terça-feira, 22 de novembro de 2011

Os Infiltrados (The Departed)

O filme tem como base da trama agentes da máfia e da polícia infiltrados no campo de ação dos adversários. Atuar em um campo com o qual não se tem familiaridade e mesmo assim não ser descoberto é praticamente impossível, pois são tantos detalhes que podem denunciar a falta de familiaridade com o ambiente que apenas quem conhece as nuances de um determinado campo poderia ser capaz de fingir, ainda que com certa dificuldade, naturalidade naquele meio.

Assim o mafioso Frank Costello (Jack Nicholson) colocou em prática um plano que teria resultados em longo prazo, treinando Colin Sullivan (Matt Damon) desde a infância para que ele pudesse se tornar policial e servir de informante sobre os planos policiais em relação à máfia. Pelas cenas do filme é possível notar a formação diversificada por parte de Sullivan, cuja socialização contou com elementos religiosos quando era coroinha, métodos dos mafiosos como cobrança de propina de comerciantes, a instrução persistente de Costello de que os homens fazem seus próprios caminhos e também uma cultura bastante refinada, que fica latente quando o personagem valoriza vestir terno ao invés de uniforme policial, ou quando lamenta o restaurante não servir pato com laranjas. Com isso vemos grande capital cultural nas atitudes do personagem.

Apesar de ter crescido junto à máfia, Sullivan não é um criminoso vulgar e suas ações têm violência velada, pois foi socializado para agir dentro da polícia com atitudes baseadas sempre na inteligência e postas em prática com muita calma e sutileza. É possível perceber que o habitus do personagem gira em torno de tomar as atitudes corretas, devidamente pensadas e muito bem articuladas para que suas metas sejam atingidas, ou seja, trilhar um caminho por onde deve seguir.

O sucesso do plano de Costello, de infiltrar um agente na polícia, é claramente consolidado diante da facilidade e rapidez com que Sullivan inicia seu trabalho na polícia e destaca-se como homem de confiança. O agente não foi socializado para ser um policial qualquer, mas para executar serviços de inteligência, baseados na perspicácia e astúcia, de forma que em nenhum momento alguma suspeita é levantada contra ele. Mesmo quando a antipatia dos outros policiais é despertada ele dribla as adversidades com a prepotência de quem foi treinado para ter poder e saber utilizá-lo a seu favor.

O agente infiltrado na máfia pela polícia é Billy Costigan (Leonardo DiCaprio). Ainda que não tenha sido proposital como no caso de Sullivan, ele também foi criado em um ambiente, pois a família era de mafiosos, e tentou ingressar em outro, já que queria ser policial. Aparentemente seria a mesma trajetória para os dois, porém a socialização de Costigan não tinha como objetivo colocá-lo na polícia, de forma que esta inserção em um campo com o qual não tinha familiaridade, diferente de Sullivan, foi problemática desde o início.

O sargento Dignam (Mark Wahlberg) deixa claro que Costigan tinha origem irlandesa, foi criado no sul e membros de sua família eram ligados à máfia, ou seja, totalmente contrário ao indivíduo traçar seu próprio caminho e excluindo a academia de polícia do campo de possibilidades do personagem. Talvez a hostilidade por parte de Dignam foi encenada apenas para colocar como única opção para ser policial o ingresso na máfia como agente infiltrado, pois ninguém mais indicado para o serviço do que alguém que tem todo o capital social necessário para aproximar-se do chefão da máfia.

Este trabalho não era exatamente a forma com que Costigan pensava em ser policial, mas acabou sendo a única possível. Provavelmente a vontade de combater a máfia motivou o personagem a aceitar o serviço, mas em pouco tempo a meta passou a ser salvar a própria vida, já que se Sullivan fosse descoberto provavelmente seria preso, e se ele fosse descoberto sem dúvida seria morto.

O capital social de Costigan permitiu fácil aproximação da máfia e seu capital cultural fez com que a identificação com o chefão Frank Costello fosse quase imediata. O comportamento agressivo do personagem é notado em várias ocasiões, mesmo que não haja motivações profissionais, ou seja, Costigan foi socializado em um meio bastante hostil e violento, tendo consolidado o habitus de resolver os problemas através da violência física. Mesmo tendo que pensar rápido e agir friamente, com muita inteligência da mesma forma que Sullivan, o comportamento dos personagens fora do ambiente de trabalho demonstra habitus quase opostos, pois a educação e polidez de Sullivan contrastam com a agressividade de Costigan, sendo que o primeiro foi treinado conforme já discutido, e o segundo apenas teve que desenvolver técnicas para sobreviver em um ambiente nada amistoso, onde impera a lei do mais forte.

Em uma cena que deixa implícita a diferença de formação, Costello reconhece a importância da escola, logo é possível deduzir que a instituição teve grande peso na formação de Sullivan, porém Costigan indica não ter interesse, assim com base nas teorias de Bourdieu é possível notar que a escola não teve tanta influência na socialização do personagem. O que é claramente perceptível é que por mais chocante que seja o comportamento dos mafiosos Costigan consegue agir com a naturalidade necessária para que não levante suspeita. Ainda que reconheça o horror da barbárie ele consegue manter o controle e expressa isso para a psicóloga, quando diz que o coração pode disparar, mas as mãos não tremem.

Ao longo do filme notamos que os objetivos dos dois infiltrados são bastante semelhantes, porém Sullivan mostra-se muito mais tranquilo em seu trabalho, enquanto Costigan vive em uma tensão constante, prestes a explodir. Isso é compreensível ao pensarmos que Sullivan exerce o papel para o qual foi preparado durante toda a vida, logo sente a consagração de um trabalho em suas atitudes. Costigan vive a situação contrária, pois não é exatamente um policial como gostaria de ser, não é um mafioso mesmo inserido dentro da gangue de Costello, e quando conquista Madeleine (Vera Farmiga) ele não é mais que um amante, portanto foi uma ótima opção do diretor Martin Scorsese mostrar a cena do casal com um cover da música “Confortably Numb”, pois em todas as situações da vida de Costigan ele não é muito mais que uma versão do original.

Apesar de serem campos relativamente semelhantes, máfia e polícia possuem no filme diferenças relevantes, assim como a formação dos dois agentes. Uma delas é a insubordinação da máfia ao estado, pois ainda que os mafiosos tenham suas próprias leis, punido os transgressores de maneira muito mais severa que o estado, o chefe da máfia não precisa prestar contas de suas atitudes e pode agir arbitrariamente. Já a polícia deve agir dentro de seus limites, de forma que mesmo sabendo dos crimes da máfia, não possui meios de incriminar Costello sem provas claras.

Em consequência disso, como já foi mencionado, Costigan sofre muito mais pressão para ser perfeito em suas atitudes, pois para a máfia não há outra punição além de assassinato, muitas vezes precedido de tortura. No caso de Sullivan qualquer tipo de punição envolveria uma série de direitos por parte do acusado, cujos quais a polícia não tem meios legais de violar.

Outra diferença é que a máfia age exclusivamente em prol da própria máfia, visando o lucro independente dos meios que precisam ser seguidos para atingi-los, já a polícia do filme não visa interesses pessoais e não há cenas que mostrem negociação com mafiosos, subornos ou algo do tipo, apenas a meta de combate a máfia. Ainda que muitas técnicas sejam parecidas, há a diferença dos objetivos.

Um ponto curioso do filme é a forma como a origem irlandesa dos personagens é tratada. Muitas vezes essa origem é depreciada pelos próprios personagens irlandeses, ou seja, eles podem ter os valores consolidados por suas famílias, mas caem em contradição por pretenderem ascensão negando as próprias origens. Apesar de não existirem elementos sobre a formação do mafioso, supomos que sua socialização o levou à máfia, porém suas atitudes influenciam no meio em que vive, forçando mudanças estruturais no campo da máfia.

Com um enredo baseado em tantos detalhes, em que qualquer passo em falso poderia desencadear uma série de reações adversas, é natural que as tensões acumuladas venham a explodir. O enredo extremamente bem amarrado é mais uma grande obra de Scorsese, um dos gênios do cinema, que é capaz de fornecer em uma única obra inúmeros elementos de análise. Sem revelar detalhes do final do filme, uma possível dúvida – independente de como ele termine – é se Sullivan e Costigan poderiam viver como policial e mafioso de forma definitiva.

Sullivan teria condições para isso, afinal ficou muito tempo trabalhando na polícia sem despertar suspeitas. Porém ele teria que reestruturar sua vida, que foi toda destinada para ser infiltrado na instituição e identificar informações relevantes à máfia. Provavelmente essa efetivação seria mais fácil para Costigan, que almejava a inserção em um campo desconhecido, para o qual não estava plenamente preparado e que logo no início sofreu grande rejeição.




Um comentário:

Lana Zanchi disse...

Ótima análise. Adorei esse filme.

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