terça-feira, 23 de maio de 2017

A que distância (Qué tan lejos)

Este filme nos proporciona um resumo de viagem entre Quito, a capital equatoriana, e a cidade de Cuenca, ao sul do país. Cada personagem tem seu motivo particular para cruzar o país. Mais do que os cerca de 500 km de distância, o que separa as cidades naquele dia é uma paralisação nacional dos trabalhadores.

A diretora Tania Hermida diversifica as personagens, todas carregadas de simbolismo, trazendo vários elementos à trama, que aparenta ter mais intenção de despertar questionamentos do que oferecer um resultado pontual.

Na trama a espanhola Esperanza (Tania Martinez) visita o país sul-americano com o peso de ter nascido na metrópole. É evidente que nenhum espanhol ou português de hoje tem responsabilidade direta sobre o que seus antepassados fizeram ao longo de séculos de exploração na América Latina, porém é igualmente inevitável ver tantos problemas sociais com raízes na colonização.

Em contraponto à Esperanza vemos a protagonista que se apresenta como Tristeza (Cecilia Vallejo). A jovem, idealista e passional, não hesita em cruzar o país para impedir o casamento daquele que acredita ser o amor de sua vida. A princípio não é com bons olhos que ela vê a estabanada turista espanhola, que parece ser bem pouco politizada para seus padrões.

No caminho de ambas está a greve geral, sem prazo para acabar, que poderia adiar a viagem. Esperanza poderia não conhecer o país e Tristeza chegaria tarde demais para tentar evitar o casamento. A diferença, mais do que a meta da viagem, está na reação de ambas.

Esperanza não compreende muito bem a motivação dos indígenas responsáveis pela paralização. Ainda que não existam imagens das manifestações, a indicação de que ela é coordenada por indígenas deixa claro que o movimento é articulado nas forças sindicais de base. Ainda que os espanhóis não tenham posto em prática uma política de extermínio indígena, até hoje os descendentes diretos dos incas formam a camada mais pobre da região andina.

Já Tristeza tem uma consciência política muito mais ligada ao movimento grevista e as dificuldades que a greve impõe não são empecilhos suficientes para que a jovem deixe de apoiar a causa. Determinada e irredutível em seu objetivo, ela resolve fazer a viagem, mesmo que para isso tenha que pedir carona e levar, à revelia, Esperanza.

O trajeto serve para algumas conversas esclarecedoras entre duas personagens que passam a desfazer preconceitos criados pelas respectivas primeiras impressões. Além disso, a diretora aproveita para exibir algumas características do país. Tanto as qualidades quanto os defeitos. Infelizmente parece que as belezas naturais concentram as qualidades que o país tem a oferecer, enquanto a insegurança e os problemas sociais diversificam os pontos negativos.

Até mesmo uma simples carona, que pode facilitar a vida de viajantes em muitos lugares, no Equador e na maior parte da América Latina é algo a ser feito com muito cuidado e atenção redobrada no caso de duas mulheres.

Entre tropeços e avanços, no caminho a dupla conhece Jesus (Pancho Aguirre). Enigmático e profundo, o personagem uma síntese entre o lado politizado de Tristeza e a maturidade de Esperanza para as questões emocionais.

O ator errante que cruza o país com as cinzas da avó em uma urna acaba sendo a metáfora de guia, que mostra às novas amigas tanto o caminho físico até Cuenca quanto um caminho emocional, através do desapego material e da sabedoria prática de lidar com situações adversas da vida.

É possível encontrar no filme uma tendência de dividir o sentimento passional. Uma parte é mais egoísta e expressa pelo desejo de Tristeza de reatar seu relacionamento. Neste sentido a imaturidade da menina é logo compreendida por seus dois amigos mais experientes, que notam o equívoco ao mesmo tempo em que se compadecem com o sentimento da jovem.

Além disso, existe uma passionalidade que visa algo maior que o indivíduo, que também tem Tristeza como ponto central, pois mesmo tendo sua viagem extremamente dificultada pela greve geral do país, ela não somente apoia o movimento como é bastante didática ao explicar para Esperanza que a causa era justa.

Tanto no cinema quanto na vida, são frequentes as histórias de amigos que partem para uma viagem trabalhosa, que acaba abalando a estrutura das amizades. Isso deixa ainda mais interessante o sentido inverso, quando uma viagem inusitada e não programada acaba unido personalidades aparentemente divergentes.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

A despedida

A visão de mundo que temos, além de muito particular, oscila ao longo da vida. Por vezes de forma tão gradual que sequer percebemos. Da adolescência em que doze horas de sono não são nenhum absurdo, passando pela maturidade em que a necessidade de estabilização pessoal e profissional traz inseguranças, atravessamos nuances comportamentais até que alguns chegam em uma fase presumivelmente final.

De repente o corpo mirrado passa a pedir uma fralda geriátrica para estancar a falta de controle dos esfíncteres, sair sozinho da cama demanda um esforço que questiona se aquilo é mesmo pertinente, o banho matinal deve ser sentado e com toda a atenção para que um mero deslize não resulte em uma queda fatal, a barba insiste em crescer ignorando a falta de firmeza das mãos que mal dão conta de empunhar a lâmina de barbear. Neste cenário a bênção da consciência intacta é amaldiçoada pela percepção das habilidades perdidas.

Contrariando o provável pouco tempo restante de vida, o corpo exige paciência monástica para sustentar um resquício de orgulho e se vestir sozinho. Essa é a tarefa repetida diariamente ao longo de noventa e dois anos e que agora reduz as expectativas do velho Almirante (Nelson Xavier).

Sair sozinho para tomar café na rua. Difícil imaginar o que passa pela cabeça de alguém que ao anunciar algo que qualquer criança pode fazer, desperta no filho – com razão – temor e receio. O que o personagem ilustra é algo muito comum em pessoas cuja idade compromete severamente as habilidades físicas.

Aquele antigo almirante, de passado incógnito, mas que inevitavelmente prezava pelo físico militar, mal tem condições de caminhar pelas calçadas e ruas esburacadas. Caminhar sozinho é uma opção. O filho poderia acompanhá-lo, mas a necessidade é de provar a si mesmo que ainda pode ser independente. Como convencer um almirante de que agora nem à padaria ele pode ir sozinho?

Driblar os buracos no caminho, em uma cidade excludente para quem tem alguma dificuldade de locomoção, mostra quanto o descaso do poder público pode tornar ainda mais difícil a vida daqueles que merecem atenção direta e indireta do Estado. Seja através de serviços e benefícios, seja através de uma cidade estruturada, a atenção aos idosos é uma mínima retribuição aos serviços prestados ao longo da vida.

Diante da presunção de um fim próximo algumas necessidades podem ganhar peso, visando não deixar pendências. O antigo desafeto deve ser procurado, não para realçar os desaforos, mas para admitir os erros, pedir perdão e selar a paz com um abraço fraterno. Pouco importa o que houve no passado, talvez até mesmo o erro tenha sido bilateral, mas pode ser assumido sozinho, desde que isso sirva para tirar dos ombros debilitados o peso simbólico de uma culpa.

A despedida não estaria completa sem a presença de um amor. A relação com a amante, a enigmática Fátima (Juliana Paes), poderia render várias análises, explorando a questão patriarcal e os problemas envolvendo um relacionamento com idades tão díspares. Porém esse não é o objetivo do diretor Marcelo Galvão. 

Fátima não demonstra apenas carinho, afeto e respeito em relação ao amante, mas também respeito à sua condição física e consideração com seu esforço pela independência. Diferente dos familiares, ela não o trata como um objeto de cristal fino, mas como um homem debilitado pelos mesmos anos que proporcionaram conteúdo intelectual.

O impacto das situações extremas do filme, que é baseado em uma história real, pode despertar reflexões sobre temas recorrentes no contato entre idosos e pessoas mais jovens. É formado um conflito de interesses quando um lado quer preservar a integridade física de quem já está debilitado e outro quer lutar contra os efeitos adversos da idade.

Mais do que bater de frente com quem supostamente é teimoso e inconsequente, o filme mostra ser válida a tentativa de se colocar no lugar do outro, valorizando suas pequenas conquistas. Ao Almirante, e a tantos idosos em situação semelhante, o corpo já impõe regras suficientes.

Recusar um cuidado paternal que, invertendo a lógica, passa a vir dos filhos, não é teimosia nem falta de reconhecimento, mas sim uma tentativa de resistir e preservar a dignidade do que resta a ser vivido. Quando só a consciência está intacta e isso é encarado como algo ruim, ninguém tem o direito de privar o indivíduo até mesmo de suas próprias decisões.


* Eu estava na metade deste texto quando soube da morte do ator Nelson Xavier. Fica minha singela lembrança.


terça-feira, 25 de abril de 2017

O silêncio do céu (Era el cielo)

O diretor Marco Dutra fez uma escolha interessante ao inserir em seu longa um personagem roteirista. Num filme em que, conforme o título indica, o silêncio prevalece, a construção dos personagens e de suas complexidades ajuda a dar ritmo para o clima tenso e difícil de ser encarado.

Uma das formas de filmar uma história é construindo personagens que quebrem a expectativa, desta forma – sem nenhum spoiler já que está no trailer e a cena abre o filme – a protagonista Diana (Carolina Dieckmann) sofre um estupro. Entre as inúmeras formas que cada vítima vivencia e reage a esse crime, Diana opta pelo silêncio.

Aqui cabe uma ressalva. Independente de como qualquer filme aborde o estupro e mesmo que cada pessoa tenha sua forma de reação, uma violência deve ser denunciada às autoridades. Por mais difícil, constrangedor e doloroso, o próprio filme indica a importância das primeiras horas após o ato, tanto para medidas jurídicas quanto para os exames necessários.

É compreensível que Diana tente seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Existem fatores sociais que fazem algumas vítimas de estupro tentar ocultar o caso. A vergonha, o medo, o machismo que historicamente tenta culpar a vítima, o receio quanto à reação das pessoas próximas, etc.

A particularidade é que Mário (Leonardo Sbaraglia), o roteirista e marido de Diana, viu parte da cena. Só não teve tempo de reagir nem atitude de falar abertamente sobre o fato. Aderiu ao silêncio da esposa, porém sem a menor pretensão de seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Diana é a única vítima da história. Essa observação poderia ser desnecessária, mas não podemos esquecer que durante muito tempo o estupro era visto como um crime contra a honra do marido. Claro que Mário não seguirá sua vida normalmente e às pessoas próximas também se abre um leque de sentimentos e reações diante de um estupro, porém nem toda reação é justificável.

Parece existir um pacto silencioso entre o casal, no qual cada um busca indícios para decifrar sentimentos e mesmo uma construção de histórias paralelas, que se aproximam pelos fatos e se afastam pela vivência.

Em outras situações o silêncio pode ser interessante em uma relação. O mistério, a imaginação, as várias formas de expressão que podemos descobrir na ausência das palavras pode tornar o contato diário mais instigante e aumentar a cumplicidade de quem é capaz de trocar longas frases por um olhar. Restringir toda a comunicação à fala é um grande passo rumo à monotonia.

Por outro lado, restringir todas as reações da vida conjugal ao silêncio é um convite às interpretações, que quando seguem o exemplo e se mantêm em silêncio formam uma bola de neve. Algumas palavras seriam esclarecedoras, dialéticas para que ambos compreendessem um pouco mais sobre o que aconteceu e até mesmo sobre os próprios sentimentos.

A proteção oferecida por Mário é extremamente bem-vinda. Da menor injustiça à maior violência, qualquer vítima quer o amparo de alguém disposto a oferecer abrigo. O problema é que a tal honra masculina, que diferente do medo só tem amparo em padrões sociais, também grita no silêncio interno do marido.

Passado o estupro, as violências particulares se expressam de forma silenciosa e simbólica. Várias vezes os cactos cultivados na casa ganham notoriedade. A fragilidade de uma planta inerte contrastada com o poder de dano de seus espinhos sintetiza as tensões entre personagens.

Em aparente tranquilidade, todos no filme estão à beira de um ataque de nervos e prestes a utilizar seus espinhos contra qualquer toque. O silêncio do céu, explorado em vários planos longos e sem nenhuma trilha sonora, é complacente com os personagens silenciosos, mas não oferece alternativas.

Até mesmo o roteirista, habituado a buscar alternativas aos seus personagens e a pesquisar na realidade as características que serão utilizadas na ficção, parece não encontrar nenhuma alternativa racional que dê vazão ao turbilhão de sentimentos silenciados, mas nunca controlados.

Os medos, as angústias, as dúvidas e tantos outros sentimentos são abordados de formas diversas pelo cinema, aqui o diretor opta pelo silêncio, que parece tão simples, tão contido, mas oferece as maiores complexidades. Dependendo do contexto pode ser sedutor e misterioso, mas diante da ação e reação de uma violência acaba sendo acima de tudo perigoso.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Cordeiro (Lamb)

Dirigido pelo etíope Yared Zeleke, este longa cumpre a função de mostrar um pouco de seu país de origem ao mundo. Geralmente reduzido à seca e à produção de maratonistas, a Etiópia é mais um país associado à África de forma genérica, com suas particularidades ignoradas e perdidas em meio à generalização.

Alguns detalhes são exibidos no filme através do pequeno protagonista Ephraïm (Rediat Amare), que em um roteiro não muito diferente de algumas histórias brasileiras é obrigado a fugir da seca que matou sua mãe, mudando para a casa da família paterna com sua ovelha Chuni, enquanto seu pai procura emprego em uma cidade pretensamente mais promissora.

Apesar de lembrar a história de ‘Vidas secas’, a ênfase do filme não está no sofrimento da jornada, que aqui é feita em um ônibus precário, porém mais cômodo que a peregrinação dos nordestinos. O que chama a atenção no país africano é o forte laço com as tradições e a ausência da infância como estamos habituados a ver por aqui.

Ephraïm acaba de perder a mãe e parece não ter espaço para viver seu luto. Em pouco tempo passa a morar com parentes que mal conhece, com a ameaça de que sua ovelha será abatida para uma comemoração religiosa e com sua afeição pela culinária censurada pelo tio, pois cozinhar é uma tarefa exclusivamente feminina segundo os costumes locais.

É compreensível que em meio a tantas hostilidades o menino saia do ambiente rural onde mora a família e chegue ao mercado da cidade, um conglomerado de comércio realizado à céu aberto. As outras crianças que poderiam significar um pouco de empatia e pertencimento a um grupo de comportamento semelhante ao seu acabam refletindo a violência e hostilidade de uma sociedade reduzida à luta pela sobrevivência.

Ao longo do filme percebemos não haver atividades lúdicas para os personagens. Os adultos se diferem pela autoridade exercida, mas todos parecem ter como único objetivo encontrar meios de subsistência. Para isso o trabalho começa ainda na infância – pois por mais baixa que seja a remuneração, qualquer migalha pode ajudar – e a religião que impõe tantos valores não é um empecilho para tentar um casamento arranjado para a filha adolescente.

Com tanta hostilidade é compreensível que Ephraïm faça de tudo para voltar ao vilarejo de onde veio. A subsistência de uma vida sem propósito não parece nada atrativa e como se isso já não fosse absurdo, sua única fonte de afeto vem de uma ovelha cuja vida deve ser defendida e seu apreço pela culinária – que o faz lembrar da mãe recém falecida – é menosprezado.

O estilo de vida que é evidenciado através do protagonista se estende aos demais personagens. É perfeitamente compreensível que a diferença entre Ephraïm e as demais crianças do mercado, que formam uma espécie de gangue mirim, seja a tênue ausência de uma referência mais afetiva, que pode vir da mãe ou de ao menos um animal de estimação, e o comportamento rígido e inflexível dos adultos seja a reprodução do que vem sendo passado através de gerações.

Mais do que olhar para cada personagem do filme de forma isolada, cabe pensarmos no que poderia surgir de um ambiente tão hostil e fechado, onde o atendimento médico é restrito aos que têm dinheiro e o estudo é um luxo, ou mesmo um mal a ser combatido pelos pais.

O que emerge de uma sociedade em que, a despeito de viver na modernidade, as crianças seguem coibidas de ter uma infância dificilmente será diferente do que vemos no filme. Ephraïm parece ter o destino dos adultos que o cercam. Deve crescer rápido, chegar à maturidade sem passar pela juventude e provavelmente envelhecerá antes dos trinta.

É inadmissível que os direitos mais básicos, desde a subsistência vinda da água e da comida até a moradia digna e o acesso à educação siga vetado a uma parcela da população. Não há mérito ou ausência de esforço pessoal que justifique a condição exposta no filme e vivida em tantas outras partes do mundo, inclusive aqui, no Brasil, do outro lado da rua do condomínio fechado.

A história de exploração dos povos africanos é antiga, constrangedora e revoltante. Filmes como esse vêm nos lembrar que essa exploração não ficou no passado. Segue fazendo vítimas cotidianas, que mal têm direito a um grito de revolta.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Huacho

Com o fim da Segunda Guerra e o desenvolvimento da tecnologia que os novos tempos de paz proporcionaram às grandes potências, a população mundial passou a migrar do campo para as cidades. Em pouco tempo as cidades passaram, pela primeira vez na história, a concentrar a maior parte da população, relegando ao campo poucas famílias que resistem à tecnologia e aos grandes latifúndios.

Este longa do diretor chileno Alejandro Fernández Almendras mostra através de estereótipos reunidos na mesma família as dificuldades da vida no campo em uma sociedade majoritariamente urbana, que está cada vez mais imersa no modo de produção industrial e que não percebe as diferenças entre o ritmo das cidades e a vida no campo.

Distante do mercado financeiro e suas ‘commodities’, Clemira (Clemira Aguayo) segue produzindo queijos artesanais, a despeito da idade avançada, e deve negociar sua mercadoria na beira da estrada, com motoristas que não costumam levar em conta a variação do preço do leite ou a diferença de um produto artesanal. Estamos tão habituados com uma indústria que produz toneladas de queijos, que sequer paramos para pensar em como a manufatura ganha em qualidade, sendo justo um preço mais alto.

Clemira já não tem grandes aspirações econômicas. A velha senhora quer vender seus queijos para ajudar na renda da família. Na geração seguinte à dela está sua filha Alejandra (Alejandra Yañez), cujo contato com as pessoas da cidade é maior por trabalhar diretamente com o turismo.

Tradicionalmente a mão de obra no campo não é tão especializada quanto na sociedade industrial. As atividades são realizadas conforme a necessidade, por quem estiver apto naquele momento. Desta forma Alejandra é faxineira em uma espécie de trabalho híbrido entre campo e cidade. O local onde trabalha recebe turistas dispostos a conhecer um pouco da vida do campo, levando inconscientemente a ideia de exploração do trabalho.

O consumo urbano pode ficar distante da geração de Clemira, mas Alejandra não quer abrir mão de suas vaidades, independente de qual seja sua função ou como será recebida por conta do cuidado com que se arruma para o trabalho. Uma possível tendência de censura ao seu consumo deveria esbarrar no fato de que seu salário pode ser gasto da maneira como ela achar melhor, pois independente de onde more, qualquer pessoa deveria ser remunerada com um valor que possibilite mais do que o consumo de necessidades básicas.

O passo seguinte da transição entre campo e cidade é feito através de Manuel (Manuel Hernández), o filho de Alejandra, que ainda não trabalha, mora com a família na zona rural, mas frequenta a escola na cidade simbolizando o preconceito que ainda existe em relação àqueles que moram no campo.

Longe do romantismo idealizado, a escola costuma ser um ambiente bastante hostil, sobretudo aos que sofrem diversos tipos de violência não coibida pelos profissionais de educação. Como podemos ver no filme, Manuel só quer fazer parte do grupo de crianças de sua idade, mas seu acesso é vetado pela origem distinta. 

Corroborando a ideia de uma pessoa simples e inocente por vir do campo, na verdade a distinção se dá pela violência da exclusão, que pode parecer algo menor e passageiro, porém com potencial devastador para o indivíduo, dependendo de como o tratamento discriminatório será trabalhado ao longo da juventude.

Fechando o ciclo da família o diretor volta à primeira geração através do patriarca Cornelio (Cornelio Villagrán). Seu papel ganha destaque diante da notoriedade da reforma da previdência, debatida de maneira superficial. Apesar de estar em um filme chileno, o personagem pode representar inúmeros trabalhadores rurais brasileiros.

Não bastasse a idade avançada que já deveria garantir a qualquer um a tranquilidade do dever cumprido com a sociedade, Cornelio dedicou a vida ao trabalho pesado do campo e segue oferecendo o corpo cada vez mais fragilizado às tarefas difíceis como a construção de cercas.

A família retratada nas telas proporciona reflexões a respeito das políticas públicas, que buscam um padrão social completamente excludente da realidade rural. Não bastasse a concorrência desigual de latifúndios mecanizados, que produzem muito mais e não empregam quase ninguém, ainda devem enfrentar a legislação voltada ao estilo de vida urbano.

Isso não significa que a vida na cidade seja fácil ou que a injustiça seja responsabilidade direta daqueles que nunca tiveram nenhum contato com a população rural, mas as diferenças expostas no filme deveriam ser consideradas com mais atenção e menos preconceito, sobretudo por quem as conhece somente pelo recorte de um filme.


terça-feira, 28 de março de 2017

Chatô - o rei do Brasil

Condensar uma biografia na duração de um filme não é tarefa fácil, sobretudo quando o biografado foi uma pessoa influente e sua história se confunde com vários aspectos do país, como é o caso de Assis Chateaubriand, interpretado por Marco Ricca.

Baseado na biografia esmiuçada de Fernando Morais, o diretor Guilherme Fontes optou por dar ênfase na relação dos canais de comunicação de Chateaubriand com o presidente Getúlio Vargas, utilizando recursos lúdicos para guiar as inúmeras faces do protagonista, como o julgamento fictício que traz como argumentos de acusação e defesa os fatos vividos pelo protagonista.

Além das inúmeras dificuldades que envolvem a produção de um filme, Chatô contou ainda com problemas judiciais e processos que atrasaram bastante a produção. Tudo isso acabou fazendo com que o lançamento do filme coincidisse com um momento extremamente tenso da política nacional, que nos remete aos entraves vividos na era Vargas.

Fica claro o quanto é antiga a relação promiscua entre imprensa e governante. Com personalidade bastante destoante dos círculos sociais que frequentava e tendo os bastidores retratados no filme, Chateaubriand não costumava usar eufemismos para exaltar o peso dos anunciantes não somente na economia do jornal, mas também no conteúdo e viés das matérias publicadas.

Igualmente tendencioso em relação à política, é notável que não haja decisão tomada em um grande veículo de comunicação que não seja amparada por uma intenção, cuja eventual nobreza não reflete nada além do interesse do proprietário do jornal. Qualquer candidato a cargo eletivo que negue ser político não faz mais do que ocultar dos eleitores as alianças firmadas por trás das manchetes de jornal. Isso já ficou claro em meados do século passado.

Mas Chateaubriand não se resumia a ligações espúrias com o governo. Amigo próximo dos artistas responsáveis pela semana de arte moderna, realizada em 1922, havia um lado inovador e revolucionário no magnata de aparências contraditórias e faro para os investimentos.

O problema é que suas contradições não se restringiam ao aspecto privado de sua vida. Os caprichos do magnata também atingiam em cheio a forma e o conteúdo de seu jornal. Neste os entraves com anunciantes tinham repercussão na esfera privada e qualquer irregularidade deveria ser investigada neste sentido. É na esfera pública que a arbitrariedade de parcerias atinge diretamente a população.

O direito à informação não pode ser refém de interesses do jornal, nem da amizade baseada na troca de favores entre governante e empresário do setor de comunicações. Atualmente os proprietários de grandes jornais do país – podem ser contatos com apenas uma das mãos – são mais discretos e cuidadosos para que os problemas pessoais não manchem a imagem empresarial.

Diante de tantos escândalos políticos seria difícil um fato inesperado vindo do Planalto, mas ainda assim a disputa pelo amor da primeira dama não é um fantasma que ameace a relação presidencial com a grande mídia. Atualmente a ligação é mais sólida e formal, com concessões muito bem selecionadas e diversos deputados vinculados diretamente a redes de rádio e tevê.

A estrutura frágil que unia mídia e governo nos tempos de Chateaubriand e Vargas foi muito bem lapidada por seus sucessores, de forma que questões pessoais sejam devidamente blindadas e os benefícios dessa relação de mutualismo político siga sendo vantajosa para as duas partes e um consequente entrave para a população, que segue com um viés tendencioso do que é noticiado.

Uma possível solução para ao menos reduzir o caráter tendencioso do que é ou não divulgado sobre políticos seria o já proposto controle social da mídia. A solução é convenientemente divulgada como censura por jornais tão isentos quanto Chateaubriand, interessados em manter a atual liberdade de concentrar o poder nas mãos de poucos, divulgando o que é interessante aos jornais e aos políticos que não ameaçarem o atual quarto poder formado pela mídia.

O que, não por acaso, é omitido pelos setores de comunicação é que a mídia é socialmente regulada nos principais países do mundo. Talvez a única grande democracia que permita grandes blocos formados por rádio, tevê, jornal e portais de internet unificados nas mãos de um único proprietário seja mesmo o Brasil. É possível que seja uma característica temporária, não pela dissolução dos monopólios midiáticos, mas pelo fim da democracia, que desde o impeachment apoiado e estimulado pela grande mídia, anda mesmo por um fio.


terça-feira, 14 de março de 2017

No fim do túnel (Al final del túnel)

Neste thriller o diretor Rodrigo Grande utiliza alguns recursos clássicos de narrativa, porém sem deixar que com isso seu trabalho fique previsível. O enredo se desenvolve em ambientes fechados, muitas vezes claustrofóbicos e a restrição de movimentos parece contribuir para que o fôlego siga a mesma opressão das situações tensas envolvendo as personagens.

O protagonista é Joaquín (Leonardo Sbaraglia), um cadeirante que vive sozinho em uma grande casa, onde trabalha consertando computadores no porão, com um elevador tem acesso ao térreo em que ficam seus aposentos e resolve anunciar um quarto para alugar no terraço, já que o único acesso é por uma escada.

Todo seu sossego, que até então parecia excessivo, é quebrado quando o quarto é alugado por Berta (Clara Lago) e sua filha de seis anos. O interesse da moça pelo quarto é tão grande que chega a ser suspeito e sua personalidade explosiva e extrovertida retira definitivamente Joaquín de sua tranquilidade, com o personagem se refugiando no porão para um pouco de paz.

É no silêncio, em companhia de seus inseparáveis cigarros, que o protagonista resolve analisar com mais cuidado os barulhos estranhos vindo da casa ao lado. Para sua surpresa trata-se de uma quadrilha cavando um túnel, que passará por baixo de sua casa até o cofre do banco ao lado. Para seu estarrecimento Berta é namorada do líder da quadrilha e seu desespero para alugar o quarto era uma necessidade de vigiá-lo e ter a certeza de que ele não seria um empecilho ao roubo.

A partir dessa descoberta o filme começa a surpreender e a prender cada vez mais a atenção. Joaquín poderia simplesmente fazer uma denúncia anônima, que acabaria com qualquer risco e o levaria de volta a sua vida pacata, porém ele é um personagem que unifica os conceitos de herói e anti-herói.

Desde o romantismo estamos habituados com a valentia de homens com moral ilibada, que no enredo em questão não só impediriam o roubo ao banco como livrariam a bela moça do bandido. O protagonista do filme já quebra esse estereótipo com sua limitação física, que não impede mas dificulta suas ações. Além disso, não há um dever moral em sua tentativa de intervir no roubo, pois sua intenção é utilizar as informações obtidas através da espionagem para tirar proveito do trabalho duro executado pelos bandidos.

Parece não ser somente a recompensa financeira que motiva Joaquín, mas principalmente a possibilidade de, mesmo na condição de cadeirante, participar de alguma ação grande e complexa, que exige sua astúcia e inteligência para driblar as dificuldades de locomoção.

Elementos bastante sutis ao longo do filme sugerem também que a presença da mãe com a filha pequena remete o personagem a sua própria família, cuja perda provavelmente está ligada à sua deficiência. Neste sentido sua atuação nos remete mais diretamente ao herói romântico, que sonha em se aproximar de Berta como certa continuação de sua vida pré-cadeirante.

Todo o plano complexo de um túnel que termina no piso do cofre do banco nos faz lembrar de crimes históricos, frequentemente retratados no cinema, o que dá grandiosidade à trama. Os ambientes fechados e opressivos não tiram dinamismo da história e o destaque fica para a necessidade do intelecto para atuar de forma precisa no verdadeiro jogo de nervos que se forma.

O diretor trabalha muito bem a ideia da sofisticação de um crime, que o torna muito maior do que uma simples contravenção a ser combatida e punida. É o gênero policial que mostra a estratégia aliada à brutalidade, capaz de articular detalhes minuciosos de um roubo a banco com punições severas ao que for considerado uma traição por seu mentor.

Entre muitos filmes argentinos que ganham destaque pelo engajamento político e abordagem eficiente de causas sociais, ‘No fim do túnel’ mostra que a qualidade também pode vir de ficções que trazem questões políticas de forma muito mais reticente.

Um filme muito mais voltado ao entretenimento, mas que nem por isso deixa de lado a tradição de boas produções cinematográficas. Retratar uma contravenção fazendo com que esta seja quase uma obra de arte, misturando papéis de herói e vilão para mostrar que os melhores personagens também têm interesses pessoais e não estão isentos de uma crítica moral não é uma tarefa fácil, mas quando bem executada oferece ótimo resultado.


terça-feira, 7 de março de 2017

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake)

O que me levou a esse filme foi ouvir o psicanalista Contardo Calligaris dizendo que é uma obra que explica o Brexit. Claro que não era essa a intenção do diretor Ken Loach, mas os problemas retratados oferecem uma justificativa bastante plausível para que a população mais velha do Reino Unido tenha tido peso fundamental na escolha pela saída da União Europeia.

Quem simboliza a frustração que deu origem à mudança é o protagonista Daniel Blake (Dave Johns). Passando por um período difícil de sua vida, tendo sofrido um ataque cardíaco pouco tempo depois de sua esposa falecer, Daniel é aconselhado pelo cardiologista a não voltar a trabalhar. Com isso ele passa a simplesmente buscar seus direitos.

Para melhor compreensão do que sente o personagem, vale a empatia de nos imaginarmos com uma idade avançada, sem filhos, com a perda recente da esposa, com a saúde fragilizada e agora incapaz de exercer a profissão de carpinteiro, que o sustentou ao longo da vida. O que sobra?

O ideal é que sobrasse ao menos a certeza de que as leis trabalhistas conquistadas com muita luta assegurassem uma previdência que garantisse uma vida digna, depois de tanto tempo de contribuição. Na prática o que Daniel encontra é um sistema burocrático e engessado, que trata todos os trabalhadores como peças de uma produção em série.

Com suas particularidades ignoradas, o protagonista deve seguir um rito padrão, que inclui responder imensos questionários de pouca serventia prática, feito por pessoas que mais parecem robôs programados para agir sempre da mesma maneira, ignorando imprevistos e incapazes de improvisar uma solução mais eficiente.

Em uma das peregrinações pelas instituições às quais tinha que relegar seu futuro – já que não podia trabalhar e não conseguia receber seus direitos previdenciários – Daniel acaba encontrando Katie (Hayley Squires), que enfrenta problemas com origens distintas, mas semelhantes pelo fato de convergirem para uma situação angustiante, da qual a personagem parece não conseguir escapar.

Mãe solteira de duas crianças, o fato de serem de dois pais distintos não gera nenhum problema direto, além da indicação sutil e intencional dos preconceitos que tudo isso pode suscitar. Katie acabou de chegar na cidade, justamente em busca de uma vida melhor, porém sem ter com quem deixar as crianças para poder trabalhar e sem nenhuma renda, sequer para as necessidades mais básicas.

Talvez pela afinidade criada pelas dificuldades burocráticas, a relação que se desenvolve entre os personagens é paternal, com Daniel cuidando das crianças como um avô dedicado, que fabrica presentes e consegue arrancar das crianças sorrisos que aparentemente só a idade nos ensina a obter.

Em pouco tempo a impressão que a vida dos personagens passa é a de que tudo poderia ser muito bom, não fosse a burocracia estatal impondo seus entraves a ponto de deixar Katie completamente sem alternativas. É como se a personagem fosse obrigada a se sujeitar a humilhações que não toleraria sem a pressão de uma vida digna aos filhos.

Por não ter mais nada a perder e levado à extrema exaustão psicológica diante de tantas dificuldades, Daniel se recusa a continuar tentando se encaixar em um sistema com o qual não se identifica e acaba tomando atitudes que a princípio seriam rechaçadas pela população, mas que pela percepção dos serviços estatais burocráticos generalizados, acabam apoiando simbolicamente o personagem.

Claro que a questão do Brexit é extremamente complexa para que seja resolvida em um filme que sequer tem essa pretensão, entretanto a saída do Reino Unido da União Europeia foi amplamente veiculada na mídia brasileira como uma tragédia, que a maioria da população aceitou sem saber ao certo do que se tratava.

O filme de Ken Loach mostra um lado pouco retratado, embora muito vivenciado – não só no Reino Unido. A empatia com as dificuldades dos personagens também deve ser olhada com o devido cuidado. Um estado desnecessariamente burocrático deixa qualquer um indignado, o que não significa que devemos aderir ao primeiro discurso populista que ofereça uma solução aparentemente fácil.

Boa parte dos fatos históricos que moldaram a sociedade contemporânea tiveram início na Inglaterra de Daniel Blake, inclusive a revolução industrial, as primeiras leis trabalhistas e boa parte da seguridade social. Todos são processos históricos que levaram muitos anos para serem concretizados. Acreditar que os problemas atuais – que existem e devem ser combatidos – serão resolvidos com um discurso nacionalista e radical é inocência por parte dos eleitores e má fé por parte daqueles que visam o poder.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O outro lado do paraíso

Uma terra em que o sucesso é garantido e onde os problemas não chegam é um sonho antigo da humanidade. Desde a metáfora bíblica, passando pela promessa de reinos, impérios, reichs e por fim cidades é sedutora a ideia de um local onde haja justiça e prosperidade.

Em um país continental e desigual como o Brasil os ciclos migratórios de um local que passa por dificuldades para uma região próspera fazem parte da história. Uma dessas grandes migrações foi gerada com a construção de Brasília, abordada pelo diretor Andre Ristum.

As notícias que se espalharam na época do início das obras eram da gênese de um paraíso, onde não faltava trabalho e consequentemente ascensão social. A ideia de morar próximo ao presidente, que por sua vez vive no Palácio da Alvorada, atraiu milhares de trabalhadores da construção civil, que acreditavam no sonho de que a riqueza era uma questão de tempo.

Entre esses migrantes estava Antônio (Eduardo Moscovis), religioso, sonhador, que vivia em busca da mítica Levitah. A decisão de mudar com a família para Brasília veio depois de um encontro inesperado com uma serpente e a interpretação da bíblia, que como de costume é muito mais uma criação de narrativa que justifique a vontade do que uma análise da metáfora religiosa, que é bastante abstrata.

Hoje é fácil pensar no desenvolvimento histórico de Brasília e acreditar que Antônio não deveria ter mudado, mas além do futuro no sertão de Minas não ser dos mais promissores, havia uma propaganda institucional de que o futuro estava na nova capital da república.

O primeiro choque de realidade foi perceber que Brasília foi construída por muitos, para servir a poucos. Os migrantes foram alojados precariamente em cidades satélites, que não seria um grande absurdo, não fosse a total falta de infraestrutura e o abismo social existente entre a Capital rica e a periferia miserável.

Olhar para o período retratado no filme é especialmente interessante dado o caráter cíclico dos eventos históricos. Há divergências entre historiadores quanto à motivação do golpe militar no Brasil. A versão de que era necessário combater o movimento comunista convence quem se recusa a uma análise mais profunda e as divergências sociais, sobretudo entre as vertentes elitistas, é muito mais condizente com a realidade.

Assim como a situação política atual, a situação do país no início de 1964 indicava uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir. O presidente Jango, longe de ser um ditador prestes a se perpetuar no poder, não tinha força política para apaziguar os interesses divergentes que convivem em permanente hostilidade na história do país e que por vezes entram em ebulição.

Estabelecido o golpe, o desenrolar tem resultado parecido com o que vemos hoje, ainda que obtido por caminhos distintos. De forma muito menos reticente, os militares sufocaram todo o movimento operário que lutava por justiça social em nome de uma suposta ordem que levaria ao progresso.

O filme não chega a abordar o resultado histórico do golpe, se restringindo a mostrar o outro lado do paraíso idealizado por Antônio. Sua Brasília rica e próspera na verdade era uma cidade satélite pobre e precária, com injustiças contra as quais sua luta passou a ser punida por um governo autoritário e ilegítimo.

É claro que um paraíso idealizado nunca se concretiza. A maior serventia é a de estímulo ao trabalho que nos leve o mais próximo possível do que consideramos perfeito. Entretanto, ao longo da história do Brasil vemos uma constante manipulação por parte do Estado, que leva a idealizações forjadas nas quais o trabalho da população não remete à concretização de sua própria noção de paraíso, mas à perpetuação das classes dominantes.

Basta olharmos para os problemas deixados pela ditatura que se impôs na época da história retratada para desconstruirmos a ideia de uma intervenção em prol do país. Não é sequer necessário abordar temas subjetivos como a herança autoritária, basta um olhar sobre a disparada da dívida externa, inflação e para as próprias cidades satélites de Brasília, que seguem com a mesma infraestrutura precária e a mesma marginalização de moradores, para percebermos que o ‘milagre econômico’ que se seguiu ao golpe não passou de falsa propaganda.

O olhar histórico que podemos lançar sobre a narrativa do filme não serve somente para compreendermos o passado, mas também para entender e nos precaver dos problemas atuais. Não é necessário seguirmos os passos de Nando (Davi Galdeano), o filho pequeno de Antônio, e achar que ficar longe da pretensa namoradinha é o pior que poderia acontecer. Já deveríamos ter maturidade para ampliarmos nossos horizontes e visão política para saber que as consequências vão além de questões particulares.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Juan de los muertos

Trabalhar o tema terror em forma de comédia, permeando a história com críticas sociais e políticas. Assim se desenvolveu este trabalho do diretor Alejandro Brugués. Os zumbis, que costumam ser assassinos assustadores, aqui não escapam de trapalhadas e bom humor, que inevitavelmente podem ser analisados com um viés crítico em relação à particularidade política da ilha cubana.

Zumbis no filme são dissidentes. Essa também é a forma como são chamados os cubanos contrários ao regime político e simpatizantes dos Estados Unidos. Não é por acaso que a metáfora é feita com mortos-vivos, que não possuem senso crítico e vivem em função de comer o cérebro dos cidadãos cubanos.

É para combater essa ameaça que entra em cena o protagonista Juan (Diaz de Villegas). O ‘João dos mortos’ dizia com orgulho ter sobrevivido ao Mariel, ao período especial e a tudo o que veio depois.

O porto do Mariel ficou famoso em 1980. Sim, já existia bem antes da imprensa atual afirmar que o governo brasileiro o construiu. Recentemente o porto foi reformado com financiamento do BNDES, mas sua relevância histórica foi quando serviu de embarque para o êxodo de cubanos insatisfeitos, que migraram para Miami.

Já o período especial foi na década de 90, após o fim da União Soviética e consequente redução das relações comerciais com Cuba. Devido ao embargo imposto pelos Estados Unidos, o comércio com a URSS era o principal sustento da ilha, que passou por sérios problemas econômicos, com muitos apostando no fim do regime castrista, que como bem sabemos, não ocorreu.

Em paralelo com a história cubana desde a revolução, Juan e seus amigos estão sob constante ataque, o que não impede que os problemas sejam combatidos com coragem, bom humor e uma dose de improviso capaz de fazer o jeitinho brasileiro parecer uma solução formal.

Cuba nunca chegou a ser comunista. A própria existência de um governante já contradiz a definição filosófica de comunismo, que por sua vez é bem diferente da superficialidade com que é abordada pela mídia. Desta forma, não é a busca dos cubanos por dinheiro e consumo que provaria um suposto fracasso do regime.

A estatização dos meios de produção faz com que a economia da ilha seja bastante peculiar. Um verdadeiro ponto fora da curva de capitalismo desenfreado dos demais países. Mas cabe ressaltar que o filme é de 2011, quando o governo passou a autorizar a abertura de pequenos negócios particulares.

Juntando a criatividade com a necessidade e o senso de oportunidade, Juan resolve atuar profissionalmente na destruição dos zumbis, oferecendo seu serviço de forma bastante objetiva: "matamos seus entes queridos". O fato de o protagonista abrir seu próprio negócio com o objetivo de ganhar dinheiro não significa que ele tenha mudado para o outro extremo do falso dualismo que costuma ser estabelecido quando se fala sobre a ilha.

Juan não pensa em ser um empresário bem sucedido, investindo toda sua vida em seu novo empreendimento que lhe garantirá uma fortuna. Um dos motivos que ele alega para nunca ter tentado migrar para Miami é exatamente a recusa em ter uma vida voltada ao trabalho, em detrimento dos prazeres.

Entre vários absurdos cômicos que vemos ao longo do filme está a súbita demolição de um edifício, que bloqueava o sol e atrapalhava a vista. Essas nuances do comportamento social, que valoriza a vida para além de seu comprometimento profissional e não se envergonha de deitar em uma cobertura para tomar sol enquanto, de forma alegórica, os dissidentes tentam dominar a cidade, talvez sejam a maior marca de Cuba em relação ao resto do mundo.

O orgulho de Juan ao ter sobrevivido à Mariel, ao período especial e a disposição de encarar o que vier não está na devoção aos irmãos Castro, nem ao apoio filosófico do comunismo. Associar os misteriosos zumbis aos dissidentes para em seguida colocar a icônica imagem de Che Guevara como um dos mortos-vivos mostra como não há devoção ao regime político.

Bem mais provável é que o laço de Juan com Cuba se forme graças à identificação com um estilo de vida voltado ao indivíduo, ao invés de uma existência baseada no trabalho como única forma de ascensão. Uma vez sanada as necessidades básicas – que podem ser uma garrafa de rum e algo simples para comer – não há motivo para continuar vendendo a própria força de trabalho até a existência do indivíduo seja reduzida a um morto-vivo caçando cérebros.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Kóblic

De todas as ditaduras militares que assolaram a América Latina, a argentina é favorita ao título de mais sanguinária. Não é honroso nem fácil, pois a concorrência foi forte. Neste filme o diretor Sebastián Borensztein não chega a mostrar ações diretas dos militares contra a população, mas o foco são os bastidores e como algumas insanidades tentavam ser dribladas por cidadãos que almejavam um pouco de paz.

Fugindo dos ditadores, o protagonista Kóblic (Ricardo Darín) não é um revolucionário subversivo e comunista, mas um militar. Assombrado pela memória de quando comandava os chamados voos da morte, dos quais militantes contrários ao regime eram jogados vivos ao mar, Kóblic busca refúgio na pequena Colônia Elena. Não quer derrubar o regime, conspirar contra a alta cúpula do governo nem vazar informações secretas, mas somente seguir sua vida.

Essa abordagem distinta permite uma análise mais específica do que a hegemonia de pensamento reprimindo ideologias contrárias. Mesmo que a história dos governos militares seja recente na América Latina, há quem defenda a volta dos mesmos e entre tantos absurdos para tentar justificar tal insanidade, está o falso argumento de que esses regimes só perseguiam criminosos.

Os governos militares, ilegítimos por terem tomado o poder com um golpe ao invés de eleitos pela população, se mantinham a base da força, mesmo que isso significasse prender, torturar, matar e ocultar cadáveres. Esse clima de insegurança gerava indignação de grupos dispostos a derrubar o regime e restaurar a democracia, o que posteriormente era distorcido e utilizado pelos militares como justificativa para o terror institucional do Estado.

Outro sintoma de um governo arbitrariamente violento foi o clima de insegurança fomentado entre a própria população. Qualquer um poderia ser informante oficial e, mais do que isso, qualquer civil poderia denunciar uma atitude que considerasse suspeita.

Como vemos no filme, esse estado de insegurança permanente faz imperar a lei do silêncio. Qualquer deslize, uma simples palavra mal colocada, pode gerar extrema desconfiança e fazer com que privilégios sejam defendidos com unhas e dentes. A meritocracia já era uma falácia nos tempos do regime militar; na prática o que imperava era o status proveniente de amizades.

Quem eventualmente não tinha uma carreira militar nem amigos influentes ficava sujeito ao rigor implacável das leis e das arbitrariedades ilegais, porém corriqueiras. Claro que não estamos totalmente livres das arbitrariedades tendenciosas por parte de autoridades, porém a justiça militar não oferece recursos e apelações. O direito à ampla defesa e contraditório é uma conquista que não tem preço, mas que só damos valor quando precisamos.

A metáfora de liberdade desfeita, através do avião que não voa, dá suporte à rigidez militar, incompatível com uma sociedade civil que pretende ser minimamente moderna. Em meio ao regime totalitário é inaceitável que Kóblic permaneça em um pequeno vilarejo sem trabalho e essa é uma ideia permanente aos regimes de extrema direita.

Desde a famosa placa de ‘o trabalho liberta’, na entrada de Auschwitz, às prisões por vadiagem em nossa época de ditadura, há uma valorização da exploração do trabalho que não visa à ascensão do indivíduo, mas a alienação através de jornadas exaustivas, reduzindo a população a meras peças de reposição no mercado de trabalho.

A síntese de quem não quer lutar contra esse sistema, mas também se recusa a fazer parte dele, está em Kóblic. Com motivos de sobra para não querer mais atuar nas Forças Armadas, o personagem não tem a opção de simplesmente desistir e seguir sua vida. O regime não oferece alternativas, não oferece diálogos, não oferece liberdade.

É impressionante como hoje algumas pessoas ainda acreditam na ideia de que ao menos havia crescimento econômico e não havia corrupção. Ainda que a economia fosse o único parâmetro para analisar a qualidade de vida, nem assim as ditaduras seriam justificáveis, afinal a maquiagem dos dados relativos à economia é o que sustenta essa falsa premissa.

Mais introspectivo, porém sem deixar de lado a violência física inerente ao período, o filme de Sebastián Borensztein traz uma outra perspectiva, distinta da forma habitual como a ditadura é tratada. Mesmo com dezenas de filmes e livros retratando o período, diante da nova guinada à direita no espectro político da região, nunca é demais lembrar dos horrores passados. Quem sabe uma nova abordagem ajude a abrir os olhos de quem parece força-los a permanecerem fechados.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

600 milhas

O diretor Gabriel Ripstein aborda um tema muito pertinente em seu longa. Ainda que tenha obtido um resultado abaixo do potencial, a obra acaba ganhando relevância diante dos recentes acontecimentos, com Donald Trump repetindo velhos clichês e prometendo acirrar a política de colonialismo norte-americano.

A narrativa predominante e unilateral é a de que latinos visam os Estados Unidos como uma meta a ser alcançada, sendo que muitos dos que atingem essa meta seriam responsáveis por problemas sociais como violência, tráfico, desemprego, etc. O que o filme mostra é que em tempos de globalização financeira, com mercados interligados e transações comerciais megalomaníacas, os problemas também são generalizados.

O estereótipo mexicano do filme é Arnulfo (Kristyan Ferrer), que ganha a vida cruzando a fronteira para contrabandear armas. Antes que alguém conclua que isso justifica o muro prometido por Trump, cabe ressaltar que isso não seria possível sem a participação de Carson (Harrison Thomas), o norte-americano que compra as armas – inclusive as de uso militar – sem grandes dificuldades e repassa ao mexicano.

O país que durante treze anos criminalizou as bebidas alcoólicas elege agora outras drogas como inimigas da nação, fechando os olhos para os danos causados pelas armas fornecidas ao mundo que geram rios de dinheiro – e de sangue.

As atividades ilegais, realizadas de forma intensa na fronteira com o México, são fiscalizadas de perto pelas autoridades do país, porém são reprimidas em doses homeopáticas, ou seja, quando há conveniência ou necessidade de mostrar serviço à população, que se sente segura ao ver latinos detidos.

No filme essa fiscalização é feita por Hank Harris (Tim Roth), até que um deslize abala as estruturas do contrabando, fazendo com que o agente vire refém de Arnulfo. O mexicano não tem a menor dificuldade para voltar ao seu país de origem com um refém escondido no carro. A revista aos que deixam os Estados Unidos é quase simbólica, extremamente diferente dos que tentam fazer o caminho inverso.

Pode parecer justo impor restrições aos que podem tentar traficar drogas ilegais, mas o impacto social e a violência que será gerada por armas vendidas livremente, sob o argumento infantil de que a autodefesa é um direito do cidadão americano, raramente é analisado.

Problemas sociais não são fenômenos isolados. Há uma cadeia produtiva que entrelaça bens de consumo na qual a produção de drogas e de armas formam uma mistura explosiva. Não há saída imediata para essa relação, pois suas raízes são muito mais profundas do que aquilo que o muro prometido por Trump pode barrar.

Entre os diversos fatores que sustentam as violências características de cada país estão relações econômicas seculares que mantêm países latinos como fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra baratas, em troca de produtos industrializados permeados por sonhos de consumo.

Junto com as armas os Estados Unidos vendem a ideia que o sucesso econômico do país ocorre por mérito e competência, sendo os outros países – sobretudo latinos e muçulmanos – somente ameaças a serem combatidas. Os que compram essa ideia acreditam que com esforço um dia alcançarão o mesmo sucesso econômico, desde que não sejam atrapalhados pelas supostas maçãs podres, simbolizadas por Arnulfo.

Quando o personagem volta para o México com o refém a história do filme começa a ficar um pouco repetitiva e os diálogos não chegam a explorar todo o potencial da trama, mas o que fica implícito é que essa relação promiscua não traz vantagens ao México ou aos mexicanos em detrimento dos Estados Unidos.

O tráfico internacional de drogas movimenta cifras exorbitantes e não funciona sem armas, que são produzidas e vendidas, em grande parte, por empresas norte-americanas. O discurso de combate ao tráfico somado à falácia de armar o cidadão para que ele se defenda dos perigos externos sustenta um mercado também milionário, que produz vítimas em ambos os lados da fronteira.

Diante das recém ameaças de muros, deportações e interdições, o filme Gabriel Ripstein traz temas pertinentes para a desconstrução de um discurso cínico, que insiste em colocar os Estados Unidos como vítima das violências vindas do exterior e ocultar os problemas originados pela exploração norte-americana.

Não precisamos sequer chegar no usuário final da droga, muitas vezes contrário à presença de imigrantes mexicanos no país, basta um olhar para as relações institucionais entre os dois países para notar que o problema da violência é bilateral, sendo um muro a simples maquiagem para corroborar preconceitos.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Permanência

As mudanças de comportamento social costumam ser absorvidas lentamente, de forma que não nos damos conta de como o período em que vivemos é diferente daquele das gerações passadas. Se hoje as pessoas se casam cada vez mais tarde, com muitas optando por uma vida de solteiro sem que isso seja um problema, há poucas gerações o mais comum era um matrimônio ainda no fim da adolescência, que de uma forma ou de outra seria mantido até o fim da vida.

Manifestações do movimento feminista associadas a movimentos libertários, sobretudo a partir dos anos 60, alteraram o rumo desse destino quase predeterminado da primeira metade do século passado. Diferente do que correntes conservadoras argumentam, não foi a instituição familiar que passou a ser desfeita, mas uma ilusão de casamento perfeito que sempre existiu somente na teoria.

Neste longa do diretor Leonardo Lacca vemos uma história típica de relacionamentos contemporâneos, que não são engessados pela necessidade moral de serem eternos; o que não faz com que a vida seja mais fácil. Avançamos socialmente ao admitirmos que relacionamentos nem sempre são insolúveis, mas os sentimentos nunca serão um apanhado de conclusões racionais.

A história tem início quando o fotógrafo Ivo (Irandhir Santos) chega de Recife para sua primeira mostra em São Paulo e fica hospedado na casa de sua ex-namorada Rita (Rita Carelli). Não temos nenhuma informação sobre o passado do casal, mas fica claro que diferente do relacionamento, o sentimento entre eles não acabou.

Mesmo com o desejo latente, ambos se casaram e o atual marido de Rita se esforça para não evidenciar seu ciúme – sentimento que nesse caso é exponencial ao perceber que Ivo é muito mais interessante e condizente com a personalidade de Rita.

Diferente de um conceito que só funciona nas propagandas de margarina, onde o amor é único e eterno, atuando de forma homogênea para todos os casais, no filme vemos um sentimento múltiplo. O fato de Ivo ser casado não é suficiente para que seu sentimento por Rita acabe, tão pouco o impede de ter um caso com Laís (Laila Pas), envolvida na produção de sua exposição.

Ainda que não seja personagem de grande destaque na história, Laís reúne em si características resultantes de avanços sociais. Uma moça livre para viver sua própria vida, desprendida de valores morais que até pouco tempo atrás tornavam impensável uma noite de amor com um quase desconhecido, sem a menor pretensão de continuidade.

Essas transições sociais não possuem um ponto final. São valores que mudam com o tempo, somados à necessidade urgente de romper com um machismo que relegava às mulheres a vida de submissão. Se por um lado atingimos maior liberdade nos relacionamentos, por outro essa liquidez não está totalmente desprendida de valores tradicionais, muito menos de sentimentos conflitantes, para os quais não há regras que evitem frustrações.

Os mais imediatistas poderiam pensar que não fossem os ideais liberais postos em prática, Ivo e Rita ainda estariam juntos, já que demonstram grande afeto um pelo outro, porém o sentimento presente ressalta que independente do que tenha motivado a separação, foi algo relevante a ponto de superar o que sentiam. Poderiam ter continuado o relacionamento e afetivamente estariam, talvez, mais felizes, mas isso fica restrito ao campo das hipóteses.

No passado as opções ao longo da vida eram muito mais restritas. Casar cedo, ter filhos e trabalhar por décadas na mesma empresa ou ficar em casa cuidando da família era um roteiro que resumia a vida de grande parte das pessoas. Agora o dinamismo de uma vida profissional caótica, as infinitas possibilidades de estudo e os caminhos entrecruzados ao longo da vida fazem com que seja tarefa árdua encaixar um relacionamento que possa conciliar todos os compromissos de um casal.

A vida moderna se torna cada vez mais complexa, reflexo de uma liberdade pela qual a sociedade vem lutando há muito tempo. Seria muito superficial se ater às frustrações românticas para emitir um julgamento final sobre nosso estilo de vida. A luta pela liberdade universal implica em cruzarmos com pessoas igualmente livres, com outras ambições e planos muito bem traçados.

O encontro de duas pessoas que aceitem seguir pelo mesmo labirinto de caminhos que se estendem pela frente é raro. Antigamente não era mais fácil, a diferença é que muitas pessoas eram arrastadas por caminhos indesejáveis.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O décimo homem (El Rey del Once)

O longa do diretor argentino Daniel Burman gira em torno da história de Ariel (Alan Sabbagh), que depois de muitos anos retorna de Nova York para o bairro judeu de sua infância na Argentina, onde agora suas expectativas e lembranças serão confrontadas com a realidade, que nunca é exatamente como esperamos.

Ariel havia se tornado um economista bem-sucedido. Voltou para a região onde seu pai administrava uma instituição de caridade. Usher (Usher Barilka) é o rei da onze, a quem o título original faz referência. Um homem que aparentemente mal tem tempo para respirar em meio à correria de uma rua que lembra a 25 de março, paulistana.

Em uma metrópole, com seu ritmo de vida frenético e compromissos simultâneos, as relações pessoais devem se encaixar nos raros intervalos livres. Não que as pessoas sejam mais frias, muitas vezes elas não conseguem conciliar tantas atividades com a atenção que gostariam de trocar com amigos e familiares. Antes de julgar essa dificuldade como a priorização do trabalho, devemos lembrar de que a carga horária profissional é a única que se mantém estável e inflexível. Quem quiser adicionar atividades e compromissos na agenda, que sacrifique o descanso ou o lazer.

Assim Ariel não tem a recepção que esperava ao desembarcar. Ninguém no aeroporto, e não pode encontrar com seu pai nem mesmo na instituição. Por telefone e notavelmente contrariado pela pressa, Usher informou que o reencontro ficaria para o dia seguinte, parecendo mais preocupado com um sapato que encomendara do que com a viagem do filho.

Outra frustração do protagonista vem das obrigações que acompanham a vida adulta. Suas lembranças da infância não incluem auxiliar o pai em negociações duras com os fornecedores, nem informar às pessoas ajudadas pela instituição que não teriam carne para comer.

Com tantas barreiras, seu alento vem através de Eva (Julieta Zylberberg), funcionária da instituição que sempre se mostrou muito solícita, apesar de uma particularidade. Eva não falava. Não era muda, apenas considerava não ter o que dizer, com isso os monólogos de Ariel eram respondidos com breves gestos ou expressões faciais, o que não deixa de ser mais uma frustração ao personagem.

Eva é uma personagem bastante emblemática. Apesar do judaísmo presente na história, desde seu nome até seu papel na história faz com que ela lembre a primeira mulher, criada, segundo o catolicismo, para fazer companhia ao homem. A Eva bíblica não tem voz histórica e a do filme opta por abrir mão da palavra.

O silêncio dá espaço para que Ariel fale sobre sua vida, suas expectativas e suas frustrações, talvez sem perceber que suas expectativas migravam de Usher para Eva, que também não tinha obrigação alguma de correspondê-las. É bem compreensível que a personagem que não pronuncia nenhuma palavra instigue curiosidade, mas esta deveria ser livre de ilusões.

Aos poucos, conforme o encontro com o pai vai sendo adiado, Ariel começa a ter contato com pessoas que acabam servindo de contraponto ao seu mundo de idealizações, afinal todos somos ou ao menos já fomos alvo de idealizações que não tínhamos a menor intenção, muito menos obrigação, de corresponder – inclusive o próprio Ariel.

O material que temos sobre a vida do personagem sugere que ele tenha sido o protagonista de tudo o que viveu. Sempre teve o mundo ao seu redor, mas nunca parou para pensar no que o mundo esperava dele. Assim mudou de país, se estabeleceu profissionalmente e só voltou depois de muito tempo, mais por convite da família que por vontade própria.

O pai, a quem ele sempre chama de Usher, também esperou pelo filho. Talvez tenha esperado durante muito tempo, até que percebeu que sua própria vida precisava ser vivida, suas obrigações – que incluíam as atividades da instituição e consequentemente atingiam diversas outras pessoas – não poderiam ficar restritas às vontades do filho.

O que resta a Ariel é aprender na prática uma condição que o conforto econômico não ensina. Ser um economista bem-sucedido ou ser o filho do rei da onze não o torna único no mundo. Olhando de longe ele é, com a insignificância de qualquer outra pessoa no mundo, apenas mais uma pecinha encaixada em um tecido social.

Fora do mundo da fantasia as expectativas criadas raramente são correspondidas espontaneamente. Ariel parece ter acreditado que seriam, devido a uma condição econômica que colocava empregados a realizar suas vontades e a um pai que provavelmente se esforçou para dar conforto ao filho. O que se espera é que a monarquia no rei da onze chegue ao fim nos tempos de república.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Querida, vou comprar cigarros e já volto (Querida voy a comprar cigarrillos y vuelvo)

Voltar no tempo e reviver alguma situação pela qual passamos, mas com a maturidade que só a experiência pode proporcionar. Um tema recorrente no imaginário popular, que virou tema para os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat. De forma bem humorada e explorando os aspectos trágicos das situações, os diretores permeiam a história com algumas questões bem interessantes, que além de divertir nos instigam a pensar em aspectos de nosso cotidiano.

O protagonista é Ernesto Zambrana (Emilio Disi), que com cerca de sessenta anos recebe a proposta de reviver dez anos de sua vida, a partir de qualquer data de sua escolha. Essa proposta tende a ser mais valiosa que um prêmio de mega sena. Não é só o dinheiro, mas a chance de consertar erros cometidos no passado que tiveram consequência ao longo de toda a vida. Pense rápido, para qual dia você gostaria de voltar?

Ernesto opta por voltar a tempo de pedir desculpas à mãe pela distância ao longo da vida. Note que ele iria reviver dez anos, podendo passar todo esse tempo próximo a ela caso quisesse realmente arrumar o que considerava um erro, mas prefere voltar apenas a tempo de se desculpar. Não temos elementos suficientes para julgar essa atitude. Nunca se sabe o que leva alguém à escolha de seus caminhos.

Pego de surpresa e munido apenas da esperança de tornar sua vida recente marcante, o protagonista logo percebe que reviver um período não o torna imune às imprevisibilidades do destino. Não é uma questão moral, pois sendo egoísta ou altruísta os imprevistos seguem transformando sua vida em algo independente de sua própria vontade.

Quando pensamos em algum erro cometido temos a tendência de imaginar que se pudéssemos consertar aquele ponto específico todo o resto teria o mesmo desdobramento, com a vantagem de um problema desfeito. O que o filme mostra, ainda que de forma cômica e caricaturada, é que nossa vida se equilibra em uma estrutura formada pelos detalhes do dia-a-dia. Alterar um detalhe implica em desestruturar os eventos seguintes.

Claro, são hipóteses que não passam de uma abstração, não se trata de considerar uma viagem no tempo oferecida por um emblemático ser imortal como o filme sugere, mas podemos pensar em como, independente da maturidade e experiência de vida que temos, nossos erros são inevitáveis a ponto de ser mais eficiente uma flexibilidade diante dos desdobramentos de nossas ações do que o saudosismo de um fato que deveria ter acontecido.

Não bastasse a versatilidade de nossa própria vida de acordo com os caminhos que escolhemos com o passar dos anos, ainda temos inúmeras pessoas com quem interagimos de uma forma ou de outra, por vezes sem nem perceber, e que vão influenciar em nossa vida. Em meio à comédia de personagens rabugentos e mal humorados, existe certa melancolia da vida como uma prisão, da qual não podemos escapar e tão pouco tomar as rédeas. 

As supostas vantagens que a experiência poderia trazer a um jovem com décadas a mais de vivência esbarram no fato de que a vida sempre irá frustrar nossas expectativas, sobretudo quando elas forem muito fechadas. As oscilações do comportamento humano ao longo da idade não ocorrem por acaso, mas são fruto de uma longa evolução que levou a adaptação dos indivíduos de acordo com a necessidade de cada época da vida.

Ernesto volta à juventude apostando em sua sabedoria, porém não demora para perceber que tem muito o que aprender. Apesar do corpo agora jovem, sua mente não tem a versatilidade do início da vida e seu conhecimento está deslocado no tempo. Uma ação que parece razoável hoje pode ter um impacto bem distinto quando transposta para um tempo com costumes bem distintos.

O que o filme mostra nas entrelinhas de todo o enredo inusitado e cômico é que a vida não é uma máquina com funcionamento isolado, à qual podemos trocar peças e rearranjar funções. Talvez a melhor definição seja a de John Lennon – que não escapou do roteiro do filme – quando afirmou que a vida é o que acontece conosco enquanto estamos ocupados fazendo planos.

A vida de Ernesto não precisou de nenhuma magia para chegar ao tédio extremo do início do filme. Basta passar o tempo todo imaginando o quão grandioso nosso destino poderia ter sido, o que na prática se concretiza para pouquíssimas pessoas, ao invés de imaginar o que podemos extrair do que realmente temos.


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