
Deste celeiro de talentos temos desde nomes mais que populares como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, até músicos igualmente competentes, apesar de não tão famosos. O filme é uma ótima oportunidade para lembrar – ou conhecer – aqueles que se tornaram ícones da música brasileira, os criadores do tropicalismo e, um ponto não muito explorado por não ser o objetivo do documentário, pessoas que usaram sua arte para expressar o engajamento político que os colocava contra a ditadura de um período bastante conturbado do país.
Após ver o filme fiquei instigado a procurar as letras e lê-las com mais atenção – principalmente depois de ver que Caetano e Chico não se lembram das letras inteiras, não preciso me envergonhar por não me lembrar de todas. É interessante o fato de em uma única noite terem sido apresentadas tantas canções que marcam até hoje a carreira dos compositores, e como deve ter sido difícil o trabalho dos jurados para hierarquizar os trabalhos até chegarem a uma única música vencedora (Ponteiro, de Edu Lobo). Apesar da letra não ser a única análise dos jurados, o equilíbrio era mantido em todos os aspectos com a inovação de ritmos, a mistura de Gilberto Gil com os Mutantes, Chico Buarque com o MPB-4, Caetano Veloso e Beat Boys e a parceria de Edu Lobo e Marília Medalha com o Quarteto Novo.
Em tempos de “Créu”, “Rebolation” e afins, é inevitável lançar um olhar saudosista sobre aquela época. É evidente que a qualidade da música pode ser encarada como fator subjetivo e que obras com letras fúteis foram lançadas inclusive ao longo do período dos festivais, não sendo lembradas hoje por terem sido suprimidas pelas obras primas, cantadas até hoje, mesmo contra a vontade de alguns dos interpretes.
O que acaba chamando muita atenção no filme são os depoimentos nos quais os músicos dizem não sentir saudades daquela época, sendo este sentimento referente apenas ao vigor da juventude. A princípio isso seria quase impensável, por se tratar de um evento com participação popular tão efusiva e que até hoje praticamente não recebe críticas negativas, entretanto não é demais lembrar que apesar da ênfase do filme não ser o período conturbado pelo qual o país passava, a ditadura militar – quando excluído o romantismo da luta contra o opressor, que muitas vezes seduz alguns jovens a dizer que prefeririam ter vivido naquela época do que na apatia atual – foi muito duro aos que estiveram dispostos a utilizar sua arte como resistência. Muitos daqueles jovens músicos foram presos e exilados por militares que permaneceram impunes no decorrer da história.
Os diretores retrataram uma única noite de nossa história. O resultado é pontual e apesar do período curtíssimo, a importância é enorme para nossa cultura, que até hoje colhe frutos do tropicalismo e os benefícios de ter artistas engajados, que expandem as fronteiras da arte para além do entretenimento.