quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro

Ao lançar o filme Ônibus 174, mostrando a formação de uma pessoa à margem da sociedade, José Padilha já havia anunciado que os próximos passos seriam a formação de um policial corrupto, como vemos em Tropa de Elite, seguido da formação de um político corrupto, para a qual o diretor aproveitou o sucesso do Capitão Nascimento (Wagner Moura) e sua tropa adaptando à continuidade da história a relação de policiais e certos políticos.

Tropa de Elite é um filme simples. Em linhas gerais vemos nas telas um recorte bastante fiel à forma como age tal tropa, ou seja, seleção rigorosíssima para ostentar uma caveira na farda e torturar favelados antes da execução sumária. Não se trata de atirar primeiro e perguntar depois, já que perguntar, para eles, só é válido no momento da tortura, contra a qual lutamos por cerca de vinte anos e pela qual trabalharam políticos posteriormente famosos como Romeu Tuma, ex-chefe do Dops falecido recentemente sem nenhuma punição pela barbárie. O surpreendente é que mesmo a tolerância zero sendo aplicada há anos nas favelas sem nenhum resultado positivo, a leitura de muitas pessoas em relação ao Tropa de Elite foi que a realidade deveria ser como o filme, sem perceber que tal metodologia já vem sendo aplicada sem sucesso.

Difícil dizer o quanto essa leitura surpreendeu o diretor, mas o fato é que a interpretação foi extremamente abrangente, atingindo várias camadas sociais e levando até pessoas ligadas ao cinema, como Arnaldo Jabor, a dizer que quando foi ao cinema ver Tropa de Elite, “queria vingança”. Pertinente deixar claro que pelo trabalho recente do crítico, uma bobagem a mais ou a menos não faz muita diferença. Podemos ver que Padilha trabalhou parte do segundo filme para tentar desfazer certos equívocos, colocando até o professor Fraga (Irandhir Santos) dando uma aula detalhada para mostrar que, continuando a reprimir marginais sem prevenir a formação dos mesmos, teremos em pouco mais de setenta anos toda a população brasileira encarcerada. É óbvio que tal extremo nunca será atingido, mas dificilmente o diretor poderia ser mais didático com os adeptos da simples tolerância zero.

O problema da segurança pública nas grandes cidades tem solução muito mais complexa do que um arsenal de metralhadoras, e o que vemos neste filme é que as próprias origens do crime vão além dos traficantes que dominam os morros. Padilha aborda diversas formas de violência, desde as mais diretas como milícias e continuidade dos policiais corruptos do primeiro filme, até agentes que têm suas ações nos bastidores do crime, como apresentadores sensacionalistas que utilizam o status de formadores de opinião para atuarem como manipuladores de opinião. Chega a ser assustador pensar que o personagem Fortunato (André Mattos) é a caricatura de tantos apresentadores reais como Wagner Montes no Rio ou José Luiz Datena em São Paulo, sendo esse alerta um dos grandes potenciais históricos do cinema.

Ao longo do filme o Capitão Nascimento percebe que os tais vagabundos são a ponta do iceberg, cuja base não pode ser torturada e executada por uma série de fatores. A política, que a princípio deveria ser o primeiro passo para a solução, pode ser um sistema estruturado solidamente para a manutenção do status quo, agradando alguns poucos que conseguem ser beneficiados mantendo a ilusão de que os verdadeiros culpados são os que menos têm poder. É possível notar que após a aula do professor de história o desenvolvimento do filme é outro passo, mais complexo, para desmistificar as interpretações equivocadas do primeiro filme. Os fãs de Tropa de Elite que entraram no cinema e vibraram nas primeiras cenas, com o Capitão Nascimento desconstruindo o trabalho dos favoráveis aos direitos humanos, podem com um pequeno esforço perceber que o personagem evolui desde o começo do primeiro filme até o final do segundo.

A complexidade do Capitão linha dura, que cativa por mostrar também o ser humano por trás da farda e da caveira, contribui muito para o sucesso do filme, assim como para a interpretação do mesmo. Em oposição às cenas de ação que tanto atraem o público, sendo em uma delas quase inevitável a comparação com o hollywoodiano Rambo e sua metralhadora desenfreada, vemos a narração reflexiva de um homem que enxerga os próprios erros, se arrepende de algumas atitudes, se preocupa com a família, ou seja, não é uma simples máquina de guerra.

Inicialmente Tropa de Elite não teria nenhuma sequência, agora Padilha já não nega a hipótese de continuidade. Com mais público e menos polêmica que o primeiro filme – talvez pelo consenso de que os políticos são corruptos ser maior que a forma de atuação da polícia – o diretor indicou os problemas nos bastidores da violência, uma possibilidade para a continuação seria dar um passo a frente na alternância de poder nas favelas. Há pouco tempo muitos acreditavam ser impossível livrar os morros dos traficantes; as milícias provaram ser possível, mas as comunidades apenas mudaram seus credores. Atualmente a nova medida apresentada como mais eficiente pelos políticos – os mesmos retratados em Tropa de Elite 2 – são as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), resta saber se a eficiência do panoptismo, ou seja, o monitoramento onipresente descrito por Foucault, citado no primeiro filme, trará mesmo benefícios ou é mais um engodo como a política de tolerância zero.

A narração do Capitão Nascimento deixa claro o óbvio: a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Resta à sociedade perceber que ela é o lado mais fraco.



2 comentários:

Livea disse...

Olá Alexandre, procurei seu e-mail para enviar um comentário formal sobre este artigo e sobre o blog em geral, no entanto não achei.

Procurando uma crítica sobre o filme ''Her'' - que recentemente assisti -, achei o seu blog. Sou acadêmica de Direito na UFF, e resolvi procurar por uma análise do filme ''Tropa de Elite 2'', pois trata-se de uma temática que tenho discutido muito ultimamente: o poder paralelo nas favelas. Enfim, gostaria de parabenizá-lo pelo excelente texto e também deixar uma sugestão.

Gostaria de ler uma análise sua sobre um premiado peruano que possui uma temática forte, ''A Teta Assustada'', escrito e dirigido por Claudia Llosa.

Até mais!

Alexandre Caetano disse...

Olá!

Que bom que gostou do blog. Faz tempo que quero ver 'A teta assustada', mas fico enrolando. Vou aproveitar e dar uma olhada!

Qualquer coisa, meu e-mail é alex.eap@hotmail.com

t+!

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