terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Azul é a cor mais quente (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 & 2)

Abdellatif Kechiche trouxe às telas a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos) em um longo filme, que apesar das três horas de duração flui muito naturalmente desde o início, com uma Adèle bastante menina e angelical, até suas transformações baseadas em algumas experiências vividas.

Ao longo da vida a adolescência é o período mais confuso. Além dos hormônios bagunçados, a transição entre infância e vida adulta e diversas experiências novas, somos imaturos para lidar com todas essas turbulências. Adolescentes são mesmo seres perdidos e incoerentes, não por opção, mas geralmente por ainda não saberem como lidar com tantos caminhos pela frente.

O curioso é que muitas vezes aqueles que deveriam tentar utilizar um pouco da experiência adquirida ao longo da vida para auxiliar esses jovens, acabam se esquecendo de como foi passar por essa fase e bloqueando as reações contraditórias que tiveram quando passaram por esses anos confusos.

É por esse furacão de sentimentos e emoções que Adèle está passando e é com a incompreensão de quem já passou pelos mesmos tormentos que ela terá que lidar, ou seja, além das dificuldades quase inerentes ao período, ainda temos que carregar o peso desnecessário criado pelos que nos cercam, e isso não se restringe aos personagens do filme, pois pode também ser notado em algumas críticas que insistem em reduzir todo o conteúdo da obra às duas cenas de sexo apresentadas.

A menina confusa do começo do filme tem que aprender rápido a lidar com as pessoas próximas. Amigos, parentes, professores, todos acostumados a criticar a diversidade expressa no outro, forçando a acostumar-se com uma padronização medíocre, que apenas disfarça as contradições internas que todos temos.

Que Adèle não sabe bem o que quer da vida é quase inegável. Mas quem tem essa certeza, sobretudo ainda no ensino médio? O que é notável nas pessoas próximas à protagonista é a censura ao risco e principalmente à busca pelo prazer. O mais cômodo é fingir ter certeza para poder fingir ter cumprido as próprias metas, se tornando uma pessoa realizada. Um ideal romântico, quase onírico.

De todos que passam pela vida da menina, a única que contribui positivamente é Emma (Léa Seydoux), uma paixão que Adèle precisa esconder, ou ao menos tentar esconder de todos, diferente de sua companheira. Emma não sofre nenhuma censura ao apresentar a namorada aos amigos e aos pais, o que contribui, entre outras coisas, para que ela seja mais autoconfiante e centrada que Adèle, além, é claro, de ter mais experiência de vida.

Os personagens do filme, por vezes de forma abrupta, vão desaparecendo. O que para o enredo pode não ser tão bom, simbolicamente indica muito bem as fases da vida que Adèle deixa para trás. Na medida em que vai amadurecendo ela não precisa mais aturar certas pessoas, certas atitudes, certas cobranças infundadas. Em geral aqueles que somem não fazem falta e é de se imaginar que buscam outras implicâncias para maquiar as próprias frustrações.

O que resta é a vida que a própria personagem constrói e como não há um apogeu de conhecimento, principalmente para uma pessoa tão jovem, ela seguirá pagando a conta da inexperiência e de algumas atitudes impulsivas, sem que isso a faça uma fracassada. Qualquer que seja seu futuro, os erros foram baseados em escolhas próprias que trouxeram experiência.

Qual seria a alternativa para a jovem? Provavelmente reprimir sua atração por mulheres – o que neste caso talvez não fizesse tanta falta já que ela também sente atração por homens –, encontrar alguém com quem casar, formar a família tradicional que só costuma funcionar em comerciais de margarina e barrar qualquer tentativa que os filhos tenham de quebrar padrões, ratificando a ideia de que as contradições internas da adolescência são esquecidas quando ficamos mais velhos.

Só para não passar em branco, conforme já mencionado, duas cenas de Adèle e Emma na cama são bem mais explícitas que a maioria dos filmes costuma mostrar. Vemos a moça vivendo intensamente cada experiência nova, de uma manifestação política a uma mudança completa de paradigmas. Por que não a veríamos em um momento de prazer?

De fato essa naturalização ainda está distante das plateias de cinema. Cenas de casais héteros ainda podem chamar mais atenção que o filme como um todo, em se tratando de duas jovens há ainda o incremento do preconceito. Uma pena. Chegar ao fim do filme preso às duas cenas é sinal de que seu conteúdo não foi compreendido.


9 comentários:

Carol disse...

Achei bem interessante seu ponto de vista, uma resenha bem concreta comparada com as que vi ... achei interessante ressaltar sobre as duvidas da adolescencia e queria complementar aqui que os pais da garota Adele se mostram bem distantes dessa transição dela, eles só aparecem juntos na hora das refeições, e de outro modo, não há uma relação entre Adele e a mãe, o que seria indispensável para a garota que enfrenta esse periodo de grandes duvidas. Deu a entender que essa passagem da vida foi uma grande aventura. Concordo tambem que as 3 horasde duração foram necessarias para dar toda a estrutura de realidade do filme. Só achei um pouco exagerada a atitude do diretor em dar closes enfadonhos, retratando Adele mais como uma “obsessão“ ou objeto, do que como a personagem principal. Enfim, acho que falei aqui pouco mais do que devia, contudo quis registrar aqui minha perspectiva ;)

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pelo comentário, Carol! Não falou muito, não =)

Recomendo a HQ que deu origem ao filme, tem algumas mudanças na história, vale a pena!

Ricardo disse...

Excelente resenha. Parabéns pela clareza de pensamento. Como disse a Carol, destoa das outras lemos na internet e isso é muito bom.

Não tenho muito a contribuir para a análise do filme, só tenho a dizer que o final me deixou devastado. As cenas longas de momentos aparentemente banais e as cenas de sexo te fazem sentir conectado com a rotina da personagem - coisa que normalmente é omitida em outros filmes. Isso faz com que a dor do personagem seja mais intensa também para o espectador (pelo menos pra mim).

Enfim, assisti há alguns dias ainda estou "me recuperando". heheh

Abraço!

Anônimo disse...

O Ricardo descreveu exatamente o que se passa a quem se entrega ao filme. A gente se conecta completamente ao personagem e sente a dor dele. Sensacional, eh de sofrer junto! Rs

Anônimo disse...

Creio que tudo ficaria melhor interpretado se tivesse uma continuação do filme porem seria meio difícil já que o mesmo ficou meio que traumatizante para as atrizes fazerem as cenas de sexo acho que elas não voltariam a gravar.

Anônimo disse...

Vai ter continuação ???

Alexandre Caetano disse...

Não acredito que tenha continuação. O filme foi baseado em uma história em quadrinhos e encerra por aí mesmo. Pelo que eu vi as atrizes não se incomodaram muito com as cenas de sexo, mas causaram polêmica inclusive com a autora da HQ. (não vou entrar muito em detalhes sobre a HQ pq muda o final, não quero estragar a surpresa de ninguém =)

Anônimo disse...

Rs eu comprei e estou curiosa pra saber o final .... tomara que tenha um final melhor do que do filme né rs

Alexandre Caetano disse...

Depois de ler dá uma passadinha aqui para dizer o que achou! Ou me manda por e-mail para poder falar sobre o final sem problemas com spoilers =)
alex.eap@hotmail.com

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