terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Era uma vez eu, Verônica


A personagem do título, interpretada por Hermila Guedes, traz à tela a vida da médica psiquiatra recém-formada, que trabalha como residente em um hospital de Recife e passa a ter que viver na prática a relação nem sempre harmoniosa entre médico e paciente. Mais que isso, o diretor Marcelo Gomes apresenta as angústias de uma Verônica ora médica, ora paciente, que se vê subitamente imersa em um oceano de dúvidas quanto à carreira e à vida, além de uma série de problemas que surgem para deixar as escolhas ainda mais difíceis.

Cursar medicina tradicionalmente remete à condição privilegiada, que coloca o profissional em relação de superioridade ao paciente – profissional, social, econômica, etc. Apesar de não ser de uma família rica, Verônica tem estabilidade econômica e mora com o pai, José Maria (W. J. Solha), que vive entre a alegria de ver a filha formada e a angústia de lidar com uma doença, que faz com que sua vida esteja no fim.

A doença do pai é um dos problemas externos com o qual Verônica deve lidar de forma solitária. Sua formação é uma de suas crises internas. A graduação é um período marcante na vida de qualquer um, mas o período de provas e trabalhos, atenuados por festas e amigos, chega ao fim jogando subitamente o até então estudante em um mundo prático, onde nem sempre a teoria do curso é suficiente.

A vida de festas com a qual a nova médica estava habituada não é nem um pouco condizente com a realidade de um hospital público, com poucos recursos e que abriga pacientes que muitas vezes, além da patologia clínica, apresentam uma carência de atendimento que é acumulada, graças ao descaso dos serviços públicos.

Não bastasse a doença do pai, o choque de realidades e a mudança no cotidiano – de estudos para atendimento – Verônica é uma psiquiatra, ou seja, seus diagnósticos geralmente não são condicionados a um exame laboratorial que irá indicar o medicamento e sua posologia. A médica depende do diagnóstico clínico, por vezes difícil e auxiliado pela experiência prática, que ela ainda não tem.

Um grande diferencial da protagonista é que apesar de se dizer fria e sem emoções, suas atitudes mostram o contrário. Com seu pai era de se esperar que houvesse mesmo grande atenção, corroborada pela ausência da figura materna, porém mesmo no hospital, com seus pacientes, Verônica dribla as dificuldades, crises e inexperiência com uma característica que muitos médicos acabam perdendo, com o olhar viciado que se desenvolve ao longo da prática profissional: a atenção ao paciente.

Na verdade a única frieza que a personagem tenta defender, sem muito empenho, é o distanciamento de sua vida pessoal durante uma consulta, tentando se afastar de seus problemas ao ouvir os lamentos, nem sempre remediáveis, de seus pacientes. A parte disso, Verônica é passional na medida necessária para fornecer, como profissional, a atenção e a resolução de problemas maiores do que uma consulta pode suportar.

Alguns serão complacentes com o sentimento de inadequação vivido pela médica, neste período de transição entre os estudos e a vida profissional. De fato este passo nem sempre é natural. Porém o grande destaque da personagem é sua postura que não se desvincula do paciente. Diferente de muitos profissionais da vida real, que provenientes de uma classe social extremamente privilegiada carregam certos conceitos que os fazem sentir-se superiores aos pacientes, por vezes tratados como se fossem verdadeiros incômodos em suas vidas, ela se reconhece em muitas angústias e medos daqueles que são atendidos.

Tanto diante dos problemas dos pacientes quanto em diante de suas próprias dificuldades, Verônica faz o que é possível em relação aos males que nem sempre têm cura. Na melhor das hipóteses a solução viria de uma reestruturação, que para quem é atendido no hospital, seria muito maior do que uma consulta pode proporcionar, mas ao menos para a médica, parece ser de fato uma fase – ruim, angustiante e que demanda tempo para ser resolvida.

É de se esperar que aos poucos os problemas de Verônica sejam resolvidos e que com a prática suas consultas fiquem mais seguras. Intercalando decepções com atividades bem mais prazerosas, como os amigos, o namoro (ainda que forçado), a música, a personagem parece considerar a hipótese de luz no fim do túnel. O que seria realmente conveniente é que ela mantivesse o profissionalismo e a atenção com que olha seus pacientes, atendendo cada um como se fosse o primeiro, mas com a experiência benéfica para a análise clínica.


4 comentários:

João Canossa disse...

Boa crítica! Parabéns!

João Canossa disse...

Boa indicação...

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pela visita =)

Alex disse...

Filme muito bom. Diante da morte e do amor padronizado: o não levar as coisas tão a sério; também o ser humano do sexo feminino que tem direito ao prazer, tanto quanto o do sexo masculino. Panfletagem linda do feminismo.

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