terça-feira, 10 de setembro de 2013

Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane)

Cidadão Kane é o personagem fictício do filme homônimo de Orson Welles. Inspirado na vida de um magnata do jornalismo norte americano, Kane manipulava informações e exercia seu poder transitando entre política e imprensa.

Em 1993 uma emissora britânica lançou o documentário "Muito além do cidadão Kane", dirigido por Simon Hartog, com pinceladas sobre a sociedade brasileira – a ser apresentada aos ingleses – e relacionando fortemente a figura de Roberto Marinho, na época com 87 anos, à história recente do Brasil.

Em uma época em que a TV brasileira tinha ainda menos concorrência do que hoje, sem a alternativa da internet, canais por assinatura e apenas quatro canais abertos (Globo, SBT, Manchete e Bandeirantes), já era notável a hipocrisia de estrelas como Xuxa – mais uma rainha para a monarquista rede Globo, junto a Pelé, Roberto Carlos, entre outros que receberam a coroa da emissora – que construía um mundo de sonhos junto com suas paquitas, loiras, magras, jovens e bonitas.

Apesar de ter abandonado os longos programas matinais para crianças, ainda notamos o empenho de produções para o público infantil, hoje não só da Globo, para vender a imagem de sonhos da infância, que escancara o contraste entre quem passa o dia com um copo de leite e socialites que despejam dinheiro em seus bichinhos de estimação.

Sobre a sociedade brasileira, o filme indica que 50% do país pertenciam a 1% da população. Considerando que se este número mudou, não foi para muito melhor, a maioria da população ainda tem acesso apenas às imagens da mercadoria anunciada. A venda é de sonhos, não de produtos. Um carro dito popular e sendo anunciado como uma grande oferta, por quase 60 salários mínimos, serve para duas coisas para a massa que não faz parte do 1% citado: parcelar um carro em infinitas prestações, gerando renda ao banco, à concessionária, à montadora, etc., ou sonhar com o dia utópico em que poderá comprar um automóvel.

A princípio isso poderia gerar uma crítica ética, à qual a emissora poderia se esconder utilizando o falso argumento de que produz conteúdo e quem não gosta tem a liberdade de mudar de canal. O problema maior aparece quando vemos que a concessão às televisões, sobretudo no início recente da TV brasileira, era dada diretamente pelo presidente, sem nenhum critério técnico.

Não é difícil perceber que opositores ao governo jamais receberiam a autorização para um veículo de manipulação, digo, comunicação em massa. Desta forma, com base na amizade, Roberto Marinho conseguiu sua primeira concessão dada por Kubitschek.

Recentemente, em resposta às manifestações populares que diariamente entoavam o coro de “a verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura”, a emissora admitiu o apoio, em nota seguida de uma retratação. Alegou ter sido enganada, assim como toda a sociedade brasileira, uma vez que os militares haviam prometido uma intervenção breve, que na verdade durou duas décadas.

O que o filme mostra, a Globo esconde e a sociedade sabe é que a emissora apoiou todos os presidentes, em maior ou menor grau, ajudando a derrubar os mesmos quando a queda já era inevitável. Na via de mão dupla entre poder executivo e organizações Globo (que incluem também mídia impressa, rádio e, atualmente, internet e TV por assinatura) há um pacto de não agressão com limites muito nítidos.

Por um lado o governo pode não renovar a concessão da emissora, por outro esta tem poder de sobra para derrubar qualquer presidente. Assim trocas de farpas ocorrem com precisão cirúrgica para que este equilíbrio, benéfico para ambas as partes e prejudicial para o país, seja mantido.

Há 20 anos o documentário já questionava a idoneidade da Globo, tanto com hipóteses de manipulação de dados em relação ao crescimento econômico durante a ditadura militar quanto com fatos dificilmente refutáveis como a manipulação do debate entre Lula e Collor, a “maquiagem” do início da campanha das Diretas Já, a distorção de pesquisas eleitorais e, agora, o apoio à ditadura militar.

Pelo apoio à ditadura houve um pedido de desculpa, no qual exaltavam a democracia e a liberdade. Curioso já que este mesmo documentário tem sua exibição proibida no Brasil, graças ao peso político da Globo. Sua exibição sempre ficou restrita a locais não comerciais e agora na internet.

Com tantas incoerências e mentiras que rondam a emissora família Marinho, questionar sua atual veiculação de notícias é mais que pertinente. É latente a diferença que a emissora dispensa às notícias de corrupção ou escândalos políticos e a manipulação dos telespectadores, eleitores, continua forte, ainda que o monopólio da terceira maior emissora do mundo venha diminuindo.


3 comentários:

Anônimo disse...

Achei uma ótima critica, muito bem redigida.

Clanair disse...

Gostei muito do blog e da crítica sobre o documentário

Alexandre Caetano disse...

Que bom que gostaram! Voltem sempre! =)

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