terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pantaleão e as visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

Em seu romance Mario Vargas Llosa utiliza de muito humor para, através de um serviço bastante inusitado dentro do exercito peruano, criticar a instituição e aspectos sociais. A primeira transposição da obra para o cinema foi feita pelo próprio autor em 1975, mas o próprio Llosa admitiu a inexperiência e o resultado insatisfatório da obra. Em 1999 Francisco Lombardi apresenta a competente adaptação, que mantém os aspectos centrais do livro mesmo sem contar com os recursos de linguagem adotados pelo escritor. Talvez a única grande mudança seja a omissão do enredo paralelo sobre os irmãos da arca, através do qual o autor mostra a síntese de rituais tribais e elementos católicos.

A maior parte do livro é narrada através de cartas, documentos oficiais do exército, reportagens e narrativas que descrevem detalhadamente, com evidente parcialidade por parte do personagem autor, que dá veracidade ao relato. Complementando os documentos Llosa nos apresenta diálogos intercalados, dando um ritmo diferente, dinâmico e real para a narrativa.

O tom de humor, mais intenso no livro que no filme pelas descrições mais detalhadas, fica por conta do inusitado, já que para conter a onda de estupros na cidade de Iquitos por parte dos soldados o exército escolhe o mais que metódico capitão Pantaleão Pantoja (Salvador del Solar) para coordenar um serviço de visitadoras para os soldados, eufemismo para as prostitutas contratadas pelo exército para sanar as necessidades dos militares. Assim esses dois estereótipos aparentemente tão distintos se aproximam, porém mantendo as respectivas características principais.

O capitão Pantoja tem o comportamento exemplar e passa a imagem que o exército cria sobre a instituição para a sociedade, ou seja, disciplinado, obstinado e sem vícios. Tudo que o militar sabia fazer era obedecer a ordens, de forma brilhante e com dedicação total, que a princípio deixa qualquer superior do exército satisfeito. Talvez o problema do capitão fosse sua falta de senso crítico – que em certo nível é indispensável aos militares – a ponto de não diferenciar a essência da aparência, ou seja, de não perceber que por trás da aparente seriedade e responsabilidade militar há a necessidade de agir sorrateiramente, seja para manter um serviço de visitadoras, como satirizado por Llosa, seja para tomar o poder o estado, como a América Latina viu na segunda metade do século XX e, por incrível que pareça, já presenciou por três vezes em apenas dez anos deste século, com a tentativa frustrada na Venezuela em 2002, a mais eficaz em Honduras sete anos mais tarde e a atual ofensiva no Equador, que ainda é cedo para sabermos as consequências.

Os dois pontos mais marcantes da obra ficam por conta da crítica à instituição militar, incapaz de solucionar problemas cujos interesses não sejam os do próprio exército, sem medir esforços ou considerar consequências de seus atos; e o machismo latente da sociedade, expresso também pelos civis, que por um lado se apóiam no moralismo para criticar o serviço de visitadoras e por outro reivindicam o mesmo serviço, na qualidade de reservistas do contingente militar.

A síntese desses dois pontos fica por conta da relação entre Pantoja e Colombiana (Angie Cepeda), que no livro era conhecida como Brasileira, por ter vivido em Manaus. Por mais formal que o militar possa ser ele deve lidar com os próprios sentimentos, e o faz de forma bastante curiosa. Faz uso de sua patente e tenta manter qualquer tipo de atitude contrária às regras em segredo, por outro lado é extremamente penoso lidar com sentimentos de posse e ciúme.

Um ponto em que o filme se destaca em relação ao livro é a cena em que visitadoras são violentadas. Sob o discurso de proteção às mulheres da cidade, pouco importa o que aconteça nos quarteis, desde que as aparências sejam mantidas e que os escândalos sejam encobertos de forma eficiente, sem abalar a estrutura machista e conservadora, como já nos indicava Chico Buarque em 1979 com “Geni e o Zepelin”, que pelo conteúdo poderia tranquilamente servir de trilha sonora para a referida cena.

Já se passaram quase quarenta anos desde o lançamento do livro, trinta desde a polêmica música de Chico e dez desde o lançamento da adaptação do livro para o cinema. Muitas mudanças em relação ao machismo e a postura muitas vezes patética das forças militares?

 

Um comentário:

Esther Alcântara disse...

Olá! Vim retribuir sua visita. Muito legal o trabalho que você desenvolve por aqui, Alexandre.
Hoje nem deu pra gente se falar, né?
Fica pra próxima! Bjs.

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