terça-feira, 12 de maio de 2015

Pelo malo

Pelo malo é o nosso ‘cabelo ruim’, ou seja, aquele cabelo cacheado que graças à miscigenação de nosso povo, é predominante, porém considerado ruim quando o padrão de beleza enaltece o cabelo liso dos europeus. Uma pena não terem traduzido o título, já que é o cartão de visitas de uma história que se encaixaria perfeitamente na realidade brasileira.

A diretora Mariana Rondón mescla dois dramas ao longo do filme, o do protagonista Junior (Samuel Lange Zambrano), que quer ter o cabelo liso, e de sua mãe Marta (Samantha Castillo), que se desdobra para criar sozinha os dois filhos, tendo que lidar com dificuldades econômicas e com a imposição de padrões absurdos, mas que ela interioriza de forma muito intensa.

Junior é órfão, sequer tem nome já que o pai não é mencionado. Para ele o mais importante ao longo do filme é conseguir dinheiro para tirar uma foto na escola, para isso ele também quer alisar o cabelo e vestir uma roupa de cantor. Quem compartilha esse desafio com ele é uma amiga que quer tirar foto vestida de princesa.

Para um adulto pode parecer um detalhe sem a mínima importância. Não passa de uma foto burocrática que irá ilustrar uma ficha de matrícula. Mas no universo infantil alguns valores podem ser bem distintos. O que deveria incomodar a quem assiste não é a importância que Junior dá à fotografia, mas sua amiga preocupada em voltar para casa, pois naquele lugar ocorrem estupros. Uma das formas de expressão do machismo que permeia todas as cenas do filme.

Já no mundo adulto Marta está desempregada e ainda deve lidar com a angústia e a insegurança de criar dois filhos sem a presença do pai. Não devemos aceitar o engodo de que o machismo é exclusividade dos homens. Imersa nesta triste realidade, Marta dá espaço contínuo ao machismo.

É evidente que ela não está em uma situação das mais fáceis. É difícil encontrar alguém confiável para deixar os filhos e não pode ficar muito tempo sem trabalhar. À parte da situação financeira, se preocupa em dar bons exemplos e suprir a falta do pai. Infelizmente é neste ponto em que mais pesa os valores insanos da sociedade.

A constante preocupação do filho com a aparência e a obsessão com os cabelos lisos a fazem desconfiar da sexualidade do menino. Esse absurdo nos faz pensar nas incoerências cotidianas, que juntas formam armadilhas das quais ninguém poderia escapar sem uma leitura crítica dos valores que nos regem.

Não bastassem as imposições econômicas que se abatem sobre a família, obrigando Marta a se humilhar por um emprego e impedindo que Junior tire uma simples foto; não fossem suficientes os padrões opressores de beleza, que na América Latina ganham peso ainda maior por basearem-se em um estereótipo que pouco se vê na população; cria-se ainda um comportamento paranoico, que desde cedo impõe masculinidade através de atitudes certas ou erradas para meninos que sequer desenvolveram interesse pela sexualidade.

Psicologicamente seria possível fazer inúmeras análises sobre a importância da figura paterna no desenvolvimento de uma criança, porém Marta, por total falta de instrução, interpreta essa recomendação da pior forma possível, buscando qualquer referência que no máximo iria corroborar os preconceitos que já cercam sua família.

Por trás da ideia de que cabelo crespo é um cabelo ruim ou da obrigação de que meninos tenham cabelo curto, há uma série de preconceitos mesclados e naturalizados, que prendem a família do filme em um estado permanente de subdesenvolvimento.

Claro que o menino pode alisar o cabelo, raspar, tingir, sem que isso influencie diretamente na relação familiar, mas as dificuldades econômicas e sociais poderiam ser atenuadas com uma relação mais afetuosa entre mãe e filho, que não fosse sufocada pela obrigação de perpetuar valores machistas.

Em uma vida quase determinista, é possível imaginar sonhos desfeitos diante da hegemonia dos preconceitos vigentes. A tendência é que, cansados de remarem contra uma maré fortíssima, as raras exceções – sobretudo quando tão jovens e sem referências como Junior – acabem se rendendo à vergonhosa pressão social.

Um filme que desperta sentimentos tão intensos e diversos como 'Pelo malo' não apresenta somente as questões objetivas. Olhando com cuidado encontramos algumas nuances. Uma criança relata medo de ser estuprada, mas tudo bem, contra isso ninguém tomará uma atitude objetiva. O máximo que será feito neste sentido é alertar a menina com dicas para reduzir as chances de estupro. O que é combatido diretamente é o ‘cabelo ruim’ e a suposta homossexualidade. Com a violência e a pobreza logo se aprende a conviver. Infelizmente.


2 comentários:

Felipe Lários disse...

Baixei e assisti este filme por conta da indicação deste blog e devo dizer que não me arrependi nem um pouco. Ótima indicação!

Alexandre Caetano disse...

Mais um filme que deveria passar na Sessão da Tarde!

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