quinta-feira, 19 de julho de 2012

Linha de passe

Esta parceria dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas nos traz o cotidiano de uma família do subúrbio de uma grande cidade, focando estereótipos bastante reais para apresentar um estilo de vida muito comum, repleto de dificuldades e inundado de sonhos.

A matriarca Cleuza (Sandra Corveloni) cria seus quatro filhos sozinha, grávida mais uma vez e se esforçando para trabalhar como doméstica até o limite que sua gravidez impuser. Sem carteira de trabalho assinada, ela não tem direitos trabalhistas e, mesmo com três filhos já adultos, depende de sua renda para sustentar a casa.

O meio social de um indivíduo não determina seu futuro, mas evidentemente influencia nas escolhas e decisões, ainda que inconscientemente. Cada um a sua maneira, os quatro filhos de Cleuza mostram como as dificuldades econômicas, a ausência da figura paterna e outras influências externas acabam contribuindo com detalhes, que quando somados resultam em uma perpetuação da condição de vida da família, na qual todos tentam driblar as dificuldades a seu modo.

Enquanto o quinto filho de Cleuza não nasce, o caçula é Reginaldo (Kaique de Jesus Santos). Ainda criança sua principal preocupação é distinta dos irmãos mais velhos. Reginaldo é obcecado por conhecer o pai. Ainda não superou esta falta e gosta de passar o dia em um ônibus circular por desconfiar que o motorista seja seu pai. Este resquício de origem familiar é suficiente para inspirar o menino a seguir os passos do pai e ele sonha em ser motorista. Há uma bonita cena em que o homem ensina o garoto, sem saber da relação de paternidade. A influência familiar na escolha da profissão é forte em todas as camadas sociais. Antes de pensar nas vantagens e desvantagens que uma carreira pode trazer, uma criança como Reinaldo se espelha no primeiro herói da criança, seu pai, para sonhar com o futuro.

Com o passar dos anos a tendência é que a realidade da ausência do pai ganhe espaço. Dario (Vinícius de Oliveira) já não busca o pai, mas mantém um futuro utópico ao tentar ser jogador de futebol. Sua grande categoria esbarra em dois empecilhos, a idade avançada para iniciar a carreira profissional – mesmo tendo apenas dezoito anos – e a falta de dinheiro, pois pagar ao olheiro facilitaria o caminho para a tão sonhada oportunidade. A ilusão criada pelo mundo milionário dos grandes clubes de futebol seduz muitos jovens como Dario, que podem inclusive abrir mão de possibilidades reais em prol do mundo de sonhos que se concretiza para tão poucos. Sua mãe, também com pouca instrução e muitos problemas e fanática por futebol, não chega a instruir o filho a seguir seus sonhos mantendo uma hipótese mais plausível em vista.

Denis (João Baldasserini) em um aspecto parece ter seguido os passos da mãe, pois já é pai e a pensão do filho é só mais uma das obrigações financeiras da qual o jovem não dá conta. Com pouca qualificação, o trabalho de motoboy toma boa parte de seu tempo. Quase sem referências familiares e com poucas relações sociais para procurar alternativas à sua realidade, o jovem é constantemente tentado a entrar para o mundo do crime. Uma saída perigosa, criticável e que deve ser evitada, mas as alternativas de Denis não são as mais atraentes.

Por fim, Dinho (José Geraldo Rodrigues) aparentemente tem uma vida mais estável e menos problemática, trabalhando como frentista e dedicando sua vida ao engodo de uma igreja evangélica, com as famigeradas técnicas de sedução de fiéis, imputando nestes a culpa por problemas cotidianos muitas vezes atribuídos à falta de fé. Se por um lado Dinho leva dinheiro para casa e tenta aconselhar os irmãos, por outro parece fadado a uma vida estagnada naquela condição, mais controlado pelo pastor da igreja do que responsável pelas próprias escolhas.

Linha de passe está longe dos filmes de ação hollywoodianos ou das comédias sem graça da Globo Filmes, porém próximo da realidade de uma parcela considerável da população. Se o filme parece lento, é por retratar a vida de personagens que vivem para trabalhar, sacrificando distrações para viver as preocupações de uma vida difícil.

Culpar cada um individualmente pela condição de vida que leva é uma ideia tão sedutora quanto falsa. A baixa qualificação, os sonhos quase impossíveis, as decisões equivocadas não devem ser atribuídas a outros fatores distintos do capital social que cada um carrega, criando um campo de possibilidades extremamente restrito, que só não impõe barreiras aos sonhos, que inspira cada personagem a seguir em frente. Em meio a tantas dificuldades, talvez haja momentos de prazer para colorir um pouco o trabalho da vida.


2 comentários:

Felipe Lários disse...

Muito legal seu blog, meu caro!

Reparei que existe um problema cronológico no filme. A história se inicia em maio e já estão falando do possível rebaixamento do Todo Poderoso clube do Parque São Jorge, entretanto, esta tragédia nem era cogitada nas primeiras rodadas do Brasileirão (que também se dão em maio. Fora isso, o filme é realmente é muito bom, retratando a realidade de uma infinidade de familias brasileiras, sem cair em exageros como alguns filmes do gênero acabam caindo (tiros, drogas, policia, tiros, tiros)

Alexandre Caetano disse...

Muito obrigado pelo comentário! Bom, eu nunca teria reparado nisso das rodadas do brasileirão, mas vai ver que fizeram isso pra ficar mais condizente, vai... hehehe

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