terça-feira, 1 de outubro de 2013

Capitães da Areia

Nunca pensei que um dia eu colocaria uma obra de Jorge Amado entre minhas favoritas. Meu gosto pela leitura começou tarde, já no final do ensino médio. Havia lido “Mar Morto” por imposição escolar e não me despertara grandes sentimentos; acho que eu não estava maduro para ele.

Depois, vi em algum lugar uma defesa à obra de Paulo Coelho dizendo que em sua época Jorge Amado também era alvo de críticas. A péssima fonte me rendeu uma péssima conclusão que durou muito tempo. Alguns anos mais tarde li "A morte e a morte de Quincas Berro d´Água", uma crítica bem humorada, que me agradou, mas não me revelara o verdadeiro escritor.

Cheguei, antes tarde do que nunca, ao “Capitães da Areia”. Finalmente entendi porque Jorge Amado era mal visto em seu tempo, ficou claro porque a Rede Globo, diante da impossibilidade de negar o valor de sua obra, ressalta apenas os aspectos da sensualidade de seus livros.

Cecília Amado se dispôs ao trabalho dificílimo de adaptar às telas o livro de seu avô. A dificuldade está exatamente na diversidade de personagens do livro, cuja história individual de cada um pesa muito no resultado final, mas não caberia no espaço de um filme. Uma alternativa muito viável seria a produção de uma série, com capítulos interligados e contando detalhadamente tanto as histórias diretas do livro, quando um pouco de suas descrições psicológicas e histórico dos personagens, mas sem dúvida o resultado incomodaria a muita gente.

Escrito em 1937, Capitães da Areia é assustadoramente atual. Jorge Amado usa a literatura para, da forma mais didática possível, explicar que o problema de menores infratores vai muito além da falta de punição ou má índole, blindando sua análise lúdica de críticas superficiais e antecipando argumentos que apesar de falhos continuam sendo usados amplamente até hoje.

A comparação entre literatura e suas adaptações ao cinema costuma ser muito injusta. São linguagens diferentes e, sobretudo, intenções bem distintas, portanto não cabe julgar qual é ‘melhor’, já que seria inviável colocar sob os mesmos critérios um livro que tem todo o espaço para desenvolvimento de personagens, divagações psicológicas e narrador onipresente, com um filme que deve condensar em menos de duas horas o conteúdo de origem, contando com atores mirins que não tinham experiência em atuação.

Superada a falácia de eleger qual a melhor obra, vemos no filme pontos importantes do livro, que em alguns planos podem ter ficado muito reduzidos ou simplificados, mas que ainda assim retratam dificuldades e artimanhas desenvolvidas pelos meninos de rua, que existem, independente da organização do grupo Capitães da Areia, e lutam para além de superar os percalços da vida, lidar com o preconceito de quem espera de adolescentes – por vezes crianças – maturidade e discernimento habitualmente ausentes até mesmo em adultos.

Infelizmente o filme deixa margem para críticas pouco instruídas, não sobre sua produção, mas sobre o próprio conteúdo exposto, já que é um prato cheio para aqueles que enxergam claramente os delitos dos jovens para com a sociedade em que vivem, fechando os olhos de forma muito conveniente para o caminho contrário e se negando a considerar que quando não há boas alternativas, o jeito criar algo que individualmente seja ‘menos pior’.

O que também não tem tanto destaque nas telas é a ética presente entre os meninos do grupo, ou seja, muitas atitudes podem ser consideradas imorais perante a uma sociedade habituada com a competitividade desenfreada, desta forma, àqueles acostumados a hostilidade de quem quer ser promovido no emprego, mesmo que às custas de, até então, colegas de trabalho, a lealdade dos meninos aos Capitães de Areia como um grupo é censurável. O argumento alegado é o de que não deve haver lealdade com o que está fora da lei, porém o que fica implícito nesse tipo de crítica é a vergonha de admitir que a ética entre os Capitães de Areia esta ausente em muitos ambientes corporativos.

Mais esperançoso que o livro, o filme termina indicando finais hipotéticos e de forma bastante otimista. Na verdade o que é narrado como um vislumbre é o que se concretiza no livro (sem detalhar para não estragar o final de quem ainda não viu), porém ao contrário do otimismo indicado no filme, o livro coloca as mesmas situações de forma mais melancólica, mais crua, mais triste por ser mais real.


2 comentários:

Felipe Lários disse...

Depois sou eu quem fico indicando "coisas imperdíveis", né? :P Ainda bem que já conheço as duas obras. Foi meu primeiro contato com Jorge Amado e,por isso, não tinha como ser traumático. Além dos que vc citou, recomento a leitura de Gabriela (além do filme do Bruno Barreto, que tb é mt bom). Abraço!

Sugestão: essas palavras-chaves para provar que eu não sou um robô desestimulam o envio de comentários...

UpArte disse...

Olá! Sou do blog UpArte, e gostaríamos de saber se vocês fazem parceria, como é o esquema de vocês, se trabalham com trocas de banners...

Aguardamos o contato.

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