segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tempos de Paz

A II Guerra já havia terminado na Europa, mas no Brasil o clima tenso e a grande precaução em relação aos imigrantes continuavam. Funcionários do governo, responsáveis pela emissão dos vistos, aguardavam por “novas diretrizes em tempos de paz”. Este é o tema e o título da peça de Bosco Brasil que deu origem ao longa “Tempos de Paz”. O filme dirigido por Daniel Filho (que também encena o Dr. Penna, personagem apenas citado na peça e mais enfatizado no filme) tem forte presença de elementos do teatro. O roteiro sofreu poucas alterações em relação à peça e a maior parte do trabalho é focado no diálogo de Segismundo (Tony Ramos) e Clausewitz (Dan Stulbach).

Clausewitz é o polonês que, como tantos outros, chegou ao Brasil depois da guerra com a imagem de um país perfeito, alegre, pacífico e livre dos horrores desumanos que ele presenciou na Polônia. Aprender o português foi uma forma de ocupar a mente e esquecer o passado recente, pois agora sua vida seria como agricultor no país que “precisa de braços para a lavoura”.

Segismundo é o chefe da imigração na Alfândega do Rio de Janeiro. Um ex- torturador que cumpre qualquer ordem que os superiores determinarem sem nenhum questionamento ou reflexão quanto à viabilidade das mesmas. A fase de transição pela qual o país passava atingia em cheio o oficial, pois o presidente Getúlio Vargas havia anistiado os presos políticos e Segismundo temia vinganças. Ao mesmo tempo ainda não tinha recebido novas instruções devido ao fim da guerra e ainda aplicava as mesmas regras aos imigrantes recém chegados.

Neste cenário ocorre o encontro dos dois personagens e fica evidente o abismo que existe entre um homem culto, que aprendeu muito através do sofrimento pelo qual passou e outro que cresceu em um orfanato, sem contato com a família, cujo único preparo foi para obedecer ao que lhe era ordenado. Segismundo mostrou a Clausewitz que nosso país não estava sequer próximo do que era idealizado pelo polonês e que infelizmente os horrores de uma guerra não estavam restritos aos países diretamente envolvidos no conflito. A única autonomia que Segismundo demonstra é quando sugere que se Clausewitz conseguir fazê-lo chorar em dez minutos conseguirá o tão sonhado visto. Para saber se o ex-torturador que sempre demonstra extrema frieza chorou é necessário assistir ao filme, mas no cinema não faltaram lágrimas aos que assistiam. O curioso é como cenas tensas e emotivas são quebradas com repentino humor muito bem dosado, que mostra a versatilidade dos atores.

Além de uma parte importante da história do Brasil e do valor dos imigrantes parcialmente retratados no filme, é curioso pensarmos a submissão dos oficiais diante de qualquer ordem emitida. Tempos de guerra mostram o extremo de um comportamento cotidiano em que não importa o horror da ordem emitida, suas consequências ou seu contexto, sempre haverá um ser humano capaz de executá-la. Em certa parte do filme, após um imigrante questionar a forma como estavam sendo tratados a resposta obtida vinha no sentido de que o tratamento poderia ser muito pior, como se este argumento justificasse os maus tratos.

Em um contexto radicalmente diferente, com implicações bem distintas, mas com a mesma postura dos que cumprem as ordens, lembrei de um evento ocorrido há poucos meses, ainda este ano. Em uma manifestação de estudantes dentro da universidade, lutando pela qualidade da mesma, estudantes foram atacados com bombas, gás de pimenta, cassetetes e tudo mais. Quando uma manifestante gritou que aquilo era uma ditadura o comandante da ação respondeu que os estudantes têm sorte, pois na ditadura eles resolveriam na bala.

Dois exemplos que, apesar de magnitudes bem distintas, mostram a mesma submissão de oficiais em um intervalo de mais de sessenta anos nos fazem pensar no treinamento despendido aos que supostamente deveriam garantir a ordem de uma sociedade. A submissão irracional é mesmo o melhor comportamento, ou o senso crítico capaz de julgar se a ordem é viável diante de determinada situação produziria melhores resultados? Clausewitz questiona a utilidade do teatro depois de todos os horrores presenciados na guerra. Esta utilidade é dada por cada um que assiste ao filme, mas fiquei pensando se a cultura de uma forma geral não seria capaz de impedir que um ser humano seja capaz de declarar guerra ou torturar um desconhecido.


3 comentários:

Creuza Moura disse...

Adorei este filme. Depois desta primorosa resenha não tenho muito a acrescentar. a direção de arte merece um comentário, pois com poucos elementos de cena nos brindam com momentos belissímos.

BOCA NO TROMBONE disse...

o FILME ABORDA A "BANALIDADE DO MAL" RETRATADA EM NOSSO COTIDIANO. TÃO BEM ESTUDADA POR HANNAH ARENDT CUJA VISÃO TRANSCENDE O TEMPO E SE PERDE NA HISTÓRIA HUMANA INCESSANTEMENTE NOS QUESTIONANDO: "QUEM SOMOS NÓS"

MARCOS TYMINSKI

Luciano Cordier disse...

Um dos poucos filmes nacional que vale apenas assistir.

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