terça-feira, 15 de julho de 2014

Hoje eu quero voltar sozinho

Em 2010 o curta-metragem ‘Eu não quero voltar sozinho’, do diretor Daniel Ribeiro, chamou a atenção pela qualidade e pelos temas abordados. Deixou também espaço para que a história fosse desenvolvida e a trama fosse aprofundada. Felizmente o material foi complementado por este longa-metragem, que não apenas chama a atenção para o cotidiano de um adolescente cego como ainda mistura a descoberta da sexualidade nesta conturbada fase da vida.

O protagonista Leonardo (Guilherme Lobo) é cego desde que nasceu. Sem memória visual, o adolescente frequenta uma escola comum e precisa apenas de algumas adaptações para que sua vida seja bastante próxima à de seus colegas. Claro, ele sempre precisará da máquina para escrever em braile, além de uma ou outra ajuda cotidiana, mas no filme o maior obstáculo para Leonardo acaba sendo sua própria mãe.

É compreensível que a proteção materna, que frequentemente ultrapassa os limites do necessário, ganhe corpo quando o único filho chega à adolescência – fase naturalmente contestadora e conflituosa – demandando liberdade e autonomia, independente de sua deficiência. O problema é quando o pretenso cuidado materno se transforma em empecilho.

Em seu dia-a-dia Leonardo conta com a ajuda de Giovana (Tess Amorim) para as atividades na escola. A amizade faz com que essa relação de ajuda seja reduzia a atos cotidianos, que parecem não estigmatizar a deficiência visual. Essa naturalidade é quebrada pela presença do bullying, praga escolar que apesar de antiga, frequente e grave, ainda conta com a condescendência de professores e diretores.

A chegada de Gabriel (Fabio Audi), novo aluno na sala, é a inclusão de um elemento diferente na amizade entre Leonardo e Giovana. O primeiro ponto que chama a atenção no personagem são as gafes bastante comuns por parte daqueles que não costumam ter contato com determinada deficiência. Muitos desses deslizes parecem absurdos quando vistos de fora, mas são inevitáveis em um primeiro contato.

Construindo aos poucos uma relação de empatia entre personagens e telespectador, nos envolvemos com a história a ponto de compreender um pouco melhor o descontentamento que algumas vezes os deficientes visuais demonstram diante de uma tentativa de ajuda. Costuma ser muito evidente que a intenção de ajudar é uma atitude bastante nobre, o que nem sempre percebemos são os sentimentos do indivíduo que não rejeita a ajuda por arrogância ou algo do tipo, mas simplesmente por buscar sua autonomia. Quantas vezes não temos que nos esforçar para manter a diplomacia diante de uma situação social que nos desagrada?

Finalmente, o que faz com que o filme salte do cotidiano de um adolescente cego – que já não seria pouca coisa – para uma obra bem desenvolvida e trabalhada com muita sensibilidade, é o desenvolvimento dos sentimentos ao longo da adolescência. A ausência da visão acaba obrigando a apuração dos outros sentidos para suprir uma deficiência, assim Leonardo está exposto a todas as dúvidas, angústias e problemas de todos os seus amigos; a deficiência visual acaba nos mostrando caminhos diferentes dos que estamos habituados a seguir, mas que talvez levem aos mesmos locais.

Relacionamentos nunca chegam a ser fáceis. Por mais evidente que seja o sentimento entre duas pessoas, dúvidas e hesitações sempre vêm à tona, sobretudo quando a imaturidade ainda dá as cartas. Com a falta da visão somos estimulados a pensar: o que faz com que nos sintamos atraídos por outra pessoa?

Indo além, o fato de Leonardo ser cego elimina o aspecto visual da atração. A partir disso, o que faz com que uma atração seja reprimida? Como costuma ser feito no cinema e em outras formas de expressão artística, aqui a visão é suprimida para que o amor ganhe uma forma mais intensa e sublime. É como se a forma fosse uma barreira para o conteúdo, de maneira que sua ausência reduzisse o sentimento a sua expressão mais pura.

Saindo um pouco da parte sentimental e abordando o filme com um viés mais sociológico, fica notável como a pressão social influencia sobre as relações, tanto de amizade quanto amorosas. Com tanta gente preocupada em definir o que pode e o que não pode acontecer em relacionamentos – como se tal absurdo fosse possível –, Leonardo nos mostra de uma forma carregada de simbolismos que a vida já nos rende problemas suficientes, a parte disso nos resta encontrar algum alento, independente de opiniões execráveis.


Um comentário:

Wilkens Pevensie disse...

filme excelente... estarei na torcida pelo OSCAR!

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