terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Guantanamera

A década de 1990 foi bem difícil para o povo cubano. Depois de uma década próspera graças à proximidade com a União Soviética, a Ilha passou a sofrer com a falta de apoio financeiro, pagando um preço alto por não ter aproveitado o período favorável para investir em sua industrialização.

Parte disso é exposto de forma metafórica e muito bem humorada pelos diretores Juan Carlos Tabío e Tomás Gutiérrez Alea, repetindo a parceria de ‘Morango e Chocolate’. O filme foi lançado em 1995. Curioso como duas décadas mais tarde a viagem que compõe a história central do filme seria refeita pelo personagem mais enigmático da história do país.

Em tempos de crise não há saída, é necessário cortar o que é supérfluo, economizar no que é indispensável e ainda assim os gastos aumentam. O impasse inicial do filme gira em torno do que fazer quando uma pessoa morre em uma província distante de sua terra natal. Enquanto uns insistiam na coletividade, indicando que a pátria era uma só, portanto não havia diferença quanto ao local do enterro, outros indicaram logo a recusa em serem sepultados longe do local escolhido.

Neste ponto Afonso (Carlos Cruz) tenta se valer dos ideais da Revolução, de socializar ganhos e perdas entre todos, para solucionar os problemas. Cada província arcaria com uma parte dos custos do traslado, mantendo a cota de combustível dentro da meta. A surpresa foi a morte repentina de sua sogra, que o faria ser o primeiro a por seu plano em prática cruzando a ilha de Guantánamo, no extremo leste, a Havana. Caminho inverso que fizeram com as cinzas de Fidel, até Santiago de Cuba.

A viagem que segue fornece elementos para críticas severas ao regime cubano, assim como virtudes que não se encontra em países sul-americanos. No que fica isento de críticas positivas ou negativas, a história mostra que a vida é feita de imprevistos, que não podem ser planejados em uma mesa de reunião e demandam soluções que fogem ao protocolo rígido que as instâncias governamentais tendem a impor.

Uma das coisas que Afonso não poderia prever é que sua esposa Georgina (Mirtha Ibarra) encontraria com um ex-aluno, Mariano (Jorge Perugorria). Cabe ressaltar que Georgina deixou de dar aula de economia e Mariano se formou em engenharia, mas trabalha como caminhoneiro e ganha até mais nessa profissão. Há quem veja como insanidade um caminhoneiro ter salário equivalente ao de um engenheiro.

Toda história tem pelo menos duas versões. Se Afonso narrasse o filme provavelmente se colocaria como uma vítima de Mariano, que tentava seduzir sua esposa. Poderia citar infortúnios do destino, culpar os personagens que atravessaram seu caminho – como uma mulher em trabalho de parto – ou qualquer outra coisa para justificar as dificuldades que teve.

Como o filme não é narrado por ele, resta a imagem personificada de um burocrata restrito, cuja devoção aos valores revolucionários não visam o bem da sociedade, mas um cargo de destaque que coloque seu nome na história do país. Dessa forma faz de tudo para que a realidade se adeque aos seus planos, não o contrário.

A morte, trágica, mas trabalhada de forma leve e cômica ao longo do filme, sugere que aquilo que já foi grandioso, como Yoyita (Conchita Brando), a falecida sogra de Afonso que fora uma artista de sucesso, pode chegar ao fim quando menos esperamos e depois disso deixa um corpo que ainda precisa de atenção.

Em qualquer país do mundo a sociedade é muito mais dinâmica que as leis. Estas são passíveis de interpretações e corrupções – não necessariamente grandiosas, mas essas pequenas corrupções do dia-a-dia, que por vezes nem nos damos conta de que cometemos – enquanto as situações reais demandam urgência que foge do escopo da burocracia.

Assim o cadáver insepulto que insiste em causar transtornos nos planos de Afonso estaria presente de forma metafórica independente da área em que o funcionário público trabalhasse. Seu problema não era o cadáver da sogra, mas o cadáver de uma ideologia distorcida, que nasceu tendo por base a ascensão pessoal enquanto dizia se apoiar no bem comum.

Superando o discurso e a postura ultrapassa de Afonso, vemos os demais personagens vivendo a vida fora do papel. A vida que traz surpresas que podem ser tão ruins quanto a morte, ou tão boa quando um reencontro afetivo. Melhor que tentar adequar os imprevistos à burocracia é encontrar uma saída satisfatória, que não implique em renunciar aos sonhos, nem sepultá-los em uma terra distante.


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