terça-feira, 6 de outubro de 2015

Que Horas Ela Volta?

A atual relação entre patrões e empregadas domésticas tem raízes antigas em nosso país. Desde a época da escravidão os patrões mantinham empregadas destinadas a servi-los em cada detalhe do cotidiano. Esta obra da diretora Anna Muylaert mostra uma transição na forma como empregados e patrões se relacionam, ainda que persistam algumas características extremamente anacrônicas que demonstram uma exploração explícita, porém tão naturalizada que muitas vezes sequer é notada.

A protagonista Val (Regina Casé) representa brilhantemente um estereótipo mais antigo da empregada doméstica, que é o sonho de muitos patrões que buscam uma serva ao invés de uma trabalhadora. Val é extremamente dedicada, atenta aos mínimos detalhes, e é prestativa desde quando precisa servir um copo de água aos patrões até quando precisa ser quase uma babá do adolescente Fabinho (Michel Joelsas).

Ela vive um cotidiano determinista, no qual ocupa um local muito bem delimitado. Suas aspirações não vão além de mandar dinheiro para a família que ficou no nordeste e comprar alguns bens de consumo para mobiliar o quarto minúsculo relegado a ela em um canto externo da mansão suntuosa dos patrões.

Esse destino traçado ao longo dos séculos de escravidão que formaram nossa sociedade é interrompido quando a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), chega a São Paulo para prestar vestibular. A simples pretensão de cursar arquitetura em uma universidade pública já quebraria a expectativa de uma sociedade estratificada, na qual a filha de uma empregada nunca teria acesso a um emprego muito melhor que o da mãe.

Além disso, tendo tido acesso à educação e cultura, a menina tem uma postura social muito distinta daquela que sua mãe espera. Para Jéssica é um absurdo a mãe morar no serviço, principalmente morar em um cubículo de uma casa tão grande e vazia. Seus sonhos não são restritos ao consumo de bens e eletrodomésticos pagos em infinitas prestações.

Jéssica tem consciência de que o papel de cada um dentro daquela casa nada tem de natural, sendo somente uma perpetuação de uma sociedade similar às castas indianas, nas quais um indivíduo não pode de forma alguma ascender socialmente. Hoje, graças a um período mais longo de prosperidade econômica, muitos vivem uma situação semelhante à de Val e Jéssica, ou seja, jovens que não precisaram começar a trabalhar tão cedo, tendo a possibilidade de uma educação melhor, desenvolveram uma visão mais crítica do meio em que vivem.

É evidente que o cenário está longe do ideal. O fato de a menina prestar o vestibular almejando uma universidade pública já é um grande passo quando comparado ao cenário tradicional da relação entre patrões e empregados, porém ainda não existe a menor possibilidade de pensarmos em igualdade de condições. Basta uma olhada rápida para a família que emprega Val para notarmos o abismo existente entre os personagens.

Em uma situação como essa é recorrente o argumento de uma suposta meritocracia, que justificaria a posição social privilegiada de uns em detrimento de outros. Porém Carlos (Lourenço Mutarelli), o patriarca da família, deixa bem claro que vive da herança que recebeu de seu pai e atualmente não precisa trabalhar para sustentar a família.

Se por um lado suas atitudes demonstram uma vida vazia por trás de todo o luxo e conforto de quem vive de renda, por outro notamos um resquício latente de coronelismo naquele que, por sempre ter acesso a tudo o que quer, acredita ser onipotente, sem perceber que não há mérito algum em suas ações, mas apenas um poder financeiro que felizmente já não tem a força do passado.

O desdobramento da emancipação econômica é claramente demonstrado pela postura de Jéssica e os efeitos são espalhados pouco a pouco, quando a menina vai mostrando, às vezes de forma conflituosa, para a mãe como algumas atitudes dentro da casa não fazem sentido. Tudo isso é possível graças ao rompimento gradual – muito mais lendo do que o necessário – de barreiras sociais responsáveis pela manutenção de uma classe muito restrita no topo da pirâmide econômica.

Agora o desafio é impedir retrocessos advindos de crises econômicas, que sempre são mais custosas aos mais pobres, e garantir que jovens como Jéssica tenham não somente acesso ao estudo, mas condições de uma inserção real no mercado de trabalho. Diferente do que muitos insistem em tentar argumentar, isso não significa um privilégio. Privilégio têm aqueles que não precisam levantar do sofá sequer para pegar um copo d´água.


2 comentários:

Lílian Elen disse...

Faz uma crítica sobre o filme polonês, Sala Samobojców?

Alexandre Caetano disse...

Nunca vi, mas gostei da sinopse! Vamos ver se sai alguma coisa =)

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