terça-feira, 10 de outubro de 2017

Karen chora no ônibus (Karen llora en un bus)

Uma mulher jovem e bonita, casada há dez anos e que tem como principal atividade cuidar da casa e do marido. Durante séculos a sociedade martela esse mantra como meta de vida feminina. É o caso da protagonista Karen (Angela Carrizosa), que tem como efeito colateral desta vida limitada se sentir feia e velha, tendo aparentemente passado pouco dos trinta anos.

O diretor Gabriel Rojas Vera não dá muitos detalhes sobre a vida de casada de Karen. Não precisa. O roteiro está ao alcance de qualquer um, recheado de exemplos reais de mulheres que se casaram jovens e abriram mão de uma vida profissional, não fizeram muitas amigas, amigos nem pensar, e se dedicaram para o matrimônio.

Um belo dia todo o acúmulo de mágoas vem à tona. Não é que Karen não está mais feliz depois de uma década de casada. Na verdade a felicidade não passou de um breve conto de fadas, substituído por um marido que, mesmo não conhecendo o termo, pratica o chamado “gaslighting”, um abuso psicológico.

Uma característica bastante comum nos relacionamentos como o de Karen é que os esforços para agradar o marido não são reconhecidos, mas retribuídos com críticas e humilhações. Com uma vida reclusa e sem referências que auxiliem a personagem a perceber os abusos, ela acaba se convencendo de que não sabe fazer nada direito, é feia, inútil e passa a se sentir grata ao homem que ainda a quer.

Quando ela finalmente decide pedir o divórcio passa a sentir os efeitos de uma vida dedicada a outra pessoa. Com pouco dinheiro e sem experiência profissional, Karen precisa entrar em um mercado de trabalho predatório, repleto de contradições, como exigir experiência e juventude em níveis incompatíveis com a maioria das pessoas.

É incômodo ver a personagem alugar um cortiço e batalhar para reerguer a vida, enquanto o ex-marido veste o terno e vai para o escritório. Seria compreensível que em uma situação tão adversa Karen voltasse para casa. Seria cômodo, se isso acontecesse, julgar sua atitude e insinuar que ela voltou para a exploração do marido por que quis.

No cortiço a protagonista faz amizade com Patricia (María Angélica Sánchez), um tipo de antítese da vida que Karen sempre teve. Ainda que com o estilo de vida bastante distinto, Patricia também expõe a exploração feminina por parte dos homens.

Com um discurso forte de quem já foi enganada por vários homens e não quer repetir os mesmos erros, Patricia não demora a demonstrar fragilidades e carências presentes em qualquer pessoa.

Consciente dos problemas latentes em relacionamentos com homens casados, agressivos ou parceiros eventuais, o problema de Patricia não está em sofrer uma desilusão. Isso está no caminho de qualquer pessoa. Porém o machismo faz com que seus parceiros possam voltar para a esposa, ameaçá-la e fazer com que sua situação sempre seja mais dolorida.

Karen estranha a vida tão diferente da nova amiga, mas não demora para que a sororidade, a compreensão feminina diante da exploração, tome o lugar do estranhamento e passe a haver uma troca entre as personagens. Uma possível censura dá lugar à união entre mulheres que sabem da importância de uma mão amiga nas horas difíceis, por vezes perigosas.

Karen chora no ônibus. Não é somente no título. A personagem de fato inicia o filme em lágrimas e é bastante simbólico que isso aconteça em um coletivo. Ela já não tem como segurar o choro reprimido ao longo de dez anos. Não importa se está cercada por desconhecidos, até porque já nem tem um quarto particular. No filme colombiano cabe o verso da canção brasileira ‘lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim’.

O ônibus simboliza uma viagem. Não se trata de subir em um ponto e descer no outro, mas uma viagem sem volta, que abandona uma vida de submissão e falta de reconhecimento para desembarcar em um futuro tão incerto quanto promissor.

Como qualquer viagem a um lugar desconhecido, esse ônibus metafórico passa por caminhos difíceis, em que a opção pelo embarque é questionada, mas a sensação de chegar a um lugar muito melhor do que aquele que ficou para trás é valorosa. Uma pena que nem todo mundo consegue fazer esse tipo de viagem.


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