terça-feira, 28 de junho de 2016

Ausência

Com este longa o diretor Chico Teixeira mostra um recorte da vida do protagonista Serginho (Matheus Fagundes). Com catorze anos o personagem está em uma fase decisiva de sua vida, tanto pela formação pessoal quanto pelos caminhos que começará a traçar rumo à vida adulta.

Quando se fala em meritocracia, valorizando as conquistas individuais através de suposto esforço pessoal, poucos se lembram de olhar para as condições de vida da pessoa para analisar as dificuldades que tiveram ou não que ser superadas.

Neste ponto a vida de Serginho pode ser encarada como uma aula para quem não percebe que as condições de vida não determinam, mas influenciam muito no que aparentemente não passa de mérito pessoal.

Em uma idade em que deveria apenas estudar, Serginho já trabalha como feirante, junto com o tio. Além de fazer serviços pesados ainda convive em um ambiente de hostilidade e preconceitos, travestidos de brincadeiras que passam longe do que deveria ser a referência lúdica de um adolescente. Capilarizados nas relações sociais, o machismo e a homofobia se perpetuam no ambiente.

A figura paterna, que costuma ser exemplo para as crianças, não somente está ausente da vida do personagem como é desconstruída para o menino. Luzia (Gilda Nomacce) não poupa esforços na hora de deixar claro para o filho que o ex-marido não é uma boa pessoa, portanto o menino não deve nem perder tempo se preocupando com o pai. Não só poderíamos pensar que haveria maneiras mais sutis de tratar a ausência paterna como é inegável que a postura materna também não ajuda.

Claro que não sabemos nada sobre a história de vida de Luzia e a principal crítica acaba sendo ao personagem que não aparece. Independente do que tenha acontecido entre o casal, o pai é mais um a abandonar a família e deixar toda a responsabilidade nas mãos da mulher, que não conta sequer com um pequeno auxílio financeiro. Por mais que a situação financeira do ex-marido não seja boa, a criação dos filhos também é responsabilidade dele.

Em relação à Luzia, existe a complacência diante de uma vida notoriamente dura da migrante nordestina, criando dois filhos sozinha e com pouquíssimos recursos, entretanto é difícil não censurar algumas atitudes da mãe. Em algumas cenas os papéis são quase invertidos, com Serginho cuidando de Luzia como se fosse uma filha a quem deve dar dinheiro e remediar as ressacas.

Na busca de um amparo afetivo que deveria ser muito mais presente na vida do menino, ele vê no professor Ney (Irandhir Santos) toda a inspiração e modelo que se espera da figura paterna. A relação dos dois é complexa, pois em relação a Serginho existe a inocência de alguém que somente busca de forma extremamente intensa a atenção que não encontra em outros lugares, tentando extrair do professor mais do que ele tem ou pode oferecer.

Já por parte de Ney notamos uma preocupação plenamente justificável de impor certo limite e preservar sua intimidade. Não se trata de negligenciar as demandas do menino, mas sim de não ter a intenção de assumir uma responsabilidade que não é sua. Fica implícito em algumas cenas a hipótese do afeto que ultrapassaria a amizade e mesmo a familiaridade; em uma situação como a do filme é de se supor que o professor tenha também a preocupação de não dar margem à suspeita de pedofilia.

Aos poucos vamos vendo como um garoto de apenas catorze anos além de lidar com a solidão e a carência, acaba lidando com a rejeição por parte daqueles a quem recorre. São problemas graves até mesmo para pessoas mais velhas e experientes, que quanto podem acabam procurando até mesmo ajuda média e psiquiátrica para trabalhar os efeitos nocivos de uma vida sem laços afetivos.

Uma pessoa que mal chegou à adolescência tendo que enfrentar situações tão difíceis pode enveredar por qualquer caminho que parecer mais sedutor de forma imediata. Talvez a única esperança que o filme apresente seja o circo onde o menino tem amizades e encontra um pouco mais de atenção. É possível que seja uma solução dentro das restritas possibilidades que o jovem encontra.

Essa realidade fria e dura é extremamente comum. Bastam algumas alterações para que esse roteiro seja encontrado nas vidas seguem pelas ruas da cidade em busca de um futuro redentor. Falar em mérito diante de situações como as do filme seria um otimismo acima do aceitável.


terça-feira, 14 de junho de 2016

A terra e a sombra (La tierra y la sombra)

Uma pequena casa cercada por um imenso canavial é o cenário deste longa do diretor César Acevedo. A grave enfermidade de Gerardo (Edison Raigosa), que graças aos problemas pulmonares não pode sair de casa, é o vértice de vários outros entraves, tanto de sua família quanto da situação social, comum aos grandes polos canavieiros da América do Sul.

Colher a cana-de-açúcar é trabalho árduo. As folhas cortantes e densas são queimadas para tornar o corte viável; o que não significa que a dificuldade acabe. Além da fuligem e poluição que se espalham – que provavelmente é a causa da doença de Gerardo – os trabalhadores devem trabalhar cobertos dos pés à cabeça, sob sol intenso, realizando uma tarefa exaustiva.

Esses trabalhadores costumam receber de acordo com a quantidade de cana cortada, portanto a família toda deve trabalhar. Com Gerardo de cama, sua esposa Esperanza (Marleyda Soto) cortando cana, sua mãe Alicia (Hilda Ruiz) ajudando na colheita e o filho pequeno em casa, foi preciso que seu pai Alfonso (Haimer Leal) voltasse para casa depois de muitos anos para ajudar.

É clara a clivagem entre homens e mulheres da família. Enquanto o machismo é expresso por abandonos e imposições de vontades, sua desconstrução se dá pela evidência de que nos momentos mais difíceis são as mulheres da família que tomam a frente, sem hesitar quando precisam realizar o trabalho mais pesado e ainda lindando com irresponsabilidades masculinas.

O universo rústico que domina suas vidas quebra o estereótipo machista de mulher delicada, cuja preocupação é cuidar da aparência. Se embrenhar em um canavial durante todo o dia implica em mãos calejadas e corpo recoberto pelo suor misturado às cinzas. Neste caso a dominação masculina se dá por meio da força impositiva dos trabalhos domésticos após a jornada extrema.

No canavial impera a rotina repetida há séculos. No Brasil um dos grandes ciclos de nossa história econômica é o ciclo da cana, desde então grandes áreas rurais se concentram nas mãos de pouquíssimos proprietários, que enriquecem explorando a força de trabalho de uma legião de homens e mulheres, antes escravos, hoje mal remunerados, com péssimas condições de trabalho e, como fica claro através de Gerardo, sem nenhum tipo de assistência.

Com grande quantidade de mão-de-obra disponível, os trabalhadores nos canaviais são vistos como peças descartáveis, que caso fiquem doentes como o personagem, podem ser tranquilamente substituídos sem prejuízos ao empregador.

No setor agrário o advento da tecnologia costuma ser benéfico ao proprietário de terra. As plantações de cana podem eliminar as queimadas e substituir um exército de trabalhadores por uma colheitadeira mecânica, que não apenas colhe, mas fatia as canas e separa as folhas. Tudo ótimo, exceto para os trabalhadores dispensados, que passam a não ter mais a renda da colheita e não têm mais a terra para cultivar e prover o próprio sustento.

A realidade agrária regida por um modo de produção que visa somente o lucro de poucos proprietários implica inevitavelmente em um roteiro como o do filme. O desdobramento histórico dos países latino-americanos concentra as terras nas mãos de poucos fazendeiros, estes mantém o poder político necessário para barrar qualquer tentativa de reforma agrária e ainda conseguem explorar a mão-de-obra em um regime análogo ao da escravidão, pois pagam aos cortadores o mínimo necessário, quando tanto, para sobreviver.

Todo o sistema de monocultura, baseado em vastas propriedades, plantação de um único produto e governo omisso – dadas as intervenções de bancadas ruralistas – só traz vantagens sob uma fria óptica econômica. A ampliação do lucro e redução do preço final dos produtos tem como base um rastro de problemas socioambientais.

Aos poucos, e bem mais lentamente do que deveria, as implicações ambientais como poluição advinda da queima, contaminação por agrotóxicos e desgaste do solo vêm sendo denunciadas e combatidas.

Já os problemas sociais que atingem a base da cadeia produtiva rural pertencem àqueles que não têm voz, que, como no filme, padecem de enfermidades adquiridas por más condições de trabalho e que raramente chegam aos olhos dos que assistem deslumbrados à colheitadeira que a princípio parece trazer apenas benefícios.

Filmes como o de César Acevedo servem como alerta em relação a problemas que parecem distantes. Dificilmente um filme assim chega a ser exibido para aqueles que são retratados. Encravados em áreas rurais, distantes de cultura e entretenimento, resta aos trabalhadores personificados por Gerardo, Esperanza, Alicia, a chance remota de que as denúncias feitas pelo filme ganhem corpo. A necessidade de grandes mudanças estruturais é urgente.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Whisky

A partir de uma pequena fábrica de meias em Montevidéu os diretores Pablo Stoll Ward e Juan Pablo Rebella desenvolvem um enredo baseado em relações de poder e aparências, sempre com fortes bases econômicas e situações inusitadas formando uma comédia discreta, que nos faz rir sem apelações, somente escancarando situações plausíveis e cômicas por si só.

A fábrica em questão é do judeu Jacobo (Andres Pazos), quase uma versão contemporânea de Tempos Modernos, ou seja, com máquinas mais compactas e produtivas do que as retratadas no longa de Charles Chaplin, mas que ainda demandam um pouco de mão-de-obra, que no caso é restrita à somente três funcionárias.

Com uma rotina extremamente repetitiva, as costureiras são praticamente uma engrenagem a mais das máquinas. Chegam sempre no mesmo horário, executam a mesma tarefa, produzem as mesmas meias. Tudo extremamente mecânico e repetitivo. Mesmo Marta (Mirella Pascual), a secretária de Jacobo, com muito mais proximidade do chefe, seguia uma rotina bastante restrita, chegando antes da fábrica ser aberta e se esforçando para fazer sempre mais do que suas tarefas.

Esta rotina que nunca forneceria elementos para um roteiro de filme é alterada quando Herman (Jorge Bolani), irmão de Jacobo, vem do Brasil para uma cerimônia judaica. Também dono de uma fábrica de meias, o irmão que deixou o país tem uma coisa a ser invejada por Jacobo; uma família. É bem provável que o protagonista não dê um valor pessoal para isso, mas uma forte pressão social faz com que ele queira que o irmão acredite que ele é casado. A forma mais rápida encontrada para resolver o impasse é propor para Marta que finja ser sua esposa, casados há um ano. 

Chama a atenção o fato do filme ter poucos diálogos. Sem dúvida o principal responsável por isso é Jacobo. Extremamente introvertido e quieto, sendo que até o rádio das funcionárias ele prefere que permaneça desligado, o personagem também não abre muito espaço para diálogo, sendo econômico em suas afirmações e mais ainda em suas respostas.

Dessa forma boa parte das ações e reações são justificadas pela suposição de quem assiste. Difícil saber se Marta realmente queria encenar o papel de esposa ou se foi coagida de forma implícita pelo patrão, ao qual acatava todas as ordens dentro da fábrica. Da mesma forma que é possível ter estendido essa autoridade para a vida pessoal, também é compreensível que a funcionária solitária e restrita às atividades repetitivas do dia-a-dia, tenha aceitado a proposta já considerando certa amizade com o misterioso patrão.

Independente do que tenha motivado Marta, a relação de dependência econômica segue latente. Ela continua exercendo o papel de secretária que deve antecipar problemas e solucioná-los, enquanto ele somente dá a palavra final. Sem uma competência própria, o único fator que o torna superior é seu próprio dinheiro.

Quando pensamos no casamento tradicional de uma sociedade machista, onde o homem dá ordens simplesmente por ser homem, vemos que essa relação de dominação costuma se estender com muita facilidade para o ambiente corporativo, onde a esposa que cuida de todos os detalhes do lar para agradar o marido é substituída pela secretária, subserviente pelo poder econômico.

O que assemelha as relações retratadas é o machismo histórico, que fica mais evidente com Jacobo tendo vivido com a mãe até a morte dela, há somente um ano. Tendo passado a vida toda sob os cuidados maternos e, ao que parece, cultivando uma longa relação empregatícia com Marta, a única esfera que lhe faltava era realmente a matrimonial.

A família de Herman não é mostrada, mas com esposa e filha, tendo saído da casa da mãe há muito tempo, é claro o desconforto que sua presença provoca no irmão. Até mesmo a personalidade mais despojada e altiva parece incomodar Jacobo, que faz de tudo para mostrar que seu sucesso pessoal é equiparado ao do irmão. 

Seria absurdo apontarmos o protagonista como vítima do machismo, afinal, como já indicado, ele passou a vida toda sob os cuidados da mãe e da secretária, porém vale a pena indicar o quanto a necessidade de exercer um papel social absurdo também traz incômodos. Na ânsia de se apresentar como um homem de sucesso, que na lógica machista deve incluir uma esposa, o desconforto é claro. Parece que esboçar uma felicidade, como o filme indica, só mesmo com whisky. 


terça-feira, 31 de maio de 2016

A ditadura perfeita (La Dictadura Perfecta)

Uma ditadura, em seu sentido clássico, é o poder exercido de forma totalitária, por alguém que concentra em si uma autoridade incompatível com a alternância de poder e limitações de um chefe executivo. Em um Estado moderno, isso excluiria qualquer empresa, já que a definição se aplica aos representantes do governo.

O diretor Luis Estrada recorre à comédia para caricaturar a realidade e ampliar o conceito de poder, mostrando como uma alternância do chefe de poder executivo não implica, na prática, em uma democracia consolidada. Tudo começa quando, para apagar o incêndio proporcionado por uma gafe do presidente, um vídeo do governador Carmelo Vargas (Damián Alcázar) é divulgado pela MX TV.

Seria ótimo se o fato de um político recebendo uma mala de dinheiro vivo só fosse plausível no cinema. A propina, tanto quanto o desdobramento do caso, é tão real que causou desconforto no México dadas as semelhanças com a emissora Televisa e com eminentes figuras da política mexicana. Mesmo sendo um filme estrangeiro, o roteiro parece um apanhado de fatos ocorridos no Brasil, bastando poucas modificações para que as situações se adaptem ao nosso cotidiano.

Os países latinos têm em comum a vergonhosa necessidade de admitir a corrupção como prática corrente no exercício da política – fato antigo e independente de partidos. Isso faz com que inevitavelmente uma rede de comprometimentos seja formada nos bastidores. Conforme vemos no filme, e nos jornais, essa rede extrapola os limites da esfera política, contando com atores do setor privado tanto na consolidação de uma imagem quanto no fluxo de dinheiro envolvido.

A única alternativa para Carmelo Vargas foi buscar o amparo de seus algozes. A tentativa inicial de suborno fracassou, afinal, para quem estava com a carreira política de Carmelo nas mãos, mais uma mala recheada de dólares não significava nada. O acordo final implicou no desvio de um rio de dinheiro público investido legalmente na empresa, em troca dos serviços de marketing do produtor Carlos Rojo (Alfonso Herrera).

O que vem à tona é um contrato dentro da lei, de uma empresa privada prestando um serviço. O que fica oculto em um acerto tácito é o pagamento de um valor exorbitante para que um veículo com enorme poder de formação de opinião mude o foco de seus editoriais, moldando a opinião pública de forma sutil e eficiente, a despeito de trapalhadas que mais uma vez só deveriam ter espaço em um filme de comédia, mas que estão constantemente presentes em noticiários supostamente sérios.

Interferir na opinião pública não chega a ser um grande desafio, bastando a progressiva substituição dos noticiários. No lugar dos escândalos de corrupção entra algum fato marcante que mobilize o público. No filme esse fato é o sequestro de duas pequenas gêmeas, cuja cobertura é transformada quase em uma novela pela emissora que pouco se preocupa com o desenlace do caso, desde que possa capitalizar mais recursos e, principalmente, apagar da memória de seus telespectadores a má reputação do governador.

Ao que parece, o que sustenta a alternância de poder executivo é uma alternância de factoides televisivos, sem nenhum comprometimento com a informação, mas com o entretenimento vazio que vai ao ar em horário nobre travestido de noticiário. É notório como muitos assuntos veiculados à exaustão de repente perdem espaço até sumirem dos jornais.

O roteiro do filme é basicamente a filmagem de um roteiro real, que descreve a relação entre a grande mídia, comprometida com políticos corruptos, e a falta de escrúpulos daqueles que mantêm a estrutura do poder inabalável e hegemônica. Seduzida pela ideia de democracia reduzida à rotatividade de poder e fisgada pelo engodo de que políticos são todos iguais, boa parte da população se dá por satisfeita com eleições periódicas, nas quais escolhe o candidato que considera menos pior.

Assistindo ao filme, ou aos jornais, não demora para percebermos que algumas premissas democráticas, como o voto equitativo ou a igualdade de condições, são completamente desvirtuadas por somas obscenas de dinheiro público utilizadas para a construção de um candidato com amplo apoio de setores empresariais, com os quais o futuro eleito está comprometido até os ossos em um esquema corrupto do qual não conseguiria sair nem se quisesse.

Luis Estrada traz apenas um recorte caricaturado da realidade. É pertinente que a partir dos exemplos do filme a população pare para pensar em quantas emissoras, construtoras, igrejas, agências de publicidade e tantas outras empresas com contato direto com governantes podem contribuir com uma ilusão democrática, maquiando a perpetuação do poder nas mesmas mãos.


terça-feira, 17 de maio de 2016

A floresta que se move

É admirável que uma obra escrita há quase meio século siga servindo de inspiração para artistas do mundo inteiro. William Shakespeare conseguiu essa proeza retratando com maestria a estrutura de poder que sustentava as relações sociais de sua época, dessa forma encenar fielmente a história de Macbeth seria anacrônico, sobretudo no Brasil, que nunca teve uma monarquia tradicional como a britânica em seu governo, mas é possível transpor os atores sociais para a atual situação, mantendo a essência da obra.

Foi assim que o diretor Vinícius Coimbra montou sua versão da obra de Shakespeare, mostrando que a ambição pelo poder, descrita pelo dramaturgo quando o Brasil completara apenas um século, pode ser notada ainda hoje, com evidentes adaptações temporais e transposições devidas.

Curioso que a ambição pelo poder abandonou o caráter político. O protagonista já não quer chegar ao governo de um Estado, mas é simbolizado pelo personagem Elias (Gabriel Braga Nunes), que é surpreendido com a súbita possibilidade de chegar à presidência do maior banco privado do país. Essa simbologia é uma nuance fundamental para compreender quem está de fato no poder do país.

Por um lado é ótimo que não tenhamos um monarca onipotente com o poder de governar de forma arbitrária, por outro uma oligarquia formada por grandes corporações privadas se esconde por trás de uma teoria democrática, segundo a qual o governo deveria atuar em benefício da maioria da população.

Na prática não faz muita diferença quem assume a cadeira da presidência, o lucro dos poucos bancos privados que atuam no país segue batendo recordes consecutivos, governo após governo. Isso dá a essa oligarquia econômica poderes políticos consideráveis que, em conluio com outros setores da economia, como os grandes veículos de comunicação, podem driblar as regras democráticas, mantendo a maquiagem da alternância de poder.

Da mesma forma que a monarquia britânica tinha tudo para seguir tranquilamente no poder, não fosse a ganância de um de seus membros atuar diretamente para que a corrente sucessória fosse rompida, vemos no filme uma estrutura de poder extremamente propícia para a vida de Elias, não fosse a mesma ganância instigada por sua esposa Clara (Ana Paula Arósio).

Seguindo a profecia de uma misteriosa bordadeira, talvez a personagem mais anacrônica da adaptação, condizente com século 17, o protagonista é promovido à vice-presidência do banco, sendo a presidência seu caminho natural, visto que o filho de Heitor (Nelson Xavier), o atual presidente, não tem o menor interesse pelos negócios. Uma vida economicamente impecável, vivendo em uma mansão com todo o conforto que o dinheiro pode comprar e seguindo a carreira com que sonhou – que é factível para pouquíssimas pessoas. Tema recorrente em Shakespeare, e em toda a humanidade, o poder não satisfaz. Não faltam exemplos – históricos e fictícios – de quem teria tudo para uma vida brilhante, mas inexplicavelmente colocou tudo a perder.

Na história original o entrevero da família real trouxe problemas insolúveis para os envolvidos, entretanto podemos imaginar que para o reino, em longo prazo, tudo virou uma história lamentável, que abalou a família real, mas não ameaçou o poder da monarquia. Da mesma forma, o que quer que aconteça nos bastidores de poder de um grande banco privado terá uma influência imediata nas ações da empresa e irá influenciar na sucessão da cúpula, entretanto em pouco tempo a estrutura estará recomposta, a oligarquia reestabelecida e os danos serão restritos aos indivíduos envolvidos.

Historicamente Macbeth é classificado como uma tragédia, em contraponto às comédias que seu autor também escrevia. Já essa adaptação, na genérica classificação dos filmes, é classificada como drama. Uma visão mais abrangente poderia dizer que se trata de um filme de terror. Não o terror clássico, com monstros e criaturas sobrenaturais, mas um terror que quebra com as expectativas sociais.

Em um momento histórico em que cada vez mais o sucesso é associado com o desempenho econômico, a floresta que se move traz fantasmas que assombram a ideia de que a violência está restrita a uma classe extremamente distante daquela retratada no filme. Uma hipótese que Shakespeare desenvolveu com extrema competência em suas obras e que Vinícius Coimbra trouxe para as telas – ainda que distante de uma obra prima – é a de que a ganância é onipresente e pode tranquilamente se manifestar onde menos se espera. O terror se caracteriza em trazer para perto uma característica que se espera encontrar nos outros.



terça-feira, 3 de maio de 2016

Hermano - Uma fábula sobre futebol

Este longa do diretor Marcel Rasquin é venezuelano. Um ótimo representante do desconhecido cinema de nossos vizinhos, sobre os quais sabemos muito pouco mesmo fora das telas. O interessante é que sua história ilustra a periferia de qualquer país latino-americano, mostrando que temos muito mais em comum do que certas divergências políticas tendem a nos fazer acreditar.

Com uma trama central Rasquin utiliza diversas ramificações para ao menos indicar problemas graves e onipresentes em comunidades carentes, tão frequentes que fazem com que um roteiro realista esteja sempre estruturado com a mesma base.

Daniel (Fernando Moreno) e Júlio (Eliú Armas) são irmãos. Não de sangue, mas de criação e no filme essa característica é relevante, pois Daniel foi encontrado ainda bebê abandonado em meio a sacos de lixo. Grandes companheiros, os irmãos formam uma dupla de sucesso no La Ceniza, time de futebol da favela, e sonham com a chance de jogar em um grande time.

Um diferencial da Venezuela em relação aos demais sul-americanos é que o esporte nacional não é o futebol, mas o basebol. Seria como se no Brasil os meninos aspirassem sucesso no vôlei ou basquete, ou seja, um sonho ainda mais difícil que a carreira no esporte mais popular e consequentemente valorizado.

A primeira reação ao vermos o velho sonho de ser jogador de futebol é a de pensar que as chances de sucesso são muito remotas. De fato, porém não demora para notarmos que o contexto social dos personagens faz com que qualquer sonho que vislumbre ascensão social é tristemente remoto.

Um pouco de reflexão nos mostra como as histórias dos personagens, mesmo que ocultas, são diferenciadas por nuances. O acaso colocou Graciela (Marcela Girón), mãe biológica de Júlio, em contato com Daniel, mas o menino passou perto da morte por inanição, ou de uma criação descuidada que poderia leva-lo a ser mais um menino viciado em cheirar cola, praticando pequenos roubos com consequências trágicas.

Outro laço de personagens com destinos correlacionados é o que se forma entre Daniel e a jovem Sol (Leany Leal), que ilustra um problema assustadoramente comum, o da gravidez na adolescência. Jovem, sem formação nem renda e com um vínculo muito tênue com o pai da criança, o desenrolar da gravidez precoce é uma denúncia sutil de como o machismo capilarizado acaba punido as mulheres. A história de Sol, repetida ao longo das gerações, é uma das hipóteses mais prováveis para a origem de Daniel, neste ciclo de vidas quase pré-determinadas, em que indivíduos dificilmente conseguem assumir o protagonismo da própria história.

No contexto dos personagens do filme, aspirar um futuro melhor implica em superar problemas inimagináveis para boa parte da população. Exatamente por não ter contato direto com essa realidade, as classes economicamente mais elevadas não levam em conta, ao pensar em jovens como Daniel e Júlio, como algumas situações influenciam no desenvolvimento do indivíduo.

É evidente que uma condição econômica confortável não livra ninguém de problemas, que são distintos mas não estão ausentes da vida de ninguém, porém o filme retrata jovens são bombardeados com problemas cujos impactos podem levar vários anos para serem superados até mesmo por pessoas muito mais experientes.

Imaginar que decisões plenas e sensatas sejam tomadas ou que tragédias sejam superadas do dia para a noite, sem nenhum tipo de auxílio externo ou mesmo uma formação básica que prepare esses personagens tão reais para a vida chega a ser inocente.

Cabe ressaltar como a justiça local é posta em prática. A favela é quase um Estado à parte, com as próprias regras e juízes. Estes são tão impiedosos quanto boa parte da população acredita que o Estado formal deveria ser, isso inclui tortura, julgamentos sumários e pena capital. Seria ótimo se a exposição dessa suposta forma de justiça, assim como todos os problemas que ela desencadeia, fosse suficiente para esclarecer aqueles que acreditam ser esta a melhor forma de conduzir a sociedade.

Não são apenas as implicações negativas de indivíduos condicionados pelo medo, mas também a insegurança de viver em um ambiente com julgamentos arbitrários, passíveis de erros sem volta e marcados pela barbárie. O que se chama de justiça, tanto a do filme quanto a formal, que se aplica fora das telas, acaba sendo uma forma de manter poucos indivíduos no poder, que no filme se caracteriza pelo traficante, reprimindo os demais até o limite da lei. Em uma sociedade com leis arbitrárias, o limite também é assustadoramente arbitrário.


terça-feira, 26 de abril de 2016

Truman

Em Truman, o diretor Cesc Gay consegue abordar um tema tenso com extrema sensibilidade e leveza. Sem dúvida auxiliado pela qualidade do elenco, pois tanto o protagonista Julián (Ricardo Darín), quanto seu braço direito Tomás (Javier Cámara) conseguem transmitir muito bem as emoções mais intensas sem cair em um drama excessivo.

A dupla de amigos de longa data se encontra em Madri para um último contato. Isso abre espaço para um turbilhão de sentimentos. Superada a tristeza de todas as despedidas, sobretudo as definitivas, é possível pensarmos no privilégio de vivermos intensamente a despedida de uma longa amizade.

Nos recusamos a pensar que qualquer encontro pode ser o último, da mesma forma o impacto de uma despedida iminente encobre o fato de que toda partida é prematura aos olhos de quem fica. Ainda que soubéssemos a hora exata que uma pessoa próxima irá nos deixar, sempre faltará um tempinho para uma despedida mais cuidadosa e aquele segredo que não pode deixar de ser compartilhado será esquecido em meio às emoções, para ser lembrado segundos depois, quando já for tarde.

Esses sentimentos múltiplos são abordados ao longo do filme, quando Julián e Tomás aprendem a lidar com a situação única e inusitada que estão vivendo, sem abrir mão da cumplicidade que os anos de amizade proporcionam. Dois amigos que passaram a vida encaixando piadas em situações sérias não poderiam mudar a forma de agir sem que a mudança atrapalhasse aquela última vivência.

A maturidade faz com que Julián possa refletir sobre sua condição e tomar decisões serenas, ainda que desagrade e até assuste quem está próximo; da mesma forma Tomás tem a reação imediata de tentar fazer o amigo mudar de ideia, porém gastar o último encontro para se indispor com quem precisa de conforto seria completamente condenável. Fica implícito entre os amigos, que não precisam necessariamente expressar os sentimentos em palavras, que o melhor a fazer é viver intensamente essa chance ímpar de uma despedida.

Peça chave na história é o Truman, o cachorro de Julián. Quem tem um bicho de estimação, sobretudo se morar sozinho e ver no animal a companhia mais fiel, sabe que não se trata de um simples cachorro, mas uma relação de empatia extremamente forte e praticamente isenta de razão. A relação do animal com o dono é pautada pela emoção, o que justifica os cuidados extremos de Julián na tentativa de encontrar um novo lar ao amigo. De imediato os cuidados rendem humor, mas exercendo a incômoda tarefa de nos colocarmos no lugar do protagonista, vemos que não é um detalhe desprezível.

Uma aparente tentativa de racionalidade, porém longe de estar isenta de emoção, vem da prima de Julián, Paula (Dolores Fonzi), que não consegue se conformar com a passividade dos dois amigos diante de algo que ela sabe não ter remédio, mas segue a primeira reação de tentar prolongar ao máximo o contato com o primo.

Pode ser menos desconfortável para quem acompanha se agarrar à ilusão de que se tudo for feito na tentativa de adiar o fim, haverá ao menos o consolo de esgotar todos os recursos. Claro, isso pode ser indispensável para algumas pessoas, porém a palavra final, ao menos na história do filme, cabe inteiramente ao Julián, que tem o direito de escolher o caminho que deseja seguir.

Mais uma vez caímos em qual a reação mais conveniente, aproveitar a despedida para viver momentos inesquecíveis ou amargurar uma desavença não resolvida para sempre. Uma cena mais controversa entre os personagens é resolvida por Julián com apenas duas palavras: ‘faz sentido’. Sem spoilers, é possível imaginar que depois de algumas conversas sobre o tema desagradável, mas inevitável, os personagens, incluindo Paula, aprenderam que certas oportunidades são únicas.

Ainda que possamos viver tranquilamente reprimindo alguns desejos – o que em muitos casos é indispensável para a vida em sociedade –, muitas vezes uma vida excessivamente regrada não trará nada além da sensação de oportunidade desperdiçada. Não precisamos do fim batendo em nossa porta para começarmos a desconstruir algumas certezas até então inabaláveis.

Cesc Gay poderia tranquilamente fazer seu filme extremamente denso, com debates profundos sobre vida e morte. Talento nas mãos ele tinha de sobra. Porém tirar o peso e abordar tudo com nuances de humor aproxima a obra daqueles que a assistem, instigando reflexões que muitas vezes são censuradas pelos indivíduos logo que, involuntariamente, este tema lhes invade o pensamento.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Chico - Artista brasileiro

Geralmente avesso a entrevistas, Chico Buarque abriu uma exceção ao amigo e diretor Miguel Faria Jr., proporcionando esse valioso documentário, no qual narra episódios marcantes de sua vida, entrecortados por materiais originais e interpretações de suas canções por artistas diversos.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico acabou produzindo ao longo de sua vida um material artístico de grande valor para a história recente do país, com destaque para o período da ditadura militar, criticada sempre de forma muito inteligente através de suas músicas.

Tendo crescido em uma família extremamente culta, cuja presença é enfatizada no filme tanto pelo pai quanto pela mãe, a intelectual Maria Amélia Cesário Alvim, podemos pensar que o filho foi de certa forma um produto natural, resultante da educação pluralizada, da formação cercada de livros e das amizades extremamente privilegiadas do pai.

O que não podemos esquecer é que boa parte de nossos valores são criados pelo contraste vivido. Não seria nem um pouco incomum se, dentro da realidade em que cresceu, Chico permanecesse distante de qualquer outro modo de vida, resultando em um bon vivant alienado.

No extremo oposto, beirando os setenta anos durante as filmagens, Chico mantém um olhar crítico que de certa forma é uma dialética entre toda sua cultura erudita e a cultura popular, que sempre esteve presente na vida do artista. O bom humor e a serenidade não traduzem deboche e descaso, mas um olhar maduro de alguém que aparentemente sempre esteve no comando da própria vida.

É evidente que estamos falando de um ser humano, que como todos os outros possui defeitos e problemas, que talvez tenham espaço em uma biografia, mas não em um documentário, onde a terapia visando solucionar a crise de criatividade parece ser suficiente para retratar o artista como passível de angústia, como não poderia deixar de ser.

A intenção do filme parece bastante clara, apresentar aos fãs, que não são poucos, a trajetória de um ídolo que iniciou a carreira com a música e hoje coleciona obras em diversas áreas, como teatro, literatura, cinema, além de marcar presença nos campos de futebol – paixão que permeia sua vida desde a infância.

Curioso que um artista tão multifacetado acabe atualmente sendo alvo de críticas tão rasas. Não caberia no filme ainda que tais críticas tivessem começado enquanto as filmagens estivessem em andamento. A participação mais direta de Chico na política foi até o fim da ditadura e o que se seguiu foram alguns apoios, que em se tratando de uma figura pública sempre tem reflexo na campanha de um candidato. Os relatos contemporâneos do filme giram em torno do avô que reúne os netos no apartamento para divertir-se com a improvisada banda, bem distinta da canção ‘A banda’ que alavancou sua carreira.

Cabe a interpretação de que é este senhor – que tanto trabalhou denunciando injustiças sociais e políticas, que enfrentou entraves jurídicos durante a ditadura que o forçaram a permanecer no exterior, que talvez só tenha escapado de ações mais rígidas dos militares graças ao peso do sobrenome – que tem sido duramente criticado por alguns setores da sociedade.

Ninguém é imune a críticas, afinal ninguém é perfeito a ponto de não merecer nenhuma observação desfavorável. O que chama a atenção neste caso é a desproporção entre um ícone para do país sendo criticado por motivos torpes, vindo de pessoas que mal sabem o que estão dizendo.

Isso fica evidente quando Chico é acusado de receber dinheiro pela lei Rouanet para falar bem do governo, quando na verdade essa lei não dá dinheiro a ninguém, somente autoriza a captação de recursos para a produção cultural; ou ainda quando o acusam de hipocrisia ao vetar o uso de suas obras depois de ter lutado contra a censura do regime militar.

Ser a favor ou contra um artista – tanto em relação à obra quanto ao posicionamento político – é opção de cada um e essa postura é moldada por uma série de fatores, porém existe uma lógica que ao ser seguida dá mais legitimidade aos argumentos. Chico, como tantos outros artistas de sua geração, é um cidadão que lutou contra arbitrariedades políticas de um governo ilegítimo que queria impedi-lo de se expressar livremente.

Muito diferente dessa censura estatal, visando à blindagem do governo e o controle da população, é a decisão do artista de ter um controle sobre o que ele próprio criou. Como o próprio Chico já se deu ao trabalho de explicar, não faria nenhum sentido setores que apoiaram a ditadura militar utilizarem hoje suas músicas, geralmente para fins muito distintos, senão antagônicos, aos seus propósitos como compositor.

Um documentário como este é útil sob vários aspectos. Apresenta o homem por trás do artista, relembra fases importantes, apresenta o artista aos que não o conhecem tão bem e, como consequência mais indireta, estimula a reflexão sobre temas recorrentes e indispensáveis presentes em sua obra.


terça-feira, 5 de abril de 2016

O botão de pérola (El Botón de Nácar)

Com este longa o diretor Patricio Guzmán apresenta um enredo bastante abstrato. Não se trata de um tema único desenvolvido sob diversos pontos de vista, mas vários temas que podem convergir para conclusões diferentes, dependendo do enfoque.

Sendo um filme chileno, é a partir de seu território que o diretor abre o horizonte para o mundo. É curioso como em pouco tempo notamos que a história dos países latino-americanos são semelhantes, mas desconhecidas entre si. Temos uma educação que nos ensina detalhes da formação dos estados europeus, suas etnias, desenvolvimento, etc., enquanto nossos vizinhos são reduzidos à América espanhola, fragmentada ao longo dos séculos.

Enquanto tribos europeias são diferenciadas para nos explicar dominações e alianças que originaram os países que conhecemos, na América a generalização de índios coloca todas as etnias no mesmo bojo, como uma espécie exótica dizimada em maior ou menor quantidade, conforme a região.

Entre esses índios estão os Kawésqar, que habitavam a Patagônia chilena, possuíam intensa relação com o ambiente em que viviam e hoje estão restritos aos poucos descendentes que com dificuldades mantém alguns costumes antigos.

Olhar para a dominação europeia em nosso continente – que ao contrário do que os livros de história nos forçam a concluir, não está restrita ao passado, mas continua em andamento sob vários aspectos – não se limita ao absurdo dos assassinatos em massa ou da supressão cultural.

Mesmo com toda a diversidade existente entre as tribos que descobriram o continente americano bem antes dos europeus, um fator era comum entre todas: a vida em harmonia com o meio ambiente. Tudo na natureza é cíclico, pois esta é a única forma de manter a constante reciclagem dos recursos do planeta. Respeitando este ciclo os Kawésqar conseguiam viver em um ambiente hostil sem causar nenhum desequilíbrio e sem a necessidade de migrar para um local mais acolhedor.

Junto com os europeus veio uma forma linear de consumo, que já ultrapassou os limites de reposição do planeta. Isso significa consumir recursos de forma irresponsável, extraindo matéria-prima da natureza em uma velocidade muito maior do que a necessária para reposição, gerando poluição e lixo em quantidades alarmantes. Alguns cientistas já afirmam que não há mais forma de revertermos os danos ao planeta.

O filme dá muita atenção à água, afinal ela é fundamental para a vida, e com o filme tendo sido lançado em 2015, uma conclusão elementar nos deixa no mínimo constrangidos. Enquanto os Kawésqar viveram por séculos em um ambiente quase inóspito de forma harmônica com a natureza, São Paulo é uma cidade que está cercada por nascentes e rios, mas ainda assim conseguiu a proeza de chegar à beira de um colapso no abastecimento de água.

Quando pensamos em consumo linear esse também é o exemplo perfeito. A água depois de utilizada deve voltar para a natureza para que complete seu ciclo, que é o mais estudado em biologia desde os primeiros anos na escola. Nosso consumo linear faz com que a água seja extraída da natureza, consumida e descartada. Estamos habituados a acreditar que nossa participação está encerrada a partir do momento em que a água utilizada escorre pelo esgoto, porém os rios de São Paulo, quando não canalizados, correm a céu aberto, deixando claro que sofremos com a falta d´água, mesmo que ela nos cerque.

O título do filme de Guzmán faz referência a um índio, que em troca de um botão de pérola entrou em um barco europeu e foi para o velho continente. Quase uma experiência da época, que visava “civilizar” um exemplar dos ditos selvagens. O índio retornou tempos depois. Nunca chegou a ser visto como um europeu e nunca voltou a ser como era. Provavelmente foi uma experiência bastante traumática para o índio, que recebeu tão pouco em troca. Somente um botão de pérola.

Uma simbologia muito curiosa que deveria chamar nossa atenção para o quão barato nos vendemos diante de questões ambientais. Vale o exercício de pensar o que seria nosso botão de pérola contemporâneo, que parece extremamente valioso, mas não passa de uma quinquilharia que um dia perceberemos ter custado algo imensurável.

Ao longo da narrativa do filme vemos várias imagens que mostram a imensidão do universo, diante do qual é provável que tenhamos um peso bem menor que um ínfimo grão de areia. Nossas ações podem ter efeito sobre o planeta, mas isso não altera o cosmo; em longo prazo o planeta pode se reconstruir tranquilamente. Não chega a ser tão difícil percebermos que temos aceitado botões de pérolas diários, mas pérolas não nos mantém vivos.


terça-feira, 29 de março de 2016

Na natureza selvagem (Into the Wild)

Não é somente atuando que Sean Penn mostra seu grande talento. Dessa vez como diretor, ele adaptou para as telas o romance de Jon Krakauer, inspirado na história real do protagonista, aproveitando com muita competência os recursos gráficos do cinema para nos apresentar a vida do jovem Christopher McCandless (Emile Hirsch).

Recém-formado e tendo uma família de classe média norte-americana, Christopher teria tudo para seguir uma espécie de roteiro padrão para os jovens de seu círculo social. Bastaria aceitar o carro novo oferecido pelos pais, arrumar um emprego e em poucos anos estaria com uma família estável. É o sonho de muita gente.

Claro que se esse roteiro tivesse sido cumprido, dificilmente a vida do protagonista renderia um filme. O mais provável é que fosse um padrão nada atrativo. E Christopher deixa claro que não é nada disso que vislumbra para seu futuro, desde o carro velho que ele opta por manter – para espanto dos pais, que queriam um carro novo para o filho, sem perceber que no fundo esse desejo era só deles – até a decisão de iniciar uma viagem sem rumo, ele busca novidades em cada detalhe de sua vida.

Ainda que inspirado em fatos reais, a história acaba ganhando tons de uma alegoria. Rompendo completamente com o passado o protagonista adota a identidade de Alexander Supertramp e simplesmente some, sem dar notícia aos pais e sem a menor noção de como faria para se manter. Se a ideia de viver para corresponder às expectativas de uma vida voltada ao trabalho e acumulação é um extremo a ser combatido, a vida do agora Alex está no outro extremo, a princípio mais atrativo, mas que evidentemente também acaba trazendo dificuldades cedo ou tarde.

Muita gente vê um filme desses contendo a vontade de seguir os mesmos passos desnorteados de Alex e normalmente as desculpas para procrastinar a aventura são na verdade um conforto pessoal, para não admitir que gostaríamos de uma mudança radical de vida, mas dificilmente estamos dispostos a abrir mão do conforto que nossa rotina – seja qual for – nos oferece.

Não é nada agradável carregar uma mochila de uns 15kg nas costas para todo lado, levando todos os seus pertences. Isso significa muita coisa para carregar e pouca coisa para dar conta de todas as necessidades que temos, afinal, Alex não tinha dinheiro, nem uma conta da qual pudesse sacar uma quantia que suprisse ao menos alguma necessidade básica.

O que sem dúvida estimula o personagem a seguir sua jornada, que em pouco tempo ganha o Alaska como meta, são as pessoas que cruzam seu caminho, que deixam marcas e que levam suas marcas, fazendo com que todo o esforço seja recompensado de alguma forma. Nos encontros ao longo da estrada é que os viajantes podem criar seus laços, que por mais efêmeros que possam parecer, têm na sinceridade a vantagem insuperável pelas relações cotidianas.

As amizades feitas em uma viagem são imediatas e intensas. Não precisam aguardar pelo happy hour da sexta-feira para poder vivenciar sentimentos e estes não precisam ser contidos com receio do expediente profissional da próxima segunda-feira. Ao longo de uma viagem, talvez por uma identificação de estilo de vida ou quem sabe por uma efemeridade quase inevitável, o que se preza é a plenitude daquele momento, sem espaço para problemas desnecessários.

Se por um lado a ideia do filme não é fazer com que todos abandonem suas obrigações e saiam pelo mundo com uma mochila nas costas, por outro fica claro que não é necessário esse extremo para viver emoções únicas, que só o contato com o inesperado pode proporcionar.

Entre o rompimento total com qualquer tipo de laço e uma vida previsível e burocrática existe uma infinidade de estágios que podem ser aproveitados conforme os recursos e disposição de cada um. Viagens sempre tem algum imprevisto meio desagradável, um problema que pode dar um pouco mais de trabalho para ser contornado, porém depois de pouco tempo o que realmente marca é o acréscimo pessoal, inevitável quando se conhece novos lugares e novas pessoas.

O filme faz com que Alex nos ensine por meio de extremos. É uma forma interessante de nos alertar para o que devemos fazer e o que devemos evitar. Mergulhar no desconhecido envolve riscos, que devem ser ponderados, mas não usados como escudo para uma vida desnecessariamente limitada e curta.

O mundo é grande, as pessoas são múltiplas. Restringir tudo a um escritório e meia dúzia de contatos evitará diversos perigos, mas oferecerá em troca as emoções de uma gaiola pequenina.


terça-feira, 15 de março de 2016

O quarto de Jack (Room)

O diretor Lenny Abrahamson fez uma adaptação do romance de Emma Donoghue. A escritora sempre destacou que a história de seu livro é ficcional, de qualquer forma tudo é muito factível, tanto que infelizmente já houve casos reais extremamente parecidos com o enredo do filme, o que faz com que um sentimento de desconforto seja inevitável em quem assista.

Esse desconforto surge pela junção de absurdos que acontecem com a protagonista Joy (Brie Larson). Sequestrada pelo Velho Nick (Sean Bridgers), mantida em cativeiro por cinco anos e violentada diversas vezes, o que resultou na gravidez sem nenhuma assistência médica e no nascimento de Jack (Jacob Tremblay).

Uma análise direta dos fatos apresentados ao longo do filme já seria o bastante para que a obra se destacasse. Imaginar uma jovem que tenta ajudar um desconhecido e acaba isolada do mundo por cinco anos é suficiente para pensarmos o quanto uma pessoa perde da vida. Meia década no início do século passado não era tempo suficiente para mudanças tecnológicas tão profundas, mas atualmente em cinco anos o mundo pode se tornar um lugar bem diferente, com mudanças que por absorvermos aos poucos acabamos não nos dando conta.

Além disso, Jack passa uma parte fundamental de seu desenvolvimento restrito em um pequeno cômodo. A criatividade de Joy é notável, tanto para manter a criança entretida quanto para criar formas de explicar aquela realidade vivida. Podemos pensar que a criança não sinta falta de um mundo cuja existência é completamente desconhecida, mas com o cérebro no período de maior desenvolvimento, a reclusão vai gerar um desconforto em quem não tem uma atividade física condizente com a necessária.

Existe ainda um espaço para análises mais abstratas com base no que o filme apresenta. A ideia do mito da caverna, desenvolvida por Platão ainda na Grécia antiga, é perfeitamente ilustrada através de Jack, que ao invés de viver em uma caverna vendo sombras da realidade projetadas na parede, passou toda a vida em um pequeno quarto, com referências extremamente restritas vindas de uma televisão.

Não é um spoiler afirmar que mãe e filho saem do cativeiro – já é revelado no trailer e a questão, que não será revelada, é se a mãe conseguirá se reinserir na sociedade e se o menino conseguirá se adaptar ao mundo novo. Fora do quarto Jack sai de seu próprio universo para ter contato com o quarto compartilhado por toda a humanidade.

Fora da caverna, ou do quarto, a criança de cinco anos tem contato com a realidade, ou, mantendo o paralelo com o mito, com o simulacro de realidade compartilhado por todos à sua volta. Não bastasse ser uma idade bastante confusa, em que uma pessoa está apenas iniciando sua socialização e fantasiando elementos que a cercam para criar sua própria versão dos fatos, Jack passa a ter contato com elementos que para outras pessoas não têm nenhum efeito, devido à banalidade da existência cotidiana, mas para o menino é realmente como aterrissar em outro planeta.

A restrição da liberdade pesa incomparavelmente mais para Joy. É ela quem passou cerca de vinte anos livre e tem plena consciência das violências que sofreu a partir do momento do sequestro. Mesmo que essa história tenha ocorrido fora das telas de forma muito parecida, cabe também uma ilustração do estilo de vida da personagem e o desdobramento de seu calvário.

Felizmente é um fato raro uma crueldade tão extrema que aprisiona uma pessoa em um cubículo por anos, sem nenhuma disposição de concedê-la a liberdade. O que incomoda é o fato de não podermos classificar a atitude do Velho Nick de desumana, já que apenas humanos são capazes dessa atrocidade.

Mesmo que Joy tenha vivido uma violência extrema e rara, versões menores dessa mesma violência ainda são vividas cotidianamente. Talvez no Canadá – país de origem – a situação seja menos intensa, mas o machismo que fez com que o Velho Nick se achasse no direito de aprisionar uma mulher e mantê-la como escrava sexual é repetida em diversos níveis, cotidianamente.

Não faltam exemplos reais de mulheres que não vivem em um cárcere tão rígido, mas sob ameaça constante, com agressões físicas e psicológicas, restringindo a existência à servidão de alguém que por razões culturais acredita ter o direito de manter uma pessoa em estado de cárcere ou algo próximo a isso.

É evidente que este não é o foco direto do filme, tão pouco o personagem do Velho Nick é explorado, mas o que deixa claro que a questão do machismo é extremamente pertinente para compreender o filme é o fato de que não faria o menor sentido a inversão de papéis entre ele e Joy.


terça-feira, 1 de março de 2016

A Estrada 47

A Segunda Guerra deve ser o evento histórico mais documentado pelo cinema. De fato foi um episódio extremamente marcante na história da humanidade e sendo os países envolvidos os grandes produtores do cinema atual, é compreensível que outros conflitos mais recentes e igualmente repudiáveis acabem ficando em segundo plano para os diretores.

Isso acaba tornando o longa do diretor Vicente Ferraz bem peculiar, pois aborda a Segunda Guerra sob a ótica de soldados brasileiros, enviados para lutar em uma terra desconhecida, contra inimigos completamente aleatórios. Não temos a visão de algum povo europeu, que viveu a Segunda Guerra com horror, mas com a perspectiva de lutar contra a ameaça nazista ou contra a ocupação do próprio território.

Se já é uma insanidade governantes decidirem declarar uma guerra enviando a população para batalhas e coordenando estratégias de dentro de escritórios completamente seguros, enquanto soldados sem o menor poder de escolha lutam mais por sobreviver que para derrotar o dito inimigo; que dirá um país do outro lado do oceano, que, diferente dos EUA, não tinha o menor poderio militar ou influência na política mundial, enviar uma tropa despreparada para aprender na prática a combater um inimigo desconhecido.

Hoje as intenções de se retratar batalhas da Guerra no cinema também são evidentemente distintas. As produções norte-americanas têm uma necessidade irritante de criar heróis de guerra. Desde o Rambo de Sylvester Stallone, cujas façanhas heroicas beiram a comédia, até o sargento interpretado por Brad Pitt em Corações de Ferro, o exército americano é sempre liderado por um soldado que parece ter o patriotismo como único sentimento e enfrenta bravamente os inimigos, que são indubitavelmente maus.

Qualquer obra documental sobre a guerra mostra traços comuns nos relatos de soldados, independente do país que defenderam. Mesmo os que ansiavam pelas batalhas do front, com a intenção de derrotar um inimigo, em pouco tempo tinham essa ilusão desfeita e o medo da morte passava a não ser uma vergonha, mas uma realidade para qualquer um daqueles que enfrentavam combatentes com armas cada vez mais poderosas.

A realidade de soldados completamente desconectados da ideia de guerra como uma forma necessária de defender ou conquistar territórios é muito mais condizente com os personagens do filme. Em um ambiente extremamente tenso, em que a qualquer momento um ataque surpresa pode surgir de onde menos se espera, uma explosão coloca em pânico o soldado Piauí (Francisco Gaspar) e isso faz com que um grupo se dissipe. A partir disso, além do medo dos inimigos, os soldados passam a temer o próprio exército.

A justiça militar é arbitrária. Não que na esfera civil não existam problemas, algumas questões em relação à justiça são debatidas há séculos, mas no exército não há tanto espaço para defesa. Em uma situação como a que é retratada no filme os soldados poderiam facilmente ser considerados desertores e sofreriam punições aleatórias, sem direito à ampla defesa.

É como uma tentativa de reinserção ao grupamento que os soldados decidem tentar abrir a estrada 47, o que significa desarmar as minas terrestres, com potencial para inutilizar um tanque de guerra. Vemos cidadãos brasileiros retirados de um país tropical para ficarem cobertos de neve, buscando minas instaladas por alemães que tentavam dominar a Europa.

Ao longo do filme fica claro o que deveria ser evidente para todos: não é necessário detestar uma pessoa desconhecida simplesmente porque o governante do seu país determinou isso. Fica implícito que este é mais um ponto que fica ainda mais forte para os brasileiros. 

Não podemos esquecer que Getúlio Vargas, presidente da época, chegou a negociar apoio aos nazistas, sendo que a definição sobre quem os brasileiros deveriam encarar como malvados foi feita a partir da proposta econômica mais vantajosa, feita pelos Estados Unidos.

Outro personagem muito simbólico do filme é o jornalista Rui (Ivo Canelas). Desde a Segunda Guerra a imprensa vem demonstrando papel cada vez mais relevante ao expor ao mundo os horrores dos combates. Na Primeira Guerra, com muito menos tecnologia, até mesmo os civis dos países que abrigavam os combates viam a batalha como necessária e não tinham acesso ao real conteúdo do front.

Com o desenvolvimento de equipamentos mais leves e precisos, imagens explícitas da guerra e suas vítimas passaram a circular com maior facilidade, chocando a população e causando o que parece ser o único incômodo de alguns governantes: a queda de popularidade.

Setenta anos depois do fim da Segunda Guerra os temas apresentados em A Estrada 47 abrem espaço para debate sobre temas atuais. A relação entre governos, a forma de atuação da imprensa, manipulação de informações que instigam o apoio e o ódio da população, etc. Nem sempre são questões que levam à guerra, mas não é necessário chegar a esse extremo para que a falta de clareza em relação à política seja extremamente prejudicial.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Clube (El Club)

A primeira referência a este longa do diretor Pablo Larraín é a de um filme que aborda diretamente a pedofilia praticada por padres católicos. Não que esteja errado, mas o diretor vai além e aborda outros tabus da Igreja, abrindo espaço para um debate que deveria estar muito mais desenvolvido em uma instituição tão antiga.

Em uma casa no litoral chileno, onde não por acaso o tempo está sempre nublado e chuvoso, alguns sacerdotes vivem reclusos, sob a guarda da Irmã Monica (Antonia Zegers). Em pouco tempo percebemos que o fator em comum para todos é a prática de alguma ação proibida pela Igreja – nem sempre ilegal.

É importante diferenciar os atos ilegais, já que no filme o padre acusado de pedofilia é colocado no mesmo patamar daquele que é punido por ser homossexual. Dado que os padres fazem voto de castidade, seria um detalhe completamente irrelevante se a atração reprimida é por mulheres ou por homens. Parece que a real tentativa é proteger o caráter sagrado – e impraticável – dos sacerdotes.

De todas as práticas anacrônicas da igreja o celibato poderia ser uma das mais irrelevantes à sociedade, afinal é uma ordem restrita àqueles que optam por seguir a suposta vocação religiosa, diferente das proibições que se estendem à sociedade, independente da religião que cada um opta por seguir.

A forma como o celibato atinge a sociedade é o elo entre os padres da casa. Criado com a finalidade prática de não produzir herdeiros que dividam as extensas terras da Igreja, hoje o celibato simplesmente escancara o óbvio; independente de qual a hierarquia que se atinge dentro da Igreja, todos são homens, com hormônios, libidos e desejos.

Curioso que o filme de Larraín tenha sido lançado pouco tempo antes de vir à tona uma troca de correspondências bastante íntimas entre o papa João Paulo II e uma amiga próxima, desde os tempos em que ele era apenas um cardeal. Todas as matérias se apressam em esclarecer que não houve nenhuma consumação do amor bastante mundano expresso nas cartas.

É de se esperar que qualquer coisa que tenha existido além de correspondências seja cuidadosamente escondida pela igreja. Neste ponto podemos aproximar o exemplo real com os personagens do filme. Quando um caso de pedofilia começa a ganhar proporções indesejáveis entra em cena o padre Garcia (Marcelo Alonso), um investigador enviado pela Igreja, que parece chegar com um veredito pré-concebido, buscando apenas elementos que nivelem os padres da casa e justifiquem o fechamento do local.

Não resta dúvida de que a pedofilia é um crime inaceitável. Colocá-lo ao lado da homossexualidade é prejudicial tanto por criminalizar injustamente casais homo afetivo quanto por associar as duas práticas de maneira irresponsável. Seria como julgar todos os padres como pedófilos devido aos casos confirmados.

Na qualidade de pessoas comuns, cujos desejos são tão complexos quanto os de qualquer um de nós, os sacerdotes terão formas diversas de lidar com a libido. Muitos, talvez a maioria, conseguem simplesmente sufocar suas vontades, outros exprimem suas vontades em cartas ou o que quer que João Paulo II tenha feito além disso, e alguns, conforme o filme relata, acreditam ser mais fácil ludibriar uma criança na tentativa de ocultar seu pecado criminal.

Se a missão do padre Garcia é zelar pela imagem da Igreja e seus sacerdotes, seu primeiro passo deveria ir de encontro ao combate à pedofilia, dando verdadeira assistência às vítimas ao invés de tentar ocultar todos os casos. Neste sentido qualquer atitude mais efetiva fugiria de sua alçada, afinal não cabe a ele determinar nada relativo aos desejos sexuais que os padres sintam.

Por parte da Igreja seria fundamental um posicionamento coerente com a sociedade em que vivemos. É no mínimo anacrônico uma instituição tentar manter da forma mais exata possível doutrinas baseadas em uma época completamente distinta da nossa. O resultado não pode ser outro senão a hipocrisia, tanto dos fiéis que seguem as doutrinas convenientes para cada ocasião ignorando as mais incompatíveis, quanto da própria igreja, que segue encobrindo os hábitos mundanos de seus sacerdotes para tentar manter uma insustentável aparência de santidade daqueles que servem diretamente à igreja.

Ainda que seja evidente, cabe ressaltar que a pedofilia nunca foi tolerada pela igreja e não é essa a mudança necessária, mas sim uma doutrina que não tenha a pretensão de anular o caráter humano que há por trás de cada religioso – desde um mero coroinha até o papa. 


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Regresso (The Revenant)

Mais uma vez o diretor Alejandro González Iñárritu apresenta um longa com fotografia impecável, que nos prende por cada detalhe minuciosamente estudado para que o resultado final seja um filme esteticamente irretocável e que, através de uma história bem específica, nos permite encontrar nuances de um universo muito mais amplo.

Ambientado no início do século XIX, o filme é baseado no explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio). É fundamental lembrarmos que os EUA desta época não tinham tanto peso político, as cidades eram pequenas e boa parte do território era inexplorado pelos colonizadores.

Até então a expansão norte-americana não fazia vítimas em outros continentes. Havia ainda a necessidade de exterminar os índios que habitavam o território há séculos e, ainda que o filme não enfatize a carnificina promovida pelos recém-chegados europeus, notamos que estava plantada a semente de uma ideologia baseada na expansão à força.

Basta olharmos para a atual população do país para ver o resultado da expansão dos colonizadores, porém o grupo retratado no filme estava de fato rodeado por perigos. Evidentemente os índios estavam defendendo suas terras e para isso não hesitariam em matar aqueles que tentavam mata-los, como se isso não bastasse ainda havia a grande quantidade de neve e os animais selvagens, como o urso que atacou Hugh Glass e o deixou à beira da morte.

O mais curioso é que a despeito de todos os perigos mais evidentes, é em seu próprio grupo que o protagonista encontrará o maior entrave. Todo o sofrimento do personagem – que muitas vezes é exagerado e completamente inverossímil – seria extremamente atenuado, não fosse o egoísmo e a descrença na sua recuperação por parte de um dos integrantes de seu grupo.

Se pensarmos a história do filme como o desabrochar da política norte-americana, o personagem John Fitzgerald (Tom Hardy) pode tranquilamente corroborar a teoria de Hobbes, um dos grandes pensadores da filosofia política. Ao observar as interações sociais que ocorrem no filme, é quase inevitável a conclusão de que precisamos mesmo de um contrato social que se por um lado limita as ações individuais, por outro garante a proteção contra a barbárie.

Mesmo que a época retratada por Iñárritu seja muito distinta da que vivemos hoje, ainda é extremamente forte na sociedade norte-americana a ideia de proteção individual através do porte de armas. O medo de que a violência legítima se restrinja ao Estado, porém seja insuficiente, forma um Estado beligerante que não impede o armamento de seus cidadãos.

Esse mesmo medo coletivo instiga uma ação preventiva contra qualquer um que possa oferecer uma leve ameaça. Vendo o filme podemos imaginar que Fitzgerald já havia dado sinais de que não era uma pessoa confiável, de forma que os outros integrantes do grupo de Hugh poderiam ter tomado uma medida preventiva. Da mesma forma, hoje qualquer um que seja apontado pelo governo como uma ameaça em potencial ganha a repulsa da população, com direito a apoio de ações preventivas.

Dependendo da forma como esse discurso é estruturado pode parecer tentador a ideia de violência como uma forma de justiça, afinal a ideia seria evitar que essa mesma violência fosse praticada pelo lado contrário. O que não podemos esquecer é que o conceito de justiça está sempre ligado a valores morais e sociais. Hugh Glass representa um colonizador europeu, cujos descendentes dominaram todo o território americano impondo valores e cultura.

Do ponto de vista dos índios essa justiça preventiva seria válida somente se eles atacassem os europeus ainda quando os barcos se aproximassem da costa americana, afinal foi a partir desta expansão colonizadora que as tribos locais foram dizimadas.

Pode parecer exagero estender uma história pontual para a formação de uma nação, porém ainda que Hugh Glass tenha tido a particularidade de sobreviver a um ataque de urso e posteriormente a tantos infortúnios, a base da expansão britânica em solo americano foi toda feita por grupos semelhantes.

Hoje essa expansão já está consolidada na América, mas ainda existe em inúmeros países, sobretudo no oriente médio, onde soldados americanos realizando ocupações que não visam à colonização e povoamento, mas que seguem matando habitantes locais e extraindo riquezas para o desenvolvimento econômico dos EUA e empobrecimento crônico dos países ocupados.

Citar a segurança para justificar uma invasão pode ser sedutor, afinal todos querem se sentir seguros. Só seria conveniente substituir a forma beligerante de solucionar conflitos pela diplomacia. Seria bastante vergonhoso concluir que diante de uma situação de perigo, que muitas vezes pode ser até imaginária, o máximo que conseguimos fazer é reagir instintivamente, feito um urso que defende a cria.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Metanoia

Com este longa o diretor Miguel Nagle toca em uma ferida muito sensível de nossa sociedade, sobretudo uma grande metrópole como São Paulo. O crack é um problema extremamente sério por ser a parte exposta de raízes muito mais profundas.

Quem nos guia por toda a trajetória de um usuário é o protagonista Eduardo (Caique Oliveira). Morador do Jardim Ângela, bairro pobre de São Paulo, que a princípio repudia usuários de crack, estigmatizados por boa parte da sociedade. Para desmistificar a ideia de que o problema é restrito à periferia, quem apresenta a droga para Eduardo, que até então só fumava maconha eventualmente, é Jeff (Caio Blat), de classe média e que mesmo tendo um estilo de vida bem distinto, acaba fazendo grande amizade com o protagonista.

É importante que a trama principal seja em torno de Eduardo para ressaltar tanto o contexto social quanto os custos de tratamento, reinserção social e dificuldades de superação que aparecem diante dos viciados, tornando ainda mais complexa a recuperação. A dependência pode atingir qualquer um, inclusive aqueles que em uma visão simplista tendem a criminalizar somente o usuário final, mas a falta de recursos torna qualquer problema mais complexo.

O crack tem duas características que somadas produzem um efeito devastador. É uma droga muito barata e que causa dependência severa em pouquíssimo tempo. Dificilmente se consegue manter um consumo moderado. Nossa tendência de procurar soluções fáceis faz com que uma opinião muito comum na sociedade seja a de que medidas repressivas por parte do Estado são essenciais diante da proliferação dos viciados.

Realmente, diante do cenário deplorável de uma cracolândia, é plausível que medidas urgentes sejam reivindicadas, porém um olhar mais atento a este cotidiano, que é parcialmente retratado no filme, revela pessoas que fazem verdadeiras insanidades por uma simples pedrinha que renderá apenas alguns tragos.

Fora das telas não são apenas jovens que abandonam a casa e deixam mães desesperadas; ainda que isso não seja pouco, as cracolândias colecionam histórias de pais até então dedicados que abandonam os filhos, meninas que se prostituem gerando gravidez que será nutrida com o crack, pessoas tradicionalmente trabalhadoras que passam a não hesitar em cometer crimes para conseguir drogas.

É no mínimo ilusório acreditar que esses extremos serão resolvidos com uma ação truculenta da polícia. A ação contra o crack deve ser preventiva, pois ainda que não exista solução fácil, evitar que uma pessoa se vicie é muito mais eficiente que tentar recuperar alguém que, em geral, pouco tem a perder caso continue se drogando.

O uso de substâncias entorpecentes é recorrente em toda a história da humanidade. Aparentemente o homem sempre buscou formas de alterar a realidade e obter prazer, portanto pensar em um mundo isento de algum tipo de substância desse tipo seria algo inédito, sem contar que socialmente existem divergências quanto à tolerância.

É evidente que isso não significa tolerar drogas sintéticas tão devastadoras para indivíduos e sociedade. O mais sensato é analisar os motivos que levam as pessoas a iniciar o uso e tentar coibi-los. Neste ponto voltamos para as profundas raízes que florescem na forma dos usuários de crack.

Apesar de existir pessoas de classes sociais mais altas que acabam viciadas, como Jeff, a grande maioria dos usuários tem origem pobre, buscando em vários entorpecentes um alívio para a dura realidade que os cerca. Se pessoas que abandonaram uma vida extremamente confortável e estável acabam resistindo à possibilidade de voltar para uma casa e sua família para continuar dormindo nas ruas, que dirá aqueles que já não tinham nada, para os quais a promessa de uma vida limpa das drogas seria aterrorizante. Apanhar da polícia, para muitos moradores da cracolândia, já era uma realidade muito antes do vício.

Filmes como esse têm um papel muito mais importante do que entreter. Nos transportam para um universo geralmente desconhecido e ainda que imperfeito, afinal é apenas um recorte da realidade, podem instigar reflexões que vão além do que notícias de jornal nos proporcionam. Por outro lado existe um peso sobre qualquer que seja a conclusão da história.

Sem dar spoilers é possível dizer que é comum uma busca de final redentor, que não reduza as esperanças daqueles que vivem o problema retratado. Ainda que pessoalmente o final tenha me incomodado, um filme que não tem a intenção de entreter também não tem a finalidade de agradar. O problema social do crack desagrada mais do que qualquer coisa que se exiba em uma tela de cinema.


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