terça-feira, 6 de maio de 2014

O Físico (The Physician)

Historicamente as religiões costumam prestar grande desserviço à ciência, sendo a medicina um bom exemplo de como o avanço do conhecimento pode ser barrado por crenças religiosas. Enquanto antigos egípcios e gregos nos surpreendem com procedimentos complexos para suas épocas, o período da Idade Média, dominado pela igreja Católica, mostrou pouco avanço, e por vezes até certo retrocesso para o desenvolvimento de tratamentos médicos.

É esse desenvolvimento lento e trabalhoso que vemos no filme do diretor Philipp Stölzl. Adaptado do romance homônimo, que deveria ter sido traduzido como “O médico”, o protagonista Rob Cole (Tom Payne) não mede esforços para desvendar os mistérios da cura, desde que, ainda criança, viu sua mãe morrer com dor de barriga – uma simples apendicite, que na época era fatal.

A falta de conhecimento é a porta de entrada mais comum aos charlatões. Desde a época do filme, que começa no ano 1021, curandeiros já empurravam qualquer coisa às pessoas fragilizadas por alguma enfermidade. Algumas vezes esses remédios eram baseados em conhecimento empírico, com ervas medicinais passadas de geração para geração, outras vezes, como indica o filme, até urina de cavalo poderia ser vendida camuflada como remédio.

Com os estudos proibidos pela igreja Católica, o oriente muçulmano oferecia mais espaço para o desenvolvimento da medicina, lecionada por Ibn Sina (Ben Kingsley). Isso não quer dizer que a ciência poderia se desenvolver livremente. Católicos não eram aceitos, por isso Rob teve que se passar por judeu, e a inviolabilidade dos corpos proibia a dissecação de cadáveres.

A picuinha entre religiões nunca trouxe nada de bom para a sociedade e é curioso que alguns pontos em comum, como a inviolabilidade dos corpos, contribuem negativamente. Com o pretexto de que o corpo é sagrado os cientistas não poderiam estudar a partir de cadáveres, ainda que as igrejas tenham sido inúmeras vezes condescendentes com a produção de cadáveres em massa.

É inegável que a liberdade científica avançou muito no milênio que seguiu à época relatada. Casos de religiosos que se recusam a receber tratamento médico por este ser incoerente com a fé são raros, porém muitas pesquisas, sobretudo com células tronco, ainda são tolhidas por pessoas sem a menor qualificação técnica para opinar, retardando o avanço de uma técnica que promete ser menos invasiva e com resultados surpreendentes.

Se por um lado as três grandes religiões do mundo não detêm mais o conhecimento, laboratórios rivais guardam suas descobertas a sete chaves, protegendo a patente e bloqueando o progresso em prol do lucro que os futuros remédios trarão. Mudam as justificativas, mas o egoísmo milenar continua sobreposto ao conhecimento em prol da maioria.

Semelhante aos dias atuais, vemos grande mobilização diante de epidemias mais graves, como no caso da peste negra, que assombrou a humanidade por séculos. Com os empecilhos citados e o pouco conhecimento, é notável como se sobressai uma forma construtivista de aprendizagem – não só em relação à medicina, mas também na matemática, construindo um gráfico do número de mortos de forma clara e didática.

No filme é necessário que tudo aconteça de forma mais rápida e abreviada, portanto vemos o mestre Ibn Sina trabalhando em conjunto com seus discípulos para desvendar algum segredo sobre o mal que assola a cidade. Noções de infectologia que hoje são extremamente básicas e banais só são conhecidas por qualquer criança por um dia terem sido desenvolvidas na prática.

As primeiras medidas profiláticas devem ser tomadas com base no agente transmissor da doença em questão. Quanto à peste negra, descobrir que o contato com pessoas infectadas transmite a doença e que ratos carregam as pulgas transmissoras foi fundamental para barrar o avanço da doença, já que os antibióticos que hoje tratam os doentes com facilidade só seriam desenvolvidos séculos mais tarde.

Curioso que a medicina preventiva esteja na gênese desta ciência por, a princípio, não haver a alternativa da cura. Hoje é bastante óbvio o velho dito popular que é melhor prevenir do que remediar, pois ainda que muitas doenças tenham cura todos preferem não adoecer. Não obstante, ainda padecemos com muitas doenças cuja profilaxia seria simples; tão básica quanto o saneamento básico que não chega a uma porcentagem expressiva dos lares brasileiros.

O Físico, ou médico, não apenas mostra de forma didática alguns passos importantes da medicina que conhecemos hoje, como também dá algumas lições que com nova roupagem devem ser ensinadas, tanto para os que precisam prevenir doenças quanto para os que seguem barrando o avanço a ciência de uma forma ou de outra.


6 comentários:

Mary! disse...

Ótima visão do filme. Adorei o artigo. :)

Alexandre Caetano disse...

Obrigado, Mary. Que bom que gostou! =)

Vladimir Walendowsky Vladi disse...

Excelente texto...

Dalila Fernandes disse...

Gostei muito! Parabéns!

minha família disse...

Show Show belo ponto de vista... Muito interessante esse artigo

Alexandre Caetano disse...

Muito grato aos elogios =)

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