terça-feira, 7 de outubro de 2014

Miss Violence

Uma das principais referências para a cultura ocidental, mesmo tendo tido seu ápice há mais de dois milênios, a Grécia nunca foi um grande polo de cinema. Ainda assim o diretor Alexandro Avranas lançou essa grande obra, com o cotidiano de uma família grega que infelizmente pode se repetir em qualquer país.

Não é um filme dos mais fáceis, tão pouco agradáveis; ainda assim é indispensável, pois o cinema não serve apenas para entreter. Uma das tantas funções de um filme é exatamente retratar fatos que a realidade costuma maquiar.

Sem nenhum spoiler por aqui, já que um grande atrativo do filme é a aura de mistério que paira sobre a família aparentemente comum, vemos no trailer a tão inquietante primeira cena. Durante a festa de aniversário de 11 anos, restrita aos avós, mãe e irmãos, Aggeliki (Chloe Bolota) mantém as feições impassíveis, esboçando um leve sorriso apenas alguns segundos antes de pular da sacada.

Crianças têm o mundo inteiro a ser descoberto, tanto de forma física quanto sensorial. Se essa exploração de tudo que as cerca, juntamente com os sentimentos que transbordam dentro de cada uma, não é feita de forma mágica, algo está errado. O desânimo prolongado na infância indica problemas. Nem a condição de vida chega a influenciar muito, pois basta prestarmos um pouco de atenção em crianças de rua – aquelas que costumamos fingir que não existem – para ver que entre tantas dificuldades elas arrumam brechas para brincar e se divertir com o cotidiano.

A naturalidade com que os familiares, inclusive as crianças, lidam com a morte da menina é evidentemente suspeita. Tão suspeita quanto a apatia das crianças durante a festa. A versão oficial dada aos assistentes sociais é a de que a queda foi acidental e que a família estava fazendo o possível para que tudo voltasse ao normal. O problema é que pelos poucos elementos que temos do passado, notamos que o dia-a-dia da família não parecia tão “normal” assim.

Para quem olha de fora não há nada de errado com a família do filme. O patriarca (Themis Panou) busca um emprego onde aparentemente ganhará pouco, mas nada que destoe dos que estão próximos, já que o país todo está em crise econômica, com altas taxas de desemprego e consequentemente baixos salários.

Dentro de uma situação econômica que por si já nivela a sociedade em um patamar insatisfatório, e mais baixo do que a média que as pessoas estavam habituadas, o tempo poderia fazer com que a nova realidade fosse assimilada, sobretudo pelas crianças, ainda sem responsabilidades econômicas diretas.

É o que ocorre no campo particular que pode agravar os problemas individuais a níveis insuportáveis, por isso são tão difíceis de serem solucionados. É fácil darmos uma volta pelo quarteirão e afirmar, como tanto vemos, sobretudo em época eleitoral, que devemos preservar a família tradicional, como se esta fosse garantia de que tudo correrá bem no plano individual.

De fato, muitas famílias tradicionais têm as relações entre seus membros desenvolvidas de forma satisfatória e, se por um lado enfrentam problemas e divergências, por outro conseguem solucionar seus impasses sem grandes traumas entre os envolvidos. O problema é que essas famílias não precisam de ajuda ou defesa externa, como prometem os que insistem em atuar como defensores da vida privada.

As intervenções que são de fato necessárias, como seriam no caso da história do filme, passam despercebidas, ocultadas pelo verniz de família ideal, que é comprado com a maior facilidade. A particularidade de um enredo cinematográfico infelizmente se repete, com variações que não chegam a aliviar o cerne do problema, em muitas famílias aparentemente felizes.

Com um pouco mais de abstração a história do filme até pode ser interpretada como uma metáfora da situação econômica da Grécia. O Estado como uma família feliz e independente, que esconde dos olhos dos vizinhos os absurdos cometidos da porta para dentro. Tudo caminha relativamente bem, até que um incidente expõe problemas e fragilidades, desestruturando a frágil aparência de felicidade.

Em comum, tanto a interpretação metafórica quanto literal podem indicar que certos problemas podem até ser resolvidos ou interrompidos com o tempo, mas os traumas individuais tolerados por um longo período deixam cicatrizes bem mais profundas do que uma aparente normalidade deixa transparecer.


3 comentários:

Anônimo disse...

Perfeita Síntese! Muito Obrigada, por compartilhar conosco sua visão sobre os filmes.

Fico feliz em saber, que alguém assim como eu, vai ao cinema para além da distração.

Amanda Parrini

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário, Amanda! Que bom que gostou =)

Adler Henrique disse...

Melhor critica que ja li desse filme,vc me entendeu bem,Parabéns!

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