quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ninguém escreve ao Coronel (El coronel no tiene quien le escriba)

Gabriel García Marquez escreveu a novela “Ninguém escreve ao coronel” em Paris, durante seu exílio, mas as referências da história deixam claro que seus personagens estão na terra de Marquez, até mesmo fazendo menção à fictícia Macondo, na qual posteriormente o autor desenvolve a história do romance “Cem anos de solidão”. Ainda que a obra seja um dos primeiros passos no desenvolvimento de Macondo e da família de Aureliano Buendía – também citado –, acabou se tornando um bom complemento com elementos que indicam o que aconteceu fora da cidade enquanto o coronel Buendía lutava na revolução.

Apesar na narrativa do livro ser bastante linear, favorecendo bastante a transposição fiel ao cinema, o diretor Arturo Ripstein apresentou algumas alterações que tiveram resultado bastante positivo no filme. O longa foi rodado no México, mas mantém as características de floresta equatorial, com chuvas intensas, clima quente e, socialmente, o vilarejo pobre e afastado da cidade. Há também a inclusão de fatos e personagens destacando certos sentimentos dos personagens, que vai à contramão das adaptações, pois geralmente na transposição trechos são suprimidos.

A princípio nos parece estranho ver um coronel nas situações expostas, afinal foge da realidade brasileira um militar aposentado, que aqui recebe altíssimos salários após degradar o país por duas décadas, passando por sérias dificuldades devido à pensão prometida pelo governo, que nunca chega. A realidade do casal é condizente com a maioria dos idosos de países pobres, racionando os alimentos escassos, tendo que se contentar com as roupas velhas, com a casa degradada pelo tempo e sempre torcendo para que nenhuma doença apareça com a demanda de remédios que sacrifiquem ainda mais a vida sofrida. O único elemento realmente destoante em relação ao que estamos acostumados no Brasil é o fato do idoso em questão ser militar, que aqui vivem em condições verdadeiramente opostas às descritas anteriormente.

Aos poucos entramos no cotidiano do Coronel (Fernando Luján), tão opressor e degradado em todos os sentidos. A cidade pobre e isolada sofre também com o clima quente e úmido; na pequena casa velha, que o militar divide com sua esposa Lola (Marisa Paredes), sobram poucos objetos após a venda dos mesmos para conseguir algum dinheiro; além das dificuldades físicas da idade, os idosos ainda precisam enfrentar os percalços psicológicos tanto da humilhação por não terem como se sustentar – situação agravada pela hipoteca da casa, que não é descrita no livro – quanto da dor de ter perdido o filho.

Mesmo sem um personagem presente, é através do filho Augustin que boa parte do enredo se desenvolve, pois aos poucos vemos que o clima de censura política vigora até mesmo na cidade que beira a um simples povoado, onde os amigos de Augustin dão continuidade à tentativa do jovem de driblar o controle e divulgar informações de forma clandestina. Além disso, o autor expõe a importância das brigas de galo na cidade, das quais o jovem participava tendo deixado como principal lembrança aos seus pais um galo de briga, supostamente o melhor da cidade, alvo de apostas que poderiam livrar o casal de idosos das dificuldades financeiras. Neste ponto Arturo Ripstein complementa o texto original incluindo a personagem Julia (Salma Hayek), a prostituta com a qual Augustin se relacionava e talvez tenha sido fundamental no assassinato do mesmo. Há mais de uma interpretação para a tragédia envolvendo os elementos políticos e passionais.

Através da moça o autor mostrou a agonia do coronel por não deixar herdeiros, superando até o tradicional moralismo para chorar diante da prostituta e afirmar que gostaria que o filho tivesse lhe deixado um neto. A presença da moça no enredo humaniza a trama e ajuda na composição do sentimento pela imagem, já que a obra original conta com a descrição detalhada com palavras, ou seja, com um recurso bem diferente do cinema.

Mesmo sendo um dos primeiros trabalhos literários de Marquez, que serviu de experiência para o desenvolvimento do trabalho que lhe rendeu o Nobel de 1982, “Ninguém escreve ao coronel” já mostra o grande talento do escritor, apresentado não apenas através da literatura, mas do ativismo político e vários outros trabalhos pela América Latina.


Não encontrei o trailer, mas dá para ver o filme todo no Youtube (áudio em espanhol, legenda em inglês)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Amor?

"O mais importante não é o amor. O mais importante é a gentileza."
(Dostoiévski)


Em seu novo trabalho o diretor João Jardim trabalha com um sentimento extremamente complexo, multifacetado e marcante na vida de qualquer um. A interrogação do título já sugere, antes mesmo de vermos o filme, a dúvida: seja lá o que for abordado, é realmente amor?

A montagem do longa é pouco convencional, pois não foi elaborado um roteiro. Após realizar várias entrevistas com pessoas que falaram abertamente sobre seus relacionamentos conflituosos o conteúdo foi encenado por atores bastante conhecidos. Isso ajudou a manter os entrevistados no anonimato, estimulando o detalhamento das histórias sem receios em relação às consequências, e também torna o filme mais impessoal, pois um desconhecido daria a impressão de um caso isolado, já a forma que é apresentada, com atores, aumenta a identificação das pessoas com o conteúdo do filme.

É claro que histórias tão complexas e ricas em detalhes são muito particulares, mas é impossível assistir ao filme sem encontrar alguns pontos em comum com nossas próprias vidas em meio às histórias apresentadas. Esse mosaico de sentimentos que montamos a cada entrevista exibida mostra como as desavenças, que aparecem quando nos relacionamos com alguém, costumam ser muito comuns e ainda que o sentimento seja particular, suas expressões têm uma base possível de ser encontrada entre pessoas muito distintas entre si.

O que o filme deixa bem evidente é a forma que todos os entrevistados encontraram para lidar com os atritos, sempre através da violência física e psicológica. Assim, qualquer um que já tenha vivido os sentimentos descritos pelos personagens pode se identificar, mas hesita em procurar mais pontos em comum em virtude da violência, entretanto podemos concluir que as agressões descritas mostram apenas um caminho – bastante criticável – para solucionar conflitos bastante comuns como ciúme, insegurança, etc.

Algumas vezes é tentador responder à pergunta do título do filme apenas com um “não”. Negar que aqueles relacionamentos cercados de ameaças e agressões possam ser classificados como amor. Porém os seres humanos são bem mais complexos do que uma simples definição e, por mais estranho que possa parecer aos que estão distantes das situações descritas no filme, uma agressão pode até mesmo ser interpretada como forma de atenção, pois se uma pessoa está agredindo é porque, supostamente, se importa com a agredida.

Talvez para contornar o absurdo da agressão e não admitir que um relacionamento seja inviável nessas condições, um sentimento recorrente nas entrevistas é o de culpa. Ninguém assume toda a responsabilidade pela violência, pois é mais confortável justificar tal ato através das provocações sofridas. Da mesma forma nenhuma pessoa agredida deixa de assumir uma parcela de culpa por apanhar. O fato é que independente da provocação ou do conflito existente, nada justifica o abandono do diálogo, da razão, em prol da barbárie de uma agressão.

Em meio a tantos estereótipos que são criados em torno de um relacionamento geralmente nos vemos na imposição de uma vida a dois, pouco importando a qualidade dessa união ou até mesmo a anulação mútua que ela gera, pois é frequente nas entrevistas apresentadas no longa o relato de casos em que o casal praticamente interrompe a vida, que passa a ser voltada exclusivamente para um relacionamento quase doentio.

Existe uma infinidade de motivos pelos quais as pessoas podem se sujeitar a uma relação na qual toleram a violência, mas não é por acaso que agressores e agredidos lançam um olhar de arrependimento sobre o tema. Apesar de ser uma coletânea de entrevistas, o diretor João Jardim tem o mérito de escolher histórias muito bem articuladas, que muitas vezes dialogam entre si, além de dirigir muito bem os atores para que os depoimentos ganhem tom de naturalidade, ao invés de um texto ensaiado. O diretor mostra, de forma cada vez mais eficiente, as particularidades por trás dos estereótipos e busca no fundo de cada um o suficiente para estimular quem assiste a pensar de uma forma diferente sobre o tema abordado, sempre com muita arte.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Olhos Azuis

Com este filme o diretor José Joffily aborda um aspecto da imigração nos EUA. Não trata de ilegais que tentam cruzar o deserto e começar vida nova, mas de pessoas que tentam entrar legalmente, para trabalhos temporários, estudo ou turismo, porém devem passar por um verdadeiro pente fino, sob critérios bastante questionáveis.

No filme Marshall (David Rasche) é um oficial da imigração no aeroporto e está em seu último dia de trabalho antes da aposentadoria. A data especial mereceu uma comemoração regada a doses de uísque ao longo do dia, mas apesar disso o oficial prezava em seus discursos pela ordem e pelo cumprimento da lei. Já Nonato (Irandhir Santos) é o brasileiro que mora legalmente nos EUA e após um breve retorno ao Brasil, para visitar a filha, tem que enfrentar os amplos questionários aplicados aleatoriamente aos imigrantes oriundos de países subdesenvolvidos.

O foco do filme é mesmo os critérios – ou a falta deles – aplicados a quem desembarca, ainda que legalmente, nos Estados Unidos, mas o desenrolar do enredo abre espaço para uma análise sobre as relações de poder, baseadas no preconceito de quem o detém. Em uma escala global podemos ver um policial norte americano, que no alto de sua arrogância considera-se melhor que os imigrantes simplesmente por ter nascido em um país rico, desconsiderando também as origens desta riqueza. Reduzindo a escala e invertendo a polaridade do norte rico e sul pobre, vemos cotidianamente (e de forma muito mais intensa logo após as últimas eleições para a presidência) a mesma postura lamentavelmente preconceituosa dentro do Brasil, do sul e sudeste em relação ao norte e nordeste. Seria possível citar várias outras magnitudes em que o mesmo conteúdo preconceituoso se revela.

O próprio título da obra pode causar desconforto. Olhos azuis. Os olhos azuis de Marshall, que por vezes lacrimejam tanto pelo remorso que o assola em uma das partes do filme, quanto pela dor física provocada por um tumor, diante do qual não há ricos ou pobres. É evidente que a cor dos olhos em nada influencia no caráter de um indivíduo, assim como a cor de sua pele ou qualquer característica física, mas a metáfora que associa os olhos azuis à qualquer situação tradicionalmente é aplicada para coisas boas. Quando os olhos azuis são associados ao preconceito de Marshall contra latinos não nos incomodamos tanto, afinal temos a tendência de tomar partido do brasileiro, porém quando o ex-presidente Lula associa a culpa de uma crise econômica à gente loira e de olhos azuis, não faltam críticas acompanhadas de argumentos muitas vezes risíveis. Seria até plausível se os que bradaram contra Lula focassem a falsa associação de um estereótipo com uma atitude, mas a metáfora foi claramente associada aos países ricos e a indignação se deu por dois motivos, primeiramente porque seu conteúdo era irrefutável, pois a crise foi mesmo iniciada por gente rica que precisou mendigar ajuda milionária do governo. Depois porque o alvo da crítica foi uma classe social que há séculos utiliza outra metáfora pejorativa: “isso é coisa de preto”.

É curioso como quando as classes mais altas são contra atacadas, defendem-se com discursos baseados na liberdade de expressão, igualdade, diversidade de ideias, etc. Tudo muito bonito, por serem pontos verdadeiramente indispensáveis em uma sociedade, não fosse o fato de que na prática esses valores são encontrados unilateralmente, de forma que as classes economicamente superiores reivindicam o direito a atacar e expor claramente seu poder aos demais, porém estes não podem sequer ousar o contrário.

Recentemente encontramos um Marshall brasileiro, o deputado Jair Bolsonaro, que depois de declarações racistas e homofóbicas despertou a ira de muitos, mas também conquistou grandes fãs. Nas diferentes esferas em que a relação poder x preconceito se apresenta, muitos podem, até mesmo sem perceber, reproduzir o discurso imperialista, que após reprimir determinadas classes sociais durante muito tempo ainda colocam nos oprimidos a culpa de suas mazelas.

Não é difícil criticar Marshall diante das acusações absurdas, principalmente quando são dirigidas a um brasileiro, mas o mais importante é perceber que o mesmo discurso apresentado no filme pode ser reproduzido de várias formas e em várias esferas de poder.


quinta-feira, 24 de março de 2011

É proibido fumar

O longa dirigido por Anna Muylaert gira em torno dos encontros e desencontros de um casal. Até aqui poderia ser mais um filme romântico, mas o que chama a atenção é que Baby (Gloria Pires) e Max (Paulo Miklos) não são adolescentes descobrindo a vida e buscando um conto de fadas; ambos na meia-idade, com a vida estruturada e morando sozinhos, se conhecem quando Max aluga o apartamento ao lado de Baby, que logo percebe algo especial no novo vizinho.

É de se esperar que a maturidade ofereça a possibilidade de lidar melhor com as adversidades de um relacionamento e que as experiências acumuladas ao longo do tempo facilitem nas escolhas individuais, para que estas reflitam numa vida a dois mais prazerosa – tanto para evitar erros quanto para saber lidar com os erros do outro. Porém nem sempre essa vantagem que o tempo nos oferece é aproveitada, de forma que vemos Max ainda muito ligado ao seu antigo relacionamento e Baby sem saber o que fazer para controlar as crises de ciúme.

Se por um lado o casal pode contar com a experiência, por outro a companhia da solidão durante os anos implica em hábitos bastante rígidos, que dificulta o súbito convívio com alguém até então desconhecido, que inevitavelmente vai demandar certas mudanças de comportamento. Aqui essa característica é mais notada em Baby, que aparenta ser mais solitária, introspectiva e preza pelas coisas feitas ao seu modo, implicando até com a irmã por um sofá deixado de herança. Já Max tem uma vida mais solta, faz novos amigos até no balcão da padaria, reúne sua banda em uma divertida festa – para desespero da namorada que vê seu apartamento, até então sempre vazio, cheio de gente desconhecida, com quem ainda acaba disputando a atenção de Max.

De um casal promissor, que a primeira vista tem tudo para dar certo por, aparentemente, terem muito a acrescentar um ao outro, passamos pouco a pouco a acreditar que as diferenças são muitas e cada vez mais gritantes, ao ponto de provavelmente inviabilizar a relação. Mas não ficam claros durante o filme os motivos que levaram Baby a viver sozinha. Podemos no máximo, pelas suas atitudes, supor um exagerado rigor em relação às pessoas ou o fato de não abrir mão de sua personalidade. O fato é que independente do que ocasionou a solidão da moça, ela realmente está disposta a mudar isso e investir em seu novo relacionamento e parece que o desafio dela em relação às mudanças necessárias para uma vida junto com outra pessoa, será maior.

É evidente que nem tudo se resume a desafetos entre o casal e os detalhes de afeto acabam, pouco a pouco, fazendo a diferença para que ambos se esforcem a continuar. Os ensaios com a banda incomodam, mas o gosto por música é o mesmo; o apartamento, que antes era exclusivo e agora passa a ser dividido, também proporciona bons momentos juntos. Enfim, a tolerância aos pequenos conflitos e a disposição de mudar pequenos hábitos pode contribuir para o aumento da cumplicidade do casal, ajudando a superar dificuldades realmente relevantes. É possível identificar uma metáfora interessante para ver que tolerar os vícios alheios é melhor do que impor uma mudança, que pode culminar em tragédia.

“É proibido fumar” mostra muitas proibições que somos tentados a atribuir aos relacionamentos, entretanto qualquer tipo de contato impõe restrições com as quais não teríamos que nos deparar quando sozinhos, o que não é necessariamente ruim, já que em contrapartida esses contatos também nos estimulam, ensinam e oferecem a oportunidade de nos tornarmos pessoas melhores, cabe a cada um aproveitar ou não tais oportunidades.


quinta-feira, 10 de março de 2011

O Discurso do Rei (The King’s Speech)

Parece não ser difícil aceitar que um chefe de estado deve ser competente mais com suas ações que com suas palavras. Entretanto em 1936, com a ascensão de Hitler totalmente baseada em sua oratória impecável, fica difícil negar o potencial que o domínio da palavra pode oferecer, ainda que para uma figura já simbólica na época, visto que as principais decisões durante o reinado de George VI (Colin Firth) ficavam por conta do primeiro ministro, na época, para desespero do resto do mundo, Winston Churchill (Timothy Spall).

Talvez a falta de ações diretas do rei, que servia quase como escudo para as ações durante a guerra – o que já não é pouco – valorizasse ainda mais o peso de seu discurso, pois o que restava ao monarca era exatamente explorar a tradicional figura de realeza para tentar encorajar e motivar os britânicos. Desta forma, nada pior do que gaguejar em um discurso para responder a uma ofensiva alemã. Não mostraria apenas a tensão, mas também medo, hesitação e todos os sentimentos exatamente opostos aos pretendidos; pior, mostraria inferioridade britânica já partindo do discurso do chefe de estado.

Apesar do enfoque do filme dirigido por Tom Hooper não ser a biografia de George VI, é possível notar traços do personagem condizentes com a superioridade com a qual membros da família real costumam ser educados. O estereótipo que costumamos criar para membros da monarquia, encenados a exaustão nos filmes, é de pessoas soberbas, por vezes verdadeiros carrascos para seus súditos. George VI não chegou a inspirar o terror, o que era mais comum durante a Idade Média, de forma que a tentativa de impor sua superioridade, geralmente frustrada, já que a mínima discórdia culminava em palavras embargadas, vinha da simples tradição da monarquia inglesa; basta pensarmos que se um jovem príncipe não tem o direito de ser canhoto, sendo forçado a escrever com a mão direita, também não deverá ter o direito de portar-se diante dos súditos sem certa arrogância.

A superioridade, que já era difícil de sustentar diante da insegurança que tinha em si, ficou completamente abalada diante de Lionel Logue (Geoffrey Rush), que em troca de alguns exercícios contra a gagueira cobrava a igualdade. É neste ponto que vemos o quanto é difícil deixar de lado hábitos adquiridos ao longo de toda a vida, muito mais difícil deve ser para um rei cantarolar um discurso sério, mesclando palavras de baixo calão durante os ensaios para evitar gaguejar.

É curioso para quem não é membro da corte ver a igualdade e simplicidade sendo impostas, mas estranho mesmo é a supervalorização de características secundárias para um governante, ou seja, falar bem (neste caso específico, sem gaguejar) tornou-se mais relevante que o conteúdo do discurso; pior, o primeiro sucessor ao trono inglês seria o Rei Edward VIII (Guy Pearce), que não tinha nenhum problema de dicção, mas tinha a intenção de cometer um ato imperdoável diante da população: casar-se com uma mulher divorciada.

O primeiro impacto ao vermos alguns bastidores da história – como valorizar a forma do discurso mais que seu conteúdo, ou julgar um escândalo sexual como fator preponderante na vida do governante – pode parecer alguma maluquice histórica, mais uma entre tantas insanidades que rondaram a Segunda Guerra. Porém o hábito de colocar a aparência muito acima da essência permanece intocável.

Para permanecer apenas com os pontos citados em relação ao filme, vimos recentemente o Brasil ser governado durante oito anos por um ex-operário com pouco estudo. Lula pode, e deve, ser criticado por diversos fatores políticos, mudanças drásticas em relação ao longo período em que foi oposição e escândalos que abalariam a popularidade de qualquer outro político. No entanto uma das críticas mais frequentes é em relação à sua fala, ainda que os inúmeros erros de português não impeçam a expressão do pouco que resta do político que de fato visava governar para os pobres. O conteúdo dos discursos de Lula raramente é considerado e as críticas plausíveis pelas atitudes, que nem sempre são condizentes com as palavras, quase nunca são formuladas, mas a aparência do discurso desconstrói a falsa imagem de governante onipotente.

Deixando o Brasil para uma analogia com a abdicação do trono por parte de Edward VIII, já vimos Bill Clinton ser perdoado por criar guerras para, mais uma vez, aquecer a indústria norte americana, para logo em seguida quase perder o poder graças a um escândalo sexual envolvendo sua estagiária; mais recentemente podemos acompanhar Silvio Berlusconi (uma espécie de Paulo Maluf da Itália) ter sido eleito após várias denúncias de corrupção e agora ser julgado, também por escândalos morais.

Em todos os casos aqui abordados, do filme ou não, podemos notar que as críticas mais explícitas podem até ser justificáveis, mas sem dúvida tiram o foco sobre as reais atribuições de um governante, que sem dúvida deve prezar por sua aparência, mas deve ser realmente cobrado pelas ações políticas.


quinta-feira, 3 de março de 2011

O diário de Anne Frank (The Diary of Anne Frank)

Sinto-me como um pássaro a quem cortaram as asas e bate contra as grades da gaiola estreita. Em mim soa como que um grito: para fora! Tenho saudades, quero sair. Sair daqui, para o ar livre, quero poder rir à vontade! Não há resposta! Mas sei que esses gritos não têm poder, e deito-me na cama para matar estas horas tão terrivelmente silenciosas e cheias de angústia.
(trecho do diário de Anne Frank)

Anne Frank foi uma jovem alemã e com a ascensão do Nazismo sua família foi mais uma a ter que sair do país que passou a perseguir judeus. Como se esse êxodo forçado não fosse bastante absurdo, o Reich expandiu suas fronteiras e, consequentemente, a caça aos judeus. Com isso os Frank foram obrigados a encontrar um esconderijo na Holanda. Com o auxílio de amigos a única opção foi o sótão de uma fábrica, dividido com a família Van Daan e posteriormente também com Albert Dussell.

O diário que a jovem iniciou pouco tempo antes de se refugiar foi atualizado durante os dois anos em que as duas famílias dividiram um pequeno espaço, com comida racionada e com a necessidade de manterem-se escondidas até mesmo dos funcionários da fábrica que funcionava no andar abaixo. O diário de Anne Frank virou livro, publicado na íntegra, e posteriormente foi para as telas com a direção de George Stevens. No cinema o título perde um pouco do sentido, pois não tem o tom pessoal do relado de Anne (interpretada por Millie Perkins), mas tem a grande vantagem de retratar com precisão as dificuldades encontradas pelas famílias, o espaço minúsculo para oito pessoas, e como a insanidade de uma guerra proporciona o desencadeamento de uma série de outras loucuras, que seriam inimagináveis.

O longa foi rodado no esconderijo real, com poucas cenas externas e, somado à estética em preto e branco a sensação de opressão pelo pouco espaço e pelas dificuldades mais que naturais geradas pelo confinamento chega com clareza às telas, evidentemente muito distante da real sensação dos refugiados.

Essa situação extrema de confinamento da margem a uma série de análises, porém a situação de Anne Frank chama a atenção, não apenas por ser a autora do diário, mas também pela transformação na vida de uma adolescente, que ainda tem muitos conceitos a serem formados. Oito pessoas em um cubículo por mais de dois anos é uma tortura para qualquer um, sendo possível notar nuances de como o sofrimento se exterioriza para os personagens.

Os adultos têm seus hábitos consolidados, se por um lado a experiência deveria ajudar a superar os momentos difíceis, por outro as manias das quais não querem abrir mão costumam acarretar grandes discussões e conflitos. Anne é a mais jovem – entrou no abrigo com apenas treze anos –, sua irmã Margot (Diane Baker) e Peter Van Daan (Richard Beymer) são alguns anos mais velhos; as transformações da adolescência geram grandes problemas – imagine confinar pessoas em uma idade que costuma ser marcada por descobertas, desafios aos limites e por vezes rebeldia – e isso é o que nos faz prestar mais atenção em Anne, pois é notável seu amadurecimento ao longo do tempo e a adaptação à sua nova realidade.

O rigor dos estudos e a repressão severa ao comportamento dos jovens são mantidos pelos adultos durante todo o tempo que ficam presos, o hábito de infantilizar os filhos é bem evidente e a tentativa dos pais de manter o controle até mesmo sobre os sentimentos dos adolescentes muitas vezes é levado ao extremo. Além dos danos físicos aos jovens, que são privados até mesmo do Sol, há o terror psicológico de não poder conversar durante todo o dia, ser afastado das antigas amizades – sabendo que os amigos provavelmente estão sofrendo em um campo de concentração – e lidar com as transformações da adolescência, que costumam demandar exatamente o contrário do que os jovens viveram.

O filme é longo e denso, o que aumenta ainda mais a incredulidade de como as oito pessoas suportaram uma situação tão extrema por tanto tempo. Os horrores da guerra foram narrados em infinitas obras, há centenas de livros, filmes, quadros, esculturas, ficções, narrações, etc. O impacto que cada uma traz é muito variável, mas poucas são tão chocantes quanto o Diário de Anne Frank, talvez pela forma com que a jovem encara a situação pela qual vive, conseguindo reprimir seus sentimentos na maior parte do tempo, deixando transparecer bom humor e amabilidade, por vezes até assumindo culpas que poderiam ser atribuídas a qualquer um, menos à vítima. Esperamos por uma explosão, que seria mais que justificada, o rompimento, ainda que em lágrimas, mas as reações são sempre centradas, com a maturidade que nunca esperaríamos de uma menina de treze anos.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Cisne Negro (Black Swan)


Momma's gonna make all of your nightmares come true
Momma's gonna put all of her fears into you
Momma's gonna keep you right here under her wing
She won't let you fly, but she might let you sing
Momma's will keep baby cozy and warm
(Pink Floyd - Mother)



Cisne Negro chama logo a atenção pela bela fotografia e a riqueza de detalhes que cercam o cotidiano de uma bailarina. Por trás do belo espetáculo que mostra leveza de movimentos há uma série de preparativos, muitas vezes trabalhosos e dolorosos para que a bailarina se torne algo próximo de uma obra de arte em movimento. O diretor Darren Aronofsky tem o mérito de conseguir captar esses detalhes e mesclá-los na medida certa com dramas pessoais da protagonista.

Com o desenrolar do filme começamos a notar nuances comportamentais que influenciam no estilo de dança, pois como em qualquer outra área há profissionais mais técnicos, outros mais espontâneos, etc. Nina (Natalie Portman) pela criação que teve (um tópico a ser muito explorado) é extremamente técnica, e terá que desenvolver sua espontaneidade para ser a Rainha dos Cisnes. Para quem, assim como eu, não faz ideia do que seja, o filme explicará, por enquanto basta saber que qualquer bailarina que exerça o papel deve dominar dois extremos, o que não é fácil em nenhuma situação, e isto se refletirá em sua vida pessoal.

Filha de Erica (Barbara Hershey), uma bailarina frustrada pela carreira pouco promissora, Nina passou toda sua vida carregando a responsabilidade de viver o sonho de sua mãe. Até certo ponto adotou tais ambições como seus próprios sonhos, mas é inevitável que um dia deverá se distanciar e viver a própria vida, mesmo que não tenha sido preparada para isso.

No campo profissional presumimos que Erica treinou a filha com extremo rigor, pois esta tem o estilo extremamente técnico e racional já citado. Com isso a bailarina consegue grande destaque, mas sofre com a falta de equilíbrio entre seu estilo e a naturalidade dos movimentos, por vezes requerida. Mas o grande problema é que o rigor materno marca presença no campo pessoal, pois como tantos pais, Erica se considera indispensável na vida da filha, agindo de forma a de fato criar uma dependência que se torna insustentável na vida adulta, e contra a qual, cedo ou tarde, os filhos se vêem obrigados a lutar.

Não bastasse a dificuldade que o papel de bailarina principal oferece, Nina ainda deve lutar contra a pressão psicológica de ocupar o posto cobiçado por todas as outras bailarinas, sendo que desta vez sua mãe não pode oferecer nenhuma ajuda; não adianta criar barreiras que isolem a filha do mundo, pois é exatamente contra essas barreiras que a jovem deve lutar. O papel de Rainha dos Cisnes mostrou como os problemas pessoais gerados pela super proteção da mãe influenciam em sua profissão, já que é exatamente pela falta de socialização que a bailarina não se solta o suficiente enquanto dança, não chegando ao equilíbrio necessário ao papel. Isolar as crianças das hostilidades do mundo pode parecer benéfico em uma análise imediatista, porém ao crescer sem referências de problemas reais cedo ou tarde, assim como Nina, as pessoas se deparam com conflitos, que se por um lado não são fáceis, por outro não seriam tão complexos para pessoas mais experientes.

Se a vida ensina, por mais difícil que possa ser para os pais verem os filhos enfrentarem as hostilidades do mundo, o melhor é não privá-los do ensinamento das experiências vividas. Sofrimentos são inevitáveis, mas a falta de preparo pode transformar dificuldades em verdadeiras tragédias.

No filme todo o drama da protagonista é ressaltado pelas tonalidades escuras de alguns cenários, pelo movimento rápido de câmera que mostra em detalhes todo o trabalho frenético da bailarina em ação e pela tensão que Natalie Portman consegue passar, evidenciando o clima tenso e obscuro pelo qual passa sua personagem, perfeitamente encaixado na produção do filme.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tapete Vermelho

Neste trabalho o diretor Luiz Alberto Pereira apresenta uma comédia que a princípio é descompromissada e garante boas risadas, passando aos poucos a tocar em temas interessantes, sem abandonar o lado lúdico que prende e diverte o público. Destaque para a atuação de Matheus Nachtergaele dando vida ao caipira Quinzinho, que para cumprir uma promessa feita ao pai precisa levar seu filho Neco (Vinícius Miranda) para ver um filme do Mazzaropi no cinema. Sua esposa Zulmira (Gorete Milagres) não gosta da ideia, mas sem opção acompanha a família na busca de um cinema, junto com o burro Policarpo que carrega a bagagem.

1 – Na viagem que conduz o enredo o que fica evidente já nos primeiros passos são as particularidades da vida rural. A hospitalidade com que a família é acolhida facilita a viagem enquanto ainda estão próximos de casa, notamos que é forte a religiosidade e a crença no poder das orações de benzedeiras, tanto para as pessoas quanto para problemas com os animais. Misticismo a parte, as histórias narradas podem ser novidade para alguns, mas são bem conhecidas em cidades do interior, como a cobra que rouba leite, o demônio que aparece a noite, a simpatia para tocar viola, etc.

2 – Aos poucos, conforme o público entra no clima de simpatia e simplicidade de Quinzinho, questões relativas às injustiças do trabalho, com ênfase na área rural, são colocadas. Alguns monólogos indicam como o trabalho duro de alguns trabalhadores são mal recompensados e, através de Mané Charreteiro (Ailton Graça), o diretor coloca de forma bastante didática como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra luta por uma reforma há tanto tempo necessária no país. Longe de ser panfletário, o filme apenas mostra os trabalhadores rurais lutando pela partilha da terra, consequentemente recusando-se a virarem mão-de-obra barata, ou desempregados em zonas urbanas.

3 – A cidade grande também é retratada. Apesar dos estereótipos carregados ao mostrar o homem do campo, bastante inocente, chegando a um território onde o mais esperto sobrevive não se trata de maniqueísmo entre o campo e a cidade, apenas o choque cultural e a dificuldade de adaptação dos que estão acostumados com um ritmo de vida bem menos frenético. Dialoga com a necessidade de reforma agrária, pois enfrentar os problemas urbanos pode não ser opção, mas imposição a quem vê seu espaço no campo tomado por latifundiários.

4 – Evidentemente outra questão importante do filme é o papel do cinema na sociedade e a quantidade de salas de exibição nas cidades. É de se esperar que assistir a um filme do Mazzaropi em um cinema atualmente seja quase impossível, mas a dificuldade de Quinzinho já começa em encontrar uma sala de cinema no interior. A busca segue rumo a cidades maiores, porém mesmo em São Paulo as surpresas desagradáveis não param, e continuam mesmo fora da ficção, já que os cinemas que fecham, cedendo espaço para empreendimentos mais lucrativos, são encontrados em várias cidades do país. Vi o filme no Cine Belas Artes, mais um na mira da especulação imobiliária cuja salvação está baseada na tentativa de tombamento, e a sala retratada no longa fica no centro de São Paulo, que tem oito antigos cinemas tombados que simplesmente faliram. Pode parecer contradição exaltar cinemas e a seguir indicar a falência dos mesmos, mas o funcionamento das salas depende de um conjunto de fatores diversos – culturais, econômicos, logísticos, etc. – que devem ser levados em conta. As salas de cinema vêm sendo substituídas por empreendimentos mais lucrativos, mas há como transformar cultura em números? A satisfação de uma promessa cumprida e o deslumbramento de quem entra no cinema pela primeira vez indicam que não.

 É desta forma, com temas profundos nas entrelinhas do humor, que acompanhamos a saga da família de Quinzinho, que resgata traços do humor caipira do inigualável Mazzaropi.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Biutiful


"Vida é o que acontece com você, quando você está ocupado fazendo outros planos."
(John Lennon)

Este é o primeiro filme de Alejandro González Iñárritu após o rompimento com o roteirista Guillermo Arriaga, o que gerou muitas expectativas sobre possíveis mudanças no estilo do diretor. Desta vez não há tramas paralelas que só se cruzam no final, mas a intensidade dos infortúnios na vida dos personagens continua presente, principalmente para o protagonista Uxbal (Javier Bardem).

O enredo se desenvolve em Barcelona, mas não na bela cidade que atrai tantos turistas e sim na periferia, relegada aos imigrantes clandestinos que sobrevivem através do comércio ilegal ou semi escravizados por algum empregador. Uma das atividades de Uxbal é agenciar esses imigrantes, servindo de intermediário entre eles e as autoridades ou empregadores locais; além disso, ele tem o dom de se comunicar com os mortos e isso se torna mais uma fonte de renda. Tanto os imigrantes ilegais quanto a capacidade mediúnica são temas polêmicos que poderiam ser mais explorados, porém Iñárritu trabalha com muitas tramas, de forma que não é possível aprofundá-las devidamente.

Ganhando pouco dinheiro com seus empregos informais, Uxbal se esforça para sustentar os dois filhos sozinho, já que a ex-esposa Marambra (Maricel Álvarez) sofre para superar a dependência química. Como para os personagens de Iñárritu a situação sempre pode piorar, o personagem descobre que está com câncer, e aqui é possível notar um dos papéis históricos do cinema, ou seja, chamar a atenção dos espectadores para problemas cotidianos, já que Uxbal só foi procurar um médico quando as dores se tornaram insuportáveis, portanto quando já era tarde demais.

O protagonista, apesar exercer atividades ilícitas, não chega a demonstrar crueldade, mas diante da iminência da morte passa a prestar mais atenção em detalhes de sua própria vida, deixando de lado o individualismo e se aproximando mais das pessoas próximas a ele. Lembrando de seu próprio passado, passou a ter medo de que os filhos, ainda pequenos, esquecessem dele depois de sua morte, abrindo espaço para uma constatação relativamente óbvia, porém geralmente despercebida: quem quer ser lembrado deve, como ponto de partida, dar motivos para que isso aconteça e, exceções a parte, as lembranças costumam fazer jus às atitudes tomadas. Este passou a ser o desafio implícito de Uxbal, pois de repente se deu conta de que tinha pouco tempo e muito trabalho para construir uma relação harmoniosa com os filhos.

Ao vermos os becos e apartamentos apertados da Barcelona retratada notamos que aqueles locais estão bem próximos de alguns dos pontos turísticos mais visitados do mundo, que esbanjam beleza ao lado da periferia que geralmente o mundo não vê. Essa é a imagem de Uxbal, que sintetiza atitudes repudiáveis seguidas de ações que visam uma espécie de redenção. É possível notar no comportamento do personagem, diante de tantas adversidades acontecendo ao mesmo tempo em sua vida, a heterogeneidade comum na vida de todos nós. Muito mais evidente – e cômodo – é criticar certas atitudes quando estamos sentados na cadeira do cinema; mais delicada é a situação hipotética de nos imaginarmos com a certeza de ter pouquíssimo tempo de vida. Algum detalhe do comportamento atual seria mantido? Qual a imagem que gostaríamos que ficasse marcada e como agiríamos para que isso se concretizasse?

Iñárritu deixa claro, e choca, ao mostrar como é difícil viver tudo o que deixamos pendente e pior ainda aproveitar intensamente os últimos momentos com os filhos sem se abater pela tristeza de saber que o fim está próximo. O que não fica claro é que o tempo é sempre curto e ainda que Uxbal – ou qualquer outro – tivesse a garantia de várias décadas a serem vividas, ao final sempre fica a sensação de falta, o desejo de mais alguns segundos ao menos para algumas palavras não ditas.

(depois da tensão de “Além da Vida” e “Biutiful”, o próximo deverá ser mais leve =)


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Além da Vida (Hereafter)

O diretor Clint Eastwood está agora com oitenta anos, tem maturidade de sobra e experiências de vida que lhe permitem lançar um olhar bastante maduro sobre os temas abordados neste filme. Comovente na medida certa e sem tomar partido de forma desnecessária em relação a dogmas que permeiam a fronteira entre a vida e a morte, o diretor trabalhou em Além da Vida (Hereafter) não necessariamente o pós-morte, mas a sequência da vida de três protagonistas após eventos marcantes.

Marie LeLay (Cécile de France) é uma renomada jornalista francesa, que passa por uma experiência de quase morte durante um tsunami na Indonésia. A cena chama a atenção pelo realismo e a capacidade de demonstrar a angústia gerada pela onda devastadora. Ao retornar à França, Marie passa por uma súbita mudança em seus valores, passando a questionar o racionalismo extremo com o qual encarava a vida e a se aproximar de possibilidades muito mais sensitivas. O problema é que ninguém na redação de seu jornal estava disposto a encarar tais possibilidades.

Em Londres o pequeno Marcus (George McLaren) vive ainda na infância situações que seriam difíceis para qualquer adulto, como a mãe dependente química, a perda de uma pessoa próxima e a necessidade de subitamente ter que cuidar da própria vida, optando por buscar incansavelmente um contato mediúnico. É curioso como Marcus poderia ser uma presa fácil de falsos videntes, porém a astúcia de quem está acostumado com grandes problemas e a visão despretensiosa da infância faz com que o garoto identifique com facilidade atuações que, por mais patéticas que possam ser, convencem muitos adultos. Também chama a atenção a forma como o egoísmo da infância é retratado, pois o grande apego material está presente até mesmo após a vida notado pelo boné utilizado por Marcus, que não deixa de ser um banho de água fria no apego do jovem ao irmão.

Por fim somos apresentados a George Lonegan (Matt Damon), um vidente – este é o ponto que o filme mais se aproxima da crença, ainda que interpretações racionais sejam possíveis – que prefere encarar sua capacidade de entrar em contato com os mortos como uma maldição. A princípio essa reação soa estranha, mas os problemas que a vidência gera para George tornam sua repulsa compreensível, já que lidar com as emoções de pessoas desconhecidas, que recebem o impacto de um contato com outra vida, fazia com que o personagem carregasse um fardo cada vez mais pesado – e desnecessário. Além disso o suposto dom fez com que o rapaz ficasse cada vez mais solitário, tentando levar uma vida normal para voltar a se aproximar das pessoas.

O que une os personagens, independente de qualquer contato entre eles, mais do que a experiência com algum tipo de vida após a morte, já que os três fatos são bem distintos entre si, é a dificuldade que todos encontram com o ambiente que os cerca. Marie tenta abrir os olhos para uma possibilidade distinta sendo desestimulada pelas pessoas próximas, que encaram sua mudança de comportamento como um problema e tentam moldar sua forma de agir de acordo com os interesses do trabalho. Marcus é retirado de uma vida que já não era fácil e jogado sem muito amparo em outra realidade, com adultos querendo colocá-lo em uma espécie de forma, da qual saísse plenamente adaptado e remodelado. George sofre grande pressão de seu irmão Billy (Jay Mohr) para voltar a fazer os contatos, de forma que ambos possam ganhar dinheiro com isso, e tem ainda tem que lidar com pessoas que, após descobrirem seu dom, exigem um contato, ignorando as advertências para se arrependerem depois.

A impressão que fica, não pelo que os protagonistas fazem, mas pelo que passam, é que “além da vida” não existe a morte, mas existe o outro. Cada um é marcado pelo individualismo dos que os cercam e sofrem consequênicas de suas próprias atitudes, por vezes altruístas, outras apenas diferentes do esperado, lutando por um pouco de autenticidade em meio às imposições de comportamento de massa. Entre um representante da infância e dois da vida adulta, faltou um personagem mais velho, que fica por conta da visão do próprio diretor.

Conforme apresentado, “Além da Vida” pode oferecer uma leitura pouco relacionada com a vida após a morte, independente da visão que cada um tem sobre o tema. Há uma série de fatores a serem encarados além da vida e o pós-morte é apenas um deles. Para uma leitura mais individual sobre a relação pessoal com a morte, o próximo texto será sobre Biutiful.





segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lixo Extraordinário (Waste Land)

Os trabalhos habituais de Vik Muniz, fotografando mosaicos gigantes montados com lixo para formar imagens muitas vezes consagradas, rodam o mundo e encantam pela originalidade, beleza e capacidade de prender o olhar por tempo indeterminado. É possível passar horas observando a mesma tela e desvendando nuances, tanto ao observarmos de longe, quanto ao chegarmos perto para ver que tudo é formado por materiais descartados, desde pequenas tampas de garrafas até geladeiras e pneus.

Em linhas gerais era essa a ideia que eu tinha sobre a obra do artista e quando fui ver o documentário, dirigido pela britânica Lucy Walker, em parceria com João Jardim e Karen Harley, esperava algo como um making of da montagem das obras, mas Lixo Extraordinário vai além e não mostra apenas a transformação de materiais descartados em uma obra de arte, mostra também a transformação do artista ao longo do trabalho, dos catadores que ganham a vida no aterro do Jardim Gramacho e inevitavelmente provoca mudanças profundas em quem assiste o documentário.

Como plano de fundo é possível ver a produção das obras de Vik Muniz, mas o que surpreende, choca e comove é a apresentação das pessoas que trabalham no maior aterro sanitário do mundo. A princípio temos a confirmação de uma imagem pré-concebida, baseada na falta de conhecimento, de que o lixão é uma área isolada composta por uma massa uniforme de material inutilizado, onde ratos, urubus e porcos disputam espaço com seres humanos, que também costumamos uniformizar como pessoas sem qualificação, a margem da sociedade. O preconceito é desfeito sem muitas dificuldades.

Tião é o presidente da ACAMJG (Associação de Catadores do Jardim Gramacho) e com sua simpatia nos conta um pouco sobre sua vida e apresenta alguns outros trabalhadores retratados no filme. Aos poucos vemos quanta diversidade cerca o local, com divisão clara das tarefas em todas as etapas da coleta e a personalidade marcante dos trabalhadores. Aproveitando o gosto pelos estudos Tião, assim como seu amigo Zumbi, recolhe livros encontrados no lixo e guarda para formar uma biblioteca; assim já leu Maquiavel, Nietsche, Schopenhauer, etc. Algumas querem deixar o aterro, como Isis e Magna, porém sabem da importância do trabalho e não se envergonham do que fazem, enfim, o que une os catadores como um ponto comum a todos é a consciência de quem são e o que fazem, a clareza dos motivos que os levaram a recolher material reciclável para viver e a necessidade de união para superar as dificuldades vindas de todos os lugares.

Quando vemos tudo o que é considerado pelos catadores para fazer a seleção do material é possível lembrar a cômica teoria da microeconomia, onde supostamente o mercado atingiria sua eficiência máxima livremente. A demanda maior de certos materiais faz com que o valor aumente no mercado, aumentando também sua procura; não há salário mínimo para os trabalhadores nem impostos sobre o que é coletado, o que supostamente – para a microeconomia – é nocivo ao mercado. A grande diferença entre este mercado e as grandes empresas é que para estas o estado permanece ausente até que uma crise financeira force os cofres públicos a despejarem rios de dinheiro para salvar más administrações, enquanto que aos membros da ACAMJG a participação do estado só é visível quando governantes favorecem grandes empresas de reciclagem em detrimento dos catadores, que recebem centavos da grande fortuna gerada pela reciclagem.

O mercado de bens simbólicos permitiu que as obras de Vik Muniz, retratando os trabalhadores do Jardim Gramacho, arrecadassem dinheiro para a ACAMJG, mas o aterro será fechado em 2012. A princípio seria uma atitude compreensível, já que o local não fornece condições de trabalho, porém nenhuma medida eficaz foi tomada para realocar os trabalhadores que ganham a vida em um local que aceita qualquer pessoa, independente da qualificação ou currículo.

Através de Lixo Extraordinário os trabalhadores do Jardim Gramacho nos comovem e ensinam, não pelo comodismo reducionista de achar que há alguém com trabalho mais pesado e vida mais dura, mas pela clareza que possuem sobre a própria condição e a preocupação constante com dois pontos primordiais para encarar qualquer tarefa: a instrução e a união dos trabalhadores envolvidos. Entrei no cinema para conhecer mais sobre a obra de Vik Muniz e saí com a certeza de que essa é apenas uma parte do que o filme tem a nos oferecer. Impossível ter algum contato com o documentário sem sofrer nenhuma transformação, tal qual o lixo que pode ser transformado em obra de arte.





terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sal de Prata

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)


A ideia de trabalhar a produção cinematográfica dentro de um filme não é nova, muitos longas utilizam certa metalinguagem, mostrando os bastidores do cinema nas telas de diversas formas. Em “Sal de Prata” o diretor Carlos Gerbase explora os desdobramentos do relacionamento da economista Cátia (Maria Fernanda Cândido) com o cineasta Veronese (Marcos Breda), depois que este morre e deixa trechos de roteiros incompletos.

O universo do cinema, e das obras de arte em geral, abre espaço para sonhos e devaneios que podem ser inspirados em fatos reais e particularidades da vida do autor, mas isso não é regra, sendo que os fatos descritos, muitas vezes minuciosamente, podem não passar de imaginação. É com esse entrave que a economista se depara quando começa a ler os roteiros que o cineasta, quando vivo, não mostrava para ninguém. Acostumada com um campo de atuação profissional muito mais focado na realidade, sem muito espaço para sonhos em meio às transações financeiras milionárias, Cátia tem grande surpresa ao ver que Veronese recheava suas obras com cenas de sexo.

Ainda que a economista soubesse que seu relacionamento não era um mar de rosas, diante dos roteiros o ciúme era inevitável ao imaginar que as cenas eram inspiradas em outras mulheres, principalmente na bela Cassandra (Camila Pitanga), a atriz favorita de Veronese, que, assim como ocorre com cineastas reais, passou a despertar suspeitas de relacionamento entre as pessoas próximas.

A partir daí o diretor oferece uma série de hipóteses interessantes de conflitos para pensarmos o filme. Além do ciúme póstumo de Cátia, que curiosamente fortalece o relacionamento do casal quando já não há possibilidades devido à morte de Veronese, temos algumas disputas pelos roteiros inacabados que acirram a disputa entre diretores e a gradual inserção de Cátia no sedutor ambiente de filmagens, a partir do momento que a moça supera o impacto de se deparar com histórias até então inimagináveis escritas pelo namorado.

Durante o filme, como é característico em histórias similares, alguns momentos começam a deixar dúvida sobre o que é ficção e o que é realidade na vida das personagens. Este limite incerto é trabalhado propositalmente, explorando as possibilidades ilimitadas que o cinema oferece, porém não é tão incomum nos depararmos com situações cotidianas que parecem fugir da realidade, diálogos diante dos quais somos forçados a interpretar os diversos personagens que inconscientemente criamos – e estas interpretações não são necessariamente pejorativas –, ou mesmo situações para as quais imaginamos caminhos completamente inviáveis, tal qual um roteiro de ficção, apenas pelo deleite de sonhar com o que sabemos que não acontecerá.

Este limite entre real e imaginário que atua diariamente dentro de cada um de nós costuma passar despercebido. O mundo do cinema que Gerbase retrata é capaz de chamar a atenção para a possibilidade do irreal, da expressão dos sonhos que por vezes reprimimos sem perceber, mesmo diante da dura realidade, e dos prazeres que a representação na vida cotidiana pode proporcionar, já que atuar e encarnar personagens na vida “real” é obrigatório para todos, ainda que muitos não tenham consciência disso. A diferença entre as pessoas que atuam de forma deliberada não está relacionada ao caráter ou à sinceridade, mas ao prazer que os personagens da vida real podem proporcionar. Sem medo e sem culpa.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um dia, um gato (Až přijde kocour)

Este filme foi produzido na Tchecoslováquia em 1963. Escrito e dirigido por Vojtěch Jasný, seu enredo simples me lembrou algumas histórias de Saramago por pegar uma ideia inusitada e desenvolvê-la com muita competência para imaginar como as pessoas se portariam caso tal fato realmente acontecesse.

Aqui o inusitado é um gato que usa óculos escuros, pois quando sua visão está livre as pessoas mudam de cor de acordo com seus atos e sentimentos. Assim os apaixonados ficam vermelhos, os desleais amarelos, as pessoas mentirosas e hipócritas tornam-se roxas, etc. A ideia de expor de alguma forma o que as pessoas escondem, muitas vezes até delas mesmas, não é tão nova e já foi explorada de várias formas no cinema e na literatura, mas é com simplicidade e misturando elementos do universo das crianças que o diretor dá destaque à sua obra.

No início do filme o personagem Oliva (Jan Werich) resume com sua primeira frase o roteiro: “Vou contar uma estória com mais verdade que fantasia.” e segue observando do alto de uma torre os habitantes da pequena cidade. Vemos que cada um tem um ponto a ser criticado, portanto, ainda que a acusação não seja grave, Oliva indiretamente desconstrói a dicotomia de bons e maus, mostrando a diversidade que mesmo sendo tão óbvia, costuma passar desapercebida, e as pessoas que buscam a imagem de um comportamento exemplar também têm seus defeitos.

A fantasia, que segundo o personagem é menor que a verdade, é o inusitado, o impensável que costuma ficar no mundo dos sonhos, trazido à tona com a figura do gato que faz com que as pessoas mudem de cor. A verdade pode ser encarada como o desdobramento da história, ou seja, a hipótese de como as pessoas reagiriam se aquilo realmente acontecesse.

Na pequena cidade vimos que ao serem reveladas as cores das pessoas de acordo com seus atos, os apaixonados ficaram envergonhados, por vezes surpresos com a própria cor vermelha ou ao verem a pessoa ao lado em escarlate. Até aqui tudo seria divertido após o impacto inicial; uma forma de lidar com a atração de forma lúdica – como deveria ser cotidianamente. Mas o mágico felino não revelava apenas a paixão e muitos ficaram amarelos, cinzas, roxos, por vezes a mesma pessoa mudava de cor, mostrando a heterogeneidade dos sentimentos, o que certamente causaria problemas para muita gente.

Haveria uma solução simples para alguns casos, afinal um mentiroso poderia simplesmente mudar sua conduta para livrar-se da cor que o acusa, porém os poderosos que de repente se viram em cores relacionadas a atos constrangedores tentaram o caminho mais comum ao longo da história: matar o gato. O pobre animal aqui é a pequena parte da fantasia ao qual Oliva se referiu, mas podemos pensar na forte censura do regime autoritário vigente no leste europeu durante o pós guerra, sendo o elemento denunciador qualquer um que tentasse desmascarar alguma falcatrua do governo, feito um gato mágico que pudesse indicar os mentirosos, corruptos, torturadores, etc.

Curioso é pensar que em uma sociedade extremamente dinâmica, com desenvolvimento tecnológico galopante e constantes quebras de barreiras – como a que isolava a antiga Tchecoslováquia – um filme com quase meio século não se torna anacrônico. Por mais que a censura não atue de forma tão direta e agressiva na maioria dos estados como já vimos no passado, caso apareça um gato mágico moderno capaz de denunciar o que foi jogado para baixo do tapete, através de um site que revela a ligação de governantes com tortura, crimes de guerra, preconceito, etc, a reação não será a mudança de conduta para agir de acordo com as expectativas da população, mas sim matar o gato, prender o administrador do site, ou o que quer que seja preciso para poder agir irresponsavelmente.
 
 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cão sem dono

A ideia de um cão sem dono remete de imediato a duas possibilidades, uma é a liberdade proporcionada pela ausência de alguém que, por ter posse, têm também direitos sobre sua propriedade; a outra é a falta dos cuidados que um dono pode proporcionar, implicando em sentimentos de solidão e desamparo.

Através do personagem Ciro (Júlio Andrade) os diretores Beto Brant e Renato Ciasca conseguem mostrar esses dois caminhos. Focado em um protagonista bastante intimista e fechado em si mesmo, aos poucos o longa nos proporciona romper as barreiras que o personagem ergue em torno de si, para que possamos mergulhar em seus sentimentos. A princípio não é fácil, mas entre os comportamentos extremos de Ciro é possível encontrar conflitos muito comuns, gerados pela projeção do amor entre pais e filhos na vida adulta.

O personagem leva uma vida espartana em um apartamento pequeno e quase sem mobília. O espaço é dividido com o vira-lata sem nome, afinal só os donos podem escolher nomes e Ciro vê o cão como um amigo. Se por um lado a profissão de tradutor (de russo) não lhe possibilita muito mais conforto que a vida atual, forçando o rapaz a depender da ajuda financeira dos pais, por outro Ciro não se incomoda com a simplicidade material que o cerca e não hesita em recusar um emprego que não corresponde às suas expectativas.

É com a presença de Marcela (Tainá Müller) que a segurança de Ciro será colocada em xeque, pois a princípio ele não demonstra grande afeto pela moça, como era de se esperar pelos poucos elementos que temos sobre sua vida, e a relação parece ser sustentada pela sonhadora modelo, ratificando o estereótipo reducionista de que a mulher valoriza mais os sentimentos.

Os percalços que afastam o casal podem ser encarados como desejados por Ciro, mas é diante da perda que os sentimentos, antes blindados pelo personagem introspectivo, vêm à tona. Consequentemente só então ele sente o peso do isolamento, tendo que buscar conforto com o porteiro Elomar (Luiz Carlos Vasconcellos Coelho), cuja experiência de vida poderia ajudar muito, mas certas coisas só aprendemos vivenciando.

A trama do protagonista é muito bem fechada quando os diretores mostram mais detalhes sobre sua família. A partir daí fica mais fácil compreender o isolamento de Ciro, como uma forma de negar a atenção exacerbada dos pais e buscar a individualidade. A aparente confusão do personagem, que primeiro demonstra frieza para depois desabar diante da ausência de Marcela, segue a mesma linha, pois a atenção que a moça dava ao cão sem dono o remetia aos mimos maternos. É de se esperar que se Ciro se afastou dos pais para buscar a individualidade a distância de Marcela também lhe agradará, mas há dois pontos relevantes: o primeiro é a dificuldade de nos livrarmos de fato da forma com que fomos criados, principalmente quando essa criação está baseada no conforto que a proteção familiar pode oferecer; o segundo é que ao optar por viver sozinho Ciro mantinha o controle da situação, ao passo que a separação da namorada fugia de seu arbítrio, gerando toda a angústia que explodiu em crise.

É interessante comparar esse filme com o trabalho seguinte de Beto Brant, “O Amor Segundo B. Schianberg”, pois ainda que não tenha tido essa intenção é possível olhar para o casal retratado (encenado por Marina Previato e Gustavo Machado) como uma alternativa para o relacionamento de Ciro e Marcela, pois, com estereótipos semelhantes, o casal do segundo filme mostra mais maturidade para encarar as dificuldades do relacionamento, de forma que conflitos são resolvidos em conjunto, ao invés de algumas atitudes isoladas que tentam prever sentimentos.

São duas obras bem intimistas e reflexivas, que nos mostram aspectos interessantes do comportamento complexo, e muitas vezes incoerente, das pessoas – dificultado pela necessidade de interagir com outras pessoas igualmente complexas.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O abraço corporativo

O documentário dirigido pelo jornalista Ricardo Kauffman começa com a apresentação de Ary Itnem, a princípio mais um consultor de RH que vai da psicologia à auto-ajuda através do “abraço corporativo”. Supostamente a técnica consiste em eliminar o afastamento dos companheiros de trabalho, proporcionado pela tecnologia excessiva, através de abraços entre funcionários.

Em meio a tantos consultores de RH que investem em técnicas alternativas para melhorarem os resultados de empresas o Sr. Ary Itnem conseguiu seu espaço e foi alvo de grandes veículos de comunicação, concedeu entrevistas para revistas, rádios e expôs sua técnica em programas de TV. Tudo plausível, não fosse pelo fato de Ary Itnem não ser nada mais que o bom e velho picareta! Encenado pelo ator Leonardo Camillo, o consultor foi uma invenção de Kauffman que nos mostra por um lado a fragilidade das pautas da imprensa – já que muitas vezes os repórteres vão às ruas apenas para ratificar o que já foi concluído na redação – e por outro o poder de convencimento da mídia.

O longa não aborda nenhuma forma de controle dos veículos de comunicação, mas com o crescimento do discurso dos que valorizam o controle social da mídia, é possível que o trabalho de Kauffman abra discussões interessantes neste sentido. A liberdade de imprensa é indiscutivelmente fundamental e este argumento é a base dos que bradam contra qualquer tipo de controle, porém podemos associar este fato com uma das frases criadas pelo personagem Ary Itnem: “tudo não é verdade”. Ou seja, a liberdade de imprensa deve ser ilimitada, mas o que acontece quando essa liberdade proporciona a ampla divulgação de uma mentira?

O objetivo do documentário não é difamar os veículos ou os profissionais que deram atenção ao consultor inventado, essa é apenas uma invenção que ganhou certa projeção nacional sem grandes consequências, e qualquer trabalho mais dedicado revelaria a fraude, que chegou a ser registrada em cartório por Kauffman. O problema é que com a mesma facilidade com que Ary Itnem foi apresentado equivocadamente como profissional, qualquer mentiyra pode ser trabalhada intencionalmente pelos detentores dos meios de comunicação para ludibriar a população.

É claro que difundir um boato como verdade não é fácil e costuma prevalecer a velha máxima de que a mentira tem perna curta, mas imaginemos que para aquecer a economia um estado estabeleça entre a população o medo de ser atacado por armas químicas, justificando assim um ataque militar ao detentor de tais armas. Quando a farsa for revelada é possível que o estrago já esteja feito.

Não precisamos chegar a um exemplo tão extremo, basta pensarmos que em uma disputa presidencial a mídia talvez tenha o poder de implicitamente guiar as campanhas presidenciais ressaltando temas pessoais, como religiosidade, ao invés de propostas de governo que de fato terão influência sobre a população.

Como dito acima, o filme não tem esse viés e seu foco concentra-se na crítica à forma como os editoriais buscam as matérias, pressionados por uma série de fatores que somados levam à falta de rigor na análise dos fatos. A necessidade de produzir conteúdo é cada vez maior e se intensificou muito após a popularização dos portais de notícias virtuais, além da pressão exercida pela concorrência, pois se um grande veículo apresenta um furo de reportagem os demais buscarão suas fontes, nem sempre fidedignas, para apresentar sua versão dos fatos o quanto antes.

A associação com o controle social da mídia, que já existe em diversos países democráticos, é um desdobramento possível do que Ricardo Kauffman apresenta, pois é um tema relativamente obscuro que a mídia – não por acaso – não faz a menor questão de esclarecer, optando geralmente por fazer a falsa associação do controle social à censura de conteúdo, que é evidentemente inaceitável – tão inaceitável quanto esconder-se atrás do discurso em prol da liberdade para divulgar matérias no mínimo capciosas.


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