terça-feira, 15 de junho de 2010

O banheiro do Papa (El baño del Papa)

A parceria entre Brasil, França e Uruguai nos trouxe essa obra dirigida por Enrique Fernandez e Cesar Charlone, que mostram a fictícia visita do papa João Paulo II à pequena cidade de Melo, no Uruguai. O evento mexe com o cotidiano pacato dos pobre habitantes locais que costumam ter hábitos simples e uma rotina pouco chamativa.

A fonte de renda mais comum é a dos bagageiros que viajam até Aceguá, no Brasil, para contrabandear mercadorias para consumo local. A grande maioria deles fazem a longa viagem de bicicleta, sendo que poucos afortunados podem contar com uma motocicleta para, além de facilitar o trabalho, aumentar a renda devido a maior rapidez do serviço. A grande dificuldade dos bagageiros está na barreira montada na estrada pelo exército, para controlar o fluxo de mercadorias, obrigando um desvio no trajeto que já não é curto. Quando parados pelos militares, podemos ver os bagageiros humilhados pelos soldados, menosprezando seus serviços, vangloriando o exército e mostrando o legalismo exacerbado ao deixar claro que poderiam passar sem problemas pelas trilhas, mas não pela estrada, onde o exército é solicitado para fazer vigia. O problema pelas trilhas é o que seria o “rapa” local, que também confisca mercadorias.

Quando a visita do Papa se aproxima, os habitantes com forte tradição religiosa não ficam felizes pela oportunidade de serem abençoados pelo pontífice, mas pelos turistas brasileiros que o evento traria. A maioria dos habitantes sacrificaram todas as economias, muitos venderam seus bens para comprar comida e improvisar barracas para a venda de sanduíches, tortas e diversas outras iguarias para os supostos milhares de turistas. É interessante pensarmos que a religião está fortemente ligada aos centros comerciais, desde a Idade Media que unificava os cruzamentos de rotas comerciais com centros religiosos, dando origem à muitas cidades importantes, até os dias atuais, com cidades como Aparecida do Norte, onde uma espécie de indústria religiosa é formada ao redor do templo que atrai tantos fieis.

Em Melo a família que guia a história tem como patriarca o bagageiro Beto (Cesar Troncoso), que com sua simpatia inigualável chega a lembrar Ramón Valdez, o eterno Seu Madruga. Beto não chega a se empolgar com a ideia de vender comida aos turistas, mas em meio às dificuldades econômicas pensa em ganhar dinheiro com a visita do Papa construindo um banheiro. A ideia inusitada ganha legitimidade no contexto de uma cidade extremamente pobre e simples, retratada pelos cineastas com cores bastante pálidas ao longo do filme, o próprio banheiro da casa de Beto é uma precária casinha de madeira fora da casa.

Carmen (Virginia Mendez) é a esposa de Beto, contrária à ideia de ganhar dinheiro com o evento religioso. Seus princípios éticos indicam que isso seria passível de alguma punição divina e isso ressalta a supremacia do capital frente à espiritualidade, pois toda religiosidade latente da população fica em segundo plano diante da possibilidade de uma vida melhor. A vizinha de Carmen indica que castigo maior que o de Deus são os políticos que governam a cidade. A crítica não é em relação à atitude dos habitantes, mas um alerta em relação à maior necessidade de condições de vida digna do que instituições ligadas à espiritualidade.

Beto vê sua filha Silvia (Virginia Ruiz) sonhando ir para Montevidéu para concluir os estudos e ser jornalista, ele ainda vislumbra uma motocicleta para facilitar as longas viagens e dar descanso ao joelho prejudicado após tantas pedaladas e como qualquer pai de família, gostaria de dar uma vida mais confortável aos que dele dependem. É através de um banheiro para alugar aos turistas que ele tentará realizar seus sonhos, mas ainda é necessário comprar material e construir um sanitário em seu terreno, e isso não é nada fácil, já que a esposa não é favorável a utilizar as poucas economias que seriam destinadas aos estudos de Silvia. Até onde Beto estaria disposto a chegar para conseguir o dinheiro para a construção é o que vemos no longa e a pergunta que fica é até que ponto podemos censurar qualquer atitude do uruguaio, que como tantos outros da cidade entregaram suas vidas na tentativa de ascensão através da curta visita do Papa.

Os moradores que investiram no comércio para aquele dia teriam elementos para identificar um suposto exagero nas expectativas em relação à visita, ou foram fortemente estimulados pela mídia que sempre se esforça em construir a grandiosidade, mesmo que em eventos modestos? É possível indicar uma leve semelhança com Tropa de Elite, pois em ambos fica implícito que uma visita do Papa é indicada sempre como perfeita, repleta de paz, felicidade e espiritualidade. Mas os bastidores nunca são mostrados. Evidentemente que a comparação entre os filmes para por aqui.

Como já é indicado no início do filme, só o azar impediu que os fatos relatados na obra acontecessem de verdade, pois os elementos de fato são plausíveis. A fé em segundo plano diante das necessidades materiais, a ética posta de lado diante de uma condição extrema, a limitação – para não dizer inutilidade – de uma visita papal para uma população carente diante de suas reais dificuldades, todos os elementos que podem ser identificados em qualquer visita real.

Um filme simples, com momentos engraçados e que consegue unir diversos pontos criticáveis de uma sociedade que demanda tantos direitos e atenção.


Um comentário:

Yadira Cervantes disse...

Dos filmes de que eu gosto. O personagem ator César Troncoso meu favorito. A verdade é que eu recomendo este filme para quem ainda não viu.

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