terça-feira, 15 de março de 2016

O quarto de Jack (Room)

O diretor Lenny Abrahamson fez uma adaptação do romance de Emma Donoghue. A escritora sempre destacou que a história de seu livro é ficcional, de qualquer forma tudo é muito factível, tanto que infelizmente já houve casos reais extremamente parecidos com o enredo do filme, o que faz com que um sentimento de desconforto seja inevitável em quem assista.

Esse desconforto surge pela junção de absurdos que acontecem com a protagonista Joy (Brie Larson). Sequestrada pelo Velho Nick (Sean Bridgers), mantida em cativeiro por cinco anos e violentada diversas vezes, o que resultou na gravidez sem nenhuma assistência médica e no nascimento de Jack (Jacob Tremblay).

Uma análise direta dos fatos apresentados ao longo do filme já seria o bastante para que a obra se destacasse. Imaginar uma jovem que tenta ajudar um desconhecido e acaba isolada do mundo por cinco anos é suficiente para pensarmos o quanto uma pessoa perde da vida. Meia década no início do século passado não era tempo suficiente para mudanças tecnológicas tão profundas, mas atualmente em cinco anos o mundo pode se tornar um lugar bem diferente, com mudanças que por absorvermos aos poucos acabamos não nos dando conta.

Além disso, Jack passa uma parte fundamental de seu desenvolvimento restrito em um pequeno cômodo. A criatividade de Joy é notável, tanto para manter a criança entretida quanto para criar formas de explicar aquela realidade vivida. Podemos pensar que a criança não sinta falta de um mundo cuja existência é completamente desconhecida, mas com o cérebro no período de maior desenvolvimento, a reclusão vai gerar um desconforto em quem não tem uma atividade física condizente com a necessária.

Existe ainda um espaço para análises mais abstratas com base no que o filme apresenta. A ideia do mito da caverna, desenvolvida por Platão ainda na Grécia antiga, é perfeitamente ilustrada através de Jack, que ao invés de viver em uma caverna vendo sombras da realidade projetadas na parede, passou toda a vida em um pequeno quarto, com referências extremamente restritas vindas de uma televisão.

Não é um spoiler afirmar que mãe e filho saem do cativeiro – já é revelado no trailer e a questão, que não será revelada, é se a mãe conseguirá se reinserir na sociedade e se o menino conseguirá se adaptar ao mundo novo. Fora do quarto Jack sai de seu próprio universo para ter contato com o quarto compartilhado por toda a humanidade.

Fora da caverna, ou do quarto, a criança de cinco anos tem contato com a realidade, ou, mantendo o paralelo com o mito, com o simulacro de realidade compartilhado por todos à sua volta. Não bastasse ser uma idade bastante confusa, em que uma pessoa está apenas iniciando sua socialização e fantasiando elementos que a cercam para criar sua própria versão dos fatos, Jack passa a ter contato com elementos que para outras pessoas não têm nenhum efeito, devido à banalidade da existência cotidiana, mas para o menino é realmente como aterrissar em outro planeta.

A restrição da liberdade pesa incomparavelmente mais para Joy. É ela quem passou cerca de vinte anos livre e tem plena consciência das violências que sofreu a partir do momento do sequestro. Mesmo que essa história tenha ocorrido fora das telas de forma muito parecida, cabe também uma ilustração do estilo de vida da personagem e o desdobramento de seu calvário.

Felizmente é um fato raro uma crueldade tão extrema que aprisiona uma pessoa em um cubículo por anos, sem nenhuma disposição de concedê-la a liberdade. O que incomoda é o fato de não podermos classificar a atitude do Velho Nick de desumana, já que apenas humanos são capazes dessa atrocidade.

Mesmo que Joy tenha vivido uma violência extrema e rara, versões menores dessa mesma violência ainda são vividas cotidianamente. Talvez no Canadá – país de origem – a situação seja menos intensa, mas o machismo que fez com que o Velho Nick se achasse no direito de aprisionar uma mulher e mantê-la como escrava sexual é repetida em diversos níveis, cotidianamente.

Não faltam exemplos reais de mulheres que não vivem em um cárcere tão rígido, mas sob ameaça constante, com agressões físicas e psicológicas, restringindo a existência à servidão de alguém que por razões culturais acredita ter o direito de manter uma pessoa em estado de cárcere ou algo próximo a isso.

É evidente que este não é o foco direto do filme, tão pouco o personagem do Velho Nick é explorado, mas o que deixa claro que a questão do machismo é extremamente pertinente para compreender o filme é o fato de que não faria o menor sentido a inversão de papéis entre ele e Joy.


Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bem colocada a questão do machismo e da violência que muitas mulheres ainda sofrem na atualiadade, mesmo com tantas leis para protegê-las pois a nossa cultura complacente e ignorante, impede que muitas mulheres façam algo por acreditarem que tudo irá melhorar.
Lana Zanchi

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