terça-feira, 29 de abril de 2014

A teta assustada (La teta asustada)

Muitos consideram este filme, da diretora Claudia Llosa, como a melhor obra do cinema peruano. De fato o filme faz uma boa síntese entre elementos culturais indígenas e a influência europeia, cuja exploração ao longo de todo o período colonial ainda deixa marcas profundas, sobretudo com a absorção de péssimos comportamentos.

Ao longo da história vimos que a cultura de um povo não morre. Por mais que tente ser reprimida, alguns elementos sempre sobrevivem ao tempo, passando com esforço de geração para geração. Da mesma forma, a influência cultural externa é inevitável.

Um elo dessa soma de culturas no filme é a protagonista Fausta (Magaly Solier). Com fortes traços indígenas, a moça é fruto de um estupro – fato revelado através de uma canção em dialeto indígena, por sua mãe, um pouco antes de morrer. Segundo a crença indígena, por ser resultado de uma violência Fausta pegou a doença da ‘teta assustada’, absorvendo o medo através do leite materno.

Entre as várias pragas sociais trazidas pelos europeus para a América Latina, o estupro somou a dominação europeia e a masculina, e segue fazendo inúmeras vítimas até hoje. Muitas vezes o trauma desta violência, como vemos através de Fausta, é insuperável.

Símbolo do oprimido, a moça se porta como um bicho assustado e resignado ao longo de todo o filme, não por timidez, mas por subserviência. Seja diante dos patrões ou diante dos membros da própria família, é com muita dificuldade que ela luta por um enterro digno para sua mãe; levar o corpo até a cidade, que se torna difícil porque o dinheiro da família é consumido pelo casamento da prima de Fausta.

Tanto o casamento quanto o funeral são ritos presentes em praticamente todas as culturas, mas cada uma a seu modo. Fica claro que no filme ambos seguem o padrão católico, não indígena. A noiva tem que descascar uma batata, para mostrar uma habilidade culinária que supostamente atestaria seu preparo para o matrimônio. Além desse machismo latente, ela deseja um longo véu no vestido e penteado igual ao da personagem da novela, que acaba consumindo todo o recurso financeiro da família, obrigando Fausta a conseguir algum emprego para custear o enterro de sua mãe.

Mais uma vez o imperialismo secular é bem construído através das imagens. A personagem deixa o vilarejo onde mora, semelhante a uma favela, com construções concluídas antes de terminadas, para chegar até uma mansão colonial. Toda a imponência da construção já seria suficiente para intimidar alguém tão humilde quanto Fausta, não bastasse isso, a moça ainda é inspecionada como eram os escravos, que por sua vez eram escolhidos feito animais, examinando a qualidade dos dentes e características físicas.

O contato entre empregada doméstica e patrões também parece ter sido padronizado pela América Latina, absorvido de um histórico de escravidão, no qual empregados deviam ter dedicação exclusiva aos patrões. Hoje a escravidão não é mais institucionalizada, portanto deve receber uma camada de verniz para que se esconda sob a aparência de uma relação justa.

Fausta nos mostra uma sociedade em que o medo é onipresente. Em sua família o único laço mais forte era com a mãe, que acaba de falecer; entre os demais parentes a moça é preterida pela prima prestes a se casar; no emprego o medo da patroa a impede de reivindicar até seus direitos básicos; e no trajeto entre casa e emprego – únicos locais que ela frequenta – existe o risco latente de estupros.

Há uma metáfora curiosa em relação à dominação do machismo na sociedade, indicando que Fausta tem uma batata na vagina, para que não seja estuprada como a mãe. Não sei se isso está relacionado com a noiva descascando uma batata para provar suas habilidades, mas me remete ao medo constante e à simbologia dos absurdos que as mulheres têm que fazer, seja no distante vilarejo, seja nos grandes centros urbanos, para evitar um absurdo tão insano quanto o estupro, já que seguimos ensinando as mulheres a como não serem estupradas, ao invés de ensinar os homens a não estuprar.

Mesmo com as particularidades culturais, ‘A teta assustada’ é um retrato geral da América Latina. Explorada por séculos, a população naturalizou a violência a ponto dos oprimidos não desejarem a liberdade, mas ansiarem pela possibilidade de passarem para o lado opressor. Se não é possível atingir o topo da pirâmide social, outras formas de dominação cumprem a falsa ideia de poder. A mais comum é o estupro.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Quase dois irmãos

A história de uma nação constrói seu momento presente. Apesar disso a história costuma ser citada de forma enviesada, sendo a multiplicidade dos fatos e suas versões uma grande contribuinte para o uso estratégico de acontecimentos passados.

No Brasil, quando falamos de corrupção buscamos raízes históricas, tentando minimizar o problema alegando que os desvios de conduta dos governantes sempre existiram por aqui. Já quando a ideia é a implementação de cotas para negros, os opositores alegam que a escravidão já ficou no passado, portanto supostos privilégios não fariam sentido.

Juntando raízes do período colonial com um fato bem mais recente, curto, mas não menos marcante de nossa história, a diretora Lucia Murat aborda a ditadura militar e seus desdobramentos de forma extremamente didática, através de três períodos da vida dos dois protagonistas.

Miguel, branco, e Jorge, negro, se conhecem ainda na infância graças ao contato de seus pais, na vida adulta (interpretados por Caco Ciocler e Flavio Bauraqui) voltam a se encontrar na cadeia, porém com uma diferença fundamental: Miguel é preso político e Jorge um preso dito ‘comum’.

Por vezes a opinião popular parece indicar uma fusão desses dois conceitos. Mais que isso, parece reduzir toda e qualquer infração a um crime passível das penas mais cruéis. Entretanto é necessário saber diferenciar o que é uma violência política e o que é uma violência criminal.

Principalmente em países europeus, com tradição democrática e histórico de lutas políticas, por mais que haja conflitos entre policiais e manifestantes, não existe a criminalização de movimentos sociais, o que existe é uma noção mais clara de que, em uma democracia, reivindicar um direito é uma base fundamental da estrutura política.

No Brasil a sociedade teve como exemplo a escravidão, que marca cerca de 75% de nossa história. Nunca houve uma classe trabalhadora organizada e politizada que reivindicasse seus direitos constitucionalmente. Os negros que tentassem algum tipo de organização eram torturados e mortos, para que os outros não seguissem o mesmo exemplo.

Essa cultura de repressão associada à clivagem social entre brancos e negros cria um cenário bem interessante para o filme. De um lado os presos políticos tentando engajar o restante dos presidiários, colocando problemas em votação e criando uma estrutura de poder horizontal – pelo menos em tese. Do outro lado os presos por atitudes criminais começavam a colocar nos presídios as regras que com o passar dos anos tornaram-se quase uma constituição à parte nas instituições prisionais.

Nossa tendência maniqueísta de olhar para os fatos em busca de um certo e outro errado nos atrai para uma visão egoísta das situações, encarando tudo o que for mais próximo a nós como certo e o mais distante como o errado que merece punição mais severa.

Esse conflito desnecessário é bem expresso no filme pelos presos políticos, que acabam tentando impor ordens tal qual o governo que combatiam, e pelos presos comuns, que se negavam a acatar decisões que seriam benéficas para todos. Tudo extremamente vantajoso para aqueles que estão no poder.

Dividida e brigando entre si a população fica muito mais fraca do que unindo forças em torno de um objetivo em comum. Essa conclusão é válida para um cotidiano restrito, como uma cadeia dividida no período de ditadura militar, e também para uma sociedade inteira, da qual o filme não se esquece.

Além da infância e juventude, vemos os dois protagonistas na era pós-reabertura política, em situações muito mais próximas do que vivemos hoje. Corroborando os estereótipos, Miguel – branco e preso político – virou senador e Jorge – negro e ex-presidiário – líder do tráfico em uma favela. O destino quase pré-definido desde a infância tem raízes que vão muito além do período da ditadura.

A escravidão institucionalizada pode ter acabado há mais de um século, a ditadura há cinquenta anos, porém nossa sociedade segue estigmatizada por estes períodos. Negros seguem marginalizados desde a infância, com menos oportunidades, lotando presídios e taxados de culpados por problemas sociais dos quais são vítimas. Militantes políticos, embora tenham mais liberdade que nos anos da ditadura, seguem criminalizados, como se lutar por um direito fosse uma afronta à democracia, ao invés de um de seus pilares.

No topo de uma relação de poder extremamente verticalizada encontram-se, há séculos, aquela minoria que têm responsabilidades diretas pelos problemas sociais. Cometendo crimes econômicos realmente expressivos e lesando com isso toda a sociedade, promovem a criminalização de movimentos sociais e a perpetuação do racismo, que entre outros fatores desviam o foco da desigualdade social insana que tanto prejudica o país desde seu passado mais remoto.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Os filhos do padre (Svecenikova djeca)

Esta comédia utiliza caricaturas e estereótipos para expor críticas à postura da igreja católica diante de mudanças sociais. Com tantas tentativas de intervenção nos direitos civis por parte da igreja, o diretor Vinko Bresan nos apresenta a partir de um pequeno fato uma teia shakespeariana de problemas, mostrando que a realidade está distante de qualquer controle.

Mais do que um entretenimento, a obra nos proporciona uma oportunidade de reflexão, que não deveria ser contestada por religiosos, mas que o histórico de intolerância indica ser uma oportunidade desperdiçada pelos mesmos.

O ponto de partida é o jovem padre de uma pequena ilha, Fabian (Kresimir Mikic), que alertado por Petar (Niksa Butijer), um comerciante local, que a baixa natalidade da ilha estaria relacionada à venda de preservativos, toma uma atitude extrema: furar as camisinhas antes da venda, para que a concepção ocorra, na versão do padre, segundo a vontade de Deus.

Seguindo os dogmas da igreja, Fabian não estaria totalmente errado, já que o método anticoncepcional é condenado. O problema, não restrito ao filme, é a imposição de um dogma por parte da igreja, ainda que no filme isso seja exibido de forma metafórica.

Os princípios das grandes religiões que dominam o mundo foram formulados há séculos ou até milênios atrás, quando a sociedade era radicalmente diferente de hoje. Imaginar que seja possível seguir a risca os ensinamentos bíblicos – para ficarmos restritos ao catolicismo do filme – implica em alguns problemas.

Uma questão de escala: a população há mais de dois mil anos era muito menor que a de hoje, índice de mortalidade maior e o planejamento de vida era indiscutivelmente mais simples. Ainda que na Europa muitos países tentem combater a baixa natalidade atual, o mundo hoje demanda planejamento familiar e não ter filhos é uma alternativa com impacto muito menor em relação ao papel do indivíduo na sociedade.

Outro ponto fundamental em imposição de fundamentos religiosos é o fato de a Bíblia conter inúmeras metáforas, portanto sujeitas às mais diversas interpretações, de acordo com a conveniência daqueles que a leem. Não bastasse isso, o livro sagrado foi escrito em uma língua arcaica, traduzido para o latim, grego antigo e algumas outras fases até chegar às versões atuais. Se uma obra contemporânea, escrita no universal inglês, tem problemas de tradução, o que dizer de um livro tão antigo, nas condições citadas?

E, entre tantos outros fatores que poderiam ser considerados, chama a atenção para a tolerância à diversidade. Em dois mil anos de cristianismo, é de se esperar que as pessoas tenham autonomia para decidir o que devem ou não fazer, isso se aplica tanto aos católicos, curiosamente tolerantes a certas proibições bíblicas como o sexo antes do casamento, quanto aos adeptos de outra ou nenhuma crença.

Assim como no filme, ninguém quer impor o uso de preservativo àqueles contrários ao anticoncepcional, e o mesmo se aplica às outras questões polêmicas em que a igreja interfere diretamente na vida de cidadãos que por vezes sequer querem seguir seus dogmas.

Ao ignorar o livre arbítrio e insistir em impor um comportamento a igreja, que é bem diferente da religião, acaba descobrindo o que se recusava a admitir, ou seja, a proibição do preservativo se desdobra em problemas muito maiores do que a gravidez quando aparecem as relações extraconjugais, sexo casual e tantas outras coisas que a igreja proíbe, mas os fiéis não.

De forma bem realista, a hipocrisia de alguns membros da igreja também marca presença no filme. A ideia do ‘faça o que eu digo, não o que eu faço’ é praticada pelo alto clero desde tempos remotos, seja na pregação da humildade em meio a um altar luxuoso, seja no moralismo sexual em meio a escândalos que vão de relações sexuais consentidas à pedofilia.

É evidente que as discussões em relação às religiões e suas posturas são antigas e inesgotáveis, porém é interessante notar, em meio ao ritmo suave e bem humorado do filme, que o papel da igreja na sociedade é outro. O controle sobre a esfera privada deixou de fazer sentido, se é que um dia o fez, e atualmente a igreja pode realizar ações muito mais coerentes com seus dogmas se assumir as mudanças sociais que aconteceram ao longo dos séculos.

Até mesmo ter a humildade de admitir os próprios erros é uma virtude pregada pela igreja, mas distante da realidade dos clérigos. Assim como o padre Fabian, a instituição prefere esconder um erro com outro, juntando remendos que cedo ou tarde se tornam insustentáveis. Se uma das premissas religiosas é proporcionar conforto aos fiéis, cabe lembrar que a vida já é difícil o bastante sem o cabresto moral da igreja.


terça-feira, 18 de março de 2014

Rush - no limite da emoção (Rush)

Rush apresenta uma das mais marcantes temporadas de Formula 1 de todos os tempos. Além da tradicional disputa psicológica fora das pistas e das manobras arriscadas na briga por posições, culminando em um campeonato decidido por detalhes, ainda teve um dos mais sérios acidentes não fatais da categoria.

Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) foram protagonistas históricos na Formula 1, retratados com maestria tanto pelos atores quanto pelo diretor Ron Howard, explorando as características marcantes de cada um. Lauda extremamente técnico e preciso em cada detalhe, Hunt muito mais visceral e instintivo.

Independente de ser ou não fã de automobilismo, essas características dos pilotos abriram espaço para uma análise da construção dos personagens ao longo do filme. Acredito que a maioria dos que acompanharam o campeonato de 1976 acabaram torcendo pelo título de Niki Lauda, sobretudo nas últimas corridas. Voltar a correr apenas três provas depois de um acidente pelo qual chegou a receber a extrema unção costuma ser encarado como, além de loucura, um exemplo de superação.

Porém no filme, desde o começo as pessoas são empurradas para o lado do piloto austríaco, em detrimento de James Hunt. É inegável que o britânico era um playboy descompromissado e fazia questão de ficar longe da fama de bom moço, o curioso é como temos a tendência de penalizar esse comportamento e valorizar quem abre mão de uma vida de prazeres em prol do trabalho duro.

O consenso é que Lauda foi muito mais piloto que Hunt. Este último foi campeão por uma série de acasos, ou seja, chegou a Formula 1 graças à saída de Emerson Fitipaldi para a fracassada tentativa de criar uma equipe brasileira, foi beneficiado pelo acidente de Niki Lauda que comprometeu seu desempenho posterior e, muito provavelmente, não teria conseguido superar o rival não fossem as condições adversas da última corrida.

Se por um lado podemos pensar no título de Hunt como uma injustiça, por outro a aparente falta de compromisso com a seriedade, o desleixo com o preparo físico e o descaso com os treinos podem também ressaltar sua qualidade como piloto, afinal, podemos imaginar a que nível chegaria com mais dedicação ao esporte.

Entre as principais rivalidades do automobilismo, a criação de “mocinhos e bandidos” costuma ser acima de tudo lucrativa para a categoria. Uma disputa exclusivamente técnica costuma não ser tão empolgante quanto aquelas que envolvem disputas mais acirradas também fora das pistas.

Neste caso é a partir dos boxes que a torcida começa a se identificar, geralmente com aquele que apresenta mais comprometimento com o trabalho do que com a diversão. Talvez a exceção fosse um piloto intermediário, que juntasse a precisão cirúrgica de Lauda com a emotividade de Hunt, mas esse piloto só brilhou no final dos anos 90, desbancando Alain Prost sempre que os cartolas da Formula 1 permitiam.

Em uma época que o automobilismo ainda não estava plenamente dominado pelo interesse de patrocinadores, quando os pilotos, mesmo que sob influência do patrocínio, ainda podiam demonstrar um pouco de atitude além das reações mecânicas que predominam atualmente, é bastante natural que o filme seja visto com certo saudosismo.

A opinião geral é que a categoria já foi melhor e mais competitiva. Há controvérsias racionais em relação a essa ideia, afinal na temporada de 2014 a Formula 1 completará vinte anos sem uma morte de piloto na pista, o que inegavelmente torna as corridas mais agradáveis.

De fato o aumento da segurança está ligado, entre outros fatores, ao desenvolvimento da aerodinâmica, que trouxe grande aderência e dificultou a ultrapassagem nas pistas, o que não quer dizer que pilotar ficou mais fácil. Mais seguro, sem dúvida, porém o desenvolvimento da tecnologia permite que pilotos deixem para frear cada vez mais próximo das curvas, contornadas cada vez mais rápido.

O que não muda, e fica claro no filme, é a paixão pela adrenalina que as corridas proporcionam. O som dos motores, a tecnologia de ponta, a habilidade máxima levada ao extremo. Há quem encare o automobilismo como voltas monótonas em um circuito, há quem consiga identificar a magia que ronda as competições, fazendo com que toda uma equipe deixe aflorar os sentimentos mais profundos buscando a superação, pessoal e coletiva.


terça-feira, 11 de março de 2014

Flores Raras

Fazer um filme sobre duas personalidades de destaque em suas áreas tem seus prós e contras. Por um lado há um rico material produzido pelas artistas, a ser trabalhado nas telas, por outro sempre existe o risco deste material ser mal trabalhado. O diretor Bruno Barreto tem o mérito de utilizar bem as obras originais, para criar um filme biográfico com enredo fluente.

É interessante que os versos de Elizabeth Bishop (Miranda Otto) ou os traços de Lota de Macedo Soares (Glória Pires) separadamente já renderiam bons filmes, porém a união de ambas, com a inspiração mútua de cada trabalho, é o tempero que torna a história ainda mais chamativa.

A poeta norte americana chega ao Brasil em busca de inspiração e o primeiro contato não confirma as expectativas. Uma personalidade introvertida e habituada ao relacionamento mais distante de países anglo-saxônicos costuma se sentir bastante deslocada com o primeiro contato caloroso dos latinos.

Passada a primeira impressão, que nem sempre é a que fica, tanto o amor de Lota quanto a exuberância da flora fluminense fizeram com que desabrochasse em Elizabeth um dos grandes talentos literários do séc. XX. Antes de sua viagem um amigo americano alertou para o fato de uma viagem não permitir que escapemos de nós mesmos. O conselho é válido, mas falho.

De fato muitos tentam fazer uma viagem quando a vida parece não oferecer alternativas, porém depois de um período ausente, dure o tempo que durar, os velhos problemas costumam nos recepcionar com as mesmas flores murchas que deixamos para trás. A particularidade é que Elizabeth tem uma profissão muito singular, que muitas vezes precisa ser alimentada com novos ares para que possa condensar em poucas palavras uma vasta e confusa mistura de sentimentos.

Já Lota, uma arquiteta autodidata, se inspira na natureza ao seu redor, desenhando a própria casa em harmonia com a mata tropical que a cerca. As personalidades aparentemente conflitantes passaram a se completar da melhor forma possível, em um relacionamento que a despeito dos desentendimentos conseguia estimular e extrair o que cada uma tinha de mais profundo.

Como a vida é complexa e insuficiente, talento e amor não bastam. É claro que o filme é uma obra baseada na história de Elisabeth e Lota, nem tudo o que é mostrado aconteceu exatamente daquela maneira, porém o desdobramento de um relacionamento de mais de dez anos inevitavelmente traz desavenças, que nem sempre são bem trabalhadas pelo casal.

Voltando ao ponto de se tratar de duas pessoas que trabalham com criação artística, cada uma em sua área, não é difícil imaginar que a rotina de um relacionamento longo tenha efeitos colaterais. Antes de artistas, são pessoas que também agem por impulso, por interesse e muitas vezes cometem deslizes.

Quando estamos dispostos a compartilhar nossa vida, incluindo não só os bons momentos, mas por vezes nosso pior lado, que todos temos e por vezes se torna incontrolável, vivemos grandes momentos, que servem de inspiração e motivação. Evidentemente que também passamos por crises muitas vezes difíceis de serem solucionadas.

Como vemos no filme, os entraves de um relacionamento podem se tornar ainda mais sérios com a presença de egos insuflados pela fama, tanto da escritora quanto da arquiteta. Não se trata de fim do amor, na verdade o problema é até mais simples, porém mais difícil de ser contornado. Em geral, com o tempo, os caminhos que até então seguiam paralelos passam a se afastar, nenhum dos dois quer ceder e abrir mão ou de uma oportunidade ou do amor.

A maturidade de aceitar a necessidade de um afastamento temporário é mais difícil do que parece, ao menos quando se está vivendo a situação. Teoricamente é simples, basta que o casal aceite uma breve separação e trabalhe para que os caminhos voltem a estar em paralelo. Na prática, talvez até pela falta do amor que inspirava, mesmo após essa inspiração contínua ter se tornado banal com o tempo, essa simplicidade desaparece.

Diferente da maioria dos casais, Elizabeth e Lota deixaram marcas profundas por onde passaram. Tanto como casal quanto como artistas, podem ser admiradas pela determinação e atitudes inovadoras. É uma pena que cinquenta anos mais tarde algumas pessoas ainda deem mais valor para a orientação sexual do que para as obras excepcionais que ambas deixaram, principalmente o livro ‘North & South’, que rendeu à Elizabeth o prêmio Pulitzer, e o Parque do Flamengo, projetado por Lota e admirado até hoje no Rio de Janeiro.



terça-feira, 4 de março de 2014

Ela (Her)

Já não são poucos os filmes que narram a humanização de computadores como consequência da inteligência artificial. Desta vez é o amor romântico entre homem e máquina que chama a atenção, em um drama com comédia sutil, dirigido por Spike Jonze.

Computadores com tecnologia suficiente para imitar humanos são recentes em nossa história. Humanos forçados a se aproximarem de máquinas é a condição mais comum, tanto que isso nem chega a chamar muito a atenção.

Sobretudo com o surgimento de indústrias, homem e máquina passaram a trabalhar em conjunto e a grande maioria dos humanos devem doutrinar seus corpos para acordarem no mesmo horário, cumprir a mesma rotina e executar a mesma tarefa. Padronizar o consumo, a demanda, a estética. Viver de forma quase mecânica.

No filme o trabalhador humano é Theodore (Joaquin Phoenix). Sua função é escrever cartas. Em um futuro próximo casais pagam para que um desconhecido escreva cartas de amor a serem trocadas. Para organizar suas tarefas ele resolve testar um novo software. É como um computador onde se podem agendar compromissos, fazer anotações, realizar uma série de consultas, etc., com a particularidade da inteligência artificial.

Theodore escolhe que o software tenha voz feminina e esta escolhe o nome Samantha. A partir daí Theodore passa a ter a secretária que muitos executivos sonham. Disponível em tempo integral, não erra, não esquece, dá boas sugestões e faz as melhores escolhas. Muitas secretárias agem como mães subjugadas pelo poder econômico.

A consequência bastante provável de uma relação que envolva tanta cumplicidade é a paixão. Trata-se de um software, mas o que difere Samantha de uma relação à distância com alguém que tecla do outro lado do mundo? E Theodore não é uma exceção maluca. Várias pessoas do filme mantém um relacionamento com seus softwares.

Se por um lado cada relacionamento é único, por outro o roteiro costuma ser bem parecido. A fase que precede uma separação é marcada pelo casal envolvido em um tenso jogo de xadrez, no qual cada passo pode render um contra-ataque fatal. Na relação entre homem e máquina não é diferente.

Porém, como jogar com quem identifica até nuances da voz como medo, insegurança ou indiferença? Pode ser bom por não deixar dúvidas quanto a verdades ditas, mas às vezes não queremos passar nem para nós mesmos a insegurança de um sentimento confuso. Não estamos mentindo, mas perdidos em meio aos sentimentos conflitantes.

Os computadores e todos os seus recursos surgem com a função de sanar alguma necessidade humana. De simples operações matemáticas aos mais avançados programas, criamos ferramentas eletrônicas para nossas demandas. Mas em relação ao amor, o que queremos?

Samantha tem disponibilidade integral ao seu dono (ou namorado). Nunca está ocupada, indisposta ou cansada. Porém a capacidade de um computador é infinitamente superior a nossa, de forma que ela pode estar com Theodore e com mais milhares de pessoas e softwares ao mesmo tempo.

Nossa insegurança demanda controle; nosso egoísmo, exclusividade. Em casos extremos, queremos controle sobre o outro. O controle do computador é total graças à capacidade de analisar até nuances da voz, mas o nosso controle não. Isso é ruim? Em um relacionamento "de verdade" as inseguranças de ambos são confrontadas em uma dialética complexa, na qual ambos procuram as próprias verdades.

Caso Theodore pergunte a Samantha por quantas pessoas ela está apaixonada, ela é capaz de dizer um número exato, preciso. Não há dúvidas ou sentimentos confusos e ambíguos. Isso é bem pior do que pode parecer. No fundo, preferimos a doce ilusão de sermos únicos ao outro, mesmo em meio aos sete bilhões de pessoas do mundo.

Uma marca estética do filme é a distinção de cores na vida do protagonista. Quando Theodore está no trabalho ou em casa, mas sem contato com Samantha, o cenário tem cores vivas e gritantes. Feito o contato, com o qual ele esperava ser único, tudo fica mais discreto, acinzentado e apático, o que é curioso, pois o que se espera de um relacionamento é exatamente a vivacidade. Uma metáfora muito bonita é a de Theodore caminhando na neve, contra o vento, logo após uma conversa tensa e desagradável com a namorada.

É aflitiva a ideia de pessoas se relacionando com softwares, sobretudo pelo cenário factível apresentado. Talvez, espero, não chegaremos nunca a esse extremo, mas o fato é que independente de computadores, quando um encontro torna o mundo cinza e apático, é hora de rever certas prioridades.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Gloria

Uma mulher que não se contenta com a solidão. Este é o ponto de partida do diretor Sebastián Lelio. A protagonista Gloria (Paulina García) faz de tudo para viver a vida de forma intensa, mesmo que sozinha sai para dançar, canta, frequenta bares e busca um romance. Não seria uma história muito atrativa se ela não estivesse beirando os 60 anos.

A possibilidade de uma mulher dessa idade viver a vida livremente e preferir lidar com os percalços cotidianos a render-se ao papel estigmatizado para idosos é recente. Os avanços sociais em termos de igualdade de gênero e até mesmo de idade são lentos e historicamente não favorecem as mulheres.

Mesmo com os hábitos em processo de mudança, os homens, de uma sociedade machista, sempre gozaram de mais liberdade e menos censura, chegando à terceira idade com possibilidades de encontrar um novo amor, sair com mulheres mais jovens ou qualquer atividade que os faça felizes.

Às mulheres, depois de passar a vida em função do marido e filhos, restava uma velhice tranquila e insuportavelmente monótona. A prova de que essa herança cultural ainda nos persegue é que Gloria, mesmo com toda sua disposição, demonstra não ter fortes laços de amizades que poderiam ter sido cultivados ao longo da vida.

De seu passado sabemos apenas que foi casada, graças a um encontro com o ex-marido, atualmente casado, e a presença dos filhos, cuja relação com a mãe também evidencia um período de transição social. Gloria é uma mulher forte, mas ao mesmo tempo carente, demonstrando não ter superado o fato dos filhos terem crescido e não precisarem mais de seus cuidados.

A protagonista sofre os efeitos de apostar em uma relação próxima aos filhos, mas não ser correspondida. Talvez o que demandasse um pouco mais da atenção que ela tanto gostaria de proporcionar seria um neto, mas sua filha engravidou de um suíço e irá deixar o país.

É sozinha, carente e jamais entregue que Gloria encontra um novo amor, Rodolfo (Sergio Hernandez), também separado – ao menos é o que ele diz –, mas ao contrário dela, ele é extremamente conectado com as filhas, com as quais está sempre no telefone.

Apesar de cada vez mais comuns, os casais formados na terceira idade ainda não têm muitas referências históricas. Pensando nos tradicionais casais formados na adolescência, com a interferência dos pais, falta de dinheiro, inexperiência, etc., podemos esperar que os mais velhos levem vantagem e enfrentem menos problemas. Ilusão.

Gloria é a protagonista, portanto é ao redor dela que gira a história e, ainda que possamos criticar algumas nuances de seu comportamento, Rodolfo se mostra bastante despreparado, para não dizer infantil mesmo já tendo passado dos sessenta, em relação ao namoro. Tanto a insegurança ao conhecer o ex-marido de Gloria quanto à dificuldade de lidar com a dependência das filhas já adultas nos remete a um casal adolescente, que não consegue construir ou manter um relacionamento prazeroso.

Os problemas dos dois nos mostram o quanto somos complexos e como um relacionamento é difícil. Não se trata apenas de experiência e maturidade. Se hoje os casamentos têm durado menos tempo e as relações conjugais estão mais frágeis, não é por falta de empenho. A diferença é que até pouco tempo o divórcio era proibido, os casamentos arranjados e a mulher criada desde pequena para servir ao marido.

Não havia separações, mas havia satisfação? Sem dúvida Gloria tem que lidar com frustrações que não existiriam se ela aceitasse uma velhice tranquila dentro de casa, mas como iria lidar com sua carência e a sensação de vazio deixada pela independência dos filhos?

Gloria representa muito bem um novo comportamento social, adotado por pessoas que perceberam que o aumento da longevidade pode e deve ser acompanhado de qualidade de vida. Em uma sociedade que busca a juventude a qualquer preço não é nada fácil conciliar a pressão social para ser escrava da juventude e, ao mesmo tempo, trabalhar a quebra de paradigmas que permite aos mais velhos uma vida para além dos lamentos e saudosismos.

Um ponto chave que Gloria ensina para lidar com essa fase da vida é algo que deve ser bem cultivado desde cedo: as amizades. Podemos envelhecer ao lado de algumas pessoas que nos acompanharam ao longo da vida, um dando suporte ao outro, mas é claro que nunca é tarde para conhecer pessoas que, diferente de amores românticos, tem muito mais chance de corresponder às expectativas.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Redentor

O filme não chega a ser uma grande obra do cinema nacional, mas traz questões extremamente relevantes quanto ao crescimento desordenado das cidades e suas implicações. Uma pena que depois o diretor Claudio Torres cai em uma tentativa de realismo fantástico que não atinge grandes resultados.

A base da história é um edifício construído pelo pai de Otávio Sabóia (Miguel Falabella), na promissora região da Barra da Tijuca, que na década de 70 ainda não era o símbolo da ascensão social de hoje. Ao lado do condomínio, os mesmos operários que construíram o prédio construíram também uma favela para moradia própria.

Por problemas financeiros que levaram seu pai ao suicídio, Otávio não entregou os apartamentos, prejudicando o pai de Célio (Pedro Cardoso), que sonhava com o novo lar, já quitado. Este cenário, tão comum em qualquer grande cidade brasileira, costuma ser analisado como problemas distintos e as providências geralmente são tomadas contra os mais pobres.

Favelas ao lado de condomínios não é exclusividade da Barra da Tijuca, nem mesmo do Rio de Janeiro. Em grandes conglomerados urbanos, que escancaram a desigualdade social, as áreas mais ricas contratam o serviço dos trabalhadores mais pobres, para a realização de tarefas pesadas como a construção civil exibida no filme.

O problema mais evidente de manter esses trabalhadores distantes, imaginando uma divisão urbanística em que favelas e bairros pobres ficassem distantes dos condomínios, é o custo e o tempo que o trabalhador levaria para se deslocar diariamente. Com as tarifas elevadas e a malha viária mal planejada, as cidades sofrem com o transporte em horários de pico. Além disso, tem a questão da segregação social causada pela formação de guetos, com critérios econômicos.

A ponta da pirâmide social também sofre as consequências de um crescimento desordenado, com base na especulação. Uma metrópole deveria ter seu desenvolvimento guiado por critérios mais técnicos, de forma que novas áreas residenciais fossem planejadas, diferente de um aval conseguido com propinas.

Se tudo der certo, depois que os grandes condomínios forem construídos e habitados a região passa a lidar com o trânsito caótico e a falta de estrutura para acomodar tanta gente de repente. Mas toda essa estrutura de construção e venda de imóveis torna-se frágil quando a incorporação imobiliária não trabalha com margens de erro.

Na prática os empresários (como o pai de Otávio) começam a construir um prédio e a vender os imóveis na planta. O dinheiro das primeiras vendas financia a continuidade da obra e posteriormente serve de base para a construção de um novo edifício. Em pouco tempo são várias obras em andamento, uma financiando a outra com o dinheiro de apartamentos parcelados em vários anos.

Tudo anda muito bem, até que a taxa de inadimplência começa a subir e a corrente se rompe. Com a falta de dinheiro as construções param, quem já pagou fica sem o apartamento (como o pai de Célio), quem pagou parte das parcelas acaba perdendo o dinheiro investido e os trabalhadores que eram sustentados pela obra acabam sem emprego.

Nossa tendência é culpar somente os inadimplentes, por adquirirem uma dívida que não teriam condições de quitar, esquecendo assim dos corretores que na hora da venda transformam tudo em benefícios, convertem os problemas em virtudes e fazem promessas imperdíveis para quem sonha em fugir do aluguel, sem contar as frequentes propinas e ilegalidades cometidas pelas construtoras.

Entre as partes envolvidas, os empresários são os que apesar de ter ido à falência, costumam ou ter grandes reservas em contas no exterior ou condições de se reerguer, conforme Otávio tenta a todo custo, literalmente. Célio é um personagem bastante específico, pois ao mesmo tempo em que foi lesado ao não ter o apartamento entregue, é jornalista e tem acesso a um meio de comunicação, usando como chantagem sua possibilidade de publicar algo que pode salvar ou destruir definitivamente a vida de Otávio.

Quem não tem dinheiro, destaque ou poder são os trabalhadores, que além de ficarem sem salário ainda são criminalizados pela construção da favela, como se morar em um barraco ao lado de um prédio vazio fosse uma opção desejada. Para quem não tem alternativa, os operários fazem uso inconsciente da função social de um imóvel, ocupando os apartamentos que construíram.

Na vida real esse é o momento em que no meio de uma estrutura que já nasce fadada ao fracasso, a polícia apara uma das arestas com a violência física que recai sobre os mais fracos. No filme as tensões geram a intervenção do Redentor que batiza a obra e torna-se seu ponto fraco.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Com mais uma trama marcada pela tensão entre personagens nada nobres, o diretor Martin Scorsese entra no mundo milionário das ações de Wall Street através do jovem e exímio vendedor Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio). A ascensão do protagonista é rápida e o ritmo frenético do filme ajuda a da a impressão de que o sonho de ficar milionário aconteceu de repente para Belfort.

Inversamente proporcional à fortuna, os escrúpulos vão diminuindo à medida que o personagem atinge seus objetivos e funda a corretora Stratton Oakmont. Apesar do filme ser baseado em uma história real, é possível traçar um bom panorama sobre a história econômica recente dos EUA e sua relação com investidores, utilizando este como um estudo de caso.

A carreira de Belfort começou em uma pequena corretora, cujas ações valiam centavos e a comissão chegava a 50%. O problema é que negociavam papéis de empresas de fachada, que não valiam sequer centavos, que dirá os milhares de dólares que o hábil vendedor arrancava dos clientes.

Este foi basicamente o estopim para a quebra da bolsa em 1929, quando, resumindo ao extremo, a economia norte americana cresceu tanto para reconstruir a Europa do pós-guerra, que quando o velho continente se recuperou os estoques de mercadoria dos Estados Unidos foram sustentados por ações sem valor, que ao começarem a quebrar geraram uma reação em cadeia.

Apesar das crises econômicas serem cíclicas, é muito difícil que a bolsa de valores repita este erro. As empresas de fachada continuam sendo criadas e, como vemos no filme, não faltam compradores que se atolam em dívidas com a ilusão de enriquecer através de papéis sem valor. Porém os governos estão menos inocentes em relação à especulação.

Em meio ao bom humor com que o assunto é tratado por Scorsese, ora com uma ironia fina, ora com atuações escrachadas, vemos que o equilíbrio de poderes entre corretores e investigadores é tênue, extremamente tenso e por vezes beira as explosões de violência recorrente em outras obras do diretor. Aqui os impasses são mais psicológicos.

O lobo do título remete à voracidade com que Belfort encara seus negócios, desde as primeiras vendas até as palestras motivacionais para seus funcionários. Mas comparando com o comportamento dos investigadores, é possível dizer que entre esses lobos não há cordeiros.

Seria louvável que o FBI agisse de forma a proteger aqueles que investem a economia de toda uma vida em ações que não valem nem um centavo, porém a preocupação gira em torno de proteger o próprio mercado. Indiretamente cumprem o papel de agir em prol da população, pois ações descontroladas, como a história ensina, podem dar prejuízos para todo o país, porém pouco é feito diretamente em relação aos pequenos investidores.

A postura de tolerância seletiva em relação aos crimes por parte da polícia norte americana pode ser verificada também através de algumas nuances do filme. Belfort e seus sócios justificam o estereótipo de corretores viciados. Todos se entopem de álcool, barbitúricos e cocaína. Que muitos milionários fazem uso de drogas ilícitas não chega a ser um grande segredo, porém a repressão neste mercado é muito mais forte em relação aos fornecedores, traficantes de países subdesenvolvidos e as ‘mulas’, que se arriscam para levar a droga aos EUA. Ainda que esta não seja uma polêmica debatida pelo filme, vale a pena indicar os desdobramentos de um crime.

Por parte daquele que comete o delito, parece quase inevitável e universal a sedução que o sucesso econômico exerce. O poder que acompanha o dinheiro é a combinação para que a ambição não veja limites, porém eles existem mesmo entre os milionários. Ultrapassá-los com cautela pode dar direito a correções, porém a cautela não é uma característica daqueles que vivem do mercado imprevisível de ações.

Toda a rede de delitos do filme é baseada no campo econômico, o resultado não é evidente. Diferente de assassinatos, agressões, etc. os crimes financeiros não deixam sangue e suas consequências são difusas, abstratas, deixando uma camada de verniz sob seu formato ilegal.

É possível procurar culpados objetivos. Subornos, complacências, falta de caráter entre tantos fatores identificáveis, porém o inegável é que todo o sistema econômico mundial gira em torno de falso capital. Ações que da noite para o dia podem levar seus acionistas à ruína ou à glória sem que nada seja produzido fisicamente.

Os governos tentam intervenções que não rompam com a tolerância em relação aos crimes mais convenientes, porém é inevitável que periodicamente algum vulcão do mercado entre em erupção. O caso mais grave até hoje foi a quebra da bolsa em 1929, o mais recente foi a crise do setor imobiliário em 2008. Quando será a próxima crise é tão imprevisível quanto as tendências do mercado.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Jovem e Bela (Jeune & Jolie)

Certa vez assisti a uma entrevista de Elza Soares. Quando questionada sobre o que seria se não fosse cantora, ela avisou que a resposta era pesada e disse que seria uma grande prostituta.

Talvez mais que a profissão, o que choca a sociedade nessa resposta é a escolha. O senso comum quer acreditar que a prostituição é a falta de opção. O que sobra para quem não tem outra escolha, a viciada que precisa de dinheiro para se drogar, a mãe solteira que não tem como sustentar os filhos, às vezes até a universitária esforçada que não tem como pagar os estudos.

O filme do diretor François Ozon vem para desconstruir esse mito, talvez até mesmo essa vontade de uma sociedade moralista, de que a prostituição seja restrita a uma escória. Em alguns casos pode ser, mas em outros muitos é uma opção de quem não se prostitui pelo dinheiro, ou pelo menos poderia tranquilamente conseguir um trabalho menos censurado.

Isabelle (Marine Vacth) é quem desconstrói o estereótipo popular. A jovem e bela de 17 anos finge ter 20 para não espantar os clientes. Homens mais velhos. Muito mais velhos. Dispostos a pagar 300, até 500 euros (cerca de 1600 reais) por um programa que Isabelle deve manter em segredo, principalmente da família.

A associação de moralismo com machismo convenciona as críticas, sobretudo em relação às garotas como Isabelle, que não têm necessidade econômica de fazer programas, e à relação da prostituta e sua família. O que irão pensar, o que irão dizer, como vão lidar com o suposto problema e o consenso de que nenhuma mãe cria a filha para ser prostituta.

Durante muito tempo a profissão de uma pessoa era praticamente definida desde a infância. O status social era muito ligado à família e dificilmente alguém conseguia escolher o que gostaria de fazer. Felizmente isso vem mudando e hoje podemos pensar no quanto deve ser infeliz uma pessoa – homem ou mulher – que é criado para satisfazer a vontade dos pais.

O filme é bastante reticente. Mostra pouco da vida dos personagens, assim como um programa as relações parecem curtas, superficiais e frágeis, até mesmo na família de Isabelle. Apenas com o irmão mais novo ela tem um pouco mais de cumplicidade, ainda assim não o suficiente para contar seu segredo. A dúvida que fica é se essa revelação faz alguma falta na vida da jovem, afinal entre os fatores que a atraíram para a prostituição, parece estar o desafio de manter um segredo.

Em relação aos clientes de Isabelle tudo é ainda mais misterioso, condizente com o mundo da prostituição. Diante de uma necessidade tão forte de manter uma moral tão hipócrita, era de se esperar que a prostituição acabasse naturalmente, entretanto muitos dos que a criticam publicamente, servem-se de seus serviços às escondidas. É assim que os velhos casados encontram Isabelle em um site de prostituição, assim que ela é abordada na rua e recebe o convite para seu primeiro programa, assim que muitos clientes moralistas sustentam o que tanto criticam.

Garotas como Isabelle – elas existem aos montes na vida real – são o paradoxo do machismo. São alvos de suas críticas, mas também sustentadas por suas atitudes. A mulher, até então subjugada e humilhada pela necessidade de prostituir-se, passa a dominadora, escolhendo ganhar a vida com a hipocrisia materializada do machismo.

Não fossem imposições absurdas provenientes de uma sociedade patriarcal, que se contradiz doutrinando meninos a serem caçadores de mulheres e meninas a serem adeptas incondicionais da moral cristã, poderíamos ter um cenário em que as relações fossem tratadas com igualdade para homens e mulheres, dispensando assim o comércio de sexo.

Dado que esta evidência está longe de ser posta em prática, o enredo do filme seguirá fiel à realidade por um bom tempo. Garotas que optam por vingarem-se do machismo golpeando suas contradições e homens patéticos que no desespero para afirmar supremacia, recorrem ao poder econômico para na privacidade de um quarto exporem suas fraquezas.

Alguns buscam sexo, outros buscam companhia, outros a ilusão de que podem utilizar uma mulher por serem superiores, quando na verdade sustentam a hipocrisia que transforma em mercadoria o que não é comercializável.

Durante o filme as relações são tênues, sempre implícitas, ocultas e por vezes violentas, mas a que realmente marca é a cumplicidade de uma conversa madura entre a protagonista e uma velha senhora. Ambas com poucas palavras, conforme o filme exige, conseguem se entender, se respeitar e deixar claro uma à outra que as mulheres podem ser fortes diante de atitudes retrógradas e imaturas.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Serra Pelada - A Lenda da Montanha de Ouro

Com dimensões continentais, o Brasil sempre foi um país naturalmente rico. Desde o pau-brasil que nos batizou até a soja que hoje alimenta o mundo, fomos fornecedores de matéria prima já no descobrimento, passando pela cana, café, minério, petróleo e o sempre valorizado ouro.

Ponto em comum para todos esses ciclos: a riqueza natural vai, a pobreza social fica. E o ouro nos proporcionou essa ascensão e queda duas vezes, a primeira – bem mais expressiva – no ciclo do ouro, século XVIII, quando a extração do metal sustentou não só o Brasil, mas praticamente toda a Europa; e a segunda, uma versão muito mais reduzida, porém recente e amplamente documentada, em Serra Pelada, aqui documentada pelo diretor Victor Lopes.

A expressão mais comum quando se fala na exploração da região é a de “formigueiro humano”. Talvez. Os corpos sujos, enlameados, formando uma camuflagem forçada sobre o solo terracota; seres em fila indiana carregando cargas pesadas nas costas por longas distâncias; trabalho puramente mecânico. Porém em um formigueiro todas as formigas trabalham por um bem comum. Não é o que vemos em Serra Pelada.

Assistindo ao documentário percebemos que a palavra chave sobre todo o processo, da descoberta do ouro até hoje, é irresponsabilidade. Seja social, ambiental, econômica, governamental, o fato é que mais uma vez a riqueza natural foi explorada ao extremo, sem nenhum controle, enriquecendo alguns poucos e deixando um saldo bastante negativo para o país.

Meio ambiente contaminado com mercúrio, cidades criadas sem infraestrutura, royalties desperdiçados pelo governo e exército de trabalhadores que hoje sofrem para sobreviver, passada a febre do ouro.

Criou-se o falso consenso de que os garimpeiros são culpados pela atual situação. Basta pegar alguns casos reais de pessoas que esbanjaram o dinheiro das formas mais estapafúrdias possíveis, criticar os gastos com bebida e mulheres que a censura moral termina o trabalho.

Claro que entre milhares de garimpeiros, muitos gastaram o que receberam com futilidades, nunca tiveram preparo para lidar com o dinheiro, mas isso não justifica a exploração do seu trabalho. A quantidade de trabalhadores que mantiveram uma vida relativamente confortável após o fim do garimpo é baixíssima perto do total de garimpeiros envolvidos, de forma que colocar a culpa na má administração do dinheiro por parte deles é uma forma de eximir-se da real responsabilidade.

À exemplo de como Foucault abordou a ideia de “corpos dóceis”, os trabalhadores não podiam beber, não podiam ter mulher, tinham que seguir padrões rígidos de comportamento, e todo este controle era vendido como justiça social, pois supostamente todos eram tratados da mesma forma. Dentro do campo de trabalho sim, mas economicamente as dezenas, por vezes centenas, de quilos de ouro extraídos diariamente renderam uma fortuna para poucos.

Aos garimpeiros, que nunca tiveram nada, o valor recebido parecia muito, mas é perceptível que o real sustento daqueles trabalhadores sempre foi muito mais a ilusão que o dinheiro. Dentro de uma ideologia bem característica do governo militar, vigente no auge de Serra Pelada, o nacionalismo era inflamado na multidão de trabalhadores e sonho de enriquecer mantinha a população conformada e trabalhando.

Não somente o trabalho braçal interessava ao governo. Mecanizar a extração significaria desempregar milhares de trabalhadores sem especialização, em uma região desprovida de recursos e repleta de latifúndios que poderiam ser alvos dos súbitos sem-terra.

A manipulação se torna risível e patética quando algumas entrevistas culpam a chegada das prostitutas pelo fim do garimpo e pela suposta bagunça estabelecida. Alegam que por causa das mulheres os homens queriam trabalhar menos para cuidar da aparência.

É curioso como o país quer crescer, todos querem viver em uma nação desenvolvida, mas a história de exploração é cíclica e sequer mudam os argumentos. Hoje as forças políticas seguem atuando na região, utilizando garimpeiros como massa de manobra. Seguem culpando os oprimidos, acusando-os de má administração do próprio dinheiro e de uma forma ou de outra, conseguem colocar a culpa de qualquer problema nas mulheres.

O futuro de Serra Pelada é uma incógnita. Oficialmente a mina secou. O ouro acabou. Não há nada mais que resquícios que não cobririam o investimento no local. Porém evidentemente existem rumores de que boa parte do ouro segue cravado na serra. Parte dessa crença ainda é sustentada pelo sonho, como do velho garimpeiro que acredita estar sobre uma mina de diamantes, com uma pedra do tamanho de uma geladeira; mas parte é sustentada pela grande atenção que governo e multinacionais ainda dispensam ao local. 


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 & 2)

Abdellatif Kechiche trouxe às telas a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos) em um longo filme, que apesar das três horas de duração flui muito naturalmente desde o início, com uma Adèle bastante menina e angelical, até suas transformações baseadas em algumas experiências vividas.

Ao longo da vida a adolescência é o período mais confuso. Além dos hormônios bagunçados, a transição entre infância e vida adulta e diversas experiências novas, somos imaturos para lidar com todas essas turbulências. Adolescentes são mesmo seres perdidos e incoerentes, não por opção, mas geralmente por ainda não saberem como lidar com tantos caminhos pela frente.

O curioso é que muitas vezes aqueles que deveriam tentar utilizar um pouco da experiência adquirida ao longo da vida para auxiliar esses jovens, acabam se esquecendo de como foi passar por essa fase e bloqueando as reações contraditórias que tiveram quando passaram por esses anos confusos.

É por esse furacão de sentimentos e emoções que Adèle está passando e é com a incompreensão de quem já passou pelos mesmos tormentos que ela terá que lidar, ou seja, além das dificuldades quase inerentes ao período, ainda temos que carregar o peso desnecessário criado pelos que nos cercam, e isso não se restringe aos personagens do filme, pois pode também ser notado em algumas críticas que insistem em reduzir todo o conteúdo da obra às duas cenas de sexo apresentadas.

A menina confusa do começo do filme tem que aprender rápido a lidar com as pessoas próximas. Amigos, parentes, professores, todos acostumados a criticar a diversidade expressa no outro, forçando a acostumar-se com uma padronização medíocre, que apenas disfarça as contradições internas que todos temos.

Que Adèle não sabe bem o que quer da vida é quase inegável. Mas quem tem essa certeza, sobretudo ainda no ensino médio? O que é notável nas pessoas próximas à protagonista é a censura ao risco e principalmente à busca pelo prazer. O mais cômodo é fingir ter certeza para poder fingir ter cumprido as próprias metas, se tornando uma pessoa realizada. Um ideal romântico, quase onírico.

De todos que passam pela vida da menina, a única que contribui positivamente é Emma (Léa Seydoux), uma paixão que Adèle precisa esconder, ou ao menos tentar esconder de todos, diferente de sua companheira. Emma não sofre nenhuma censura ao apresentar a namorada aos amigos e aos pais, o que contribui, entre outras coisas, para que ela seja mais autoconfiante e centrada que Adèle, além, é claro, de ter mais experiência de vida.

Os personagens do filme, por vezes de forma abrupta, vão desaparecendo. O que para o enredo pode não ser tão bom, simbolicamente indica muito bem as fases da vida que Adèle deixa para trás. Na medida em que vai amadurecendo ela não precisa mais aturar certas pessoas, certas atitudes, certas cobranças infundadas. Em geral aqueles que somem não fazem falta e é de se imaginar que buscam outras implicâncias para maquiar as próprias frustrações.

O que resta é a vida que a própria personagem constrói e como não há um apogeu de conhecimento, principalmente para uma pessoa tão jovem, ela seguirá pagando a conta da inexperiência e de algumas atitudes impulsivas, sem que isso a faça uma fracassada. Qualquer que seja seu futuro, os erros foram baseados em escolhas próprias que trouxeram experiência.

Qual seria a alternativa para a jovem? Provavelmente reprimir sua atração por mulheres – o que neste caso talvez não fizesse tanta falta já que ela também sente atração por homens –, encontrar alguém com quem casar, formar a família tradicional que só costuma funcionar em comerciais de margarina e barrar qualquer tentativa que os filhos tenham de quebrar padrões, ratificando a ideia de que as contradições internas da adolescência são esquecidas quando ficamos mais velhos.

Só para não passar em branco, conforme já mencionado, duas cenas de Adèle e Emma na cama são bem mais explícitas que a maioria dos filmes costuma mostrar. Vemos a moça vivendo intensamente cada experiência nova, de uma manifestação política a uma mudança completa de paradigmas. Por que não a veríamos em um momento de prazer?

De fato essa naturalização ainda está distante das plateias de cinema. Cenas de casais héteros ainda podem chamar mais atenção que o filme como um todo, em se tratando de duas jovens há ainda o incremento do preconceito. Uma pena. Chegar ao fim do filme preso às duas cenas é sinal de que seu conteúdo não foi compreendido.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Feliz Natal (Joyeux Noël)

O filme do diretor Christian Carion traz no título a ironia de boa parte dos votos de ‘Feliz Natal’, ou seja, dificilmente é de fato feliz. Este tem a particularidade de inspirado em fatos reais, mostrar a noite de Natal em uma trincheira da primeira guerra, com alemães, franceses e escoceses duelando até a morte, sem saber muito bem pelo quê.

Marco histórico que dá início ao século XX, a primeira guerra ainda apresenta fortes traços de combates bem menos tecnológicos. Há relatos de soldados indo de bicicleta para o front de batalha e mesmo no filme é possível ver os soldados franceses com as características calças vermelhas, que relutaram tanto em abandonar.

Por outro lado, pensamentos que hoje estão naturalizados em nosso cotidiano, começavam a ganhar força naquela guerra, que contribuiu para definir as grandes potências mundiais e difundir ideais globalizados.

A incapacidade de diálogo para resolver conflitos de forma diplomática se desdobrou em um conflito armado, que passou a ser também lucrativo ao contar com indústrias pesadas para a produção de armamentos. O desenvolvimento tecnológico também passou a contar com saltos repentinos ao receber orçamentos cada vez maiores de governos envolvidos em batalhas.

Alheios a tudo isso, soldados abandonavam suas famílias e às vezes por vontade própria, iludidos por uma propaganda beligerante, marchavam rumo à morte nos campos de batalha, rendendo uma medalha de condecoração póstuma aos familiares.

Neste cenário de crescimento econômico à custa de vidas, chegamos à véspera de Natal, em uma trincheira coberta de neve, com soldados cansados e desiludidos após uma batalha sangrenta cujos mortos sequer haviam sido recolhidos devido ao risco de contra-ataques.

Àqueles que comandam a guerra de salas bem seguras e distantes de qualquer combate, o problema é que os soldados são seres humanos racionais e em meio a tanto terror logo percebem as contradições às quais estão expostos. O Natal é apenas um símbolo que faz explodir o sentimento que todos tinham individualmente.

Até que ponto vale a pena trocar tiros com desconhecidos ao invés de baixar as armas, compartilhar a comida escassa, a pouca bebida e fazer com que toda a disputa se restrinja a uma partida de futebol improvisada na neve? Foi o que os soldados das três nacionalidades em questão fizeram naquele Natal. E depois, haveria como motivar os exércitos para voltar a matar uns aos outros mesmo após a confraternização?

Pode ser que a história termine assim, sobretudo tendo sido inspirada em um acontecimento real, mas o potencial metafórico do filme vai muito além disso. Estamos nos aproximando de mais um Natal e, consequentemente, das contradições que a data implica.

Claro, não estamos em guerra declarada – ao menos no Brasil – e isso pode nos levar ao conforto de pensar que poderia estar pior. De fato poderia, mas esse é o tipo de pensamento que nos afasta do que realmente é melhor, que seria a eliminação permanente de contradições que são abafadas somente no período de festas.

É a época da confraternização, portanto os patrões compram um kit de Natal para os funcionários, desde que encontrem um kit bem baratinho; os funcionários presenteiam as empregadas domésticas com um panetone, desde que encontrem um bem baratinho; os mais dedicados irão ao correio realizar o pedido de alguma carta enviada por uma criança, desde que o pedido não seja nada caro; haverá até amigo secreto na empresa, do qual todos sairão reclamando que deram um presente bom e ganharam alguma porcaria.

Depois passa, o tal espírito natalino morre e voltamos para guerra, digo, ao cotidiano de dar ordens, receber ordens, explorar, ser explorado, ignorar crianças carentes e hostilizar adultos carentes.

Da mesma forma que o filme desconstrói o valor religioso do cessar-fogo natalino, mostrando um soldado que admite estar emocionado com a conciliação mesmo sendo judeu, vale ressaltar que a ideia não é a superação de conflito por conta de obrigações religiosas. Ainda que a moral cristã atue forte sobre boa parte da população, ela é variável, por vezes tendenciosa e questionável.

Ao baixarmos a guarda para a associação inusitada entre uma trincheira da primeira guerra e os dias atuais, vemos que manter a hipocrisia de um cessar-fogo simbólico na última semana do ano para logo depois retomarmos a guerra velada com todos os que estão próximo é baixar a cabeça para quem comanda a guerra à distância, longe dos efeitos do conflito direto.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Muito além do peso

O título do filme resume muito bem seu conteúdo. A diretora Estela Renner fez sua estreia em longas metragens mergulhando em um grande problema contemporâneo, que aparentemente só tende a crescer.

Enquanto muita gente ainda sofre sem ter o que comer, boa parte da população passa pelo problema inverso, sofre com a má alimentação que desencadeia uma série de problemas de saúde, alguns tão indiretos que muitas vezes sequer são percebidos.

A diretora mostra que o problema vai além da mesa e é influenciado por diversos fatores, desde culturais até a intervenção direta do marketing, que vê nas crianças alvos fáceis, sem muito discernimento sobre qual a melhor opção.

Não bastasse os apelos comerciais de redes de fast food e os avanços tecnológicos na área de entretenimento, que prendem as crianças por horas a fio diante de um jogo de vídeo game, muitos pais alegam a falta de espaço para lazer, considerando o risco dos filhos saírem sozinhos de casa.

O problema econômico influencia de várias formas. Existem as atividades físicas como aulas particulares de algum esporte, porém costumam ser bem caras; o baixo preço dos alimentos de baixa qualidade; a falta de recursos para tratar do problema, uma vez que a obesidade já esteja estabelecida, e mais uma série de fatores que pesam fundo no bolso das famílias.

Não bastasse a influência direta da economia, existe ainda a influência relativa desta. Um dos grandes atrativos da comida industrializada é sua praticidade. As carnes processadas já vêm praticamente prontas para o consumo, o suco em pó que fica pronto ao ser misturado na água, o macarrão que cozinha em três minutos. A economia de tempo é sedutora, sobretudo para quem trabalha o dia todo, estuda e chega em casa exausto. A conta vem com o tempo.

Por parte da indústria, até existe a necessidade química da adição de conservantes e outros produtos para que o alimento não estrague antes de chegar à mesa do consumidor. Por outro lado, como o próprio nome diz, são indústrias, e têm como objetivo vender e lucrar. Muitos alimentos são literalmente construídos para que o sabor final agrade aos consumidores, cabendo ao marketing ressaltar os pontos positivos (ou mesmo criar tais pontos) e omitir ao máximo os problemas.

Não é raro que um adulto caia nas armadilhas do marketing, não apenas em relação à alimentação, mas quantas vezes não percebemos ao chegar em casa que compramos algo inútil, apenas pelo impulso, ou seduzidos por um cartaz de oferta? Basta pensar que o simples fato de anunciar um produto com preço de 19,99 ao invés de 20,00 já tem efeito positivo sobre a venda. O que dizer sobre lanches servidos com embalagens mirabolantes e brinquedos relacionados os filmes que estão fazendo sucesso? Os pais têm o desafio duplo, pois além do apelo comercial, há ainda a pressão social quando as crianças veem os amigos com esses brinquedos.

Muitos exemplos do filme impressionam pela extrema falta de conhecimento. Tanto adultos, acreditando que o pacote de batata frita tem pouco óleo, quanto crianças, que não sabem sequer identificar frutas e vegetais, mostram grande deficiência na formação nutricional. Essa falta de discernimento sobre os alimentos abre espaço para que a indústria se aproveite da boa fé do consumidor.

Quando uma personalidade muito conhecida associa sua imagem a um produto, a tendência é que as pessoas ignorem o fato de haver um contrato firmado entre empresa e personalidade, que recebe (muito) para indicar tal produto. O que acaba realmente influenciando é a falsa ilusão de que se uma pessoa famosa consome, é porque tem qualidade.

Efeito semelhante tem o peso de uma marca conhecida. Grandes indústrias são vistas quase como sinônimo de qualidade e confiança, na contramão do fato de que para chegar ao topo tiveram que suprimir concorrentes, reduzir custos de produção (leia-se usar ingredientes mais baratos e com menos qualidade) e aumentar as vendas a qualquer custo, mesmo que prejudicando seus consumidores.

Atualmente passamos por uma situação no mínimo curiosa. A humanidade produz alimentos suficientes para alimentar toda a população (vamos, por ora, desconsiderar que essa produção não aconteça de forma sustentável). Enquanto nos vangloriamos de nossa racionalidade, uma parte considerável da população passa fome, enquanto outra luta contra a obesidade.

A desinformação das pessoas em relação aos alimentos não se restringe à nutrição. Parece que o déficit cultural alcança níveis mais elevados, deixando o consumidor sempre em uma condição passiva, recebendo propagandas sem o senso crítico mínimo para julgar idoneidade das mesmas.


(esse é o trailer, mas o filme está disponível no Youtube)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O segredo dos seus olhos (El Secreto de Sus Ojos)

Elija bien, lo único que nos queda son recuerdos. Al menos que sean lindos, ¿no?

Neste filme o diretor Juan José Campanella intercala personagens interagindo no tempo vigente com lembranças de um crime cometido vinte e cinco anos antes, em 1974. Vencedor do Oscar e merecedor de qualquer prêmio que tenha ganhado, ‘O segredo de seus olhos’ tem a sutileza do silêncio, do olhar, da palavra não dita, do sentimento não vivido. Pensando no conjunto, a obra me remeteu a uma história de Edgar Alan Poe com essência contemporânea.

O enredo que guia o filme é um crime. Liliana Coloto (Carla Quevedo) foi estuprada e assassinada. Um caso misterioso e com poucas pistas, sem muitos recursos tecnológicos na década de 70, portanto a ser desvendado através da reflexão – semelhante ao detetive Auguste Dupin, de Poe.

Aqui os investigadores em questão são Benjamín Expósito (Ricardo Darín) e Pablo Sandoval (Guillermo Francella), que em meio a toda tensão da história, utilizam o talento de Darín como ator e o alcoolismo de Sandoval como personagem para garantirem algumas cenas de comédia mais engraçadas que muitos filmes criados com essa finalidade.

Junto ao crime misterioso, há também a idealização feminina. Assim como as mulheres de Poe, aqui também vemos a mulher idealizada, perfeita, angelical e inatingível. Isso se expressa mais claramente na quebra da relação entre Liliana e seu noivo Ricardo Morales (Pablo Rago), que passa a ter na vingança seu único propósito de vida.

Porém um olhar mais atento encontra muitas semelhanças com a vida de Expósito, a partir do momento que ele conhece Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), sua chefe no departamento. Ainda que por motivos bastante distintos, também é um amor que apesar de correspondido, não é vivido, e por isso é perfeito no sentido de que não conta com desgastes naturais do tempo, para tirá-lo de um nível onírico e trazê-lo para o plano real.

Nem tudo é encarado com o romantismo que pode marcar presença até mesmo na resolução de um crime hediondo. Contextualizando o filme em seu período histórico, existe a tentativa, na Argentina prestes a iniciar a ditadura militar, de conseguir uma confissão sob tortura para supostamente encerrar o caso; existe o machismo que influencia na investigação de um crime contra a mulher; além do revanchismo, que prejudica qualquer investigação.

À parte de burocracias, machismos e corrupções, Expósito e Sandoval seguem a busca através de pistas abstratas, utilizando como base um olhar, uma intuição, uma paixão. Esses elementos que têm pouco valor jurídico carregam muito mistério e podem revelar segredos mais profundos, desde que bem interpretados.

É com essas provas pouco objetivas que Expósito chega a outro ponto que lembra Alan Poe. No conto ‘O demônio da perversidade’ (The imp of the perverse) o escritor desenvolve brilhantemente a ideia de atos cometidos com a consciência do erro e posteriormente a confissão, já que de nada serviria ao narrador guardar para si determinado feito – ainda que a confissão fosse um erro do ponto de vista pessoal.

Com base nisso Expósito trabalha sua intuição de forma tão bem estruturada que leva todos que estão próximos a crer que ele está certo. O trabalho em equipe complementa a investigação com os papéis fundamentais de Irene, uma mulher inteligente que sabe usar a ignorância do machismo a seu favor, induzindo uma confissão que se mostra, ao assassino, menos importante que sua virilidade; e Sandoval, que utiliza seu alcoolismo e os amigos de bar para indicar a força da paixão, sobretudo ao time de futebol, que é incondicional. Em breve cena num estádio Campanella consegue mostrar a magia do futebol como poucos conseguiram.

O curioso é que segundo Sandoval um sujeito pode trocar de tudo, menos de paixão. A metáfora ilustrada pelo futebol se aplica aos dois amores do filme por estes não terem sido vividos. A verdade é que a paixão, sim, termina, porém não até que seja vivida em sua plenitude. Ela tem seu próprio tempo, que quando não é cumprido a deixa latente. Podemos fingir que não existe, empurrar para baixo do tapete, mas acabar mesmo, somente se for vivida, assim a convivência mostra ao poucos os defeitos, as desilusões, as decepções que esfriam o ímpeto inicial.

Apesar de parecer pessimismo, trata-se de um tema antigo na literatura. O debate de como seria a vida de Romeu e Julieta caso tivessem passado a vida juntos leva a discussão ao menos até o tempo de Shakespeare. Aliás, é possível indicar uma relação ainda mais forte de Expósito e Irene com o casal shakespeariano.

Há na Argentina certa clivagem social com base nos sobrenomes. Os de origem europeia têm mais status que outros e isso fica bem evidente quando um desafeto do investigador, ao notar o clima de romance o provoca dizendo que ela é uma Menéndez Hastings e ele é apenas um Expósito. Mais que o sobrenome ela tem o amparo legal de uma família influente no meio jurídico, ele é apenas um sujeito esforçado, talentoso, em um mundo que nem sempre valoriza o esforço e o talento.

Claro, um amor, mesmo que correspondido, pode não acontecer por uma série de fatores. A diferença social é um dos aspectos, mas independente dos motivos que impeçam a paixão, o fato é que ela permanecerá presente. Ricardo, o noivo de Liliana, não tem opção e tem que conviver com o peso de uma paixão interrompida pela morte. Benjamín e Irene seguirão com uma paixão pendente, que dura ou até a morte, ou até ser vivida e cumprir seu próprio tempo.


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