terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Infância Roubada (Tsotsi)

Um assaltante rouba um carro, levando no banco de trás o bebê da vítima. Já vimos isso acontecer algumas vezes por aqui, porém é esse o fato que conduz o longa do diretor Gavin Hood; uma história desenvolvida na África do Sul, mas que poderia tranquilamente retratar a sociedade brasileira.

O terror de uma pessoa que vê o filho com poucos meses de vida levado por um assaltante é indiscutível, o tipo de sentimento que só sabe realmente o que é aqueles que infelizmente tenham passado pela mesma situação. Mas esse não é o foco do filme. O que vemos é o desenrolar deste fato na vida do protagonista Tsotsi (Presley Chweneyagae), que roubou o carro.

Por vezes diante de um crime de muito impacto vemos opiniões que parecem olhar para os criminosos como isentos de qualquer tipo de sentimentos e qualquer tentativa de análise que fuja de uma condenação simples e draconiana é logo rechaçada. Esse julgamento impiedoso poderia começar a ser construído em relação a Tsotsi, já que no início do filme não sabemos nada sobre sua vida e seu comportamento parece bastante agressivo, entretanto mesmo a partir do ponto de vista mais frio e isento de afetividade, não faria sentido levar um bebê sem se importar com as consequências.

Além de juridicamente a pena por sequestrar uma criança ser muito maior que um roubo de carro, a comoção e mobilização da sociedade em torno de algo que envolva um bebê também é enorme, sobretudo se for de uma família rica como a do filme, o que faz com que as chances da pessoa que cometeu o crime ser descoberta aumentem muito.

É com o desenrolar da história que conhecemos um pouco mais sobre Tsotsi. Vemos que ele está longe de ser um criminoso tão impiedoso e mais que isso, conhecemos sua trajetória até chegar ao mundo do crime. É um modelo de vida bastante frequente. Cotidiano tanto na África do Sul quanto aqui, ilustra o histórico de vida de diversos jovens que tentam ganhar a vida cometendo crimes.

Por mais estranho que possa parecer, nossa noção de crime é uma construção social. Temos valores assimilados desde a infância que abominam certas atitudes e se não nos fazem impassíveis diante de outras, nos deixam ao menos um pouco mais tolerantes. É isso que faz, por exemplo, um sujeito criticar um morador de rua por pedir esmolas ao invés de procurar emprego e, quando chega em casa, assistir à TV a cabo com ligação irregular.

Indo além de um exemplo banal, a tolerância aos crimes maiores também são construídas socialmente. Assim como uma criança que cresça em meio a advogados que constantemente movem processos para resolver desavenças irá assimilar essa prática, uma criança que cresça rodeada por armas, assassinatos e agressões também ira naturalizar esse tipo de violência.

Essa análise visa exatamente à quebra da dicotomia entre bem e mal, portanto não se trata de defender bandido, dar liberdade a criminosos e prender os ditos ‘cidadãos de bem’ em casa ou qualquer outro equívoco do tipo. O fato é que uma cidade com desigualdade social tão grande a ponto de proporcionar a convivência de realidades tão distintas gera conflitos inevitáveis.

No engodo de defender a repressão como forma de inibir a violência, costuma-se deixar de lado a vida extremamente restrita que uma pessoa sem estudo e sem oportunidades terá. Quando muito pegam como exemplo um caso de sucesso, no qual o indivíduo superou problemas homéricos até obter sucesso econômico de maneira honesta e tentam coloca-lo como viável para todos.

Um caso entre milhares é o que Pierre Bourdieu chamava de exceção que serve para confirmar a regra. É falsa a premissa de que a meritocracia resolveria os problemas individuais, dado que a grande maioria trabalha pesado a vida toda para ganhar pouco e não conseguir ascensão social.

Alguns, como Tsotsi, optam por um caminho radical, criticável, mas condizente com a realidade social com a qual estão habituados. Quando desde criança um jovem é cercado por diversos tipos de violência, sem referência familiar e com pouquíssimas perspectivas, é no mínimo inocente acreditar que naturalmente ele irá discernir entre certo e errado, sobretudo quando o ‘certo’ envolve aceitar uma desigualdade que o desfavorecerá durante a vida toda.

Igualmente inocente é a crença de que os que optam pela criminalidade tem uma vida boa ou de alguma forma melhor do que aqueles que trabalham. Basta olhar o índice de mortalidade entre jovens da periferia para ver que a realidade é mais dura do que os preconceitos podem tentar convencer.


Um comentário:

Anônimo disse...

Qual tema é abordado no filme?

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