terça-feira, 4 de março de 2014

Ela (Her)

Já não são poucos os filmes que narram a humanização de computadores como consequência da inteligência artificial. Desta vez é o amor romântico entre homem e máquina que chama a atenção, em um drama com comédia sutil, dirigido por Spike Jonze.

Computadores com tecnologia suficiente para imitar humanos são recentes em nossa história. Humanos forçados a se aproximarem de máquinas é a condição mais comum, tanto que isso nem chega a chamar muito a atenção.

Sobretudo com o surgimento de indústrias, homem e máquina passaram a trabalhar em conjunto e a grande maioria dos humanos devem doutrinar seus corpos para acordarem no mesmo horário, cumprir a mesma rotina e executar a mesma tarefa. Padronizar o consumo, a demanda, a estética. Viver de forma quase mecânica.

No filme o trabalhador humano é Theodore (Joaquin Phoenix). Sua função é escrever cartas. Em um futuro próximo casais pagam para que um desconhecido escreva cartas de amor a serem trocadas. Para organizar suas tarefas ele resolve testar um novo software. É como um computador onde se podem agendar compromissos, fazer anotações, realizar uma série de consultas, etc., com a particularidade da inteligência artificial.

Theodore escolhe que o software tenha voz feminina e esta escolhe o nome Samantha. A partir daí Theodore passa a ter a secretária que muitos executivos sonham. Disponível em tempo integral, não erra, não esquece, dá boas sugestões e faz as melhores escolhas. Muitas secretárias agem como mães subjugadas pelo poder econômico.

A consequência bastante provável de uma relação que envolva tanta cumplicidade é a paixão. Trata-se de um software, mas o que difere Samantha de uma relação à distância com alguém que tecla do outro lado do mundo? E Theodore não é uma exceção maluca. Várias pessoas do filme mantém um relacionamento com seus softwares.

Se por um lado cada relacionamento é único, por outro o roteiro costuma ser bem parecido. A fase que precede uma separação é marcada pelo casal envolvido em um tenso jogo de xadrez, no qual cada passo pode render um contra-ataque fatal. Na relação entre homem e máquina não é diferente.

Porém, como jogar com quem identifica até nuances da voz como medo, insegurança ou indiferença? Pode ser bom por não deixar dúvidas quanto a verdades ditas, mas às vezes não queremos passar nem para nós mesmos a insegurança de um sentimento confuso. Não estamos mentindo, mas perdidos em meio aos sentimentos conflitantes.

Os computadores e todos os seus recursos surgem com a função de sanar alguma necessidade humana. De simples operações matemáticas aos mais avançados programas, criamos ferramentas eletrônicas para nossas demandas. Mas em relação ao amor, o que queremos?

Samantha tem disponibilidade integral ao seu dono (ou namorado). Nunca está ocupada, indisposta ou cansada. Porém a capacidade de um computador é infinitamente superior a nossa, de forma que ela pode estar com Theodore e com mais milhares de pessoas e softwares ao mesmo tempo.

Nossa insegurança demanda controle; nosso egoísmo, exclusividade. Em casos extremos, queremos controle sobre o outro. O controle do computador é total graças à capacidade de analisar até nuances da voz, mas o nosso controle não. Isso é ruim? Em um relacionamento "de verdade" as inseguranças de ambos são confrontadas em uma dialética complexa, na qual ambos procuram as próprias verdades.

Caso Theodore pergunte a Samantha por quantas pessoas ela está apaixonada, ela é capaz de dizer um número exato, preciso. Não há dúvidas ou sentimentos confusos e ambíguos. Isso é bem pior do que pode parecer. No fundo, preferimos a doce ilusão de sermos únicos ao outro, mesmo em meio aos sete bilhões de pessoas do mundo.

Uma marca estética do filme é a distinção de cores na vida do protagonista. Quando Theodore está no trabalho ou em casa, mas sem contato com Samantha, o cenário tem cores vivas e gritantes. Feito o contato, com o qual ele esperava ser único, tudo fica mais discreto, acinzentado e apático, o que é curioso, pois o que se espera de um relacionamento é exatamente a vivacidade. Uma metáfora muito bonita é a de Theodore caminhando na neve, contra o vento, logo após uma conversa tensa e desagradável com a namorada.

É aflitiva a ideia de pessoas se relacionando com softwares, sobretudo pelo cenário factível apresentado. Talvez, espero, não chegaremos nunca a esse extremo, mas o fato é que independente de computadores, quando um encontro torna o mundo cinza e apático, é hora de rever certas prioridades.


2 comentários:

Bel B disse...

Este filme realmente mereceu o Oscar de melhor roteiro original. Adorei e agora que li esta crítica deu vontade de ver o filme novamente...

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pelos comentários! Esse é um filme que vale a pena assistir mais uma vez e pensar nos assuntos abordados =)

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