terça-feira, 14 de março de 2017

No fim do túnel (Al final del túnel)

Neste thriller o diretor Rodrigo Grande utiliza alguns recursos clássicos de narrativa, porém sem deixar que com isso seu trabalho fique previsível. O enredo se desenvolve em ambientes fechados, muitas vezes claustrofóbicos e a restrição de movimentos parece contribuir para que o fôlego siga a mesma opressão das situações tensas envolvendo as personagens.

O protagonista é Joaquín (Leonardo Sbaraglia), um cadeirante que vive sozinho em uma grande casa, onde trabalha consertando computadores no porão, com um elevador tem acesso ao térreo em que ficam seus aposentos e resolve anunciar um quarto para alugar no terraço, já que o único acesso é por uma escada.

Todo seu sossego, que até então parecia excessivo, é quebrado quando o quarto é alugado por Berta (Clara Lago) e sua filha de seis anos. O interesse da moça pelo quarto é tão grande que chega a ser suspeito e sua personalidade explosiva e extrovertida retira definitivamente Joaquín de sua tranquilidade, com o personagem se refugiando no porão para um pouco de paz.

É no silêncio, em companhia de seus inseparáveis cigarros, que o protagonista resolve analisar com mais cuidado os barulhos estranhos vindo da casa ao lado. Para sua surpresa trata-se de uma quadrilha cavando um túnel, que passará por baixo de sua casa até o cofre do banco ao lado. Para seu estarrecimento Berta é namorada do líder da quadrilha e seu desespero para alugar o quarto era uma necessidade de vigiá-lo e ter a certeza de que ele não seria um empecilho ao roubo.

A partir dessa descoberta o filme começa a surpreender e a prender cada vez mais a atenção. Joaquín poderia simplesmente fazer uma denúncia anônima, que acabaria com qualquer risco e o levaria de volta a sua vida pacata, porém ele é um personagem que unifica os conceitos de herói e anti-herói.

Desde o romantismo estamos habituados com a valentia de homens com moral ilibada, que no enredo em questão não só impediriam o roubo ao banco como livrariam a bela moça do bandido. O protagonista do filme já quebra esse estereótipo com sua limitação física, que não impede mas dificulta suas ações. Além disso, não há um dever moral em sua tentativa de intervir no roubo, pois sua intenção é utilizar as informações obtidas através da espionagem para tirar proveito do trabalho duro executado pelos bandidos.

Parece não ser somente a recompensa financeira que motiva Joaquín, mas principalmente a possibilidade de, mesmo na condição de cadeirante, participar de alguma ação grande e complexa, que exige sua astúcia e inteligência para driblar as dificuldades de locomoção.

Elementos bastante sutis ao longo do filme sugerem também que a presença da mãe com a filha pequena remete o personagem a sua própria família, cuja perda provavelmente está ligada à sua deficiência. Neste sentido sua atuação nos remete mais diretamente ao herói romântico, que sonha em se aproximar de Berta como certa continuação de sua vida pré-cadeirante.

Todo o plano complexo de um túnel que termina no piso do cofre do banco nos faz lembrar de crimes históricos, frequentemente retratados no cinema, o que dá grandiosidade à trama. Os ambientes fechados e opressivos não tiram dinamismo da história e o destaque fica para a necessidade do intelecto para atuar de forma precisa no verdadeiro jogo de nervos que se forma.

O diretor trabalha muito bem a ideia da sofisticação de um crime, que o torna muito maior do que uma simples contravenção a ser combatida e punida. É o gênero policial que mostra a estratégia aliada à brutalidade, capaz de articular detalhes minuciosos de um roubo a banco com punições severas ao que for considerado uma traição por seu mentor.

Entre muitos filmes argentinos que ganham destaque pelo engajamento político e abordagem eficiente de causas sociais, ‘No fim do túnel’ mostra que a qualidade também pode vir de ficções que trazem questões políticas de forma muito mais reticente.

Um filme muito mais voltado ao entretenimento, mas que nem por isso deixa de lado a tradição de boas produções cinematográficas. Retratar uma contravenção fazendo com que esta seja quase uma obra de arte, misturando papéis de herói e vilão para mostrar que os melhores personagens também têm interesses pessoais e não estão isentos de uma crítica moral não é uma tarefa fácil, mas quando bem executada oferece ótimo resultado.


terça-feira, 7 de março de 2017

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

O que me levou a esse filme foi ouvir o psicanalista Contardo Calligaris dizendo que é uma obra que explica o Brexit. Claro que não era essa a intenção do diretor Ken Loach, mas os problemas retratados oferecem uma justificativa bastante plausível para que a população mais velha do Reino Unido tenha tido peso fundamental na escolha pela saída da União Europeia.

Quem simboliza a frustração que deu origem à mudança é o protagonista Daniel Blake (Dave Johns). Passando por um período difícil de sua vida, tendo sofrido um ataque cardíaco pouco tempo depois de sua esposa falecer, Daniel é aconselhado pelo cardiologista a não voltar a trabalhar. Com isso ele passa a simplesmente buscar seus direitos.

Para melhor compreensão do que sente o personagem, vale a empatia de nos imaginarmos com uma idade avançada, sem filhos, com a perda recente da esposa, com a saúde fragilizada e agora incapaz de exercer a profissão de carpinteiro, que o sustentou ao longo da vida. O que sobra?

O ideal é que sobrasse ao menos a certeza de que as leis trabalhistas conquistadas com muita luta assegurassem uma previdência que garantisse uma vida digna, depois de tanto tempo de contribuição. Na prática o que Daniel encontra é um sistema burocrático e engessado, que trata todos os trabalhadores como peças de uma produção em série.

Com suas particularidades ignoradas, o protagonista deve seguir um rito padrão, que inclui responder imensos questionários de pouca serventia prática, feito por pessoas que mais parecem robôs programados para agir sempre da mesma maneira, ignorando imprevistos e incapazes de improvisar uma solução mais eficiente.

Em uma das peregrinações pelas instituições às quais tinha que relegar seu futuro – já que não podia trabalhar e não conseguia receber seus direitos previdenciários – Daniel acaba encontrando Katie (Hayley Squires), que enfrenta problemas com origens distintas, mas semelhantes pelo fato de convergirem para uma situação angustiante, da qual a personagem parece não conseguir escapar.

Mãe solteira de duas crianças, o fato de serem de dois pais distintos não gera nenhum problema direto, além da indicação sutil e intencional dos preconceitos que tudo isso pode suscitar. Katie acabou de chegar na cidade, justamente em busca de uma vida melhor, porém sem ter com quem deixar as crianças para poder trabalhar e sem nenhuma renda, sequer para as necessidades mais básicas.

Talvez pela afinidade criada pelas dificuldades burocráticas, a relação que se desenvolve entre os personagens é paternal, com Daniel cuidando das crianças como um avô dedicado, que fabrica presentes e consegue arrancar das crianças sorrisos que aparentemente só a idade nos ensina a obter.

Em pouco tempo a impressão que a vida dos personagens passa é a de que tudo poderia ser muito bom, não fosse a burocracia estatal impondo seus entraves a ponto de deixar Katie completamente sem alternativas. É como se a personagem fosse obrigada a se sujeitar a humilhações que não toleraria sem a pressão de uma vida digna aos filhos.

Por não ter mais nada a perder e levado à extrema exaustão psicológica diante de tantas dificuldades, Daniel se recusa a continuar tentando se encaixar em um sistema com o qual não se identifica e acaba tomando atitudes que a princípio seriam rechaçadas pela população, mas que pela percepção dos serviços estatais burocráticos generalizados, acabam apoiando simbolicamente o personagem.

Claro que a questão do Brexit é extremamente complexa para que seja resolvida em um filme que sequer tem essa pretensão, entretanto a saída do Reino Unido da União Europeia foi amplamente veiculada na mídia brasileira como uma tragédia, que a maioria da população aceitou sem saber ao certo do que se tratava.

O filme de Ken Loach mostra um lado pouco retratado, embora muito vivenciado – não só no Reino Unido. A empatia com as dificuldades dos personagens também deve ser olhada com o devido cuidado. Um estado desnecessariamente burocrático deixa qualquer um indignado, o que não significa que devemos aderir ao primeiro discurso populista que ofereça uma solução aparentemente fácil.

Boa parte dos fatos históricos que moldaram a sociedade contemporânea tiveram início na Inglaterra de Daniel Blake, inclusive a revolução industrial, as primeiras leis trabalhistas e boa parte da seguridade social. Todos são processos históricos que levaram muitos anos para serem concretizados. Acreditar que os problemas atuais – que existem e devem ser combatidos – serão resolvidos com um discurso nacionalista e radical é inocência por parte dos eleitores e má fé por parte daqueles que visam o poder.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O outro lado do paraíso

Uma terra em que o sucesso é garantido e onde os problemas não chegam é um sonho antigo da humanidade. Desde a metáfora bíblica, passando pela promessa de reinos, impérios, reichs e por fim cidades é sedutora a ideia de um local onde haja justiça e prosperidade.

Em um país continental e desigual como o Brasil os ciclos migratórios de um local que passa por dificuldades para uma região próspera fazem parte da história. Uma dessas grandes migrações foi gerada com a construção de Brasília, abordada pelo diretor Andre Ristum.

As notícias que se espalharam na época do início das obras eram da gênese de um paraíso, onde não faltava trabalho e consequentemente ascensão social. A ideia de morar próximo ao presidente, que por sua vez vive no Palácio da Alvorada, atraiu milhares de trabalhadores da construção civil, que acreditavam no sonho de que a riqueza era uma questão de tempo.

Entre esses migrantes estava Antônio (Eduardo Moscovis), religioso, sonhador, que vivia em busca da mítica Levitah. A decisão de mudar com a família para Brasília veio depois de um encontro inesperado com uma serpente e a interpretação da bíblia, que como de costume é muito mais uma criação de narrativa que justifique a vontade do que uma análise da metáfora religiosa, que é bastante abstrata.

Hoje é fácil pensar no desenvolvimento histórico de Brasília e acreditar que Antônio não deveria ter mudado, mas além do futuro no sertão de Minas não ser dos mais promissores, havia uma propaganda institucional de que o futuro estava na nova capital da república.

O primeiro choque de realidade foi perceber que Brasília foi construída por muitos, para servir a poucos. Os migrantes foram alojados precariamente em cidades satélites, que não seria um grande absurdo, não fosse a total falta de infraestrutura e o abismo social existente entre a Capital rica e a periferia miserável.

Olhar para o período retratado no filme é especialmente interessante dado o caráter cíclico dos eventos históricos. Há divergências entre historiadores quanto à motivação do golpe militar no Brasil. A versão de que era necessário combater o movimento comunista convence quem se recusa a uma análise mais profunda e as divergências sociais, sobretudo entre as vertentes elitistas, é muito mais condizente com a realidade.

Assim como a situação política atual, a situação do país no início de 1964 indicava uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O presidente Jango, longe de ser um ditador prestes a se perpetuar no poder, não tinha força política para apaziguar os interesses divergentes que convivem em permanente hostilidade na história do país e que por vezes entram em ebulição.

Estabelecido o golpe, o desenrolar tem resultado parecido com o que vemos hoje, ainda que obtido por caminhos distintos. De forma muito menos reticente, os militares sufocaram todo o movimento operário que lutava por justiça social em nome de uma suposta ordem que levaria ao progresso.

O filme não chega a abordar o resultado histórico do golpe, se restringindo a mostrar o outro lado do paraíso idealizado por Antônio. Sua Brasília rica e próspera na verdade era uma cidade satélite pobre e precária, com injustiças contra as quais sua luta passou a ser punida por um governo autoritário e ilegítimo.

É claro que um paraíso idealizado nunca se concretiza. A maior serventia é a de estímulo ao trabalho que nos leve o mais próximo possível do que consideramos perfeito. Entretanto, ao longo da história do Brasil vemos uma constante manipulação por parte do Estado, que leva a idealizações forjadas nas quais o trabalho da população não remete à concretização de sua própria noção de paraíso, mas à perpetuação das classes dominantes.

Basta olharmos para os problemas deixados pela ditatura que se impôs na época da história retratada para desconstruirmos a ideia de uma intervenção em prol do país. Não é sequer necessário abordar temas subjetivos como a herança autoritária, basta um olhar sobre a disparada da dívida externa, inflação e para as próprias cidades satélites de Brasília, que seguem com a mesma infraestrutura precária e a mesma marginalização de moradores, para percebermos que o ‘milagre econômico’ que se seguiu ao golpe não passou de falsa propaganda.

O olhar histórico que podemos lançar sobre a narrativa do filme não serve somente para compreendermos o passado, mas também para entender e nos precaver dos problemas atuais. Não é necessário seguirmos os passos de Nando (Davi Galdeano), o filho pequeno de Antônio, e achar que ficar longe da pretensa namoradinha é o pior que poderia acontecer. Já deveríamos ter maturidade para ampliarmos nossos horizontes e visão política para saber que as consequências vão além de questões particulares.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Juan de los muertos

Trabalhar o tema terror em forma de comédia, permeando a história com críticas sociais e políticas. Assim se desenvolveu este trabalho do diretor Alejandro Brugués. Os zumbis, que costumam ser assassinos assustadores, aqui não escapam de trapalhadas e bom humor, que inevitavelmente podem ser analisados com um viés crítico em relação à particularidade política da ilha cubana.

Zumbis no filme são dissidentes. Essa também é a forma como são chamados os cubanos contrários ao regime político e simpatizantes dos Estados Unidos. Não é por acaso que a metáfora é feita com mortos-vivos, que não possuem senso crítico e vivem em função de comer o cérebro dos cidadãos cubanos.

É para combater essa ameaça que entra em cena o protagonista Juan (Diaz de Villegas). O ‘João dos mortos’ dizia com orgulho ter sobrevivido ao Mariel, ao período especial e a tudo o que veio depois.

O porto do Mariel ficou famoso em 1980. Sim, já existia bem antes da imprensa atual afirmar que o governo brasileiro o construiu. Recentemente o porto foi reformado com financiamento do BNDES, mas sua relevância histórica foi quando serviu de embarque para o êxodo de cubanos insatisfeitos, que migraram para Miami.

Já o período especial foi na década de 90, após o fim da União Soviética e consequente redução das relações comerciais com Cuba. Devido ao embargo imposto pelos Estados Unidos, o comércio com a URSS era o principal sustento da ilha, que passou por sérios problemas econômicos, com muitos apostando no fim do regime castrista, que como bem sabemos, não ocorreu.

Em paralelo com a história cubana desde a revolução, Juan e seus amigos estão sob constante ataque, o que não impede que os problemas sejam combatidos com coragem, bom humor e uma dose de improviso capaz de fazer o jeitinho brasileiro parecer uma solução formal.

Cuba nunca chegou a ser comunista. A própria existência de um governante já contradiz a definição filosófica de comunismo, que por sua vez é bem diferente da superficialidade com que é abordada pela mídia. Desta forma, não é a busca dos cubanos por dinheiro e consumo que provaria um suposto fracasso do regime.

A estatização dos meios de produção faz com que a economia da ilha seja bastante peculiar. Um verdadeiro ponto fora da curva de capitalismo desenfreado dos demais países. Mas cabe ressaltar que o filme é de 2011, quando o governo passou a autorizar a abertura de pequenos negócios particulares.

Juntando a criatividade com a necessidade e o senso de oportunidade, Juan resolve atuar profissionalmente na destruição dos zumbis, oferecendo seu serviço de forma bastante objetiva: "matamos seus entes queridos". O fato de o protagonista abrir seu próprio negócio com o objetivo de ganhar dinheiro não significa que ele tenha mudado para o outro extremo do falso dualismo que costuma ser estabelecido quando se fala sobre a ilha.

Juan não pensa em ser um empresário bem sucedido, investindo toda sua vida em seu novo empreendimento que lhe garantirá uma fortuna. Um dos motivos que ele alega para nunca ter tentado migrar para Miami é exatamente a recusa em ter uma vida voltada ao trabalho, em detrimento dos prazeres.

Entre vários absurdos cômicos que vemos ao longo do filme está a súbita demolição de um edifício, que bloqueava o sol e atrapalhava a vista. Essas nuances do comportamento social, que valoriza a vida para além de seu comprometimento profissional e não se envergonha de deitar em uma cobertura para tomar sol enquanto, de forma alegórica, os dissidentes tentam dominar a cidade, talvez sejam a maior marca de Cuba em relação ao resto do mundo.

O orgulho de Juan ao ter sobrevivido à Mariel, ao período especial e a disposição de encarar o que vier não está na devoção aos irmãos Castro, nem ao apoio filosófico do comunismo. Associar os misteriosos zumbis aos dissidentes para em seguida colocar a icônica imagem de Che Guevara como um dos mortos-vivos mostra como não há devoção ao regime político.

Bem mais provável é que o laço de Juan com Cuba se forme graças à identificação com um estilo de vida voltado ao indivíduo, ao invés de uma existência baseada no trabalho como única forma de ascensão. Uma vez sanada as necessidades básicas – que podem ser uma garrafa de rum e algo simples para comer – não há motivo para continuar vendendo a própria força de trabalho até a existência do indivíduo seja reduzida a um morto-vivo caçando cérebros.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Kóblic

De todas as ditaduras militares que assolaram a América Latina, a argentina é favorita ao título de mais sanguinária. Não é honroso nem fácil, pois a concorrência foi forte. Neste filme o diretor Sebastián Borensztein não chega a mostrar ações diretas dos militares contra a população, mas o foco são os bastidores e como algumas insanidades tentavam ser dribladas por cidadãos que almejavam um pouco de paz.

Fugindo dos ditadores, o protagonista Kóblic (Ricardo Darín) não é um revolucionário subversivo e comunista, mas um militar. Assombrado pela memória de quando comandava os chamados voos da morte, dos quais militantes contrários ao regime eram jogados vivos ao mar, Kóblic busca refúgio na pequena Colônia Elena. Não quer derrubar o regime, conspirar contra a alta cúpula do governo nem vazar informações secretas, mas somente seguir sua vida.

Essa abordagem distinta permite uma análise mais específica do que a hegemonia de pensamento reprimindo ideologias contrárias. Mesmo que a história dos governos militares seja recente na América Latina, há quem defenda a volta dos mesmos e entre tantos absurdos para tentar justificar tal insanidade, está o falso argumento de que esses regimes só perseguiam criminosos.

Os governos militares, ilegítimos por terem tomado o poder com um golpe ao invés de eleitos pela população, se mantinham a base da força, mesmo que isso significasse prender, torturar, matar e ocultar cadáveres. Esse clima de insegurança gerava indignação de grupos dispostos a derrubar o regime e restaurar a democracia, o que posteriormente era distorcido e utilizado pelos militares como justificativa para o terror institucional do Estado.

Outro sintoma de um governo arbitrariamente violento foi o clima de insegurança fomentado entre a própria população. Qualquer um poderia ser informante oficial e, mais do que isso, qualquer civil poderia denunciar uma atitude que considerasse suspeita.

Como vemos no filme, esse estado de insegurança permanente faz imperar a lei do silêncio. Qualquer deslize, uma simples palavra mal colocada, pode gerar extrema desconfiança e fazer com que privilégios sejam defendidos com unhas e dentes. A meritocracia já era uma falácia nos tempos do regime militar; na prática o que imperava era o status proveniente de amizades.

Quem eventualmente não tinha uma carreira militar nem amigos influentes ficava sujeito ao rigor implacável das leis e das arbitrariedades ilegais, porém corriqueiras. Claro que não estamos totalmente livres das arbitrariedades tendenciosas por parte de autoridades, porém a justiça militar não oferece recursos e apelações. O direito à ampla defesa e contraditório é uma conquista que não tem preço, mas que só damos valor quando precisamos.

A metáfora de liberdade desfeita, através do avião que não voa, dá suporte à rigidez militar, incompatível com uma sociedade civil que pretende ser minimamente moderna. Em meio ao regime totalitário é inaceitável que Kóblic permaneça em um pequeno vilarejo sem trabalho e essa é uma ideia permanente aos regimes de extrema direita.

Desde a famosa placa de ‘o trabalho liberta’, na entrada de Auschwitz, às prisões por vadiagem em nossa época de ditadura, há uma valorização da exploração do trabalho que não visa à ascensão do indivíduo, mas a alienação através de jornadas exaustivas, reduzindo a população a meras peças de reposição no mercado de trabalho.

A síntese de quem não quer lutar contra esse sistema, mas também se recusa a fazer parte dele, está em Kóblic. Com motivos de sobra para não querer mais atuar nas Forças Armadas, o personagem não tem a opção de simplesmente desistir e seguir sua vida. O regime não oferece alternativas, não oferece diálogos, não oferece liberdade.

É impressionante como hoje algumas pessoas ainda acreditam na ideia de que ao menos havia crescimento econômico e não havia corrupção. Ainda que a economia fosse o único parâmetro para analisar a qualidade de vida, nem assim as ditaduras seriam justificáveis, afinal a maquiagem dos dados relativos à economia é o que sustenta essa falsa premissa.

Mais introspectivo, porém sem deixar de lado a violência física inerente ao período, o filme de Sebastián Borensztein traz uma outra perspectiva, distinta da forma habitual como a ditadura é tratada. Mesmo com dezenas de filmes e livros retratando o período, diante da nova guinada à direita no espectro político da região, nunca é demais lembrar dos horrores passados. Quem sabe uma nova abordagem ajude a abrir os olhos de quem parece força-los a permanecerem fechados.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

600 milhas

O diretor Gabriel Ripstein aborda um tema muito pertinente em seu longa. Ainda que tenha obtido um resultado abaixo do potencial, a obra acaba ganhando relevância diante dos recentes acontecimentos, com Donald Trump repetindo velhos clichês e prometendo acirrar a política de colonialismo norte-americano.

A narrativa predominante e unilateral é a de que latinos visam os Estados Unidos como uma meta a ser alcançada, sendo que muitos dos que atingem essa meta seriam responsáveis por problemas sociais como violência, tráfico, desemprego, etc. O que o filme mostra é que em tempos de globalização financeira, com mercados interligados e transações comerciais megalomaníacas, os problemas também são generalizados.

O estereótipo mexicano do filme é Arnulfo (Kristyan Ferrer), que ganha a vida cruzando a fronteira para contrabandear armas. Antes que alguém conclua que isso justifica o muro prometido por Trump, cabe ressaltar que isso não seria possível sem a participação de Carson (Harrison Thomas), o norte-americano que compra as armas – inclusive as de uso militar – sem grandes dificuldades e repassa ao mexicano.

O país que durante treze anos criminalizou as bebidas alcoólicas elege agora outras drogas como inimigas da nação, fechando os olhos para os danos causados pelas armas fornecidas ao mundo que geram rios de dinheiro – e de sangue.

As atividades ilegais, realizadas de forma intensa na fronteira com o México, são fiscalizadas de perto pelas autoridades do país, porém são reprimidas em doses homeopáticas, ou seja, quando há conveniência ou necessidade de mostrar serviço à população, que se sente segura ao ver latinos detidos.

No filme essa fiscalização é feita por Hank Harris (Tim Roth), até que um deslize abala as estruturas do contrabando, fazendo com que o agente vire refém de Arnulfo. O mexicano não tem a menor dificuldade para voltar ao seu país de origem com um refém escondido no carro. A revista aos que deixam os Estados Unidos é quase simbólica, extremamente diferente dos que tentam fazer o caminho inverso.

Pode parecer justo impor restrições aos que podem tentar traficar drogas ilegais, mas o impacto social e a violência que será gerada por armas vendidas livremente, sob o argumento infantil de que a autodefesa é um direito do cidadão americano, raramente é analisado.

Problemas sociais não são fenômenos isolados. Há uma cadeia produtiva que entrelaça bens de consumo na qual a produção de drogas e de armas formam uma mistura explosiva. Não há saída imediata para essa relação, pois suas raízes são muito mais profundas do que aquilo que o muro prometido por Trump pode barrar.

Entre os diversos fatores que sustentam as violências características de cada país estão relações econômicas seculares que mantêm países latinos como fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra baratas, em troca de produtos industrializados permeados por sonhos de consumo.

Junto com as armas os Estados Unidos vendem a ideia que o sucesso econômico do país ocorre por mérito e competência, sendo os outros países – sobretudo latinos e muçulmanos – somente ameaças a serem combatidas. Os que compram essa ideia acreditam que com esforço um dia alcançarão o mesmo sucesso econômico, desde que não sejam atrapalhados pelas supostas maçãs podres, simbolizadas por Arnulfo.

Quando o personagem volta para o México com o refém a história do filme começa a ficar um pouco repetitiva e os diálogos não chegam a explorar todo o potencial da trama, mas o que fica implícito é que essa relação promiscua não traz vantagens ao México ou aos mexicanos em detrimento dos Estados Unidos.

O tráfico internacional de drogas movimenta cifras exorbitantes e não funciona sem armas, que são produzidas e vendidas, em grande parte, por empresas norte-americanas. O discurso de combate ao tráfico somado à falácia de armar o cidadão para que ele se defenda dos perigos externos sustenta um mercado também milionário, que produz vítimas em ambos os lados da fronteira.

Diante das recém ameaças de muros, deportações e interdições, o filme Gabriel Ripstein traz temas pertinentes para a desconstrução de um discurso cínico, que insiste em colocar os Estados Unidos como vítima das violências vindas do exterior e ocultar os problemas originados pela exploração norte-americana.

Não precisamos sequer chegar no usuário final da droga, muitas vezes contrário à presença de imigrantes mexicanos no país, basta um olhar para as relações institucionais entre os dois países para notar que o problema da violência é bilateral, sendo um muro a simples maquiagem para corroborar preconceitos.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Permanência

As mudanças de comportamento social costumam ser absorvidas lentamente, de forma que não nos damos conta de como o período em que vivemos é diferente daquele das gerações passadas. Se hoje as pessoas se casam cada vez mais tarde, com muitas optando por uma vida de solteiro sem que isso seja um problema, há poucas gerações o mais comum era um matrimônio ainda no fim da adolescência, que de uma forma ou de outra seria mantido até o fim da vida.

Manifestações do movimento feminista associadas a movimentos libertários, sobretudo a partir dos anos 60, alteraram o rumo desse destino quase predeterminado da primeira metade do século passado. Diferente do que correntes conservadoras argumentam, não foi a instituição familiar que passou a ser desfeita, mas uma ilusão de casamento perfeito que sempre existiu somente na teoria.

Neste longa do diretor Leonardo Lacca vemos uma história típica de relacionamentos contemporâneos, que não são engessados pela necessidade moral de serem eternos; o que não faz com que a vida seja mais fácil. Avançamos socialmente ao admitirmos que relacionamentos nem sempre são insolúveis, mas os sentimentos nunca serão um apanhado de conclusões racionais.

A história tem início quando o fotógrafo Ivo (Irandhir Santos) chega de Recife para sua primeira mostra em São Paulo e fica hospedado na casa de sua ex-namorada Rita (Rita Carelli). Não temos nenhuma informação sobre o passado do casal, mas fica claro que diferente do relacionamento, o sentimento entre eles não acabou.

Mesmo com o desejo latente, ambos se casaram e o atual marido de Rita se esforça para não evidenciar seu ciúme – sentimento que nesse caso é exponencial ao perceber que Ivo é muito mais interessante e condizente com a personalidade de Rita.

Diferente de um conceito que só funciona nas propagandas de margarina, onde o amor é único e eterno, atuando de forma homogênea para todos os casais, no filme vemos um sentimento múltiplo. O fato de Ivo ser casado não é suficiente para que seu sentimento por Rita acabe, tão pouco o impede de ter um caso com Laís (Laila Pas), envolvida na produção de sua exposição.

Ainda que não seja personagem de grande destaque na história, Laís reúne em si características resultantes de avanços sociais. Uma moça livre para viver sua própria vida, desprendida de valores morais que até pouco tempo atrás tornavam impensável uma noite de amor com um quase desconhecido, sem a menor pretensão de continuidade.

Essas transições sociais não possuem um ponto final. São valores que mudam com o tempo, somados à necessidade urgente de romper com um machismo que relegava às mulheres a vida de submissão. Se por um lado atingimos maior liberdade nos relacionamentos, por outro essa liquidez não está totalmente desprendida de valores tradicionais, muito menos de sentimentos conflitantes, para os quais não há regras que evitem frustrações.

Os mais imediatistas poderiam pensar que não fossem os ideais liberais postos em prática, Ivo e Rita ainda estariam juntos, já que demonstram grande afeto um pelo outro, porém o sentimento presente ressalta que independente do que tenha motivado a separação, foi algo relevante a ponto de superar o que sentiam. Poderiam ter continuado o relacionamento e afetivamente estariam, talvez, mais felizes, mas isso fica restrito ao campo das hipóteses.

No passado as opções ao longo da vida eram muito mais restritas. Casar cedo, ter filhos e trabalhar por décadas na mesma empresa ou ficar em casa cuidando da família era um roteiro que resumia a vida de grande parte das pessoas. Agora o dinamismo de uma vida profissional caótica, as infinitas possibilidades de estudo e os caminhos entrecruzados ao longo da vida fazem com que seja tarefa árdua encaixar um relacionamento que possa conciliar todos os compromissos de um casal.

A vida moderna se torna cada vez mais complexa, reflexo de uma liberdade pela qual a sociedade vem lutando há muito tempo. Seria muito superficial se ater às frustrações românticas para emitir um julgamento final sobre nosso estilo de vida. A luta pela liberdade universal implica em cruzarmos com pessoas igualmente livres, com outras ambições e planos muito bem traçados.

O encontro de duas pessoas que aceitem seguir pelo mesmo labirinto de caminhos que se estendem pela frente é raro. Antigamente não era mais fácil, a diferença é que muitas pessoas eram arrastadas por caminhos indesejáveis.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O décimo homem (El Rey del Once)

O longa do diretor argentino Daniel Burman gira em torno da história de Ariel (Alan Sabbagh), que depois de muitos anos retorna de Nova York para o bairro judeu de sua infância na Argentina, onde agora suas expectativas e lembranças serão confrontadas com a realidade, que nunca é exatamente como esperamos.

Ariel havia se tornado um economista bem-sucedido. Voltou para a região onde seu pai administrava uma instituição de caridade. Usher (Usher Barilka) é o rei da onze, a quem o título original faz referência. Um homem que aparentemente mal tem tempo para respirar em meio à correria de uma rua que lembra a 25 de março, paulistana.

Em uma metrópole, com seu ritmo de vida frenético e compromissos simultâneos, as relações pessoais devem se encaixar nos raros intervalos livres. Não que as pessoas sejam mais frias, muitas vezes elas não conseguem conciliar tantas atividades com a atenção que gostariam de trocar com amigos e familiares. Antes de julgar essa dificuldade como a priorização do trabalho, devemos lembrar de que a carga horária profissional é a única que se mantém estável e inflexível. Quem quiser adicionar atividades e compromissos na agenda, que sacrifique o descanso ou o lazer.

Assim Ariel não tem a recepção que esperava ao desembarcar. Ninguém no aeroporto, e não pode encontrar com seu pai nem mesmo na instituição. Por telefone e notavelmente contrariado pela pressa, Usher informou que o reencontro ficaria para o dia seguinte, parecendo mais preocupado com um sapato que encomendara do que com a viagem do filho.

Outra frustração do protagonista vem das obrigações que acompanham a vida adulta. Suas lembranças da infância não incluem auxiliar o pai em negociações duras com os fornecedores, nem informar às pessoas ajudadas pela instituição que não teriam carne para comer.

Com tantas barreiras, seu alento vem através de Eva (Julieta Zylberberg), funcionária da instituição que sempre se mostrou muito solícita, apesar de uma particularidade. Eva não falava. Não era muda, apenas considerava não ter o que dizer, com isso os monólogos de Ariel eram respondidos com breves gestos ou expressões faciais, o que não deixa de ser mais uma frustração ao personagem.

Eva é uma personagem bastante emblemática. Apesar do judaísmo presente na história, desde seu nome até seu papel na história faz com que ela lembre a primeira mulher, criada, segundo o catolicismo, para fazer companhia ao homem. A Eva bíblica não tem voz histórica e a do filme opta por abrir mão da palavra.

O silêncio dá espaço para que Ariel fale sobre sua vida, suas expectativas e suas frustrações, talvez sem perceber que suas expectativas migravam de Usher para Eva, que também não tinha obrigação alguma de correspondê-las. É bem compreensível que a personagem que não pronuncia nenhuma palavra instigue curiosidade, mas esta deveria ser livre de ilusões.

Aos poucos, conforme o encontro com o pai vai sendo adiado, Ariel começa a ter contato com pessoas que acabam servindo de contraponto ao seu mundo de idealizações, afinal todos somos ou ao menos já fomos alvo de idealizações que não tínhamos a menor intenção, muito menos obrigação, de corresponder – inclusive o próprio Ariel.

O material que temos sobre a vida do personagem sugere que ele tenha sido o protagonista de tudo o que viveu. Sempre teve o mundo ao seu redor, mas nunca parou para pensar no que o mundo esperava dele. Assim mudou de país, se estabeleceu profissionalmente e só voltou depois de muito tempo, mais por convite da família que por vontade própria.

O pai, a quem ele sempre chama de Usher, também esperou pelo filho. Talvez tenha esperado durante muito tempo, até que percebeu que sua própria vida precisava ser vivida, suas obrigações – que incluíam as atividades da instituição e consequentemente atingiam diversas outras pessoas – não poderiam ficar restritas às vontades do filho.

O que resta a Ariel é aprender na prática uma condição que o conforto econômico não ensina. Ser um economista bem-sucedido ou ser o filho do rei da onze não o torna único no mundo. Olhando de longe ele é, com a insignificância de qualquer outra pessoa no mundo, apenas mais uma pecinha encaixada em um tecido social.

Fora do mundo da fantasia as expectativas criadas raramente são correspondidas espontaneamente. Ariel parece ter acreditado que seriam, devido a uma condição econômica que colocava empregados a realizar suas vontades e a um pai que provavelmente se esforçou para dar conforto ao filho. O que se espera é que a monarquia no rei da onze chegue ao fim nos tempos de república.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Querida, vou comprar cigarros e já volto (Querida voy a comprar cigarrillos y vuelvo)

Voltar no tempo e reviver alguma situação pela qual passamos, mas com a maturidade que só a experiência pode proporcionar. Um tema recorrente no imaginário popular, que virou tema para os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. De forma bem humorada e explorando os aspectos trágicos das situações, os diretores permeiam a história com algumas questões bem interessantes, que além de divertir nos instigam a pensar em aspectos de nosso cotidiano.

O protagonista é Ernesto Zambrana (Emilio Disi), que com cerca de sessenta anos recebe a proposta de reviver dez anos de sua vida, a partir de qualquer data de sua escolha. Essa proposta tende a ser mais valiosa que um prêmio de mega sena. Não é só o dinheiro, mas a chance de consertar erros cometidos no passado que tiveram consequência ao longo de toda a vida. Pense rápido, para qual dia você gostaria de voltar?

Ernesto opta por voltar a tempo de pedir desculpas à mãe pela distância ao longo da vida. Note que ele iria reviver dez anos, podendo passar todo esse tempo próximo a ela caso quisesse realmente arrumar o que considerava um erro, mas prefere voltar apenas a tempo de se desculpar. Não temos elementos suficientes para julgar essa atitude. Nunca se sabe o que leva alguém à escolha de seus caminhos.

Pego de surpresa e munido apenas da esperança de tornar sua vida recente marcante, o protagonista logo percebe que reviver um período não o torna imune às imprevisibilidades do destino. Não é uma questão moral, pois sendo egoísta ou altruísta os imprevistos seguem transformando sua vida em algo independente de sua própria vontade.

Quando pensamos em algum erro cometido temos a tendência de imaginar que se pudéssemos consertar aquele ponto específico todo o resto teria o mesmo desdobramento, com a vantagem de um problema desfeito. O que o filme mostra, ainda que de forma cômica e caricaturada, é que nossa vida se equilibra em uma estrutura formada pelos detalhes do dia-a-dia. Alterar um detalhe implica em desestruturar os eventos seguintes.

Claro, são hipóteses que não passam de uma abstração, não se trata de considerar uma viagem no tempo oferecida por um emblemático ser imortal como o filme sugere, mas podemos pensar em como, independente da maturidade e experiência de vida que temos, nossos erros são inevitáveis a ponto de ser mais eficiente uma flexibilidade diante dos desdobramentos de nossas ações do que o saudosismo de um fato que deveria ter acontecido.

Não bastasse a versatilidade de nossa própria vida de acordo com os caminhos que escolhemos com o passar dos anos, ainda temos inúmeras pessoas com quem interagimos de uma forma ou de outra, por vezes sem nem perceber, e que vão influenciar em nossa vida. Em meio à comédia de personagens rabugentos e mal humorados, existe certa melancolia da vida como uma prisão, da qual não podemos escapar e tão pouco tomar as rédeas. 

As supostas vantagens que a experiência poderia trazer a um jovem com décadas a mais de vivência esbarram no fato de que a vida sempre irá frustrar nossas expectativas, sobretudo quando elas forem muito fechadas. As oscilações do comportamento humano ao longo da idade não ocorrem por acaso, mas são fruto de uma longa evolução que levou a adaptação dos indivíduos de acordo com a necessidade de cada época da vida.

Ernesto volta à juventude apostando em sua sabedoria, porém não demora para perceber que tem muito o que aprender. Apesar do corpo agora jovem, sua mente não tem a versatilidade do início da vida e seu conhecimento está deslocado no tempo. Uma ação que parece razoável hoje pode ter um impacto bem distinto quando transposta para um tempo com costumes bem distintos.

O que o filme mostra nas entrelinhas de todo o enredo inusitado e cômico é que a vida não é uma máquina com funcionamento isolado, à qual podemos trocar peças e rearranjar funções. Talvez a melhor definição seja a de John Lennon – que não escapou do roteiro do filme – quando afirmou que a vida é o que acontece conosco enquanto estamos ocupados fazendo planos.

A vida de Ernesto não precisou de nenhuma magia para chegar ao tédio extremo do início do filme. Basta passar o tempo todo imaginando o quão grandioso nosso destino poderia ter sido, o que na prática se concretiza para pouquíssimas pessoas, ao invés de imaginar o que podemos extrair do que realmente temos.


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Califórnia

Em seu primeiro longa de ficção a diretora Marina Person nos leva até meados dos anos 80 para acompanhar a adolescente Estela (Clara Gallo). Permeando os problemas característicos dessa fase da vida temos uma série de referências à cultura pop que florescia na época, além de fatos históricos marcantes. Com tudo isso somado o resultado vai muito além de um filme adolescente e agrada a quem assiste de várias formas.

Não há nada de excepcional na vida de Estela. É uma adolescente que, como tantas outras, enfrenta um turbilhão de dúvidas e angústias quase inevitáveis para a sua idade. O tabu da sexualidade, a descoberta do mundo que começa a aparecer fora da influência dos pais, o sonho que se torna meta de vida – que no seu caso é ir para a Califórnia, encontrar com seu tio Carlos (Caio Blat).

Entre os problemas corriqueiros cabe destaque à ironia de ter que lidar com o pai conservador e reacionário vivido por Paulo Miklos, que na época do filme despontava nos Titãs como ícone de rebeldia e contestação. Os Titãs se juntam a uma trilha sonora que reúne clássicos nacionais e internacionais dos anos 80, para deixar qualquer um que tenha vivido e efervescência cultural da época animado a relembrar histórias pessoais.

Hoje temos acesso tão fácil a determinadas coisas que frequentemente nos esquecemos de como era difícil ouvir uma música recém-lançada, conseguir uma camiseta de banda ou mesmo ter privacidade para falar ao telefone na única linha fixa da casa.

A dificuldade acaba valorizando as conquistas. Aquela camiseta importada que era lavada com todo cuidado, até desbotar e continuar quase como uma segunda pele, virando marca registrada do dono; a fita cassete que ao ser gravada não remetia apenas às músicas, mas também à pessoa que gravou, que muitas vezes torcia para que aquela lista de músicas ajudasse na expressão de sentimentos – era quase um perfil de rede social; saber do lançamento de um filme em Hollywood significava a espera de meses até que chegasse a um cinema nacional.

Nem tudo são flores na referida década. Mesmo que muitas diferenças sejam tecnológicas, a economia precária do país era crucial para que até uma camiseta fosse festejada. Além disso, aos poucos fica claro que tio Carlos precisa voltar ao Brasil por conta de uma doença que começava a se apresentar ao mundo, ainda desconhecida e negligenciada.

Essas referências temporais são fundamentais para que o filme deixe de ser apenas uma história adolescente. A obra também não se restringe ao saudosismo. Com a história retratada em uma época turbulenta, logo após a campanha das diretas já, que marcaram o início de uma nova fase do país, podemos estabelecer um paralelo entre as carências e esperanças da época com a situação que encontramos cerca de trinta anos depois.

A base das alegrias e problemas de uma jovem adolescente segue muito semelhante. Características sociais mudam lentamente e a tecnologia desenvolvida nas últimas décadas apenas deu uma roupagem nova à relação dos jovens com o mundo que os cerca.

Politicamente se na época retratada o país lutava para superar uma fase difícil e consolidar a democracia, acompanhada da abertura comercial e desenvolvimento, hoje colhemos muitos frutos provenientes da geração da personagem. Toda a luta expressa no filme pela correspondência de Estela com Carlos foi decisiva para que o país virasse uma página tão triste de sua história.

Por outro lado aquela foi uma geração marcada pela utopia e pelo otimismo. O fim da ditadura cultivava a esperança de melhorias, que de fato vieram. Os que dizem hoje que o país passa pela pior crise de sua história ‘esquecem’ da inflação galopante e dos assassinatos políticos da década de 80.

Nem mesmo em relação à AIDS podemos negar o progresso da ciência. Ainda que não tenhamos chegado à cura, a prevenção e a expectativa de vida dos que contraem o vírus não se comparam ao que tínhamos na época do filme.

O aspecto que aparenta ter regredido vergonhosamente é a postura política da sociedade em geral. Parece termos saído de uma utopia vanguardista para um conservadorismo que se resigna ao retrocesso. Claro que o roteiro do filme não foi pensado como uma crítica à postura política atual, mas diante dos fatos recentes a comparação é tristemente inevitável.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Guantanamera

A década de 1990 foi bem difícil para o povo cubano. Depois de uma década próspera graças à proximidade com a União Soviética, a Ilha passou a sofrer com a falta de apoio financeiro, pagando um preço alto por não ter aproveitado o período favorável para investir em sua industrialização.

Parte disso é exposto de forma metafórica e muito bem humorada pelos diretores Juan Carlos Tabío e Tomás Gutiérrez Alea, repetindo a parceria de ‘Morango e Chocolate’. O filme foi lançado em 1995. Curioso como duas décadas mais tarde a viagem que compõe a história central do filme seria refeita pelo personagem mais enigmático da história do país.

Em tempos de crise não há saída, é necessário cortar o que é supérfluo, economizar no que é indispensável e ainda assim os gastos aumentam. O impasse inicial do filme gira em torno do que fazer quando uma pessoa morre em uma província distante de sua terra natal. Enquanto uns insistiam na coletividade, indicando que a pátria era uma só, portanto não havia diferença quanto ao local do enterro, outros indicaram logo a recusa em serem sepultados longe do local escolhido.

Neste ponto Afonso (Carlos Cruz) tenta se valer dos ideais da Revolução, de socializar ganhos e perdas entre todos, para solucionar os problemas. Cada província arcaria com uma parte dos custos do traslado, mantendo a cota de combustível dentro da meta. A surpresa foi a morte repentina de sua sogra, que o faria ser o primeiro a por seu plano em prática cruzando a ilha de Guantánamo, no extremo leste, a Havana. Caminho inverso que fizeram com as cinzas de Fidel, até Santiago de Cuba.

A viagem que segue fornece elementos para críticas severas ao regime cubano, assim como virtudes que não se encontra em países sul-americanos. No que fica isento de críticas positivas ou negativas, a história mostra que a vida é feita de imprevistos, que não podem ser planejados em uma mesa de reunião e demandam soluções que fogem ao protocolo rígido que as instâncias governamentais tendem a impor.

Uma das coisas que Afonso não poderia prever é que sua esposa Georgina (Mirtha Ibarra) encontraria com um ex-aluno, Mariano (Jorge Perugorria). Cabe ressaltar que Georgina deixou de dar aula de economia e Mariano se formou em engenharia, mas trabalha como caminhoneiro e ganha até mais nessa profissão. Há quem veja como insanidade um caminhoneiro ter salário equivalente ao de um engenheiro.

Toda história tem pelo menos duas versões. Se Afonso narrasse o filme provavelmente se colocaria como uma vítima de Mariano, que tentava seduzir sua esposa. Poderia citar infortúnios do destino, culpar os personagens que atravessaram seu caminho – como uma mulher em trabalho de parto – ou qualquer outra coisa para justificar as dificuldades que teve.

Como o filme não é narrado por ele, resta a imagem personificada de um burocrata restrito, cuja devoção aos valores revolucionários não visam o bem da sociedade, mas um cargo de destaque que coloque seu nome na história do país. Dessa forma faz de tudo para que a realidade se adeque aos seus planos, não o contrário.

A morte, trágica, mas trabalhada de forma leve e cômica ao longo do filme, sugere que aquilo que já foi grandioso, como Yoyita (Conchita Brando), a falecida sogra de Afonso que fora uma artista de sucesso, pode chegar ao fim quando menos esperamos e depois disso deixa um corpo que ainda precisa de atenção.

Em qualquer país do mundo a sociedade é muito mais dinâmica que as leis. Estas são passíveis de interpretações e corrupções – não necessariamente grandiosas, mas essas pequenas corrupções do dia-a-dia, que por vezes nem nos damos conta de que cometemos – enquanto as situações reais demandam urgência que foge do escopo da burocracia.

Assim o cadáver insepulto que insiste em causar transtornos nos planos de Afonso estaria presente de forma metafórica independente da área em que o funcionário público trabalhasse. Seu problema não era o cadáver da sogra, mas o cadáver de uma ideologia distorcida, que nasceu tendo por base a ascensão pessoal enquanto dizia se apoiar no bem comum.

Superando o discurso e a postura ultrapassa de Afonso, vemos os demais personagens vivendo a vida fora do papel. A vida que traz surpresas que podem ser tão ruins quanto a morte, ou tão boa quando um reencontro afetivo. Melhor que tentar adequar os imprevistos à burocracia é encontrar uma saída satisfatória, que não implique em renunciar aos sonhos, nem sepultá-los em uma terra distante.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Viva Cuba!

Desde que Shakespeare contou a história dos dois jovens apaixonados, cuja rivalidade entre as famílias impedia o tão sonhado relacionamento, o enredo vem servindo de base para uma infinidade de histórias de relacionamentos no mínimo improváveis.

Este longa é a versão cubana do diretor Juan Carlos Cremata Malberti para a esperança da juventude que desafia uma tradição geralmente insustentável. De forma lúdica, não se trata de um casal romântico, mas de uma amizade infantil daquelas que os adultos tendem a ver como um futuro relacionamento, mas que para as crianças é uma amizade muito mais inocente e até pedagógica, por introduzir os primeiros conflitos a serem resolvidos.

Não há um motivo concreto para a divergência entre as famílias de Jorgito (Jorge Milo) e Malu (Malu Tarrau Broche), porém alguns sinais indicam que o menino vive em uma família castrista, simpática ao regime político da ilha e sem religião, enquanto a mãe de Malu, católica, separada e com mais recursos, quer deixar Cuba, precisando apenas da autorização do pai da menina. É para impedir a autorização que os dois resolvem fugir e cruzar a ilha sozinhos, de uma ponta à outra, onde mora o pai de Malu.

Se por um lado tudo que está relacionado a Cuba ganha uma dimensão política desde a revolução, por outro é uma história contada há séculos, plausível em qualquer lugar do mundo, com particularidades que marcam cada adaptação. Levar a ideia de um romance para o universo infantil suavizou os conflitos da história, permitindo que possamos assistir sem a necessidade de eleger anjos e demônios.

Sem dúvida muitos preferem seguir com uma ideologia superficial que nutre um ódio profundo a tudo que venha de Cuba, mesmo sem saber muito bem por que. A estes o título do filme já é uma barreira ao conteúdo, que os faz perder a chance de acompanhar o divertido road movie, que nos leva da capital Havana ao extremo leste mostrando as belas paisagens naturais, as virtudes e os problemas, que existem como qualquer país.

As interpretações metafóricas feitas com base na história de “Romeu e Julieta” ao longo dos séculos também podem ser aplicadas à trama de Malberti. Não é por acaso que questões tão delicadas opõem as famílias vizinhas em Havana. A mesma intolerância resultante da falta de diálogo, que fez Shakespeare explorar até as últimas consequências o relacionamento de seus personagens, aqui está presente, ainda que de uma forma mais suave.

Enquanto Jorgito e Malu estudam juntos e vivem intensamente essa fase de descobertas, suas famílias mantém uma intransigência desnecessária. Colocar os pais no mesmo patamar, sem tomar partido ou apontar um dos lados como vítima, indica que as crianças acabam sendo a parte prejudicada de toda a história, tendo que lidar com uma inimizade que sequer compreendem. É no mínimo interessante desenvolver a trama desta forma em um país que há décadas sofre com um bloqueio econômico resultante de uma desavença de governos que, se um dia fez algum sentido, já não se sustenta.

Evidente que a comparação é restrita. Para pensarmos os pais das crianças como governos tutores da população, esbarramos na horizontalidade das duas famílias, sendo a disparidade entre o governo cubano e seu principal opositor ideológico é incomparável. Quase trinta anos após o fim da Guerra Fria, é um engodo achar que Cuba tem algo a barganhar com os norte-americanos.

As famílias do filme precisaram de um grande abalo para poder colocar a cabeça no lugar e agir racionalmente, pelo bem dos filhos. Em relação aos governos esse abalo é mais complexo, pois questões históricas, diplomáticas e vários outros fatores influenciam na decisão de agir racionalmente, pelo bem da população. Obama foi até Cuba para tentar um primeiro passo – os EUA iniciaram o bloqueio, cabe a eles encerrá-lo –, Fidel, se é que ainda tinha influência política, se foi. Resta aguardarmos os passos dos próximos atores políticos.

Durante a aventura das crianças, em meio às belas paisagens do interior do país, um homem dá carona aos dois e, talvez para evitar que passem a noite ao relento, assusta os pequenos com a lenda dos guijes, supostas criaturinhas que andam a noite para matar as pessoas de susto. Depois de tantos anos de guerra psicológica, com golpes baixos dos dois lados, parece que hoje o temido comunismo cubano atua na política internacional como um guije, assustando aqueles que preferem criar um monstro imaginário a dar uma olhadinha fora da caixa.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Aquarius

Mais uma vez os conflitos sociais urbanos chegam às telas pelo olhar do diretor Kleber Mendonça Filho, que já se destacou em ‘O som ao redor’ e agora nos oferece uma história baseada nos interesses do capital financeiro, que podem moldar uma sociedade para além da vontade de seus indivíduos.

O edifício Aquarius tem apenas dois andares acima do térreo, com poucas mas suficientes vagas para os carros dos moradores e espaços internos amplos, característico das construções mais antigas e menos lucrativas.

Um roteiro mais que conhecido nas grandes cidades tem como base a expansão de uma área economicamente atrativa. Logo as grandes construtoras começam a comprar imóveis e demolir, abrindo espaço para edifícios majestosos. Muitos moradores do local consideram a prática uma benção, já que acabam recebendo um valor acima do mercado, que permite uma mudança de vida, inesperada, mas que acaba sendo bem-vinda.

A questão é o que fazer quando por algum motivo alguém se recusa terminantemente a vender o imóvel. Pior, quando é um apartamento que acaba interferindo na negociação de diversos moradores, como é o caso da protagonista Clara (Sonia Braga).

O diretor constrói a personagem de modo a deixar claro que o dinheiro não é um problema para ela. Aposentada e com imóveis alugados, sua renda é mais que suficiente para suas necessidades, não há uma preocupação com o futuro financeiro dos filhos e as memórias guardadas em cada canto do apartamento não podem ser compradas ou transportadas para um novo local.

Mais que uma personagem, Clara é a personificação de um estereótipo que coloca os valores pessoais acima dos financeiros – característica que evidentemente só é possível graças à condição de conforto econômico. E na outra extremidade está Diego (Humberto Carrão). Neto do dono da construtora, recém-chegado do exterior, está, em suas palavras, com sangue nos olhos para concluir a compra e construir o novo edifício. Sem dúvidas mais um arranha-céu à beira mar, daqueles que fazem sombra na praia.

Com exceção de uma expropriação estatal não há nada que obrigue o proprietário a vender seu imóvel, ainda que fosse uma cabana de madeira emperrando a construção de um imenso investimento imobiliário. A lógica do capital econômico como valor supremo é tão enraizada que por vezes nos esquecemos de que nem todos querem coloca-la em prática, e todos que vivem em um prédio deveriam estar cientes de que entraves como o do filme não têm, ou não deveriam ter, uma solução que excedesse o diálogo.

Pensando no filme como um exercício constante de empatia a quem assiste, é possível imaginar que aos antigos vizinhos que agora querem finalizar a venda a atitude de Clara é egoísta, mas até esse ponto todos estão dentro de seu direito. O inaceitável é que uma senhora de idade mais avançada, que já passou por momentos felizes e outros de extrema dificuldade, seja agora chantageada e emocionalmente fragilizada por um jovem mimado, que passa a usar técnicas tão infantis quanto sua personalidade indica para forçar Clara a vender seu apartamento.

Os impasses que surgem nos conglomerados urbanos não tem uma solução exata, que resolva todos os casos da melhor forma aos envolvidos. Assim, não há um veredito final sobre o que fazer em um impasse como o que é apresentado no filme. Uma coisa é certa, Clara tem plena consciência do que quer e não faz nada de errado, somente tenta seguir sua vida e resolver as coisas com serenidade. Bem diferente de Diego.

Vale a pena lembrar o protesto no festival de Cannes, da equipe do filme contra o golpe. Claro que o processo de criação de um filme é longo e quando o diretor começou a desenvolver o projeto de Aquarius o golpe no Brasil não estava articulado – ao menos não de forma explícita. Porém acaba sendo bastante simbólico que em meio ao lançamento do filme os interesses do capital financeiro não obriguem uma moradora a vender seu apartamento, mas forcem uma troca presidencial.

O lado ruim da repercussão do protesto seria uma polarização desnecessária, levando as pessoas a assistirem ao filme com um lado político escolhido anteriormente, sabendo de antemão se gostariam ou não da história. Por outro lado, sendo um filme voltado ao circuito alternativo, que inevitavelmente luta por uma sala de exibição, é de se supor que a imensa maioria das pessoas que se sentiram incomodadas com o protesto e por isso taxou o filme sem assisti-lo, já não deixariam um blockbuster de lado para ver um filme alternativo.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sabogal

Recentemente a população colombiana rejeitou em referendo um acordo de paz entre o Estado e as FARC. Apesar desse não ser o tema central abordado pelos diretores Juan José Lozano e Sergio Mejia, a mistura de ficção e realidade expressa na animação traz pontos que podem nos ajudar a entender essa complexa relação entre atores políticos que nem sempre têm equivalentes por aqui.

É frequente na América Latina a demonização de algum grupo, sobretudo com viés político, desqualificando qualquer qualidade que possa existir e afastando a população do grupo em questão. Assim ocorre com as FARC. Forças armadas sem paralelo em outros países, seus revolucionários têm currículo recheado de atitudes condenáveis, como sequestros e assassinatos – de quem quer que seja.

Por outro lado a condenação de tais atitudes não deveriam se disseminar para a ideologia inicial do grupo. O combate de injustiças sociais e a reivindicação de direitos acabaram caindo no bojo da criminalização, que igualou os combatentes aos traficantes, formando um suposto único mal a ser combatido.

Mesclando realidade e ficção, o filme cria a história do jornalista Fernando Sabogal, que tenta fazer seu trabalho de denúncia, driblando uma censura informal, que não se restringe aos veículos de comunicação, mas que assassina aqueles que são vistos como pedra no caminho – não somente das FARCS.

A tríade formada pelo governo, o tráfico e a guerrilha muitas vezes beira a um ménage, em que interesses em comum são defendidos em detrimento daqueles que, com todas as falhas e defeitos de um ser humano, tentam elucidar conchavos prejudiciais ao Estado e, sobretudo sua população.

Se pensarmos nos problemas sociais dos países sul-americanos, o tráfico não terá nenhuma fronteira. Tentar colocar toda a culpa da Colômbia pós Pablo Escobar nas FARC é uma tentativa de maquiar raízes muito mais profundas, que englobam outros atores de peso no cenário político.

Tão onipresente no continente quanto o tráfico, a criminalização da pobreza, assim como daqueles que lutam para combatê-la, também é marcante no filme. Durante a primeira década deste século o governo de Álvaro Uribe não hesitou em corroborar a ideia de que representantes dos direitos humanos só defendem bandidos, que rapidamente foi absorvida e reproduzida pela mídia e por setores da sociedade.

Fazer clivagens simplistas da sociedade, colocando bem e mal em lados opostos e convencendo cada indivíduo que ele está do lado do bem, portanto ameaçado pelo mal, é uma tática de dominação muito bem utilizada para controle das massas. Daí saem as deturpações insanas baseadas em frases de efeito como ‘direitos humanos para humanos direitos’, ‘bandido bom é bandido morto’ e outras variações marteladas à exaustão para que as pessoas absorvam a ideia de que há um inimigo, com o qual devemos ser implacáveis.

O que a animação vem mostrar é que essa divisão entre mocinhos e bandidos é simplista demais para uma sociedade multifacetada, em que o governo está longe de ser representativo e, assim como as FARCS, pode usar métodos nada constitucionais para remover obstáculos.

Não bastasse o fato de que, independente do que façam os guerrilheiros, eles devem ser julgados, se necessário, conforme as leis, as atitudes criminosas por parte do Estado podem se estender para civis que nada tem a ver com a guerrilha ou o tráfico, como por exemplo, os jornalistas que tentam levar à população os conchavos obscuros firmados secretamente entre instituições formais e informais.

Após tantos anos plantando ódio e desconstruindo os direitos humanos podemos ver como um desdobramento da história narrada na animação a vitória dos que se negam a fazer um tratado de paz. Por um ódio insuflado injustificado, já que foi estimulado por governos corruptos e tendenciosos, seres humanos contrários aos direitos humanos seguirão combatendo a violência negando um tratado de paz.

Enquanto elegermos um único culpado para alvo de nossas demandas e indignações, seja na Colômbia das FARCS, seja no Brasil de tantos conchavos suspeitos, seguiremos com disputas internas na base da pirâmide social. Fernando Sabogal é um exemplo icônico entre tantos que mesmo com seus problemas pessoais seguem tentando lutar por uma causa maior. 

Os fatos encadeados na animação colombiana deixam uma mensagem implícita para qualquer país e sua população. É sempre recomendável a desconfiança diante de discursos muito homogêneos. Tanto por parte de governos pintados como acima de qualquer suspeita, quanto em relação ao que seja exposto como o único grande mal a ser combatido, quando a realidade nos mostra que os males são multifacetados.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

A frente fria que a chuva traz

A desigualdade social no Brasil é uma das maiores do mundo. Diversos fatores históricos e muitas forças ainda atuantes contribuem para essa triste marca, que se expressa de várias formas em nossa sociedade.

O Rio de Janeiro é uma cidade onde por características geográficas o abismo entre classes interage de forma curiosa. Espremida entre montanhas, a cidade de natureza exuberante e paisagens privilegiadas relegou aos pobres, desde a época da escravidão, os lugares de difícil acesso, cujas vistas paradisíacas do mar até hoje são usadas como um suposto privilégio daqueles que moram nos morros.

De fato uma vista do mar é valorizada em qualquer lugar, porém esse valor simbólico tem alto custo. A infraestrutura precária de uma região que cresceu sem planejamento faz com que os moradores tenham dificuldade de ir diariamente para o centro ou para as regiões nobres para trabalhar, o deslocamento na comunidade é feito por vielas estreitas e o Estado só marca sua presença com violência policial.

O diretor Neville D'Almeida mostra em seu longa uma forma de integração social mais recente e também muito específica do Rio. Não são os moradores do morro que descem para trabalhar para a classe média alta, mas os jovens da classe média que buscam diversão subindo o morro em uma espécie de turismo a um lugar diferente.

Como qualquer hotel que cobra mais caro de acordo com a vista do quarto, Gru (Flávio Bauraqui), morador do Vidigal, aluga a laje de sua casa para Alison (Johnny Massaro) organizar festas para um grupo de jovens em busca de diversão. A primeira crítica às relações do filme costuma girar em torno do comportamento hedonista dos jovens, afinal para eles a vida se resume a festas regadas a drogas e sexo.

Porém esse comportamento é até secundário se comparado aos problemas sociais capilarizados na trama do filme. Não são os jovens ricos que só querem saber de aproveitar a vida, tentando supervalorizar pequenos problemas e acreditando que a vida para eles também é difícil; na verdade esse é o desejo de qualquer um, que não é posto em prática por falta de recursos.

A diversão, seja bancada pela mesada dos pais ou por alugar parte da própria casa, é igualmente legítima. O que realmente incomoda é ver como essa aparente aproximação entre classes é unilateral e restritiva, contribuindo para a segregação social ao invés de combatê-la. É um equívoco pensar, diante das injustiças mostradas no filme, que as relações deveriam ser baseadas na essência das pessoas, ao invés de seus bens, pois isso também é posto em prática junto ao poder econômico.

Por mais que Gru ganhe dinheiro alugando sua laje e até frequente as festas, ele nunca será parte integrante do grupo de jovens. Ainda que entre eles os jovens façam brincadeiras pejorativas que chegam a causar transtornos, quando essas brincadeiras são com Gru fica claro que estão se referindo a alguém de fora.

A convivência em um ambiente fora do próprio condomínio, que poderia ser ótima para apresentar uma realidade distinta e assim ensinar outros valores, acaba somente corroborando preconceitos que são exatamente baseados no status social, independente do poder econômico.

No meio do caminho entre as duas realidades está a personagem Amsterdã (Bruna Linzmeyer). Com uma beleza estonteante a jovem tem mais integração com o grupo, desde que esta aceitação seja vista como um favor dos mais ricos à garota que não tem família que a sustente, não tem um barraco com vista para o mar, mas tem um belo corpo como moeda de troca e se prostitui para conseguir dinheiro e drogas.

O filme retrata cada personagem em seu papel social. O problema não são valores morais que censurem a sexualidade – liberada desde que dentro do próprio grupo, com exceção de Amsterdã –, tão pouco as drogas que poderiam render um capítulo à parte desta análise.

Todas as relações do filme são baseadas em troca de bens, materiais ou simbólicos. Essa troca de bens obedece a regras implícitas muito claras. O que difere Amsterdã, que entra no carro de um desconhecido para se prostituir por cinquenta reais, e a jovem de classe média que presta o mesmo serviço em troca de drogas é que esta só se sujeita a isso quando quem pede sexo é o amigo próximo. Diferente de Gru e Amsterdã, Alisson não precisa do dinheiro e o sexo poderia ser obtido de outra forma, mas a relação de poder leva à troca de bens simbólicos.

Em uma cidade que une a população por conta da geografia, seria ótimo se houvesse relações sociais reais, que permitisse às diversas classes um contato instrutivo. Isso permitiria tanto a desconstrução de preconceitos quanto a própria redução de desigualdades. Infelizmente há muito mais forças atuando para que as desigualdades persistam.


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