terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)

Em 1945, com a morte de Hitler, a guerra estava encerrada na Europa – ainda duraria mais alguns meses até a rendição japonesa e o término oficial. Na Alemanha, mais do que a reconstrução física foi necessária uma reestruturação política e ainda que Hitler tenha preferido o suicídio à rendição, a sociedade alemã ainda tinha vários membros do partido nazista que cometeram atrocidades durante o holocausto.

O longa do diretor Giulio Ricciarelli não aborda diretamente esse período, mas sim os resquícios dos julgamentos, mais de uma década após o fim da guerra. Aparentemente tudo estava resolvido, a ordem política reestabelecida e os responsáveis pelo genocídio devidamente punidos. Ainda que dividida pela Guerra Fria, a Alemanha parecia ter sepultado o terceiro Reich.

É através do procurador Johann Radmann (Alexander Fehling) que o filme mescla fatos históricos com um pouco de ficção para demonstrar que os bastidores do holocausto esconderam muitos segredos. Johann só queria cumprir seu dever, mas ao investigar pessoas envolvidas com os massacres do exército nazista percebeu logo que ainda havia muita sujeira escondida e que não seria nada fácil terminar esta limpeza.

A vontade de fazer justiça não era uma unanimidade e muitos viam nos assassinos de Auschwitz heróis de guerra, que estavam cumprindo ordens e fazendo o melhor pelo país. Infelizmente governos totalitários deixam seus seguidores, que por ignorância ou comprometimento fazem de tudo para justificar o inimaginável.

Um dos argumentos utilizados na tentativa de dissuadir o procurador é que os jovens passariam a questionar se seus pais foram assassinos. Parece evidente que aqueles que não cometeram crimes não teriam nada a temer, entretanto fica implícito neste argumento que os nazistas que de alguma forma auxiliaram na tentativa de extermínio de judeus e outras minorias deveriam, aos olhos de seus defensores, seguir impunes. A pretensa tentativa de não macular a moral paterna oculta o desejo de que o antissemitismo nazista fosse perpetuado de pai para filho.

Entre os investigados por Johann estava o médico Josef Mengele, que ficou conhecido por, após praticar experiências horripilantes nos campos de concentração, fugir para a Argentina, mudando depois para o Brasil, onde viveu em plena liberdade até o fim de sua vida.

Curioso Mengele acabar encontrando refúgio no Brasil. Formalmente o país lutou contra os nazistas, porém sua estadia foi no período de ditadura militar, em que civis eram presos, torturados e frequentemente assassinados pelo estado. Ainda que não tenhamos chegado ao extremo nazista, Mengele deve ter se sentido bem próximo de sua terra natal, com agentes do governo tendo carta branca para eliminar quem o Estado considerasse inimigo.

Morto antes do fim da ditadura, o médico provavelmente estaria em êxtase se vivesse hoje, afinal, além do Brasil não ter punido nenhum militar pelos crimes cometidos ao longo dos 21 anos de ditadura, ainda conta com uma parcela da população pedindo a volta do totalitarismo.

A história nos mostra continuamente que tentar ocultar crimes cometidos pelo estado não faz com que o passado seja esquecido e superado. Resquícios da ideologia que motivou os crimes ficam apenas latentes, prontos para voltar à tona assim que o impacto provocado pelo desmascaramento perder força.

Neste mesmo ano de lançamento do filme de Ricciarelli o livro Minha Luta, escrito por Hitler no período entre guerras, entrou em domínio público. A discussão na Alemanha é se vale a pena reeditá-lo, já que chegou a ser proibido após a Guerra. A única coisa que o livro faz é mostrar o quanto a ideologia do tutor do nazismo é insustentável.

Se o discurso de ódio aos judeus e a pretensão de fazer parte de uma raça pura já não fazia sentido na primeira metade do século passado, hoje, com os avanços da genética, é possível provar cientificamente que as suposições insanas de Hitler de uma raça superior às outras estão erradas, até porque a espécie humana não pode ser subdividida em raças.

Mais eficiente que proibir um livro ou tentar ocultar fatos amplamente documentados é a exposição e diálogo entre as várias gerações que sucederam a guerra. Fingir que nada aconteceu ou que tudo está superado só fortalece aqueles que por falta de conhecimento ou influências tendenciosas acreditam que a volta de um estado assassino é a solução para algum tipo de problema. Uma insanidade em qualquer lado do Atlântico.



Um comentário:

Lana Zanchi disse...

Quero muito ver. Teu texto sempre perfeito. Obrigada.

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