terça-feira, 20 de julho de 2010

Uma noite em 67

Renato Terra e Ricardo Calil dirigem o documentário que nos leva para a noite de 21 de outubro de 1967. Época da televisão sem cores e sem o domínio das novelas e patrocinadores. Os grandes festivais eram o ponto forte da TV Record, que ainda não tinha nenhum vínculo com a igreja e diferente dos concursos de talentos promovidos atualmente, visava conquistar o público pelo conteúdo das atrações, mais que por exibições de quem busca os quinze minutos de fama.

Deste celeiro de talentos temos desde nomes mais que populares como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, até músicos igualmente competentes, apesar de não tão famosos. O filme é uma ótima oportunidade para lembrar – ou conhecer – aqueles que se tornaram ícones da música brasileira, os criadores do tropicalismo e, um ponto não muito explorado por não ser o objetivo do documentário, pessoas que usaram sua arte para expressar o engajamento político que os colocava contra a ditadura de um período bastante conturbado do país.

Após ver o filme fiquei instigado a procurar as letras e lê-las com mais atenção – principalmente depois de ver que Caetano e Chico não se lembram das letras inteiras, não preciso me envergonhar por não me lembrar de todas. É interessante o fato de em uma única noite terem sido apresentadas tantas canções que marcam até hoje a carreira dos compositores, e como deve ter sido difícil o trabalho dos jurados para hierarquizar os trabalhos até chegarem a uma única música vencedora (Ponteiro, de Edu Lobo). Apesar da letra não ser a única análise dos jurados, o equilíbrio era mantido em todos os aspectos com a inovação de ritmos, a mistura de Gilberto Gil com os Mutantes, Chico Buarque com o MPB-4, Caetano Veloso e Beat Boys e a parceria de Edu Lobo e Marília Medalha com o Quarteto Novo.

Em tempos de “Créu”, “Rebolation” e afins, é inevitável lançar um olhar saudosista sobre aquela época. É evidente que a qualidade da música pode ser encarada como fator subjetivo e que obras com letras fúteis foram lançadas inclusive ao longo do período dos festivais, não sendo lembradas hoje por terem sido suprimidas pelas obras primas, cantadas até hoje, mesmo contra a vontade de alguns dos interpretes.

O que acaba chamando muita atenção no filme são os depoimentos nos quais os músicos dizem não sentir saudades daquela época, sendo este sentimento referente apenas ao vigor da juventude. A princípio isso seria quase impensável, por se tratar de um evento com participação popular tão efusiva e que até hoje praticamente não recebe críticas negativas, entretanto não é demais lembrar que apesar da ênfase do filme não ser o período conturbado pelo qual o país passava, a ditadura militar – quando excluído o romantismo da luta contra o opressor, que muitas vezes seduz alguns jovens a dizer que prefeririam ter vivido naquela época do que na apatia atual – foi muito duro aos que estiveram dispostos a utilizar sua arte como resistência. Muitos daqueles jovens músicos foram presos e exilados por militares que permaneceram impunes no decorrer da história.

Os diretores retrataram uma única noite de nossa história. O resultado é pontual e apesar do período curtíssimo, a importância é enorme para nossa cultura, que até hoje colhe frutos do tropicalismo e os benefícios de ter artistas engajados, que expandem as fronteiras da arte para além do entretenimento.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Boleiros – Era uma vez o futebol

Ainda em clima de Copa do Mundo resgato este longa de Ugo Giorgetti, lançado em 1998 e que retrata diversos estereótipos do futebol como o juiz subornado, bastidores de um clássico, cobranças da torcida, pensões que jogadores devem pagar para os filhos não planejados, etc. Tudo contado por velhos boleiros em uma mesa de bar, muitas vezes com clima saudosista do tempo em que o futebol não era tão assediado pelos homens de negócios.

A atuação dos coadjuvantes muitas vezes é ruim ao ponto de incomodar quem assiste, mas esse fato é compensado pelas histórias – engraçadas ou comoventes – e pela possibilidade de matarmos a saudade de Rogério Cardoso, interpretando um ex-árbitro e de Flávio Migliaccio, que dá um banho de interpretação com o fictício ex-craque Naldinho. Mais que as histórias apresentadas no filme, bastante claras e retomando pontos importantes do futebol, cabe aqui aproveitar o espaço que o filme abre para uma análise do futebol e sua força na sociedade, já que a estimativa foi de três bilhões de espectadores durante a última copa – cerca de 50% da população mundial.

Para o sociólogo alemão Norbert Elias, a sociedade canalizou para os esportes a atenção que antes era despendida às guerras. Sem entrar em pormenores da obra de Elias, podemos imaginar, ou pior, lembrar do que significa a metade dos seres humanos vivendo um ambiente de guerra, como em 1942 e 1946, quando a Copa não ocorreu devido à II Guerra. Não dá para dizer que não temos guerras devido ao futebol, tão pouco que os esportes são necessários para que as guerras não aconteçam, já que a prevenção destas na atualidade se dá por maturidade política e responsabilidade com a sociedade, ao invés da economia. Porém nem toda guerra tem o atual caráter de dominação, como mostrou Florestan Fernandes em seu estudo sobre a tribo dos Jês, onde a guerra não tinha a intenção de matar e dominar o próximo, mas fazia parte do cotidiano, quase como uma atividade lúdica. Sendo assim a atividade esportiva é fundamental, sendo o futebol a prática majoritária, que poderia ser substituída por qualquer outra modalidade – seriam mantidas as características positivas e negativas, as polêmicas, os estereótipos etc.

Em um evento como a Copa muitas divergências vêm à tona, e a grande maioria de forma recorrente ao longo de cada edição. Na mesma proporção que o patriotismo, que aflora durante um mês a cada quatro anos, aparece a indignação com a atenção dedicada a um evento supostamente sem utilidade prática. Mais que opiniões certas e erradas, chama a atenção o fato do futebol, apesar de estar no centro da discussão, ser coadjuvante para os argumentos. Que a alienação de grande parte da população existe, é inegável, mas acreditar que a Copa do Mundo, ou mesmo o futebol como um todo, seja protagonista deste fato é no mínimo inocente. No país do carnaval, o que nos diferencia das outras nações que idolatram o futebol é a recorrência de temas únicos que param o país. Emendando sucessivas datas supostamente importantes para que o povo esqueça temporariamente os problemas, agentes detentores do poder conseguem, de forma muito competente, adiar eternamente qualquer manifestação social contra absurdos políticos tão recorrentes, sendo o futebol apenas uma das ferramentas utilizadas, cuja a ausência pode ser substituída até pela notoriedade de crimes bárbaros.

Com tudo isso, o melhor a fazer diante da grandeza que se tornou uma partida de futebol é reconhecer o valor do espetáculo, capaz de entreter, divertir e gerar ótimas histórias de boteco, como podemos ver em Boleiros. Todavia a sociedade não se restringe aos campeonatos e para evitar que problemas tomem o lugar do lazer, inclusive no mundo do futebol, como apresentado em algumas histórias do filme, é indispensável que os horizontes sejam ampliados para além dos gramados, que têm papel importante, mas não central.

Não encontrei o trailer no Youtube (o que para mim é um grande absurdo), então segue um trechinho da primeira história.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Quincas Berro D´água

Sérgio Machado apresenta sua adaptação à novela “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, de Jorge Amado, trazendo mais que uma comédia, pois mantém a tradicional descrição dos cenários baianos, tão característicos nos romances do escritor, e explora muito bem problemas sociais e a relação familiar do mais que finado Quincas.

O senhor Joaquim Soares da Cunha era funcionário público, tinha mulher e uma filha, Vanda (Mariana Ximenes). O salário satisfatório proveniente da repartição e a família estável davam ideia de uma vida perfeita, entretanto faltava-lhe algo; não suportava a rotina de ter que aguentar padrões de comportamento, de aparências e fingir que o relacionamento com sua mulher era perfeito. Ao romper com o estilo burocrático de vida e aproximar-se da vida boêmia de Salvador tornou-se Quincas, posteriormente Berro Dágua, e consequentemente rompeu os laços com a família que passou a renegá-lo.

As novas amizades de Quincas refletem a herança de uma sociedade com bases escravocratas. Não tão evidente no livro, Sergio Machado deixa bastante clara a diferença entre a família, que não chega a ser rica, mas vive sustentando aparências baseadas no que almeja, e os novos amigos, vistos como inferiores e formando a escória da sociedade. Provavelmente o que mais dói para a filha não é apenas o fato do pai ter se aproximado dos descendentes de escravos, que vivem em bares e bordéis, mas também o fato dessas pessoas proporcionarem ao pai um bem-estar maior que a família, e o ambiente de farra proporcionando maior satisfação que o emprego público que é tradicionalmente supervalorizado.
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O que a princípio seria apenas uma comédia nos faz pensar como a felicidade é uma busca ininterrupta em nossa sociedade, porém poucos aceitam que cada um tenha sua própria ideia sobre o que é ser feliz. A família nunca negaria que Joaquim Soares da Cunha buscasse a felicidade, desde que a encontrasse na sociedade de aparências que mãe e filha (jararacas, segundo Quincas) impunham, não em bares, bebendo com os amigos e transformando-se em uma lenda entre boêmios – que no filme se restringe a poucos personagens, mas no livro Jorge Amado mostra maior abrangência da importância de Quincas Berro Dágua. Se a história em si é característica de ficção, seu conteúdo se aproxima muito da realidade, principalmente no livro, no qual as peripécias dos amigos com o cadáver são restritas a poucas páginas e a ênfase está no conflito das duas classes em questão. Não é necessária uma grande busca para encontrarmos exemplos que dão corpo à imposição de comportamento entre as pessoas, formando relações tensas nas quais o que um espera do outro extrapola os limites da individualidade. Ou seja, não basta que o outro seja feliz, mas deve ser feliz a minha própria maneira. Parece absurdo, mas não é tão incomum.
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Sergio Machado transpôs muito bem a obra para a linguagem cinematográfica, explorando os recursos visuais para expor as imagens que Jorge Amado descrevia tão bem em suas obras, divulgado a Bahia de forma brilhante. Paulo José interpreta Quincas e consegue destaque mesmo no papel de morto; notamos em seu semblante o sorriso discreto e debochado ao qual o escritor se refere e sua narração dá apoio à algumas partes do filme.
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Entre livro e filme, o recomendado é conferir os dois! Cada um com sua particularidade, extraindo o melhor que o tipo de linguagem tem a oferecer. Dá para dizer que o filme complementa a obra original com a construção da imagem, explorando as nuances das expressões faciais, das vestimentas, de cada personagem em seu contexto com o cenário e principalmente através do monólogo final. Sem estragar eventuais surpresas o texto, ausente no livro, resume muito bem a essência da vida de Quincas, com a metáfora que aproxima a imensidão do oceano e os enigmas da morte.
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Não bastassem todas essas abordagens mais profundas, temos ainda o lado cômico garantido pelo grande elenco que traz o lado despojado de grande parte da sociedade baiana, que supera as dificuldades e adversidades com muito bom humor.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Samsara

Este belo filme nos mostra o deserto de Ladakh, na Índia. Rodeado por montanhas, o lugar proporcionou uma fotografia impecável ao longa de Nalin Pan, com algumas cenas lembrando o filme Camelos também choram, já comentado neste blog. Em meio a paisagens onde não podemos ver uma única árvore até onde a vista alcança está localizado o mosteiro Samsara, no qual monges budistas seguem suas vidas entregues à devoção religiosa. Muitos são deixados entre os monges ainda pequenos, com cinco ou seis anos, como o protagonista Tashi (Shawn Ku).

Após passar toda a infância e adolescência no mosteiro, para cumprir um ritual, Tashi passou três anos, três meses e três dias meditando – antes de pensarmos que são coisas de cinema, monges budistas garantem que isso é possível – e é resgatado pelos amigos muito magro, pálido, com cabelos e unhas imensos, levando certo tempo para sair o estado de letargia provocado por tanto tempo imóvel. Logo notamos um ponto muito bem trabalhado pelo diretor que são os sutis cortes de cenas para demonstrar a passagem do tempo. O comprimento dos cabelos, alguns detalhes do cenário ou algumas deixas nas falas substituem os dispensáveis “tantos meses depois”.

Readaptado ao cotidiano Tashi estaria pronto para seguir sua vida religiosa, mas quanto os instintos podem influenciar sobre a razão? O jovem monge começa a ser atormentado por sonhos eróticos e as ereções noturnas denunciam isto aos demais; para piorar ele se depara pela primeira vez com o seio nu de uma mãe prestes a amamentar, que mexe com seus sentimentos; depara-se com a bela Pema (Christy Chung); e certa noite tem uma polução. Quando um monge superior o questiona sobre seus desejos Tashi chega à conclusão que até mesmo o Príncipe Siddhartha Gautama, Buda, viveu quase trinta anos longe da clausura, e com este forte argumento optou por deixar Samsara.

Aqui aparece a primeira clivagem que o filme indica. Tashi toma um banho no rio, uma espécie de passagem que indica o abandono da vida voltada totalmente para a espiritualidade e o ingresso na vida mundana. Ao encontrar acidentalmente com Pema o casal proporciona a cena de sexo em que o diretor age de maneira brilhante, cortando as cenas de forma a oscilar a posição dos atores, virando o mundo de cabeça para baixo e fazendo com que ambos levitem em meio ao prazer. Mesclando sensualidade e delicadeza Nalin Pan faz a tomada perfeita, livre de vulgaridade e explorando os sentimentos provenientes de vários sentidos.

Entretanto nem tudo são flores na vida do jovem indiano. No pequeno vilarejo em que agricultores vendem a colheita para sobreviver Tashi se depara com sentimentos como inveja, tentações, ciúmes, etc. Ao tentar melhorar as condições de vida local, vendendo a colheita diretamente ao invés do tradicional intermediário, que pagava pouco e roubava ao fazer a pesagem do trigo, notamos mais uma clivagem. Aqui mais uma vez o longa se aproxima de Camelos também choram, pois em ambos os representantes de uma pequena e isolada vila vai até a cidade e notamos a discrepância dos estilos de vida. Aqui notamos que é uma história contemporânea devido à placa anunciando “Internet, acesse o mundo daqui”, mesmo em uma cidade do interior da Índia, bem diferente de uma metrópole. O sogro de Tashi abandona as vestimentas habituais, trocando-as por boné, óculos escuros, jaqueta, etc. e para as crianças trazem brinquedos industrializados, criticados por Pema, pois as crianças sempre fizeram seus próprios brinquedos.

A vida mundana de Tashi é atormentada por notícias de seu mestre, Apo (Sherab Sangey), que está muito doente. A estima pela vida religiosa que teve durante a infância e adolescência deixa o agora pai de família dividido. Traria mais satisfação abandonar a família e voltar ao monastério, ou abrir mão da vida espiritual a qual se dedicou desde os seis anos?

Em meio à grande dúvida particular surge com muita força a presença de Pema. Até então as escolhas de Tashi haviam sido individualistas, agora a esposa exerce sua influência, a responsabilidade de uma vida a dois e lembra que a história machista dos homens minimiza a importância de Yashodhara, esposa do Príncipe Siddhartha, antes deste se tornar Buda. Em um belo monólogo Pema lembra que Siddhartha é lembrado por abandonar uma vida de riquezas para vivenciar as mazelas do mundo, mas poucos pensam que abandonou também sua esposa e seu filho Rahul. A história menospreza a influência de Yashodhara colocando, como sempre, os méritos para os homens e relegando o ostracismo às mulheres.

Para saber se Tashi seguiu os passos de Buda deixando a família em prol da vida religiosa ou se ficou ao lado da esposa e filho é necessário ver o filme, que no final revela o enigma “como fazer com que uma gota d’água jamais seque”.


Só encontrei o trailer legendado em francês, mas não é difícil encontrar o filme em português.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O banheiro do Papa (El baño del Papa)

A parceria entre Brasil, França e Uruguai nos trouxe essa obra dirigida por Enrique Fernandez e Cesar Charlone, que mostram a fictícia visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, no Uruguai. O evento mexe com o cotidiano pacato dos pobre habitantes locais que costumam ter hábitos simples e uma rotina pouco chamativa.

A fonte de renda mais comum é a dos bagageiros que viajam até Aceguá, no Brasil, para contrabandear mercadorias para consumo local. A grande maioria deles fazem a longa viagem de bicicleta, sendo que poucos afortunados podem contar com uma motocicleta para, além de facilitar o trabalho, aumentar a renda devido a maior rapidez do serviço. A grande dificuldade dos bagageiros está na barreira montada na estrada pelo exército, para controlar o fluxo de mercadorias, obrigando um desvio no trajeto que já não é curto. Quando parados pelos militares, podemos ver os bagageiros humilhados pelos soldados, menosprezando seus serviços, vangloriando o exército e mostrando o legalismo exacerbado ao deixar claro que poderiam passar sem problemas pelas trilhas, mas não pela estrada, onde o exército é solicitado para fazer vigia. O problema pelas trilhas é o que seria o “rapa” local, que também confisca mercadorias.

Quando a visita do Papa se aproxima, os habitantes com forte tradição religiosa não ficam felizes pela oportunidade de serem abençoados pelo pontífice, mas pelos turistas brasileiros que o evento traria. A maioria dos habitantes sacrificaram todas as economias, muitos venderam seus bens para comprar comida e improvisar barracas para a venda de sanduíches, tortas e diversas outras iguarias para os supostos milhares de turistas. É interessante pensarmos que a religião está fortemente ligada aos centros comerciais, desde a Idade Media que unificava os cruzamentos de rotas comerciais com centros religiosos, dando origem à muitas cidades importantes, até os dias atuais, com cidades como Aparecida do Norte, onde uma espécie de indústria religiosa é formada ao redor do templo que atrai tantos fieis.

Em Melo a família que guia a história tem como patriarca o bagageiro Beto (Cesar Troncoso), que com sua simpatia inigualável chega a lembrar Ramón Valdez, o eterno Seu Madruga. Beto não chega a se empolgar com a ideia de vender comida aos turistas, mas em meio às dificuldades econômicas pensa em ganhar dinheiro com a visita do Papa construindo um banheiro. A ideia inusitada ganha legitimidade no contexto de uma cidade extremamente pobre e simples, retratada pelos cineastas com cores bastante pálidas ao longo do filme, o próprio banheiro da casa de Beto é uma precária casinha de madeira fora da casa.

Carmen (Virginia Mendez) é a esposa de Beto, contrária à ideia de ganhar dinheiro com o evento religioso. Seus princípios éticos indicam que isso seria passível de alguma punição divina e isso ressalta a supremacia do capital frente à espiritualidade, pois toda religiosidade latente da população fica em segundo plano diante da possibilidade de uma vida melhor. A vizinha de Carmen indica que castigo maior que o de Deus são os políticos que governam a cidade. A crítica não é em relação à atitude dos habitantes, mas um alerta em relação à maior necessidade de condições de vida digna do que instituições ligadas à espiritualidade.

Beto vê sua filha Silvia (Virginia Ruiz) sonhando ir para Montevidéu para concluir os estudos e ser jornalista, ele ainda vislumbra uma motocicleta para facilitar as longas viagens e dar descanso ao joelho prejudicado após tantas pedaladas e como qualquer pai de família, gostaria de dar uma vida mais confortável aos que dele dependem. É através de um banheiro para alugar aos turistas que ele tentará realizar seus sonhos, mas ainda é necessário comprar material e construir um sanitário em seu terreno, e isso não é nada fácil, já que a esposa não é favorável a utilizar as poucas economias que seriam destinadas aos estudos de Silvia. Até onde Beto estaria disposto a chegar para conseguir o dinheiro para a construção é o que vemos no longa e a pergunta que fica é até que ponto podemos censurar qualquer atitude do uruguaio, que como tantos outros da cidade entregaram suas vidas na tentativa de ascensão através da curta visita do Papa.

Os moradores que investiram no comércio para aquele dia teriam elementos para identificar um suposto exagero nas expectativas em relação à visita, ou foram fortemente estimulados pela mídia que sempre se esforça em construir a grandiosidade, mesmo que em eventos modestos? É possível indicar uma leve semelhança com Tropa de Elite, pois em ambos fica implícito que uma visita do Papa é indicada sempre como perfeita, repleta de paz, felicidade e espiritualidade. Mas os bastidores nunca são mostrados. Evidentemente que a comparação entre os filmes para por aqui.

Como já é indicado no início do filme, só o azar impediu que os fatos relatados na obra acontecessem de verdade, pois os elementos de fato são plausíveis. A fé em segundo plano diante das necessidades materiais, a ética posta de lado diante de uma condição extrema, a limitação – para não dizer inutilidade – de uma visita papal para uma população carente diante de suas reais dificuldades, todos os elementos que podem ser identificados em qualquer visita real.

Um filme simples, com momentos engraçados e que consegue unir diversos pontos criticáveis de uma sociedade que demanda tantos direitos e atenção.


terça-feira, 8 de junho de 2010

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate)

Esta foi a primeira parceria de Tomás Gutiérrez Alea com Juan Carlos Tabío, pois a saúde de Alea já estava debilitada. Um filme extremamente sensível, focado em diálogos talentosíssimos nos quais estereótipos opostos são articulados, formando algumas metáforas que, como é característico nas obras de Gutiérrez, podem ser usadas tanto para criticar quanto para apoiar o regime cubano, dependendo da tendência política de quem assiste.

Aqui vemos David (Vladimir Cruz), filho de camponês que graças à revolução tem acesso à universidade, entretanto seria o que chamamos no jargão político de “massa de manobra”. Aceita tudo o que é imposto pelo governo, sem ousar questionar, tal qual uma doutrina religiosa. Em seu caminho aparece Diego (Jorge Perugorría), homossexual assumido, que sofre discriminação como em qualquer país do mundo e transborda cultura, citando desde autores mais populares como Woody Allen e Hemingway, até Cavafis, poeta helênico cuja obra é permeada pela temática homossexual. Diego não é contra a revolução, tão pouco deseja a intervenção estrangeira, mas indica que o regime cubano tem falhas como qualquer outro – ou alguém diria que a “democracia” norte americana é perfeita depois da crise econômica recente? – e aos poucos essa relação entre o machista extremista e o homossexual com ideias alternativas vai sendo lapidada, com pitadas de humor e muita emoção.

As nuances do filme chamam a atenção para pontos interessantes, amplamente abertos para interpretação. As poucas cenas externas mostram pobreza, mas nunca miséria; Nancy (Mirta Ibarra) que é amiga de Diego mostra sua religiosidade expressa por um misto de catolicismo com candomblé, que indica não só o amalgama de religiões africanas e ocidentais como vemos no Brasil, mas também o simples fato de cubanos terem religião e expressá-la, que seria um fato normal, não fosse a maneira tragicômica como o tema é tratado mundo afora por contrários ao regime; entre os pequenos trechos de músicas apreciadas por Diego está uma obra de Ignacio Cervantes, que o personagem indica ter sido expulso de Cuba, e este fato nos leva a criticar o regime castrista, até a revelação de que o artista foi expulso pelos espanhóis, antes da independência – cabe aqui deixar claro que Cervantes teve que deixar o país ao ser descoberto quando fazia diversos concertos pelo país afim de arrecadar fundos para a luta pela libertação da então colônia.

É possível notar que os motivos podem ser distintos, mas os problemas enfrentados em Cuba podem ser sentidos fora da Ilha. Basta tentarmos fazer uma exposição artística no Brasil, para utilizarmos o exemplo do filme, já que Diego luta para isso o tempo todo, para nos depararmos com a burocracia, coibindo a arte que continua incompreendida por boa parte da população. A própria questão da homossexualidade transcende as fronteiras cubanas, uma vez que o comportamento machista de David e da sociedade como um todo poderia ser encontrado em qualquer país do mundo, pois ainda que São Paulo organize uma parada gay que reúne milhões de pessoas, homossexuais continuam sendo assassinados devido à orientação sexual. Desta forma, mais que um debate que se limita a defender ou rechaçar o regime cubano, Gutiérrez e Tabío nos dão material para muita reflexão sobre nós mesmos e problemas onipresentes.

Uma interpretação possível para a metáfora de morango e chocolate é a junção benéfica de duas substâncias distintas, com características bastante peculiares, uma natural, outra processada, que são boas individualmente, mas podem ser melhores em conjunto. Assim como o produto gerado pela proximidade de David e Diego, cada um com seus ideais que, quando em contato, podem influenciar um ao outro de forma benéfica, dialética e produtiva.

Um excelente trabalho de um revolucionário que apoia o regime cubano de forma inteligente, indicando pontos falhos com o intuito de aprimorá-los e tem liberdade para expor sua obra no país, mesmo com suas críticas. Gutiérrez apenas peca na última cena, pois de tão bem feita, mereceria ser mais longa. Jorge Perugorría dá um banho de interpretação que culmina em uma linda cena, que independente de qualquer posicionamento político, merece ser vista.


Não encontrei nenhum trailer legendado em português.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Notícias de uma guerra particular

A princípio este parece ser mais um filme sobre o aparentemente interminável conflito entre policiais e traficantes, desta vez sob a ótica de Katia Lund e João Moreira Salles. A diferença não está apenas no fato de ser um documentário, isento de fabulações, mas ainda que todo documentário esteja subordinado à visão do diretor, aqui a dupla trabalhou com as principais partes envolvidas, ou seja, ao longo do trabalho vemos entrevistas de moradores, policiais e traficantes, intercaladas. A comparação nos permite identificar conclusões em comum dos três setores, além de percebermos que diferente das brincadeiras infantis de polícia e ladrão, na vida real mocinhos e bandidos não são tão facilmente distintos.

O maniqueísmo que o senso comum tenta impor é quebrado pelos próprios policiais quando o então chefe da polícia civil, Hélio Luz, dá declarações polêmicas, assumindo a corrupção entre policiais – fato que seria inegável – e dizendo claramente que a polícia garante a segurança dos ricos, pois na favela é necessário manter a ordem e a ferramenta para isso é a repressão. Poderíamos pensar na legitimidade do uso da força pelo estado para estabelecimento da ordem, não fosse pelas declarações de moradores afirmando que antes do domínio do tráfico os policiais entravam na favela com muito mais agressividade, pois não havia reação dos moradores, e os papeis se misturam a partir do momento que moradores tinham eletrodomésticos e objetos de maior valor levado pelos policiais, que alegavam ser produto de roubo, ainda que sem provas.

Evidentemente que com isso não podemos concluir que há uma simples inversão de valores, pois se por um lado o tráfico supre certas necessidades dos moradores, que seriam dever do estado, é latente a crueldade com que dívidas são cobradas e que crimes são cometidos. Ainda que, segundo traficantes entrevistados, o surgimento do crime organizado tenha sido para melhorar a vida de presos e dos próprios moradores da favela, com o intuito de “regulamentar” a violência entre traficantes rivais e oferecer resistência frente à polícia, é indispensável lembrar que os envolvidos com o tráfico de drogas entram para o crime ainda muito jovens e têm toda sua formação marcada pela banalização da violência.

Ainda que uma porcentagem baixa da sociedade entre para a criminalidade – como bem lembrado por Hélio Luz, se essa fosse uma opção generalizada o crime não seria um estado paralelo, mas tomaria o poder de fato – já é um número significativo para abalar a sociedade como um todo, e isso desconstroi a opinião do policial que considera uma guerra particular os conflitos na favela. Pela fala dos três setores entrevistados não é difícil perceber o que leva os jovens à marginalidade. É muito clara a diferença entre os que não entram para o crime e optam por trabalhar nos empregos legalizados, sentindo as consequências de um estado omisso em relação à qualificação profissional. Geralmente com pouco estudo, o salário baixo do subemprego é quase fatídico e o alto lucro do tráfico torna-se extremamente sedutor por proporcionar condições de manter um padrão de consumo mais elevado. Muitos preferem uma vida curta a uma longa exploração legal.

Talvez o maior consenso do filme seja a indicação da miséria como fonte dos conflitos. Essa percepção com base no cotidiano é comprovada por pesquisas que não colocam os municípios mais pobres como mais violentos, este posto é ocupado pelos mais desiguais. A discrepância entre o padrão de vida de um trabalhador e um traficante; a diferença de tratamento pelos policiais entre um morador de favela e um bairro nobre; a omissão do estado para uns e a corrupção para outros. Todos esses fatores que podem parecer repetitivos e cansativos, mas que persistem há séculos, com pequenas mudanças de forma, mas com o eterno conteúdo de exploração culmina em um documentário como este.


O filme pode (e deve) ser assistido integralmente no Youtube.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sobre meninos e lobos (Mystic River)

Sobra talento individual neste longa dirigido por Clint Eastwood, a começar do próprio. Em adaptação do livro homônimo, Eastwood faz um filme policial em Hollywood, entretanto descontroi diversos estereótipos e na maior parte do longa fica distante da abordagem convencional de diretores norte-americanos. Não se trata de um bang bang moderno com tiroteios pelas ruas movimentadas, nem do maniqueísmo que separa mocinhos e bandidos tentando eliminar qualquer ponto em comum entre ambos. Vemos uma mistura de meninos e lobos – um bom título em português – representada pelos protagonistas, que podem estar ora de um lado, ora de outro da linha extremamente tênue, se não inexistente, entre o certo e o errado.

Os referidos protagonistas são nada menos que Jimmy (Sean Penn), Dave (Tim Robbins) e Sean (Kevin Bacon), três amigos na infância que o tempo, com influência do sequestro de Dave, reduziu a vizinhos distantes. Até neste ponto o roteiro mistura bem e mal, pois uma tragédia, alfinetando a pedofilia na igreja católica, separa os amigos que só voltam a ter contato e a revisitar as memórias após outro fato trágico, desta vez com a família de Jimmy.

O título original, Mystic River, remete ao rio que corta a cidade de Boston, mas também forma uma interessante metáfora para a história cercada de mistérios e personagens mergulhados em si, cada um com suas mágoas de forma a beirar o ocultismo. As vidas carregadas por um passado bastante traumático desencadeiam fatos que culminam em um quebra-cabeças para o agora policial Sean e seu parceiro Whitey (o coadjuvante (!) Laurence Fishburne). Mesmo sendo guiado pelo mistério de um crime não solucionado, não é este o ponto forte do filme, pelo contrário, pois a dúvida não chega a prender tanto a atenção e as hipóteses que tentam montar vários suspeitos são facilmente desconstruídas.

Chama a atenção a densidade dos personagens e a fragilidade da história construída por nuances que só funcionam se estiverem cuidadosamente estruturadas de forma impecável. Esse encadeamento dos fatos culminando em um ponto específico é citado no próprio filme quando Jimmy diz que a mãe de Hitler cogitava um aborto, o que poderia ter mudado a história da humanidade. E com quantas pequenas tragédias cotidianas não nos deparamos durante a vida? Fatos inexplicáveis nos quais há tantos detalhes, individualmente irrelevantes, mas indispensáveis ao todo, que, talvez por comodidade, culpamos o destino.

Por fim, adeptos da justiça com as próprias mãos e defensores da pena de morte, sobretudo diante da confissão do criminoso, talvez tenham que reestruturar seus argumentos depois do que o enredo nos apresenta. Será válido analisar um fato sem levar em conta sua história, para que uma decisão tão drástica e definitiva seja tomada? Com que legitimidade nos colocamos do lado dos meninos, se a qualquer momento um destes – talvez nós mesmos, dependendo do ponto de vista – age como um lobo? O trabalho de Eastwood mostra uma lógica segundo a qual cada detalhe é tão relevante e tão frágil que a qualquer momento uma tragédia pode encobrir a outra.



quinta-feira, 6 de maio de 2010

As melhores coisas do mundo

Laís Bodanzkiy mergulhou no universo dos adolescentes de classe média alta através do personagem Mano (Francisco Miguez), e com os estereótipos bem encaixados dos elementos que circundam o jovem a diretora consegue evidenciar fatos cotidianos que nos levam a contestar alguns paradigmas sobre esta conturbada fase da vida e sua relação com a fase seguinte, dos pais.

A ideia bastante consensual transmitida aos filhos é a de que eles estão vivendo em uma fase sem problemas ou preocupações, uma vez que não precisam se preocupar com o pagamento das contas ou o sustento da família. Entretanto esta visão simplista do que são as “verdadeiras” dificuldades remete ao fato de que os problemas que ocorrem conosco sempre parecem piores do que os das outras pessoas. Ao passar pelo filtro do tempo os pais parecem esquecer as angustias, as pressões e os sentimentos intensos desta fase naturalmente cheia de dúvidas, em que ainda não estamos plenamente inseridos nos processos sociais e acreditamos que tudo é definitivo e dramático.

A opinião unanime dos jovens é a de que os pais cometem erros bobos e quando tiverem filhos tudo será diferente, pois a relação será pautada na amizade. A doce ilusão chega ao fim quando os filhos nascem, crescem e, quando chegam à adolescência, estragam tudo, ou seja, todo o planejamento de uma relação amigável cai por terra devido à personalidade do jovem não ser condizente com a construída pelos pais quando eles eram adolescentes. Apesar de ser fácil concordar que é necessário respeitar a individualidade, as vontades e a personalidade do outro, na prática tudo fica diferente quando este “outro” é alguém com quem sonhamos há anos, com cada detalhe de comportamento, preferências, etc.

Não é apenas dessa forma subjetiva que a diferença entre o que achamos correto e o que achamos correto que aconteça conosco aparece no filme. Sem querer estragar surpresas, Bodanzky trabalha muito bem temas polêmicos que as pessoas costumam tolerar sem problemas, desde que só aconteça com os outros. A intolerância é mais curiosa entre os mais velhos, pois seria de se supor que a maior bagagem cultural e o acumulo de experiências vividas servissem para trabalhar os fatos de forma mais eficiente, sem a herança do romantismo que é tão presente nos jovens, e bem abordado no filme pelo personagem Pedro (Fiuk); mas na adolescência os desdobramentos de atitudes hostis podem não ter um final tão harmonioso quanto a fabulação permite nas telas.

A hostilidade no ambiente escolar é antiga – tanto que qualquer um que assiste ao filme reconhece algumas situações como familiares –, a diferença é que hoje o desenvolvimento da tecnologia, que facilita as pesquisas escolares e contribui para a formação dos estudantes, também pode ser utilizada para fazer com que pequenos fatos da vida particular dos alunos tornem-se públicos. Somando os insubstituíveis hábitos de troca de bilhetes e comunicações mais tradicionais com as mensagens de texto, blogs, etc., a escola continua sendo o ponto chave dos processos de socialização pelos quais todos passamos; o lugar onde acontecem as melhores coisas do mundo, mas ao mesmo tempo bastante coercitivo.


Para terminar, uma nota a parte: a magia dos Beatles parece mesmo eterna, como Laís Bodanzky nos mostra através de Something. Certa vez me disseram para nunca confiar em alguém que não gosta do quarteto de Liverpool, e tenho comprovado isso empiricamente =)



segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Fita Branca (Dass Weiße Band)

A Fita Branca teve indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Não ganhou a estatueta e de fato não era para tanto, pois apesar de muito interessante o corte final ficou muito longo, com trechos cansativos. O diretor austríaco Michael Haneke mostra aspectos da sociedade alemã pouco antes da Primeira Guerra, indicando que aquele modo de vida culminou na geração do nazismo, duas décadas mais tarde. Uma ideia talvez sedutora, fortemente baseada nas teorias de Theodor Adorno, porém o fenômeno nazista é complexo demais para ser reduzido apenas a uma única explicação.

A história ocorrida na pequena vila alemã é narrada pelo professor de música (Christian Friedel), que deixa claro já no início se tratar de um relato pessoal, portanto parcial, e que são acontecimentos importantes para compreender os eventos dramáticos ocorridos na Alemanha posteriormente.

Mais importante que os fatos é o contexto em que eles ocorrem. Haneke nos mostra uma sociedade protestante, com adultos moralistas impondo leis draconianas às crianças, o pastor (Burghart Klausner) chega a amarrar as mãos do filho Martin (atuação muito marcante do jovem Leonard Proxauf) para que ele não se masturbe, porém a hipocrisia é revelada quando os defensores da moral têm atitudes extremamente machistas e chegam a abusar das próprias filhas – fatos ocorridos há um século que lembram as recentes acusações de pedofilia na igreja católica. Quando Martin se equilibra sobre o corrimão de uma ponte, alegando dar a Deus a chance de matá-lo, vemos a metáfora da vida das crianças, sempre no fio da navalha entre o pecado e a arbitrariedade dos adultos.

É nessa sociedade em que estranhos atentados acontecem. Tentativas de assassinato, um incêndio criminoso, crianças encontradas com sinais de tortura e vários detalhes que nos lembram os horrores do Holocausto. Por desobedecerem ao pai, os filhos do pastor devem andar com uma fita branca atada ao corpo, tal qual os judeus eram marcados na Alemanha nazista para serem diferenciados da suposta “raça pura”; entre as crianças vemos Karli (Eddie Grahl) que tem síndrome de Down e é uma das vítimas agredidas, assim como deficientes foram alvo de extermínio dos nazistas, para os quais um estado beligerante não deveria tolerar aqueles que não poderiam servir ao exército. E seguem algumas nuances que indicam a relação daquelas crianças com a geração que promoveu o Holocausto.

Na dúvida de quem seria o autor dos crimes cometidos na vila até as crianças são suspeitas e chama a atenção o fato da suspeita ser plausível, ou seja, mesmo a narrativa da história sendo parcial – pois quem narra a história é o professor que começou a suspeitar da idoneidade das crianças – não seria impossível que as vítimas do autoritarismo tenham se voltado contra os agressores, ainda que a resolução dos crimes não seja o alvo do filme, sendo impossível concluir sem dúvidas quem é o criminoso.

Evidentemente a descrição de fatos de uma pequena vila não basta para finalizar as causas do nazismo, e esta explicação é no máximo uma peça do quebra-cabeça que forma o Holocausto. Apesar do filme não ser uma grande obra prima, vale a pena ser visto, se não pela suposta origem do nazismo, pela transição da sociedade e uma verdadeira inversão de comportamento. Enquanto hoje vemos as pessoas presas à juventude eterna, buscando rejuvenescer a qualquer custo, no início do século XX tínhamos a infância suprimida, com as crianças forçadas à vida adulta desde as vestimentas até a forma de agir e de serem punidas (ou agredidas).


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sonhos Roubados

Sonhos Roubados é a versão cinematográfica da diretora Sandra Werneck para o livro “As meninas da esquina”, de autoria da jornalista Eliane Trindade. O filme é o retrato da vida de três adolescentes que vivem em uma favela carioca - poderia ser em qualquer outra cidade - têm famílias bastante desestruturadas e descobrem cedo as durezas da vida, como o contato constante com a violência em suas diversas formas, o tráfico de drogas e a prostituição como um meio rápido, porém nada fácil, para conseguir dinheiro. No longa, algumas histórias foram unificadas para dar ritmo ao trabalho e algumas partes suavizadas.

Atualmente, a crítica imediata ao enredo do filme é a de que o cinema nacional está viciado em violência, pobreza, sexo e temas do tipo, entretanto o argumento pode ser facilmente refutado, visto que as últimas grandes bilheterias não abordam quaisquer destes temas. Além do mais, os cineastas que desejam filmar um pouco da sociedade brasileira cairão inevitavelmente nos problemas que a permeiam. Logo as críticas caberiam não aos filmes, mas à estrutura social que produz os elementos abordados nos mesmos.

Conforme Machado de Assis já indicava em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a pobreza não reduz o desejo do indivíduo às necessidades extremamente básicas, sendo que mesmo aquele que pede esmolas deseja mais que a indispensável alimentação. Esta característica ganha força na sociedade atual, com o consumismo muito mais cultuado do que na época machadiana, e as adolescentes retratadas, como não poderia deixar de ser, também são suscetíveis à moda, ao consumo e às tendências que chegam aos jovens, sejam eles de classe média sustentados pelos pais, sejam da periferia precisando buscar sustento logo cedo e lidar com tantos obstáculos.

As amigas, Jéssica, Sabrina e Daiane (Nanda Costa, Kika Farias e Amanda Diniz, formando a nova geração do elenco) sonham com um namorado, com roupas novas ou uma festa de 15 anos. Tudo muito simples, não fosse a gravidez que chega de forma inesperada, os abusos sexuais dentro da própria casa por parte do tio pedófilo, o pai ausente que insiste em manter a indiferença diante da filha, que sonha com a figura paterna idealizada, e uma infinidade de fatos que chegam a parecer fabulação aos que estão distantes dessa realidade, mas que grande parcela da população conhece bem – aliás, a parcela que não vai ao cinema, logo, a que não opina sobre o suposto viés monotemático dos filmes nacionais.

Há grande atuação também dos atores consagrados, coadjuvantes do filme. Marieta Severo encena a cabeleireira Dolores, que na medida do possível ajuda Daiane oferecendo emprego em seu salão (cujo salário a menina complementa com a prostituição), orientando-a a denunciar o Tio Pery (Daniel Dantas) e a cobrar pensão do pai (Ângelo Antônio). Nelson Xavier é o avô de Jéssica, o idoso que precisa manter a oficina de bicicletas para aumentar um pouco a renda da família, ao invés de descansar e aproveitar a aposentadoria, que neste caso é um sonho inatingível.

Diante das várias propostas de roteiro que Eliane Trindade recebeu para seu livro, optou pelo de Sandra Werneck, sendo um dos motivos o desejo de dar um olhar feminino para a história. O resultado é um filme que mostra uma realidade infelizmente mais comum do que pensamos, sem julgamentos ou lição de moral, que critica de forma competente as diversas faces da violência sexual, desde o milenar machismo até a falta de escolaridade e formação profissional – quando Sabrina está grávida, por exemplo, lhe resta entregar panfletos no sinal para ganhar dinheiro, serviço menos censurável, mas menos rentável.

O livro e o filme podem trazer à tona um tema que não agrada, mas não seria mais pertinente mudar as condições de vida do que as temáticas abordadas?


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Utopia e Barbárie

Silvio Tendler é o diretor que consegue destaque no cinema nacional mesmo com documentários, gênero que costuma chamar a atenção apenas de um público bastante específico. Desta vez sua obra é um recorte histórico da segunda metade do século XX, mostrando as utopias de uma geração sedenta de mudanças e as barbáries promovidas pelos detentores do poder.

O longa é formado pela colagem de montagens que levou 19 anos para ser concluída. Este tempo fora do comum é facilmente compreendido ao pensarmos no formato do filme, que é praticamente uma aula de história e como tal, pode começar de um ponto específico escolhido pelo narrador – aqui é o período pós Segunda Guerra, com algumas imagens do holocausto –, mas não é fácil colocar um ponto final.

A ideia inicial seria começar os relatos com depoimentos sobre a segunda guerra; passar pelo ano de 68, que para Tendler e tantos outros revolucionários teve vários eventos orgásticos; relatar acontecimentos na Europa, América, África e Ásia; até a queda do muro de Berlin, que inicialmente marcou o fim do século. Porém houve o ataque às torres gêmeas, que prorrogou o marco do fim do século fazendo com que até Hobsbawn cometesse o equívoco de falar em “breve século 20” após o fim da União Soviética.

Ao prolongar o filme ao “novo fim do século” Tendler pode abordar o resultado da primeira eleição presidencial no Brasil após a ditadura militar, que para a geração do diretor, em contraponto ao ano orgástico de 68, foi uma das maiores brochadas da história. Após o atentado de 11/9 veio a eleição de um operário para a presidência do Brasil, de um índio para a Bolívia, de um negro para os EUA, a maior crise econômica desde 1929, ou seja, o encadeamento de fatos históricos tornaria este trabalho interminável, e só chegou ao fim com a eleição de Barack Obama por definição do diretor.

Outro ponto sempre difícil, mas talvez agravado neste tipo de documentário, é a edição final. Após juntar muito material, entrevistas com mais de 60 pessoas entre cineastas, historiadores, filósofos, vítimas de barbáries, etc. foi necessário colocar tudo em 120 minutos. Evidentemente que muitas partes tiveram que ser cortadas ou resumidas, mas isso não chega a comprometer a versão final.

Além de apresentar a história através de entrevistas com importantes atores políticos e imagens históricas – algumas bastante cruas e difíceis de assistir, porém o que sentimos ao ver é apenas um vislumbre dos sentimentos de quem viveu as situações – o filme nos instiga a pensar nos dias atuais e até mesmo no futuro, pois a montagem de Tendler é permeada por discursos e atitudes similares, quando não cíclica. Ao vermos no início do filme a tentativa norte-americana de justificar as bombas atômicas como necessárias para fazer com que as pessoas parassem de sofrer, temos a impressão de que há uma cartilha pronta de como justificar atos de terrorismo, já que Obama quando (pasmem) recebeu o prêmio Nobel da paz, afirmou em seu discurso que algumas vezes (acreditem) a guerra é necessária para chegar à paz.

Para o Brasil o filme passa a imagem de melhora em relação aos tempos de ditadura, indiscutível e consensual, principalmente para a geração do diretor. Só não podemos esquecer, entre tantas coisas que o filme nos lembra, de que a democracia não se resume às eleições periódicas e de que democracia institucional é muito pouco se comparado a necessidade urgente de democracia social pela qual nosso país grita – principalmente a classe formada pelos milhões de brasileiros abaixo da linha da miséria, sem citar números devido à imprecisão e a vergonha que isso acarretaria.

Silvio Tendler nos traz um filme importante para aprendermos e lembrarmos muitos acontecimentos não tão distantes. É triste saber que é um documentário, não uma obra de ficção, para podermos olhar para cenas deploráveis que os detentores do poder proporcionaram e recorrermos à famosa frase “só em cinema mesmo”. Mas já que todos os fatos são reais, o melhor é não esquecer os crimes, menos ainda das impunidades. (até o momento da publicação deste artigo temos 46 anos e 9 dias desde o início da ditadura militar no Brasil, sem um único militar punido)


segunda-feira, 29 de março de 2010

Babel

A Babel bíblica é o palco da famosa torre cujo objetivo da construção era chegar ao céu e unir a população. Porém a ideia foi frustrada por Deus que deu línguas diferentes aos povos, fazendo com que a comunicação durante a construção da torre fosse impossibilitada. Já a Babel de Alejandro Gonzáles Iñarritu mostra os problemas da falta de comunicação, que não envolve apenas empecilhos promovidos por diferentes línguas, mas também por choque culturais, intolerância em diversos níveis e o individualismo levado ao extremo, uma característica cada vez mais evidente no mundo moderno.

Um caçador japonês viaja ao Marrocos e presenteia o guia local com um rifle, pelo bom serviço prestado. Sua filha Chieko (Rinko Kikuchi) é surda e muda; uma adolescente que tem as grandes dificuldades da adolescência agravadas pelo problema de comunicação. Sentindo-se rejeitada a garota decide buscar a iniciação sexual, ainda que com algum desconhecido, procura o conforto das drogas para vencer a inibição, mas sempre esbarra em dificuldades que frustram seus planos de inserção social.

No Marrocos os irmãos Ahmed e Yussef (Said Tarchani e Boubker Ait El Caid) saem para brincar com o rifle que o pai comprou para defender a propriedade de chacais. Em meio às inconsequências da infância, disputando para ver quem atira melhor, Yussef dispara contra um ônibus de turistas estrangeiros. Ao ver que a brincadeira havia tomado um rumo inesperado as crianças tentam esconder o rifle e fingir que nada havia acontecido.

Um casal de norte americanos, Richard e Susan (Brad Pitt e Cate Blanchett) deixam os filhos com uma babá mexicana, Amélia (Adriana Barraza), e viaja ao Marrocos contra a vontade de Susan. Eles sentem na pele o que um mal entendido pode acarretar, sofrem com o descaso e o individualismo dos demais turistas de seu grupo e superam os desentendimentos internos do casal após muitos problemas ao longo do filme.

Nos EUA uma imigrante ilegal quer participar do casamento do filho no México. Sem outra opção resolve levar as crianças que estavam sob sua tutela juntamente com seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal). Aparentemente não haveria com o que se preocupar, mas eles precisavam voltar para os EUA de forma ilegal.

O filme é bastante complexo, o suficiente para que esta breve abordagem seja bem superficial, mas é com o entrelaçamento dessas histórias que Iñarritu nos mostra peculiaridades interessantes, como diferenças e semelhanças de sociedades distintas e a maneira com que personagens reagem diante de tantas adversidades. Todo o trabalho é mostrado com estereótipos bem marcados que, se por um lado irritam um pouco pela generalização, por outro deixam claro o ponto a ser evidenciado.

Na Babel filmada a linguagem comum a todos os cenários é a violência, não necessariamente a coerção física, mas muitas vezes velada como um modo de dominação. Para a filósofa Hannah Arendt, quando não há diálogo a violência é inevitável para a resolução de conflitos, e no longa a falta da comunicação é demonstrada de várias formas. Notamos a presença de seis idiomas diferentes, a linguagem de sinais de Chieko, abismos culturais que parecem intransponíveis e diante de tantas divergências, um caminho que conflui para o uso da força.

O que haveria de comum entre a sociedade marroquina e a norte americana? A força desmesurada de seus policiais contra a população, tal qual um policial brasileiro tomando uma favela. Apenas os policiais japoneses mostram-se mais preparados, porém não enfrentaram nenhuma situação de tensão para uma comparação mais precisa. Atualmente, após um período de grande tolerância da população diante da violência civil, causada por governos autoritários, que indiretamente incitavam até pensadores como Jean Paul Sartre a apoiar reações severas do povo, esta forma de violência é cada vez mais rechaçada. Em contrapartida há em alguns países, majoritariamente fora da Europa, tolerância e apoio da população às ações enérgicas da polícia, por coibirem um tipo de atitude condenável. Depois de assistir ao filme torna-se ainda mais pertinente um olhar crítico para o modo de agir da polícia, questionando o velho chavão de agir primeiro e perguntar depois.

Outro ponto presente nas entrelinhas, mas que pode gerar grandes questionamentos é o papel da mídia. Evidentemente que a imprensa livre é fundamental e inquestionável em qualquer estado que almeje o bem estar de sua população, entretanto como cobrar o compromisso da mídia com a verdade? Pois é notável o poder dos meios de comunicação de transformar, intencionalmente ou não, um fato isolado em grave incidente diplomático. É uma questão relevante diante da divulgação de materiais preconcebidos sobre temas como armas nucleares, confrontos políticos, atitudes governamentais e tantos outros que circulam por campos extremamente minados.


Não encontrei o trailer legendado, mas acabei gostando, pois entra no clima de Babel =)

terça-feira, 16 de março de 2010

Feliz Natal

Não confundir com o homônimo francês de Christian Carion. Este é o primeiro longa dirigido pelo consagrado ator Selton Mello, que também escreveu o roteiro com Marcelo Vindicatto. A história mergulha na família do protagonista Caio (Leonardo Medeiros), proprietário de um ferro-velho – fato curioso após a revelação de um fato de seu passado –, ovelha negra da família de classe média sustentada pelo seu irmão, o bancário Theo (Paulo Guarnieri). Evidentemente a direção pode ser criticada em alguns aspectos, mas não há nenhuma grande falha, ou seja, tudo dentro do esperado para uma experiência inicial.

A metáfora do Natal ilustra a trama de “essência x aparência” explorada ao longo do filme. Assim como a data tem seu significado ofuscado pelo consumo e os apelos para aquecimento da economia, a família – cujo sobrenome não é revelado – tem duas faces distintas. Caio chega à bela casa de Theo na véspera do Natal e encontra uma bela decoração, a festa reúne amigos e parentes empolgados com a troca de presentes e as maçantes músicas natalinas, por outro lado as relações familiares são tensas. Sua cunhada Fabiana (Graziella Moretto) o trata com frieza; Theo pede para que o irmão não apronte nada; o pai, Miguel, (Lúcio Mauro) demonstra raiva ao ver o filho e ignora as tentativas de contato; sendo que sua mãe, Mércia (Darlene Glória), é a única a receber bem o filho e demonstrar efusivamente a saudade que sentia. Não por acaso a matriarca da família tenta fazer alusão à verdadeira comemoração natalina, mas é ofuscada pela nora e termina falando sozinha.

Além das frias relações pessoais, cada personagem da casa demonstra pontos moralmente questionáveis. Os patriarcas, separados, vivem brigando e sustentados por Theo – Miguel para comprar Viagra e corresponder a namorada bem mais nova; Mércia para sustentar o vício em bebida e barbitúricos. O próprio Miguel apenas traz dinheiro para casa e acata ordens de todos. Fabiana tenta administrar a casa, os conflitos e os problemas, entretanto, assim como seu marido, não é capaz de dar atenção aos dois filhos pequenos, que recorrem à internet quando querem aprender o significado de alguma palavra.

Fugindo deste ambiente Caio reencontra velhos amigos. Em um estereótipo de casa habitada só por homens (bagunçada, suja, com comida estragando e muita cerveja) Caio encontra a verdadeira amizade e demonstrações calorosas de afeto, ausentes na família. Seus amigos Neto e Thales (Thelmo Fernandes e Cláudio Mendes) representam um laço com seu passado. Caio é um personagem obscuro, misterioso e intimista – bem mais que o próprio filme – e aos poucos, de forma bastante satisfatória, o longa oferece dicas indiretas sobre seu passado, como peças de um quebra-cabeça que devemos montar ao assistir. A história do protagonista vai ficando mais clara com o desenrolar do filme, e desvendamos inclusive a cena tensa em que ele revela quem está sepultada no túmulo que procura no cemitério da cidade.

A obra termina como certo maniqueísmo às avessas. A ovelha negra com o bônus de lentamente superar traumas e problemas do passado, estruturando nova vida mesmo sem o apoio da família. E o ônus fica com o orgulho da família, o bancário que vê seu império desmoronando por uma série de problemas.

Apesar das críticas que sofreu, talvez por ser um filme bem diferente dos que Selton Mello costuma atuar, é um ótimo trabalho da nova geração de diretores brasileiros. Vamos aguardar “O Palhaço” que Mello lançará em breve.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Histórias de amor duram apenas 90 minutos

O roteirista Paulo Halm já havia mostrado seu talento em diversos longas como Guerra de Canudos (1997) ou Amores Possíveis (2001). Desta vez, além de escrever o roteiro, Halm assumiu com competência a direção deste filme que traz a história de um complicado triângulo amoroso, permeado por cenas cômicas e fazendo referências à obras literárias.

Zeca (Caio Blat) é o protagonista. Sonhando em ser escritor, o personagem tem um promissor romance na cabeça, mas não consegue escrevê-lo. É sustentado pela mesada do pai e seus hábitos lembram o byronismo, pessimista, angustiado, mas ao mesmo tempo egocêntrico e na eterna busca de um relacionamento amoroso perfeito, que tenta sanar com Júlia (Maria Ribeiro). Não haveria nada de errado se Zeca fosse um adolescente que, como tantos outros, vivesse os ideais do romantismo. O problema é que ele já tem trinta anos e poucos resultados concretos na vida.

Sua esposa aparenta ter muito pouco em comum com ele. Júlia é professora e dedica-se ao sonho de fazer seu mestrado em Sorbonne, sendo que este projeto toma a maior parte de seu tempo e muitas vezes ela recusa a atenção de Zeca para não prejudicar os estudos. Uma de suas alunas é Carol (a argentina Luz Cipriota), que talvez seja a personagem mais carioca do filme, aproveitando os prazeres da Lapa e das praias do Rio.

Quando a amizade entre professora e aluna estende-se para fora da sala de aula Zeca, apesar de seu estilo de vida digno de escritores do romantismo, tem uma atitude de Dom Casmurro, personagem mais conhecido do realismo, suspeitando de que sua mulher esteja lhe traindo com Carol. As semelhanças machadianas param por aqui, pois o desenvolvimento da história acarreta em uma sequência de atitudes imaturas de Zeca – lembrando algumas vezes o personagem Cristiano que Caio Blat interpretou em Cama de Gato, apesar de este ter sido muito mais trágico – e como todo adolescente perdido, é ao pai que o jovem recorre.

A presença de Daniel Dantas é curta, porém muito marcante tanto para o lado cômico (assim como a de Hugo Carvana), quanto para compreendermos o protagonista. O pai acredita muito no potencial do filho e joga para ele a própria esperança, frustrada, de ser escritor. Os constantes mimos ao longo da vida fizeram com que Zeca ficasse acomodado até os trinta anos, sem maturidade para solucionar os problemas ou traçar metas concretas que rompam a barreira dos sonhos.

Carol em determinado momento é o elemento que inspira a vida de Zeca, como a realização de seus desejos que servem para inspirar seu romance inacabado e dão sentido para sua existência, porém o triangulo amoroso é insustentável, e a ideia fixa de que Carol e Júlia têm um caso persiste. A resolução deste impasse cabe ao personagem que finalmente tem uma responsabilidade da qual não pode fugir.

É interessante a presença de Zeca como narrador, pois seria um elemento dispensável, mas sua existência indicando claramente se tratar da narração de um filme sugere que a obra a ser composta pelo personagem, a princípio um romance, acabou sendo um filme; não de ficção sobre a vida de outras pessoas como ele sonhava, mas sobre sua própria vida.

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