terça-feira, 26 de abril de 2016

Truman

Em Truman, o diretor Cesc Gay consegue abordar um tema tenso com extrema sensibilidade e leveza. Sem dúvida auxiliado pela qualidade do elenco, pois tanto o protagonista Julián (Ricardo Darín), quanto seu braço direito Tomás (Javier Cámara) conseguem transmitir muito bem as emoções mais intensas sem cair em um drama excessivo.

A dupla de amigos de longa data se encontra em Madri para um último contato. Isso abre espaço para um turbilhão de sentimentos. Superada a tristeza de todas as despedidas, sobretudo as definitivas, é possível pensarmos no privilégio de vivermos intensamente a despedida de uma longa amizade.

Nos recusamos a pensar que qualquer encontro pode ser o último, da mesma forma o impacto de uma despedida iminente encobre o fato de que toda partida é prematura aos olhos de quem fica. Ainda que soubéssemos a hora exata que uma pessoa próxima irá nos deixar, sempre faltará um tempinho para uma despedida mais cuidadosa e aquele segredo que não pode deixar de ser compartilhado será esquecido em meio às emoções, para ser lembrado segundos depois, quando já for tarde.

Esses sentimentos múltiplos são abordados ao longo do filme, quando Julián e Tomás aprendem a lidar com a situação única e inusitada que estão vivendo, sem abrir mão da cumplicidade que os anos de amizade proporcionam. Dois amigos que passaram a vida encaixando piadas em situações sérias não poderiam mudar a forma de agir sem que a mudança atrapalhasse aquela última vivência.

A maturidade faz com que Julián possa refletir sobre sua condição e tomar decisões serenas, ainda que desagrade e até assuste quem está próximo; da mesma forma Tomás tem a reação imediata de tentar fazer o amigo mudar de ideia, porém gastar o último encontro para se indispor com quem precisa de conforto seria completamente condenável. Fica implícito entre os amigos, que não precisam necessariamente expressar os sentimentos em palavras, que o melhor a fazer é viver intensamente essa chance ímpar de uma despedida.

Peça chave na história é o Truman, o cachorro de Julián. Quem tem um bicho de estimação, sobretudo se morar sozinho e ver no animal a companhia mais fiel, sabe que não se trata de um simples cachorro, mas uma relação de empatia extremamente forte e praticamente isenta de razão. A relação do animal com o dono é pautada pela emoção, o que justifica os cuidados extremos de Julián na tentativa de encontrar um novo lar ao amigo. De imediato os cuidados rendem humor, mas exercendo a incômoda tarefa de nos colocarmos no lugar do protagonista, vemos que não é um detalhe desprezível.

Uma aparente tentativa de racionalidade, porém longe de estar isenta de emoção, vem da prima de Julián, Paula (Dolores Fonzi), que não consegue se conformar com a passividade dos dois amigos diante de algo que ela sabe não ter remédio, mas segue a primeira reação de tentar prolongar ao máximo o contato com o primo.

Pode ser menos desconfortável para quem acompanha se agarrar à ilusão de que se tudo for feito na tentativa de adiar o fim, haverá ao menos o consolo de esgotar todos os recursos. Claro, isso pode ser indispensável para algumas pessoas, porém a palavra final, ao menos na história do filme, cabe inteiramente ao Julián, que tem o direito de escolher o caminho que deseja seguir.

Mais uma vez caímos em qual a reação mais conveniente, aproveitar a despedida para viver momentos inesquecíveis ou amargurar uma desavença não resolvida para sempre. Uma cena mais controversa entre os personagens é resolvida por Julián com apenas duas palavras: ‘faz sentido’. Sem spoilers, é possível imaginar que depois de algumas conversas sobre o tema desagradável, mas inevitável, os personagens, incluindo Paula, aprenderam que certas oportunidades são únicas.

Ainda que possamos viver tranquilamente reprimindo alguns desejos – o que em muitos casos é indispensável para a vida em sociedade –, muitas vezes uma vida excessivamente regrada não trará nada além da sensação de oportunidade desperdiçada. Não precisamos do fim batendo em nossa porta para começarmos a desconstruir algumas certezas até então inabaláveis.

Cesc Gay poderia tranquilamente fazer seu filme extremamente denso, com debates profundos sobre vida e morte. Talento nas mãos ele tinha de sobra. Porém tirar o peso e abordar tudo com nuances de humor aproxima a obra daqueles que a assistem, instigando reflexões que muitas vezes são censuradas pelos indivíduos logo que, involuntariamente, este tema lhes invade o pensamento.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Chico - Artista brasileiro

Geralmente avesso a entrevistas, Chico Buarque abriu uma exceção ao amigo e diretor Miguel Faria Jr., proporcionando esse valioso documentário, no qual narra episódios marcantes de sua vida, entrecortados por materiais originais e interpretações de suas canções por artistas diversos.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico acabou produzindo ao longo de sua vida um material artístico de grande valor para a história recente do país, com destaque para o período da ditadura militar, criticada sempre de forma muito inteligente através de suas músicas.

Tendo crescido em uma família extremamente culta, cuja presença é enfatizada no filme tanto pelo pai quanto pela mãe, a intelectual Maria Amélia Cesário Alvim, podemos pensar que o filho foi de certa forma um produto natural, resultante da educação pluralizada, da formação cercada de livros e das amizades extremamente privilegiadas do pai.

O que não podemos esquecer é que boa parte de nossos valores são criados pelo contraste vivido. Não seria nem um pouco incomum se, dentro da realidade em que cresceu, Chico permanecesse distante de qualquer outro modo de vida, resultando em um bon vivant alienado.

No extremo oposto, beirando os setenta anos durante as filmagens, Chico mantém um olhar crítico que de certa forma é uma dialética entre toda sua cultura erudita e a cultura popular, que sempre esteve presente na vida do artista. O bom humor e a serenidade não traduzem deboche e descaso, mas um olhar maduro de alguém que aparentemente sempre esteve no comando da própria vida.

É evidente que estamos falando de um ser humano, que como todos os outros possui defeitos e problemas, que talvez tenham espaço em uma biografia, mas não em um documentário, onde a terapia visando solucionar a crise de criatividade parece ser suficiente para retratar o artista como passível de angústia, como não poderia deixar de ser.

A intenção do filme parece bastante clara, apresentar aos fãs, que não são poucos, a trajetória de um ídolo que iniciou a carreira com a música e hoje coleciona obras em diversas áreas, como teatro, literatura, cinema, além de marcar presença nos campos de futebol – paixão que permeia sua vida desde a infância.

Curioso que um artista tão multifacetado acabe atualmente sendo alvo de críticas tão rasas. Não caberia no filme ainda que tais críticas tivessem começado enquanto as filmagens estivessem em andamento. A participação mais direta de Chico na política foi até o fim da ditadura e o que se seguiu foram alguns apoios, que em se tratando de uma figura pública sempre tem reflexo na campanha de um candidato. Os relatos contemporâneos do filme giram em torno do avô que reúne os netos no apartamento para divertir-se com a improvisada banda, bem distinta da canção ‘A banda’ que alavancou sua carreira.

Cabe a interpretação de que é este senhor – que tanto trabalhou denunciando injustiças sociais e políticas, que enfrentou entraves jurídicos durante a ditadura que o forçaram a permanecer no exterior, que talvez só tenha escapado de ações mais rígidas dos militares graças ao peso do sobrenome – que tem sido duramente criticado por alguns setores da sociedade.

Ninguém é imune a críticas, afinal ninguém é perfeito a ponto de não merecer nenhuma observação desfavorável. O que chama a atenção neste caso é a desproporção entre um ícone para do país sendo criticado por motivos torpes, vindo de pessoas que mal sabem o que estão dizendo.

Isso fica evidente quando Chico é acusado de receber dinheiro pela lei Rouanet para falar bem do governo, quando na verdade essa lei não dá dinheiro a ninguém, somente autoriza a captação de recursos para a produção cultural; ou ainda quando o acusam de hipocrisia ao vetar o uso de suas obras depois de ter lutado contra a censura do regime militar.

Ser a favor ou contra um artista – tanto em relação à obra quanto ao posicionamento político – é opção de cada um e essa postura é moldada por uma série de fatores, porém existe uma lógica que ao ser seguida dá mais legitimidade aos argumentos. Chico, como tantos outros artistas de sua geração, é um cidadão que lutou contra arbitrariedades políticas de um governo ilegítimo que queria impedi-lo de se expressar livremente.

Muito diferente dessa censura estatal, visando à blindagem do governo e o controle da população, é a decisão do artista de ter um controle sobre o que ele próprio criou. Como o próprio Chico já se deu ao trabalho de explicar, não faria nenhum sentido setores que apoiaram a ditadura militar utilizarem hoje suas músicas, geralmente para fins muito distintos, senão antagônicos, aos seus propósitos como compositor.

Um documentário como este é útil sob vários aspectos. Apresenta o homem por trás do artista, relembra fases importantes, apresenta o artista aos que não o conhecem tão bem e, como consequência mais indireta, estimula a reflexão sobre temas recorrentes e indispensáveis presentes em sua obra.


terça-feira, 5 de abril de 2016

O botão de pérola (El Botón de Nácar)

Com este longa o diretor Patricio Guzmán apresenta um enredo bastante abstrato. Não se trata de um tema único desenvolvido sob diversos pontos de vista, mas vários temas que podem convergir para conclusões diferentes, dependendo do enfoque.

Sendo um filme chileno, é a partir de seu território que o diretor abre o horizonte para o mundo. É curioso como em pouco tempo notamos que a história dos países latino-americanos são semelhantes, mas desconhecidas entre si. Temos uma educação que nos ensina detalhes da formação dos estados europeus, suas etnias, desenvolvimento, etc., enquanto nossos vizinhos são reduzidos à América espanhola, fragmentada ao longo dos séculos.

Enquanto tribos europeias são diferenciadas para nos explicar dominações e alianças que originaram os países que conhecemos, na América a generalização de índios coloca todas as etnias no mesmo bojo, como uma espécie exótica dizimada em maior ou menor quantidade, conforme a região.

Entre esses índios estão os Kawésqar, que habitavam a Patagônia chilena, possuíam intensa relação com o ambiente em que viviam e hoje estão restritos aos poucos descendentes que com dificuldades mantém alguns costumes antigos.

Olhar para a dominação europeia em nosso continente – que ao contrário do que os livros de história nos forçam a concluir, não está restrita ao passado, mas continua em andamento sob vários aspectos – não se limita ao absurdo dos assassinatos em massa ou da supressão cultural.

Mesmo com toda a diversidade existente entre as tribos que descobriram o continente americano bem antes dos europeus, um fator era comum entre todas: a vida em harmonia com o meio ambiente. Tudo na natureza é cíclico, pois esta é a única forma de manter a constante reciclagem dos recursos do planeta. Respeitando este ciclo os Kawésqar conseguiam viver em um ambiente hostil sem causar nenhum desequilíbrio e sem a necessidade de migrar para um local mais acolhedor.

Junto com os europeus veio uma forma linear de consumo, que já ultrapassou os limites de reposição do planeta. Isso significa consumir recursos de forma irresponsável, extraindo matéria-prima da natureza em uma velocidade muito maior do que a necessária para reposição, gerando poluição e lixo em quantidades alarmantes. Alguns cientistas já afirmam que não há mais forma de revertermos os danos ao planeta.

O filme dá muita atenção à água, afinal ela é fundamental para a vida, e com o filme tendo sido lançado em 2015, uma conclusão elementar nos deixa no mínimo constrangidos. Enquanto os Kawésqar viveram por séculos em um ambiente quase inóspito de forma harmônica com a natureza, São Paulo é uma cidade que está cercada por nascentes e rios, mas ainda assim conseguiu a proeza de chegar à beira de um colapso no abastecimento de água.

Quando pensamos em consumo linear esse também é o exemplo perfeito. A água depois de utilizada deve voltar para a natureza para que complete seu ciclo, que é o mais estudado em biologia desde os primeiros anos na escola. Nosso consumo linear faz com que a água seja extraída da natureza, consumida e descartada. Estamos habituados a acreditar que nossa participação está encerrada a partir do momento em que a água utilizada escorre pelo esgoto, porém os rios de São Paulo, quando não canalizados, correm a céu aberto, deixando claro que sofremos com a falta d´água, mesmo que ela nos cerque.

O título do filme de Guzmán faz referência a um índio, que em troca de um botão de pérola entrou em um barco europeu e foi para o velho continente. Quase uma experiência da época, que visava “civilizar” um exemplar dos ditos selvagens. O índio retornou tempos depois. Nunca chegou a ser visto como um europeu e nunca voltou a ser como era. Provavelmente foi uma experiência bastante traumática para o índio, que recebeu tão pouco em troca. Somente um botão de pérola.

Uma simbologia muito curiosa que deveria chamar nossa atenção para o quão barato nos vendemos diante de questões ambientais. Vale o exercício de pensar o que seria nosso botão de pérola contemporâneo, que parece extremamente valioso, mas não passa de uma quinquilharia que um dia perceberemos ter custado algo imensurável.

Ao longo da narrativa do filme vemos várias imagens que mostram a imensidão do universo, diante do qual é provável que tenhamos um peso bem menor que um ínfimo grão de areia. Nossas ações podem ter efeito sobre o planeta, mas isso não altera o cosmo; em longo prazo o planeta pode se reconstruir tranquilamente. Não chega a ser tão difícil percebermos que temos aceitado botões de pérolas diários, mas pérolas não nos mantém vivos.


terça-feira, 29 de março de 2016

Na natureza selvagem (Into the Wild)

Não é somente atuando que Sean Penn mostra seu grande talento. Dessa vez como diretor, ele adaptou para as telas o romance de Jon Krakauer, inspirado na história real do protagonista, aproveitando com muita competência os recursos gráficos do cinema para nos apresentar a vida do jovem Christopher McCandless (Emile Hirsch).

Recém-formado e tendo uma família de classe média norte-americana, Christopher teria tudo para seguir uma espécie de roteiro padrão para os jovens de seu círculo social. Bastaria aceitar o carro novo oferecido pelos pais, arrumar um emprego e em poucos anos estaria com uma família estável. É o sonho de muita gente.

Claro que se esse roteiro tivesse sido cumprido, dificilmente a vida do protagonista renderia um filme. O mais provável é que fosse um padrão nada atrativo. E Christopher deixa claro que não é nada disso que vislumbra para seu futuro, desde o carro velho que ele opta por manter – para espanto dos pais, que queriam um carro novo para o filho, sem perceber que no fundo esse desejo era só deles – até a decisão de iniciar uma viagem sem rumo, ele busca novidades em cada detalhe de sua vida.

Ainda que inspirado em fatos reais, a história acaba ganhando tons de uma alegoria. Rompendo completamente com o passado o protagonista adota a identidade de Alexander Supertramp e simplesmente some, sem dar notícia aos pais e sem a menor noção de como faria para se manter. Se a ideia de viver para corresponder às expectativas de uma vida voltada ao trabalho e acumulação é um extremo a ser combatido, a vida do agora Alex está no outro extremo, a princípio mais atrativo, mas que evidentemente também acaba trazendo dificuldades cedo ou tarde.

Muita gente vê um filme desses contendo a vontade de seguir os mesmos passos desnorteados de Alex e normalmente as desculpas para procrastinar a aventura são na verdade um conforto pessoal, para não admitir que gostaríamos de uma mudança radical de vida, mas dificilmente estamos dispostos a abrir mão do conforto que nossa rotina – seja qual for – nos oferece.

Não é nada agradável carregar uma mochila de uns 15kg nas costas para todo lado, levando todos os seus pertences. Isso significa muita coisa para carregar e pouca coisa para dar conta de todas as necessidades que temos, afinal, Alex não tinha dinheiro, nem uma conta da qual pudesse sacar uma quantia que suprisse ao menos alguma necessidade básica.

O que sem dúvida estimula o personagem a seguir sua jornada, que em pouco tempo ganha o Alaska como meta, são as pessoas que cruzam seu caminho, que deixam marcas e que levam suas marcas, fazendo com que todo o esforço seja recompensado de alguma forma. Nos encontros ao longo da estrada é que os viajantes podem criar seus laços, que por mais efêmeros que possam parecer, têm na sinceridade a vantagem insuperável pelas relações cotidianas.

As amizades feitas em uma viagem são imediatas e intensas. Não precisam aguardar pelo happy hour da sexta-feira para poder vivenciar sentimentos e estes não precisam ser contidos com receio do expediente profissional da próxima segunda-feira. Ao longo de uma viagem, talvez por uma identificação de estilo de vida ou quem sabe por uma efemeridade quase inevitável, o que se preza é a plenitude daquele momento, sem espaço para problemas desnecessários.

Se por um lado a ideia do filme não é fazer com que todos abandonem suas obrigações e saiam pelo mundo com uma mochila nas costas, por outro fica claro que não é necessário esse extremo para viver emoções únicas, que só o contato com o inesperado pode proporcionar.

Entre o rompimento total com qualquer tipo de laço e uma vida previsível e burocrática existe uma infinidade de estágios que podem ser aproveitados conforme os recursos e disposição de cada um. Viagens sempre tem algum imprevisto meio desagradável, um problema que pode dar um pouco mais de trabalho para ser contornado, porém depois de pouco tempo o que realmente marca é o acréscimo pessoal, inevitável quando se conhece novos lugares e novas pessoas.

O filme faz com que Alex nos ensine por meio de extremos. É uma forma interessante de nos alertar para o que devemos fazer e o que devemos evitar. Mergulhar no desconhecido envolve riscos, que devem ser ponderados, mas não usados como escudo para uma vida desnecessariamente limitada e curta.

O mundo é grande, as pessoas são múltiplas. Restringir tudo a um escritório e meia dúzia de contatos evitará diversos perigos, mas oferecerá em troca as emoções de uma gaiola pequenina.


terça-feira, 15 de março de 2016

O quarto de Jack (Room)

O diretor Lenny Abrahamson fez uma adaptação do romance de Emma Donoghue. A escritora sempre destacou que a história de seu livro é ficcional, de qualquer forma tudo é muito factível, tanto que infelizmente já houve casos reais extremamente parecidos com o enredo do filme, o que faz com que um sentimento de desconforto seja inevitável em quem assista.

Esse desconforto surge pela junção de absurdos que acontecem com a protagonista Joy (Brie Larson). Sequestrada pelo Velho Nick (Sean Bridgers), mantida em cativeiro por cinco anos e violentada diversas vezes, o que resultou na gravidez sem nenhuma assistência médica e no nascimento de Jack (Jacob Tremblay).

Uma análise direta dos fatos apresentados ao longo do filme já seria o bastante para que a obra se destacasse. Imaginar uma jovem que tenta ajudar um desconhecido e acaba isolada do mundo por cinco anos é suficiente para pensarmos o quanto uma pessoa perde da vida. Meia década no início do século passado não era tempo suficiente para mudanças tecnológicas tão profundas, mas atualmente em cinco anos o mundo pode se tornar um lugar bem diferente, com mudanças que por absorvermos aos poucos acabamos não nos dando conta.

Além disso, Jack passa uma parte fundamental de seu desenvolvimento restrito em um pequeno cômodo. A criatividade de Joy é notável, tanto para manter a criança entretida quanto para criar formas de explicar aquela realidade vivida. Podemos pensar que a criança não sinta falta de um mundo cuja existência é completamente desconhecida, mas com o cérebro no período de maior desenvolvimento, a reclusão vai gerar um desconforto em quem não tem uma atividade física condizente com a necessária.

Existe ainda um espaço para análises mais abstratas com base no que o filme apresenta. A ideia do mito da caverna, desenvolvida por Platão ainda na Grécia antiga, é perfeitamente ilustrada através de Jack, que ao invés de viver em uma caverna vendo sombras da realidade projetadas na parede, passou toda a vida em um pequeno quarto, com referências extremamente restritas vindas de uma televisão.

Não é um spoiler afirmar que mãe e filho saem do cativeiro – já é revelado no trailer e a questão, que não será revelada, é se a mãe conseguirá se reinserir na sociedade e se o menino conseguirá se adaptar ao mundo novo. Fora do quarto Jack sai de seu próprio universo para ter contato com o quarto compartilhado por toda a humanidade.

Fora da caverna, ou do quarto, a criança de cinco anos tem contato com a realidade, ou, mantendo o paralelo com o mito, com o simulacro de realidade compartilhado por todos à sua volta. Não bastasse ser uma idade bastante confusa, em que uma pessoa está apenas iniciando sua socialização e fantasiando elementos que a cercam para criar sua própria versão dos fatos, Jack passa a ter contato com elementos que para outras pessoas não têm nenhum efeito, devido à banalidade da existência cotidiana, mas para o menino é realmente como aterrissar em outro planeta.

A restrição da liberdade pesa incomparavelmente mais para Joy. É ela quem passou cerca de vinte anos livre e tem plena consciência das violências que sofreu a partir do momento do sequestro. Mesmo que essa história tenha ocorrido fora das telas de forma muito parecida, cabe também uma ilustração do estilo de vida da personagem e o desdobramento de seu calvário.

Felizmente é um fato raro uma crueldade tão extrema que aprisiona uma pessoa em um cubículo por anos, sem nenhuma disposição de concedê-la a liberdade. O que incomoda é o fato de não podermos classificar a atitude do Velho Nick de desumana, já que apenas humanos são capazes dessa atrocidade.

Mesmo que Joy tenha vivido uma violência extrema e rara, versões menores dessa mesma violência ainda são vividas cotidianamente. Talvez no Canadá – país de origem – a situação seja menos intensa, mas o machismo que fez com que o Velho Nick se achasse no direito de aprisionar uma mulher e mantê-la como escrava sexual é repetida em diversos níveis, cotidianamente.

Não faltam exemplos reais de mulheres que não vivem em um cárcere tão rígido, mas sob ameaça constante, com agressões físicas e psicológicas, restringindo a existência à servidão de alguém que por razões culturais acredita ter o direito de manter uma pessoa em estado de cárcere ou algo próximo a isso.

É evidente que este não é o foco direto do filme, tão pouco o personagem do Velho Nick é explorado, mas o que deixa claro que a questão do machismo é extremamente pertinente para compreender o filme é o fato de que não faria o menor sentido a inversão de papéis entre ele e Joy.


terça-feira, 1 de março de 2016

A Estrada 47

A Segunda Guerra deve ser o evento histórico mais documentado pelo cinema. De fato foi um episódio extremamente marcante na história da humanidade e sendo os países envolvidos os grandes produtores do cinema atual, é compreensível que outros conflitos mais recentes e igualmente repudiáveis acabem ficando em segundo plano para os diretores.

Isso acaba tornando o longa do diretor Vicente Ferraz bem peculiar, pois aborda a Segunda Guerra sob a ótica de soldados brasileiros, enviados para lutar em uma terra desconhecida, contra inimigos completamente aleatórios. Não temos a visão de algum povo europeu, que viveu a Segunda Guerra com horror, mas com a perspectiva de lutar contra a ameaça nazista ou contra a ocupação do próprio território.

Se já é uma insanidade governantes decidirem declarar uma guerra enviando a população para batalhas e coordenando estratégias de dentro de escritórios completamente seguros, enquanto soldados sem o menor poder de escolha lutam mais por sobreviver que para derrotar o dito inimigo; que dirá um país do outro lado do oceano, que, diferente dos EUA, não tinha o menor poderio militar ou influência na política mundial, enviar uma tropa despreparada para aprender na prática a combater um inimigo desconhecido.

Hoje as intenções de se retratar batalhas da Guerra no cinema também são evidentemente distintas. As produções norte-americanas têm uma necessidade irritante de criar heróis de guerra. Desde o Rambo de Sylvester Stallone, cujas façanhas heroicas beiram a comédia, até o sargento interpretado por Brad Pitt em Corações de Ferro, o exército americano é sempre liderado por um soldado que parece ter o patriotismo como único sentimento e enfrenta bravamente os inimigos, que são indubitavelmente maus.

Qualquer obra documental sobre a guerra mostra traços comuns nos relatos de soldados, independente do país que defenderam. Mesmo os que ansiavam pelas batalhas do front, com a intenção de derrotar um inimigo, em pouco tempo tinham essa ilusão desfeita e o medo da morte passava a não ser uma vergonha, mas uma realidade para qualquer um daqueles que enfrentavam combatentes com armas cada vez mais poderosas.

A realidade de soldados completamente desconectados da ideia de guerra como uma forma necessária de defender ou conquistar territórios é muito mais condizente com os personagens do filme. Em um ambiente extremamente tenso, em que a qualquer momento um ataque surpresa pode surgir de onde menos se espera, uma explosão coloca em pânico o soldado Piauí (Francisco Gaspar) e isso faz com que um grupo se dissipe. A partir disso, além do medo dos inimigos, os soldados passam a temer o próprio exército.

A justiça militar é arbitrária. Não que na esfera civil não existam problemas, algumas questões em relação à justiça são debatidas há séculos, mas no exército não há tanto espaço para defesa. Em uma situação como a que é retratada no filme os soldados poderiam facilmente ser considerados desertores e sofreriam punições aleatórias, sem direito à ampla defesa.

É como uma tentativa de reinserção ao grupamento que os soldados decidem tentar abrir a estrada 47, o que significa desarmar as minas terrestres, com potencial para inutilizar um tanque de guerra. Vemos cidadãos brasileiros retirados de um país tropical para ficarem cobertos de neve, buscando minas instaladas por alemães que tentavam dominar a Europa.

Ao longo do filme fica claro o que deveria ser evidente para todos: não é necessário detestar uma pessoa desconhecida simplesmente porque o governante do seu país determinou isso. Fica implícito que este é mais um ponto que fica ainda mais forte para os brasileiros. 

Não podemos esquecer que Getúlio Vargas, presidente da época, chegou a negociar apoio aos nazistas, sendo que a definição sobre quem os brasileiros deveriam encarar como malvados foi feita a partir da proposta econômica mais vantajosa, feita pelos Estados Unidos.

Outro personagem muito simbólico do filme é o jornalista Rui (Ivo Canelas). Desde a Segunda Guerra a imprensa vem demonstrando papel cada vez mais relevante ao expor ao mundo os horrores dos combates. Na Primeira Guerra, com muito menos tecnologia, até mesmo os civis dos países que abrigavam os combates viam a batalha como necessária e não tinham acesso ao real conteúdo do front.

Com o desenvolvimento de equipamentos mais leves e precisos, imagens explícitas da guerra e suas vítimas passaram a circular com maior facilidade, chocando a população e causando o que parece ser o único incômodo de alguns governantes: a queda de popularidade.

Setenta anos depois do fim da Segunda Guerra os temas apresentados em A Estrada 47 abrem espaço para debate sobre temas atuais. A relação entre governos, a forma de atuação da imprensa, manipulação de informações que instigam o apoio e o ódio da população, etc. Nem sempre são questões que levam à guerra, mas não é necessário chegar a esse extremo para que a falta de clareza em relação à política seja extremamente prejudicial.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Clube (El Club)

A primeira referência a este longa do diretor Pablo Larraín é a de um filme que aborda diretamente a pedofilia praticada por padres católicos. Não que esteja errado, mas o diretor vai além e aborda outros tabus da Igreja, abrindo espaço para um debate que deveria estar muito mais desenvolvido em uma instituição tão antiga.

Em uma casa no litoral chileno, onde não por acaso o tempo está sempre nublado e chuvoso, alguns sacerdotes vivem reclusos, sob a guarda da Irmã Monica (Antonia Zegers). Em pouco tempo percebemos que o fator em comum para todos é a prática de alguma ação proibida pela Igreja – nem sempre ilegal.

É importante diferenciar os atos ilegais, já que no filme o padre acusado de pedofilia é colocado no mesmo patamar daquele que é punido por ser homossexual. Dado que os padres fazem voto de castidade, seria um detalhe completamente irrelevante se a atração reprimida é por mulheres ou por homens. Parece que a real tentativa é proteger o caráter sagrado – e impraticável – dos sacerdotes.

De todas as práticas anacrônicas da igreja o celibato poderia ser uma das mais irrelevantes à sociedade, afinal é uma ordem restrita àqueles que optam por seguir a suposta vocação religiosa, diferente das proibições que se estendem à sociedade, independente da religião que cada um opta por seguir.

A forma como o celibato atinge a sociedade é o elo entre os padres da casa. Criado com a finalidade prática de não produzir herdeiros que dividam as extensas terras da Igreja, hoje o celibato simplesmente escancara o óbvio; independente de qual a hierarquia que se atinge dentro da Igreja, todos são homens, com hormônios, libidos e desejos.

Curioso que o filme de Larraín tenha sido lançado pouco tempo antes de vir à tona uma troca de correspondências bastante íntimas entre o papa João Paulo II e uma amiga próxima, desde os tempos em que ele era apenas um cardeal. Todas as matérias se apressam em esclarecer que não houve nenhuma consumação do amor bastante mundano expresso nas cartas.

É de se esperar que qualquer coisa que tenha existido além de correspondências seja cuidadosamente escondida pela igreja. Neste ponto podemos aproximar o exemplo real com os personagens do filme. Quando um caso de pedofilia começa a ganhar proporções indesejáveis entra em cena o padre Garcia (Marcelo Alonso), um investigador enviado pela Igreja, que parece chegar com um veredito pré-concebido, buscando apenas elementos que nivelem os padres da casa e justifiquem o fechamento do local.

Não resta dúvida de que a pedofilia é um crime inaceitável. Colocá-lo ao lado da homossexualidade é prejudicial tanto por criminalizar injustamente casais homo afetivo quanto por associar as duas práticas de maneira irresponsável. Seria como julgar todos os padres como pedófilos devido aos casos confirmados.

Na qualidade de pessoas comuns, cujos desejos são tão complexos quanto os de qualquer um de nós, os sacerdotes terão formas diversas de lidar com a libido. Muitos, talvez a maioria, conseguem simplesmente sufocar suas vontades, outros exprimem suas vontades em cartas ou o que quer que João Paulo II tenha feito além disso, e alguns, conforme o filme relata, acreditam ser mais fácil ludibriar uma criança na tentativa de ocultar seu pecado criminal.

Se a missão do padre Garcia é zelar pela imagem da Igreja e seus sacerdotes, seu primeiro passo deveria ir de encontro ao combate à pedofilia, dando verdadeira assistência às vítimas ao invés de tentar ocultar todos os casos. Neste sentido qualquer atitude mais efetiva fugiria de sua alçada, afinal não cabe a ele determinar nada relativo aos desejos sexuais que os padres sintam.

Por parte da Igreja seria fundamental um posicionamento coerente com a sociedade em que vivemos. É no mínimo anacrônico uma instituição tentar manter da forma mais exata possível doutrinas baseadas em uma época completamente distinta da nossa. O resultado não pode ser outro senão a hipocrisia, tanto dos fiéis que seguem as doutrinas convenientes para cada ocasião ignorando as mais incompatíveis, quanto da própria igreja, que segue encobrindo os hábitos mundanos de seus sacerdotes para tentar manter uma insustentável aparência de santidade daqueles que servem diretamente à igreja.

Ainda que seja evidente, cabe ressaltar que a pedofilia nunca foi tolerada pela igreja e não é essa a mudança necessária, mas sim uma doutrina que não tenha a pretensão de anular o caráter humano que há por trás de cada religioso – desde um mero coroinha até o papa. 


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Regresso (The Revenant)

Mais uma vez o diretor Alejandro González Iñárritu apresenta um longa com fotografia impecável, que nos prende por cada detalhe minuciosamente estudado para que o resultado final seja um filme esteticamente irretocável e que, através de uma história bem específica, nos permite encontrar nuances de um universo muito mais amplo.

Ambientado no início do século XIX, o filme é baseado no explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio). É fundamental lembrarmos que os EUA desta época não tinham tanto peso político, as cidades eram pequenas e boa parte do território era inexplorado pelos colonizadores.

Até então a expansão norte-americana não fazia vítimas em outros continentes. Havia ainda a necessidade de exterminar os índios que habitavam o território há séculos e, ainda que o filme não enfatize a carnificina promovida pelos recém-chegados europeus, notamos que estava plantada a semente de uma ideologia baseada na expansão à força.

Basta olharmos para a atual população do país para ver o resultado da expansão dos colonizadores, porém o grupo retratado no filme estava de fato rodeado por perigos. Evidentemente os índios estavam defendendo suas terras e para isso não hesitariam em matar aqueles que tentavam mata-los, como se isso não bastasse ainda havia a grande quantidade de neve e os animais selvagens, como o urso que atacou Hugh Glass e o deixou à beira da morte.

O mais curioso é que a despeito de todos os perigos mais evidentes, é em seu próprio grupo que o protagonista encontrará o maior entrave. Todo o sofrimento do personagem – que muitas vezes é exagerado e completamente inverossímil – seria extremamente atenuado, não fosse o egoísmo e a descrença na sua recuperação por parte de um dos integrantes de seu grupo.

Se pensarmos a história do filme como o desabrochar da política norte-americana, o personagem John Fitzgerald (Tom Hardy) pode tranquilamente corroborar a teoria de Hobbes, um dos grandes pensadores da filosofia política. Ao observar as interações sociais que ocorrem no filme, é quase inevitável a conclusão de que precisamos mesmo de um contrato social que se por um lado limita as ações individuais, por outro garante a proteção contra a barbárie.

Mesmo que a época retratada por Iñárritu seja muito distinta da que vivemos hoje, ainda é extremamente forte na sociedade norte-americana a ideia de proteção individual através do porte de armas. O medo de que a violência legítima se restrinja ao Estado, porém seja insuficiente, forma um Estado beligerante que não impede o armamento de seus cidadãos.

Esse mesmo medo coletivo instiga uma ação preventiva contra qualquer um que possa oferecer uma leve ameaça. Vendo o filme podemos imaginar que Fitzgerald já havia dado sinais de que não era uma pessoa confiável, de forma que os outros integrantes do grupo de Hugh poderiam ter tomado uma medida preventiva. Da mesma forma, hoje qualquer um que seja apontado pelo governo como uma ameaça em potencial ganha a repulsa da população, com direito a apoio de ações preventivas.

Dependendo da forma como esse discurso é estruturado pode parecer tentador a ideia de violência como uma forma de justiça, afinal a ideia seria evitar que essa mesma violência fosse praticada pelo lado contrário. O que não podemos esquecer é que o conceito de justiça está sempre ligado a valores morais e sociais. Hugh Glass representa um colonizador europeu, cujos descendentes dominaram todo o território americano impondo valores e cultura.

Do ponto de vista dos índios essa justiça preventiva seria válida somente se eles atacassem os europeus ainda quando os barcos se aproximassem da costa americana, afinal foi a partir desta expansão colonizadora que as tribos locais foram dizimadas.

Pode parecer exagero estender uma história pontual para a formação de uma nação, porém ainda que Hugh Glass tenha tido a particularidade de sobreviver a um ataque de urso e posteriormente a tantos infortúnios, a base da expansão britânica em solo americano foi toda feita por grupos semelhantes.

Hoje essa expansão já está consolidada na América, mas ainda existe em inúmeros países, sobretudo no oriente médio, onde soldados americanos realizando ocupações que não visam à colonização e povoamento, mas que seguem matando habitantes locais e extraindo riquezas para o desenvolvimento econômico dos EUA e empobrecimento crônico dos países ocupados.

Citar a segurança para justificar uma invasão pode ser sedutor, afinal todos querem se sentir seguros. Só seria conveniente substituir a forma beligerante de solucionar conflitos pela diplomacia. Seria bastante vergonhoso concluir que diante de uma situação de perigo, que muitas vezes pode ser até imaginária, o máximo que conseguimos fazer é reagir instintivamente, feito um urso que defende a cria.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Metanoia

Com este longa o diretor Miguel Nagle toca em uma ferida muito sensível de nossa sociedade, sobretudo uma grande metrópole como São Paulo. O crack é um problema extremamente sério por ser a parte exposta de raízes muito mais profundas.

Quem nos guia por toda a trajetória de um usuário é o protagonista Eduardo (Caique Oliveira). Morador do Jardim Ângela, bairro pobre de São Paulo, que a princípio repudia usuários de crack, estigmatizados por boa parte da sociedade. Para desmistificar a ideia de que o problema é restrito à periferia, quem apresenta a droga para Eduardo, que até então só fumava maconha eventualmente, é Jeff (Caio Blat), de classe média e que mesmo tendo um estilo de vida bem distinto, acaba fazendo grande amizade com o protagonista.

É importante que a trama principal seja em torno de Eduardo para ressaltar tanto o contexto social quanto os custos de tratamento, reinserção social e dificuldades de superação que aparecem diante dos viciados, tornando ainda mais complexa a recuperação. A dependência pode atingir qualquer um, inclusive aqueles que em uma visão simplista tendem a criminalizar somente o usuário final, mas a falta de recursos torna qualquer problema mais complexo.

O crack tem duas características que somadas produzem um efeito devastador. É uma droga muito barata e que causa dependência severa em pouquíssimo tempo. Dificilmente se consegue manter um consumo moderado. Nossa tendência de procurar soluções fáceis faz com que uma opinião muito comum na sociedade seja a de que medidas repressivas por parte do Estado são essenciais diante da proliferação dos viciados.

Realmente, diante do cenário deplorável de uma cracolândia, é plausível que medidas urgentes sejam reivindicadas, porém um olhar mais atento a este cotidiano, que é parcialmente retratado no filme, revela pessoas que fazem verdadeiras insanidades por uma simples pedrinha que renderá apenas alguns tragos.

Fora das telas não são apenas jovens que abandonam a casa e deixam mães desesperadas; ainda que isso não seja pouco, as cracolândias colecionam histórias de pais até então dedicados que abandonam os filhos, meninas que se prostituem gerando gravidez que será nutrida com o crack, pessoas tradicionalmente trabalhadoras que passam a não hesitar em cometer crimes para conseguir drogas.

É no mínimo ilusório acreditar que esses extremos serão resolvidos com uma ação truculenta da polícia. A ação contra o crack deve ser preventiva, pois ainda que não exista solução fácil, evitar que uma pessoa se vicie é muito mais eficiente que tentar recuperar alguém que, em geral, pouco tem a perder caso continue se drogando.

O uso de substâncias entorpecentes é recorrente em toda a história da humanidade. Aparentemente o homem sempre buscou formas de alterar a realidade e obter prazer, portanto pensar em um mundo isento de algum tipo de substância desse tipo seria algo inédito, sem contar que socialmente existem divergências quanto à tolerância.

É evidente que isso não significa tolerar drogas sintéticas tão devastadoras para indivíduos e sociedade. O mais sensato é analisar os motivos que levam as pessoas a iniciar o uso e tentar coibi-los. Neste ponto voltamos para as profundas raízes que florescem na forma dos usuários de crack.

Apesar de existir pessoas de classes sociais mais altas que acabam viciadas, como Jeff, a grande maioria dos usuários tem origem pobre, buscando em vários entorpecentes um alívio para a dura realidade que os cerca. Se pessoas que abandonaram uma vida extremamente confortável e estável acabam resistindo à possibilidade de voltar para uma casa e sua família para continuar dormindo nas ruas, que dirá aqueles que já não tinham nada, para os quais a promessa de uma vida limpa das drogas seria aterrorizante. Apanhar da polícia, para muitos moradores da cracolândia, já era uma realidade muito antes do vício.

Filmes como esse têm um papel muito mais importante do que entreter. Nos transportam para um universo geralmente desconhecido e ainda que imperfeito, afinal é apenas um recorte da realidade, podem instigar reflexões que vão além do que notícias de jornal nos proporcionam. Por outro lado existe um peso sobre qualquer que seja a conclusão da história.

Sem dar spoilers é possível dizer que é comum uma busca de final redentor, que não reduza as esperanças daqueles que vivem o problema retratado. Ainda que pessoalmente o final tenha me incomodado, um filme que não tem a intenção de entreter também não tem a finalidade de agradar. O problema social do crack desagrada mais do que qualquer coisa que se exiba em uma tela de cinema.


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Carol

O filme do diretor Todd Haynes acabou ganhando como referência a história de amor entre duas mulheres. De fato, fosse um casal heterossexual o enredo não seria tão interessante e talvez sua filmagem nem tivesse sentido. Ainda assim, Carol traz mais do que um romance entre duas mulheres.

Filmado no passado, por volta dos anos 50, vemos o quanto alguns preconceitos seguem extremamente atuais, sendo que já deveriam ter sido superados há muito tempo. Intolerâncias que já deveriam ter sido historicamente sepultadas, sobretudo após eventos sociais importantes ocorridos na segunda metade do século passado, seguem atormentando indivíduos em suas esferas privadas.

À parte disso, os sentimentos expostos são muito mais compreensíveis. A protagonista Carol Aird (Cate Blanchett) está em meio a um divórcio não muito amistoso, no qual Harge (Kyle Chandler), legalmente seu marido, utiliza a guarda da filha como chantagem para manter o relacionamento.

Por acaso ela encontra com Therese Belivet (Rooney Mara), que tem um trabalho extremamente desagradável como balconista de loja e parece buscar alguma justificativa para uma guinada na vida.

Em ambos os casos nada impede que cada uma encontre na própria vida, de forma independente, novas motivações e caminhos a serem traçados, de forma a superar dificuldades passadas e tornar a vida mais interessante. Porém as duas estão em um período extremamente propício para que um novo relacionamento, intenso e revelador, auxilie as personagens nesse início de uma nova fase, que pode ser bem complexo.

O passado do filme poderia ser muito mais remoto se quisesse demonstrar a quanto tempo temos tido um cotidiano repetitivo e entediante. Nos acostumamos desde pequenos a acordar cedo e ir para a escola, depois para o trabalho, voltar para casa no fim da tarde e esperar pelo fim do dia. Até hoje as mulheres lutam por uma causa que ganhou força na época do filme, a de deixar claro que não existem para viver em prol do marido – por mais insano que possa parecer, muita gente ainda tem esse pensamento.

Essa rotina massacrante da qual conseguimos pequenas fugas reduz o potencial do ser humano. Uma das características que nos diferencia dos outros animais é a capacidade de escolha, de diversidade, de um aspecto múltiplo da vida. Não somos como bichos que acordam e passam o dia de forma instintiva – ou apertando parafusos, para voltar aos tempos modernos.

Tudo isso quer dizer que não há nada que obrigue Therese a seguir em seu emprego entediante, tão pouco que a faça aguentar o namorado e suas pressões. Ela poderia se arrepender de deixar tudo para trás e iniciar uma viagem com Carol, assim como o namorado disse que aconteceria, porém sem os riscos poucas coisas interessantes aconteceriam na vida de qualquer um. Só para o rapaz não é evidente o fato de que casar-se com ele não seria nenhuma garantia de acerto para Therese.

Carol é uma personagem mais complexa. Não tem a imaturidade de Therese e tem uma filha, que torna seu vínculo com Harge muito mais forte, além da pressão social mais intensa sobre uma mulher madura que, aos olhares mais tradicionais, teria passado da idade de aventuras. 

É possível pensar que o foco do filme não seja o machismo, pois ainda que esteja inevitavelmente presente por algumas atitudes de Harge, tentando principalmente subjugar a esposa às suas ordens, o que parece mais evidente no desenrolar da história é a reação imatura diante de um processo de separação, que pode estar presente em ambos os lados da relação, ainda que seja intensificada e geralmente agravada pelo machismo.

O curioso é que a mesma liberdade experimentada pelas duas personagens poderia ser igualmente posta em prática por Harge, que ao invés de mobilizar todo o aparato jurídico para tentar chantagear uma reaproximação, poderia chegar à conclusão um tanto elementar de que ter alguém ao nosso lado só é válido quando essa relação traz benefícios para ambos.

A eternidade do amor não se dá por nada além dos momentos agradáveis que foram compartilhados. Ainda que não exista nenhuma informação sobre o início do casamento de Carol, é bem provável que ela tenha vivido momentos marcantes com Harge, assim como os pequenos detalhes encantadores que agora são compartilhados com Therese. O que resta ao ex-marido é não fazer com que as boas lembranças se tornem arrependimentos.

Muito mais que a história de um casal homossexual, Carol é uma história de amor que tem muito a nos ensinar, já que a caracterização de tempo pretérito se dá muito mais pela fotografia do que pelos sentimentos retratados.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O vendedor de passados

Costumamos pensar no passado como algo distinto de nós. Algo que aconteceu a parte de nossa existência, o que daria margem para correções de fatos que supostamente poderiam manchar nossa imagem. É nessa linha que se desenvolve o longa do diretor Lula Buarque de Hollanda, adaptado do romance homônimo do angolano José Eduardo Agualusa.

O protagonista Vicente (Lázaro Ramos) cria um passado para as pessoas, reunindo fotos, vídeos, áudios – verdadeiros ou não – para que determinada característica seja ressaltada ou fatos sejam omitidos. Esta ilusão vem da esperança de que nossos problemas sejam externos, apenas um detalhe que aconteceu ocasionalmente, portanto podem ser omitidos, senão criados, para que nosso verdadeiro eu não seja prejudicado por isso.

Só não podemos esquecer que o que somos hoje não é mais que o resultado de fatos ocorridos no que chamamos de passado. Somos indissociáveis de tudo o que nos aconteceu. Assim, de pouco adianta criar ou remover alguns fatos, pois os traços reais moldam nossa personalidade, por vezes de forma inalterável.

Histórias baseadas em fatos passados quase sempre estão envoltas em mistério, que aqui aparece com a distinta personagem vivida por Alinne Moraes. Ela procura Vicente à procura de um novo passado, porém se recusa a fornecer qualquer tipo de material sobre sua vida. Quer uma história completamente nova, com apenas uma exigência, a de ter cometido um crime.

A vida moderna, em certa medida, nos cobra um passado hegemônico. Se por um lado cada história de vida é única, por outro somos cobrados por cumprir os estudos dentro de determinada faixa etária, entrar no mercado de trabalho, aprender um idioma, entrar na faculdade, etc. Tudo que corresponda às expectativas de nosso campo de possibilidades.

Não cumprir determinada demanda ou, pior, cometer algo que não se espera – como um crime – é algo que muitos gostariam de mudar para evitar problemas. Querer inserir um crime fictício em seu passado é algo difícil de compreender. Porém, Vicente vive garimpando objetos antigos, cada um com seu passado, e sabe que as pessoas não têm uma história, mas versões da mesma história, distintas de acordo com quem a recorda.

Há quem acredite que o ideal é mantermos uma vida sem mistérios, a personagem sem passado do filme prefere que a vida seja propriamente um mistério, o que a torna muito mais atraente e sedutora.

Somos tão condicionados a cumprir as rotinas sociais que quando conhecemos alguém que fuja do padrão não procuramos compreender suas causas ou aceitar de imediato seus motivos. Uma pessoa que escolha mudar radicalmente de carreira depois dos trinta anos dificilmente conseguirá um estágio, sem o qual terá suas possibilidades profissionais restritas.

Em um mundo corporativo a exigência é que as escolhas profissionais sejam feitas ainda na adolescência, quando muitos sequer imaginam o que querem fazer da vida. Porém o que chama mais a atenção é essa exigência se estender para relacionamentos não corporativos. Daí vem a necessidade da maioria dos personagens de comprar um passado. A ideia é tentar omitir uma particularidade indesejada.

Do lado oposto, o que mais atrai na personagem que não passa sequer um número de telefone ao vendedor de passados não é o inusitado de sua atitude, mas o mistério que instiga a querer saber mais, a conhecer e desvendar os detalhes com base em pequenas nuances.

Não há nada de errado em preferir pessoas ditas transparentes, ainda que essa transparência soe falsa na maioria das vezes, mas a ideia que fica do filme é que somos seres complexos, múltiplos e versáteis. Esperar que uma pessoa apresente uma autobiografia revelando todos os fatos já vividos e os projetos futuros é mais que uma ilusão, chega a ser um conformismo com a mediocridade da rotina.

Sem detalhar muito a história do filme para não frustrar nenhuma surpresa, em meio à trama é citada a ditadura militar argentina. Uma alegoria muito interessante para um filme que questiona a veracidade do passado. Em todos os países sul-americanos que viveram sob ditaduras militares, existem diversas versões sobre os motivos que levaram a ruptura democrática, quem foram os apoiadores e financiadores dos golpes, quantos civis foram torturados e mortos, etc.

O passado, tanto em um nível micro, como a da personagem do filme, quanto em um nível macro, como um longo período da história de um país, é formado por versões e reconstruído a cada narrativa. Em uma das frases marcantes do filme, a personagem misteriosa afirma: “você acredita em tudo o que te dizem”. Algumas pessoas, sim.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)

Em 1945, com a morte de Hitler, a guerra estava encerrada na Europa – ainda duraria mais alguns meses até a rendição japonesa e o término oficial. Na Alemanha, mais do que a reconstrução física foi necessária uma reestruturação política e ainda que Hitler tenha preferido o suicídio à rendição, a sociedade alemã ainda tinha vários membros do partido nazista que cometeram atrocidades durante o holocausto.

O longa do diretor Giulio Ricciarelli não aborda diretamente esse período, mas sim os resquícios dos julgamentos, mais de uma década após o fim da guerra. Aparentemente tudo estava resolvido, a ordem política reestabelecida e os responsáveis pelo genocídio devidamente punidos. Ainda que dividida pela Guerra Fria, a Alemanha parecia ter sepultado o terceiro Reich.

É através do procurador Johann Radmann (Alexander Fehling) que o filme mescla fatos históricos com um pouco de ficção para demonstrar que os bastidores do holocausto esconderam muitos segredos. Johann só queria cumprir seu dever, mas ao investigar pessoas envolvidas com os massacres do exército nazista percebeu logo que ainda havia muita sujeira escondida e que não seria nada fácil terminar esta limpeza.

A vontade de fazer justiça não era uma unanimidade e muitos viam nos assassinos de Auschwitz heróis de guerra, que estavam cumprindo ordens e fazendo o melhor pelo país. Infelizmente governos totalitários deixam seus seguidores, que por ignorância ou comprometimento fazem de tudo para justificar o inimaginável.

Um dos argumentos utilizados na tentativa de dissuadir o procurador é que os jovens passariam a questionar se seus pais foram assassinos. Parece evidente que aqueles que não cometeram crimes não teriam nada a temer, entretanto fica implícito neste argumento que os nazistas que de alguma forma auxiliaram na tentativa de extermínio de judeus e outras minorias deveriam, aos olhos de seus defensores, seguir impunes. A pretensa tentativa de não macular a moral paterna oculta o desejo de que o antissemitismo nazista fosse perpetuado de pai para filho.

Entre os investigados por Johann estava o médico Josef Mengele, que ficou conhecido por, após praticar experiências horripilantes nos campos de concentração, fugir para a Argentina, mudando depois para o Brasil, onde viveu em plena liberdade até o fim de sua vida.

Curioso Mengele acabar encontrando refúgio no Brasil. Formalmente o país lutou contra os nazistas, porém sua estadia foi no período de ditadura militar, em que civis eram presos, torturados e frequentemente assassinados pelo estado. Ainda que não tenhamos chegado ao extremo nazista, Mengele deve ter se sentido bem próximo de sua terra natal, com agentes do governo tendo carta branca para eliminar quem o Estado considerasse inimigo.

Morto antes do fim da ditadura, o médico provavelmente estaria em êxtase se vivesse hoje, afinal, além do Brasil não ter punido nenhum militar pelos crimes cometidos ao longo dos 21 anos de ditadura, ainda conta com uma parcela da população pedindo a volta do totalitarismo.

A história nos mostra continuamente que tentar ocultar crimes cometidos pelo estado não faz com que o passado seja esquecido e superado. Resquícios da ideologia que motivou os crimes ficam apenas latentes, prontos para voltar à tona assim que o impacto provocado pelo desmascaramento perder força.

Neste mesmo ano de lançamento do filme de Ricciarelli o livro Minha Luta, escrito por Hitler no período entre guerras, entrou em domínio público. A discussão na Alemanha é se vale a pena reeditá-lo, já que chegou a ser proibido após a Guerra. A única coisa que o livro faz é mostrar o quanto a ideologia do tutor do nazismo é insustentável.

Se o discurso de ódio aos judeus e a pretensão de fazer parte de uma raça pura já não fazia sentido na primeira metade do século passado, hoje, com os avanços da genética, é possível provar cientificamente que as suposições insanas de Hitler de uma raça superior às outras estão erradas, até porque a espécie humana não pode ser subdividida em raças.

Mais eficiente que proibir um livro ou tentar ocultar fatos amplamente documentados é a exposição e diálogo entre as várias gerações que sucederam a guerra. Fingir que nada aconteceu ou que tudo está superado só fortalece aqueles que por falta de conhecimento ou influências tendenciosas acreditam que a volta de um estado assassino é a solução para algum tipo de problema. Uma insanidade em qualquer lado do Atlântico.



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Natimorto

O diretor Paulo Machline trouxe para as telas todo o ambiente opressivo e misterioso do livro homônimo de Lourenço Mutarelli. Com muitas metáforas e algumas alegorias acompanhamos a obra que conta, na maior parte do tempo, com apenas duas personagens – o que deixa os diálogos densos e fundamentais.

É impossível dissociar a imagem de Lourenço Mutarelli da obra. Além de escrever o livro ele também encena o protagonista sem nome, agente que descobre um grande talento da música, a cantora lírica, também sem nome, interpretada por Simone Spoladore.

A partir desse encontro a relação de ambos passa a ser extremamente intensa e confusa. O agente tem hábitos bastante peculiares, como tentar prever o futuro utilizando imagens de maços de cigarro, tal qual um baralho de tarô. Há quem diga que essa é uma ideia tão insana quanto qualquer outra tentativa de olhar para o futuro.

Entre tantas perturbações pessoais o protagonista faz uma proposta que a cantora considera ao mesmo tempo absurda e tentadora: utilizar suas economias para viverem no quarto de hotel por vários anos, sem sair para nada.

O que fica gritante ao longo do filme é o cansaço do personagem diante dos percalços da vida. Não de uma dificuldade ou outra, mas da somatória de agressões diárias vindas de todos os lados. A solução para ele seria o isolamento total, se distanciando de qualquer contato com o mundo exterior. Não há no protagonista nenhum tipo de vitalidade para deixar o hotel e buscar novos projetos ou soluções para tantos problemas.

Mesmo que esse profundo estado depressivo não seja compartilhado pela cantora, que aceita dividir o quarto, mas não abre mão de sair e investir em sua carreira, é notável sua empatia com o agente. Talvez uma retribuição à oportunidade de vir para a cidade associada ao comodismo de um quarto compartilhado e mais barato, porém há também uma atração pela excentricidade das ideias e histórias do protagonista.

No sentido inverso, ele vê na cantora uma idealização de pessoa perfeita, imaginando que ela seria a única capaz de compreendê-lo e trata-lo da forma que ele gostaria. Essa busca de uma redenção também é frequente em casos graves de depressão, quando é criada pelo paciente uma situação platônica de espera pela perfeição, que evidentemente nunca chega.

Pode ser tênue a distância entre um comportamento patológico e outro excêntrico. Foi essa diferença, dissimulada pelo agente, que fez com que a princípio a cantora se satisfizesse com suas particularidades, até perceber que o mais provável seria a existência de algo mais grave do que uma personalidade marcante.

A brecha que Lourenço Mutarelli nos abre, perceptível também no filme, se dá pela relação de causa e consequência entre os períodos de lucidez e loucura de seu personagem, ou seja, não é difícil concordar com o sentimento de opressão que domina o personagem, afinal não faltam motivos para que às vezes possamos nos sentir agredidos pelo mundo e com vontade de um isolamento por completo; por outro lado nem todos cruzam a linha da insanidade, passando a por em prática verdadeiros absurdos.

O agente pode perfeitamente ser visto como uma pessoa perturbada que precisa de ajuda, mas não dá para ignorar os fatores que podem ter desencadeado essa patologia. Em uma sociedade extremamente agressiva que tenta padronizar ao máximo os comportamentos e frequentemente coibir as individualidades, é bem plausível que algumas pessoas simplesmente não consigam lidar com a pressão, sucumbindo de alguma forma.

A própria cantora mostra muita atração pelas ideias expressas. Talvez ela seja um contraponto que indica a situação não patológica das agressões sociais, quando os indivíduos expressam suas decepções e frustrações por um período determinado, voltando a retomar o ritmo de vida após viver a experiência do trauma. Já o agente deixa claro que todos os seus limites de tolerância já foram ultrapassados e em uma situação deste tipo dificilmente alguém consegue sair sem uma ajuda externa que de alguma forma mostre o caminho.

Foi o primeiro longa dirigido por Machline e a atuação de Mutarelli não é das mais profissionais, o que rendeu algumas críticas. Ainda assim o conteúdo do filme e as reflexões proporcionadas por ele não devem ser descartadas. Com diversas metáforas e ironias sutis, Natimorto traz o desconforto e o incomodo necessários para pensarmos em temas polêmicos e controversos.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Acima das nuvens (Clouds of Sils Maria)

O plano de fundo para o longa do diretor Olivier Assayas é a escolha das atrizes para a nova versão de uma peça de teatro, na qual a jovem Sigrid consegue seduzir e desestabilizar a experiente Helena. Com essa linha de raciocínio se estabelece um vínculo entre a fictícia peça, as personagens do filme e, até certo ponto, com as próprias atrizes.

A protagonista do filme é a atriz Maria Enders (Juliette Binoche, que não por acaso deu a ideia do filme ao diretor). Seu sucesso começou quando interpretou Sigrid e agora, com uma carreira já consolidada, Maria pode selecionar com rigor os convites que recebe, não somente para atuar, mas para entrevistas e fotografias. Para isso tem o auxílio de sua jovem assistente Valentine (Kristen Stewart).

Diante da possibilidade de voltar à peça que a consagrou, porém desta vez no papel de Helena, Maria fica muito hesitante. A alegação é a de que teve extrema identificação com Sigrid, não conseguindo agora se imaginar no papel da outra personagem. Com o desenrolar da história, algumas nuances indicam outra possibilidade.

Envelhecer, apesar de um processo inevitável da vida, é um medo muito comum, talvez ainda mais perceptível naqueles cuja profissão está diretamente ligada à imagem. Em uma sociedade patriarcal e machista, as mulheres costumam ter ainda mais pressão para manter a aparência jovem. Para Maria, aceitar o papel seria admitir para o mundo (e para ela) que sua idade já avançou o suficiente para que ela possa interpretar a mulher experiente da peça.

Mesmo bem sucedida profissionalmente, pelo que podemos acompanhar de sua vida Maria é bastante solitária, tanto que vê em Valentine mais que uma assistente. A moça acaba fazendo o papel de amiga, confidente, conselheira e por vezes passa a ideia de que isso só ocorre por estar sendo paga. Diante do que é apresentado da vida de Maria, parece que se ao menos ela tivesse um circulo de amigos da mesma faixa etária, teria o conforto de acompanhar o envelhecimento do grupo como um todo ao invés de acompanhar a passagem da própria vida, sem muitas referências mais próximas.

O contraponto dessa história é a atriz selecionada para viver Sigrid na atual versão. Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz) corrobora o estereótipo de atores da nova geração, que aparentemente conquistam mais pela beleza do que pelo talento. Se por um lado a interpretação de Maria tem muito mais qualidade do que a de Jo-Ann, por outro a atriz consagrada vê aquela que tem idade para ser sua filha como foco dos holofotes e flashes, fazendo com que fora do palco ela se torne uma mera coadjuvante de luxo para a menina que parece entender muito mais de escândalos do que de atuação.

Por mais que a protagonista conte com experiência pessoal e profissional, além de maturidade para lidar com uma situação deste tipo, o fato é que as pressões sociais que chegam sobre ela não são tão simples de serem assimiladas e trabalhadas. Racionalmente uma carreira de sucesso, sobretudo no cobiçado e hermético mundo artístico, é motivo de grande orgulho e satisfação. O que não elimina a frustração de ver alguém com menos talento sendo muito mais assediado.

Em um mundo voltado para resultados uma artista que enche um teatro é valorizada, porém qualquer coisa que leve milhões de espectadores às salas de cinema é economicamente muito mais lucrativo, assim toda a indústria prefere voltar sua atenção ao que trará mais dinheiro.

O que poderia atenuar a angústia de Maria seria o apoio de pessoas próximas, entretanto, como já mencionado, seu maior contato é com Valentine, sua assistente e grande admiradora de seu talento. Enquanto ambas riem dos escândalos pessoais de Jo-Ann a diversão de informalidade está garantida mesmo na relação profissional que serve de base para o contato das duas personagens. O problema é que Valentine não pertence à mesma geração de Maria, mas sim de Jo-Ann.

A assistente compreende o posicionamento de sua chefe e a conhece bem o suficiente para compreender o valor de seu trabalho, mas não despreza os valores de sua própria geração, inevitavelmente diferentes daquela que a precedeu.

Os conflitos entre gerações são inevitáveis. É bem provável que Maria, quando representou Sigrid na juventude, tenha despertado sentimentos semelhantes na atriz que fez o papel de Helena. Desta vez os sentimentos estão apenas mais intensos pelo fato da mesma atriz atuar depois de muitos anos.

O que sem dúvida poderia ser atenuado é o desconforto de Maria causado pela pressão social relacionada ao desprezo da velhice. Um dos vários problemas de vivermos presos à juventude é exatamente o sentimento de inadequação aos que se dão conta de que há uma nova geração fazendo o que eles já não têm condições.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Love

Assim como a sociedade, o cinema de tempos em tempos supera algumas barreiras e o que antes era impensável acaba se tornado até banal. O primeiro beijo – um simples encostar de lábios – foi um escândalo, a primeira nudez, a primeira insinuação sexual, etc.

O diretor Gaspar Noé costuma explorar a fundo tanto as barreiras sociais quanto as cinematográficas, e aqui não é diferente. Em uma trama que trabalha os conflitos de um relacionamento extremamente liberal, que não isenta o casal de problemas, não poderia faltar cenas de sexo, exploradas ao máximo também pelo marketing, já que não se trata de insinuação, mas de sexo real entre os atores.

A trama entrecortada que mescla presente e passado, utilizada em outras obras do diretor, mostra desde o início que o casamento de Murphy (Karl Glusman) com Omi (Klara Kristin) não chega a ser nem satisfatório, e o bebê do casal parece mais um entrave do que uma família nuclear.

De fato o casamento é apenas um galho secundário da trama principal, seu relacionamento anterior, com Electra (Aomi Muyock), que o personagem revive em suas memórias. A história de um relacionamento que por ser intenso e liberal, tem o sexo com presença constante, havendo, portanto a necessidade de que seja mostrado com a naturalidade que acontece no relacionamento.

Muitas vezes usa-se a fugacidade dos relacionamentos atuais para uma pretensa defesa do comportamento conservador da sociedade, sobretudo anterior à década de 60. Isso fica mais evidente quando, em contraponto à liberdade comportamental francesa, um dos expoentes máximos de maio de 68, temos um protagonista norte-americano. A princípio Murphy parece extremamente livre de amarras morais, até que certos entraves veem à tona.

A quebra de padrões por parte do casal não significa sentimentos menos intensos do que os tradicionais casamentos extremamente longevos. Ambos apenas se recusam a aceitar uma rotina cada vez mais morna que costuma se estabelecer após alguns anos de união, compartilhando aos poucos suas fantasias e sempre que possível colocando-as em prática.

Ao invés de pensar em um relacionamento menos intenso, que por isso abre mão da exclusividade, vemos no filme uma relação sincera ao ponto de não permitir que a monotonia destrua o ímpeto do casal. É possível que eles reprimissem suas fantasias mais ousadas em favor de viverem felizes para sempre, ao estilo conto de fadas, que costuma se transformar em fins de semana arrastados em frente à tevê, até que a rotina de trabalho durante a semana volte a separar o casal. Há quem chame isso de amor.

O filme não entra diretamente em fatos históricos, mas podemos facilmente relacionar seus temas com o desenvolvimento social recente. Os frutos da década de 60 na Europa, sobretudo na França, se espalharam pelo mundo, chegando aos EUA na forma do movimento hippie e no Brasil – que evidentemente não tem nenhuma ligação com o filme, mas cabe lembrar – através da tropicália.

Esses são dois exemplos de movimentos que pregavam (e praticavam) extrema liberdade, contestando diversos níveis de autoridade na luta pela autonomia individual. Não dá para dizer que retrocedemos, mas o fato é que tanto aqui como nos EUA alguns posicionamentos políticos atuais, fortemente ligados à moral, dariam a impressão de luta perdida àqueles militantes do passado.

Murphy é fruto desse mundo contemporâneo, com forte influência da moral tradicional e ao mesmo tempo moldada por uma geração que lutou pela desconstrução desses valores. Ao menos pelo que o filme indica, os franceses teriam essa questão mais bem resolvida, já Murphy acaba seguindo o cômodo caminho da hipocrisia.

Enquanto há a proposta de uma mulher como terceiro elemento na relação é muito fácil, em uma sociedade machista, aceitar a ideia e ser visto como uma pessoa de mente aberta. O difícil é ter que realmente desconstruir um valor moral, que de uma forma mais rasa pode até ser visto como a aceitação de outro homem, mas de uma maneira mais inconsciente, o que Murphy e todos aqueles que ele representa precisam é aceitar que a mulher com quem ele se relaciona pode ter desejos tão impactantes quanto os dele.

As relações inusitadas do filme não visam uma forma correta de interação, afinal o certo ou errado pode ser extremamente variável de acordo com os valores de cada um, cabendo ao casal definir seus limites e regras. O que é colocado com muita competência é a necessidade de uma coerência, para que um falso liberalismo não sirva de égide para o milenar machismo que rege os relacionamentos em favor do homem.

Só para não passar em branco, a prova de que o marketing se serve muito bem das cenas de sexo é o trailer oficial do filme. Poderia ser o trailer de um filme pornô, mas Gaspar Noé é mais que isso. 


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