terça-feira, 15 de maio de 2012

Shame


O protagonista Brandon (Michael Fassbender) é o estereótipo do estilo de vida moderno em grandes cidades. Vivendo sozinho em um apartamento de Nova York, ele tem um bom emprego, sem grandes laços afetivos e permeia suas atividades cotidianas com sexo, virtual ou real, porém mantendo distância de relações duradouras.

O diretor Steve McQueen consegue criar um conflito muito interessante em seu longa quando Sissy (Carey Mulligan) aparece de repente para morar com o irmão Brandon. A partir de então o personagem passa a enfrentar um embate gerado pela diferença de suas atitudes em relação ao que espera da irmã. Entre o instinto de aproveitar a liberdade para conquistar o maior número de mulheres possível e a pressão social de cultivar relações estáveis e duradouras, o filme transita da tradição familiar ao estilo moderno de incluir o sexo de forma descompromissada no dia-a-dia, geralmente criticado por quem esconde atrás do moralismo sua vontade de adotar esse estilo.

É possível ver no comportamento de Brandon algumas teorias do antropólogo Lévi-Strauss, segundo o qual, resumindo ao extremo, a proibição do incesto obriga a troca de mulheres entre os homens. A afirmação deixa de ser machista quando é lançada para a compreensão de comportamentos primários da vida em sociedade, dos quais não nos livramos totalmente. Assim sendo, o protagonista busca mulheres fora de seu círculo, ideia que acaba sendo reforçada pelo fato de ser um irlandês que mudou para os E.U.A. deixando a família para trás.

A presença da irmã, com a qual o relacionamento é proibido, indica a possibilidade de relacionamento para outra pessoa – por isso a troca de mulheres – ainda que com a mesma falta de compromisso com a qual Brandon encara seus relacionamentos relâmpagos. O problema é que lado a lado com essa premissa existem os padrões sociais desenvolvidos ao longo da história, e ao personagem não lhe agrada ver a irmã fora dos padrões morais que ele não quer para si.

Bem longe de esclarecer seus conflitos internos, o protagonista passa a não suportar a pressão dessa incoerência, desenvolvendo uma vergonha (shame) não de seu julgamento em relação à irmã, mas de seu próprio comportamento sexual. Isso faz com que o título do filme seja bastante questionável, por indicar que o problema do filme seja a suposta compulsão do personagem, uma patologia que não existe clinicamente, mas socialmente, graças aos moralistas mencionados acima. Ainda que a vergonha em questão apareça pela percepção de que a irmã pode ser tratada da mesma forma com que ele trata outras mulheres, há o machismo de acreditar que a falta de compromisso seja um desejo exclusivamente masculino.

Certos cuidados podem ser indicados para as atividades de Brandon, como por exemplo, não inundar o computador do escritório com materiais pornográficos, para não comprometer sua vida profissional, ou ainda se ater a certos limites quando a garota que desperta sua atenção está acompanhada, se tornando um grande problema em potencial, mas mesmo assim seu comportamento não destoa de seu estilo de vida, podendo tranquilamente ser mantido sem consequências negativas, desde que fizesse pequenas mudanças em seu cotidiano, a partir do momento que não estava mais morando sozinho e algumas mudanças, dessa vez bem mais profundas, em sua forma de encarar os padrões sociais.

Era quase inevitável a Steve McQueen cair no nó atado entre tradição e modernidade. A opção fica em relação ao caminho a seguir a partir deste ponto. É possível aceitar a vergonha como uma imposição sem lógica, para assim superá-la e assumir que a presença da sua irmã não destrói seu estilo de vida, ou dar um verniz moderno ao romantismo do século XVIII, impondo uma forma de vida que limita e inibe.

Obrigar alguém que, como Brandon, está habituado a um estilo de vida condizente com a cidade de Nova York – ou qualquer outra grande cidade – a voltar a viver segundo preceitos tradicionalistas é optar por insistir em negar possibilidades, pois ainda que o comportamento sexual do protagonista não seja obrigatório em nenhum lugar do mundo, sua opção é viável e distante de qualquer patologia, culpa ou vergonha. Ajudar a irmã, ou ser ajudado por ela, dependendo do momento pelo qual cada um está passando, não implica em impor mudanças ou coibir desejos, mas sim em tolerar comportamentos e libertar-se de padrões tão válidos quanto desnecessários.


13 comentários:

Anônimo disse...

Nunca, em minha vida toda, li um texto tão sem pé nem cabeça quanto este.

Anônimo disse...

O artigo está em conformidade com o filme, parabéns, mt bom!

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pela visita e comentário de ambos! Esse post me surpreendeu, pois está entre os mais visitados do blog desde maio! (claro que não dá para ser unânime e agradar a todos)

DouglasFerT disse...

Por mais que tenha gente que ache o post sem pé nem cabeça (e provavelmente deve ter achado isso do filme tb) ele é muito coerente e consegue criticar o filme, além de promover o debate sobre o tema.


Sobre o filme, artisticamente impecável! Apesar do final em que você diz WHAT? Mas se pensarmos um pouco melhor sobre... Nem um outro final faria tão sentido para a proposta estética do filme como essa. O grande problema é que vamos nos acostumando com os analgésicos emburrecedores que Hollywood faz questão de nos apresentar.

No mais, o tema é polêmico... Mas concordo contigo no ponto de que com pequenas mudanças no comportamento, ele poderia deixar de ser nocivo e nem poderia ser chamado de destrutivo. Apesar dele chorar quando goza.

O filme fala muito da vergonha pós sexo, que acomete a grande maioria das pessoas, a famosa depressão pós coito. Motivos fisiológicos, psicológicos e sociais não faltam para tentar explicar. E o filme acerta em cheio ao não tentar explicar coisa alguma e também não ser moralista.

Para mim, a redenção acontece ao final. Para mim, o personagem passa por cima de sua vergonha e inicia um novo ciclo de sofrimentos, alegrias, euforias, solidão, sorrisos, gozos e lágrimas. Assim como a vida ( de todos nós) é.

Alexandre Caetano disse...

Eu tb gostei do filme deixar certos pontos abertos, sem apresentar uma solução. Até pq muitas vezes o cineasta não é um grande conhecedor de questões técnicas. Eu, por exemplo, poderia falar um pouco dos motivos sociais que levam à vergonha do sexo, mas nada sobre motivos fisiológicos ou psicológicos.

Escrevi aqui sobre o filme XXY, que achei muito bom, mas depois descobri que há várias falhas do ponto de vista clínico sobre a abordagem do tema. Não acho que isso atrapalhe o debate que o filme pode promover, mas o cineasta sempre corre o risco de deslizar em questões muito técnicas.

Anônimo disse...

Prezad@s, o texto não chega a ser sem pé nem cabeça, mas força algumas interpretações que para mim seriam descabidas (caí aqui neste texto por obra de um link lá no omelete/cinema, em que eu estava). A referência a Levi-Strauss não seria mais arbitrária e gratuita do que se tivesse "visto", no "comportamento de Brandon", o fetiche da mercadoria de Marx. Menos tresloucado - se é para invocar algum teórico social - seria, por exemplo, ver no personagem a tensão entre comportamento individual e fato social durkheimiano.

Outra forçação de barra interpretativa foi calhar de ver no filme uma tensão entre "tradição e modernidade". Não fazem nenhum sentido as associações entre "tradicionalismo familiar" e relações socioafetivas estáveis, ou entre "modernidade" e sexo descompromissado.

A compulsão sexual de Brandon não tem nada de "revolucionária", no sentido de se contrapor a "padrões sociais" que imporiam uma sexualidade contida em relacionamentos estáveis/exclusivos. Pelo contrário, tal compulsão insere-se em um padrão social consagrado pela própria modernidade - a neurose.

Neste sentido, a compulsão sexual não se difere de outras compulsões e práticas sobre as quais os indivíduos não possuem controle - pelo contrário, são controlados por aquelas. Assim como os "vícios" em comida, em drogas, em compras etc., a compulsão sexual do personagem consiste na expressão de um vazio existencial típico da vida na modernidade, pelo qual os indivíduos, carentes de significações e de sentido - que não os determinados pela sociedade de consumo -, entregam-se ao hedonismo crônico e absoluto, buscando, com isso, suprir aquele vazio.

Mais do que isso, se a existência é um fardo ou um sofrimento - dada a sensação de se viver à deriva, constantemente exposto a riscos diversos sem sequer compreender o porquê de tudo que o cerca -, a busca pelo gozo perpétuo (via drogas, sexo e outros prazeres) serve como uma válvula de escape do mundo, um modo de suportar a vida.

Neste sentido, a angústia - ou a vergonha fundamental vivida pelo personagem - é bem mais profunda do que consegue alcançar o texto.

Alexandre Caetano disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário. Achei interessante seu ponto de vista.

Meu objetivo com o blog não é dizer, de maneira fechada, qual o significado do filme, mas dissertar um pouco sobre o que suscitou em mim. Sem dúvida, neste e nos outros 119 posts (até agora), o tema do filme é mais profundo que o texto. Em nenhum momento eu tive a pretensão de esgotar um tema em pouco mais de uma página. Mas neste caso pelo que me lembre, pois vi o filme apenas uma vez há seis meses, optei por ressaltar que não encontrei no personagem um comportamento vergonhoso como o título sugere, mas algo que é bem mais condizente com uma grande cidade do que com um pequeno povoado, muito mais tradicionalista - por isso a insistência entre tradicionalismo e modernidade. Levi-Strauss foi uma opção de aporte teórico, poderia de fato ter citado Durkheim sem que fossem excludentes.

Gostaria de rever o filme porque lembro que a relação do protagonista com a irmã parecia esconder alguma coisa que não me ficou clara. Preferi não entrar nesse ponto, mas sempre que penso no filme isso me inquieta...

Carlos disse...

O texto é bom e faz todo sentido. Concordo com a maioria dos apontamentos.

Julia Gonçalves disse...

Oi Alexandre, quero colaborar com meus pontos de vista sobre o filme, o qual revi a pouco (e mais uma vez me tocou). Mas agora é tarde da madrugada. Passando apenas pra dizer o quão você é educado e elegante, diante de pontos de vista mais acalorados, e até mesmo grosseiros, aqui no teu blog.
Você é todo lindo!

Alexandre Caetano disse...

Gente... shame deixou de ser o nome do filme para ser meu sentimento ;)
Obrigado, Julia. Volte sempre e sinta-se a vontade para fazer comentários, sobre os filmes ou não =)

Julia Gonçalves disse...

Num se encabule não querido!rsrs. Apenas constato uma grandeza sua, ser pacífico diante das brutalidades.

Julia Gonçalves disse...

Quanto ao que me intriga no filme: A Compulsão de Brandon, acomete a muitos, como muito bem disse um anônimo em 04/11/12, neste trecho: "Mais do que isso, se a existência é um fardo ou um sofrimento - dada a sensação de se viver à deriva, constantemente exposto a riscos diversos sem sequer compreender o porquê de tudo que o cerca -, a busca pelo gozo perpétuo (via drogas, sexo e outros prazeres) serve como uma válvula de escape do mundo, um modo de suportar a vida".
O 'modo de ser' do personagem, tem tantas supostas implicações, só nos resta conjecturar. Minha inquietação se apega à possíveis traumas vividos na infância, talvez um lar desajustado, pais negligentes, abusivos, inclusive com exploração sexual doméstica. Uma outra suposição, envolvendo a irmã, é que talvez ELES sejam vítimas de incesto entre si, pois ela também parece ser promíscua, mal resolvida nas questões afetivas, na dificuldade de estabelecer ligação afetuosa para além d corpo, tal qual ele. Por imaturidade, ela o provoca. Por vergonha e culpa, ele a despreza. É bem comum essas tramas nas vias do consultório de psicoterapia. Já acolhi e testemunhei pessoas que "odeiam nutrir algum afeto" por seus entes, por conta de situações vividas de forma instintiva, HUMANA, geralmente no inicio da puberdade, devido a terem tido experiencias tidas como vergonhosas(quando admitem terem reminiscencias de que 'gostaram') ou quando guardam marcas profundas de, já adulto, terem se dado conta, de que foram vítimas de abuso, coisa NÃO consensual. Naõ vou nem citar pérolas freudianas. Nelson Rodrigues, o dramaturgo, psicanalista por excelência, já nos descortinou várias facetas humanas em sua arte. Nos episódios de A VIDA COMO ELA É, vemos com certo estranhamento, com 'shame', o que qualquer um de nós pode ter vivido na pele. Incesto é tabu. Mas é ancestral.
Se vê em Brandon a compostura de fuga da dor. Para mim, mais uma face da depressão.
Esse filme mexe. E remexe.

Alexandre Caetano disse...

Bom, eu precisaria ver o filme de novo tb... faz tempo que eu assisti e não lembro dos detalhes. Lembro que achei algumas nuances que para mim insinuaram um incesto ou ao menos uma atração por parte dos irmãos.
A parte de psicologia eu não posso falar muito pq não entendo, mas recentemente li um artigo do Contardo Calligaris sobre o filme '50 tons de cinza', ele diz uma coisa que achei curiosa e talvez se aplique aqui. Resumindo, diante de algum comportamento sexual que foge à regra (no 50 tons é a relação sado-masoquista, aqui a compulsão) buscamos logo uma explicação, alguma raiz desse comportamento que tenha base em traumas na infância, etc. As vezes encontramos, mas é possível que não haja uma "explicação". O cara tem uma compulsão por sexo e acaba cedendo às vontades...
Enfim, o que me atrai no cinema é isso, a variedade de interpretações que os filmes proporcionam! =)

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