terça-feira, 5 de novembro de 2013

Saneamento básico, o filme

A princípio este longa do diretor Jorge Furtado é definido como uma comédia, porém o enredo vai além de simplesmente fazer rir – talvez esse nem seja sua principal característica –, guiando os espectadores por caminhos entre a reivindicação de direitos perante o poder público e a metalinguagem da produção de um filme.

Para condensar tudo isso vemos os moradores de uma pequena vila de colonização italiana, chamada Linha Cristal. Eles precisam somente de uma fossa para tratar o esgoto que vem sendo jogado diretamente no rio, mas a prefeitura só dispõe de uma verba cultural, para a realização de um filme. Dez mil reais. Suficiente para a realização da obra.

A solução encontrada para utilizar o dinheiro foi realizar um filme e utilizá-lo como pretexto para o financiamento da fossa. A partir daí vemos que a produção de um vídeo, ainda que simples, tem muito mais detalhes do que imaginamos. Apesar disso, esta mesma produção costuma ser tão envolvente que até mesmo um projeto descompromissado passa a engajar os envolvidos, que passam a ter grande dedicação.

O paradoxo do filme é reunir grandes nomes do cinema brasileiro e coloca-los para atuar como se fosse amadores. Desta forma Marina (Fernanda Torres) começa a desenvolver a história do vídeo com seu marido Joaquim (Wagner Moura). Sem sequer saber muito bem o que é um filme de ficção, os dois começam meio sem rumo, agregando ideias desconexas que lentamente, e com a ajuda de pessoas próximas que pouco a pouco se envolvem na produção, ganham forma e começam a preencher os dez minutos necessários para o vídeo.

Uma das formas de aprender a fazer cinema (incluindo desde longas metragens até pequenos vídeos) é a mais tradicional, ou seja, estudar e partir do conhecimento teórico para realizar a prática. A outra, que pode ser mais eficiente de acordo com a facilidade que cada um tem para aprender, é realmente tentar por uma ideia em prática e solucionar os problemas conforme vão aparecendo.

Com um método de trabalho quase construtivista, os personagens do filme se transformam por sua vez em personagens do vídeo, também buscam patrocínio, sugerem sequências, dirigem e se desdobram para superar todas as dificuldades que quem produz filmes sem muitos recursos conhece bem.

Mesmo com pequenas desavenças que surgem ao longo da produção, em geral o vídeo tem a capacidade de unir os moradores da vila em torno de um objetivo em comum, que aos poucos passou a ser mais as filmagens do que a própria fossa, que deu origem a todo o trabalho.

Bastante realista é o aproveitamento do trabalho por parte do prefeito, fazendo de tudo para colher os frutos que nunca ajudou a plantar. Ainda que pareça absurdo uma prefeitura ter verba para um vídeo enquanto o saneamento básico precisava de obras, de fato o orçamento é dividido em pastas, até para que não fique todo concentrado em uma única área.

O problema – tanto na tela quanto fora dela – é a incapacidade de gerir recursos e aloca-los de forma eficiente de acordo com as demandas da população, sem falar na incapacidade das instituições de desenvolver projetos artísticos em conjunto com a educação.

Assim como no filme, a verba que os municípios destinam para a cultura costuma ser mal aproveitada e nem sempre surge um grande projeto casual como a produção de um vídeo que mobilize a população. Se nos livrarmos da visão utilitarista que estamos habituados a ter diante de novos projetos, veremos que os moradores de Linha Cristal não viraram diretores, roteiristas, atores ou qualquer outra profissão relacionada ao cinema. É possível que até mesmo a fossa pudesse ser construída de outra forma, porém é inegável que aprenderam muito com as filmagens.

Quando a educação é entrelaçada com a cultura, ambas se desenvolvem de maneira muito mais fluente, já que uma dá sentido para a outra, resultando em indivíduos mais completos e críticos por terem melhor visão do todo, ao invés de limitarem-se às partes.

Assim como os personagens do filme foram imersos em um problema, vendo na prática as dificuldades de soluções que parecem simples, qualquer pessoa que passe por processo semelhante, não necessariamente com a produção de um vídeo, irá treinar aspectos de argumentação, criação e percepção, que são indiretamente úteis em quase tudo o que fazemos, e são muito influentes em demandas populares em relação ao poder público.


2 comentários:

Felipe Monteiro disse...

"Sileide...Sileide Seagal". Adoro esse filme!

Cássia disse...

Adorei esse filme, muito bom! Fiz um post sobre ele no meu blog também http://aboutbooksandmore.blogspot.com.br/2017/01/cinema-brasileiro-saneamento-basico-o.html

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