúvida isso pode inibir bandas que tenham gostado da ideia. Difícil dizer qual o fator determinante para o filme não ir tão bem nas bilheterias, talvez a postura contida de uma cadeira de cinema que nunca vai substituir um show de verdade.

De qualquer forma, produzir um filme 3D foi caro e trabalhoso. Mesmo com a qualidade final e com a inovação da banda, é bem provável que sua produção fique apenas registrada como curiosidade na história da música.


(diferente do trailer, no filme as letras das músicas não são legendadas!)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Capitães da Areia

Nunca pensei que um dia eu colocaria uma obra de Jorge Amado entre minhas favoritas. Meu gosto pela leitura começou tarde, já no final do ensino médio. Havia lido “Mar Morto” por imposição escolar e não me despertara grandes sentimentos; acho que eu não estava maduro para ele.

Depois, vi em algum lugar uma defesa à obra de Paulo Coelho dizendo que em sua época Jorge Amado também era alvo de críticas. A péssima fonte me rendeu uma péssima conclusão que durou muito tempo. Alguns anos mais tarde li "A morte e a morte de Quincas Berro d´Água", uma crítica bem humorada, que me agradou, mas não me revelara o verdadeiro escritor.

Cheguei, antes tarde do que nunca, ao “Capitães da Areia”. Finalmente entendi porque Jorge Amado era mal visto em seu tempo, ficou claro porque a Rede Globo, diante da impossibilidade de negar o valor de sua obra, ressalta apenas os aspectos da sensualidade de seus livros.

Cecília Amado se dispôs ao trabalho dificílimo de adaptar às telas o livro de seu avô. A dificuldade está exatamente na diversidade de personagens do livro, cuja história individual de cada um pesa muito no resultado final, mas não caberia no espaço de um filme. Uma alternativa muito viável seria a produção de uma série, com capítulos interligados e contando detalhadamente tanto as histórias diretas do livro, quando um pouco de suas descrições psicológicas e histórico dos personagens, mas sem dúvida o resultado incomodaria a muita gente.

Escrito em 1937, Capitães da Areia é assustadoramente atual. Jorge Amado usa a literatura para, da forma mais didática possível, explicar que o problema de menores infratores vai muito além da falta de punição ou má índole, blindando sua análise lúdica de críticas superficiais e antecipando argumentos que apesar de falhos continuam sendo usados amplamente até hoje.

A comparação entre literatura e suas adaptações ao cinema costuma ser muito injusta. São linguagens diferentes e, sobretudo, intenções bem distintas, portanto não cabe julgar qual é ‘melhor’, já que seria inviável colocar sob os mesmos critérios um livro que tem todo o espaço para desenvolvimento de personagens, divagações psicológicas e narrador onipresente, com um filme que deve condensar em menos de duas horas o conteúdo de origem, contando com atores mirins que não tinham experiência em atuação.

Superada a falácia de eleger qual a melhor obra, vemos no filme pontos importantes do livro, que em alguns planos podem ter ficado muito reduzidos ou simplificados, mas que ainda assim retratam dificuldades e artimanhas desenvolvidas pelos meninos de rua, que existem, independente da organização do grupo Capitães da Areia, e lutam para além de superar os percalços da vida, lidar com o preconceito de quem espera de adolescentes – por vezes crianças – maturidade e discernimento habitualmente ausentes até mesmo em adultos.

Infelizmente o filme deixa margem para críticas pouco instruídas, não sobre sua produção, mas sobre o próprio conteúdo exposto, já que é um prato cheio para aqueles que enxergam claramente os delitos dos jovens para com a sociedade em que vivem, fechando os olhos de forma muito conveniente para o caminho contrário e se negando a considerar que quando não há boas alternativas, o jeito criar algo que individualmente seja ‘menos pior’.

O que também não tem tanto destaque nas telas é a ética presente entre os meninos do grupo, ou seja, muitas atitudes podem ser consideradas imorais perante a uma sociedade habituada com a competitividade desenfreada, desta forma, àqueles acostumados a hostilidade de quem quer ser promovido no emprego, mesmo que às custas de, até então, colegas de trabalho, a lealdade dos meninos aos Capitães de Areia como um grupo é censurável. O argumento alegado é o de que não deve haver lealdade com o que está fora da lei, porém o que fica implícito nesse tipo de crítica é a vergonha de admitir que a ética entre os Capitães de Areia esta ausente em muitos ambientes corporativos.

Mais esperançoso que o livro, o filme termina indicando finais hipotéticos e de forma bastante otimista. Na verdade o que é narrado como um vislumbre é o que se concretiza no livro (sem detalhar para não estragar o final de quem ainda não viu), porém ao contrário do otimismo indicado no filme, o livro coloca as mesmas situações de forma mais melancólica, mais crua, mais triste por ser mais real.


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