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terça-feira, 28 de novembro de 2017

A vida útil - um conto de cinema (La vida útil)

Uma vida inteira dedicada a fazer algo prazeroso. Esse poderia ser o resumo do que pensamos sobre uma vida útil. O problema é que nem sempre uma vida plena e satisfatória se encaixa com uma atividade útil do ponto de vista econômico.

O diretor Federico Veiroj constrói este longa quase como uma metalinguagem, mostrando que a qualidade pode estar completamente separada da viabilidade econômica.

A estética em preto e branco ajuda a dar um tom anacrônico para a vida do protagonista Jorge (Jorge Jellinek) que na contramão da tendência de grandes salas de cinema dentro dos shoppings, visando o entretenimento a custos exorbitantes, trabalha integralmente na cinemateca de Montevidéu.

Um grande complexo de salas de cinema opta por exibir os chamados blockbusters de Hollywood, cobrando ingressos caros e gerando renda com tudo o que é vendido nas lanchonetes do cinema – que não é pouco. Já uma cinemateca é oposta em todos os sentidos.

O entretenimento é apenas uma das funções do cinema, que tem grande relevância, mas restringir todo o potencial dos filmes a um entretenimento vinculado ao consumismo dos shoppings é desperdiçar talento e qualidade, que os filmes alternativos costumam esbanjar em produções pequenas e pouco divulgadas.

Já no início do filme Jorge fala, no programa de rádio, que “você precisa da cinemateca e a cinemateca precisa de você”. É evidente que uma cinemateca precisa de público, tanto por não fazer sentido uma exibição de filme sem pessoas para assistir quanto pela necessidade da renda.

O caminho inverso não é tão explícito. Qual a necessidade de uma cinemateca? Se considerarmos a fábula do livre mercado podemos imaginar que as antigas salas de cinema de rua, com filmes alternativos e preços mais baixos, morreram naturalmente por não serem capazes de concorrer em qualidade e preço com as grandes redes de cinema.

Porém o público de cinema exige uma formação. É neste ponto que uma cinemateca é fundamental, pois essa formação sempre existe, mas em geral é feita pela televisão, voltada aos filmes de Hollywood, que têm valor, mas não são os únicos a expressarem o potencial do cinema.

A exibição de filmes temáticos, em ciclos que reúnem obras com pontos de vista distintos, tem o potencial de atrair o público que visa o conteúdo histórico e didático, dificilmente explorado fora do ambiente de uma cinemateca.

Essas exibições dependem de outra função importante, a preservação de obras com valor histórico incomparável ao valor econômico. Os filmes ditos ‘de arte’, ainda que todo filme seja uma expressão artística, não tem a intenção de encerrar a vida útil após o fim das exibições em salas comerciais.

Um blockbuster pode gerar quantias imensas de dinheiro em poucos dias, com lançamento em milhares de salas que logo permitirão a cobertura de todo dinheiro investido, muitas vezes gerando lucros exorbitantes aos estúdios que o produziram. Já os filmes alternativos costumam ter dificuldades até mesmo para cobrir o reduzido orçamento de produção.

Não há saída para as dificuldades econômicas das produções alternativas além do fomento que é contrário às leis de mercado. O interesse cultural contido em uma cinemateca ultrapassa o lucro econômico e a ausência de verba destinada a uma instituição que preserva a cultura indica um descaso com a formação cultural da população.

A vida do protagonista Jorge se encaixa perfeitamente na realidade da cinemateca onde trabalha. Dedicado e sem grandes pretensões econômicas, Jorge sobrevive e faz o local sobreviver.

Mesmo o programa de rádio que ele coordena acaba seguindo os preceitos do circuito de cinema alternativo. O conteúdo apresentado é bom, com grande valor intelectual, mas não é dinâmico e tem pouca atratividade para aqueles que não estejam profundamente interessados no tema apresentado.

Jorge e a cinemateca parecem ter suas existências vinculadas. Excluindo a visão romântica de alguém que dedica toda a vida para uma causa, essa relação de dependência é ruim para ambos.

A cinemateca é uma instituição que deve ser perene, ultrapassando a existência daqueles que se dedicam para mantê-la. Já no caso de Jorge, o fim da cinemateca significa a rendição de sua própria vida às normas de mercado, com uma produção em massa que chegue à circulação e encerre o ciclo após o consumo. Qualquer particularidade que fuja dessa lógica parece não ter espaço e tende a ser sufocada.


terça-feira, 20 de junho de 2017

A demora (La demora)

Como reagir diante de um grande problema, do qual não podemos fugir, mas para o qual não há saída fácil? Esse é o impasse da protagonista María (Roxana Blanco), com o agravante de ter que decidir sozinha o futuro de seu pai, Agustín (Carlos Vallarino), que com idade avançada já apresenta sinais da falta de memória.

O diretor Rodrigo Plá constrói sua história deixando claro que as dificuldades de María têm vários fundamentos relacionados com sua vida. Não se trata de uma mulher mimada que, sem o hábito de enfrentar problemas, opta por abrir mão de suas responsabilidades de forma imprudente e egoísta.

Mãe de duas crianças pequenas e afeitas ao avô, a protagonista não conta com a ajuda de nenhum outro familiar para cuidar de seu pai, que demanda cada vez mais atenção. É angustiante ver que o idoso começa a não reconhecer a própria filha, sabendo que a medicina ainda não tem nenhum tratamento eficaz contra a perda de memória.

Não bastassem as dificuldades pessoais de lidar com esse problema, a condição econômica é sempre um fator decisivo. María não tem como pagar por um bom asilo, muito menos arcar com os custos de uma cuidadora. Os personagens chegam ao ponto em que o ciclo da vida parece invertido.

É inevitável, sobretudo para as famílias de baixa renda, que crianças queiram coisas completamente fora do poder aquisitivo dos pais. Por mais que possam surgir lições pedagógicas sobre como lidar com o dinheiro e abrir mão de desejos inalcançáveis, é sempre incômodo aos pais frustrar o desejo dos filhos.

No filme a restrição econômica da personagem, que passa a ser responsável pelos cuidados ao pai, tem o agravante de não ser um luxo dispensável, mas uma demanda cada vez mais inadiável. Não há lição possível ao idoso que dá cada vez mais trabalho, ainda que sem a menor responsabilidade sobre isso.

Cabe à filha uma culpa psicológica, ainda que falsa, por não conseguir lidar com os problemas. Suas crianças acabam tendo a infância afetada pelas necessidades cotidianas. A menina, um pouco mais velha, mas ainda longe da adolescência, é incumbida de cuidar do irmão caçula e todos na casa acabam tendo que se desdobrar para que uma vida minimamente aceitável siga em frente.

Somos tentados a pensar que Agustín não ajuda no pouco que lhe cabe. O idoso se recusa a aceitar sua condição e se apega à consciência, ou ao menos à lucidez que ele acredita manter, para recusar as tentativas da filha de uma internação em alguma casa de repouso.

Na verdade ainda que a memória de Agustín esteja prejudicada, a ponto de esquecer o próprio endereço e começar a não reconhecer as pessoas mais próximas, é possível notar que ainda existem momentos de consciência que o fazem lamentar a atual condição.

Ter noção da própria decadência física e psicológica, sem poder fazer nada para reverter os sinais da idade, também é um grande peso para a própria pessoa, que tenta lutar contra o tempo e contra o próprio corpo para manter os mínimos resquícios de sanidade e até mesmo de dignidade.

Quando pensada de forma isolada, sobretudo diante das consequências exibidas pelo filme, a decisão tomada por María para tentar resolver o problema de uma forma menos sofrida beira a monstruosidade. Contando com a falta de memória recente do pai, ela o abandona requisitando o resgate de um albergue público – nada que o trailer não revele.

É evidente que entre todas as saídas que a protagonista poderia escolher, o diretor opta por colocá-la em uma condição criticável. Mesmo que sua fragilidade seja construída durante o filme, é inevitável nos colocarmos na mesma situação para depositarmos toda nossa empatia no velho Agustín.

Apesar disso, María não se mostra fria ou vingativa por uma vida de privações por parte do pai. Ainda que nada a livre totalmente do peso de uma decisão controversa e cruel, cabe a reflexão quanto aos limites psicológicos de cada indivíduo, levado a extremos tanto no campo afetivo quanto no aspecto econômico.

Independente de qual seja sua conduta, María é vítima de um sistema cruel, que a coloca entre a cruz e a espada, fazendo com que a opção por continuar mantendo o pai prive seus filhos de cuidados e atenção; enquanto tentar interná-lo, à revelia do idoso, provoque o próprio julgamento moral que irá acompanhá-la por toda a vida.


terça-feira, 13 de junho de 2017

Tanta água

Para o pai que não mora com os filhos, utilizar as férias para um passeio em uma estância termal parece uma ótima opção. Assim Alberto (Néstor Guzzini) parte com o casal de pré-adolescentes em busca de um estreitamento na relação com as crianças.

O imprevisto já aconteceu com boa parte das famílias que esperaram ansiosamente por uma viagem inesquecível nas férias: dias de chuva torrencial. A metáfora na história das diretoras Ana Guevara e Leticia Jorge se refere à limpeza, algo que mudará na vida dos personagens como um rito de passagem com a purificação da água.

A irritação típica e inevitável é o que rende as primeiras cenas de comédia. Não há ‘plano b’ que alivie o tédio de quem esperava por dias de diversão à beira da piscina e encara um quarto fechado, sem muitas opções de distração e sem uma mísera televisão para ajudar a passar o tempo.

Sendo o adulto responsável Alberto, poderia ter mais maturidade para lidar com a situação adversa, porém ele também é o principal encarregado de uma viagem bem sucedida. Não bastasse a frustração evidente pelo tempo chuvoso, Alberto percebe que os filhos já não são crianças que se entretém com qualquer coisa. O senso crítico parece deixar a situação incontornável.

Frederico (Joaquín Castiglioni), o filho mais novo, prefere fazer novos amigos e andar de bicicleta pela colônia de férias do que fazer visitas guiadas pelas usinas e fábricas da região. Ele não menospreza o esforço do pai, nem nega sua atenção. É somente um interesse na diversão imediata ao invés de um passeio em família que, apesar de repleto de boas intenções, não poderia ser mais divertido que brincar com outros de sua idade.

Já a filha mais velha, Lucía (Malú Chouza), começa a entrar na adolescência e qualquer que seja a situação já tenderia a se afastar do cuidado paterno. Aquele aparente tédio constante que ronda os adolescentes é compreensivelmente agravado pela chuva e pelas condições de uma viagem não muito atrativa.

Não temos muitas informações sobre a vida dos três personagens antes da viagem, mas sendo as férias uma oportunidade de aproximação, as descobertas podem ser frustrantes para todos os lados.

É muito natural que Alberto fique frustrado ao ver sua paternidade muito mais dispensável do que ele esperava, ficando irritado ao perceber que não conseguirá ser o provedor de felicidade que tanto gostaria de ser aos filhos. Não se trata apenas da viagem de férias. Alberto vive o momento em que se dá conta de que os filhos ensaiam os primeiros passos de independência.

A apreensão do pai também é justificável. Não basta se acostumar com a ideia de ver os filhos independentes, mas de medir as responsabilidades paternas em uma fase delicada, sobretudo quando Lucía já não quer andar de bicicleta com outras crianças, mas sair sozinha com pessoas desconhecidas.

Alberto não quer adotar o perfil linha dura, talvez influenciado pelo fato de passar pouco tempo com os filhos e não querer cultivar uma imagem negativa nas oportunidades que tem junto a eles, ao mesmo tempo, aos pais nunca é fácil equilibrar a liberdade concedida e o receio por conta da inexperiência dos filhos.

Diante do novo, cada um a seu modo, os filhos irão se machucar. É inevitável e necessário que isso aconteça. O desafio de Alberto, como de qualquer pai, é saber quando intervir para reduzir os danos. Não é tarefa fácil e cabe lembrar que a dificuldade também é grande para os filhos.

Assistimos ao filme com o olhar de quem já passou pela adolescência e consegue ver os problemas com a devida distância, porém Lucía começa a entrar em uma fase da vida em que ser rejeitada em um círculo social é uma situação inadmissível. Sem ter abandonado completamente a infância e ainda longe de uma maturidade para lidar com situações cotidianas, ainda que desagradáveis, o apoio do pai pode ser benéfico.

Entre erros e acertos Alberto tem o mérito de enfrentar suas inseguranças como pai e arriscar na tentativa de preparar os filhos para o mundo. Sua dedicação e boa vontade têm efeito em um círculo restrito e não existe controle total quando os filhos saem de casa. É um momento delicado em que os papéis, dele e dos filhos, ainda não estão bem definidos. Se os erros são inevitáveis, fica interessante abordá-los em tom de comédia.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

A culpa do cordeiro (La culpa del cordero)

Depois de 35 anos de casados, Jorge (Ricardo Couto) e Elena (Susana Groisman) convidam os filhos para um almoço de domingo. Uma bela peça de cordeiro é temperada com antecedência, todos os detalhes são organizados e em um belo dia ensolarado todos os convidados – quase intimados – chegam para a reunião em família, que prometia uma grande revelação por parte dos pais.

Dois filhos e duas filhas harmonizavam até as nuances genéticas de uma família equilibrada, feliz e perfeita. Por um convívio mais intenso Elena faz questão de recolher todos os celulares e acompanha de perto aqueles que se afastam por muito tempo.

O rigor dos pais parece extremamente compreensível. Recém aposentado, Jorge tem todo o direito de ditar as regras de seu churrasco e Elena parece fazer jus à ideia de que para a mãe os filhos serão sempre crianças. Mas é quebrando esse estereótipo de família perfeita que o diretor Gabriel Drak constrói sua comédia com fatos cotidianos, estereotipados, mas bastante plausíveis.

É claro que aquela família estilo comercial de margarina não existe na vida real. Porém pequenos entraves, naturais e inevitáveis, não desconstruiriam os planos do casal de ter uma aposentadoria tranquila e ver a vida dos filhos bem encaminhada.

Apesar disso, aos poucos, vemos que a aposentadoria tranquila está ameaçada por vidas não tão bem encaminhadas. Aparentemente o excesso de zelo materno formou adultos individualistas, desde que não seja rompido o apoio, sobretudo financeiro, dos pais.

Ao longo do filme o conflito de interesses passa a ser mais forte do que qualquer laço familiar e quando o caos se mostra irreversível só resta a cada um tentar minimizar as perdas. É muito cômodo, em uma situação onde todos têm comportamentos criticáveis, agirmos individualmente. Nos afastamos um pouco do problema e com uma visão minimamente privilegiada fica fácil apontar os defeitos.

O que vai ficando cada vez mais claro é que a aparência de uma vida perfeita sempre foi mais valorizada que a conduta moral da família. Em nenhum momento os filhos, já adultos, se portam como responsáveis pelos seus atos. A preocupação é sempre de esconder determinadas ações, para fugir da bronca dos pais.

Curioso que mesmo sendo quatro irmãos com idades próximas, a cumplicidade esperada entre irmãos se manifesta, mas também o egoísmo de quem está habituado a encarar o mundo como um privilegiado. É uma atitude condizente com o comportamento de Elena.

Não que Jorge esteja isento de críticas e possa ser visto como uma vítima, afinal são 35 anos de casamento, ao longo dos quais a vida do casal poderia ter tido mais empatia, mas a matriarca se refere à família sempre no coletivo, inclui o marido e os filhos em sua imagem de vida ideal, sem nunca questionar se esses valores são realmente compartilhados ou desejados por todos.

A relação de falsa independência, que quer expor os próprios ideais, porém sustentados por outra pessoa, é evidente em Elena. Idealizar o futuro dos seus sonhos e envolver várias pessoas para que sua realização particular seja completa é tão natural para a personagem, que ela sequer percebe que eventualmente as pessoas podem ter outros planos, sem sentir segurança para frustrar as suas expectativas.

Talvez pouco pudesse ser feito para que o domingo de farsa não descambasse para a tragédia. Os nervos foram levados ao limite, naquele ponto em que extravasar é indispensável e o caminho não tem mais volta. Entretanto é possível pensar que se Jorge tivesse sido um pouco mais incisivo em suas insatisfações ao longo do casamento e se Elena não sacrificasse a realidade em prol de suas idealizações de vida perfeita, uma dialética poderia ter sido construída de forma mais sólida.

Em tantos anos de casamento é inevitável que apareçam frustrações dos dois lados. Ao longo da vida costumamos desenvolver maturidade para adaptar as expectativas à realidade. Nosso ideal de vida nunca será alcançado, pois é um mundo onírico e perfeito que nunca será plenamente materializado.

Admitir que nossas expectativas devem ser moldadas à realidade – o que não significa abrir mão completamente do que queremos – é uma forma de respeito com as pessoas com quem interagimos e que também têm suas expectativas alteradas de acordo com nossas ações. Negar as próprias responsabilidades costuma ser cômodo, mas não adianta por a culpa no cordeiro do almoço, que reuniu a família.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sr. Kaplan (Mr. Kaplan)

O diretor uruguaio Alvaro Brechner utiliza o humor com muita competência para, através do protagonista Jacobo Kaplan (Héctor Noguera), apresentar algumas reflexões pertinentes sobre a forma de encarar a vida em uma idade mais avançada.

Existem inúmeras maneiras de olhar para a própria vida. Alguns vivem presos a um passado, outros vivem sonhando com um futuro perfeito, muitos prezam pelo presente, mas o fato é que sempre planejamos muitas coisas e vamos adaptando as expectativas de acordo com os imprevistos do destino.

Se na juventude temos a impressão de um tempo infindável pela frente, pensando assim em carreira, família, viagens, bens materiais, etc., Jacobo se aproxima dos oitenta anos, tem um casamento de meio século, filhos, netos, aposentadoria e várias outras realizações.

Na ausência da imensa perspectiva da juventude, Jacobo começa a buscar figuras longevas conhecidas ao longo da história para servirem de referência, mas não é somente a preocupação com o tempo de vida ou novos planos que o preocupam.

Uma característica extremamente comum na velhice, e muitas vezes negligenciada pelas pessoas próximas, é a dificuldade de lidar com as limitações do corpo. Aquela pessoa que sempre trabalhou e foi extremamente ativa começa a sentir o peso dos anos e a ter dificuldades para fazer coisas simples. Por mais que as mudanças sejam graduais, ninguém que se habituou a ser independente gosta de passar a precisar de ajuda para tarefas cotidianas.

Perder a capacidade de dirigir não é um incômodo pelo fato isolado, mas é visto como uma deficiência que se soma às outras. Em uma sociedade em que a velhice é vista como uma coisa ruim, como se fosse algo possível de ser evitado, Jacobo não vê valor nas coisas que tem, tão pouco exalta suas experiências de vida que o permitem refletir sobre as pessoas que o cercam.

A necessidade de realizar algo grandioso, que prove ao mundo e a ele próprio que sua vida não está em uma ladeira sem freio, associada a uma série de fatos que parecem se encaixar muito bem, Jacobo acredita ter encontrado um soldado nazista, que a exemplo de Eichmann fugira para a América do Sul para se livrar do julgamento no pós-guerra.

Olhando a história de longe, sobretudo em uma comédia recheada de cenas satíricas, é possível concluir que o plano do velho judeu de capturar um ex-soldado da SS para que este cumpra pena pelos crimes que cometeu seja uma insanidade; sobretudo em uma região que conta com muitos imigrantes germânicos e que costuma dar apelidos às pessoas com base em estereótipos, o fato de haver um alemão apelidado de “nazista” não significa que ele realmente tenha sido combatente da segunda guerra.

Por outro lado, muitas vezes ao longo da vida nos apegamos a certezas que com o passar dos anos são desconstruídas e, ainda que publicamente possamos tentar esconder, acabamos admitindo em nosso íntimo o quanto fomos inocentes – para dizer o mínimo – diante de determinada situação.

Para Jacobo tudo convergia para a situação perfeita. Era sua chance de realizar um fato grandioso, marcar seu nome na história, provar que ainda era uma pessoa ativa e dar um sentido para a vida que ele acreditava estar vazia.

Um caso isolado pode ser ótimo roteiro de comédia, sobretudo quando o protagonista tem ajuda do ex-policial Wilson Contreras (Néstor Guzzini) para sua investigação. Ambos oferecem cenas muito divertidas em meio à trama, suavizando a expectativa pelo desfecho em relação ao suposto nazista. À parte do entretenimento, cabe pensarmos na vida de Jacobo de uma forma mais ampla.

Será mesmo necessário provar algo ao mundo quando se tem uma vida toda nos ombros? O protagonista introjeta os valores de uma sociedade que coloca a velhice como uma coisa ruim, dada as limitações físicas que, em maior ou menor grau, são inevitáveis. Essa introjeção é compreensível, porém questionável não somente no filme, mas em todos os idosos.

Em certa medida pagamos na velhice a conta dos abusos ao longo da vida. Não há elementos sobre a juventude do personagem, mas pensando de forma geral, salvo exceções, quanto mais imprudentes somos quando jovens, maiores serão as consequências físicas, porém não devemos negligenciar os ganhos intelectuais que acumulamos ao longo da vida e chegam ao ápice justamente na velhice.

Se a atuação da passagem do tempo em nossos corpos é inevitável, não nos resta outro caminho além de aceitar a depreciação física, cuidando ao longo da vida para que os efeitos sejam ao menos atenuados. 


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mau dia para pescar (Mal día para pescar)

A prática de pequenos estelionatos na sociedade é antiga. Utilizar pequenos truques e aproveitar da ingenuidade de algumas pessoas para ludibria-las é tão frequente que a arte incorporou essa situação de diversas formas, desde os antigos vaudevilles – uma espécie de circo que apresentava números de mágica e atrações bizarras – até o cinema, que explora o potencial cômico e também dramático dessas situações.

Dessa vez foi o diretor uruguaio Alvaro Brechner que trouxe às telas uma história curiosa, na qual um estelionatário que se apresenta como Príncipe Orsini (Gary Piquer) lucra com o oferecimento de entretenimento barato, sobretudo com o suposto homem mais forte do mundo, Jacob Van Oppen (Jouko Ahola).

Jacob não é um golpista. Na verdade ele é tão inocente quanto as vítimas de Orsini, mas seu personagem tem um papel curioso, que nos instiga a pensar na sua condição de vida. Com a idade já avançada para um lutador profissional e com físico debilitado por uma vida desregrada, Jacob se mantem muito mais pela ilusão do que pela real capacidade.

Com o personagem montado para passar a imagem de muito músculo e pouco cérebro, é difícil saber o quanto ele enfrenta, de fato, dificuldades pessoais diante da passagem do tempo. A dupla se apresenta em uma pequena cidade, que não tem outras formas de entreter sua população, assim muitos acabam pagando para ver uma preparação física que mais parece brincadeira de criança. Pelo que podemos notar, tanto espectadores quanto a atração são realmente convencidos de que tudo aquilo é real.

As lutas combinadas e encenadas de forma caricata já fizeram muito sucesso. O telecatch era transmitido pela tevê com grande audiência. A diferença é que todos sabiam que se tratava de uma encenação e isso não ofuscava o brilho das apresentações grandiosas e maniqueísta dos lutadores divididos entre bons e maus. Já Orsini vendia a luta como real, pagava o adversário para que fosse nocauteado por Jacob e, além de ganhar o dinheiro que cobrava pela entrada da luta vendida como real, ainda coordenava apostas, mesmo com o resultado comprado.

Também permeia o filme o tema da competição esportiva, que teoricamente implica na imprevisibilidade de resultados. A premissa de um esporte é a de que vença o melhor, porém as intervenções externas não se restringem a um golpista desconhecido que atua em pequenas cidades. Essa mesma falta de ética é frequentemente encontrada em competições profissionais acompanhada pelo mundo inteiro.

Quando o esporte passa a ser visto como uma grande fonte de dinheiro em potencial não demora para que alguém tente aplicar às competições os preceitos do capital, ou seja, ampliar os lucros minimizando as perdas. O problema é que sem interferências externas o esporte não seria tão lucrativo. Ou se aposta no favorito, com baixa rentabilidade, ou se aposta em um azarão, com pequena possibilidade de vitória.

No filme a trapaça é ameaçada quando Adriana (Antonella Costa) consegue fazer com que seu namorado seja o próximo adversário de Jacob, sem aceitar a propina nem mesmo com a ameaça de derrota, pois precisavam muito do dinheiro e viam na figura decadente do lutador uma possibilidade real de vitória.

Dois pilares importantes que sustentam a situação do filme permeiam toda a história, um deles é a dificuldade financeira que faz com que Adriana e seu namorado levem o desafio adiante, mesmo ele não sendo um profissional. Não é o mesmo caso de Orsini, que tira seu sustento dos golpes periódicos, pois o casal trabalha, mas tem uma fonte de renda que não é suficiente para cobrir as despesas e garantir a realização de seus planos.

Outro pilar, bastante comum, é a falta de entretenimento na cidade. Não é apenas no Uruguai, por aqui os pequenos municípios costumam ser extremamente carentes de opções culturais, abrindo espaço para oportunistas que enxergam uma oportunidade para ganhar dinheiro fácil.

Isso não é uma determinação. É claro que golpes que visam tirar dinheiro da população acontecem em grandes cidades, que concentram inúmeras opções culturais, porém a junção de poucas opções de entretenimento com baixa renda abre espaço para muitos oportunistas, como Orsini, por exemplo.

A tendência ao ver uma história como a do filme é a de pensar que Orsini deve ser punido de alguma forma. Talvez, mas é bem conveniente pensar em oferecer uma vida cultural interessante para a cidade e uma renda digna aos seus moradores.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Whisky

A partir de uma pequena fábrica de meias em Montevidéu os diretores Pablo Stoll Ward e Juan Pablo Rebella desenvolvem um enredo baseado em relações de poder e aparências, sempre com fortes bases econômicas e situações inusitadas formando uma comédia discreta, que nos faz rir sem apelações, somente escancarando situações plausíveis e cômicas por si só.

A fábrica em questão é do judeu Jacobo (Andres Pazos), quase uma versão contemporânea de Tempos Modernos, ou seja, com máquinas mais compactas e produtivas do que as retratadas no longa de Charles Chaplin, mas que ainda demandam um pouco de mão-de-obra, que no caso é restrita à somente três funcionárias.

Com uma rotina extremamente repetitiva, as costureiras são praticamente uma engrenagem a mais das máquinas. Chegam sempre no mesmo horário, executam a mesma tarefa, produzem as mesmas meias. Tudo extremamente mecânico e repetitivo. Mesmo Marta (Mirella Pascual), a secretária de Jacobo, com muito mais proximidade do chefe, seguia uma rotina bastante restrita, chegando antes da fábrica ser aberta e se esforçando para fazer sempre mais do que suas tarefas.

Esta rotina que nunca forneceria elementos para um roteiro de filme é alterada quando Herman (Jorge Bolani), irmão de Jacobo, vem do Brasil para uma cerimônia judaica. Também dono de uma fábrica de meias, o irmão que deixou o país tem uma coisa a ser invejada por Jacobo; uma família. É bem provável que o protagonista não dê um valor pessoal para isso, mas uma forte pressão social faz com que ele queira que o irmão acredite que ele é casado. A forma mais rápida encontrada para resolver o impasse é propor para Marta que finja ser sua esposa, casados há um ano. 

Chama a atenção o fato do filme ter poucos diálogos. Sem dúvida o principal responsável por isso é Jacobo. Extremamente introvertido e quieto, sendo que até o rádio das funcionárias ele prefere que permaneça desligado, o personagem também não abre muito espaço para diálogo, sendo econômico em suas afirmações e mais ainda em suas respostas.

Dessa forma boa parte das ações e reações são justificadas pela suposição de quem assiste. Difícil saber se Marta realmente queria encenar o papel de esposa ou se foi coagida de forma implícita pelo patrão, ao qual acatava todas as ordens dentro da fábrica. Da mesma forma que é possível ter estendido essa autoridade para a vida pessoal, também é compreensível que a funcionária solitária e restrita às atividades repetitivas do dia-a-dia, tenha aceitado a proposta já considerando certa amizade com o misterioso patrão.

Independente do que tenha motivado Marta, a relação de dependência econômica segue latente. Ela continua exercendo o papel de secretária que deve antecipar problemas e solucioná-los, enquanto ele somente dá a palavra final. Sem uma competência própria, o único fator que o torna superior é seu próprio dinheiro.

Quando pensamos no casamento tradicional de uma sociedade machista, onde o homem dá ordens simplesmente por ser homem, vemos que essa relação de dominação costuma se estender com muita facilidade para o ambiente corporativo, onde a esposa que cuida de todos os detalhes do lar para agradar o marido é substituída pela secretária, subserviente pelo poder econômico.

O que assemelha as relações retratadas é o machismo histórico, que fica mais evidente com Jacobo tendo vivido com a mãe até a morte dela, há somente um ano. Tendo passado a vida toda sob os cuidados maternos e, ao que parece, cultivando uma longa relação empregatícia com Marta, a única esfera que lhe faltava era realmente a matrimonial.

A família de Herman não é mostrada, mas com esposa e filha, tendo saído da casa da mãe há muito tempo, é claro o desconforto que sua presença provoca no irmão. Até mesmo a personalidade mais despojada e altiva parece incomodar Jacobo, que faz de tudo para mostrar que seu sucesso pessoal é equiparado ao do irmão. 

Seria absurdo apontarmos o protagonista como vítima do machismo, afinal, como já indicado, ele passou a vida toda sob os cuidados da mãe e da secretária, porém vale a pena indicar o quanto a necessidade de exercer um papel social absurdo também traz incômodos. Na ânsia de se apresentar como um homem de sucesso, que na lógica machista deve incluir uma esposa, o desconforto é claro. Parece que esboçar uma felicidade, como o filme indica, só mesmo com whisky. 


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Além da Estrada

O longa do diretor Charly Braun (não é nome artístico!) conta com roteiro simples, mas não simplista, e encanta com a beleza das paisagens uruguaias, além da simpatia de muitos personagens que aparecem ao longo da viagem que forma o road-movie. O encontro causal do argentino Santiago (Esteban Feune de Colombi) com a belga Juliette (Jill Mulleady) proporciona uma viagem envolvente, tanto pela estrada com percalços quanto pelo que há além da estrada, metafórica para o curso da vida dos personagens.

Em meio à ficção há depoimentos de moradores locais cuja espontaneidade dificilmente poderia ser encenada, e é mérito do diretor ter inserido esses trechos de forma muito natural na trama, misturando ficção e realidade sem cortes repentinos. Outra ferramenta que contribui para dar naturalidade à história é o enredo abstrato e incerto, assim como o futuro de quem põe o pé na estrada, sem saber muito bem o que virá pela frente.

A meta de Santiago é bastante clara, pois quer conhecer um terreno deixado pelos pais, falecidos, em Rocha. Já Juliette vem da Europa para tentar encontrar um antigo amor, com a esperança de uma vida melhor. A partir daí a estrada – da viagem e da vida – pode até ser bem traçada e planejada, mas conta com inúmeros e inevitáveis cruzamentos, a partir dos quais não se sabe muito bem o que pode acontecer. O que resta é encarar os imprevistos e tirar proveito deles da melhor forma possível.

A história do filme se desenrola à medida que os dois personagens principais se deparam com a necessidade de se desviar do que haviam planejado. É evidente que no cinema vemos personagens agindo sob direção e tomando atitudes que remetem a um roteiro, porém a forma com que o diretor apresenta o filme aproxima muito a ficção e a vida real. Desta forma o que faz os desvios de percurso serem bons ou ruins depende em grande parte da forma com que são encarados e trabalhados. Assim como na vida de qualquer um, pesa nas decisões dos personagens os conselhos de pessoas mais velhas, que tem a vantagem de poder contar com a maturidade, pois se é, felizmente, inevitável sermos surpreendidos por imprevistos, a maturidade nos ajuda a ter discernimento e nos afastar um pouco das piores escolhas – sempre tão atrativas quando queremos agradar.

Como o vínculo do casal de amigos é construído desde o início do filme, com o contato entre os dois sempre aumentando, algumas cenas em que eles estão separados podem soar um pouco estranhas e soltas. O interessante é que as cenas de estranhamento condizem com a denúncia de que o local pacato, hospitaleiro e extremamente atraente aos visitantes já é alvo da especulação imobiliária, com a elevação dos preços dos terrenos e cujo desdobramento, ainda que o filme não fale, é a inevitável descaracterização local. Tão estranho quanto o afastamento do casal, quando o afeto entre os dois é substituído por atitudes muito mais egoístas, é a ideia de descaracterização do vilarejo.

Sem uma grande trama, quase fundamental em filmes mais comerciais, o que nos prende aqui é a expectativa sobre o que haverá para além da estrada de cada personagem e como cada um vai lidar com os imprevistos que os lançam um contra o outro. A expectativa estimulada pelo filme é de que os dois fiquem juntos, pois a cumplicidade e ternura entre os dois, somadas às cenas gravadas com uma super-8, dão a impressão de um relicário de bons momentos. A dúvida é se ambos aproveitarão as boas chances que o acaso lhes proporciona, e essa dúvida nos vem por ser tão comum desperdiçarmos os acasos na vida real.

Lamentar que histórias como a de Santiago e Juliette só acontecem nos cinemas é frequente. De fato não é todo dia que temos a chance de viajar por lindas paisagens no interior do Uruguai, encontrar pessoas agradáveis e desfrutar bons momentos. Porém o filme não traz nada de extremamente cinematográfico, exibindo apenas um recorte do momento em que as estradas dos dois personagens se cruzam. Assim como torcemos para que eles deem uma chance um ao outro, também podemos olhar para além da estrada que seguimos. Por vezes, os atalhos e desvios podem oferecer grandes surpresas.


terça-feira, 15 de junho de 2010

O banheiro do Papa (El baño del Papa)

A parceria entre Brasil, França e Uruguai nos trouxe essa obra dirigida por Enrique Fernandez e Cesar Charlone, que mostram a fictícia visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, no Uruguai. O evento mexe com o cotidiano pacato dos pobre habitantes locais que costumam ter hábitos simples e uma rotina pouco chamativa.

A fonte de renda mais comum é a dos bagageiros que viajam até Aceguá, no Brasil, para contrabandear mercadorias para consumo local. A grande maioria deles fazem a longa viagem de bicicleta, sendo que poucos afortunados podem contar com uma motocicleta para, além de facilitar o trabalho, aumentar a renda devido a maior rapidez do serviço. A grande dificuldade dos bagageiros está na barreira montada na estrada pelo exército, para controlar o fluxo de mercadorias, obrigando um desvio no trajeto que já não é curto. Quando parados pelos militares, podemos ver os bagageiros humilhados pelos soldados, menosprezando seus serviços, vangloriando o exército e mostrando o legalismo exacerbado ao deixar claro que poderiam passar sem problemas pelas trilhas, mas não pela estrada, onde o exército é solicitado para fazer vigia. O problema pelas trilhas é o que seria o “rapa” local, que também confisca mercadorias.

Quando a visita do Papa se aproxima, os habitantes com forte tradição religiosa não ficam felizes pela oportunidade de serem abençoados pelo pontífice, mas pelos turistas brasileiros que o evento traria. A maioria dos habitantes sacrificaram todas as economias, muitos venderam seus bens para comprar comida e improvisar barracas para a venda de sanduíches, tortas e diversas outras iguarias para os supostos milhares de turistas. É interessante pensarmos que a religião está fortemente ligada aos centros comerciais, desde a Idade Media que unificava os cruzamentos de rotas comerciais com centros religiosos, dando origem à muitas cidades importantes, até os dias atuais, com cidades como Aparecida do Norte, onde uma espécie de indústria religiosa é formada ao redor do templo que atrai tantos fieis.

Em Melo a família que guia a história tem como patriarca o bagageiro Beto (Cesar Troncoso), que com sua simpatia inigualável chega a lembrar Ramón Valdez, o eterno Seu Madruga. Beto não chega a se empolgar com a ideia de vender comida aos turistas, mas em meio às dificuldades econômicas pensa em ganhar dinheiro com a visita do Papa construindo um banheiro. A ideia inusitada ganha legitimidade no contexto de uma cidade extremamente pobre e simples, retratada pelos cineastas com cores bastante pálidas ao longo do filme, o próprio banheiro da casa de Beto é uma precária casinha de madeira fora da casa.

Carmen (Virginia Mendez) é a esposa de Beto, contrária à ideia de ganhar dinheiro com o evento religioso. Seus princípios éticos indicam que isso seria passível de alguma punição divina e isso ressalta a supremacia do capital frente à espiritualidade, pois toda religiosidade latente da população fica em segundo plano diante da possibilidade de uma vida melhor. A vizinha de Carmen indica que castigo maior que o de Deus são os políticos que governam a cidade. A crítica não é em relação à atitude dos habitantes, mas um alerta em relação à maior necessidade de condições de vida digna do que instituições ligadas à espiritualidade.

Beto vê sua filha Silvia (Virginia Ruiz) sonhando ir para Montevidéu para concluir os estudos e ser jornalista, ele ainda vislumbra uma motocicleta para facilitar as longas viagens e dar descanso ao joelho prejudicado após tantas pedaladas e como qualquer pai de família, gostaria de dar uma vida mais confortável aos que dele dependem. É através de um banheiro para alugar aos turistas que ele tentará realizar seus sonhos, mas ainda é necessário comprar material e construir um sanitário em seu terreno, e isso não é nada fácil, já que a esposa não é favorável a utilizar as poucas economias que seriam destinadas aos estudos de Silvia. Até onde Beto estaria disposto a chegar para conseguir o dinheiro para a construção é o que vemos no longa e a pergunta que fica é até que ponto podemos censurar qualquer atitude do uruguaio, que como tantos outros da cidade entregaram suas vidas na tentativa de ascensão através da curta visita do Papa.

Os moradores que investiram no comércio para aquele dia teriam elementos para identificar um suposto exagero nas expectativas em relação à visita, ou foram fortemente estimulados pela mídia que sempre se esforça em construir a grandiosidade, mesmo que em eventos modestos? É possível indicar uma leve semelhança com Tropa de Elite, pois em ambos fica implícito que uma visita do Papa é indicada sempre como perfeita, repleta de paz, felicidade e espiritualidade. Mas os bastidores nunca são mostrados. Evidentemente que a comparação entre os filmes para por aqui.

Como já é indicado no início do filme, só o azar impediu que os fatos relatados na obra acontecessem de verdade, pois os elementos de fato são plausíveis. A fé em segundo plano diante das necessidades materiais, a ética posta de lado diante de uma condição extrema, a limitação – para não dizer inutilidade – de uma visita papal para uma população carente diante de suas reais dificuldades, todos os elementos que podem ser identificados em qualquer visita real.

Um filme simples, com momentos engraçados e que consegue unir diversos pontos criticáveis de uma sociedade que demanda tantos direitos e atenção.


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