terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Com mais uma trama marcada pela tensão entre personagens nada nobres, o diretor Martin Scorsese entra no mundo milionário das ações de Wall Street através do jovem e exímio vendedor Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio). A ascensão do protagonista é rápida e o ritmo frenético do filme ajuda a da a impressão de que o sonho de ficar milionário aconteceu de repente para Belfort.

Inversamente proporcional à fortuna, os escrúpulos vão diminuindo à medida que o personagem atinge seus objetivos e funda a corretora Stratton Oakmont. Apesar do filme ser baseado em uma história real, é possível traçar um bom panorama sobre a história econômica recente dos EUA e sua relação com investidores, utilizando este como um estudo de caso.

A carreira de Belfort começou em uma pequena corretora, cujas ações valiam centavos e a comissão chegava a 50%. O problema é que negociavam papéis de empresas de fachada, que não valiam sequer centavos, que dirá os milhares de dólares que o hábil vendedor arrancava dos clientes.

Este foi basicamente o estopim para a quebra da bolsa em 1929, quando, resumindo ao extremo, a economia norte americana cresceu tanto para reconstruir a Europa do pós-guerra, que quando o velho continente se recuperou os estoques de mercadoria dos Estados Unidos foram sustentados por ações sem valor, que ao começarem a quebrar geraram uma reação em cadeia.

Apesar das crises econômicas serem cíclicas, é muito difícil que a bolsa de valores repita este erro. As empresas de fachada continuam sendo criadas e, como vemos no filme, não faltam compradores que se atolam em dívidas com a ilusão de enriquecer através de papéis sem valor. Porém os governos estão menos inocentes em relação à especulação.

Em meio ao bom humor com que o assunto é tratado por Scorsese, ora com uma ironia fina, ora com atuações escrachadas, vemos que o equilíbrio de poderes entre corretores e investigadores é tênue, extremamente tenso e por vezes beira as explosões de violência recorrente em outras obras do diretor. Aqui os impasses são mais psicológicos.

O lobo do título remete à voracidade com que Belfort encara seus negócios, desde as primeiras vendas até as palestras motivacionais para seus funcionários. Mas comparando com o comportamento dos investigadores, é possível dizer que entre esses lobos não há cordeiros.

Seria louvável que o FBI agisse de forma a proteger aqueles que investem a economia de toda uma vida em ações que não valem nem um centavo, porém a preocupação gira em torno de proteger o próprio mercado. Indiretamente cumprem o papel de agir em prol da população, pois ações descontroladas, como a história ensina, podem dar prejuízos para todo o país, porém pouco é feito diretamente em relação aos pequenos investidores.

A postura de tolerância seletiva em relação aos crimes por parte da polícia norte americana pode ser verificada também através de algumas nuances do filme. Belfort e seus sócios justificam o estereótipo de corretores viciados. Todos se entopem de álcool, barbitúricos e cocaína. Que muitos milionários fazem uso de drogas ilícitas não chega a ser um grande segredo, porém a repressão neste mercado é muito mais forte em relação aos fornecedores, traficantes de países subdesenvolvidos e as ‘mulas’, que se arriscam para levar a droga aos EUA. Ainda que esta não seja uma polêmica debatida pelo filme, vale a pena indicar os desdobramentos de um crime.

Por parte daquele que comete o delito, parece quase inevitável e universal a sedução que o sucesso econômico exerce. O poder que acompanha o dinheiro é a combinação para que a ambição não veja limites, porém eles existem mesmo entre os milionários. Ultrapassá-los com cautela pode dar direito a correções, porém a cautela não é uma característica daqueles que vivem do mercado imprevisível de ações.

Toda a rede de delitos do filme é baseada no campo econômico, o resultado não é evidente. Diferente de assassinatos, agressões, etc. os crimes financeiros não deixam sangue e suas consequências são difusas, abstratas, deixando uma camada de verniz sob seu formato ilegal.

É possível procurar culpados objetivos. Subornos, complacências, falta de caráter entre tantos fatores identificáveis, porém o inegável é que todo o sistema econômico mundial gira em torno de falso capital. Ações que da noite para o dia podem levar seus acionistas à ruína ou à glória sem que nada seja produzido fisicamente.

Os governos tentam intervenções que não rompam com a tolerância em relação aos crimes mais convenientes, porém é inevitável que periodicamente algum vulcão do mercado entre em erupção. O caso mais grave até hoje foi a quebra da bolsa em 1929, o mais recente foi a crise do setor imobiliário em 2008. Quando será a próxima crise é tão imprevisível quanto as tendências do mercado.


2 comentários:

Lana Zanchi disse...

Olá meu admirável amigo.....como sempre você dá um show esplanativo, tornando mais compreensível um assunto complexo como a bolsa de valores, que mesmo tendo estudado, superficialmente, na faculdade, ainda é difícel pra mim. Com certeza quero ver este filme com assunto tão contemporâneo e de um diretor que sempre tem algo para nos surpreender. Estive afastada porque me mudei e aos poucos retomo minha rotina. Obrigada e até mais.

Alexandre Caetano disse...

Eu que agradeço!! Só acho que o show é do Scorsese, não perca =)

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