terça-feira, 13 de setembro de 2016

De longe te observo (Desde allá)

O diretor venezuelano Lorenzo Vigas Castes consegue abordar em seu longa diversos tipos de violência, desde as mais evidentes até as nuances que, de tão naturalizadas, podem passar despercebidas, ainda que causem desconforto do começo ao fim do filme.

Sendo Caracas uma típica grande metrópole sul-americana, reúne a desigualdade social necessária para que a primeira e mais clara ideia de violência apareça. Isso fica ainda mais evidente ao observarmos que Armando (Alfredo Castro) é o protagonista representante da classe média, proprietário de um laboratório de próteses, com uma renda que proporciona uma vida materialmente confortável.

Em pouco tempo notamos que a figura aparentemente alvo da violência de uma metrópole desigual é amparada por uma estrutura de outras violências, ocultas ou por serem banalizadas e aceitas como normais ou por acontecerem longe dos espaços públicos que garantiriam notoriedade.

A sexualidade costuma ser encarada pela sociedade de forma bastante ambígua, para não dizer hipócrita. O olhar de censura de pessoas mais conservadoras torna alvo de preconceito condutas que são encaradas por muitos como imorais, partindo do princípio que entre quatro paredes haveria um comportamento padrão e correto, fora do qual as pessoas deveriam ser marginalizadas, ainda que suas práticas não interfiram em nada no convívio com a sociedade.

Neste ponto a figura de Armando é contraditória e emblemática. Visitando a periferia da cidade ele oferece generosas quantias de dinheiro para que jovens rapazes tirem a roupa em seu apartamento e ele se masturbe. Se por um lado a sexualidade de Armando é reprimida e ao mesmo tempo sua atração por homens é censurada, por outro lado a exploração de jovens, ainda que já tenham completado dezoito anos, com uma supremacia econômica é um abuso a ser combatido.

Foi em busca de jovens para satisfazer suas fantasias que Armando chegou até Elder (Luis Silva). No outro extremo da pirâmide social, o rapaz é o estereótipo de um perfil cuja existência já caracteriza uma violência contra sua classe. Com a família desestruturada, trabalhando desde cedo e praticando pequenos furtos para complementar a renda, Elder é normalmente visto como agente ativo da violência urbana. Raramente ele ou a classe que representa é vista como uma vítima da violência estrutural, necessária para manter privilégios econômicos de uma pequena parcela da população.

Elder se vê dividido entre a tentação pelo dinheiro fácil e a pressão da censura, mais pela homossexualidade que pela moral, ainda que não houvesse na proposta de Armando a necessidade de contato físico. Aparentemente a situação econômica degradante não permite a seleção das fontes de renda, porém a homofobia parece mais forte que as necessidades materiais.

A partir de então o que parece é que Armando não vê no jovem apenas mais uma fantasia a ser consumida, mas alguém em quem valeria a pena insistir para que se torne uma pessoa melhor, desde que tenha acesso a condições que deveriam ser básicas para qualquer pessoa, mas que na prática são restritas aos que têm poder econômico.

Uma exploração só tem espaço onde uma das partes possui em excesso o que a outra parte carece. Isso não acontece necessariamente através de dinheiro ou bens materiais. Na relação retratada Elder possui como única moeda de troca seu próprio corpo, que é objeto de desejo de Armando. Este em contrapartida não tem somente o dinheiro, mas também uma série de outros confortos materiais, capital cultural, experiência de vida e o que Elder parece ter sido privado por toda sua vida: afeto.

Ao olharmos para uma relação entre pessoas de idades muito diferentes uma série de abusos podem ser listados, um deles é a manipulação psicológica que ocorre em qualquer relação, ainda que involuntariamente. O agravante nesse caso é a discrepância de experiências de vida. Armando não é apenas mais velho que Elder, mas também tem muito mais cultura e uma vida diversificada, comparada à do jovem que no máximo deixa a periferia onde mora.

O diretor joga muito bem com as atitudes dos personagens mostrando sempre a ambiguidade de situações que fogem do simples certo ou errado. Estamos habituados com filmes estruturados na ideia de mocinhos e bandidos muito bem definidos, mas quando se falar em violência urbana de forma coerente com problemas sociais reais, tudo fica muito mais misturado.

A repressão sexual é um tipo de violência, assim como a privação de direitos sociais básicos. Se a prevenção a essas violências não foi possível, a correção deve ser feita de forma responsável e adequada. Um erro nunca se corrige com outro.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Vulcão Ixcanul (Ixcanul)

Esse é um daqueles filmes que ultrapassam completamente o limite o entretenimento. Não é divertido, talvez nem prazeroso, mas leva às telas uma realidade comum em locais remotos da América Latina. O cotidiano da protagonista Maria (María Mercedes Croy), assim como dos moradores vizinhos, é a síntese de dificuldades e preconceitos que não se restringem à Guatemala, tudo muito bem apresentado pelo diretor Jayro Bustamante.

Se por um lado os valores do mundo globalizado chegaram ao local, com tudo o que vem de fora visto como exemplo a ser seguido e referência de boa qualidade, por outro toda a base de vida dos moradores está nas tradições locais. Isso gera um choque de costumes que acaba oferecendo a parte ruim de cada lado.

A economia local é baseada no cultivo do café e milho, que mobiliza toda a força de trabalho para o plantio e colheita de um produto que será totalmente exportado, em contrapartida o que vem de fora para os moradores são produtos de má qualidade, visto como melhores simplesmente por virem dos Estados Unidos.

Com a má remuneração e vida difícil todos buscam formas de uma ascensão social, ou ao menos algo que traga algum tipo de conforto. Uma das formas é a antiga, e machista, tradição do casamento arranjado. É assim que a família de Maria pensa em conseguir uma vida melhor. O desconforto da moça tímida e insegura diante de uma situação inevitável, contra a qual nada pode fazer, é constrangedor.

Subjugado ao poder econômico, o machismo não garante aos homens locais a prosperidade, apenas oferece possibilidades que são negadas às mulheres. Essa também é uma característica de todas as formas de exploração, ou seja, na ausência de uma educação emancipatória os indivíduos explorados não lutam pela ascensão em comum, mas na prosperidade individual, que supostamente faria com que passassem à categoria de exploradores.

É assim que Pepe (Marvin Coroy) planeja emigrar aos Estados Unidos, sonhando em desfrutar das casas grandes, carros, fartura e todas as facilidades que o capitalismo proporciona para uma fatia pequena da população. Na construção onírica que os moradores fazem dos Estados Unidos não existe o preconceito contra imigrantes latinos, sendo que o vilarejo tem o agravante (para quem visa a migração) de falar somente o dialeto Kaqchikel.

Tendo muito mais identificação com Pepe do que com o marido que os pais escolheram, Maria faz de tudo para que ele a leve para os Estados Unidos, sem se dar conta de que as maravilhas norte-americanas são vedadas a eles, tão pouco que o machismo faz com que Pepe tenha muito mais liberdade de ao menos arriscar uma vida nova e partir em uma aventura – ainda que as restrições norte-americanas sejam as mesmas – do que Maria, que tem sua função social muito mais restrita e submissa.

Aos que ficam resta a exploração contínua em vários níveis; as mulheres pelos homens, estes pelos seus superiores, que serão explorados pelo dono da fazenda. Com um cotidiano tão duro é bastante natural que os moradores idealizem um local melhor e sonhem em viver nessa suposta perfeição. Na verdade, a parte do preconceito já mencionado, não haveria condições de um único país abrigar todo mundo e para um país atingir níveis de dominação global tão elevados, é indispensável que boa parte da população siga como o povoado retratado.

A única forma de produzir tanta riqueza é através da relação comercial que fica implícita ao longo do filme, ou seja, produtos primários são cultivados por quem recebe uma miséria pelo trabalho pesado que realiza e o valor agregado ao longo das transações comerciais serve para manter as relações econômicas.

O misticismo religioso, que acaba sendo uma das poucas opções que os moradores veem para se apegar, também prejudica o desenvolvimento na medida em que casa muito bem com o conformismo da situação de vida, atribuindo as dificuldades às forças sobrenaturais, como a do próprio vulcão que dá nome ao filme.

Um intermédio entre a cultura local e as comodidades que poderiam vir do exterior deveria ser pensado no sentido de oferecer aos moradores o que há de melhor em cada um dos lados, trazendo conforto com produtos externos e aproveitando a riqueza cultural da população, ao invés da velha tática de oferecer quinquilharias em troca do trabalho pesado que enriquece as grandes potências.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sr. Kaplan (Mr. Kaplan)

O diretor uruguaio Alvaro Brechner utiliza o humor com muita competência para, através do protagonista Jacobo Kaplan (Héctor Noguera), apresentar algumas reflexões pertinentes sobre a forma de encarar a vida em uma idade mais avançada.

Existem inúmeras maneiras de olhar para a própria vida. Alguns vivem presos a um passado, outros vivem sonhando com um futuro perfeito, muitos prezam pelo presente, mas o fato é que sempre planejamos muitas coisas e vamos adaptando as expectativas de acordo com os imprevistos do destino.

Se na juventude temos a impressão de um tempo infindável pela frente, pensando assim em carreira, família, viagens, bens materiais, etc., Jacobo se aproxima dos oitenta anos, tem um casamento de meio século, filhos, netos, aposentadoria e várias outras realizações.

Na ausência da imensa perspectiva da juventude, Jacobo começa a buscar figuras longevas conhecidas ao longo da história para servirem de referência, mas não é somente a preocupação com o tempo de vida ou novos planos que o preocupam.

Uma característica extremamente comum na velhice, e muitas vezes negligenciada pelas pessoas próximas, é a dificuldade de lidar com as limitações do corpo. Aquela pessoa que sempre trabalhou e foi extremamente ativa começa a sentir o peso dos anos e a ter dificuldades para fazer coisas simples. Por mais que as mudanças sejam graduais, ninguém que se habituou a ser independente gosta de passar a precisar de ajuda para tarefas cotidianas.

Perder a capacidade de dirigir não é um incômodo pelo fato isolado, mas é visto como uma deficiência que se soma às outras. Em uma sociedade em que a velhice é vista como uma coisa ruim, como se fosse algo possível de ser evitado, Jacobo não vê valor nas coisas que tem, tão pouco exalta suas experiências de vida que o permitem refletir sobre as pessoas que o cercam.

A necessidade de realizar algo grandioso, que prove ao mundo e a ele próprio que sua vida não está em uma ladeira sem freio, associada a uma série de fatos que parecem se encaixar muito bem, Jacobo acredita ter encontrado um soldado nazista, que a exemplo de Eichmann fugira para a América do Sul para se livrar do julgamento no pós-guerra.

Olhando a história de longe, sobretudo em uma comédia recheada de cenas satíricas, é possível concluir que o plano do velho judeu de capturar um ex-soldado da SS para que este cumpra pena pelos crimes que cometeu seja uma insanidade; sobretudo em uma região que conta com muitos imigrantes germânicos e que costuma dar apelidos às pessoas com base em estereótipos, o fato de haver um alemão apelidado de “nazista” não significa que ele realmente tenha sido combatente da segunda guerra.

Por outro lado, muitas vezes ao longo da vida nos apegamos a certezas que com o passar dos anos são desconstruídas e, ainda que publicamente possamos tentar esconder, acabamos admitindo em nosso íntimo o quanto fomos inocentes – para dizer o mínimo – diante de determinada situação.

Para Jacobo tudo convergia para a situação perfeita. Era sua chance de realizar um fato grandioso, marcar seu nome na história, provar que ainda era uma pessoa ativa e dar um sentido para a vida que ele acreditava estar vazia.

Um caso isolado pode ser ótimo roteiro de comédia, sobretudo quando o protagonista tem ajuda do ex-policial Wilson Contreras (Néstor Guzzini) para sua investigação. Ambos oferecem cenas muito divertidas em meio à trama, suavizando a expectativa pelo desfecho em relação ao suposto nazista. À parte do entretenimento, cabe pensarmos na vida de Jacobo de uma forma mais ampla.

Será mesmo necessário provar algo ao mundo quando se tem uma vida toda nos ombros? O protagonista introjeta os valores de uma sociedade que coloca a velhice como uma coisa ruim, dada as limitações físicas que, em maior ou menor grau, são inevitáveis. Essa introjeção é compreensível, porém questionável não somente no filme, mas em todos os idosos.

Em certa medida pagamos na velhice a conta dos abusos ao longo da vida. Não há elementos sobre a juventude do personagem, mas pensando de forma geral, salvo exceções, quanto mais imprudentes somos quando jovens, maiores serão as consequências físicas, porém não devemos negligenciar os ganhos intelectuais que acumulamos ao longo da vida e chegam ao ápice justamente na velhice.

Se a atuação da passagem do tempo em nossos corpos é inevitável, não nos resta outro caminho além de aceitar a depreciação física, cuidando ao longo da vida para que os efeitos sejam ao menos atenuados. 


terça-feira, 23 de agosto de 2016

A hora e a vez de Augusto Matraga

Guimarães Rosa é um dos ícones de nossa história. Não bastasse levar a medicina nos recantos do sertão mineiro, ainda reuniu as histórias que ouvia do povo em livros, transformando pessoas simples em personagens que misturam realidade e ficção, com a linguagem inovadora e os elementos que o transformaram em expoente do modernismo brasileiro.

Uma contribuição posterior está no rico potencial cinematográfico de suas obras e um ótimo exemplo disso é essa adaptação do diretor Vinícius Coimbra. Não se trata de comparar com o livro, afinal são linguagens distintas com objetivos muito diferentes entre si, mas trazer para as telas características peculiares de nosso povo.

Augusto Matraga (João Miguel) tem em si a ambiguidade explorada na construção de alguns personagens de nossa literatura, talvez o mais famoso neste sentido seja Macunaíma, de Mário de Andrade, onde a dualidade é mostrada de forma mais escrachada. Augusto Matraga está longe de ser o herói bonzinho que costumamos ver nos cinemas, tão pouco é um vilão, visto que principalmente da metade da obra em diante, mostra virtudes louváveis.

O protagonista acaba sendo a síntese das contradições sociais de nossa história. Imerso em um universo extremamente machista, Augusto trata a esposa Dionóra (Vanessa Gerbelli) como uma propriedade tão legítima quando as próprias terras, até mesmo na tentativa de defender – terras e esposa – de inimigos que querem tomar posse. Não é surpreendente que Dionóra aproveite a primeira oportunidade para fugir. É possível interpretar que a fuga não é exatamente do marido, mas da objetificação que faz com que a ela não reste nenhuma alternativa para tentar evitar os vícios e brigas do marido.

Se por um lado existe uma pressão social para que o homem seja valente e não hesite antes de puxar a arma para quem quer que seja, por outro a hierarquia econômica sobrepuja a valentia do sertanejo. Augusto Matraga podia ser um fenômeno de valentia e destreza com uma arma na mão, mas isso não fazia com que pudesse combater de igual para igual os coronéis com grande poder econômico.

Foi uma derrota desastrosa para os capangas do coronel Consilva (Chico Anysio), que exerce seu poder econômico colocando em prática a violência extrema e cruel sem precisar mover um dedo, que fez Augusto Matraga se dar conta de que era passível de derrotas.

Entra em cena outro aspecto fundamental que marca a sociedade brasileira, a religião, por vezes exacerbada, que permeia todas as classes sociais. É evidente que o uso prático da fé também é alterado conforme a classe. Não que Augusto Matraga não fosse fiel a Deus antes de se ver a beira da morte, mas é um momento em que sua vida muda radicalmente em todos os sentidos e a espiritualidade aflora como uma forma de reconhecimento de que a vida esteve por um fio e ele se salvou por muito pouco.

O contraponto do lado vilão de Augusto Matraga também ganha mais corpo, afinal os valores altruístas e o trabalho pesado não surgiram do nada; são características que sempre estiveram com ele, mas nunca foram estimuladas. Agora o protagonista exerce novos valores, porém como uma espécie de penitência pela graça alcançada, não por assimilar aquelas atitudes como a melhor forma de viver.

Por fim, o último personagem simbólico e significativo é Joãozinho Bem-Bem (José Wilker). Uma espécie de cangaceiro cujo poder se mantem pelo medo. Não há o poder econômico dos coronéis, pois seus bens materiais são ilegais, mas há o poder de quem parece estar acima da lei.

Joãozinho Bem-Bem joga com o apoio da população fragilizada para não ter seu poder ameaçado. Para conquistar o povo oferece coisas básicas, às quais todos deveriam ter acesso, assim ele consegue uma reputação ambígua. Além de temido é também admirado e muitas vezes adorado pela população, pois se todos respeitarem suas ordens terão recompensas.

É uma relação ruim porque anula liberdades individuais e subjuga a população à arbitrariedade de um cidadão civil, porém o combate a esse tipo de problema nunca é feito em sua base, ou seja, fornecendo aos indivíduos educação e emprego que sejam emancipatórios.

A ideia de alguém que preencha uma lacuna deixada pelo estado é muito anterior à obra de Guimarães Rosa e está longe de ter um fim. Basta trocarmos o sertão por uma favela para notarmos que os personagens mudam, mas a estrutura permanece forte.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

O valor de um homem (La loi du marché)

O título original do filme teria como tradução “A lei do mercado”. São enfoques opostos, já que o valor do protagonista Thierry (Vincent Lindon) é bem diferente das leis do mercado de trabalho, de onde ele está distante há quase dois anos, com uma condição financeira cada vez mais precária.

Provavelmente a intenção do diretor Stéphane Brizé foi ressaltar o quanto o mercado pode ser perverso, sobretudo em tempos de crise, quando a falta de vagas de emprego e o grande contingente de desempregados torna-se uma ótima oportunidade para os donos de empresa renovarem sua folha de pagamento, reduzindo os custos de produção e extraindo o máximo das forças de trabalho daqueles que não podem perder a fonte de renda, ainda que esta seja baixa.

Thierry não é um adolescente recém-chegado ao mercado, mas um homem de 51 anos, com esposa e um filho com necessidades especiais. Se por um lado isso proporciona experiência e responsabilidade, por outro cria a necessidade de remuneração mais alta – exatamente o que as empresas querem evitar.

Do ponto de vista do ‘mercado’, essa entidade tão abstrata e tão onipresente, a capacidade de capitalizar cada detalhe da sociedade inclui também as crises econômicas e o desemprego. Não por acaso a renda mundial está cada vez mais concentrada, chegando a igualar a riqueza do 1% mais rico aos outros 99% restantes.

Durante as crises cíclicas que regem a economia, quem tem capital para investir sabe muito bem que proporcionar formação profissional para que os desempregados voltem a trabalhar pode ser muito lucrativo.

Vemos que Thierry, e tantos em situação semelhante, chegam ao ponto de investir o pouco que lhe resta na tentativa de voltar ao mercado e retomar sua fonte de renda. Para isso é sensato pensar em um curso de aprimoramento profissional. É depois de gastar uma quantidade considerável de dinheiro que os desempregados se dão conta de que fazer o curso não garante uma vaga, até porque quanto maior o desemprego, maior a quantidade de profissionais que fazem o mesmo curso, dispostos a trabalhar por um salário ínfimo, que é melhor do que nada.

Outra especialidade do mercado de trabalho é desarticular a organização de trabalhadores, colocando uns contra os outros desde antes da contratação. Talvez mais insano que as entrevistas de emprego, com suas dinâmicas de grupo que beiram uma comédia de mau gosto, são as preparações para tais entrevistas. É como um roteiro mal escrito, com perguntas sem sentido, que visam selecionar um perfil profissional que abdique de valores pessoais – daí o título original – em prol da manutenção de um mercado predatório.

Depois de muitas dificuldades, Thierry finalmente consegue o tão sonhado novo emprego. Segurança em um supermercado. Bem provável que o local tenha sido uma escolha simbólica e sensata do diretor; no supermercado imperam as tais leis do mercado de forma suprema.

No país do filósofo Michael Foucault, Thierry trabalha com a aplicação prática do panoptismo – conceito desenvolvido pelo filósofo. O local é monitorado por dezenas de câmeras, porém estas são controladas por apenas um funcionário, ou seja, não existe nenhuma garantia de que clientes e funcionários são observados no exato momento de um eventual delito, mas sempre existe essa possibilidade.

Pela lei do mercado as peças haviam se encaixado. Um desempregado havia conseguido um emprego, recebia pouco mas melhor que nada, exercia a função de delatar quem quer que cometesse algum delito e independente de cliente ou funcionário, alguma punição teria que ser aplicada, não importa qual o motivo ou a situação pela qual a pessoa estivesse passando na hora em que quebrou a regra.

Muita gente cai na tentação do imediatismo, buscando conforto na ideia de que basta não fazer nada de errado, ou ainda em uma comparação simplista com as atitudes de Thierry durante o desemprego, ou seja, se ele passou por dificuldades sem apelar para os delitos, não há porque ser complacente com desconhecidos que não tenham a mesma conduta.

Esse conformismo com a estrutura predatória de mercado, que coloca trabalhadores uns contra os outros, é benéfica para os proprietários de empresas, contribuindo diretamente para a concentração de renda insana e crescente em nossa sociedade.

Sobretudo em uma situação de crise econômica, impor uma competição para aqueles que passam por dificuldades financeiras para com isso concentrar a renda nas mãos de quem não passa por nenhum tipo de necessidade bate de frente com o valor de um homem, desde que este tenha um olhar minimamente crítico para o que acontece ao seu redor.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

O abraço da serpente (El abrazo de la serpiente)

O diretor Ciro Guerra montou seu filme baseado em diários do pesquisador Theodor von Martius, desbravador e defensor dos índios da Amazônia colombiana, porém a exploração da população local sempre segue uma métrica padrão, que nos permite identificar no filme elementos comuns à história das tribos indígenas americanas.

A opção estética pela filmagem em preto e branco traz um resultado interessante. O fotógrafo Sebastião Salgado, notório adepto da técnica, diz que a ausência de cores nivela os elementos da imagem, ressaltando assim o conteúdo retratado. Aqui vemos esse mesmo efeito. A mata densa e exuberante da floresta amazônica fica espetacular em filmagens, mas retirar as cores não reduziu a qualidade da obra, isso somente estimula os olhares habituados às imagens coloridas a verem novos detalhes e diferentes perspectivas.

A personagem central do filme é o índio Karamakate (Nilbio Torres e Antonio Bolivar). Com dois períodos de tempo intercalados ao longo da obra, quando jovem o índio conheceu Theodor (Jan Bijvoet) já gravemente doente e buscando ajuda. O contato foi repleto de desconfiança por parte do indígena. Não era para menos, afinal suas experiências com os brancos haviam sido terríveis.

Quarenta anos depois o pesquisador Evan (Brionne Davis) encontra o mesmo Karamakate e pede ajuda na busca da mística planta yakruna. Karamakate está diferente. Depois de tanto tempo vivendo isolado na mata, o índio carrega o enorme peso de ser o último de sua tribo, tendo esquecido boa parte dos costumes que tanto valoriza.

O contato entre culturas distintas proporciona diversas apropriações, que nem sempre são ruins. A troca de conhecimento entre povos distintos foi fundamental para o desenvolvimento da ciência, trazendo muitos benefícios para a humanidade. O problema é que desde a chegada dos europeus os índios foram vistos como seres menores que, portanto, poderiam ser subjugados e explorados sem nenhum pudor.

No Brasil temos uma visão bastante simplista de que na impossibilidade de escravizar os índios, os portugueses trouxeram os negros para o trabalho escravo. Não está completamente errado, mas isso não significa que os índios não tenham sofrido as mais diversas violências ao longo de nossa história. Foram vários ciclos de exploração esgotando junto com os recursos naturais a vida e a cultura indígena.

Um dos ciclos mais recentes, abordado no filme, é o da borracha. Todo o norte da Amazônia, incluindo a parte colombiana, fornecia borracha para o enriquecimento do mundo às custas de índios seringueiros que, quando não escravizados, recebiam quantias módicas pelo trabalho duro. O filme tem apenas uma cena que mostra diretamente essa exploração, mas é extremamente forte e impactante.

O papel da igreja é, na melhor das hipóteses, insuficiente. Se por um lado tenta proteger crianças indígenas dos exploradores, por outro mantem o papel secular da instituição na América do Sul, inibindo à força toda a cultura indígena e impondo castigos físicos que tornam a atuação daqueles que dizem prezar pelo amor ainda mais hipócrita.

No filme a jornada do índio, tanto com Theo quanto com Evan, constrói uma linha temporal repleta de fatos históricos e conhecimento indígena que aos poucos vai sendo resgatado dos escombros proporcionados pela intervenção dos brancos. Infelizmente os elementos característicos da interação entre os povos são sempre prejudiciais para o mesmo lado.

Uma breve olhada nos noticiários atuais nos mostra que os conflitos e a exploração não se restringem ao passado ou a um filme. O desrespeito com as terras indígenas é contínuo e muitas vezes os índios, verdadeiros donos, são tratados como invasores.

Ao longo de séculos de exploração fomos condicionados a ver as questões indígenas como problemas restritivos, cujas resoluções trariam benefícios ou para os índios ou para os brancos, porém essa é uma falsa dicotomia que omite o fato dos indígenas serem explorados em prol de poucos milionários, que se apoiam no preconceito para afirmarem estar do lado certo.

Pensando no contexto da região amazônica, uma real justiça fica nas entrelinhas do filme logo no início. Quando Evan diz que dedica a vida às plantas Karamakate diz que essa é a coisa mais sensata que já ouviu de um branco. No meio do bioma mais rico do planeta, a preservação da mata e o trabalho em conjunto, que respeite os índios levando em consideração o conhecimento empírico das tribos, contribuiria para a exploração sustentável da floresta, resultando na descoberta de medicamentos e recursos que de fato beneficiem a população.


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mau dia para pescar (Mal día para pescar)

A prática de pequenos estelionatos na sociedade é antiga. Utilizar pequenos truques e aproveitar da ingenuidade de algumas pessoas para ludibria-las é tão frequente que a arte incorporou essa situação de diversas formas, desde os antigos vaudevilles – uma espécie de circo que apresentava números de mágica e atrações bizarras – até o cinema, que explora o potencial cômico e também dramático dessas situações.

Dessa vez foi o diretor uruguaio Alvaro Brechner que trouxe às telas uma história curiosa, na qual um estelionatário que se apresenta como Príncipe Orsini (Gary Piquer) lucra com o oferecimento de entretenimento barato, sobretudo com o suposto homem mais forte do mundo, Jacob Van Oppen (Jouko Ahola).

Jacob não é um golpista. Na verdade ele é tão inocente quanto as vítimas de Orsini, mas seu personagem tem um papel curioso, que nos instiga a pensar na sua condição de vida. Com a idade já avançada para um lutador profissional e com físico debilitado por uma vida desregrada, Jacob se mantem muito mais pela ilusão do que pela real capacidade.

Com o personagem montado para passar a imagem de muito músculo e pouco cérebro, é difícil saber o quanto ele enfrenta, de fato, dificuldades pessoais diante da passagem do tempo. A dupla se apresenta em uma pequena cidade, que não tem outras formas de entreter sua população, assim muitos acabam pagando para ver uma preparação física que mais parece brincadeira de criança. Pelo que podemos notar, tanto espectadores quanto a atração são realmente convencidos de que tudo aquilo é real.

As lutas combinadas e encenadas de forma caricata já fizeram muito sucesso. O telecatch era transmitido pela tevê com grande audiência. A diferença é que todos sabiam que se tratava de uma encenação e isso não ofuscava o brilho das apresentações grandiosas e maniqueísta dos lutadores divididos entre bons e maus. Já Orsini vendia a luta como real, pagava o adversário para que fosse nocauteado por Jacob e, além de ganhar o dinheiro que cobrava pela entrada da luta vendida como real, ainda coordenava apostas, mesmo com o resultado comprado.

Também permeia o filme o tema da competição esportiva, que teoricamente implica na imprevisibilidade de resultados. A premissa de um esporte é a de que vença o melhor, porém as intervenções externas não se restringem a um golpista desconhecido que atua em pequenas cidades. Essa mesma falta de ética é frequentemente encontrada em competições profissionais acompanhada pelo mundo inteiro.

Quando o esporte passa a ser visto como uma grande fonte de dinheiro em potencial não demora para que alguém tente aplicar às competições os preceitos do capital, ou seja, ampliar os lucros minimizando as perdas. O problema é que sem interferências externas o esporte não seria tão lucrativo. Ou se aposta no favorito, com baixa rentabilidade, ou se aposta em um azarão, com pequena possibilidade de vitória.

No filme a trapaça é ameaçada quando Adriana (Antonella Costa) consegue fazer com que seu namorado seja o próximo adversário de Jacob, sem aceitar a propina nem mesmo com a ameaça de derrota, pois precisavam muito do dinheiro e viam na figura decadente do lutador uma possibilidade real de vitória.

Dois pilares importantes que sustentam a situação do filme permeiam toda a história, um deles é a dificuldade financeira que faz com que Adriana e seu namorado levem o desafio adiante, mesmo ele não sendo um profissional. Não é o mesmo caso de Orsini, que tira seu sustento dos golpes periódicos, pois o casal trabalha, mas tem uma fonte de renda que não é suficiente para cobrir as despesas e garantir a realização de seus planos.

Outro pilar, bastante comum, é a falta de entretenimento na cidade. Não é apenas no Uruguai, por aqui os pequenos municípios costumam ser extremamente carentes de opções culturais, abrindo espaço para oportunistas que enxergam uma oportunidade para ganhar dinheiro fácil.

Isso não é uma determinação. É claro que golpes que visam tirar dinheiro da população acontecem em grandes cidades, que concentram inúmeras opções culturais, porém a junção de poucas opções de entretenimento com baixa renda abre espaço para muitos oportunistas, como Orsini, por exemplo.

A tendência ao ver uma história como a do filme é a de pensar que Orsini deve ser punido de alguma forma. Talvez, mas é bem conveniente pensar em oferecer uma vida cultural interessante para a cidade e uma renda digna aos seus moradores.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Olmo e a Gaivota (Olmo and The Seagull)

Apesar de falado em francês, o ‘Olmo e a Gaivota’ é dirigido pela brasileira Petra Costa. Com codireção da dinamarquesa Lea Glob essa diversidade por trás das câmeras acaba sintetizada em um drama bem intimista, que poderia se repetir de forma semelhante em qualquer lugar do mundo.

A protagonista Olívia (Olivia Corsini) é uma mulher madura, que demonstra segurança e experiência de vida, tanto em seu casamento com Serge (Serge Nicolaï) quanto no trabalho – ambos estão ensaiando a peça "A Gaivota", de Anton Tchekov. A gravidez de Olívia parece coroar uma ótima fase de sua vida.

É de se esperar que em um ambiente teatral exista uma convivência mais harmônica entre os profissionais, com pessoas mais abertas ao outro e dispostas a adaptar o cotidiano às necessidades individuais. Claro que uma grávida terá alguns cuidados especiais e talvez algumas alterações em sua rotina, porém, quebrando o estereótipo de tolerância do ambiente teatral, o diretor da peça não considera a hipótese de Olívia atuar aos sete meses de gravidez na apresentação do grupo na badalada Nova York.

Não se trata de uma preocupação com o bem estar ou com a saúde da protagonista e seu futuro bebê, mas uma implicância puramente estética com o tamanho da barriga da atriz e como isso influenciaria na peça. Por mais que possamos pensar nos detalhes de um espetáculo artístico, seria no mínimo insensível colocar a gravidez como fator determinante para substituir a atriz.

Infelizmente não é somente com as dificuldades sociais que Olívia tem que lidar. Devido a uma gravidez de risco a orientação médica é que ela não faça nenhum tipo de esforço, o que na prática significa não sair de casa, não enfrentando assim os vários lances de escada para seu apartamento.

A solidão é a melhor companhia quando precisamos pensar sobre nossa própria vida e tomar decisões difíceis, porém quando é associada a um problema que de alguma forma nos limita, restringindo até mesmo a liberdade de sair de casa, a reflexão não é plena, mas contaminada pela situação atual, como se esta fosse perdurar eternamente.

No caso de Olívia sua estadia forçada dentro do próprio apartamento abre espaço para questionamentos profundos sobre a gravidez, desconstruindo a ideia de que a maternidade é um paraíso. Toda a euforia de uma mulher que engravida e fica radiante com a nova fase que inicia em sua vida logo terá percalços, mas que sem dúvida podem ser superados de forma mais eficiente que o veto da atriz, que acabou sendo necessário por conta do risco da gravidez.

Sozinha em casa, com o passar dos dias, das semanas, Olívia começa a sentir o peso de não poder sair e ter que mudar completamente sua rotina de uma hora para a outra. A personagem começa a pensar no filho que cresce dentro dela e que ela já tem que sustentar. Não é nenhuma surpresa que ela, em meio à situação delicada que está passando, supervalorize os aspectos negativos.

O papel de Serge acaba sendo mais uma crítica à relação do homem com a maternidade. Por um lado ele tem suas obrigações com a peça de teatro e também tem que lidar com as novas responsabilidades da paternidade, inclusive com os novos gastos que virão. Por outro lado ele acaba dando toda sua atenção ao trabalho, mesmo quando está em casa, a despeito de Olívia que segue sozinha mesmo na presença do marido.

É muito bom que um filme com esse viés tenha a direção dividida por duas mulheres, que em algumas cenas incluem pequenos diálogos com a atriz sobre o enfoque que esperam do que está sendo filmado. A gravidez um universo muito feminino que tende a ser visto como uma grande felicidade, porém não existe felicidade plena. Os medos, as angústias, as inseguranças e até mesmo as oscilações hormonais da gravidez formam um quadro que só pode ser retratado por um trabalho feminino.

Ao homem cabe aceitar um papel que o histórico machista da sociedade sempre coibiu: o de coadjuvante. Não cabe ser o protagonista da história, não há espaço para dar as regras ou mostrar como é que se faz. A necessidade quase infantil de ser a estrela do espetáculo em todas as situações vem sendo desconstruída com o fortalecimento do movimento feminista, mas a gravidez talvez seja a maior expressão do elemento feminino, tentar ofuscar esse brilho é patético.


terça-feira, 28 de junho de 2016

Ausência

Com este longa o diretor Chico Teixeira mostra um recorte da vida do protagonista Serginho (Matheus Fagundes). Com catorze anos o personagem está em uma fase decisiva de sua vida, tanto pela formação pessoal quanto pelos caminhos que começará a traçar rumo à vida adulta.

Quando se fala em meritocracia, valorizando as conquistas individuais através de suposto esforço pessoal, poucos se lembram de olhar para as condições de vida da pessoa para analisar as dificuldades que tiveram ou não que ser superadas.

Neste ponto a vida de Serginho pode ser encarada como uma aula para quem não percebe que as condições de vida não determinam, mas influenciam muito no que aparentemente não passa de mérito pessoal.

Em uma idade em que deveria apenas estudar, Serginho já trabalha como feirante, junto com o tio. Além de fazer serviços pesados ainda convive em um ambiente de hostilidade e preconceitos, travestidos de brincadeiras que passam longe do que deveria ser a referência lúdica de um adolescente. Capilarizados nas relações sociais, o machismo e a homofobia se perpetuam no ambiente.

A figura paterna, que costuma ser exemplo para as crianças, não somente está ausente da vida do personagem como é desconstruída para o menino. Luzia (Gilda Nomacce) não poupa esforços na hora de deixar claro para o filho que o ex-marido não é uma boa pessoa, portanto o menino não deve nem perder tempo se preocupando com o pai. Não só poderíamos pensar que haveria maneiras mais sutis de tratar a ausência paterna como é inegável que a postura materna também não ajuda.

Claro que não sabemos nada sobre a história de vida de Luzia e a principal crítica acaba sendo ao personagem que não aparece. Independente do que tenha acontecido entre o casal, o pai é mais um a abandonar a família e deixar toda a responsabilidade nas mãos da mulher, que não conta sequer com um pequeno auxílio financeiro. Por mais que a situação financeira do ex-marido não seja boa, a criação dos filhos também é responsabilidade dele.

Em relação à Luzia, existe a complacência diante de uma vida notoriamente dura da migrante nordestina, criando dois filhos sozinha e com pouquíssimos recursos, entretanto é difícil não censurar algumas atitudes da mãe. Em algumas cenas os papéis são quase invertidos, com Serginho cuidando de Luzia como se fosse uma filha a quem deve dar dinheiro e remediar as ressacas.

Na busca de um amparo afetivo que deveria ser muito mais presente na vida do menino, ele vê no professor Ney (Irandhir Santos) toda a inspiração e modelo que se espera da figura paterna. A relação dos dois é complexa, pois em relação a Serginho existe a inocência de alguém que somente busca de forma extremamente intensa a atenção que não encontra em outros lugares, tentando extrair do professor mais do que ele tem ou pode oferecer.

Já por parte de Ney notamos uma preocupação plenamente justificável de impor certo limite e preservar sua intimidade. Não se trata de negligenciar as demandas do menino, mas sim de não ter a intenção de assumir uma responsabilidade que não é sua. Fica implícito em algumas cenas a hipótese do afeto que ultrapassaria a amizade e mesmo a familiaridade; em uma situação como a do filme é de se supor que o professor tenha também a preocupação de não dar margem à suspeita de pedofilia.

Aos poucos vamos vendo como um garoto de apenas catorze anos além de lidar com a solidão e a carência, acaba lidando com a rejeição por parte daqueles a quem recorre. São problemas graves até mesmo para pessoas mais velhas e experientes, que quanto podem acabam procurando até mesmo ajuda média e psiquiátrica para trabalhar os efeitos nocivos de uma vida sem laços afetivos.

Uma pessoa que mal chegou à adolescência tendo que enfrentar situações tão difíceis pode enveredar por qualquer caminho que parecer mais sedutor de forma imediata. Talvez a única esperança que o filme apresente seja o circo onde o menino tem amizades e encontra um pouco mais de atenção. É possível que seja uma solução dentro das restritas possibilidades que o jovem encontra.

Essa realidade fria e dura é extremamente comum. Bastam algumas alterações para que esse roteiro seja encontrado nas vidas seguem pelas ruas da cidade em busca de um futuro redentor. Falar em mérito diante de situações como as do filme seria um otimismo acima do aceitável.


terça-feira, 14 de junho de 2016

A terra e a sombra (La tierra y la sombra)

Uma pequena casa cercada por um imenso canavial é o cenário deste longa do diretor César Acevedo. A grave enfermidade de Gerardo (Edison Raigosa), que graças aos problemas pulmonares não pode sair de casa, é o vértice de vários outros entraves, tanto de sua família quanto da situação social, comum aos grandes polos canavieiros da América do Sul.

Colher a cana-de-açúcar é trabalho árduo. As folhas cortantes e densas são queimadas para tornar o corte viável; o que não significa que a dificuldade acabe. Além da fuligem e poluição que se espalham – que provavelmente é a causa da doença de Gerardo – os trabalhadores devem trabalhar cobertos dos pés à cabeça, sob sol intenso, realizando uma tarefa exaustiva.

Esses trabalhadores costumam receber de acordo com a quantidade de cana cortada, portanto a família toda deve trabalhar. Com Gerardo de cama, sua esposa Esperanza (Marleyda Soto) cortando cana, sua mãe Alicia (Hilda Ruiz) ajudando na colheita e o filho pequeno em casa, foi preciso que seu pai Alfonso (Haimer Leal) voltasse para casa depois de muitos anos para ajudar.

É clara a clivagem entre homens e mulheres da família. Enquanto o machismo é expresso por abandonos e imposições de vontades, sua desconstrução se dá pela evidência de que nos momentos mais difíceis são as mulheres da família que tomam a frente, sem hesitar quando precisam realizar o trabalho mais pesado e ainda lindando com irresponsabilidades masculinas.

O universo rústico que domina suas vidas quebra o estereótipo machista de mulher delicada, cuja preocupação é cuidar da aparência. Se embrenhar em um canavial durante todo o dia implica em mãos calejadas e corpo recoberto pelo suor misturado às cinzas. Neste caso a dominação masculina se dá por meio da força impositiva dos trabalhos domésticos após a jornada extrema.

No canavial impera a rotina repetida há séculos. No Brasil um dos grandes ciclos de nossa história econômica é o ciclo da cana, desde então grandes áreas rurais se concentram nas mãos de pouquíssimos proprietários, que enriquecem explorando a força de trabalho de uma legião de homens e mulheres, antes escravos, hoje mal remunerados, com péssimas condições de trabalho e, como fica claro através de Gerardo, sem nenhum tipo de assistência.

Com grande quantidade de mão-de-obra disponível, os trabalhadores nos canaviais são vistos como peças descartáveis, que caso fiquem doentes como o personagem, podem ser tranquilamente substituídos sem prejuízos ao empregador.

No setor agrário o advento da tecnologia costuma ser benéfico ao proprietário de terra. As plantações de cana podem eliminar as queimadas e substituir um exército de trabalhadores por uma colheitadeira mecânica, que não apenas colhe, mas fatia as canas e separa as folhas. Tudo ótimo, exceto para os trabalhadores dispensados, que passam a não ter mais a renda da colheita e não têm mais a terra para cultivar e prover o próprio sustento.

A realidade agrária regida por um modo de produção que visa somente o lucro de poucos proprietários implica inevitavelmente em um roteiro como o do filme. O desdobramento histórico dos países latino-americanos concentra as terras nas mãos de poucos fazendeiros, estes mantém o poder político necessário para barrar qualquer tentativa de reforma agrária e ainda conseguem explorar a mão-de-obra em um regime análogo ao da escravidão, pois pagam aos cortadores o mínimo necessário, quando tanto, para sobreviver.

Todo o sistema de monocultura, baseado em vastas propriedades, plantação de um único produto e governo omisso – dadas as intervenções de bancadas ruralistas – só traz vantagens sob uma fria óptica econômica. A ampliação do lucro e redução do preço final dos produtos tem como base um rastro de problemas socioambientais.

Aos poucos, e bem mais lentamente do que deveria, as implicações ambientais como poluição advinda da queima, contaminação por agrotóxicos e desgaste do solo vêm sendo denunciadas e combatidas.

Já os problemas sociais que atingem a base da cadeia produtiva rural pertencem àqueles que não têm voz, que, como no filme, padecem de enfermidades adquiridas por más condições de trabalho e que raramente chegam aos olhos dos que assistem deslumbrados à colheitadeira que a princípio parece trazer apenas benefícios.

Filmes como o de César Acevedo servem como alerta em relação a problemas que parecem distantes. Dificilmente um filme assim chega a ser exibido para aqueles que são retratados. Encravados em áreas rurais, distantes de cultura e entretenimento, resta aos trabalhadores personificados por Gerardo, Esperanza, Alicia, a chance remota de que as denúncias feitas pelo filme ganhem corpo. A necessidade de grandes mudanças estruturais é urgente.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Whisky

A partir de uma pequena fábrica de meias em Montevidéu os diretores Pablo Stoll Ward e Juan Pablo Rebella desenvolvem um enredo baseado em relações de poder e aparências, sempre com fortes bases econômicas e situações inusitadas formando uma comédia discreta, que nos faz rir sem apelações, somente escancarando situações plausíveis e cômicas por si só.

A fábrica em questão é do judeu Jacobo (Andres Pazos), quase uma versão contemporânea de Tempos Modernos, ou seja, com máquinas mais compactas e produtivas do que as retratadas no longa de Charles Chaplin, mas que ainda demandam um pouco de mão-de-obra, que no caso é restrita à somente três funcionárias.

Com uma rotina extremamente repetitiva, as costureiras são praticamente uma engrenagem a mais das máquinas. Chegam sempre no mesmo horário, executam a mesma tarefa, produzem as mesmas meias. Tudo extremamente mecânico e repetitivo. Mesmo Marta (Mirella Pascual), a secretária de Jacobo, com muito mais proximidade do chefe, seguia uma rotina bastante restrita, chegando antes da fábrica ser aberta e se esforçando para fazer sempre mais do que suas tarefas.

Esta rotina que nunca forneceria elementos para um roteiro de filme é alterada quando Herman (Jorge Bolani), irmão de Jacobo, vem do Brasil para uma cerimônia judaica. Também dono de uma fábrica de meias, o irmão que deixou o país tem uma coisa a ser invejada por Jacobo; uma família. É bem provável que o protagonista não dê um valor pessoal para isso, mas uma forte pressão social faz com que ele queira que o irmão acredite que ele é casado. A forma mais rápida encontrada para resolver o impasse é propor para Marta que finja ser sua esposa, casados há um ano. 

Chama a atenção o fato do filme ter poucos diálogos. Sem dúvida o principal responsável por isso é Jacobo. Extremamente introvertido e quieto, sendo que até o rádio das funcionárias ele prefere que permaneça desligado, o personagem também não abre muito espaço para diálogo, sendo econômico em suas afirmações e mais ainda em suas respostas.

Dessa forma boa parte das ações e reações são justificadas pela suposição de quem assiste. Difícil saber se Marta realmente queria encenar o papel de esposa ou se foi coagida de forma implícita pelo patrão, ao qual acatava todas as ordens dentro da fábrica. Da mesma forma que é possível ter estendido essa autoridade para a vida pessoal, também é compreensível que a funcionária solitária e restrita às atividades repetitivas do dia-a-dia, tenha aceitado a proposta já considerando certa amizade com o misterioso patrão.

Independente do que tenha motivado Marta, a relação de dependência econômica segue latente. Ela continua exercendo o papel de secretária que deve antecipar problemas e solucioná-los, enquanto ele somente dá a palavra final. Sem uma competência própria, o único fator que o torna superior é seu próprio dinheiro.

Quando pensamos no casamento tradicional de uma sociedade machista, onde o homem dá ordens simplesmente por ser homem, vemos que essa relação de dominação costuma se estender com muita facilidade para o ambiente corporativo, onde a esposa que cuida de todos os detalhes do lar para agradar o marido é substituída pela secretária, subserviente pelo poder econômico.

O que assemelha as relações retratadas é o machismo histórico, que fica mais evidente com Jacobo tendo vivido com a mãe até a morte dela, há somente um ano. Tendo passado a vida toda sob os cuidados maternos e, ao que parece, cultivando uma longa relação empregatícia com Marta, a única esfera que lhe faltava era realmente a matrimonial.

A família de Herman não é mostrada, mas com esposa e filha, tendo saído da casa da mãe há muito tempo, é claro o desconforto que sua presença provoca no irmão. Até mesmo a personalidade mais despojada e altiva parece incomodar Jacobo, que faz de tudo para mostrar que seu sucesso pessoal é equiparado ao do irmão. 

Seria absurdo apontarmos o protagonista como vítima do machismo, afinal, como já indicado, ele passou a vida toda sob os cuidados da mãe e da secretária, porém vale a pena indicar o quanto a necessidade de exercer um papel social absurdo também traz incômodos. Na ânsia de se apresentar como um homem de sucesso, que na lógica machista deve incluir uma esposa, o desconforto é claro. Parece que esboçar uma felicidade, como o filme indica, só mesmo com whisky. 


terça-feira, 31 de maio de 2016

A ditadura perfeita (La Dictadura Perfecta)

Uma ditadura, em seu sentido clássico, é o poder exercido de forma totalitária, por alguém que concentra em si uma autoridade incompatível com a alternância de poder e limitações de um chefe executivo. Em um Estado moderno, isso excluiria qualquer empresa, já que a definição se aplica aos representantes do governo.

O diretor Luis Estrada recorre à comédia para caricaturar a realidade e ampliar o conceito de poder, mostrando como uma alternância do chefe de poder executivo não implica, na prática, em uma democracia consolidada. Tudo começa quando, para apagar o incêndio proporcionado por uma gafe do presidente, um vídeo do governador Carmelo Vargas (Damián Alcázar) é divulgado pela MX TV.

Seria ótimo se o fato de um político recebendo uma mala de dinheiro vivo só fosse plausível no cinema. A propina, tanto quanto o desdobramento do caso, é tão real que causou desconforto no México dadas as semelhanças com a emissora Televisa e com eminentes figuras da política mexicana. Mesmo sendo um filme estrangeiro, o roteiro parece um apanhado de fatos ocorridos no Brasil, bastando poucas modificações para que as situações se adaptem ao nosso cotidiano.

Os países latinos têm em comum a vergonhosa necessidade de admitir a corrupção como prática corrente no exercício da política – fato antigo e independente de partidos. Isso faz com que inevitavelmente uma rede de comprometimentos seja formada nos bastidores. Conforme vemos no filme, e nos jornais, essa rede extrapola os limites da esfera política, contando com atores do setor privado tanto na consolidação de uma imagem quanto no fluxo de dinheiro envolvido.

A única alternativa para Carmelo Vargas foi buscar o amparo de seus algozes. A tentativa inicial de suborno fracassou, afinal, para quem estava com a carreira política de Carmelo nas mãos, mais uma mala recheada de dólares não significava nada. O acordo final implicou no desvio de um rio de dinheiro público investido legalmente na empresa, em troca dos serviços de marketing do produtor Carlos Rojo (Alfonso Herrera).

O que vem à tona é um contrato dentro da lei, de uma empresa privada prestando um serviço. O que fica oculto em um acerto tácito é o pagamento de um valor exorbitante para que um veículo com enorme poder de formação de opinião mude o foco de seus editoriais, moldando a opinião pública de forma sutil e eficiente, a despeito de trapalhadas que mais uma vez só deveriam ter espaço em um filme de comédia, mas que estão constantemente presentes em noticiários supostamente sérios.

Interferir na opinião pública não chega a ser um grande desafio, bastando a progressiva substituição dos noticiários. No lugar dos escândalos de corrupção entra algum fato marcante que mobilize o público. No filme esse fato é o sequestro de duas pequenas gêmeas, cuja cobertura é transformada quase em uma novela pela emissora que pouco se preocupa com o desenlace do caso, desde que possa capitalizar mais recursos e, principalmente, apagar da memória de seus telespectadores a má reputação do governador.

Ao que parece, o que sustenta a alternância de poder executivo é uma alternância de factoides televisivos, sem nenhum comprometimento com a informação, mas com o entretenimento vazio que vai ao ar em horário nobre travestido de noticiário. É notório como muitos assuntos veiculados à exaustão de repente perdem espaço até sumirem dos jornais.

O roteiro do filme é basicamente a filmagem de um roteiro real, que descreve a relação entre a grande mídia, comprometida com políticos corruptos, e a falta de escrúpulos daqueles que mantêm a estrutura do poder inabalável e hegemônica. Seduzida pela ideia de democracia reduzida à rotatividade de poder e fisgada pelo engodo de que políticos são todos iguais, boa parte da população se dá por satisfeita com eleições periódicas, nas quais escolhe o candidato que considera menos pior.

Assistindo ao filme, ou aos jornais, não demora para percebermos que algumas premissas democráticas, como o voto equitativo ou a igualdade de condições, são completamente desvirtuadas por somas obscenas de dinheiro público utilizadas para a construção de um candidato com amplo apoio de setores empresariais, com os quais o futuro eleito está comprometido até os ossos em um esquema corrupto do qual não conseguiria sair nem se quisesse.

Luis Estrada traz apenas um recorte caricaturado da realidade. É pertinente que a partir dos exemplos do filme a população pare para pensar em quantas emissoras, construtoras, igrejas, agências de publicidade e tantas outras empresas com contato direto com governantes podem contribuir com uma ilusão democrática, maquiando a perpetuação do poder nas mesmas mãos.


terça-feira, 17 de maio de 2016

A floresta que se move

É admirável que uma obra escrita há quase meio século siga servindo de inspiração para artistas do mundo inteiro. William Shakespeare conseguiu essa proeza retratando com maestria a estrutura de poder que sustentava as relações sociais de sua época, dessa forma encenar fielmente a história de Macbeth seria anacrônico, sobretudo no Brasil, que nunca teve uma monarquia tradicional como a britânica em seu governo, mas é possível transpor os atores sociais para a atual situação, mantendo a essência da obra.

Foi assim que o diretor Vinícius Coimbra montou sua versão da obra de Shakespeare, mostrando que a ambição pelo poder, descrita pelo dramaturgo quando o Brasil completara apenas um século, pode ser notada ainda hoje, com evidentes adaptações temporais e transposições devidas.

Curioso que a ambição pelo poder abandonou o caráter político. O protagonista já não quer chegar ao governo de um Estado, mas é simbolizado pelo personagem Elias (Gabriel Braga Nunes), que é surpreendido com a súbita possibilidade de chegar à presidência do maior banco privado do país. Essa simbologia é uma nuance fundamental para compreender quem está de fato no poder do país.

Por um lado é ótimo que não tenhamos um monarca onipotente com o poder de governar de forma arbitrária, por outro uma oligarquia formada por grandes corporações privadas se esconde por trás de uma teoria democrática, segundo a qual o governo deveria atuar em benefício da maioria da população.

Na prática não faz muita diferença quem assume a cadeira da presidência, o lucro dos poucos bancos privados que atuam no país segue batendo recordes consecutivos, governo após governo. Isso dá a essa oligarquia econômica poderes políticos consideráveis que, em conluio com outros setores da economia, como os grandes veículos de comunicação, podem driblar as regras democráticas, mantendo a maquiagem da alternância de poder.

Da mesma forma que a monarquia britânica tinha tudo para seguir tranquilamente no poder, não fosse a ganância de um de seus membros atuar diretamente para que a corrente sucessória fosse rompida, vemos no filme uma estrutura de poder extremamente propícia para a vida de Elias, não fosse a mesma ganância instigada por sua esposa Clara (Ana Paula Arósio).

Seguindo a profecia de uma misteriosa bordadeira, talvez a personagem mais anacrônica da adaptação, condizente com século 17, o protagonista é promovido à vice-presidência do banco, sendo a presidência seu caminho natural, visto que o filho de Heitor (Nelson Xavier), o atual presidente, não tem o menor interesse pelos negócios. Uma vida economicamente impecável, vivendo em uma mansão com todo o conforto que o dinheiro pode comprar e seguindo a carreira com que sonhou – que é factível para pouquíssimas pessoas. Tema recorrente em Shakespeare, e em toda a humanidade, o poder não satisfaz. Não faltam exemplos – históricos e fictícios – de quem teria tudo para uma vida brilhante, mas inexplicavelmente colocou tudo a perder.

Na história original o entrevero da família real trouxe problemas insolúveis para os envolvidos, entretanto podemos imaginar que para o reino, em longo prazo, tudo virou uma história lamentável, que abalou a família real, mas não ameaçou o poder da monarquia. Da mesma forma, o que quer que aconteça nos bastidores de poder de um grande banco privado terá uma influência imediata nas ações da empresa e irá influenciar na sucessão da cúpula, entretanto em pouco tempo a estrutura estará recomposta, a oligarquia reestabelecida e os danos serão restritos aos indivíduos envolvidos.

Historicamente Macbeth é classificado como uma tragédia, em contraponto às comédias que seu autor também escrevia. Já essa adaptação, na genérica classificação dos filmes, é classificada como drama. Uma visão mais abrangente poderia dizer que se trata de um filme de terror. Não o terror clássico, com monstros e criaturas sobrenaturais, mas um terror que quebra com as expectativas sociais.

Em um momento histórico em que cada vez mais o sucesso é associado com o desempenho econômico, a floresta que se move traz fantasmas que assombram a ideia de que a violência está restrita a uma classe extremamente distante daquela retratada no filme. Uma hipótese que Shakespeare desenvolveu com extrema competência em suas obras e que Vinícius Coimbra trouxe para as telas – ainda que distante de uma obra prima – é a de que a ganância é onipresente e pode tranquilamente se manifestar onde menos se espera. O terror se caracteriza em trazer para perto uma característica que se espera encontrar nos outros.



terça-feira, 3 de maio de 2016

Hermano - Uma fábula sobre futebol

Este longa do diretor Marcel Rasquin é venezuelano. Um ótimo representante do desconhecido cinema de nossos vizinhos, sobre os quais sabemos muito pouco mesmo fora das telas. O interessante é que sua história ilustra a periferia de qualquer país latino-americano, mostrando que temos muito mais em comum do que certas divergências políticas tendem a nos fazer acreditar.

Com uma trama central Rasquin utiliza diversas ramificações para ao menos indicar problemas graves e onipresentes em comunidades carentes, tão frequentes que fazem com que um roteiro realista esteja sempre estruturado com a mesma base.

Daniel (Fernando Moreno) e Júlio (Eliú Armas) são irmãos. Não de sangue, mas de criação e no filme essa característica é relevante, pois Daniel foi encontrado ainda bebê abandonado em meio a sacos de lixo. Grandes companheiros, os irmãos formam uma dupla de sucesso no La Ceniza, time de futebol da favela, e sonham com a chance de jogar em um grande time.

Um diferencial da Venezuela em relação aos demais sul-americanos é que o esporte nacional não é o futebol, mas o basebol. Seria como se no Brasil os meninos aspirassem sucesso no vôlei ou basquete, ou seja, um sonho ainda mais difícil que a carreira no esporte mais popular e consequentemente valorizado.

A primeira reação ao vermos o velho sonho de ser jogador de futebol é a de pensar que as chances de sucesso são muito remotas. De fato, porém não demora para notarmos que o contexto social dos personagens faz com que qualquer sonho que vislumbre ascensão social é tristemente remoto.

Um pouco de reflexão nos mostra como as histórias dos personagens, mesmo que ocultas, são diferenciadas por nuances. O acaso colocou Graciela (Marcela Girón), mãe biológica de Júlio, em contato com Daniel, mas o menino passou perto da morte por inanição, ou de uma criação descuidada que poderia leva-lo a ser mais um menino viciado em cheirar cola, praticando pequenos roubos com consequências trágicas.

Outro laço de personagens com destinos correlacionados é o que se forma entre Daniel e a jovem Sol (Leany Leal), que ilustra um problema assustadoramente comum, o da gravidez na adolescência. Jovem, sem formação nem renda e com um vínculo muito tênue com o pai da criança, o desenrolar da gravidez precoce é uma denúncia sutil de como o machismo capilarizado acaba punido as mulheres. A história de Sol, repetida ao longo das gerações, é uma das hipóteses mais prováveis para a origem de Daniel, neste ciclo de vidas quase pré-determinadas, em que indivíduos dificilmente conseguem assumir o protagonismo da própria história.

No contexto dos personagens do filme, aspirar um futuro melhor implica em superar problemas inimagináveis para boa parte da população. Exatamente por não ter contato direto com essa realidade, as classes economicamente mais elevadas não levam em conta, ao pensar em jovens como Daniel e Júlio, como algumas situações influenciam no desenvolvimento do indivíduo.

É evidente que uma condição econômica confortável não livra ninguém de problemas, que são distintos mas não estão ausentes da vida de ninguém, porém o filme retrata jovens são bombardeados com problemas cujos impactos podem levar vários anos para serem superados até mesmo por pessoas muito mais experientes.

Imaginar que decisões plenas e sensatas sejam tomadas ou que tragédias sejam superadas do dia para a noite, sem nenhum tipo de auxílio externo ou mesmo uma formação básica que prepare esses personagens tão reais para a vida chega a ser inocente.

Cabe ressaltar como a justiça local é posta em prática. A favela é quase um Estado à parte, com as próprias regras e juízes. Estes são tão impiedosos quanto boa parte da população acredita que o Estado formal deveria ser, isso inclui tortura, julgamentos sumários e pena capital. Seria ótimo se a exposição dessa suposta forma de justiça, assim como todos os problemas que ela desencadeia, fosse suficiente para esclarecer aqueles que acreditam ser esta a melhor forma de conduzir a sociedade.

Não são apenas as implicações negativas de indivíduos condicionados pelo medo, mas também a insegurança de viver em um ambiente com julgamentos arbitrários, passíveis de erros sem volta e marcados pela barbárie. O que se chama de justiça, tanto a do filme quanto a formal, que se aplica fora das telas, acaba sendo uma forma de manter poucos indivíduos no poder, que no filme se caracteriza pelo traficante, reprimindo os demais até o limite da lei. Em uma sociedade com leis arbitrárias, o limite também é assustadoramente arbitrário.


terça-feira, 26 de abril de 2016

Truman

Em Truman, o diretor Cesc Gay consegue abordar um tema tenso com extrema sensibilidade e leveza. Sem dúvida auxiliado pela qualidade do elenco, pois tanto o protagonista Julián (Ricardo Darín), quanto seu braço direito Tomás (Javier Cámara) conseguem transmitir muito bem as emoções mais intensas sem cair em um drama excessivo.

A dupla de amigos de longa data se encontra em Madri para um último contato. Isso abre espaço para um turbilhão de sentimentos. Superada a tristeza de todas as despedidas, sobretudo as definitivas, é possível pensarmos no privilégio de vivermos intensamente a despedida de uma longa amizade.

Nos recusamos a pensar que qualquer encontro pode ser o último, da mesma forma o impacto de uma despedida iminente encobre o fato de que toda partida é prematura aos olhos de quem fica. Ainda que soubéssemos a hora exata que uma pessoa próxima irá nos deixar, sempre faltará um tempinho para uma despedida mais cuidadosa e aquele segredo que não pode deixar de ser compartilhado será esquecido em meio às emoções, para ser lembrado segundos depois, quando já for tarde.

Esses sentimentos múltiplos são abordados ao longo do filme, quando Julián e Tomás aprendem a lidar com a situação única e inusitada que estão vivendo, sem abrir mão da cumplicidade que os anos de amizade proporcionam. Dois amigos que passaram a vida encaixando piadas em situações sérias não poderiam mudar a forma de agir sem que a mudança atrapalhasse aquela última vivência.

A maturidade faz com que Julián possa refletir sobre sua condição e tomar decisões serenas, ainda que desagrade e até assuste quem está próximo; da mesma forma Tomás tem a reação imediata de tentar fazer o amigo mudar de ideia, porém gastar o último encontro para se indispor com quem precisa de conforto seria completamente condenável. Fica implícito entre os amigos, que não precisam necessariamente expressar os sentimentos em palavras, que o melhor a fazer é viver intensamente essa chance ímpar de uma despedida.

Peça chave na história é o Truman, o cachorro de Julián. Quem tem um bicho de estimação, sobretudo se morar sozinho e ver no animal a companhia mais fiel, sabe que não se trata de um simples cachorro, mas uma relação de empatia extremamente forte e praticamente isenta de razão. A relação do animal com o dono é pautada pela emoção, o que justifica os cuidados extremos de Julián na tentativa de encontrar um novo lar ao amigo. De imediato os cuidados rendem humor, mas exercendo a incômoda tarefa de nos colocarmos no lugar do protagonista, vemos que não é um detalhe desprezível.

Uma aparente tentativa de racionalidade, porém longe de estar isenta de emoção, vem da prima de Julián, Paula (Dolores Fonzi), que não consegue se conformar com a passividade dos dois amigos diante de algo que ela sabe não ter remédio, mas segue a primeira reação de tentar prolongar ao máximo o contato com o primo.

Pode ser menos desconfortável para quem acompanha se agarrar à ilusão de que se tudo for feito na tentativa de adiar o fim, haverá ao menos o consolo de esgotar todos os recursos. Claro, isso pode ser indispensável para algumas pessoas, porém a palavra final, ao menos na história do filme, cabe inteiramente ao Julián, que tem o direito de escolher o caminho que deseja seguir.

Mais uma vez caímos em qual a reação mais conveniente, aproveitar a despedida para viver momentos inesquecíveis ou amargurar uma desavença não resolvida para sempre. Uma cena mais controversa entre os personagens é resolvida por Julián com apenas duas palavras: ‘faz sentido’. Sem spoilers, é possível imaginar que depois de algumas conversas sobre o tema desagradável, mas inevitável, os personagens, incluindo Paula, aprenderam que certas oportunidades são únicas.

Ainda que possamos viver tranquilamente reprimindo alguns desejos – o que em muitos casos é indispensável para a vida em sociedade –, muitas vezes uma vida excessivamente regrada não trará nada além da sensação de oportunidade desperdiçada. Não precisamos do fim batendo em nossa porta para começarmos a desconstruir algumas certezas até então inabaláveis.

Cesc Gay poderia tranquilamente fazer seu filme extremamente denso, com debates profundos sobre vida e morte. Talento nas mãos ele tinha de sobra. Porém tirar o peso e abordar tudo com nuances de humor aproxima a obra daqueles que a assistem, instigando reflexões que muitas vezes são censuradas pelos indivíduos logo que, involuntariamente, este tema lhes invade o pensamento.


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