terça-feira, 9 de outubro de 2012

A fonte das mulheres (La source des femmes)


Uma pequena aldeia encravada no deserto, onde as mulheres são responsáveis por uma longa caminhada para carregar água até as casas. Esse é o plano de fundo para o filme do diretor Radu Mihaileanu. Com todos os diálogos na língua local e diversas referências socioculturais ao longo do filme, a obra torna-se pouco a pouco uma fonte muito rica de reflexões, não somente em relação à aldeia retratada, mas também ao papel do machismo na sociedade e à relação entre cultura ocidental e oriental.

Carregar a água é papel das mulheres, pois antigamente, durante um período de guerras, os homens se encarregavam de defender a aldeia de invasões. Com o fim das guerras a divisão do trabalho já estava estabelecida. As mulheres continuaram a carregar a água enquanto os homens passaram a observar o trabalho, já que não tinham mais que fazer guerra. A tradição passou a justificar o trabalho pesado relegado a elas. Contra a injustiça proporcionada pela divisão do trabalho, as mulheres da aldeia optam por uma greve de sexo, para forçarem os homens a solucionar o problema de uma forma ou de outra.

1) O machismo, da forma como é mostrado, fica evidente e patético. De fato é absurdo que mulheres, mesmo grávidas, tenham que andar longas distâncias em terrenos acidentados, para voltar com pesados baldes de água nas costas, enquanto os homens passam o dia em um ócio nada produtivo na aldeia. Tudo isso por uma tradição estabelecida em uma época em que os papéis sociais de homens e mulheres eram justificáveis (elas carregavam a água, eles guerreavam).

Hoje em dia, em geral, homens e mulheres das cidades ocidentais, essas em que vivemos, costumam passar o dia todo no trabalho. Chegando em casa no fim do dia é hora da mulher cuidar da casa, dos filhos, das refeições, enquanto o homem relaxa em frente à TV. Afinal, em outros tempos, a única tarefa da mulher era cuidar da casa, enquanto o homem trabalhava fora. Os tempos mudaram, mas mantemos a tradição para o conforto masculino, tal qual uma aldeia isolada do mundo. As tentativas de justificativas podem existir. São risíveis, aqui ou lá.

2) Transitando entre o cômico e o trágico, o filme mostra o poder de mobilização das mulheres, que tanto pode ser interpretado de forma literal, ou seja, mulheres lutando contra as injustiças do machismo, quanto metaforicamente, já que as mulheres podem simbolizar qualquer classe que resolva se unir contra determinada exploração.

A mobilização feminina da aldeia segue um roteiro histórico das mobilizações de greves. As lideranças, as hesitações, descrença inicial por parte daqueles que estão no poder, reações violentas, pressões, chantagens e uma infinidade de técnicas baixas por parte daqueles que querem a todo custo manter o conforto gerado por uma injustiça.

O esperado é que quem assista ao filme fique chocado com os maridos, que tentam acabar com a greve batendo nas esposas diante dos filhos. O ideal seria, além da associação do machismo da aldeia com o machismo na nossa própria sociedade, a ligação da causa da greve feminina com greves trabalhistas atuais, que também tentam quebrar com a hegemonia de uma classe, que se sustenta na zona de conforto baseada na exploração tradicional e sem fundamento da força de trabalho. O risco que corremos é o de agir como algumas mulheres da aldeia, ou seja, estar do lado oprimido, mas considerar que é melhor não lutar.

3) Outra reflexão que o filme instiga é em relação ao estereótipo do mundo árabe que o ocidente vem criando, desde o início deste século. De fato o fundamentalismo religioso é utilizado para subjugar as mulheres, o que é condenável, e uma série de outras atitudes dos homens da aldeia podem ser encaradas como um retrocesso na emancipação – feminina e consequentemente humana. Só não podemos cair na tentação de criar uma relação de causa e consequência entre a religião mulçumana e a forma de agir dos aldeãos.

Conforme já indicado, a estrutura machista que atua no meio do deserto ganha nova roupagem no ocidente, que aprendeu ao longo da história que é mais eficiente ceder pequenos benefícios para manter o cerne da exploração. Ao nos depararmos com problemas sociais gritantes no filme, somos surpreendidos ao pensarmos que os mesmos problemas estão presentes em nosso cotidiano, apenas disfarçados.

O fundamentalismo cristão que impõe sua força ao estado, através de uma bancada evangélica, o machismo que impera em nossa sociedade, a repressão violenta contra os explorados que tentam se rebelar. Para nossa vergonha, elementos criticáveis em uma aldeia perdida no meio do nada passam despercebidos diante de nós, apenas por uma maquiagem tão frágil.


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