terça-feira, 13 de novembro de 2012

Elefante Branco (Elefante Blanco)


A qualidade do cinema argentino poucas vezes é questionada. Cada vez mais os filmes de nossos vizinhos vêm se tornando referência pela qualidade, desde o roteiro até a conclusão da obra. O equívoco está no fato de muitos restringirem a diferença em relação ao cinema brasileiro à temática, alegando que supostamente nossos filmes só abordam a pobreza, utilizando as favelas como cenário, portanto já teriam cansado o público.

O tema geral característico de cada país está diretamente relacionado com a sociedade do mesmo, que não determina, mas influencia muito no trabalho de cineastas, escritores e qualquer outro tipo de artista do país. Este longa do diretor Pablo Trapero rompe com o paradigma da temática ao apresentar a Villa Virgen, uma favela na periferia de Buenos Aires, deixando claro que o que faz um filme ser bom ou ruim não é o seu tema, mas a forma como este é abordado e trabalhado.

Ao redor de um prédio que começou a ser construído em 1937 com o intuito de ser um grande hospital, e virou um “elefante branco” por seguir inacabado depois de falácias de governos populistas e ditadura militar, cresceu uma favela onde os moradores convivem com sérios problemas, desde o abastecimento de água até a violência do tráfico.

A descrição do local é comum a várias favelas brasileiras, porém chama a atenção com certa particularidade a semelhança com a favela do Moinho, no centro de São Paulo, que cresceu ao redor de um grande prédio abandonado (antigo moinho) e, em área nobre da cidade, misteriosamente foi devastada por dois incêndios em menos de um ano.

Nestas comunidades é frequente o trabalho de missionários, que tentam suprir a falta de investimento do estado organizando e prestando serviços aos moradores. No filme o principal líder deste trabalho é o padre Julián (Ricardo Darín), que para o trabalho hercúleo de tentar urbanizar os barracos com a mão de obra dos próprios moradores conta com a assistente social Luciana (Martina Gusman), além de tentar transferir aos poucos sua liderança para o padre Nicolás (Jérémie Renier).

Se em um texto anterior deste blog, sobre “O gato do rabino”, foi abordado o problema da imposição da fé religiosa para aqueles que não querem seguir tais doutrinas, vemos aqui uma situação quase oposta. O trabalho na favela não precisaria ser feito por alguém vinculado à religião, mas Julián utiliza o prestígio e respeito que sua condição de padre lhe dá para tentar mediar conflitos, que são inúmeros.

Ainda assim as ações positivas se dão muito mais no plano individual, pois Julián e o francês Nicolás estão dispostos a se sacrificarem para auxiliar aqueles que precisam, porém a igreja como instituição, simbolizada pelos superiores, se esforça para restringir o trabalho ao assistencialismo vazio, que de forma rasa rende boa fama para a igreja, mas limita os benefícios à comunidade local.

Os problemas de uma favela, assim como sua própria existência, são múltiplos. Um somatório de falta de investimento, segregações sociais e diversos fatores históricos que culminam em algo como Villa Virgen. Da mesma forma, a solução não é pontual nem será dada somente pela igreja, apesar disso o peso político dessa instituição, se pode ser utilizado para influenciar nas ações do estado, poderia também ser utilizado mais enfaticamente na tentativa de reduzir desigualdades sociais.

Se a igreja tem poder para barrar projetos contrários às suas doutrinas, poderia ao menos tentar evidenciar a falta de políticas públicas para serviços básicos como o abastecimento de água, pois se os moradores devem trabalhar duro pelo próprio saneamento, como venderão suas forças de trabalho, já esgotadas? Talvez possa parecer mais econômico ao estado negar o básico à determinada parcela da população, porém a quebra de direitos implica na possibilidade de contestação de deveres, por parte daqueles que têm seus direitos negados, dentre eles o dever de se submeter ao monopólio legítimo da violência.

Sem dúvida certos problemas, como os viciados em crack, são extremamente complexos. Quando mesmo aqueles que têm determinação em deixar a droga e condições para buscar tratamento nas melhores clínicas apresentam taxas de retorno à droga de mais de 80%, fica difícil acreditar que uma criança abandonada tenha chances de recuperação. Todavia a ideia ignorante, mas indicada no filme provavelmente por ser comum, de assassinar aqueles envolvidos com a droga não chega nem perto de solucionar o problema, afinal, não precisa ser especialista no assunto para prever que novos traficantes e usuários surgirão, caso não haja medidas preventivas.

Elefante Branco apresenta, de forma perturbadora e com muita qualidade, questões cotidianas para milhões de pessoas que vivem naquelas condições sociais e econômicas, que provavelmente não terão acesso ao filme. Entre os que poderão conferir a obra, vale a pena utilizar o potencial do cinema para conhecer realidades sem precisa vivê-las de perto. Neste caso é bastante útil para tentar desfazer certos preconceitos.


2 comentários:

Larissa Romão disse...

ótima crítica! adorei seu blog, as dicas são muito boas, interessantes. Estou usando como um guia para minha lista de filmes.

Alexandre disse...

Obrigado! Que bom que gostou do blog, espero que encontre mais filmes que goste!

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