quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Junho

Grandes manifestações políticas no Brasil são raras. As razões para isso são diversas, por exemplo, pensando em nossa história recente passamos vinte anos em um regime militar, que não só proibia manifestações como punia até com a morte aqueles que ousavam expressar descontentamento ou divergência.

O sucateamento da educação, iniciado na ditadura e mantido com muito afinco depois da redemocratização, forma gerações de cidadãos que acreditam poder restringir a democracia ao ato de votar a cada dois anos. O estranhamento à política é tão gritante que a sociedade aceita o dito popular de que “política não se discute”, mesmo sendo a política uma discussão em sua essência.

Por isso e muito mais o mês de junho de 2013 merece tanto destaque em nossa história. Não é este documentário do diretor João Wainer que esgotará o tema, muito menos este texto, porém o filme traz questões pertinentes que nos permitem algumas conclusões após mais de um ano de protestos.

Em um país tão carente em qualquer área, não faltam motivos para que a população proteste, porém o que deu início às mobilizações foi o aumento de passagens na cidade de São Paulo. Como sempre acontece depois de um aumento, o MPL (Movimento Passe Livre) começou a organizar passeatas, bem menos numerosas do que o auge dos protestos, mas representativa o suficiente para irritar boa parte da população e inflamar o discurso da mídia tradicional, que exigia um basta por parte da PM.

Até o dia 13 de junho de 2013 não havia nada de novo. Parecia que mais uma vez as manifestações iriam contar com cada vez menos participantes, até que o aumento de passagem fosse assimilado e aceito. Mas naquela quinta-feira a PM exagerou na dose do abuso de poder. Mesmo uma sociedade complacente com a violência policial cotidiana ficou indignada com tamanha desproporção de força, tomando as ruas em massa no ato seguinte.

A grande mídia não gosta de manifestações populares. São poucas as famílias que controlam os meios de comunicação no Brasil e, como todo oligopólio, há muito cuidado para que essa hegemonia não seja quebrada. Não por acaso a Rede Globo tentou noticiar o início das Diretas Já como uma festa do dia do trabalhador. Desta vez não foi diferente. De Arnaldo Jabor dizendo que errou ao desqualificar os manifestantes ao Datena tendo que mudar o discurso ao vivo, a mídia a princípio mudou a crítica e passou a dar razão à demanda popular.

Enquanto a pauta era restrita à redução das passagens, era bem mais fácil manter uma grande quantidade de pessoas unidas. Porém depois que as tarifas voltaram ao valor anterior (ainda alto) a despolitização da população tornou-se gritante. O apoio genérico às manifestações era quase unânime, mas é evidente que as demandas das classes mais altas são diferentes e por vezes diametralmente opostas às das classes mais baixas.

É evidente que o país precisa melhorar a saúde pública, melhorar a educação – pública e particular, que têm problemas distintos, mas graves – melhorar a segurança – até para que a PM pare de agir como rottweilers treinados para matar. O problema é que quando o povo toma as ruas exigindo a redução das passagens, o governo pode atender de uma hora para outra, enquanto ir para as ruas exigindo educação de qualidade não pode ser resolvido com uma canetada.

Pensando em um cenário ideal, em que toda a verba necessária para saúde ou educação fosse empregada de forma competente, sem desvios e com todo o profissionalismo, os resultados apareceriam depois de vários anos. Foi nessa brecha criada pela despolitização que a mídia voltou a ter poder sobre o povo.

Há suspeitas de policiais à paisana infiltrados em protestos e instigando ações violentas. Como nada foi provado, é prudente manter o foco no que é inegável. O mesmo Jabor que teve que engolir o orgulho e pedir desculpas por criticar os manifestantes conseguiu emplacar uma revolta contra a Pec 37, ainda que poucos soubessem a fundo seu significado e implicações.

O documentário de João Wainer não é conclusivo. Ele visa exibir os fatos entrevistando jornalistas, cientistas políticos, etc., sem entrar no campo das hipóteses de desdobramento dos atos. Apesar disso, entre tantas análises possíveis podemos pensar em alguns números posteriores aos fatos.

Até junho tanto a presidenta Dilma Rousseff quando o governador Geraldo Alckmin tinham altíssima taxa de aprovação, ambas incompatíveis com a realidade de cada governo. Hoje, a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições, Dilma pode até ser reeleita, mas será em uma eleição extremamente disputada, enquanto Alckmin, a quem a PM que deu início às grandes manifestações com sua onda de abuso de autoridade é subordinada, já foi reeleito com uma vantagem insana para o governo do estado.


3 comentários:

Dj Neew Dê Loná disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dj Neew Dê Loná disse...

Olá Alexandre, em primeiro lugar meus parabéns pelo blog, com certeza uma das boas surpresas que encontrei na internet nos últimos tempos, parabéns pela forma com que se expressa.

Com relação ao documentário acredito que você levantou pontos importantes, até a incoerência no discurso de muitos manifestantes na época e hoje contarmos um unico partido governando o estado de São Paulo por mais de vinte anos, o que demonstra que talvez em São Paulo especificamente aquelas manifestaçoes não contassem com um publico que realmente necessitava de programas de governo mais "progressistas" como a população mais carente tanto necessita, entretanto devemos analisar e reconhecer a importância histórica desse momento.

Continuarem acompanhando seus ótimos textos postados aqui.

Grande abraço

Alexandre Caetano disse...

Que bom que gostou do blog! Obrigado!
As manifestações foram importantes, trouxeram a discussão política para a sociedade, mas nas últimas semanas eu estava apostando em um segundo golpe militar. Talvez seja exagero da minha parte (tomara!)

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