terça-feira, 10 de março de 2015

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes)

Através de seis histórias o diretor Damián Szifron consegue pegar ações cotidianas e desenvolver tramas com reações que costumam transitar entre nossas intenções mais bem reprimidas. Nossa sociedade, muitas vezes hostil, parece nos provocar pouco a pouco, até o dia que não estamos mais dispostos a aguentar provocações e explodimos.

O que fica sempre bem claro no filme é que nossas ações – ou reações – estão distantes de serem isentas de culpa. Não há certo e errado em Relatos Selvagens, mas em geral uma sucessão de pequenas corrupções e atos inescrupulosos, que quando abrimos mão da civilidade e ignoramos as consequências de nossos atos, tornam-se embates selvagens.

As provocações sofridas pelos protagonistas variam, mas com a exceção de uma ou outra mais grave, o restante poderia ser resolvido em uma mesa de bar, ou mesmo esquecido, sem grandes prejuízos e com muitas vantagens aos envolvidos. O paradoxo é que a mesma civilização a qual evocamos na hora de ponderar o comportamento dos personagens é aquela que, com pequenas corrupções somadas, irritam ao ponto de nos fazer perder o bom senso.

Alguns conflitos do filme são entre pessoas. Provocações, traições, corrupções, etc. Uma série de comportamentos colocados de forma a escancarar a incoerência das reações, baseadas na parcialidade de que quando alguém faz é absurdo, mas quando a própria pessoa faz existe alguma justificativa ou desculpa esfarrapada.

Duas das histórias desenvolvem basicamente um embate entre cidadão e estado, evidenciando o stress causado pela burocracia e as brechas que surgem para que os personagens envolvidos possam levar alguma vantagem.

Não é fácil ter que lidar com injustiças cotidianas e institucionais. Frequentemente somos tentados a pensar que não apenas o mundo é injusto, como também nunca é injusto a nosso favor. Na verdade nossas pequenas corrupções passam despercebidas aos nossos próprios olhos.

Quando estamos presos em um congestionamento e um ‘espertinho’ (para não baixar o nível do blog) passa correndo pelo acostamento, ficamos torcendo para que um guarda de trânsito esteja de plantão à frente. Evidentemente que se formos flagrados parados em local proibido vamos declamar a sequência de justificativas que todos temos decoradas – é só um minutinho, já vou sair, não tinha vaga, etc.

No caso do filme não há sequência de justificativas, mas confrontos diretos e inconsequentes, que o diretor tem o mérito de conseguir exibir com humor, por maiores que sejam as tragédias. Em comum vemos personagens que não buscam justiça, mas uma vingança que consideram justa, dadas as circunstâncias.

Após pensar um pouco no retrospecto das histórias, tentando encontrar alguma sequência lógica para os episódios, acredito que é possível encontrar uma racionalização crescente das reações. Não que os personagens se tornem centrados e reflexivos, os relatos são selvagens do começo ao fim, mas mesmo sem nenhum spoiler dá para dizer que os conflitos passam de ações surreais para reações mais plausíveis, que podem ser criticadas em maior ou menor nível, dependendo das loucuras que cada um já tenha cometido na vida real.

Em uma sociedade que, sobretudo em grandes metrópoles, tem se mostrado pouco acolhedora, é compreensível que muitas vezes nosso limite seja extrapolado e consideremos que precisamos fazer qualquer coisa em troca do que consideramos justo. Entre comédia e violência, Szifron nos lembra em todas as histórias que nossas ações não estão nem isentas de culpa nem livres de consequências.

Diante das conclusões tragicômicas das histórias narradas, a conclusão que fica bem evidente é que por mais difícil que seja tomar uma atitude racional, por vezes isso pode nos livrar de muitos transtornos adicionais. Indo um pouco além, não custa lembrar que uma decisão racional não exclui a justiça ou vingança que os personagens do filme buscam.

Abrindo mão da impulsividade selvagem podemos ser politicamente corretos e chegar à justiça de fato, combatendo também nossas próprias corrupções, ou ainda manter a linha dos personagens do filme e obter uma vingança pessoal, sem ter que sofrer consequências tão severas por isso.

Quando o filme acaba – e esse é um daqueles que nos deixa um lamento por não ter mais histórias – resta a reflexão sobre nossa própria conduta cotidiana. As instituições burocráticas irritam, algumas atitudes irritam, mas fazemos parte deste tecido social. O que está ao nosso alcance é cuidar de nossas próprias atitudes, que sozinhas não são quase nada, porém esse ‘quase’ pode fazer toda a diferença.


Um comentário:

Andrea Pérez Ulloa disse...

Tales selvagens é um filme com um bom enredo e acima de tudo muito interessante. O que eu mais gostei é a interpretação de Leonardo Sbaraglia , quem está fazendo atualmente ou Mesmer uma série de televisão na HBO

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