terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Serra Pelada - A Lenda da Montanha de Ouro

Com dimensões continentais, o Brasil sempre foi um país naturalmente rico. Desde o pau-brasil que nos batizou até a soja que hoje alimenta o mundo, fomos fornecedores de matéria prima já no descobrimento, passando pela cana, café, minério, petróleo e o sempre valorizado ouro.

Ponto em comum para todos esses ciclos: a riqueza natural vai, a pobreza social fica. E o ouro nos proporcionou essa ascensão e queda duas vezes, a primeira – bem mais expressiva – no ciclo do ouro, século XVIII, quando a extração do metal sustentou não só o Brasil, mas praticamente toda a Europa; e a segunda, uma versão muito mais reduzida, porém recente e amplamente documentada, em Serra Pelada, aqui documentada pelo diretor Victor Lopes.

A expressão mais comum quando se fala na exploração da região é a de “formigueiro humano”. Talvez. Os corpos sujos, enlameados, formando uma camuflagem forçada sobre o solo terracota; seres em fila indiana carregando cargas pesadas nas costas por longas distâncias; trabalho puramente mecânico. Porém em um formigueiro todas as formigas trabalham por um bem comum. Não é o que vemos em Serra Pelada.

Assistindo ao documentário percebemos que a palavra chave sobre todo o processo, da descoberta do ouro até hoje, é irresponsabilidade. Seja social, ambiental, econômica, governamental, o fato é que mais uma vez a riqueza natural foi explorada ao extremo, sem nenhum controle, enriquecendo alguns poucos e deixando um saldo bastante negativo para o país.

Meio ambiente contaminado com mercúrio, cidades criadas sem infraestrutura, royalties desperdiçados pelo governo e exército de trabalhadores que hoje sofrem para sobreviver, passada a febre do ouro.

Criou-se o falso consenso de que os garimpeiros são culpados pela atual situação. Basta pegar alguns casos reais de pessoas que esbanjaram o dinheiro das formas mais estapafúrdias possíveis, criticar os gastos com bebida e mulheres que a censura moral termina o trabalho.

Claro que entre milhares de garimpeiros, muitos gastaram o que receberam com futilidades, nunca tiveram preparo para lidar com o dinheiro, mas isso não justifica a exploração do seu trabalho. A quantidade de trabalhadores que mantiveram uma vida relativamente confortável após o fim do garimpo é baixíssima perto do total de garimpeiros envolvidos, de forma que colocar a culpa na má administração do dinheiro por parte deles é uma forma de eximir-se da real responsabilidade.

À exemplo de como Foucault abordou a ideia de “corpos dóceis”, os trabalhadores não podiam beber, não podiam ter mulher, tinham que seguir padrões rígidos de comportamento, e todo este controle era vendido como justiça social, pois supostamente todos eram tratados da mesma forma. Dentro do campo de trabalho sim, mas economicamente as dezenas, por vezes centenas, de quilos de ouro extraídos diariamente renderam uma fortuna para poucos.

Aos garimpeiros, que nunca tiveram nada, o valor recebido parecia muito, mas é perceptível que o real sustento daqueles trabalhadores sempre foi muito mais a ilusão que o dinheiro. Dentro de uma ideologia bem característica do governo militar, vigente no auge de Serra Pelada, o nacionalismo era inflamado na multidão de trabalhadores e sonho de enriquecer mantinha a população conformada e trabalhando.

Não somente o trabalho braçal interessava ao governo. Mecanizar a extração significaria desempregar milhares de trabalhadores sem especialização, em uma região desprovida de recursos e repleta de latifúndios que poderiam ser alvos dos súbitos sem-terra.

A manipulação se torna risível e patética quando algumas entrevistas culpam a chegada das prostitutas pelo fim do garimpo e pela suposta bagunça estabelecida. Alegam que por causa das mulheres os homens queriam trabalhar menos para cuidar da aparência.

É curioso como o país quer crescer, todos querem viver em uma nação desenvolvida, mas a história de exploração é cíclica e sequer mudam os argumentos. Hoje as forças políticas seguem atuando na região, utilizando garimpeiros como massa de manobra. Seguem culpando os oprimidos, acusando-os de má administração do próprio dinheiro e de uma forma ou de outra, conseguem colocar a culpa de qualquer problema nas mulheres.

O futuro de Serra Pelada é uma incógnita. Oficialmente a mina secou. O ouro acabou. Não há nada mais que resquícios que não cobririam o investimento no local. Porém evidentemente existem rumores de que boa parte do ouro segue cravado na serra. Parte dessa crença ainda é sustentada pelo sonho, como do velho garimpeiro que acredita estar sobre uma mina de diamantes, com uma pedra do tamanho de uma geladeira; mas parte é sustentada pela grande atenção que governo e multinacionais ainda dispensam ao local. 


2 comentários:

Kelly Lisboa disse...

Adorei seu artigo, com alto rigor de criticidade e reflexão sobre os fatos, onde tudo envolve sistema econômico, social e cultural da época. Estou fazendo uma analise do filme para a universidade e seu artigo me ajudou muito. Parabéns

Alexandre Caetano disse...

Que bom que gostou, Kelly!
O filme fornece bastante material para ser analisado a fundo, espero ter dado pelo menos uma forcinha =)
Bom trabalho!

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