domingo, 5 de julho de 2009

O Contador de Histórias


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O Contador de Histórias estreia em agosto, levando para as telas um pouco da vida de um dos 10 melhores contadores de histórias do mundo. Roberto Carlos Ramos (representado no filme por Daniel Henrique, Paulinho Mendes e Cleiton Santos, em diferentes idades) saiu da condição de “irrecuperável”, dada por funcionários da Febem aos treze anos, para se formar em pedagogia e ter sua vida retratada no cinema. Com produção de Denise Fraga e direção de Luiz Villaça, após ver o filme temos a impressão de que o roteiro já estava pronto com a vida do protagonista, bastou organizar os fatos e filmar, pois a vida de Roberto Carlos realmente parece uma ficção escrita por roteiristas.

Até os treze anos o contador de histórias seguia o que parecia ser seu destino. Aos seis anos foi levado pela mãe para a Febem, com o sonho de ver o filho formado; em meio as constantes fugas o menino aprendeu a roubar, usar drogas e a definir um futuro tristemente constante. A grande mudança na vida de Roberto foi a pedagoga francesa Margherit (Maria de Medeiros) que enxergou o óbvio: um ser humano de apenas treze anos não pode ser irrecuperável, salvo se ninguém fizer nada para mudar essa classificação.

Margherit era uma profissional, mas nem por isso deixou de passar grandes dificuldades no processo de recuperação de Roberto, que passou por etapas importantes desde o simples ato de olhar para frente – coibido em instituições para menores, onde estes são obrigados a olhar para baixo na presença de um agente – até a alfabetização e o ensino da língua francesa.

A história é muito bem contada no filme, de forma que seus detalhes devem ser conferidos na telona. Cabe neste espaço pensar que ela é uma exceção extrema no Brasil. Em meio a tantos internos que a Febem ou instituições semelhantes recebem, o número de “robertos” auxiliados por “margherites” tendem a zero. Isso não seria preocupante, pois a tutela dos menores deveria ficar a cargo das instituições, entretanto, não bastasse o fato desta tutela não proporcionar um futuro digno, ainda tem o efeito contrário, ou seja, em meio a surras e maus tratos os menores aprendem a não confiar nas pessoas e a viverem em um mundo onde o mais bem adaptado sobrevive, às margens da sociedade. Esta adaptação costuma vir em forma de roubos e uma série de outros delitos.

No filme, após uma série de atitudes condenáveis e propositais para provocar Margherit, o menino fecha os olhos e espera por um tapa – que não vem. Essa simples cena pode retratar nosso país e seus menores abandonados. Após atitudes evidentemente condenáveis como instituições falidas que anulam o futuro de tantos jovens, o estado fecha os olhos por indiferença, mas aqui o tapa vem. Seja pela violência direta de quem aprende cedo que a violência é o único caminho (pois ainda que não seja eles não têm exemplos contrários); seja por histórias como a de Roberto, que nos acerta com a prova de que com atenção e cuidados todos podem explorar seus potenciais ao invés de serem condenados à marginalidade.

Essa história emocionante, que pode servir de exemplo sob vários aspectos, pode também ser uma ótima provocação aos que acreditam que certas atitudes ou condições sociais são inevitáveis e até mesmo responsabilidade dos que estão excluídos da sociedade. Sem querer defender, aceitar ou tolerar a violência, insisto aqui que a vida de Roberto Carlos Ramos mostra muito bem dois extremos. Na Febem, imerso na violência física e psicológica, o menino tinha um comportamento de acordo com a forma que era tratado. Com o apoio de Margherit o árduo trabalho de ambos deu frutos, e um desses frutos é a evidência de que as pessoas – independente de origem, classe ou qualquer outro fator – podem chegar a uma vida digna em sociedade.


Um comentário:

Télia disse...

Oi, amor!
Passando para registrar minha leitura dos seus artigos.
Bom ver como você está empenhado, e por que não dizer, empolgado, em escrever seus artigos sobre cinema. Isso é muito bom.
Com relação ao post, gostei muito, já tinha lido antes de ver o filme e agora, depois de assistir, li novamente.
Gostei da sua parcialidade, misturando o resumo com suas opiniões pessoais, demonstrando que mais do que um espectador, é também um observador que analisa o que vê. Acho que é exatamente isso de que carecem os frequentadores não só de cinema.
Parabéns pelo trabalho,
E pode contar comigo sempre!
Beijos

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