sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cópia Fiel (Copie Conforme)

Cinema iraniano é visto no Brasil quase como um signo de filmes chatos e mal produzidos, o que é compreensível em se tratando de produções carentes de tradição e recursos e, sobretudo, com uma cultura bem diferente da ocidental, que aborda temas alternativos com uma concepção de tempo bem diversa. Aqui o diretor Abbas Kiarostami rompe as fronteiras de seu país e apresenta essa produção franco-italiana, que mescla cinema europeu com as fortes influências do diretor iraniano.

O filme é mais lento do que em geral costumamos ver, alguns pontos ganham mais ênfase que o necessário e o enredo é bastante linear, o que costuma desagradar muitos espectadores. Já os planos externos filmados na Toscana, que mais parece um cenário a céu aberto, agradam até os olhares mais desatentos. É em meio aos cenários românticos e inspiradores que Elle (Juliette Binoche) e James Miller (William Shimell) passam a maior parte do filme travando grandes discussões por sustentarem pontos de vistas divergentes em cada detalhe.

James é crítico de arte e foi para a Itália para o lançamento de seu novo livro, Cópia Fiel, no qual defende basicamente que algumas cópias de obras de arte podem ter tanto valor quanto a original. Só este tema já possibilita diversas análises e debates entre artistas, críticos e apreciadores, porém o foco do filme não está em chegar a uma conclusão sobre o valor da cópia de uma obra, mas utilizar essa ideia e as divergências das personagens acerca dela como metáfora para as relações diversas entre as pessoas. Elle é uma personagem mais complexa, pois a comerciante de arte, sempre em busca do original, apesar de fazer de tudo para se aproximar do crítico e agradá-lo, tenta convencê-lo de que sua tese é equivocada. A divergência somada a algumas atitudes nos leva a acreditar que o interesse dela é mais pessoal que profissional. Com a metáfora estruturada – e extremamente desenvolvida na primeira parte do filme – o roteiro começa a fazer um jogo de verdade e ficção muito instigante.

A partir do momento em que são confundidos com um casal em um café passam a agir como casados. Seria uma união verdadeira ou uma cópia? As discussões, até então mais técnicas e voltada para obras de arte, cujo valor é muito subjetivo, passam a ter como tema as divergências de um casamento que já dura quinze anos. Em sua busca pelo significado da vida James acredita ser este a diversão, não importa se através de cópia, desde que esta desperte emoções. A obsessão de Elle pelos originais não é restrita às obras, mas chega aos sentimentos e insiste em impor sempre com muita seriedade seus valores, que para ela são inegavelmente corretos.

Os dois pontos de vista sobre os temas debatidos pelo casal são válidos e bem argumentados, sendo que dificilmente aquele relacionamento poderia ser mantido com harmonia por muito tempo, não por um dos dois estar errado, mas pela divergência latente em relação ao modo como devemos levar a vida. James adota uma postura mais individualist, portanto o relacionamento seria mais distante, sem o compartilhamento total de alegrias e problemas; proposta interessante, desde que para mantê-la durante o casamento as responsabilidades, como a criação dos filhos, não sejam empurradas integralmente para a esposa. Já Elle exige maior comprometimento, exaspera o romantismo e sente falta de mais atenção do companheiro; proposta interessante, não fosse a imposição de comportamento e de sentimentos por parte da personagem, quase como se tudo que é diferente dela não tivesse valor, tal qual uma cópia da obra de arte original, segundo sua concepção.

Diferente do cinema ocidental, com enredo fechado e conclusões prontas, Kiarostami apresenta um diálogo bastante linear, mas que não oferece um final fechado e que suscita a reflexão. Os dois formam um casal ou uma cópia fiel? O que caracteriza um casal original? O que caracteriza um sentimento original? Em geral, costumamos colocar nossos sentimentos e nossas expectativas como originais e corretos, mas lidamos muito mal com as situações em que se invertem os vilões e heróis.

Sem trailer legendado  =/


Um comentário:

Drêycka disse...

Olá. Tive uma percepção diferente do filme e vim aqui compartilhar. Segue o link do meu blog, para o post que falo do Copie Conforme: http://dreycka.blogspot.com.br/2012/10/copie-conforme.html

Espero que leia e deixe lá sua opinião a respeito.

Abs,
Aldrêycka

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