terça-feira, 12 de abril de 2011

Amor?

"O mais importante não é o amor. O mais importante é a gentileza."
(Dostoiévski)


Em seu novo trabalho o diretor João Jardim trabalha com um sentimento extremamente complexo, multifacetado e marcante na vida de qualquer um. A interrogação do título já sugere, antes mesmo de vermos o filme, a dúvida: seja lá o que for abordado, é realmente amor?

A montagem do longa é pouco convencional, pois não foi elaborado um roteiro. Após realizar várias entrevistas com pessoas que falaram abertamente sobre seus relacionamentos conflituosos o conteúdo foi encenado por atores bastante conhecidos. Isso ajudou a manter os entrevistados no anonimato, estimulando o detalhamento das histórias sem receios em relação às consequências, e também torna o filme mais impessoal, pois um desconhecido daria a impressão de um caso isolado, já a forma que é apresentada, com atores, aumenta a identificação das pessoas com o conteúdo do filme.

É claro que histórias tão complexas e ricas em detalhes são muito particulares, mas é impossível assistir ao filme sem encontrar alguns pontos em comum com nossas próprias vidas em meio às histórias apresentadas. Esse mosaico de sentimentos que montamos a cada entrevista exibida mostra como as desavenças, que aparecem quando nos relacionamos com alguém, costumam ser muito comuns e ainda que o sentimento seja particular, suas expressões têm uma base possível de ser encontrada entre pessoas muito distintas entre si.

O que o filme deixa bem evidente é a forma que todos os entrevistados encontraram para lidar com os atritos, sempre através da violência física e psicológica. Assim, qualquer um que já tenha vivido os sentimentos descritos pelos personagens pode se identificar, mas hesita em procurar mais pontos em comum em virtude da violência, entretanto podemos concluir que as agressões descritas mostram apenas um caminho – bastante criticável – para solucionar conflitos bastante comuns como ciúme, insegurança, etc.

Algumas vezes é tentador responder à pergunta do título do filme apenas com um “não”. Negar que aqueles relacionamentos cercados de ameaças e agressões possam ser classificados como amor. Porém os seres humanos são bem mais complexos do que uma simples definição e, por mais estranho que possa parecer aos que estão distantes das situações descritas no filme, uma agressão pode até mesmo ser interpretada como forma de atenção, pois se uma pessoa está agredindo é porque, supostamente, se importa com a agredida.

Talvez para contornar o absurdo da agressão e não admitir que um relacionamento seja inviável nessas condições, um sentimento recorrente nas entrevistas é o de culpa. Ninguém assume toda a responsabilidade pela violência, pois é mais confortável justificar tal ato através das provocações sofridas. Da mesma forma nenhuma pessoa agredida deixa de assumir uma parcela de culpa por apanhar. O fato é que independente da provocação ou do conflito existente, nada justifica o abandono do diálogo, da razão, em prol da barbárie de uma agressão.

Em meio a tantos estereótipos que são criados em torno de um relacionamento geralmente nos vemos na imposição de uma vida a dois, pouco importando a qualidade dessa união ou até mesmo a anulação mútua que ela gera, pois é frequente nas entrevistas apresentadas no longa o relato de casos em que o casal praticamente interrompe a vida, que passa a ser voltada exclusivamente para um relacionamento quase doentio.

Existe uma infinidade de motivos pelos quais as pessoas podem se sujeitar a uma relação na qual toleram a violência, mas não é por acaso que agressores e agredidos lançam um olhar de arrependimento sobre o tema. Apesar de ser uma coletânea de entrevistas, o diretor João Jardim tem o mérito de escolher histórias muito bem articuladas, que muitas vezes dialogam entre si, além de dirigir muito bem os atores para que os depoimentos ganhem tom de naturalidade, ao invés de um texto ensaiado. O diretor mostra, de forma cada vez mais eficiente, as particularidades por trás dos estereótipos e busca no fundo de cada um o suficiente para estimular quem assiste a pensar de uma forma diferente sobre o tema abordado, sempre com muita arte.

Um comentário:

Cris Corso disse...

oiii mto bom o blog... vou add na minha lista d blogs.. depois da uma olhada nos meus tenho 2.. e um é sobre cinema o Cinideia..

bjos
Cris

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