terça-feira, 21 de setembro de 2010

Amadeus

O diretor Milos Forman apresentou sua versão para a conturbada vida de Wolfgang Amadeus Mozart através do cinema. Em meio à tantas qualidades do filme chamam a atenção as cenas brilhantes em que os pensamentos dos músicos são exibidos como música de fundo, narrando cada passo da música. A obra ficcional, longe do rigor científico que podemos encontrar no livro “Mozart – Sociologia de um gênio”, de Norbert Elias, possui um lado lúdico mesclado a diversos fatos reais da vida do músico, o que nos permite fazer um interessante paralelo entre as duas obras em questão.

Vemos que o filme inicia deixando claro quem é o narrador, no caso o músico Antonio Salieri, já velho e martirizando-se por ter matado Mozart. Portanto todo o filme é narrado do ponto de vista de Salieri, tratando-se de um relato pessoal e parcial. O diretor indica ser um personagem carente e solitário através do criado, que diante da recusa do músico em abrir a porta do aposento ameaça não visitá-lo nunca mais. As breves cenas no hospício para onde levam Salieri nos dão ideia de como eram tratados os loucos naquela época, extremamente coerente com as descrições de Michel Foucault em seus estudos sobre a loucura.

A figura de Salieri no filme é praticamente uma personificação da sociedade de corte descrita por Elias, velha, já enfraquecida e o principal obstáculo para o fracasso pessoal de Mozart. Sob a ótica sociológica o filme indica diversas nuances condizentes com as teorias de Pierre Bourdieu. Em seu relato pessoal o personagem Salieri indica que o pai de Mozart ensinou o filho a ser músico, diferente de seu pai, comerciante membro da nova burguesia, para qual provavelmente a música tinha como principal função entreter a corte. Este fato refuta, como toda a obra de Bourdieu, a ideia de que Mozart tinha “dom” para a música, pois ainda que suas primeiras obras tenham sido escritas de forma extremamente prematura, algumas com apenas quatro anos, este talento foi desenvolvido, possivelmente como supõe Elias, para chamar a atenção do pai enquanto este ensinava música à irmã mais velha. Assim vemos que o talento do compositor não era inerente à sua personalidade, mas construído socialmente.

Para a sociedade de corte tão marcante quanto o talento musical de Mozart era seu comportamento excêntrico de quem, apesar de sempre ter frequentado os palácios, nunca teve comportamento de nobres. Tom Hulce trabalha este lado do músico com atuação impecável no filme, mostrando os gestos espalhafatosos e o riso marcante – ainda que Mozart estivesse longe da aparência de um galã de cinema. Algumas piadas escatológicas do músico também foram indicadas no filme e esse comportamento também desagradava à corte. Neste ponto é bastante útil a obra “O processo civilizador” de Norbert Elias, na qual o autor mostra detalhadamente como é lento a apropriação de determinados hábitos pelas classes sociais. Ao retratar a família do músico o roteiro do filme não dá tanto destaque ao pai de Mozart, por restringir-se a um período em que o filho se distancia, e dá mais ênfase para a esposa, sendo que a cena em que sua sogra assiste um de seus espetáculos mostra bem como há um abismo entre os hábitos da corte e o comportamento dos que estão socialmente distantes da nobreza.

A grande diferença do habitus da sociedade de corte e da burguesia é notável e marcante durante toda a vida de Mozart e muitos pontos ficam latentes no filme não apenas no comportamento, mas também na obra do músico. Salieri reconhece a qualidade de suas obras, lembrando que aqui este personagem é encarado como a personificação da corte, porém isso não é suficiente para que Mozart deixe de ser um mero serviçal. Sua socialização teve o intuito de formar um músico de acordo com os padrões tradicionais, daí a dificuldade de seu pai aceitar a decisão de deixar a corte de Strasburgo, e em relação à sua obra, a complexidade das músicas de Mozart formava um estilo que não agradavam seu público-alvo. Muitas vezes isso é apresentado no filme quando Mozart é criticado por um suposto excesso de notas em sua música. No livro o sociólogo enfatiza que o sucesso só faria sentido para o músico se vindo da nobreza de Viena, talvez por isso o personagem do filme critique tanto a Itália e seus músicos, mas o paradoxo é que para atingir seu alvo Mozart teria que alterar seu estilo musical, simplificando obras que considerava perfeitas.

A ópera “Figaro” adaptada por Mozart e considerada por ele – no filme – a melhor já escrita mostra o conflito entre uma nobreza já fraca, porém ainda poderosa, e uma burguesia ainda fraca, que aos poucos ganhava espaço, mas ainda não tinha poder para impor seus padrões. A obra foi considerada um fracasso por não ter agradado a corte, novamente por alegação de complexidade, mas na verdade o campo musical que agradaria a nobreza é que diferia do campo que agradava a burguesia. Conforme a indicação do amigo de Mozart, se a obra “Don Giovanni” fosse apresentada para as classes populares faria sucesso, porém não o sucesso que seu autor considerava consagrador. O ponto mais claro da diferença entre o gosto musical da nobreza e da burguesia é notado quando o diretor do filme mostra a família Mozart assistindo a um vaudeville. O filho do músico gosta, já que sendo ainda criança não tem seu habitus consolidado e é socializado em meio àquele tipo de música, mas posteriormente ao falar sobre uma obra do mesmo estilo a Salieri (sociedade de corte) Mozart se refere pejorativamente, dizendo que não era tão bom por ser apenas um vaudeville.

Ao compor “A flauta mágica” Mozart sabia que nunca agradaria a nobreza, mas sim as classes mais populares. O empenho na composição que foi retratado no filme, em parte pelo dinheiro que proporcionaria, e a satisfação do compositor em executar a obra refletem bem a frase citada por Elias: “Você sabe muito bem que os melhores e mais verdadeiros amigos são os pobres. A riqueza não sabe o que significa amizade.” Em “A flauta mágica” o músico utiliza a linguagem popular – sem se preocupar com a dúvida da corte em fazer uma ópera em italiano ou alemão – e fala do amor, ou seja, do tema que tanto insistiu diante da nobreza, que sempre o viu com desdém, chegando a falar sobre viver como um príncipe sem pensar e definindo a sabedoria com a frase “uma mulher é muito melhor que vinho”, bebida muito associada aos nobres, aos quais seriam impensáveis tais referências em uma ópera.

Educado desde pequeno exclusivamente pelo pai e com o intuito de servir à nobreza, Mozart não poderia encontrar a consagração de outra forma, a não ser através do reconhecimento da classe a quem ele pretendia agradar. A loucura, que no filme Salieri desenvolveu em Mozart através do fantasma do pai, não é outra se não a que a sociedade de corte impôs ao músico, recusando-se a reconhecer sua obra e impondo-lhe indiretamente a composição de seu próprio réquiem.

Apesar das pesquisas de Bourdieu terem sido feitas ao longo do século XX podemos notar como algumas semelhanças podem ser traçadas com a época de Mozart, principalmente em relação ao habitus e a socialização. Mesmo a ascensão social, que hoje é mais comum em nossa sociedade, tem suas raízes naquela época, por isso notamos o peso do capital social, muitas vezes decisivo na manutenção ou alteração do status social do indivíduo, semelhante à vida de Mozart.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Como água para chocolate

Laura Esquivel lançou seu romance em 1989 e a própria escritora adaptou a obra para o roteiro do longa dirigido por Alfonso Arau. Desta forma o filme fica mais fiel ao livro, o que neste caso é bastante importante devido ao contexto da obra.

Entre os consagrados escritores latino-americanos vemos o reflexo do machismo histórico que faz predominar o destaque dos homens. Esquivel destaca-se como uma das poucas mulheres escritoras e o próprio romance em questão lança um olhar feminino com predominância de mulheres como personagens, que através do realismo fantástico da obra mostram diversos papéis das mulheres ao longo do enredo.

Da narradora à protagonista acompanhamos quatro gerações da família de Tita (Lumi Cavazos), e se por um lado o eixo da obra é a cozinha – local tradicionalmente relegado às mulheres e onde a personagem demonstra todo seu talento formado desde a infância, que culmina em receitas por vezes com efeitos mágicos – por outro as personagens mantêm distância da dominação masculina. A submissão gira em torno da matriarca, mamãe Elena (Regina Torné), que preza pela manutenção das tradições e da aparência de uma família sem problemas.

No livro é dada maior importância para a Revolução Mexicana, ocorrida no início do século XX, pois no filme apenas algumas cenas fazem menção ao período. O enredo conta com a personagem Gertrudis (Claudette Maillé), uma das filhas de Elena que, com a contribuição involuntária de uma das receitas de Tita, abandona o rancho da família e chega a ser general da guerrilha. De fato as mulheres tiveram destaque pelo envolvimento na causa zapatista e muitas famílias contribuíam com o exército revolucionário de forma voluntária. Como não poderia deixar de ser, dadas as características da personagem, mamãe Elena oferece resistência à revolução, que sob a ótica da matriarca foi reduzida e exposta como algo perigoso – para o tradicionalismo reacionário, de fato foi.

Para Tita o que importava mais que qualquer revolução, era seu amor por Pedro (Marco Leonardi) que desde sua adolescência foi proibido pela tradição de que a filha mais nova de uma família deverá cuidar exclusivamente de sua mãe. A partir da proibição a menina, que aprendeu a cozinhar desde criança com a criada Nacha (Ada Carrasco), teve toda a vida marcada por encontros e desencontros, não apenas com Pedro, mas com os sentimentos que o amor propicia. No livro, ao longo da história de amor, a autora flerta o tempo todo com o senso comum, mas o final sempre inusitado dos acontecimentos surpreende positivamente, refinando a obra.

A transição para a linguagem cinematográfica resultou em um bom trabalho, reorganizando alguns episódios do romance e apresentando em ordem mais simplificada. O diretor explorou ainda os recursos visuais para dar mais valor às sensações provocadas pelas receitas preparadas, e a trilha sonora para expor alguns sentimentos que no livro são bem detalhados. Infelizmente em algumas cenas esses mesmos recursos beiram o dramalhão mexicano que marcam algumas produções televisivas do país, mas não chegam a comprometer o conjunto final.

Mais que uma história de amor conflituosa tanto o livro quanto o filme nos fornecem elementos sobre a história do México, tradições familiares e muitos traços culturais, principalmente pelas receitas que dão água na boca. Além de encantar instiga qualquer um a provar as tortas de natal, as codornas em pétalas de rosa, os chilis nogados, etc.

 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Bem Amado

Guel Arraes apresenta sua versão para a obra de Dias Gomes quase quarenta anos após o lançamento da telenovela e trinta depois da série. Marco Nanini substitui Paulo Gracindo com muita competência na interpretação do político Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia Sucupira pouco antes do golpe militar que culminou nos vinte anos de ditadura no Brasil.

Evidentemente muita coisa mudou no cenário político do país, afinal ainda que alguns tentem indicar um suposto milagre econômico da referida época, o fato é que a economia crescia no mesmo ritmo da dívida externa, cujos desdobramentos, leiam-se arrocho da população para pagar juros aos credores, são sentidos até hoje. Porém é bastante preocupante pensarmos que algumas características do político caricaturado eram vistas como bem próximas da realidade quando retratadas por Dias Gomes e permanecem bem pertinentes até hoje.

Odorico é a figura imponente, de fala difícil, postura de superioridade e ao mesmo tempo promessas acolhedoras, seduzindo os eleitores com a falsa imagem de homem preparado e competente. Para isso conta com o despreparo do eleitor que não percebe as promessas mirabolantes e o discurso vazio por trás das palavras desconhecidas. As obras superfaturadas e as falcatruas protagonizadas pelo prefeito chegam a sofrer resistência de seu secretário, Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele), porém a hierarquia o faz aceitar as ordens do político corrupto sem criar empecilhos.

O tom de comédia do filme, que vai desde a referência à surdez de Beethoven até expressões populares como “tauba de pirulito” nos faz lembrar que a comédia é utilizada para criticar a política desde a Grécia antiga, criadora do termo, oriundo das Pólis, e de obras teatrais encenadas até hoje, muitas vezes satirizando os políticos. O que torna curioso ver que para as eleições os programas de humor são proibidos por lei de fazer comédia com os candidatos – ainda que candidatos possam aparecer vestidos de palhaço alegando não saber o que faz um político que exerce o cargo pretendido.

Um elemento inovador na obra de Arraes em relação às que a inspiraram é a presença de um opositor supostamente de esquerda, mas que aos poucos também mostra o lado corrupto de quem almeja o poder, mais que o bem da população. Tonico Pereira faz o papel de Vladmir (a origem russa do nome não é obra do acaso, mas representa a URSS que na época protagonizava a guerra fria), dono do jornal de oposição que trabalha com o fotógrafo Neco (Caio Blat), que assim como o secretário do prefeito, tenta apresentar um pouco de lucidez ao superior diante das práticas condenáveis do mesmo, porém sempre esbarra na inferioridade de seu cargo.

Se a arte imita a vida o lado político não nos deixa muito animados, afinal reconhecemos em meio aos diálogos muito bem escritos do filme muitas situações verossímeis de corrupção, disputas políticas que beiram o ridículo, políticos despreparados, escândalos das mais diversas ordens e tantos outros exemplos. O que resta é torcer para que em um ponto específico do filme a vida imite a arte: quando economicamente a população é nivelada por baixo, com a grande massa ganhando quando muito o suficiente para sobreviver, mais eficiente que se vangloriar por pequenas ascensões e definições de nova classe média, escorraçando classes pouco mais baixas para se sentir próximo dos mais ricos, seria perceber que opressão sofrida pode ser derrubada através da união, para que o ganho real venha para todos ao invés de poucas migalhas para alguns.

Muito bom o equilíbrio entre a comédia e o espaço que proporciona à reflexão sobre o comportamento dos políticos.

* Recentemente uma liminar passou a permitir que os programas humorísticos façam sátiras aos candidatos, isso depois de treze anos da criação da lei que os proibia!


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Reflexões de um Liquidificador

O diretor André Klotzel inovou neste seu trabalho mais recente do começo ao fim, pois desde o roteiro, de José Antônio de Souza, até a forma de lançamento do filme, contamos com diversas surpresas.

Diferente do sistema tradicional de lançamento nas salas de cinema, muitas vezes cruel, cuja permanência do filme é totalmente subordinada à quantidade de público dos primeiros dias, este longa estreou por um período pré-determinado e exibe uma sessão de curta metragem além de, em alguns horários, uma apresentação de stand up comedy antes do filme.

O fio condutor do enredo é o casal de idosos, Elvira (Ana Lucia Torre) e Onofre (Germano Haiut), que depois de fechar a pequena lanchonete não puderam desfrutar dos prazeres que a aposentadoria deveria proporcionar, pois para conseguir alguma renda Onofre começou a trabalhar como vigia noturno e Elvira recuperou o antigo ofício de empalham animais. No meio de tudo isso há o velho liquidificador, que depois de uma troca de peças ganhou consciência, desenvolvida até o ponto de falar com Elvira (dublado por Selton Mello). Temos a mesma sensação das tirinhas de Calvin e Haroldo, criadas por Bill Watterson, ou seja, aceitar que uma pessoa está falando e interagindo com um ser inanimado ou tentar perceber que todas as situações podem ser explicadas racionalmente, com o objeto sem vida servindo apenas de apoio para uma mente criativa?

No desenrolar da história cenas do passado são usadas para explicar o presente, ou seja, o desaparecimento misterioso de Onofre, do qual Elvira passa a ser suspeita. Entra em cena o investigador Fuinha (Aramis Trindade, que em meio ao grande elenco consegue se destacar pela ótima atuação) e apesar do mistério não ser o foco do filme, sendo toda trama logo revelada e restando apenas esperarmos pelo desfecho da investigação, as cenas contribuem muito para o humor do filme.

Nas entrelinhas de estilos, que passam pela comédia, terror, suspense e alguns outros, ainda há espaço para questões mais profundas. O liquidificador é velho, o casal de terceira idade mora em uma casa velha, com móveis velhos, em um bairro antigo e todo o filme tem poucos elementos novos, com algumas citações que nos fazem pensar no fim de determinados ciclos, por exemplo, quando o liquidificador diz que “servimos enquanto estamos bons, somos trocados quando a máquina estraga”. Porém os objetos da casa mostram o contrário, já que a torneira pinga mas não é trocada e o relógio funciona arbitrariamente mas continua na cozinha. Uma metáfora contrária à ideia do eletrodoméstico é indicada quando o carteiro (Marcos Cesana, que faleceu poucos meses antes da estreia do filme) leva o gato morto de sua mãe para ser empalhado por Elvira, ou seja, indica o prolongamento da vida a qualquer custo, ainda que simbolicamente.

Diferente de máquinas e de animais de estimação como seria encarado o ciclo de vida dos seres humanos? Os idosos seriam tratados como uma máquina cujo funcionamento está comprometido, por isso podem ser trocados ou a tendência é que eles existam sem conteúdo tal qual um gato empalhado? Elvira mostra a terceira alternativa trazendo um elemento novo em meio a tantas referências senis e, agindo juntamente com o liquidificador, que aprende definições de sentimentos e objetos tal qual o monstro criado por Frankenstein de Mary Shelley, mostra que os sentimentos da terceira idade também existem e devem ser respeitados.

Apesar do mistério não ser o ponto alto do trabalho, como já citado, vale a pena não entrar em detalhes do enredo para guardar algumas surpresas, mesmo assim é impossível deixar de citar a ótima utilização de técnicas cinematográficas por parte de Klotzel, capaz de transformar cenas com potencial de grandes filmes de terror parecerem leves e arrancando risos soltos da platéia graças a inserção da música ideal e da construção do clima de comédia ao longo do filme.

O filme fica em cartaz no Espaço Unibanco pelo menos até o dia 6 de outubro, porém seria muito bom que além disso fosse disseminado por mais salas pelo país.


terça-feira, 10 de agosto de 2010

O nome da rosa - Der name der rose

O enredo do filme de Jean-Jacques Annaud, baseado no livro homônimo de Umberto Eco, é ideal para os que gostam de histórias de detetive, por seguir a técnica tão bem desenvolvida por nomes como Edgar Alan Poe e Sir Arthur Conan Doyle. A diferença é que aqui os crimes ocorrem em 1327 e o cenário é um mosteiro italiano.

Semelhante a Auguste Dupin de Poe ou o mais conhecido Sherlock Holmes de Conan Doyle, Sean Connery interpreta o franciscano William de Baskerville, auxiliado por Adso Von Melk, interpretado por Christian Slater. A dupla chega ao mosteiro a princípio para um conclave, mas se deparam com uma série de assassinatos, que muitos monges atribuem ao demônio. Ao longo do filme fica polarizada a rivalidade entre a razão, utilizada por William para tentar desvendar quem é o assassino, e a fé, também utilizada e manipulada pelo assassino – que não será citado aqui para não estragar a surpresa de ninguém – para que todos acreditem que as mortes em série sejam obra do demônio, lembrando que a história se passa no século XIV, quando a igreja católica utilizava a inquisição para queimar supostos feiticeiros.

Além dos detetives que guiam a trama como em vários outros filmes, tem outro ponto extremamente contemporâneo na obra que faz a ligação entre o mosteiro e a época atual, apesar dos sete séculos de diferença. A característica tão marcante no período medieval e que, evidentemente com outras formas, perdura até hoje é o controle de informação. Sempre relacionado ao poder, o saber nas mãos de poucos permite a manipulação de muitos, por isso sempre foi de interesse dos poderosos restringir o acesso a vários tipos de informação.

Evidentemente era muito mais fácil controlar a informação há sete séculos, antes da imprensa, com os livros copiados manualmente, a grande maioria da população analfabeta e crente nos castigos divinos. Porém a tentativa de manter a população pouco instruída ainda é bastante frequente através de medidas que podem ser extremamente diretas ou mais sutis, com resultado em longo prazo. Os governos podem aplicar censura aos meios de comunicação, como infelizmente presenciamos cotidianamente, ou sucatear a educação da população para que aos poucos o senso crítico de cada um seja minimizado. É triste notar que os brasileiros conhecem as duas técnicas muito bem.

Historicamente a busca pelo conhecimento sempre ofereceu resistência ao controle de informações, que muitas vezes tem até o efeito contrário de instigar a vontade de saber, como muito bem trabalhado por Michel Foucault na obra “História da sexualidade”. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a internet pulverizando informações em tempo real o trabalho dos que se empenham em barrar o conhecimento é mais difícil, mas ainda assim avançam as tentativas de bloqueios de sites e controle de acessos, pouco diferente dos monges da idade média que trancavam bibliotecas e envenenavam páginas de livros para matar quem se atrevesse a tentar lê-los.

Existe a falsa desculpa de que alguns conteúdos são impróprios para determinados ambientes ou para algumas idades. Digo falsa, pois ainda que de fato sejam, a tentativa arcaica de interdição ao acesso está longe de ser a melhor opção – exatamente por instigar a vontade de saber, citada acima. Certa vez presenciei um pai queixando-se de que a filha adolescente começava a dar trabalho por querer ler livros inadequados para sua idade, que ele proibia, e ao ser orientado de que este procedimento só poderia fazer com que a garota buscasse o conteúdo por outras formas e que o ideal seria ler os livros e discutir seu conteúdo abertamente com a filha, o pai negou alegando não ter tempo para ler. Este é o comportamento típico da igreja de sete séculos atrás, ou seja, recorrer à interdição e à punição – em caso de desobediência – ao invés de reconhecer os benefícios de pessoas instruídas trabalhando em conjunto.

Uma boa pedida para os fãs de cinema, com enredo atrativo, ótimas interpretações, belas fotografias, mas que acaba nos obrigando a baixar a cabeça e assumir que, apesar do fim da inquisição, a busca pelo controle cego de informações continua bastante presente, tal qual há muitos séculos.


O filme é de 1986, eu não encontrei nenhum trailer legendado.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Mary & Max - Uma amizade diferente

Há pouco tempo atrás os desenhos animados eram quase exclusivamente voltados para as crianças e raramente algum longa de animação era lançado com destaque, conseguindo uma bilheteria modesta. Atualmente os estúdios de animação criam produções milionárias e a quantidade de filmes lançados já proporciona fragmentação do setor com produções voltadas para públicos específicos, não apenas crianças em geral.

Na contramão dos lançamentos recentes, cada vez mais sofisticados e com efeitos visuais que buscam a perfeição, o australiano Adam Elliot lança Mary e Max. O longa utiliza bonecos de massinha e a técnica de stop-motion para retratar a inusitada amizade entre o nova-iorquino Max, que com 44 anos vive em seu mundo preto e branco, e a pequena australiana Mary, que por acaso envia uma carta de seu mundo em tons pastéis com suas dúvidas infantis ao americano. A partir daí começam uma amizade que dura mais de dez anos através de cartas que, de maneira muito simples, abordam assuntos bastante complexos. É um filme com muito conteúdo, formas muito bem trabalhadas e definitivamente não é voltado apenas às crianças.

Apesar dos 36 anos de diferença os dois protagonistas têm muito em comum e com o pouco que vemos da infância de Max podemos concluir que, não fosse a amizade criada, Mary provavelmente se tornaria uma adulta solitária e um tanto rabugenta, seguindo os passos de seu amigo, cuja solidão talvez pudesse ser justificada por um distúrbio. Aos poucos ambos trocam presentes, dúvidas e conselhos (por mais inusitado que possa parecer o adulto pede conselhos à menina), sendo as correspondências tão abrangentes que é praticamente impossível não nos reconhecermos em algumas situações.

Uma das tantas lições que podem ser aprendidas com os bonecos de massinha é que quanto mais nos trancamos em nós mesmos, mais exigentes ficamos em relação aos outros e menor a tolerância diante das atitudes tomadas por outras pessoas. A solidão que acompanha Max há mais de quatro décadas o torna incapaz de expressar sentimentos de forma cotidiana, sem que uma simples carta seja acompanhada de angústia e apreensão. Da mesma forma, o homem que não consegue chorar acaba substituindo as lágrimas por crises de pânico quando seus traumas são reavivados pelas queixas da garotinha, que sofre na escola com os mesmos problemas pelos quais Max já havia passado. Apesar de a solidão incomodar, o hábito de não ter ninguém que se contraponha às suas ideias faz com que Max afaste-se cada vez mais das pessoas, criando uma bola de neve; quanto mais isolado mais intolerante, o que acaba afastando as pessoas que o deixam ainda mais solitário.

Além disso, notamos outra importante característica em comum aos dois amigos: são extremamente sonhadores, com devaneios que variam entre os mais banais aos mais utópicos. O diferencial do filme é que, ao contrário da maioria, não mostra os protagonistas realizando seus sonhos e obtendo a felicidade esperada; tão pouco mostra as frustrações por não ter os sonhos realizados. A opção do diretor foi mostrar como as realizações também podem ser extremamente frustrantes, como muitas vezes verificamos em nossas vidas. Ao criarmos uma meta idealizamos tudo de forma perfeita e nos apoiamos em nossas convicções na esperança de que ao concluirmos nossos planos tudo será perfeito. Porém na prática os sonhos, quando vêm, trazem decepções inesperadas, que muitas vezes sufocam o prazer de quem não está disposto a abrir mão da perfeição idealizada, e para piorar ainda mais, é no sonho que algumas pessoas baseiam suas vidas, portanto uma vez realizado o sonho elas deparam-se com a situação inusitada de não ter de imediato pelo que viver. A princípio pode parecer estranho e incoerente, mas para algumas pessoas pode ser assustadoramente real.

O filme, multifacetado, não mostra apenas desilusões e tristeza. Os detalhes em vermelho vivo que quebram a monotonia das cores sóbrias, a trilha sonora que embala fatos que para uma menina de oito anos são verdadeiras aventuras, algumas trapalhadas que só são possíveis em animações e muitos outros pontos mantêm o elemento de comédia presente na maioria dos filmes deste gênero. Uma ótima mistura de humor e drama. Imperdível para quem gosta e para quem não gosta de animações!


terça-feira, 20 de julho de 2010

Uma noite em 67

Renato Terra e Ricardo Calil dirigem o documentário que nos leva para a noite de 21 de outubro de 1967. Época da televisão sem cores e sem o domínio das novelas e patrocinadores. Os grandes festivais eram o ponto forte da TV Record, que ainda não tinha nenhum vínculo com a igreja e diferente dos concursos de talentos promovidos atualmente, visava conquistar o público pelo conteúdo das atrações, mais que por exibições de quem busca os quinze minutos de fama.

Deste celeiro de talentos temos desde nomes mais que populares como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, até músicos igualmente competentes, apesar de não tão famosos. O filme é uma ótima oportunidade para lembrar – ou conhecer – aqueles que se tornaram ícones da música brasileira, os criadores do tropicalismo e, um ponto não muito explorado por não ser o objetivo do documentário, pessoas que usaram sua arte para expressar o engajamento político que os colocava contra a ditadura de um período bastante conturbado do país.

Após ver o filme fiquei instigado a procurar as letras e lê-las com mais atenção – principalmente depois de ver que Caetano e Chico não se lembram das letras inteiras, não preciso me envergonhar por não me lembrar de todas. É interessante o fato de em uma única noite terem sido apresentadas tantas canções que marcam até hoje a carreira dos compositores, e como deve ter sido difícil o trabalho dos jurados para hierarquizar os trabalhos até chegarem a uma única música vencedora (Ponteiro, de Edu Lobo). Apesar da letra não ser a única análise dos jurados, o equilíbrio era mantido em todos os aspectos com a inovação de ritmos, a mistura de Gilberto Gil com os Mutantes, Chico Buarque com o MPB-4, Caetano Veloso e Beat Boys e a parceria de Edu Lobo e Marília Medalha com o Quarteto Novo.

Em tempos de “Créu”, “Rebolation” e afins, é inevitável lançar um olhar saudosista sobre aquela época. É evidente que a qualidade da música pode ser encarada como fator subjetivo e que obras com letras fúteis foram lançadas inclusive ao longo do período dos festivais, não sendo lembradas hoje por terem sido suprimidas pelas obras primas, cantadas até hoje, mesmo contra a vontade de alguns dos interpretes.

O que acaba chamando muita atenção no filme são os depoimentos nos quais os músicos dizem não sentir saudades daquela época, sendo este sentimento referente apenas ao vigor da juventude. A princípio isso seria quase impensável, por se tratar de um evento com participação popular tão efusiva e que até hoje praticamente não recebe críticas negativas, entretanto não é demais lembrar que apesar da ênfase do filme não ser o período conturbado pelo qual o país passava, a ditadura militar – quando excluído o romantismo da luta contra o opressor, que muitas vezes seduz alguns jovens a dizer que prefeririam ter vivido naquela época do que na apatia atual – foi muito duro aos que estiveram dispostos a utilizar sua arte como resistência. Muitos daqueles jovens músicos foram presos e exilados por militares que permaneceram impunes no decorrer da história.

Os diretores retrataram uma única noite de nossa história. O resultado é pontual e apesar do período curtíssimo, a importância é enorme para nossa cultura, que até hoje colhe frutos do tropicalismo e os benefícios de ter artistas engajados, que expandem as fronteiras da arte para além do entretenimento.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Boleiros – Era uma vez o futebol

Ainda em clima de Copa do Mundo resgato este longa de Ugo Giorgetti, lançado em 1998 e que retrata diversos estereótipos do futebol como o juiz subornado, bastidores de um clássico, cobranças da torcida, pensões que jogadores devem pagar para os filhos não planejados, etc. Tudo contado por velhos boleiros em uma mesa de bar, muitas vezes com clima saudosista do tempo em que o futebol não era tão assediado pelos homens de negócios.

A atuação dos coadjuvantes muitas vezes é ruim ao ponto de incomodar quem assiste, mas esse fato é compensado pelas histórias – engraçadas ou comoventes – e pela possibilidade de matarmos a saudade de Rogério Cardoso, interpretando um ex-árbitro e de Flávio Migliaccio, que dá um banho de interpretação com o fictício ex-craque Naldinho. Mais que as histórias apresentadas no filme, bastante claras e retomando pontos importantes do futebol, cabe aqui aproveitar o espaço que o filme abre para uma análise do futebol e sua força na sociedade, já que a estimativa foi de três bilhões de espectadores durante a última copa – cerca de 50% da população mundial.

Para o sociólogo alemão Norbert Elias, a sociedade canalizou para os esportes a atenção que antes era despendida às guerras. Sem entrar em pormenores da obra de Elias, podemos imaginar, ou pior, lembrar do que significa a metade dos seres humanos vivendo um ambiente de guerra, como em 1942 e 1946, quando a Copa não ocorreu devido à II Guerra. Não dá para dizer que não temos guerras devido ao futebol, tão pouco que os esportes são necessários para que as guerras não aconteçam, já que a prevenção destas na atualidade se dá por maturidade política e responsabilidade com a sociedade, ao invés da economia. Porém nem toda guerra tem o atual caráter de dominação, como mostrou Florestan Fernandes em seu estudo sobre a tribo dos Jês, onde a guerra não tinha a intenção de matar e dominar o próximo, mas fazia parte do cotidiano, quase como uma atividade lúdica. Sendo assim a atividade esportiva é fundamental, sendo o futebol a prática majoritária, que poderia ser substituída por qualquer outra modalidade – seriam mantidas as características positivas e negativas, as polêmicas, os estereótipos etc.

Em um evento como a Copa muitas divergências vêm à tona, e a grande maioria de forma recorrente ao longo de cada edição. Na mesma proporção que o patriotismo, que aflora durante um mês a cada quatro anos, aparece a indignação com a atenção dedicada a um evento supostamente sem utilidade prática. Mais que opiniões certas e erradas, chama a atenção o fato do futebol, apesar de estar no centro da discussão, ser coadjuvante para os argumentos. Que a alienação de grande parte da população existe, é inegável, mas acreditar que a Copa do Mundo, ou mesmo o futebol como um todo, seja protagonista deste fato é no mínimo inocente. No país do carnaval, o que nos diferencia das outras nações que idolatram o futebol é a recorrência de temas únicos que param o país. Emendando sucessivas datas supostamente importantes para que o povo esqueça temporariamente os problemas, agentes detentores do poder conseguem, de forma muito competente, adiar eternamente qualquer manifestação social contra absurdos políticos tão recorrentes, sendo o futebol apenas uma das ferramentas utilizadas, cuja a ausência pode ser substituída até pela notoriedade de crimes bárbaros.

Com tudo isso, o melhor a fazer diante da grandeza que se tornou uma partida de futebol é reconhecer o valor do espetáculo, capaz de entreter, divertir e gerar ótimas histórias de boteco, como podemos ver em Boleiros. Todavia a sociedade não se restringe aos campeonatos e para evitar que problemas tomem o lugar do lazer, inclusive no mundo do futebol, como apresentado em algumas histórias do filme, é indispensável que os horizontes sejam ampliados para além dos gramados, que têm papel importante, mas não central.

Não encontrei o trailer no Youtube (o que para mim é um grande absurdo), então segue um trechinho da primeira história.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Quincas Berro D´água

Sérgio Machado apresenta sua adaptação à novela “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, de Jorge Amado, trazendo mais que uma comédia, pois mantém a tradicional descrição dos cenários baianos, tão característicos nos romances do escritor, e explora muito bem problemas sociais e a relação familiar do mais que finado Quincas.

O senhor Joaquim Soares da Cunha era funcionário público, tinha mulher e uma filha, Vanda (Mariana Ximenes). O salário satisfatório proveniente da repartição e a família estável davam ideia de uma vida perfeita, entretanto faltava-lhe algo; não suportava a rotina de ter que aguentar padrões de comportamento, de aparências e fingir que o relacionamento com sua mulher era perfeito. Ao romper com o estilo burocrático de vida e aproximar-se da vida boêmia de Salvador tornou-se Quincas, posteriormente Berro Dágua, e consequentemente rompeu os laços com a família que passou a renegá-lo.

As novas amizades de Quincas refletem a herança de uma sociedade com bases escravocratas. Não tão evidente no livro, Sergio Machado deixa bastante clara a diferença entre a família, que não chega a ser rica, mas vive sustentando aparências baseadas no que almeja, e os novos amigos, vistos como inferiores e formando a escória da sociedade. Provavelmente o que mais dói para a filha não é apenas o fato do pai ter se aproximado dos descendentes de escravos, que vivem em bares e bordéis, mas também o fato dessas pessoas proporcionarem ao pai um bem-estar maior que a família, e o ambiente de farra proporcionando maior satisfação que o emprego público que é tradicionalmente supervalorizado.
.
O que a princípio seria apenas uma comédia nos faz pensar como a felicidade é uma busca ininterrupta em nossa sociedade, porém poucos aceitam que cada um tenha sua própria ideia sobre o que é ser feliz. A família nunca negaria que Joaquim Soares da Cunha buscasse a felicidade, desde que a encontrasse na sociedade de aparências que mãe e filha (jararacas, segundo Quincas) impunham, não em bares, bebendo com os amigos e transformando-se em uma lenda entre boêmios – que no filme se restringe a poucos personagens, mas no livro Jorge Amado mostra maior abrangência da importância de Quincas Berro Dágua. Se a história em si é característica de ficção, seu conteúdo se aproxima muito da realidade, principalmente no livro, no qual as peripécias dos amigos com o cadáver são restritas a poucas páginas e a ênfase está no conflito das duas classes em questão. Não é necessária uma grande busca para encontrarmos exemplos que dão corpo à imposição de comportamento entre as pessoas, formando relações tensas nas quais o que um espera do outro extrapola os limites da individualidade. Ou seja, não basta que o outro seja feliz, mas deve ser feliz a minha própria maneira. Parece absurdo, mas não é tão incomum.
.
Sergio Machado transpôs muito bem a obra para a linguagem cinematográfica, explorando os recursos visuais para expor as imagens que Jorge Amado descrevia tão bem em suas obras, divulgado a Bahia de forma brilhante. Paulo José interpreta Quincas e consegue destaque mesmo no papel de morto; notamos em seu semblante o sorriso discreto e debochado ao qual o escritor se refere e sua narração dá apoio à algumas partes do filme.
.
Entre livro e filme, o recomendado é conferir os dois! Cada um com sua particularidade, extraindo o melhor que o tipo de linguagem tem a oferecer. Dá para dizer que o filme complementa a obra original com a construção da imagem, explorando as nuances das expressões faciais, das vestimentas, de cada personagem em seu contexto com o cenário e principalmente através do monólogo final. Sem estragar eventuais surpresas o texto, ausente no livro, resume muito bem a essência da vida de Quincas, com a metáfora que aproxima a imensidão do oceano e os enigmas da morte.
.
Não bastassem todas essas abordagens mais profundas, temos ainda o lado cômico garantido pelo grande elenco que traz o lado despojado de grande parte da sociedade baiana, que supera as dificuldades e adversidades com muito bom humor.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Samsara

Este belo filme nos mostra o deserto de Ladakh, na Índia. Rodeado por montanhas, o lugar proporcionou uma fotografia impecável ao longa de Nalin Pan, com algumas cenas lembrando o filme Camelos também choram, já comentado neste blog. Em meio a paisagens onde não podemos ver uma única árvore até onde a vista alcança está localizado o mosteiro Samsara, no qual monges budistas seguem suas vidas entregues à devoção religiosa. Muitos são deixados entre os monges ainda pequenos, com cinco ou seis anos, como o protagonista Tashi (Shawn Ku).

Após passar toda a infância e adolescência no mosteiro, para cumprir um ritual, Tashi passou três anos, três meses e três dias meditando – antes de pensarmos que são coisas de cinema, monges budistas garantem que isso é possível – e é resgatado pelos amigos muito magro, pálido, com cabelos e unhas imensos, levando certo tempo para sair o estado de letargia provocado por tanto tempo imóvel. Logo notamos um ponto muito bem trabalhado pelo diretor que são os sutis cortes de cenas para demonstrar a passagem do tempo. O comprimento dos cabelos, alguns detalhes do cenário ou algumas deixas nas falas substituem os dispensáveis “tantos meses depois”.

Readaptado ao cotidiano Tashi estaria pronto para seguir sua vida religiosa, mas quanto os instintos podem influenciar sobre a razão? O jovem monge começa a ser atormentado por sonhos eróticos e as ereções noturnas denunciam isto aos demais; para piorar ele se depara pela primeira vez com o seio nu de uma mãe prestes a amamentar, que mexe com seus sentimentos; depara-se com a bela Pema (Christy Chung); e certa noite tem uma polução. Quando um monge superior o questiona sobre seus desejos Tashi chega à conclusão que até mesmo o Príncipe Siddhartha Gautama, Buda, viveu quase trinta anos longe da clausura, e com este forte argumento optou por deixar Samsara.

Aqui aparece a primeira clivagem que o filme indica. Tashi toma um banho no rio, uma espécie de passagem que indica o abandono da vida voltada totalmente para a espiritualidade e o ingresso na vida mundana. Ao encontrar acidentalmente com Pema o casal proporciona a cena de sexo em que o diretor age de maneira brilhante, cortando as cenas de forma a oscilar a posição dos atores, virando o mundo de cabeça para baixo e fazendo com que ambos levitem em meio ao prazer. Mesclando sensualidade e delicadeza Nalin Pan faz a tomada perfeita, livre de vulgaridade e explorando os sentimentos provenientes de vários sentidos.

Entretanto nem tudo são flores na vida do jovem indiano. No pequeno vilarejo em que agricultores vendem a colheita para sobreviver Tashi se depara com sentimentos como inveja, tentações, ciúmes, etc. Ao tentar melhorar as condições de vida local, vendendo a colheita diretamente ao invés do tradicional intermediário, que pagava pouco e roubava ao fazer a pesagem do trigo, notamos mais uma clivagem. Aqui mais uma vez o longa se aproxima de Camelos também choram, pois em ambos os representantes de uma pequena e isolada vila vai até a cidade e notamos a discrepância dos estilos de vida. Aqui notamos que é uma história contemporânea devido à placa anunciando “Internet, acesse o mundo daqui”, mesmo em uma cidade do interior da Índia, bem diferente de uma metrópole. O sogro de Tashi abandona as vestimentas habituais, trocando-as por boné, óculos escuros, jaqueta, etc. e para as crianças trazem brinquedos industrializados, criticados por Pema, pois as crianças sempre fizeram seus próprios brinquedos.

A vida mundana de Tashi é atormentada por notícias de seu mestre, Apo (Sherab Sangey), que está muito doente. A estima pela vida religiosa que teve durante a infância e adolescência deixa o agora pai de família dividido. Traria mais satisfação abandonar a família e voltar ao monastério, ou abrir mão da vida espiritual a qual se dedicou desde os seis anos?

Em meio à grande dúvida particular surge com muita força a presença de Pema. Até então as escolhas de Tashi haviam sido individualistas, agora a esposa exerce sua influência, a responsabilidade de uma vida a dois e lembra que a história machista dos homens minimiza a importância de Yashodhara, esposa do Príncipe Siddhartha, antes deste se tornar Buda. Em um belo monólogo Pema lembra que Siddhartha é lembrado por abandonar uma vida de riquezas para vivenciar as mazelas do mundo, mas poucos pensam que abandonou também sua esposa e seu filho Rahul. A história menospreza a influência de Yashodhara colocando, como sempre, os méritos para os homens e relegando o ostracismo às mulheres.

Para saber se Tashi seguiu os passos de Buda deixando a família em prol da vida religiosa ou se ficou ao lado da esposa e filho é necessário ver o filme, que no final revela o enigma “como fazer com que uma gota d’água jamais seque”.


Só encontrei o trailer legendado em francês, mas não é difícil encontrar o filme em português.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O banheiro do Papa (El baño del Papa)

A parceria entre Brasil, França e Uruguai nos trouxe essa obra dirigida por Enrique Fernandez e Cesar Charlone, que mostram a fictícia visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, no Uruguai. O evento mexe com o cotidiano pacato dos pobre habitantes locais que costumam ter hábitos simples e uma rotina pouco chamativa.

A fonte de renda mais comum é a dos bagageiros que viajam até Aceguá, no Brasil, para contrabandear mercadorias para consumo local. A grande maioria deles fazem a longa viagem de bicicleta, sendo que poucos afortunados podem contar com uma motocicleta para, além de facilitar o trabalho, aumentar a renda devido a maior rapidez do serviço. A grande dificuldade dos bagageiros está na barreira montada na estrada pelo exército, para controlar o fluxo de mercadorias, obrigando um desvio no trajeto que já não é curto. Quando parados pelos militares, podemos ver os bagageiros humilhados pelos soldados, menosprezando seus serviços, vangloriando o exército e mostrando o legalismo exacerbado ao deixar claro que poderiam passar sem problemas pelas trilhas, mas não pela estrada, onde o exército é solicitado para fazer vigia. O problema pelas trilhas é o que seria o “rapa” local, que também confisca mercadorias.

Quando a visita do Papa se aproxima, os habitantes com forte tradição religiosa não ficam felizes pela oportunidade de serem abençoados pelo pontífice, mas pelos turistas brasileiros que o evento traria. A maioria dos habitantes sacrificaram todas as economias, muitos venderam seus bens para comprar comida e improvisar barracas para a venda de sanduíches, tortas e diversas outras iguarias para os supostos milhares de turistas. É interessante pensarmos que a religião está fortemente ligada aos centros comerciais, desde a Idade Media que unificava os cruzamentos de rotas comerciais com centros religiosos, dando origem à muitas cidades importantes, até os dias atuais, com cidades como Aparecida do Norte, onde uma espécie de indústria religiosa é formada ao redor do templo que atrai tantos fieis.

Em Melo a família que guia a história tem como patriarca o bagageiro Beto (Cesar Troncoso), que com sua simpatia inigualável chega a lembrar Ramón Valdez, o eterno Seu Madruga. Beto não chega a se empolgar com a ideia de vender comida aos turistas, mas em meio às dificuldades econômicas pensa em ganhar dinheiro com a visita do Papa construindo um banheiro. A ideia inusitada ganha legitimidade no contexto de uma cidade extremamente pobre e simples, retratada pelos cineastas com cores bastante pálidas ao longo do filme, o próprio banheiro da casa de Beto é uma precária casinha de madeira fora da casa.

Carmen (Virginia Mendez) é a esposa de Beto, contrária à ideia de ganhar dinheiro com o evento religioso. Seus princípios éticos indicam que isso seria passível de alguma punição divina e isso ressalta a supremacia do capital frente à espiritualidade, pois toda religiosidade latente da população fica em segundo plano diante da possibilidade de uma vida melhor. A vizinha de Carmen indica que castigo maior que o de Deus são os políticos que governam a cidade. A crítica não é em relação à atitude dos habitantes, mas um alerta em relação à maior necessidade de condições de vida digna do que instituições ligadas à espiritualidade.

Beto vê sua filha Silvia (Virginia Ruiz) sonhando ir para Montevidéu para concluir os estudos e ser jornalista, ele ainda vislumbra uma motocicleta para facilitar as longas viagens e dar descanso ao joelho prejudicado após tantas pedaladas e como qualquer pai de família, gostaria de dar uma vida mais confortável aos que dele dependem. É através de um banheiro para alugar aos turistas que ele tentará realizar seus sonhos, mas ainda é necessário comprar material e construir um sanitário em seu terreno, e isso não é nada fácil, já que a esposa não é favorável a utilizar as poucas economias que seriam destinadas aos estudos de Silvia. Até onde Beto estaria disposto a chegar para conseguir o dinheiro para a construção é o que vemos no longa e a pergunta que fica é até que ponto podemos censurar qualquer atitude do uruguaio, que como tantos outros da cidade entregaram suas vidas na tentativa de ascensão através da curta visita do Papa.

Os moradores que investiram no comércio para aquele dia teriam elementos para identificar um suposto exagero nas expectativas em relação à visita, ou foram fortemente estimulados pela mídia que sempre se esforça em construir a grandiosidade, mesmo que em eventos modestos? É possível indicar uma leve semelhança com Tropa de Elite, pois em ambos fica implícito que uma visita do Papa é indicada sempre como perfeita, repleta de paz, felicidade e espiritualidade. Mas os bastidores nunca são mostrados. Evidentemente que a comparação entre os filmes para por aqui.

Como já é indicado no início do filme, só o azar impediu que os fatos relatados na obra acontecessem de verdade, pois os elementos de fato são plausíveis. A fé em segundo plano diante das necessidades materiais, a ética posta de lado diante de uma condição extrema, a limitação – para não dizer inutilidade – de uma visita papal para uma população carente diante de suas reais dificuldades, todos os elementos que podem ser identificados em qualquer visita real.

Um filme simples, com momentos engraçados e que consegue unir diversos pontos criticáveis de uma sociedade que demanda tantos direitos e atenção.


terça-feira, 8 de junho de 2010

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate)

Esta foi a primeira parceria de Tomás Gutiérrez Alea com Juan Carlos Tabío, pois a saúde de Alea já estava debilitada. Um filme extremamente sensível, focado em diálogos talentosíssimos nos quais estereótipos opostos são articulados, formando algumas metáforas que, como é característico nas obras de Gutiérrez, podem ser usadas tanto para criticar quanto para apoiar o regime cubano, dependendo da tendência política de quem assiste.

Aqui vemos David (Vladimir Cruz), filho de camponês que graças à revolução tem acesso à universidade, entretanto seria o que chamamos no jargão político de “massa de manobra”. Aceita tudo o que é imposto pelo governo, sem ousar questionar, tal qual uma doutrina religiosa. Em seu caminho aparece Diego (Jorge Perugorría), homossexual assumido, que sofre discriminação como em qualquer país do mundo e transborda cultura, citando desde autores mais populares como Woody Allen e Hemingway, até Cavafis, poeta helênico cuja obra é permeada pela temática homossexual. Diego não é contra a revolução, tão pouco deseja a intervenção estrangeira, mas indica que o regime cubano tem falhas como qualquer outro – ou alguém diria que a “democracia” norte americana é perfeita depois da crise econômica recente? – e aos poucos essa relação entre o machista extremista e o homossexual com ideias alternativas vai sendo lapidada, com pitadas de humor e muita emoção.

As nuances do filme chamam a atenção para pontos interessantes, amplamente abertos para interpretação. As poucas cenas externas mostram pobreza, mas nunca miséria; Nancy (Mirta Ibarra) que é amiga de Diego mostra sua religiosidade expressa por um misto de catolicismo com candomblé, que indica não só o amalgama de religiões africanas e ocidentais como vemos no Brasil, mas também o simples fato de cubanos terem religião e expressá-la, que seria um fato normal, não fosse a maneira tragicômica como o tema é tratado mundo afora por contrários ao regime; entre os pequenos trechos de músicas apreciadas por Diego está uma obra de Ignacio Cervantes, que o personagem indica ter sido expulso de Cuba, e este fato nos leva a criticar o regime castrista, até a revelação de que o artista foi expulso pelos espanhóis, antes da independência – cabe aqui deixar claro que Cervantes teve que deixar o país ao ser descoberto quando fazia diversos concertos pelo país afim de arrecadar fundos para a luta pela libertação da então colônia.

É possível notar que os motivos podem ser distintos, mas os problemas enfrentados em Cuba podem ser sentidos fora da Ilha. Basta tentarmos fazer uma exposição artística no Brasil, para utilizarmos o exemplo do filme, já que Diego luta para isso o tempo todo, para nos depararmos com a burocracia, coibindo a arte que continua incompreendida por boa parte da população. A própria questão da homossexualidade transcende as fronteiras cubanas, uma vez que o comportamento machista de David e da sociedade como um todo poderia ser encontrado em qualquer país do mundo, pois ainda que São Paulo organize uma parada gay que reúne milhões de pessoas, homossexuais continuam sendo assassinados devido à orientação sexual. Desta forma, mais que um debate que se limita a defender ou rechaçar o regime cubano, Gutiérrez e Tabío nos dão material para muita reflexão sobre nós mesmos e problemas onipresentes.

Uma interpretação possível para a metáfora de morango e chocolate é a junção benéfica de duas substâncias distintas, com características bastante peculiares, uma natural, outra processada, que são boas individualmente, mas podem ser melhores em conjunto. Assim como o produto gerado pela proximidade de David e Diego, cada um com seus ideais que, quando em contato, podem influenciar um ao outro de forma benéfica, dialética e produtiva.

Um excelente trabalho de um revolucionário que apoia o regime cubano de forma inteligente, indicando pontos falhos com o intuito de aprimorá-los e tem liberdade para expor sua obra no país, mesmo com suas críticas. Gutiérrez apenas peca na última cena, pois de tão bem feita, mereceria ser mais longa. Jorge Perugorría dá um banho de interpretação que culmina em uma linda cena, que independente de qualquer posicionamento político, merece ser vista.


Não encontrei nenhum trailer legendado em português.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Notícias de uma guerra particular

A princípio este parece ser mais um filme sobre o aparentemente interminável conflito entre policiais e traficantes, desta vez sob a ótica de Katia Lund e João Moreira Salles. A diferença não está apenas no fato de ser um documentário, isento de fabulações, mas ainda que todo documentário esteja subordinado à visão do diretor, aqui a dupla trabalhou com as principais partes envolvidas, ou seja, ao longo do trabalho vemos entrevistas de moradores, policiais e traficantes, intercaladas. A comparação nos permite identificar conclusões em comum dos três setores, além de percebermos que diferente das brincadeiras infantis de polícia e ladrão, na vida real mocinhos e bandidos não são tão facilmente distintos.

O maniqueísmo que o senso comum tenta impor é quebrado pelos próprios policiais quando o então chefe da polícia civil, Hélio Luz, dá declarações polêmicas, assumindo a corrupção entre policiais – fato que seria inegável – e dizendo claramente que a polícia garante a segurança dos ricos, pois na favela é necessário manter a ordem e a ferramenta para isso é a repressão. Poderíamos pensar na legitimidade do uso da força pelo estado para estabelecimento da ordem, não fosse pelas declarações de moradores afirmando que antes do domínio do tráfico os policiais entravam na favela com muito mais agressividade, pois não havia reação dos moradores, e os papeis se misturam a partir do momento que moradores tinham eletrodomésticos e objetos de maior valor levado pelos policiais, que alegavam ser produto de roubo, ainda que sem provas.

Evidentemente que com isso não podemos concluir que há uma simples inversão de valores, pois se por um lado o tráfico supre certas necessidades dos moradores, que seriam dever do estado, é latente a crueldade com que dívidas são cobradas e que crimes são cometidos. Ainda que, segundo traficantes entrevistados, o surgimento do crime organizado tenha sido para melhorar a vida de presos e dos próprios moradores da favela, com o intuito de “regulamentar” a violência entre traficantes rivais e oferecer resistência frente à polícia, é indispensável lembrar que os envolvidos com o tráfico de drogas entram para o crime ainda muito jovens e têm toda sua formação marcada pela banalização da violência.

Ainda que uma porcentagem baixa da sociedade entre para a criminalidade – como bem lembrado por Hélio Luz, se essa fosse uma opção generalizada o crime não seria um estado paralelo, mas tomaria o poder de fato – já é um número significativo para abalar a sociedade como um todo, e isso desconstroi a opinião do policial que considera uma guerra particular os conflitos na favela. Pela fala dos três setores entrevistados não é difícil perceber o que leva os jovens à marginalidade. É muito clara a diferença entre os que não entram para o crime e optam por trabalhar nos empregos legalizados, sentindo as consequências de um estado omisso em relação à qualificação profissional. Geralmente com pouco estudo, o salário baixo do subemprego é quase fatídico e o alto lucro do tráfico torna-se extremamente sedutor por proporcionar condições de manter um padrão de consumo mais elevado. Muitos preferem uma vida curta a uma longa exploração legal.

Talvez o maior consenso do filme seja a indicação da miséria como fonte dos conflitos. Essa percepção com base no cotidiano é comprovada por pesquisas que não colocam os municípios mais pobres como mais violentos, este posto é ocupado pelos mais desiguais. A discrepância entre o padrão de vida de um trabalhador e um traficante; a diferença de tratamento pelos policiais entre um morador de favela e um bairro nobre; a omissão do estado para uns e a corrupção para outros. Todos esses fatores que podem parecer repetitivos e cansativos, mas que persistem há séculos, com pequenas mudanças de forma, mas com o eterno conteúdo de exploração culmina em um documentário como este.


O filme pode (e deve) ser assistido integralmente no Youtube.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre meninos e lobos (Mystic River)

Sobra talento individual neste longa dirigido por Clint Eastwood, a começar do próprio. Em adaptação do livro homônimo, Eastwood faz um filme policial em Hollywood, entretanto descontroi diversos estereótipos e na maior parte do longa fica distante da abordagem convencional de diretores norte-americanos. Não se trata de um bang bang moderno com tiroteios pelas ruas movimentadas, nem do maniqueísmo que separa mocinhos e bandidos tentando eliminar qualquer ponto em comum entre ambos. Vemos uma mistura de meninos e lobos – um bom título em português – representada pelos protagonistas, que podem estar ora de um lado, ora de outro da linha extremamente tênue, se não inexistente, entre o certo e o errado.

Os referidos protagonistas são nada menos que Jimmy (Sean Penn), Dave (Tim Robbins) e Sean (Kevin Bacon), três amigos na infância que o tempo, com influência do sequestro de Dave, reduziu a vizinhos distantes. Até neste ponto o roteiro mistura bem e mal, pois uma tragédia, alfinetando a pedofilia na igreja católica, separa os amigos que só voltam a ter contato e a revisitar as memórias após outro fato trágico, desta vez com a família de Jimmy.

O título original, Mystic River, remete ao rio que corta a cidade de Boston, mas também forma uma interessante metáfora para a história cercada de mistérios e personagens mergulhados em si, cada um com suas mágoas de forma a beirar o ocultismo. As vidas carregadas por um passado bastante traumático desencadeiam fatos que culminam em um quebra-cabeças para o agora policial Sean e seu parceiro Whitey (o coadjuvante (!) Laurence Fishburne). Mesmo sendo guiado pelo mistério de um crime não solucionado, não é este o ponto forte do filme, pelo contrário, pois a dúvida não chega a prender tanto a atenção e as hipóteses que tentam montar vários suspeitos são facilmente desconstruídas.

Chama a atenção a densidade dos personagens e a fragilidade da história construída por nuances que só funcionam se estiverem cuidadosamente estruturadas de forma impecável. Esse encadeamento dos fatos culminando em um ponto específico é citado no próprio filme quando Jimmy diz que a mãe de Hitler cogitava um aborto, o que poderia ter mudado a história da humanidade. E com quantas pequenas tragédias cotidianas não nos deparamos durante a vida? Fatos inexplicáveis nos quais há tantos detalhes, individualmente irrelevantes, mas indispensáveis ao todo, que, talvez por comodidade, culpamos o destino.

Por fim, adeptos da justiça com as próprias mãos e defensores da pena de morte, sobretudo diante da confissão do criminoso, talvez tenham que reestruturar seus argumentos depois do que o enredo nos apresenta. Será válido analisar um fato sem levar em conta sua história, para que uma decisão tão drástica e definitiva seja tomada? Com que legitimidade nos colocamos do lado dos meninos, se a qualquer momento um destes – talvez nós mesmos, dependendo do ponto de vista – age como um lobo? O trabalho de Eastwood mostra uma lógica segundo a qual cada detalhe é tão relevante e tão frágil que a qualquer momento uma tragédia pode encobrir a outra.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

As melhores coisas do mundo

Laís Bodanzkiy mergulhou no universo dos adolescentes de classe média alta através do personagem Mano (Francisco Miguez), e com os estereótipos bem encaixados dos elementos que circundam o jovem a diretora consegue evidenciar fatos cotidianos que nos levam a contestar alguns paradigmas sobre esta conturbada fase da vida e sua relação com a fase seguinte, dos pais.

A ideia bastante consensual transmitida aos filhos é a de que eles estão vivendo em uma fase sem problemas ou preocupações, uma vez que não precisam se preocupar com o pagamento das contas ou o sustento da família. Entretanto esta visão simplista do que são as “verdadeiras” dificuldades remete ao fato de que os problemas que ocorrem conosco sempre parecem piores do que os das outras pessoas. Ao passar pelo filtro do tempo os pais parecem esquecer as angustias, as pressões e os sentimentos intensos desta fase naturalmente cheia de dúvidas, em que ainda não estamos plenamente inseridos nos processos sociais e acreditamos que tudo é definitivo e dramático.

A opinião unanime dos jovens é a de que os pais cometem erros bobos e quando tiverem filhos tudo será diferente, pois a relação será pautada na amizade. A doce ilusão chega ao fim quando os filhos nascem, crescem e, quando chegam à adolescência, estragam tudo, ou seja, todo o planejamento de uma relação amigável cai por terra devido à personalidade do jovem não ser condizente com a construída pelos pais quando eles eram adolescentes. Apesar de ser fácil concordar que é necessário respeitar a individualidade, as vontades e a personalidade do outro, na prática tudo fica diferente quando este “outro” é alguém com quem sonhamos há anos, com cada detalhe de comportamento, preferências, etc.

Não é apenas dessa forma subjetiva que a diferença entre o que achamos correto e o que achamos correto que aconteça conosco aparece no filme. Sem querer estragar surpresas, Bodanzky trabalha muito bem temas polêmicos que as pessoas costumam tolerar sem problemas, desde que só aconteça com os outros. A intolerância é mais curiosa entre os mais velhos, pois seria de se supor que a maior bagagem cultural e o acumulo de experiências vividas servissem para trabalhar os fatos de forma mais eficiente, sem a herança do romantismo que é tão presente nos jovens, e bem abordado no filme pelo personagem Pedro (Fiuk); mas na adolescência os desdobramentos de atitudes hostis podem não ter um final tão harmonioso quanto a fabulação permite nas telas.

A hostilidade no ambiente escolar é antiga – tanto que qualquer um que assiste ao filme reconhece algumas situações como familiares –, a diferença é que hoje o desenvolvimento da tecnologia, que facilita as pesquisas escolares e contribui para a formação dos estudantes, também pode ser utilizada para fazer com que pequenos fatos da vida particular dos alunos tornem-se públicos. Somando os insubstituíveis hábitos de troca de bilhetes e comunicações mais tradicionais com as mensagens de texto, blogs, etc., a escola continua sendo o ponto chave dos processos de socialização pelos quais todos passamos; o lugar onde acontecem as melhores coisas do mundo, mas ao mesmo tempo bastante coercitivo.


Para terminar, uma nota a parte: a magia dos Beatles parece mesmo eterna, como Laís Bodanzky nos mostra através de Something. Certa vez me disseram para nunca confiar em alguém que não gosta do quarteto de Liverpool, e tenho comprovado isso empiricamente =)



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...