terça-feira, 29 de maio de 2012

O Corvo (The Raven)



E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á nunca mais! 



Os escritos geniais de Edgar Alan Poe tiveram reconhecimento tardio. O grande responsável pela notoriedade do escritor foi Baudelaire, que ao traduzir as obras para o francês chamou a atenção dos fãs de literatura para a qualidade das obras, ricas em mistério, terror e criatividade. Com linguagem rebuscada, apesar de objetiva, Poe segue como autor ímpar em seu estilo, talvez sem tanto reconhecimento quanto merece.

Com personagens muito focados no aspecto psicológico, cujos distúrbios ou insanidades podem explicar muitos casos aparentemente sobrenaturais, os contos de Poe são pouco explorados no cinema. As histórias fantásticas já ganharam algumas adaptações, que costumam ser conhecidas principalmente entre os amantes do chamado cinema de arte. Este longa, do diretor James McTeigue, traz uma saída interessante para abordar a obra de Poe e dar notoriedade ao autor.

Inspirado nos livros, não há uma história adaptada, mas um roteiro de ficção formado pelo recorte de várias obras, mantendo o clima de suspense, investigação e uma pitada de terror, com a presença do próprio Edgar Alan Poe (John Cusack). É evidente que não há nenhuma pretensão de documentar a vida do escritor e mesmo as obras citadas são distintas do original, já que o terror de Poe, conforme citado, é focado no psicológico. No filme, por ter como guia um fã do autor que coloca em prática suas ideias mirabolantes, as cenas de terror são mais diretas e explícitas, o que evidentemente segue uma prática, sempre questionável e criticável, de seduzir os espectadores.

O que chama a atenção no longa é a transição existente na mente brilhante de Poe entre sua vida e sua obra. De fato as verdadeiras ações da vida do autor ocorreram majoritariamente em suas obras, relegando à realidade uma existência sofrida, bastante dura em todos os sentidos e, sobretudo solitária. A principal companhia de Poe eram mesmo seus personagens, que provavelmente viviam um duplo de sua própria personalidade. Meticulosos, detalhistas, calculistas e extremamente tensos em suas ações, tal qual seu criador.

Entre as várias histórias citadas no filme, algumas apenas com leves menções, como o incêndio que remete os fãs ao conto “O gato preto”, uma delas não é sequer citada, porém a essência do conto “Willian Wilson”, no qual um misterioso duplo do protagonista o persegue, vivendo como uma sombra misteriosa de seu próprio eu, pode ser identificada, ainda que não tenha existido a intenção desta analogia no roteiro. No filme, o assassino que tem como base as histórias de Poe – sem nome aqui, para não estragar nenhuma surpresa – pretende claramente seguir como uma espécie de duplo do autor, dando corpo à mente do escritor que possuía incrível capacidade de fantasiar a realidade, tornando-a fantástica, quem sabe com a intenção de uma fuga da própria vida angustiante que teve.

Ainda que o tipo de violência do filme seja muito mais explícito do que é sugerido nos contos, não chega a ser uma falha na adaptação, já que a fidelidade ao texto não era a intenção do filme. Seguindo a mesma mudança de literatura para cinema, o grande amor de Poe no longa é Emily Hamilton (Alice Eve), que apesar de manter o estilo angelical das descrições femininas do escritor, corresponde em parte às complexas histórias de amor, tanto dos escritos quanto da vida real de Poe. O escritor sempre permeou sua vida com amores platônicos, sendo que os poucos concretizados sempre acabaram por trazer mais sofrimento à sua difícil vida. Nas obras é possível encontrar personagens mais próximos a Emily, que pode até corresponder ao amor, mas de forma alguma chega a ser factível.

Para unir os diversos elementos trazidos às telas, há o detetive Emmett Fields (Luke Evans), uma versão do personagem August Dupin, que por sua vez representa toda a meticulosidade de autor. Não tão ativo no filme, Fields tem seu trabalho complementado pelo próprio personagem de Poe no desfecho do mistério central da obra, o que também aproxima mente e corpo, pois Dupin traz muito de seu criador e é uma tradução muito clara do estilo de vida que, baseado na contemplação do que o cerca, tira conclusões precisas e encantadoras.

A produção de McTeigue pode ser criticada por muitos aspectos, sobretudo pela tentativa exagerada de tentar dar um verniz moderno a uma obra que retrata meados do séc. XIX, porém a ideia de colocar o escritor em contato com suas próprias obras, fazendo uma espécie de ponte entre o que Poe vivia e escrevia, é bem interessante. O desfecho que cria uma versão para a morte do escritor é apenas uma parte da trama, afinal Edgar Alan Poe morreu em circunstâncias muito menos misteriosas do que tentam nos passar. Um período mais difícil que o normal culminou no consumo excessivo de álcool, levando a um coma alcoólico nas sarjetas de Baltimore. Como toda sua vida, o desfecho foi bem menos romântico que o de suas obras.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Shame


O protagonista Brandon (Michael Fassbender) é o estereótipo do estilo de vida moderno em grandes cidades. Vivendo sozinho em um apartamento de Nova York, ele tem um bom emprego, sem grandes laços afetivos e permeia suas atividades cotidianas com sexo, virtual ou real, porém mantendo distância de relações duradouras.

O diretor Steve McQueen consegue criar um conflito muito interessante em seu longa quando Sissy (Carey Mulligan) aparece de repente para morar com o irmão Brandon. A partir de então o personagem passa a enfrentar um embate gerado pela diferença de suas atitudes em relação ao que espera da irmã. Entre o instinto de aproveitar a liberdade para conquistar o maior número de mulheres possível e a pressão social de cultivar relações estáveis e duradouras, o filme transita da tradição familiar ao estilo moderno de incluir o sexo de forma descompromissada no dia-a-dia, geralmente criticado por quem esconde atrás do moralismo sua vontade de adotar esse estilo.

É possível ver no comportamento de Brandon algumas teorias do antropólogo Lévi-Strauss, segundo o qual, resumindo ao extremo, a proibição do incesto obriga a troca de mulheres entre os homens. A afirmação deixa de ser machista quando é lançada para a compreensão de comportamentos primários da vida em sociedade, dos quais não nos livramos totalmente. Assim sendo, o protagonista busca mulheres fora de seu círculo, ideia que acaba sendo reforçada pelo fato de ser um irlandês que mudou para os E.U.A. deixando a família para trás.

A presença da irmã, com a qual o relacionamento é proibido, indica a possibilidade de relacionamento para outra pessoa – por isso a troca de mulheres – ainda que com a mesma falta de compromisso com a qual Brandon encara seus relacionamentos relâmpagos. O problema é que lado a lado com essa premissa existem os padrões sociais desenvolvidos ao longo da história, e ao personagem não lhe agrada ver a irmã fora dos padrões morais que ele não quer para si.

Bem longe de esclarecer seus conflitos internos, o protagonista passa a não suportar a pressão dessa incoerência, desenvolvendo uma vergonha (shame) não de seu julgamento em relação à irmã, mas de seu próprio comportamento sexual. Isso faz com que o título do filme seja bastante questionável, por indicar que o problema do filme seja a suposta compulsão do personagem, uma patologia que não existe clinicamente, mas socialmente, graças aos moralistas mencionados acima. Ainda que a vergonha em questão apareça pela percepção de que a irmã pode ser tratada da mesma forma com que ele trata outras mulheres, há o machismo de acreditar que a falta de compromisso seja um desejo exclusivamente masculino.

Certos cuidados podem ser indicados para as atividades de Brandon, como por exemplo, não inundar o computador do escritório com materiais pornográficos, para não comprometer sua vida profissional, ou ainda se ater a certos limites quando a garota que desperta sua atenção está acompanhada, se tornando um grande problema em potencial, mas mesmo assim seu comportamento não destoa de seu estilo de vida, podendo tranquilamente ser mantido sem consequências negativas, desde que fizesse pequenas mudanças em seu cotidiano, a partir do momento que não estava mais morando sozinho e algumas mudanças, dessa vez bem mais profundas, em sua forma de encarar os padrões sociais.

Era quase inevitável a Steve McQueen cair no nó atado entre tradição e modernidade. A opção fica em relação ao caminho a seguir a partir deste ponto. É possível aceitar a vergonha como uma imposição sem lógica, para assim superá-la e assumir que a presença da sua irmã não destrói seu estilo de vida, ou dar um verniz moderno ao romantismo do século XVIII, impondo uma forma de vida que limita e inibe.

Obrigar alguém que, como Brandon, está habituado a um estilo de vida condizente com a cidade de Nova York – ou qualquer outra grande cidade – a voltar a viver segundo preceitos tradicionalistas é optar por insistir em negar possibilidades, pois ainda que o comportamento sexual do protagonista não seja obrigatório em nenhum lugar do mundo, sua opção é viável e distante de qualquer patologia, culpa ou vergonha. Ajudar a irmã, ou ser ajudado por ela, dependendo do momento pelo qual cada um está passando, não implica em impor mudanças ou coibir desejos, mas sim em tolerar comportamentos e libertar-se de padrões tão válidos quanto desnecessários.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um método perigoso (A dangerous method)


O diretor David Cronenberg traz às telas sua versão para a obra de Christopher Hampton, que mostra um pouco da genialidade de Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender), cuja aptidão para compreender os enigmas da mente humana não impediu que a vaidade e preciosismo de ambos se tornassem empecilho para o desenvolvimento das pesquisas na área da psicanálise.

É notória a dificuldade de aplicar o rigor de um método científico sobre um objeto tão multifacetado quanto à psique humana. Por mais que a epistemologia defina certos limites e regras, o próprio pesquisador está sujeito a surpresas, tanto provenientes do paciente quanto de seus próprios sentimentos, que podem fugir do controle – nem sempre de forma perceptível – fazendo com que as mais brilhantes mentes fiquem suscetíveis aos imprevistos.

Desta forma Sabina Spielrein (Keira Knightley) ganha destaque na história (da psicanálise, portanto do filme), ao se tornar primeiramente paciente de Jung, para depois contrariar toda metodologia do psicanalista e vir a ser sua amante. Cada personagem do filme mereceria um longa com a própria história e Sabina não é diferente. A começar pela atuação impecável, capaz de encenar toda a angústia, desespero, medo e insegurança da personagem, que nos faz pensar sobre algumas posturas atuais diante de pessoas com supostas patologias.

O tratamento de Sabina, que se mistura com experiências para as teorias de Jung, consiste a princípio de atenção e respeito. Não há grandes intervenções por parte do psicanalista além de dar ouvidos aos relatos angustiados de sua paciente e encarar seus desabafos com a clareza de quem enxerga um potencial de cura, ao invés de menosprezo a um problema que, para quem não o tem, pode parecer menor. Pode ser uma conduta elementar, não somente para quem cuida de um paciente, mas para qualquer um que ouça um relato, mas a prática nem sempre é tão evidente, sendo que problemas negligenciados são mais frequentes do que possa parecer.

Por parte de Freud e Jung é interessante notar os debates sobre a gênese de uma teoria psicanalítica, em uma fase em que esta área ainda não havia sido inundada pela indústria farmacêutica, prometendo remédios milagrosos até mesmo para males que não necessitam de intervenções químicas.

A beleza da ciência desenvolvida e tão bem apresentada no filme é que seus estudos inevitavelmente caminham no incerto. É necessário vagar pelo estreito e tortuoso caminho formado entre a lucidez e a loucura, lidando com a tendência inconsciente dos pacientes de manipular certos sintomas, além do próprio olhar possivelmente viciado do psicanalista, que deve ser dominado.

Como se toda essa dificuldade não fosse suficiente, as inúmeras variáveis contidas em cada indivíduo ainda estão imersas em um contexto social, fundamental na constituição da personalidade e com um potencial enorme para agravar certas tendências de comportamento, ou seja, determinadas vontades e desejos podem não ter nada de patológico, mas por ser algo socialmente recriminado, qualquer um pode acreditar piamente em um distúrbio pessoal e até mesmo agir no sentido de corroborar esta crença.

Desfazer esse emaranhado de influências, que podem causar sérios danos ao paciente, nem sempre é tarefa fácil. Ainda que para quem analise um paciente a solução de seus problemas seja simples, quem vive em meio ao caos dos próprios problemas costuma oferecer grande resistência às mudanças; em outros casos os sinais fornecidos pelos pacientes e passíveis de análise são complexos e confusos para o psicanalista.

Jung, a quem o filme dá mais destaque, via em Freud uma grande fonte de saber e alguém em quem se espelhar; ao menos até ganhar notoriedade no meio acadêmico e ser tocado pela vaidade da própria fama. Já Freud reconheceu logo, no jovem que buscava auxílio, um sucessor para suas teorias, pois já fazia ideia do impacto de suas ideias sobre a psicologia. O trabalho em conjunto, recorrente entre os profissionais que frequentemente precisam de uma segunda opinião sobre determinado caso, tinha tudo para ser extremamente produtivo e benéfico, porém as mesmas influências que agem sobre a psique de um paciente atuam também sobre os analistas, tendo a vaidade um grande potencial de destruição.

Difícil dizer quanto o rompimento dos dois pesquisadores influenciou na psicanálise, mas ao longo da história não faltam exemplos de mentes brilhantes que esbarraram no próprio ego. Entre erros e acertos do método exibido no filme fica a sensação de algo talvez perigoso, pelos percalços exibidos, mas também a admiração pelo esforço do desenvolvimento de um trabalho psicanalítico livre de medicamentos, cuja eficiência costuma ser duvidosa, e baseado na atenção e respeito aos relatos dos pacientes, fato que nem sempre vemos nos consultórios de hoje.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Para a sorte de quem admira o cinema nacional, mais uma obra literária de Marçal Aquino ganha uma adaptação para as telas. A parceria de sucesso com o diretor Beto Brant é mantida, com o auxílio de Renato Ciasca. As obras de Aquino podem não ser muito fáceis de adaptar, afinal o autor tem amadurecido seu estilo e aprimorado cada vez mais as histórias paralelas que recheiam a narrativa, sempre rica e detalhada. Apesar disso a experiência adquirida ao longo de vários trabalhos com Beto Brant faz com que o roteiro consiga extrair a essência da obra, fazendo uma verdadeira adaptação cinematográfica, transpondo os pontos necessários à trama.

Cauby (Gustavo Machado) continua sendo o narrador, porém sem a voz ativa do livro, apenas com sua presença marcante em todas as cenas, fazendo com que o seu ponto de vista em relação aos fatos seja passado ao público. Diferente do personagem mais intelectualizado do livro, aqui temos uma personalidade mais leve e solta, distante de compromissos mais profundos e interessado em viver de forma mais simples, ainda assim sempre intensa.

Lavínia (Camila Pitanga), como não poderia deixar de ser, mantém todo o esplendor da personagem do livro. Com grande interpretação, que consegue manter toda a intempestividade e complexidade da personagem, cujo humor alterna rapidamente. Somos fisgados pela curiosidade e vontade de conhecer um pouco mais sobre os mistérios que se escondem por trás da bela moça. Seria um casal perfeito, sem grandes laços familiares, em uma cidade distante, com a possibilidade de algo próximo ao ‘felizes para sempre’, que insistem em tentar nos vender. Porém, as histórias de Marçal Aquino retratam muito bem a realidade.

Ernani (Zecarlos Machado) é o pastor que prega seus cultos aos índios locais e, para a insatisfação de Caubi, é casado com Lavínia. A religião do pastor no filme é um pouco mais próxima à realidade local, já que no livro a ideia parece ter sido a continuidade de uma igreja que, desde o descobrimento do Brasil, busca fiéis entre os índios, suprimindo as características locais. O pastor das telas é mais descontraído e visa alertar os moradores sobre o risco da exploração por parte da mineradora e de madeireiros, porém sem abandonar completamente o poder de doutrinação da palavra religiosa.

Um triângulo amoroso bem estruturado e com fortes relações entre os personagens já forneceria material suficiente para um longa, mas Marçal Aquino tem grande facilidade em utilizar problemas sociais locais para engrandecer suas obras, encaixando muito bem uma série de personagens entrelaçados, que dão fluência à obra.

A poesia do título condiz com o relacionamento de Lavínia e Cauby. A magia encantadora de um casal recém-formado é permeada por fotografias artísticas e um estilo de vida que se encaixa perfeitamente com o relacionamento construído. O que chama a atenção em Lavínia, talvez até mais que sua alternância de humor, é sua lealdade em relação ao pastor Ernani. O fato de a moça ter o coração dividido entre duas paixões faz com que sua situação seja bastante real. A fidelidade cobrada pelo tradicional amor romântico é facilmente tentada frente a determinadas situações e a confusão de Lavínia, que reconhece a importância de seus dois amores, fazendo o possível para corresponder a ambos, sem conseguir abrir mão dos benefícios distintos que cada um tem a oferecer, a torna ainda mais distante de uma simples personagem.

A inserção do trio no meio social em que estão revela como ainda é forte a cobrança social em relação ao comportamento individual. Sobretudo quando a população é fortemente influenciada pela igreja e o pastor desta tem sua reputação manchada por um forasteiro descompromissado. Se por um lado a igreja retratada cumpre o interessante papel de alertar e informar a população sobre os problemas causados pela mineradora e pela extração de madeira – ainda que esta não seja uma responsabilidade religiosa – por outro é quase inevitável que a doutrinação religiosa acabe cerceando certas crenças locais. Este é, estruturalmente, o ponto mais distinto entre livro e filme, já que nas telas a igreja de Ernani é menos estereotipada, mesclando diversos elementos para formar a religião. Ainda assim fica evidente que certos problemas, como a tensão gerada pela existência do triângulo amoroso, já são complexos o suficiente sem a intervenção de outras pessoas.

Profundo e poético, ‘Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios’ chama a atenção por vários aspectos. Tem talento de sobra, desde a concepção do livro por Marçal Aquino, passando pela direção competente de Beto Brant e Renato Ciasca, até a atuação impecável dos atores, sobretudo de Camila Pitanga, que definitivamente deveria abandonar as novelas e nos presentear com mais atuações no cinema.


terça-feira, 10 de abril de 2012

The Wall

Don't be surprised, when a crack in the ice
Appears under your feet
You slip out of your depth and out of your mind
With your fear flowing out behind you
As you claw the thin ice


The Wall, da banda Pink Floyd, poderia ser apenas um álbum bastante intimista, já que Roger Waters, seu idealizador e principal compositor, expõem ao longo da obra muitos de seus traumas e medos acumulados desde a infância, que culminam em um músico que, apesar de bem sucedido, continuava enclausurado pelo muro que construiu pouco a pouco na tentativa de se afastar do sentimento de inadequação frente à sociedade. Entretanto a genialidade do quarteto britânico permitiu a produção de um dos discos mais vendidos da história, dando base para concretizar a ideia da produção de um longa-metragem, que mais parece uma aula de história e vai dos aspectos mais gerais aos sentimentos mais particulares.

Várias histórias permeiam a produção do filme, desde desistências até brigas e desapontamentos. O fato é que o resultado final traz o roteiro de Roger Waters dirigido por Alan Parker, com o protagonista Pink vivido por Bob Gedolf. O próprio Waters gostaria de atuar no papel principal, mas, sem querer questionar seu potencial artístico, dificilmente sua atuação seria tão primorosa, com as expressões de desespero e a cara de demência de Gedolf em “Nobody home”. O resultado de todos esses talentos é um filme que há trinta anos reúne fãs, não apenas pela qualidade técnica ou pela presença das músicas mais que consagradas, mas principalmente pelo sentimento bastante atual que a obra ainda transmite.

Os pais de Pink formam os primeiros tijolos de seu muro. A ausência da figura paterna devido à morte do pai na Segunda Guerra soma-se ao amor incondicional e egoísta da mãe que, mesmo com a melhor das intenções, acaba não preparando o filho para os percalços da vida. Ainda que com agentes diferentes, este cenário familiar é bastante comum, principalmente a ideia de pais superprotetores que não percebem os problemas do excesso.

Com os alicerces do muro já preparados, Pink vê na escola mais uma instituição castradora, inibindo sonhos e projetos. O professor imerso em problemas pessoais parece encontrar em suas aulas sádicas a redenção de seus próprios sentimentos. Sob um ponto de vista mais abrangente, a escola é uma das principais formas de massificar os alunos, padronizando comportamentos e hostilizando diferenças. Estes talvez sejam os tijolos mais imutáveis desde a época retratada no filme. A frustração do personagem encontra cúmplices em qualquer escola, em qualquer período histórico que seja analisado, em qualquer série da formação escolar.

A despeito das dificuldades, Pink chega à vida adulta e se torna um astro do rock. Resta a dúvida se ele realmente superou os traumas ou o gelo fino da normalidade pode quebrar a qualquer momento. O que parecia ser o início de uma superação é para o protagonista a confirmação do isolamento. A tentativa de um romance esbarra na complexa relação inconsciente com a mãe superprotetora e a famosa metáfora sexual das animações com flores indica como o complexado protagonista encontra mais material para seu muro com a rejeição da esposa.

Permeando a família, a escola e a fama, temos o estado totalitário impondo políticas e sufocando os indivíduos de diversas formas. Não é necessária uma guerra propriamente dita para tais absurdos. A águia alemã que rasga a terra em “Goodbye blue sky” não é outra senão o imperialismo, não necessariamente nazista, que constrói muros para destruir crenças e sonhos individuais, massificando desde os judeus rumo ao campo de concentração, até crianças na escola conforme a sequência de “Happiest days of our lives”.

Sem o refúgio da família, sem muitas referências externas e bombardeado pelo ritmo frenético de trabalhar ininterruptamente para poder consumir, Pink se vê sufocado e tenta encontrar seu lugar na sociedade. Em meio à juventude que, sem dinheiro para o consumo, mas seduzida pelo estilo de vida consumista, saqueia lojas, ou que resolve se entregar à luxúria Pink só consegue reviver os traumas do passado, o isolamento e a rejeição.

Aqui cabe o grande ponto da depressão, retratada com maestria no filme. Nesta fase de sua vida Pink não tinha grandes problemas aparentes. Vivia em um apartamento gigante, com uma linda garota, uma banda de sucesso e todas as condições para desfrutar a vida. Se os problemas fossem evidentes e notórios ele estaria simplesmente triste, porém as cicatrizes invisíveis de ferimentos profundos são as responsáveis pela apatia tão incompreendida, seja no personagem ou em tantas pessoas reais, que por uma conjunção de fatores não conseguem se livrar de seus traumas. Haja tijolos para tantos muros.

Cada vez mais enclausurado e introspectivo, as memórias de Pink não são nada animadoras, culminando em um estado que beira a demência. Seria impossível romper o muro sem ajuda, mas em meio a novas rejeições o artista é resgatado pelos 'vermes' para viver o outro lado da moeda e passa a impor as mesmas hostilidades sofridas ao longo de sua vida. A mesma dureza apresentada em "What shall we do now", o mesmo sufoco é mostrado em "Waiting for the worms", mas ao invés do consumo é a ideologia imposta que massacra, que impede a vida. Tanto o consumismo quanto o autoritarismo levam a exaustão e esgotam suas forças escassas.

Com os principais pilares de sua vida minados ao longo do filme resta a dúvida: vale a pena destruir o muro construído ao longo da vida, ou encarar a sociedade que forneceu cada tijolo seria uma condenação? Evidentemente o mundo atual é diferente do pós-guerra que inspirou diretamente o filme, mas ainda tem fortes raízes neste período da história e as semelhanças continuam a gerar traumas pessoais muito condizentes com os retratados por Roger Waters. Em uma sociedade que cobra o hedonismo ilimitado sem oferecer muitos elementos para isso, The Wall se mantém imprescindível. A obra ensina, perturba e instiga a mobilização contra tantos absurdos aos quais somos submetidos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Xingu

O filme de Cao Hamburger tem como guia a história dos irmãos Villas-Bôas e a empreitada destes na expedição Roncador-Xingu, que culminou com a criação do Parque Nacional do Xingu, há cinquenta anos. Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas (Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat) viajam rumo ao Brasil central e começam a contatar os primeiros índios, para pouco a pouco fazer o intermédio entre duas sociedades bastante distintas.

Por parte dos irmãos vemos uma sensibilidade que deveria ser básica e óbvia, visto que apenas olhavam para os índios como habitantes locais, com valores distintos e estranhamento diante de cada detalhe de uma cultura desconhecida. O que torna essa postura especial é o fato de tantas pessoas – desde o descobrimento do Brasil até hoje em dia, passando pela época retratada – verem os índios com desprezo, como se fossem eles os invasores de terras, que por direito supostamente seriam dos brancos.

Alguns equívocos dos Villas-Bôas foram inevitáveis, sobretudo graças às situações novas e inusitadas, muitas vezes até sem solução, pelas quais tiveram que passar. Mas além da saga dos três irmãos, o filme nos apresenta questões antigas, abertas até hoje e que frequentemente ganham notoriedade. É um papel importante do cinema alertar para diversos pontos, facilitando a compreensão da sociedade e desfazendo preconceitos fortemente enraizados.

Ainda que seja antiga a e óbvia a evidência de que os índios foram os primeiros a chegarem em terras hoje brasileiras e, consequentemente, ocuparam o território colocando em prática um estilo de vida totalmente diferente do que estamos acostumados, é visível no filme como este uso raramente é respeitado. Em linhas gerais ou a posse das terras aparece repentinamente nas mãos de algum latifundiário, visando à lavoura ou criação de gado, ou o estilo de vida indígena é desconsiderado, de forma que a tentativa de conciliação entre as duas sociedades se dá com base na sociedade urbana, espremendo pessoas em pequenos lotes, inviabilizando a caça, pesca e qualquer atividade indígena.

É importante ressaltar que a visão indigenista atual difere da apresentada no filme, já que a tentativa dos Villas-Bôas de manter os índios afastados dos brancos e conservar sua cultura sem a presença de elementos herdados dos colonizadores é inviável. Pelo tanto de adeptos, parece sedutor defender que os índios devem manter os próprios costumes intactos, caso contrário, devem parar de reivindicar seus direitos e adaptar-se ao modo de vida dos brancos. Porém nossa sociedade vive em um caldo cultural formado por elementos heterogêneos. Herdamos dos índios muitos hábitos de vida, costumes e práticas que se somaram a tantos outros elementos culturais distintos, assim como as tribos incorporaram muito de nossos hábitos em seus cotidianos.

Cobrar de tribos indígenas a vida isolada e livre de elementos de nossa sociedade seria cobrar um retrocesso que não impomos aos nossos próprios hábitos. Podemos pensar que o estilo de vida em grandes cidades no início do séc. XX era mais saudável, menos agressivo ao ambiente e viável para a sociedade, porém seria absurdo propor a volta dos mesmos moldes de vida, dado que os desdobramentos históricos não são reversíveis. Os problemas devem ser resolvidos com base em elementos presentes, não com proposta de volta ao passado.

Responsabilizar os índios pelos conflitos atuais pela disputa da terra é fechar os olhos para injustiças históricas, sem que para isso tenhamos que retornar a um passado muito remoto. Vemos em Xingu que na época retratada fazendeiros já invadiam terras do norte do país para construírem suas fortunas através do cultivo de monoculturas, geralmente voltados à exportação, que sequer fornece alimento ao próprio país.

Além disso, militares já impunham sua ignorância por meio de força política e bélica para por em prática vontades insanas, que a despeito dos indígenas visavam à instalação de bases onde nunca foram necessárias, tão pouco úteis. Com o advento da ditadura militar a questão indígena, como todas as outras em território nacional, foi ainda mais negligenciada. O símbolo máximo de desrespeito é apresentado no filme através do início da construção da Rodovia Transamazônica. A obra colocada como imprescindível pelos militares, cujo progresso nada poderia barrar, segue até hoje como uma rota esburacada, muito pouco útil e marcada pelos impactos socioambientais gerados.

A beleza das paisagens exuberantes do Xingu e o trabalho dos irmãos Villas-Bôas diante das insanidades políticas contra os indígenas devem ser reverenciados, porém sem esquecer alguns absurdos que rondam ainda hoje a relação desnecessariamente complicada entre índios e brancos. A quem soa absurdo destinar uma área equivalente à Bélgica aos índios, resta a dúvida: não é mais absurdo concentrar vinte milhões de pessoas no perímetro urbano da grande São Paulo?


terça-feira, 27 de março de 2012

A Onda (Die Welle)

E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada.
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada.
A história se repete mas a força deixa a história mal contada.


Saber que o roteiro do filme de Dennis Gansel foi baseado em fatos reais só o torna mais perturbador e instigante. A tentativa pedagógica do professor Reiner Wenger (Jürgen Vogel) de por em prática um regime autocrático com seus alunos até perder o controle da situação pode parecer absurda, mas o longa é bem conduzido ao ponto de convencer que a experiência é assustadoramente viável, bastando que o líder saiba quais os pontos certos a serem trabalhados. Dizer que a Onda é uma loucura é uma conclusão rasa diante de tudo que dá estrutura à ideia.

A escola inevitavelmente tem grande influência no sistema de pensamento do indivíduo. É uma etapa fundamental no processo de socialização de cada um e trabalha em um processo de formação individual, consequentemente de formação da própria sociedade. Outro importante pilar desse processo de formação é a família, como indica o filme através de Karo (Jennifer Ulrich), que contesta ordens escolares principalmente depois de ter sido alertada pela mãe sobre a importância de lançar um olhar crítico em relação às ordens recebidas. Uma análise possível é que as principais críticas não devem ser destinadas apenas ao professor, mas ao ensino prévio que os estudantes tiveram, pois todos encontraram na Onda pontos que a escola deveria oferecer desde os primeiros anos, porém acompanhados de senso crítico.

O grande atrativo da Onda acabou sendo a oferta do que os estudantes, mesmo sem se dar conta, demandavam, ou seja, respeito e tolerância para evitar o bullying, como no caso de Tim (Frederick Lau); o trabalho em grupo; uma meta a ser seguida por adolescentes confusos; desafios a serem vencidos; etc.

Evidentemente que o trabalho do professor é censurável. Para exemplificar, quando os estudantes não querem marchar e o professor coloca como sentido para tal atitude atrapalhar a aula da outra turma, ele passa (junto com a ideia de trabalhar em grupo) a intolerância e a rivalidade negativa aos alunos. Vemos nessa cena como os adolescentes gostam e querem uma meta, um desafio, portanto cabe ao professor encontrar formas de lhes estimular, porém sem criar rivalidades hostis como no filme.

Entretanto o docente viu desde o início que os estudantes preferiam sua aula, mesmo com um tema menos atrativo, à aula de anarquia com um professor extremamente conservador e desinteressante. Além disso, talvez nada seja mais estimulante a um professor do que seu plano de aula se mostrar extremamente bem sucedido, ao menos aparentemente, fazendo com que os limites de Reiner se tornassem quase inexistentes.

Além do desdobramento do experimento dentro da escola, o lado político do implemento de um regime autocrático, sobretudo na Alemanha, torna-se bastante inquietante. Mais de meia década após a queda do Terceiro Reich não faltam obras de arte, em todas as suas vertentes, retratando os horrores da Segunda Guerra. Até mesmo no filme, quando o Reich é mencionado, alguns alunos se mostram enfadados com o assunto recorrente. Fora das telas, sempre que algum material novo sobre o tema é lançado alguém comenta sobre o suposto esgotamento.

A lição explícita da Onda é que um regime autocrático não está tão distante e tão inerte quanto parece, ou quanto deveria. Em uma época carente de ideologia, quando ser politizado é quase um absurdo, um bom orador pode muito bem maquiar certos termos fascistas e exaltar o conteúdo integralista de um regime autocrático para dar vazão ao potencial de um grupo unido diante de um objetivo.

O que fica implícito no filme é que talvez seu conteúdo não esteja restrito a uma sala de aula alemã, distante da vida real. Em uma sociedade baseada no consumo, onde as pessoas são induzidas a comprarem roupas semelhantes, ouvirem músicas parecidas, consumirem os mesmos alimentos, etc., não é muito difícil supor que as pessoas abdiquem de sua individualidade, mesmo sem perceber, e prefiram um padrão a ser seguido a refletir sobre suas próprias vontades e necessidades. Acostumadas com a falta de senso crítico, ficam mais susceptíveis a ideologias políticas que aparentemente as fortalecem.

Não é raro vermos, por exemplo, uma polarização política no Brasil, através da qual eleitores do sudeste tendem a se posicionar como superiores à população nordestina, sem perceber a manipulação que permite a exploração do povo, já que este está mais preocupado com falsas disputas regionalistas do que com o combate à exploração como um todo. Mesmo dentro de uma cidade é possível identificarmos falsas clivagens que criam pequenos grupos, forjando uma superioridade tão falsa quando a Onda.

Os problemas sociais que permitem a criação de um grupo como a Onda devem ser combatidos em suas raízes, não em suas aparências. Esta é uma das grandes lições que a sociedade insiste em não aprender depois do Nazi-Fascismo.

terça-feira, 20 de março de 2012

Raul - o início, o fim e o meio

Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem filé come pão e osso duro
Quem não tem visão bate a cara contra o muro


O filme do diretor Walter Carvalho acompanha a vida de Raul Santos Seixas do início ao fim. O material filmado para a produção foi extenso e diversificado, além disso, a própria vida de Raul Seixas foi cheia de altos e baixos, com fases distintas e divergências que fizeram da metamorfose ambulante um dos artistas mais consagrados do Brasil. Mesmo com essa diversidade o resultado final é um ótimo documentário, que mostra vários depoimentos sobre cada tema, deixando que a conclusão seja tirada por cada fã.

Foi ainda na infância que Raul começou a ter contato com o rock, estilo que também vivia sua infância, dando os primeiros passos desajeitados com Elvis Presley. Entre o mar de fãs de Elvis estava o menino baiano, que desde cedo mostrava divergências com os padrões sociais, enfrentando a família não como desrespeito, mas para traçar o próprio destino, como descreveria anos depois na canção ‘Sapato 36’. A descoberta e paixão pela música acabaram canalizando a criatividade do garoto que poderia não saber muito bem para onde estava indo, mas sabia que estava em seu caminho.

O novo estilo musical chegava timidamente ao país. Ainda desconhecido e primando sempre pela liberdade, contestação e questionamento, o rock se encaixou perfeitamente à personalidade intempestiva de Raul, que desde sua primeira banda, Raulzito e os Panteras, contribuiu decisivamente para o desenvolvimento de um rock brasileiro, misturando elementos nacionais como o baião, a MPB, o acordeom, mas sem perder as influências internacionais. Essa síntese fica clara em “Let me sing, let me sing”, na qual o músico mostra muito bem seu estilo despojado, com personalidade forte, que conseguiu encaixar ritmos nordestinos em meio a muito rock, blues e country.

A genialidade de Raul não costumava andar só. Ao longo da vida o artista contou com vários parceiros para letras e melodias, muitos deles aparecem no filme com depoimentos emocionantes e divertidos. Tendo uma vida marcada por fases tão diferentes, é natural que algumas entrevistas se mostrem contraditórias entre si, mas um ponto alto do filme é manter exatamente uma característica muito presente na vida e obra de Raul, ou seja, a fuga do maniqueísmo para mostrar que o mundo é mais complexo do que a divisão entre certo e errado pode sugerir.

As parcerias não renderam apenas músicas. Com os grandes amigos que fez durante a vida, Raul desenvolveu suas ideias sobre temas recorrentes em suas canções. Religião, drogas, amor, política, etc. Cada um desses temas poderia render um documentário à parte, já que as letras não costumavam ser diretas e claras.

Repletas de metáforas e com assuntos complexos – ainda que abordados propositalmente de forma simples – algumas músicas de Raul, sobretudo as que foram compostas em sua fase mais mística, possuem diversas interpretações que muitas vezes chegam a conclusões contrárias. Gerar polêmica era a provável intenção do músico; se equivocam aqueles que pensam compreender definitivamente uma das obras daquele que já dizia ter passado por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas. Que aos onze anos já desconfiava da verdade absoluta.

Com o auge de sua carreira no auge da ditadura militar, Raul driblou várias vezes a censura, mostrando de forma direta e discreta o ouro de tolo que era o crescimento econômico do período. Não deixou de engrossar o número de exilados da época, fazendo do período que passou nos Estados Unidos uma grande aprendizagem. Ainda que a carreira internacional que tanto almejava não tenha decolado, o artista deixou algumas de suas marcas no país, como suas músicas e familiares.

As entrevistas com as companheiras que Raul Seixas teve ao longo da vida permeiam o documentário com depoimentos que revelam um lado muito terno. Não dá para pensar em uma família nuclear e tradicional por parte de quem cantou o amor em sua forma mais livre, que se por um lado pode machucar – característica inerente a este sentimento – por outro também liberta e agrega a cada indivíduo que o experimenta. Raul sabia muito bem que um amor a dois profana o amor de todos os mortais, sendo este mais um aspecto vivido intensamente pelo músico, até o fim de sua vida.

Com muita competência a vida de Raul Seixas foi condensada nessas duas horas de documentário, que servem tanto de memória aos que presenciaram a carreira do artista, quanto de apresentação deste que é um dos maiores nomes da música nacional. Sua vida pode ter sido curta, mas de intensidade infinita, guiada na palma de sua mão. Raul Seixas morreu dormindo tranquilamente, deixando uma legião de fãs e um legado para o rock nacional. Não importa quem esteja no palco, alguém na plateia sempre gritará: TOCA RAUL!




terça-feira, 13 de março de 2012

Nossa vida não cabe num Opala

O filme do diretor Reinaldo Pinheiro conta a história de quatro irmãos que, depois da morte do pai (Paulo Cesar Pereio), continuam a vida dura, com uma série de problemas e que, principalmente através da relação de dependência com Gomes (Jonas Bloch), revelam implicitamente relações de poder impostas por questões de gênero e, sobretudo econômicas.

Para ganhar a vida os dois irmãos mais velhos, Monk (Leonardo Medeiros) e Lupa (Milhem Cortaz), roubam carros. Os dois têm perfis diferentes, já que o primeiro chega a ser criticado por ter estudado, gostar de leitura e não ter, materialmente, ganhado nada com isso, enquanto Lupa, que ganha destaque com a ótima atuação e com a quebra certas tensões com um pouco de humor, sempre se orgulhou de, aparentemente, viver a vida da forma que lhe convém, avesso às formalidades e imposições sociais. O estudo parece não ter feito diferença entre os irmãos e o alvo dos roubos não é qualquer carro, mas Opalas, carro antigo que sempre foi símbolo de masculinidade.

O irmão mais novo é Slide (Gabriel Pinheiro), que tem os mais velhos como referência e mesmo contra a vontade deles quer seguir os passos de ladrão de carros. Um ponto em comum entre os três, herdado do pai da mesma forma que a profissão, é a dependência de Gomes, que financia a família e faz com que os roubos sejam lucrativos. Evidentemente que essa relação não é harmoniosa e os irmãos são explorados economicamente. Todos têm consciência disso e a todo o momento lembram Gomes que o finado pai foi arruinado por ele, que deixa claro sua indiferença.

Por fim, a única irmã é Magali (Maria Manoella), que apresenta outra relação de dominação muito presente na história. O machismo é latente ao longo de todo o filme, a ponto de incomodar, indignar e envergonhar qualquer pessoa. Todos os homens do filme são machistas, cada um de sua forma, e Magali é o principal alvo, sobretudo de Gomes. A tímida tecladista que se apresenta em um bar, onde é obrigada a abandonar suas preferências musicais e tocar músicas bregas, para atrair clientes ainda mais bregas, acaba sendo assediada de forma repugnante, por homens que insistem em tratar mulheres como mercadoria. Gomes, indicado como o melhor cliente, é o que mais considera como virtude ter dinheiro para pode pagar pelo que quer.

Até aqui o filme, infelizmente, retrata o cotidiano. Não faltam exemplos reais que corroboram os estereótipos encenados, porém é interessante notar a submissão do machismo ao poder econômico, indicando inclusive, ainda que historicamente mulheres sejam as grandes vítimas desse absurdo sem nenhum sentido, que o machismo em si não chega a ser benéfico para o homem, a menos que ele detenha também o poder econômico.

Os três irmãos, orgulhosos em ostentar a virilidade quando estão juntos, acabam ocasionalmente saindo com Silvia (Maria Luiza Mendonça) e ela é o exemplo mais claro de como muitas vezes a imagem que o machismo impõe ao homem é insustentável, sobretudo quando estes são sobrepujados por outras relações de poder. Aqueles mesmos machos que contam vantagem nos botecos com histórias nas quais são mais que heróis, mostram-se perdidos diante de Silvia, tão submissos diante das mulheres quanto diante daqueles que os oprimem economicamente. O único que consegue se manter um pouco mais coerente é Monk – que fique claro que ser coerente para sustentar o machismo não é nenhum triunfo.

De maneira sutil, por vezes cômica, o filme mostra como a vantagem que o machismo oferece à maioria dos homens não passa de migalhas para confortar ignorantes, que caso percebessem os absurdos ao que se sujeitam, poderiam unir forças contra a dominação econômica, ao invés de contar vantagem sobre uma falsa postura, que sustenta uma superioridade que na maioria das vezes não beneficia quem a detém.

No caso do filme, o machismo é o elemento que satisfaz os irmãos, que com exceção de Monk mal se dão conta da própria condição de marionetes, pois quem realmente ganha com toda a situação exposta é Gomes, que por deter o poder econômico diante dos irmãos, inclusive Magali, pode até utilizar as táticas mais mesquinhas para obter o que quer, sem a oposição por parte dos desarticulados oprimidos, jogados uns contra os outros por uma estrutura social predatória.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tomboy

O filme de Céline Sciamma começa mostrando o cotidiano de uma família francesa que acaba de mudar para um novo bairro. Um casal com duas crianças, recheando o período conturbado de mudança com brincadeiras que deixam a transição mais leve e com uma vida bastante harmônica, daquelas que não parecem ter potencial para virar roteiro de cinema. Ao contrário das aparências, a história que se desenvolve é surpreendente, tocante e suscita muitas reflexões.

Conforme já indica a sinopse e o trailer, portanto não é nenhuma revelação comprometedora, a filha mais velha é Laure (Zoé Héran), que graças aos cabelos curtos e o corpo ainda sem os efeitos dos hormônios pós-puberdade, não têm muitas dificuldades para se passar por Mickaël entre os novos amigos que faz na vizinhança. A partir de então a vida dupla, já que os pais não sabem que a filha se passa por menino, é vivida com muita naturalidade por Laure, talvez muito por conta da falta de contato com padrões sociais que, mesmo sendo absurdos, podem inibir atitudes e até desejos.

É curioso que o tema seja abordado a partir de uma criança. O resultado é um filme leve e por vezes até divertido, apesar da complexidade de algumas situações. A presença da infância deve deixar os mais ignorantes bastante confusos – sobretudo aqueles que não se desvencilham da necessidade de ‘explicar’ tal comportamento com rótulos patéticos como doença, falta de vergonha, falta de religião, etc. E deixa as possibilidades de desdobramentos da história também muito vagas, afinal naquela idade as aspirações de uma pessoa podem ser muito confusas em todos os sentidos, trabalho, estudos e, por que não, sexualidade.

O fato é que Mickaël começa a se enturmar com as demais crianças da vizinhança e seu segredo não é fator determinante para os conflitos que aparecem, pois um grupo de crianças, em qualquer lugar do mundo, terá algumas divergências independentes da sexualidade. Já Laure segue sendo a filha mais velha, brincando com a irmã e agradando aos pais. Tudo muito simples, mas tanto em casa quanto com os amigos, a menina deve manter um segredo que não é exatamente fácil. Sabe que a atitude desagradaria aos pais, portanto esconde a identidade masculina que criou para corresponder às expectativas. Também sabe que ninguém em seu círculo de amizades aceitaria a mudança de gênero sem nenhum tipo de problemas, afinal a infância pode nos remeter à ideia de inocência e pureza, mas sabemos que as crianças podem ser bastante cruéis entre si.

A simplicidade com que a menina vive suas duas personalidades encontra contraste na intolerância das outras pessoas, e o curioso é que esta intolerância não se baseia em quem é Mickaël, mas em quem as outras pessoas esperam que Laure seja. De fato todos os pais geram, ainda que sem perceber, expectativas em relação aos filhos e não há nada de mal nisso, mas é fundamental que estejam conscientes de que muitas, se não todas essas expectativas, não serão cumpridas. Os filhos não nascem com a responsabilidade de corresponder aos pais e devem crescer com apoio para se desenvolverem como indivíduos com vontade própria, desejos e muitas vezes dúvidas em relação às quais os pais deveriam intervir no sentido de auxiliar, não de confundir ainda mais, reagindo muitas vezes com violência quando o comportamento ou os desejos dos filhos diferem muito do esperado.

Ainda que a criança tenha coragem para contrariar a expectativa dos pais e agir como Mickaël fora de casa, todo grupo de pessoas é regida por ações sociais coletivas, mesmo ainda na pré-adolescência, o que influencia muito no comportamento das crianças, sempre tão preso aos padrões e sempre tão hostis em relação a tudo que seja diferente do esperado. Esses padrões são formados em grande parte pelo círculo social em que a criança vive, ou seja, independente de como os pais de Laure tratem o comportamento da filha, seu convívio com a sociedade não será fácil, afinal o repúdio ao que foge do padrão, sobretudo quando falamos sobre sexualidade, é antigo e extremamente sólido – vide as recentes agressões físicas, bancadas evangélicas no governo, etc.

A sensação que fica em várias partes do filme é que apesar da vida não ser nada fácil, por vezes nada agradável e frequentemente desestimulante, Céline Sciamma consegue nos mostrar que, ao menos nas telas, os temas mais difíceis também têm momentos de leveza e recompensa. Esses momentos podem ser bastante raros, mas muitas vezes é o que nos resta.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Separação (Jodaeiye Nader Az Simin)

O título da obra de Asghar Farhadi já nos remete a escolhas difíceis. Uma separação, de qualquer natureza, não é fácil, envolve uma série de ponderações e por mais que seja consensual, sempre haverá divergências – por vezes intencionais – a serem superadas. Como se fosse pouco, o enredo traz mais uma série de situações difíceis cujas escolhas dos personagens ganham complexidade por conta do machismo, fundamentalismo e conflitos de classes.

A separação que guia o filme é pedida por Simin (Leila Hatami), que quer seguir sua carreira no exterior, enquanto o marido Nader (Peyman Moaadi) alega que precisa cuidar do pai, com estágio avançado de Alzheimer. Simin não vê motivos afetivos para o divórcio, elogia o marido, mas vive o drama que a vida moderna cobra dos casais. Há algumas décadas a maioria das mulheres trabalhava cuidando da casa e dos filhos. Com a mais que merecida igualdade de direitos, que ainda engatinha em alguns aspectos, as mulheres passaram a estudar mais, trabalhar fora (geralmente fazendo jornadas duplas, por não poder abandonar a árdua jornada no lar) e frequentemente o relacionamento torna-se um empecilho na vida do casal. Ou seja, quando apenas um dos dois trabalha é mais fácil para o casal enfrentar mudanças juntos, quando as obrigações atraem ambos para lados opostos, as coisas ficam mais difíceis, complicando ainda mais com a presença de filhos, como no caso da família iraniana em questão, com a filha adolescente Termeh (Sarina Farhadi), que não aceita a separação dos pais.

A situação de Nader também não é nada fácil. Optar entre manter a família unida ou continuar dando atenção para o pai doente, sobretudo quando se está sob uma forte tradição de união entre pai e filho, é uma tarefa ingrata. Pouco importa que o mal de Alzheimer impeça que o pai lembre-se do filho ou que uma enfermeira possa dedicar-se ao idoso em tempo integral, a doce ilusão de que a nossa presença fará bem ao ente querido é mais que suficiente para deixar alguém bem confuso quando está na mesma situação que Nader. É evidente que, dificuldades pessoais a parte, o personagem tem um grande aliado: o machismo que faz com que o pedido de divórcio tenha que ser julgado, por um homem, que dirá se o motivo alegado pela esposa é válido ou não.

No meio desta situação bastante desconfortável Razieh (Sareh Bayat) é contratada para cuidar do idoso e é ela quem acaba revelando as dificuldades mais desnecessárias dos conflitos. Por um lado os costumes rígidos de ordem religiosa impõem uma série de restrições que limitam os serviços de Razieh; seguindo a risca os preceitos religiosos ela nem poderia exercer o trabalho. Mas ao mesmo tempo o capitalismo também atua no Irã, dividindo a sociedade em classes e fazendo com que os mais pobres tenham que optar entre a tradição religiosa e o pagamento das dívidas. Essa é uma escolha muito mais difícil de ser compreendida aqui. Nossa sociedade tende a compreender com maior facilidade a ideia de um casal que não quer se separar, mas ao mesmo tempo não tem como continuar junto. Mais difícil é aceitar que costumes tenham a força de impedir a obtenção de um emprego e, quase impossível, é encararmos com estranhamento a relação de poder que se estabelece com base na classe social, de tão enraizado que é este tipo de relacionamento.

O comportamento de Nader em relação a Razieh pode até ser atenuado com base na relação pai e filho, já que é bastante aceitável que ele espere o melhor tratamento para o pai e pode agir por impulso em determinadas situações, mas mais uma vez o machismo está do lado de Nader, mesmo que o personagem seja muito menos machista do que o estereótipo que construímos da sociedade em questão, é possível notar um amparo diante de agressões cuja simples existência já caracteriza uma violência inaceitável.

O enredo do filme, baseado em estruturas complexas de relações conturbadas, mostra que a vida é repleta de escolhas difíceis, que podem se tornar ainda mais complicadas diante de tradições incompatíveis com o estilo de vida moderno. Tais tradições, religiosas, sociais ou de qualquer outra origem, podem fornecer amparo e guiar as decisões pessoais de cada personagem, mas fica nítido que em conflitos a hierarquia sem sentido prático é utilizada em benefício de poucos, perpetuando relações de poder e dificultando a solução de problemas, ou até mesmo criando empecilhos desnecessários.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

2 Coelhos

Afonso Poyart estreou em longas metragens em grande estilo ao dirigir seu próprio roteiro. A trama entrecortada, estrelada por nomes consagrados do cinema nacional, ganhou efeitos acima da média para produções nacionais, tendo ritmo frenético e fortes referências hollywoodianas, sem deixar de lado algumas marcas típicas do cinema nacional, como o bom humor permeando situações tensas.

Podemos ver diversos problemas sociais e políticos do país unidos em uma única trama através do plano mirabolante de Edgar (Fernando Alves Pinto) de roubar uma quantia milionária de dinheiro, proveniente das falcatruas envolvendo o traficante Maicon (Marat Descartes), o deputado Jader (Roberto Marchese) e informantes que trabalham no judiciário, principalmente Júlia (Alessandra Negrini). Nas entrelinhas da trama existem várias referências a muitos problemas que ou servem de suporte para os grandes crimes financeiros, como a desigualdade social expressa de diversas formas, ou ocorrem de forma mais pontual, como a direção imprudente, que diariamente causa tantas vítimas em nosso país.

Separando um pouco os problemas abordados, já que isoladamente todos já causam grandes transtornos, vemos que uma população com consciência eleitoral é fundamental, mas isso não chega a resolver todos os problemas. Criticando a eleição de candidatos que mais parecem artistas de stand up comedy e de despreparados que encaram o cargo público como um visto permanente para a impunidade, Poyart deixa implícito que esse tipo de bandido é apenas uma das partes envolvidas em grandes esquemas de criminalidade.

Votar de forma séria e correta é evidentemente fundamental em um regime que ainda tenta ser democrático, mas quando parte do judiciário, escolhido a dedo com base em amizades e favores pessoais, está disposta a reforçar o salário significativamente alto auxiliando esquemas ilícitos, o problema foge da alçada do voto. A conveniência de um esquema tão vantajoso para políticos e juízes vem inibindo tentativas de reforma política há muito tempo, além da dificuldade de se manter informações sigilosas entre funcionários que devem ser de confiança, mas que podem ser seduzidos pela tentação do dinheiro fácil.

O crime organizado também mostra sua força no filme. Agindo muito além do tráfico de drogas – ainda que fortemente subsidiado por este – muitos criminosos como Maicon tiram proveito de grandes esquemas ilegais para conseguir ainda mais dinheiro, capaz de sustentar a indústria do tráfico de forma mais eficiente que qualquer usuário, por ter lucro alto com menos interferência da polícia, já que envolve pessoas do alto escalão do judiciário e da esfera política. O crime organizado é um dos braços armados de um sistema estruturado para trabalhar com grandes quantias de dinheiro sujo, sem despertar muitas suspeitas. O outro braço armado costuma ser a própria polícia, que não tem destaque no filme, mas que dificilmente não participa de transações ilegais como a retratada no filme.

Em meio a tantas falcatruas a população costuma servir de coadjuvante, muitas vezes sem nem se dar conta de que muito dinheiro desviado é produto de roubo direto do cidadão. Diante das diversas formas de violência, a abordagem direta de um indivíduo para adquirir seu dinheiro ou bens pessoais é apenas uma forma de agressão, as mais impactantes do ponto de vista econômico e social são as agressões veladas, que vão desde o favorecimento de criminosos de altas classes sociais (absolvendo um filhinho de papai que age fora da lei, por exemplo), até o desvio de verbas que seriam destinadas a hospitais, escolas, etc. minando assim o atendimento da população que não tem condições de optar pelo serviço privado e comprometendo em vários sentidos a formação destes cidadãos, que de uma forma ou de outra terão que sobreviver. A maioria se sujeita à vida de servidão, ganhando menos que o necessário para sanar as necessidades básicas, outros seguem um caminho que fecha o ciclo de violência, não necessariamente chegando ao comando do crime organizado como Maicon, mas geralmente cometendo assaltos e furtos como Velinha (Thaide).

Edgar é uma exceção entre a maioria da população. Resolve armar um plano extremamente elaborado para colocar os corruptos em conflito e ainda se dar bem. Diante da falta da polícia, que não interfere nos conflitos do filme, o personagem tenta fazer justiça com as próprias mãos – até certo ponto, pois o dinheiro em questão, caso a execução do plano seja um sucesso, permanecerá nas mãos de uma pessoa, em detrimento de tantas outras.

É evidente que a solução encontrada por Edgar é absurda e deve ficar restrita às telas, mas a acumulação desenfreada de capital estimula, como vemos no filme, as alianças mais inusitadas. Do chefe do crime ao deputado incompetente, passando por esferas do judiciário, a corrupção e suas diversas variantes seduzem ao ponto de uma minoria numérica conseguir acumular poder suficiente para manter um ciclo de roubos sem limites. Lutar por uma democracia social, ao invés de aceitar uma tentativa pobre de democracia política, extrapola ideologias ou viés político e visa simplesmente uma sociedade mais justa e menos insegura, por não se sentir refém de grandes falcatruas, como a que é exposta com maestria em 2 Coelhos.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Casa Velha (Casa Vieja)

Alguns anos depois da Revolução Cubana, Abelardo Estorino escrevia a peça "Casa Vieja", que fazia um recorte da sociedade cubana e mostrava um pouco da transição pela qual esta passava. O valor das expressões artísticas para a formação ideológica é historicamente consagrado e os revolucionários cubanos aproveitaram este poder para disseminar os ideais de igualdade social entre a população, que poucos anos antes era governada por um regime bastante diferente do que tomara o poder. No Brasil o poder da arte como formadora de censo crítico é notável, mas infelizmente por seu oposto, pois para isso basta notarmos como os artistas foram perseguidos e exilados durante a ditadura militar, ou como os atuais programas de televisão subestimam a inteligência de qualquer um, mantendo seus telespectadores entretidos com obras cada vez mais fracas, previsíveis e sem graça.

Em Cuba, que mantêm desde a revolução um cinema crítico e fortemente presente em meio à população, os filmes continuam permeados por metáforas que instigam o debate entre os que assistem aos filmes. Neste contexto o diretor Lester Hamlet filmou sua versão para "Casa Vieja", re-contextualizando a essência da peça e atualizando as formas com que os conflitos são expressos, de acordo com as recentes mudanças na sociedade cubana.

No filme, o protagonista Esteban (Yadier Fernández) volta da Espanha depois de quatorze anos, quando sabe da morte iminente de seu pai. Chegando à capital cubana o jovem encontra um cenário bastante semelhante ao que deixou quando mudou de país, porém com a morte do patriarca sua família se vê diante de mudanças, com as quais não sabe lidar muito bem, após tanto tempo seguindo a mesma rotina.

É possível uma interpretação literal da obra, focando as atitudes de cada personagem diante da nova vida que de repente cai em suas mãos – ainda que a morte do pai parecesse anunciada, esse tipo de infortúnio sempre nos pega despreparados. Enquanto Esteban luta para ser aceito pela família e se esforça para que o respeito tome o lugar do preconceito, seus parentes se recusam a tolerar certas coisas que em nada influenciam em suas vidas, e cuja intolerância tem a capacidade de dificultar todo tipo de relação entre as pessoas. Aparentemente parece inconcebível que tal situação se estabeleça, no entanto o preconceito muitas vezes está tão enraizado na sociedade, que sequer notamos certos absurdos que cometemos, e apenas percebemos as incoerências quando estas são vistas de longe. Esquecendo os alvos que sofrem com a resistência do preconceito e pensando na curiosa situação de algo que permanece ruim sem sabermos exatamente o porquê – simplesmente por uma tradição sem sentido – podemos ver que não são raras as ocasiões que nos falta coragem, ou mesmo percepção, para pequenas mudanças de comportamento que nos leve a grandes benefícios pessoais.

Conforme já citado, os filmes cubanos não costumam ser tão simplistas e evidentes, dando margem a uma série de interpretações e associações com fatos cotidianos. Produzido durante uma significativa transição de poder na ilha, esta versão contemporânea de “Casa Vieja” pode ser vista como uma metáfora para o estado cubano, que foi governado por Fidel Castro ao longo de quase cinquenta anos. Com as recentes mudanças na ilha, é natural que a população se sinta desorientada, tal qual a família que perdeu seu patriarca, tendo agora que passar por um período de adaptação com a nova situação e as novas leis. Se por um lado as mudanças sociais na ilha são inevitáveis, afinal seria impossível e prejudicial manter um país nos moldes da década de 60, por outro a população cubana é politizada e instruída o suficiente para desenvolver sua economia de forma consciente, ou seja, sem que o capital seja dominado por especuladores.

Outra forma de pensar o filme, até complementar à anterior, é que Cuba nunca chegou a ser um país socialista, muito menos comunista, porém possui uma forma única de organização política e social, que conta com defeitos e problemas – como qualquer outro estado – mas também pode se orgulhar de fatores sociais invejados por muitos países. O medo do que vem de fora, simbolizado por Esteban, ou até mesmo o preconceito contra o que é diferente do tradicional, pode ser visto como a negação do que é estrangeiro e que em Cuba significa, entre outras coisas, um longo embargo econômico.

O economista Paul Singer, cujos estudos atuais são voltados para a economia solidária e desenvolvimento local, não nega a eficiência do mercado para a distribuição de bens na sociedade. O fundamental é que o governo cubano não negue erros e equívocos – que sempre existem em qualquer governo – e mantenha o ideal de igualdade social entre suas metas, de forma que a abertura da economia funcione em prol da erradicação da miséria, ao invés da concentração de capital.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

1984

Who controls the past
controls the future.
Who controls the present
controls the past.


O diretor Michael Radford fez essa ótima adaptação da obra homônima de George Orwell, tornando ambas indispensáveis. O filme é bastante fiel à essência do livro, tendo evidentemente cortado algumas partes, sobre tudo as detalhadas diretrizes do fictício partido ‘Ingsoc’, que comanda de forma totalitária a sociedade retratada.

Orwell concluiu sua obra no fim da década de 40, fortemente influenciado pela Segunda Guerra e o totalitarismo que culminou na destruição de boa parte da Europa. O conteúdo de 1984 é a imaginação de como seria o mundo caso certas ideologias triunfassem, com controle de mídia, adulteração de acontecimentos, imposição de valores e costumes, além do estado atuando com mãos de aço sobre a população, que nada pode fazer além de seguir as ordens de quem tem a pretensão de zelar pelo bem estar do povo, como se este fosse incapaz de opinar ou escolher seus próprios caminhos.

O filme foi rodado no mesmo ano do título, curiosamente filmado nos mesmos dias retratados no diário que o protagonista Winston Smith (John Hurt) escrevia escondido do ‘Grande Irmão’, uma câmera que vigiava a todos os indivíduos. O curioso é que o totalitarismo, ao menos da maneira como retratada por Orwell, foi derrotado e no ano do título a Inglaterra – plano de fundo da obra – vivia uma situação política bem distinta. Seria, portanto uma obra anacrônica?

Ao longo da década de 80 países da América Latina eram governados por ditaduras militares que por vezes beiravam a encenação da obra de Orwell. A tortura aos que lutavam contra o governo, o controle de informações (com as famosas receitas de bolo no lugar de matérias censuradas nos jornais), a imposição de comportamento, etc. faziam com que a população tendesse a uma massa uniforme e acrítica, com focos de resistência, que com maior ou menor intensidade eram reprimidos pelo governo de partido único. Ainda que a realidade de tais países não fosse tão dura e rígida quanto o cotidiano narrado por Orwell, as semelhanças existiam e eram bem nítidas. Felizmente a grande maioria dos países tem hoje um cenário político multipartidário, com eleições periódicas e alternância de poder. Terá a obra de Orwell, mais de sessenta anos após o lançamento, se tornado anacrônica?

O regime totalitário dificilmente se sustenta por muito tempo, sobretudo em sociedades mais articuladas e instruídas, onde os focos de resistência encontram formas de fazer pequenas manifestações e, a partir delas, conseguir grandes repercussões. Porém Foucault já falava sobre a capilaridade do poder, que não precisa se expressar de forma grandiloquente por ter a capacidade de estar presente nos pequenos detalhes e em nuances da sociedade.

No filme o partido, que passa o dia todo dando informes através das telas espalhadas por todos os lugares, exalta o fato do analfabetismo ter subido a 56%. É evidente que atualmente essa é uma propaganda negativa para qualquer governo, mas não é por acaso que a educação vem sendo sucateada aos poucos, juntamente com a habilidade dos governos de países subdesenvolvidos de maquiar dados, divulgando baixas taxas de analfabetismo e omitindo o analfabetismo funcional. Portanto não é que a população aceita determinados absurdos, mas ela sequer os reconhece, encarando muitos abusos como atitudes corretas e necessárias.

A forma de noticiar fatos do dia-a-dia vem para complementar as ações do governo. Por um lado não há mais a censura direta do período da ditadura – sendo específico sobre o Brasil –, mas a mídia comandada por uma oligarquia de famílias, mais que tradicionais no ramo da comunicação, faz com que os interesses privados de classe permaneçam bem acima dos interesses da sociedade, enviesando tanto o conteúdo coberto pela mídia quanto a forma com que isso é feito, formando opiniões e guiando a maior parte da população para o lado que for mais conveniente.

Após alguns anos de população quase adestrada podemos verificar que quando em pequenos grupos, a população tem liberdade de criticar o governo e expressar a própria opinião, sem que isso termine inevitavelmente em tortura institucionalizada como na obra de Orwell. Porém qualquer manifestação que comece a ganhar maiores proporções, sob a falácia de restauração da ordem ou algo do tipo, é duramente reprimida pela polícia – que continua militar, mesmo após o fim da ditadura – com o respaldo da mídia, e consequentemente da população, que acaba acreditando que o monopólio legítimo da violência (uma das premissas estatais) pode e deve ser usado sem limites e sem alternativas.

A falta de contestação por parte da população e a submissão diante de qualquer abuso contra a sociedade, ou mesmo contra um único indivíduo da sociedade, abre caminho para a perpetuação de um estado que favorece poucos em detrimento de muitos, que aos poucos aprendem a amar um sistema que oprime, castra e limita as possibilidades, antes infinitas, dos indivíduos. Sem sombra de dúvidas, livro e filme são mesmo obrigatórios.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domésticas - o filme

O filme dirigido por Fernando Meirelles e Nando Olival inova ao colocar como protagonistas as profissionais que costumam atuar no máximo como coadjuvante. Aqui as domésticas ganham voz para, com bom humor, narrar histórias do cotidiano, que envolvem desde casos amorosos até problemas gerados pelo abuso de poder dos patrões, que muitas vezes insistem em olhar para empregadas domésticas como verdadeiras remanescentes da escravidão constitucionalizada.

Sem uma grande trama central, o roteiro difuso do longa aglomera pequenas histórias de algumas empregadas, que apesar de enfrentar dificuldades semelhantes em seus serviços, mantêm a individualidade com sonhos particulares, que tentam por em prática a despeito dos empecilhos encontrados no caminho.

É possível encontrar em meio às cômicas trapalhadas várias críticas a problemas sociais, que de tão enraizados muitas vezes sequer são percebidos ou classificados como tais. Conforme já mencionado, a existência de uma empregada para fazer os serviços domésticos é uma herança social da época da escravidão, quando algumas negras eram criadas nas casas dos patrões para aprenderem, desde cedo, a fazer os serviços necessários na ‘casa grande’, porém tendo sempre em mente a diferença social gigantesca que afastavam as pessoas que conviviam na mesma casa. Não é por acaso que ainda hoje a maioria das empregadas domésticas são negras; muitas exercem a mesma profissão das antepassadas, assim como durante a escravidão; e muito frequentemente as leis trabalhistas, que finalmente começam, de forma bastante tímida, a chegar a estas profissionais, são burladas descaradamente, sem que algo seja feito a respeito.

Os sonhos das personagens geralmente envolvem mudar de vida e de emprego, almejam um serviço melhor, quem sabe onde sejam tratadas com mais respeito e recebam salário digno, e condições para ter uma vida que fuja do cotidiano, cansativo pelo trabalho duro e pela repetição. Porém o ciclo de vida é fortemente fechado pela falta de estudo de quem teve que abandonar a escola para trabalhar. Mesmo o filme não mostrando diretamente a formação das personagens, é possível tirar conclusões a partir de uma série de códigos de conduta de todas elas.

Apesar do humor do filme divertir e ajudar a quebrar a acidez pesada que muitas vezes cerca o trabalho das domésticas de muitas dificuldades, talvez o roteiro pudesse ser um pouco mais direto e crítico em suas denúncias, pois mesmo não tendo a intenção de explicitar certos problemas sociais, esta possibilidade poderia ter sido mais bem explorada sem comprometer o gênero de humor, presente a todo momento. É importante que a desconstrução de alguns estereótipos, como o de que certas pessoas supostamente não querem estudar, consequentemente só conseguem trabalhos pesados e mal remunerados, seja bastante clara, pois a desigualdade de condições é histórica e atrapalha a todos, atingindo vários níveis sociais em diferentes proporções. Não estudar nem sempre é uma opção, sendo que manter a população sem estudo é uma forma de continuar tendo mão-de-obra para serviços como os de doméstica e ainda manter a população passiva, aceitando a exploração do trabalho com normalidade.

Um sintoma de que existe a consciência por parte das empregadas domésticas da importância da qualificação profissional é que, com a economia brasileira aquecida, houve um aumento na procura por empregadas por parte da classe média, com isso o valor cobrado pelos serviços domésticos aumentou e já existem pesquisas indicando que a renda extra das empregadas vem sendo investida na educação dos filhos. É claro que há uma série de barreiras sociais que dificultam a ascensão das classes mais baixas e ter mais tempo de estudo não é garantia de emprego, porém é uma etapa fundamental, tanto para o desenvolvimento profissional quanto para a consciência em relação a certos abusos promovidos por conflitos de classes.

Outra característica que notamos após um período de aquecimento econômico é a escassez de profissionais dispostos a vender a força de trabalho bastante pesado dos serviços domésticos. Com a falta de empregadas, que se dá tanto por algumas delas terem mudado de profissão quanto pelo aumento de famílias que agora estão dispostas a contratar alguém para cuidar da casa, aumentou também a indignação das classes mais altas, que sempre, desde a escravidão, foram acostumadas a pagarem pouco e explorar muito as trabalhadoras que agora começam a reivindicar nada mais que direitos minimamente básicos.

Ainda que o filme seja tímido nas críticas, é uma boa comédia que faz com que finalmente as domésticas ganhem papel de destaque no cinema, como indivíduos protagonistas das próprias vidas, ao invés de coadjuvantes em casas de classe média.


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