terça-feira, 24 de junho de 2014

Cine Holliúdy

Ao longo do séc. XX Hollywood se tornou a maior referência do cinema em todo o mundo. É na década de 70, no interior do Ceará, que se desenvolve a história do diretor Halder Gomes, fazendo referência ao polo norte-americano e mantendo as raízes locais, resultando no primeiro filme falado em ‘cearencês’.

Uma forma de entretenimento atrativa e potencialmente barata, o cinema já foi bem mais popular até sofrer concorrência com a popularização da TV. Ainda que a programação seja bem diferente a televisão, junto com vários outros fatores, foi determinante para o declínio das salas de cinema.

Felizmente o cinema conta com apaixonados como o protagonista Francisgleydisson (Edmilson Filho), que dedica sua vida para manter uma sala de exibição. Após fracassar, sua nova tentativa é na cidade de Pacatuba.

Antes mesmo de entrar no campo do cinema, a história do filme trabalha com os sonhos. Não é apenas através do objetivo de Francisgleydisson de abrir um cinema, mas toda a vida do personagem é permeada por um universo onírico que extrapola as fronteiras tradicionais e cotidianas do real.

Essa insatisfação com o cotidiano é fundamental para o cinema, que tem como uma das funções o entretenimento, mexendo com o imaginário popular. Inserir novos elementos no dia-a-dia daqueles que vivem na eterna rotina de trabalho desgastante amplia horizontes e dá novos sentidos ao que vivemos.

Se a questão fosse somente o conteúdo a televisão poderia, ao menos em parte, suprir a lacuna da falta de uma sala de cinema, porém, como fica claro no filme, uma sessão em uma sala específica proporciona grande mobilização direta e indireta. Exibir um filme implica em reunir pessoas, aproximar vizinhos e apresentar desconhecidos.

Diferente da programação televisiva, que tende a ter um fim em si mesma, uma exibição coletiva proporciona a interação e a troca de impressões entre os presentes, sendo os benefícios indiretos desse contato muito valiosos.

A intervenção dos televisores é paradoxal na época retratada no filme, pois a pequena quantidade de aparelhos, restritos às famílias mais ricas, acabavam reunindo várias pessoas para acompanhar a novidade de assistir a um filme ou a um programa no conforto do lar, porém não demorou muito para que a popularização dos televisores mantivesse cada família entretida na sala de sua própria casa.

Hoje essa individualização chegou ao extremo de cada cômodo ter um aparelho de TV, possibilitando a cada membro da família permanecer em seu próprio quarto, ainda que sintonizando o mesmo canal.

Com uma programação pobre e grade cinematográfica repetitiva, a supremacia da televisão foi construída a passos largos e hoje se sustenta com facilidade. As salas de cinema são raras e concentradas em grandes centros urbanos. Distantes da periferia e com ingresso mais caro do que muitas famílias podem pagar, as grandes empresas do ramo se instalam em shoppings, vendendo a imagem de segurança e comodidade para a pequena parcela de frequentadores.

Assim como é demonstrado através da pequena Pacatuba, a população pode não ter o hábito de ir ao cinema – pudera com tantos fatores contrários à prática –, porém existe grande demanda por entretenimento e muita curiosidade para conferir os filmes na telona.

Sem adiantar os conflitos necessários para o enredo da obra, notamos que não é apenas o filme que atrai a população, mas o universo onírico que encanta crianças e adultos. Em uma sociedade ainda não contaminada pelo espírito utilitarista que impõe uma vida regrada e séria, os moradores seguem muito mais próximos da tranquilidade e vida despojada, aberta às histórias fantásticas e fantasiosas do cinema e de Francisgleydisson.

Quem deveria estar atento e próximo à vontade da população seria o prefeito da cidade, mas como sempre a política tende a colocar os próprios interesses acima do interesse do povo, jogando com o investimento cultural conforme os votos que este possa garantir.

Cine Holliúdy é uma forma lúdica de mostrar um problema sério, que teve início por volta da década de 70, mas com desdobramentos extremamente presentes em nossa sociedade. As salas de cinema são cada vez mais raras, a população carente de cultura e os políticos negligenciando essa expressão artística com enorme potencial, que pode muito bem ser melhor aproveitado.


terça-feira, 10 de junho de 2014

O Passado (Le Passé)

Apesar de o diretor Asghar Farhadi ser iraniano, esta é uma produção francesa. O protagonista Ahmad (Ali Mosaffa) retorna de Teerã a Paris para legalizar o divórcio com Marie (Bérénice Bejo). A consequência dos quatro anos de separação é que Marie queria oficializar o fim do matrimônio para casar-se novamente.

A francesa mantem um relacionamento com outro iraniano, Samir (Tahar Rahim), e o que chama a atenção é que a presença de elementos da cultura iraniana não chega influenciar diretamente na trama. A tensão e o desconforto dos encontros e desencontros do filme são típicos da cultura ocidental, que por si já é machista, porém livre dos extremismos islâmicos que exacerba as diferenças de gênero no Irã.

O que o filme proporciona com muita competência é a reflexão sobre o conflito entre hábitos que vêm se concretizando na sociedade recentemente e valores morais ainda não superados. Até pouco tempo atrás a quantidade de divórcios era muito menor e, ao menos no Brasil, o divórcio só passou a deixar de ser proibido por lei em 1977 – claro, não quer dizer que as separações não acontecessem informalmente.

Nem estado nem igreja devem ter o poder de intervir na vida dos indivíduos a ponto de obrigarem um casal a permanecer juntos. Assim, o direito ao divórcio é uma conquista que hoje nos parece bastante óbvia – no Brasil ou na França, mas não no Irã. Porém a liberdade individual de poder dissolver um casamento não foi acompanhada de uma conciliação equilibrada entre indivíduo e sociedade.

Por mais que por ventura nos identifiquemos com o individualismo contemporâneo, não podemos, e no fundo nem queremos, nos afastar totalmente da vida em sociedade. Assim o divórcio ocorre, mas as relações sociais ainda existem e deve ser rearranjadas.

É com base nessas relações tensas que o filme de Farhadi se desenvolve, afinal, Ahmad não se opõe ao divórcio nem tem pretensão de retomar o relacionamento, porém isso não desfaz a tensão e o desconforto de seu encontro com Samir. Em nenhum momento é colocada a questão da divisão de bens ou algum problema mais direto, mas o estranhamento entre os dois conterrâneos é visível.

Conflitos são inevitáveis e é diante deles que nossa racionalidade deve se sobrepor, dando uma solução viável para o problema. Apesar disso as relações sociais são complexas, assim como os conflitos que surgem diante da necessidade de rearranjar cenários. Ainda que os três adultos em questão tenham atitudes relativamente maduras, eles não são os únicos envolvidos na história.

Marie tem uma filha pequena, mas é o filho de Samir, mais ou menos da mesma idade que a menina, quem mais sofre com a separação e novo relacionamento do pai. Sobretudo depois dos anos 70 as gerações vêm enfrentando grandes mudanças em relação à predecessora. O choque de gerações pode ser bastante comum, porém há certa continuidade dos valores.

Uma grande mudança, como o súbito aumento de divórcios e novos casamentos que ‘herdam’ os filhos de uma relação anterior, implica em uma nova geração sem muitas referências sobre como agir. Por um lado há a liberdade de agir, por outro a dificuldade de não saber balancear as vontades individuais com as obrigações diante das poucas pessoas envolvidas.

Não bastassem as crianças pequenas, Marie ainda tem uma filha adolescente com Ahmad, que não aceita o novo relacionamento da mãe e tem um sério problema com a ex-mulher de Samir, que está em coma. Paira sobre os motivos desse estado de coma uma trama bem interessante, com várias hipóteses plausíveis. É fato que ela está nesse estado por tentar suicídio bebendo detergente, mas o que a levou a tomar essa decisão pode ou não envolver a adolescente.

Por um lado podemos pensar em como as partes envolvidas em um caso complexo devem se relacionar com cuidado, mantendo seus direitos ao mesmo tempo em que levam em consideração o impacto que algumas atitudes terão sobre as pessoas próximas. Por outro lado, para Samir, haveria alguma maneira de permanecer ao lado de alguém capaz de cometer suicídio por ele?

Asghar Farhadi traz influências do cinema iraniano para o filme, mas retrata uma estrutura social muito identificada com a cultura ocidental. Mostra um tipo de relação social cada vez mais comum, mas que ainda é tratada de forma bastante imatura por muita gente. Em muitos pontos ‘O Passado’ pode ser encarado como didático, mas deixa claro que separações e novos relacionamentos são permeados por relações bem complexas.


terça-feira, 3 de junho de 2014

7 Caixas (7 Cajas)

O protagonista do filme de maior destaque do cinema paraguaio é Vitor (Celso Franco), um jovem de 17 anos que trabalha como carregador no Mercado 4. Em meio às vielas cobertas precariamente com lonas e divisórias improvisadas com caixotes de madeira, o garoto é um dos que passam o dia a procura de compras para carregar e conseguir algum trocado.

Os diretores Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori dão à história daquele que poderia ser apenas mais um carregador uma intrincada rede de problemas, expondo vários absurdos naturalizados por uma sociedade habituada a viver da maneira retratada.

Para os que passam o dia no mercado, independente de qual seja a função, o cotidiano é hostil, competitivo e violento. Não obstante, Vitor se encanta com um celular com câmera, que passa a ser seu sonho de consumo. Racionalmente o objeto não faria nenhuma diferença em sua vida. Não haveria muito que filmar, tão pouco muitas ligações a fazer ou receber.

Ao olharmos para alguém que julgamos precisar de outros bens, mas dá preferência para algo aparentemente inútil, costumamos cometer o erro de não olhar para nossas próprias compras ou desejos. Imersos em um sistema capitalista, somos induzidos o tempo todo a comprar algo que não precisamos, mas que aparentemente nos dará status, respeito, aparência, etc.

Com a ideia fixa de ter um aparelho celular, Vitor aceita um bico de transportar sete caixas pelo mercado, sem saber qual o conteúdo e sem um destino certo. Ele apenas receberia uma ligação em um celular emprestado e teria as instruções. Para o serviço aparentemente simples receberia cem dólares.

Misturando ainda mais nossa noção de certo e errado há o personagem Nelson (Víctor Sosa), que também é carregador e não tem dinheiro para comprar remédio para o filho. Costuma ser tolerável que um pai não meça esforços para cuidar da saúde do filho e isso faria com que déssemos preferência a Nelson no lugar de Vitor. Porém os personagens são construídos de forma invertida.

O conteúdo das caixas demora a ser revelado (e não será revelado aqui), mas desde o começo fica evidente que se trata de algo proibido. A partir daí a imagem de Vitor é construída como a de um menino explorado, que tenta a todo custo driblar os perigos que o cercam e realizar seu objetivo. Enquanto isso Nelson lidera um grupo que não medirá esforços para conseguir as sete caixas e, de alguma forma, transformá-las em dinheiro.

Talvez pela cena em que Nelson não consegue comprar remédio na farmácia ser muito curta, isso acaba tendo pouco peso ao longo do filme, contribuindo para a montagem de uma falsa dicotomia entre bem e mal, onde o agora herói Vitor luta ao lado de poucas personagens contra todo o resto que, cada um a sua maneira, promove trapaças e ilegalidades para ter alguma vantagem.

O desenrolar da história mostra uma trama bem amarrada e desenvolvida, com crimes, elementos policiais, amores e desavenças, mas diferente das grandes produções hollywoodianas, aqui a história acontece no submundo, onde o cotidiano dos personagens, mesmo sem o cerne do enredo, já seria o de luta pela sobrevivência em um mundo hostil.

Alguns momentos cômicos do filme vêm exatamente das paródias criadas com base de conteúdo consagrado em clássicos policiais, devidamente adaptadas ao cenário do mercado. O fato de o enredo ser verossímil pode indicar certas semelhanças sociais entre países distintos, porém os grandes filmes policiais costumam mostrar os protagonistas em um episódio de exceção em seus cotidianos. Em Sete Caixas a impressão é que aquele é o cotidiano.

Excluindo as tais caixas e toda a confusão que elas proporcionaram, o que o mercado de Assunção tem a mostrar? Os mesmos carregadores que trabalham desde cedo levando mercadorias pelas vielas, os policiais facilmente subornados, um ambiente hostil em que as pessoas vivem tensas, comida de baixa qualidade, trabalho mal remunerado, etc.

Uma estrutura social tão precária e condições de vida tão duras não justificam atitudes ilegais, mas ao menos nos colocam em uma posição muito mais desconfortável ao tentar julgar o comportamento de alguns personagens. Podemos saber o preço de um remédio, mas seu valor só pode ser dado pelo pai que precisa compra-lo ao filho.

Menos relevante, um celular de cem dólares pode não despertar grandes sentimentos para quem vive cercado de tecnologia, porém o impacto sobre um adolescente que vive para trabalhar e comprar comida é distinto e um simples aparelho com câmera pode se tornar um desejo de consumo dos mais irresistíveis. 


terça-feira, 20 de maio de 2014

Abril Despedaçado

O livro ‘Abril Despedaçado’ foi escrito pelo antropólogo Ismail Kadaré, com a história de vinganças entre duas famílias desenvolvidas na Albânia. O cenário peculiar e a descrição detalhada do ambiente tornam o romance bastante regional, de forma que não faria sentido uma comparação direta com o filme.

Apesar disso, a estrutura da história não é exclusiva, tendo sido transposta com maestria pelo diretor Walter Salles, com o sertão nordestino servindo de plano de fundo. A ideia de comparar livro e filme nunca é exatamente viável, e nesse caso é ainda menos plausível, já que a intenção nunca foi realizar uma filmagem fiel à obra original.

A aridez do sertão, que reduz a vida ao trabalho duro com recompensa mínima, se encaixou muito bem à história de assassinatos em sequência, que se repetem há várias gerações entre duas famílias que disputam com sangue uma parte da propriedade.

Essa insensatez da disputa mortal com base no ódio pode parecer bárbara à primeira vista, entretanto conflitos familiares são historicamente retratados na literatura, as vinganças se encaixam em locais bem distintos – como a Albânia e o sertão – e para analisarmos a disputa, é indispensável considerarmos o contexto social em que ela acontece.

Nossa aversão ou tolerância à violência estão ligadas à forma como fomos socializados, e isso não se restringe à violência física. Desde nossa apatia diante de escândalos de corrupção que chocariam pessoas vindas de países bem menos corruptos, até os índices de homicídios que toleramos dependendo da classe social atingida, definimos nossos padrões com exemplos absorvidos desde a infância.

No filme a infância é representada pelo menino sem nome, batizado informalmente de Pacu (Ravi Ramos Lacerda, em atuação exemplar), que viu o irmão mais velho ser assassinado e Tonho (Rodrigo Santoro), o irmão do meio, vingar a morte, sendo, portanto o próximo da lista.

O contato cotidiano com a morte deve ser somado, como já mencionado, ao trabalho duro do sertanejo, que tem início logo na infância. A moenda da cana, auxiliada pelos gados sofridos, e o cozimento do caldo para a produção de rapadura exige o esforço de todos, que mal garante o sustento da família.

Por acaso passam pelo menino um casal de artistas de circo, de quem ele ganha um livro ilustrado. Sem saber ler o garoto fica maravilhado com as figuras e repassa mentalmente a história para não esquecer. Esse universo lúdico, tão elementar nas crianças, frequentemente é coibido até mesmo nas escolas, que dirá em um ambiente familiar tão bruto quanto o retratado no filme.

Com várias gerações seguindo a mesma rotina, sem estudos, sem cultura, com trabalho pesado e mal remunerado ao longo de toda a vida, é impossível olharmos para a sequência de vinganças com os mesmos valores que adquirimos em condições totalmente distintas.

É evidente que nada justifica a violência, porém sem nunca ter saído do trajeto entre a casa e a venda em que a produção de rapadura é negociada, é perfeitamente aceitável que os personagens não tenham outra referência, senão honrar o nome da família com o sangue do inimigo.

Muito mais absurda seria uma situação em que pessoas instruídas defendessem de alguma forma a violência e a vingança pessoal como forma de justiça. A violência injustificada das vinganças familiares ainda seguem regras e códigos bem específicos, já a barbárie urbana que temos acompanhado através de linchamentos também tem a base alicerçada na socialização, mas é muito menos compreensível.

Entre muitas cenas enigmáticas do filme, vemos um grupo de crianças em um vilarejo espancando um boneco, que provavelmente representa a tradicional malhação de Judas. Atualmente a igreja Católica tem uma postura oficialmente contra tal prática, mas durante séculos essa aparente brincadeira doutrinou gerações a serem tolerantes ao espancamento público.

Essa associação raramente é feita, pois isoladamente a brincadeira católica não chega a ter uma influência tão grande a ponto de incitar um espancamento, mas vemos ao longo do filme – e em nosso cotidiano – que os fatores que estimulam a violência são diversificados. Na soma geral, cada um tem sua contribuição.

A mesma associação subjetiva pode ser feita em relação ao estado, que poderia e deveria intervir tanto na disputa de terras que originou o conflito, afinal as terras deveriam ser demarcadas e registradas, quanto na matança originada pela reivindicação de terra. Mais cômodo aos governantes é deixar que os sertanejos permaneçam isolados, se matando, enquanto a indústria da seca enriquece alguns bolsos.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Coisas belas e sujas (Dirty pretty things)

Todos nós temos um padrão interno para o que chamamos de justiça. Punir o que é errado costuma ser o reducionismo mais aceito, entretanto somos parciais e incoerentes, seja fazendo vista grossa a um ato censurável cometido por alguém próximo, seja tratando de forma distinta pessoas desconhecidas que cometem o mesmo delito.

Misturando noções de certo e errado, o diretor Stephen Frears conduz seu filme com imigrantes ilegais vivendo em Londres. Viver em uma cidade estrangeira sem o devido visto de permanência já é uma ilegalidade, mas o que se segue são pessoas tentando fazer o possível para sobreviver, sendo exploradas por cidadãos nativos igualmente criminosos, como vemos no filme.

Em um mundo tão globalizado, é um argumento muito raso dizer que os imigrantes ilegais simplesmente deveriam ter ficado em seus países de origem. Pensando na história da humanidade, todo desenvolvimento de nossa sociedade é baseado em migrações, voluntárias ou forçadas. Migrando, o homem chegou a América; primeiro com os indígenas que povoaram o continente, depois com os europeus, que exploraram todos os recursos – naturais e humanos.

Atualmente as rotas migratórias são muito diferentes. Sem a escravidão institucionalizada e com a facilidade de deslocamento, a rota contrária pode ser realizada. Ou seja, ao invés de europeus espalharem-se pelo mundo, africanos, sul-americanos e asiáticos podem tentar uma vida melhor em países com grande responsabilidade sobre a miséria em suas terras natais.

Ainda que os motivos que levem alguém a assumir os riscos de ser imigrante ilegal em um país mais desenvolvido sejam variados, as consequências são sempre parecidas. É o que vemos no filme com o nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor) e com a turca Senay (Audrey Tautou).

Sem o visto, eles devem permanecer invisíveis na sociedade. Não podem reclamar seus direitos perante as autoridades, o que os torna alvos fáceis para aproveitadores. O fato de serem imigrantes ilegais não dá o direito de serem tratados de forma ilegal.

Um dos primeiros erros do senso comum ao abordar a questão dos imigrantes é alegar que eles roubam empregos da população local. Como vemos no filme e como tentamos fechar os olhos para não ver em nosso cotidiano, os imigrantes são empregados para funções rejeitadas pelos moradores locais, como os bolivianos escravizados em São Paulo, os haitianos recrutados para serviços braçais ou, em países europeus, brasileiros que trabalham fazendo faxina ou trabalhos similares.

No filme o caso é ainda mais grave. Com ambos trabalhando em um hotel, Okwe descobre por acaso que um dos funcionários – um inglês – lidera um esquema de tráfico de órgãos, sendo que muitas vezes os imigrantes tentam trocar um rim por um passaporte legalizado.

Realizada sem as menores condições cirúrgicas, a extração do órgão rende, na melhor das hipóteses, uma infecção gravíssima aos que sequer poderiam procurar um hospital. Isso leva ao extremo a ideia de que uma ilegalidade não justifica a outra. Tanto podemos interpretar a situação do filme como literal, pois em alguns países os imigrantes ilegais são submetidos a qualquer coisa, inclusive mutilação, quanto metafórica, pois em locais onde os imigrantes são mantidos como escravos, vale expressão popular de que para pagar a dívida seria necessário vender um rim.

Durante toda a trama vemos o quando a sociedade é bem mais complexa do que o maniqueísmo entre bem e mal pode indicar. O ápice desta complexidade evidentemente vem no final da história, sem detalhes aqui para não comprometer nenhuma surpresa, mas muito além do filme, vale a pena estendermos suas reflexões para nossa própria sociedade.

É cômodo adotarmos a postura conservadora de apoiar a expulsão dos imigrantes. Enquanto compramos roupas barateadas pela mão-de-obra escrava ou toleramos salários indignos para imigrantes absorvidos pela construção civil, fechamos os olhos para o fato de sermos, todos os brasileiros, frutos de um conjunto de imigrações ao longo da história do país.

Como em qualquer lugar do mundo, nossa xenofobia também é seletiva. Qualquer imigrante oriundo de um país rico que venha abrir uma loja ou restaurante por aqui será bem recebido, sem que ninguém questione sua idoneidade ou os motivos que o fizeram imigrar. Já quando a origem é um país pobre, como a recém onda de imigrantes vindos do Haiti, o pressuposto é de que se tratam de pessoas sem instrução, que nada teriam a acrescentar ao país. Uma visão preconceituosa, que diferente dos imigrantes, de fato não acrescenta nada a ninguém.


terça-feira, 6 de maio de 2014

O Físico (The Physician)

Historicamente as religiões costumam prestar grande desserviço à ciência, sendo a medicina um bom exemplo de como o avanço do conhecimento pode ser barrado por crenças religiosas. Enquanto antigos egípcios e gregos nos surpreendem com procedimentos complexos para suas épocas, o período da Idade Média, dominado pela igreja Católica, mostrou pouco avanço, e por vezes até certo retrocesso para o desenvolvimento de tratamentos médicos.

É esse desenvolvimento lento e trabalhoso que vemos no filme do diretor Philipp Stölzl. Adaptado do romance homônimo, que deveria ter sido traduzido como “O médico”, o protagonista Rob Cole (Tom Payne) não mede esforços para desvendar os mistérios da cura, desde que, ainda criança, viu sua mãe morrer com dor de barriga – uma simples apendicite, que na época era fatal.

A falta de conhecimento é a porta de entrada mais comum aos charlatões. Desde a época do filme, que começa no ano 1021, curandeiros já empurravam qualquer coisa às pessoas fragilizadas por alguma enfermidade. Algumas vezes esses remédios eram baseados em conhecimento empírico, com ervas medicinais passadas de geração para geração, outras vezes, como indica o filme, até urina de cavalo poderia ser vendida camuflada como remédio.

Com os estudos proibidos pela igreja Católica, o oriente muçulmano oferecia mais espaço para o desenvolvimento da medicina, lecionada por Ibn Sina (Ben Kingsley). Isso não quer dizer que a ciência poderia se desenvolver livremente. Católicos não eram aceitos, por isso Rob teve que se passar por judeu, e a inviolabilidade dos corpos proibia a dissecação de cadáveres.

A picuinha entre religiões nunca trouxe nada de bom para a sociedade e é curioso que alguns pontos em comum, como a inviolabilidade dos corpos, contribuem negativamente. Com o pretexto de que o corpo é sagrado os cientistas não poderiam estudar a partir de cadáveres, ainda que as igrejas tenham sido inúmeras vezes condescendentes com a produção de cadáveres em massa.

É inegável que a liberdade científica avançou muito no milênio que seguiu à época relatada. Casos de religiosos que se recusam a receber tratamento médico por este ser incoerente com a fé são raros, porém muitas pesquisas, sobretudo com células tronco, ainda são tolhidas por pessoas sem a menor qualificação técnica para opinar, retardando o avanço de uma técnica que promete ser menos invasiva e com resultados surpreendentes.

Se por um lado as três grandes religiões do mundo não detêm mais o conhecimento, laboratórios rivais guardam suas descobertas a sete chaves, protegendo a patente e bloqueando o progresso em prol do lucro que os futuros remédios trarão. Mudam as justificativas, mas o egoísmo milenar continua sobreposto ao conhecimento em prol da maioria.

Semelhante aos dias atuais, vemos grande mobilização diante de epidemias mais graves, como no caso da peste negra, que assombrou a humanidade por séculos. Com os empecilhos citados e o pouco conhecimento, é notável como se sobressai uma forma construtivista de aprendizagem – não só em relação à medicina, mas também na matemática, construindo um gráfico do número de mortos de forma clara e didática.

No filme é necessário que tudo aconteça de forma mais rápida e abreviada, portanto vemos o mestre Ibn Sina trabalhando em conjunto com seus discípulos para desvendar algum segredo sobre o mal que assola a cidade. Noções de infectologia que hoje são extremamente básicas e banais só são conhecidas por qualquer criança por um dia terem sido desenvolvidas na prática.

As primeiras medidas profiláticas devem ser tomadas com base no agente transmissor da doença em questão. Quanto à peste negra, descobrir que o contato com pessoas infectadas transmite a doença e que ratos carregam as pulgas transmissoras foi fundamental para barrar o avanço da doença, já que os antibióticos que hoje tratam os doentes com facilidade só seriam desenvolvidos séculos mais tarde.

Curioso que a medicina preventiva esteja na gênese desta ciência por, a princípio, não haver a alternativa da cura. Hoje é bastante óbvio o velho dito popular que é melhor prevenir do que remediar, pois ainda que muitas doenças tenham cura todos preferem não adoecer. Não obstante, ainda padecemos com muitas doenças cuja profilaxia seria simples; tão básica quanto o saneamento básico que não chega a uma porcentagem expressiva dos lares brasileiros.

O Físico, ou médico, não apenas mostra de forma didática alguns passos importantes da medicina que conhecemos hoje, como também dá algumas lições que com nova roupagem devem ser ensinadas, tanto para os que precisam prevenir doenças quanto para os que seguem barrando o avanço a ciência de uma forma ou de outra.


terça-feira, 29 de abril de 2014

A teta assustada (La teta asustada)

Muitos consideram este filme, da diretora Claudia Llosa, como a melhor obra do cinema peruano. De fato o filme faz uma boa síntese entre elementos culturais indígenas e a influência europeia, cuja exploração ao longo de todo o período colonial ainda deixa marcas profundas, sobretudo com a absorção de péssimos comportamentos.

Ao longo da história vimos que a cultura de um povo não morre. Por mais que tente ser reprimida, alguns elementos sempre sobrevivem ao tempo, passando com esforço de geração para geração. Da mesma forma, a influência cultural externa é inevitável.

Um elo dessa soma de culturas no filme é a protagonista Fausta (Magaly Solier). Com fortes traços indígenas, a moça é fruto de um estupro – fato revelado através de uma canção em dialeto indígena, por sua mãe, um pouco antes de morrer. Segundo a crença indígena, por ser resultado de uma violência Fausta pegou a doença da ‘teta assustada’, absorvendo o medo através do leite materno.

Entre as várias pragas sociais trazidas pelos europeus para a América Latina, o estupro somou a dominação europeia e a masculina, e segue fazendo inúmeras vítimas até hoje. Muitas vezes o trauma desta violência, como vemos através de Fausta, é insuperável.

Símbolo do oprimido, a moça se porta como um bicho assustado e resignado ao longo de todo o filme, não por timidez, mas por subserviência. Seja diante dos patrões ou diante dos membros da própria família, é com muita dificuldade que ela luta por um enterro digno para sua mãe; levar o corpo até a cidade, que se torna difícil porque o dinheiro da família é consumido pelo casamento da prima de Fausta.

Tanto o casamento quanto o funeral são ritos presentes em praticamente todas as culturas, mas cada uma a seu modo. Fica claro que no filme ambos seguem o padrão católico, não indígena. A noiva tem que descascar uma batata, para mostrar uma habilidade culinária que supostamente atestaria seu preparo para o matrimônio. Além desse machismo latente, ela deseja um longo véu no vestido e penteado igual ao da personagem da novela, que acaba consumindo todo o recurso financeiro da família, obrigando Fausta a conseguir algum emprego para custear o enterro de sua mãe.

Mais uma vez o imperialismo secular é bem construído através das imagens. A personagem deixa o vilarejo onde mora, semelhante a uma favela, com construções concluídas antes de terminadas, para chegar até uma mansão colonial. Toda a imponência da construção já seria suficiente para intimidar alguém tão humilde quanto Fausta, não bastasse isso, a moça ainda é inspecionada como eram os escravos, que por sua vez eram escolhidos feito animais, examinando a qualidade dos dentes e características físicas.

O contato entre empregada doméstica e patrões também parece ter sido padronizado pela América Latina, absorvido de um histórico de escravidão, no qual empregados deviam ter dedicação exclusiva aos patrões. Hoje a escravidão não é mais institucionalizada, portanto deve receber uma camada de verniz para que se esconda sob a aparência de uma relação justa.

Fausta nos mostra uma sociedade em que o medo é onipresente. Em sua família o único laço mais forte era com a mãe, que acaba de falecer; entre os demais parentes a moça é preterida pela prima prestes a se casar; no emprego o medo da patroa a impede de reivindicar até seus direitos básicos; e no trajeto entre casa e emprego – únicos locais que ela frequenta – existe o risco latente de estupros.

Há uma metáfora curiosa em relação à dominação do machismo na sociedade, indicando que Fausta tem uma batata na vagina, para que não seja estuprada como a mãe. Não sei se isso está relacionado com a noiva descascando uma batata para provar suas habilidades, mas me remete ao medo constante e à simbologia dos absurdos que as mulheres têm que fazer, seja no distante vilarejo, seja nos grandes centros urbanos, para evitar um absurdo tão insano quanto o estupro, já que seguimos ensinando as mulheres a como não serem estupradas, ao invés de ensinar os homens a não estuprar.

Mesmo com as particularidades culturais, ‘A teta assustada’ é um retrato geral da América Latina. Explorada por séculos, a população naturalizou a violência a ponto dos oprimidos não desejarem a liberdade, mas ansiarem pela possibilidade de passarem para o lado opressor. Se não é possível atingir o topo da pirâmide social, outras formas de dominação cumprem a falsa ideia de poder. A mais comum é o estupro.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Quase dois irmãos

A história de uma nação constrói seu momento presente. Apesar disso a história costuma ser citada de forma enviesada, sendo a multiplicidade dos fatos e suas versões uma grande contribuinte para o uso estratégico de acontecimentos passados.

No Brasil, quando falamos de corrupção buscamos raízes históricas, tentando minimizar o problema alegando que os desvios de conduta dos governantes sempre existiram por aqui. Já quando a ideia é a implementação de cotas para negros, os opositores alegam que a escravidão já ficou no passado, portanto supostos privilégios não fariam sentido.

Juntando raízes do período colonial com um fato bem mais recente, curto, mas não menos marcante de nossa história, a diretora Lucia Murat aborda a ditadura militar e seus desdobramentos de forma extremamente didática, através de três períodos da vida dos dois protagonistas.

Miguel, branco, e Jorge, negro, se conhecem ainda na infância graças ao contato de seus pais, na vida adulta (interpretados por Caco Ciocler e Flavio Bauraqui) voltam a se encontrar na cadeia, porém com uma diferença fundamental: Miguel é preso político e Jorge um preso dito ‘comum’.

Por vezes a opinião popular parece indicar uma fusão desses dois conceitos. Mais que isso, parece reduzir toda e qualquer infração a um crime passível das penas mais cruéis. Entretanto é necessário saber diferenciar o que é uma violência política e o que é uma violência criminal.

Principalmente em países europeus, com tradição democrática e histórico de lutas políticas, por mais que haja conflitos entre policiais e manifestantes, não existe a criminalização de movimentos sociais, o que existe é uma noção mais clara de que, em uma democracia, reivindicar um direito é uma base fundamental da estrutura política.

No Brasil a sociedade teve como exemplo a escravidão, que marca cerca de 75% de nossa história. Nunca houve uma classe trabalhadora organizada e politizada que reivindicasse seus direitos constitucionalmente. Os negros que tentassem algum tipo de organização eram torturados e mortos, para que os outros não seguissem o mesmo exemplo.

Essa cultura de repressão associada à clivagem social entre brancos e negros cria um cenário bem interessante para o filme. De um lado os presos políticos tentando engajar o restante dos presidiários, colocando problemas em votação e criando uma estrutura de poder horizontal – pelo menos em tese. Do outro lado os presos por atitudes criminais começavam a colocar nos presídios as regras que com o passar dos anos tornaram-se quase uma constituição à parte nas instituições prisionais.

Nossa tendência maniqueísta de olhar para os fatos em busca de um certo e outro errado nos atrai para uma visão egoísta das situações, encarando tudo o que for mais próximo a nós como certo e o mais distante como o errado que merece punição mais severa.

Esse conflito desnecessário é bem expresso no filme pelos presos políticos, que acabam tentando impor ordens tal qual o governo que combatiam, e pelos presos comuns, que se negavam a acatar decisões que seriam benéficas para todos. Tudo extremamente vantajoso para aqueles que estão no poder.

Dividida e brigando entre si a população fica muito mais fraca do que unindo forças em torno de um objetivo em comum. Essa conclusão é válida para um cotidiano restrito, como uma cadeia dividida no período de ditadura militar, e também para uma sociedade inteira, da qual o filme não se esquece.

Além da infância e juventude, vemos os dois protagonistas na era pós-reabertura política, em situações muito mais próximas do que vivemos hoje. Corroborando os estereótipos, Miguel – branco e preso político – virou senador e Jorge – negro e ex-presidiário – líder do tráfico em uma favela. O destino quase pré-definido desde a infância tem raízes que vão muito além do período da ditadura.

A escravidão institucionalizada pode ter acabado há mais de um século, a ditadura há cinquenta anos, porém nossa sociedade segue estigmatizada por estes períodos. Negros seguem marginalizados desde a infância, com menos oportunidades, lotando presídios e taxados de culpados por problemas sociais dos quais são vítimas. Militantes políticos, embora tenham mais liberdade que nos anos da ditadura, seguem criminalizados, como se lutar por um direito fosse uma afronta à democracia, ao invés de um de seus pilares.

No topo de uma relação de poder extremamente verticalizada encontram-se, há séculos, aquela minoria que têm responsabilidades diretas pelos problemas sociais. Cometendo crimes econômicos realmente expressivos e lesando com isso toda a sociedade, promovem a criminalização de movimentos sociais e a perpetuação do racismo, que entre outros fatores desviam o foco da desigualdade social insana que tanto prejudica o país desde seu passado mais remoto.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Os filhos do padre (Svecenikova djeca)

Esta comédia utiliza caricaturas e estereótipos para expor críticas à postura da igreja católica diante de mudanças sociais. Com tantas tentativas de intervenção nos direitos civis por parte da igreja, o diretor Vinko Bresan nos apresenta a partir de um pequeno fato uma teia shakespeariana de problemas, mostrando que a realidade está distante de qualquer controle.

Mais do que um entretenimento, a obra nos proporciona uma oportunidade de reflexão, que não deveria ser contestada por religiosos, mas que o histórico de intolerância indica ser uma oportunidade desperdiçada pelos mesmos.

O ponto de partida é o jovem padre de uma pequena ilha, Fabian (Kresimir Mikic), que alertado por Petar (Niksa Butijer), um comerciante local, que a baixa natalidade da ilha estaria relacionada à venda de preservativos, toma uma atitude extrema: furar as camisinhas antes da venda, para que a concepção ocorra, na versão do padre, segundo a vontade de Deus.

Seguindo os dogmas da igreja, Fabian não estaria totalmente errado, já que o método anticoncepcional é condenado. O problema, não restrito ao filme, é a imposição de um dogma por parte da igreja, ainda que no filme isso seja exibido de forma metafórica.

Os princípios das grandes religiões que dominam o mundo foram formulados há séculos ou até milênios atrás, quando a sociedade era radicalmente diferente de hoje. Imaginar que seja possível seguir a risca os ensinamentos bíblicos – para ficarmos restritos ao catolicismo do filme – implica em alguns problemas.

Uma questão de escala: a população há mais de dois mil anos era muito menor que a de hoje, índice de mortalidade maior e o planejamento de vida era indiscutivelmente mais simples. Ainda que na Europa muitos países tentem combater a baixa natalidade atual, o mundo hoje demanda planejamento familiar e não ter filhos é uma alternativa com impacto muito menor em relação ao papel do indivíduo na sociedade.

Outro ponto fundamental em imposição de fundamentos religiosos é o fato de a Bíblia conter inúmeras metáforas, portanto sujeitas às mais diversas interpretações, de acordo com a conveniência daqueles que a leem. Não bastasse isso, o livro sagrado foi escrito em uma língua arcaica, traduzido para o latim, grego antigo e algumas outras fases até chegar às versões atuais. Se uma obra contemporânea, escrita no universal inglês, tem problemas de tradução, o que dizer de um livro tão antigo, nas condições citadas?

E, entre tantos outros fatores que poderiam ser considerados, chama a atenção para a tolerância à diversidade. Em dois mil anos de cristianismo, é de se esperar que as pessoas tenham autonomia para decidir o que devem ou não fazer, isso se aplica tanto aos católicos, curiosamente tolerantes a certas proibições bíblicas como o sexo antes do casamento, quanto aos adeptos de outra ou nenhuma crença.

Assim como no filme, ninguém quer impor o uso de preservativo àqueles contrários ao anticoncepcional, e o mesmo se aplica às outras questões polêmicas em que a igreja interfere diretamente na vida de cidadãos que por vezes sequer querem seguir seus dogmas.

Ao ignorar o livre arbítrio e insistir em impor um comportamento a igreja, que é bem diferente da religião, acaba descobrindo o que se recusava a admitir, ou seja, a proibição do preservativo se desdobra em problemas muito maiores do que a gravidez quando aparecem as relações extraconjugais, sexo casual e tantas outras coisas que a igreja proíbe, mas os fiéis não.

De forma bem realista, a hipocrisia de alguns membros da igreja também marca presença no filme. A ideia do ‘faça o que eu digo, não o que eu faço’ é praticada pelo alto clero desde tempos remotos, seja na pregação da humildade em meio a um altar luxuoso, seja no moralismo sexual em meio a escândalos que vão de relações sexuais consentidas à pedofilia.

É evidente que as discussões em relação às religiões e suas posturas são antigas e inesgotáveis, porém é interessante notar, em meio ao ritmo suave e bem humorado do filme, que o papel da igreja na sociedade é outro. O controle sobre a esfera privada deixou de fazer sentido, se é que um dia o fez, e atualmente a igreja pode realizar ações muito mais coerentes com seus dogmas se assumir as mudanças sociais que aconteceram ao longo dos séculos.

Até mesmo ter a humildade de admitir os próprios erros é uma virtude pregada pela igreja, mas distante da realidade dos clérigos. Assim como o padre Fabian, a instituição prefere esconder um erro com outro, juntando remendos que cedo ou tarde se tornam insustentáveis. Se uma das premissas religiosas é proporcionar conforto aos fiéis, cabe lembrar que a vida já é difícil o bastante sem o cabresto moral da igreja.


terça-feira, 18 de março de 2014

Rush - no limite da emoção (Rush)

Rush apresenta uma das mais marcantes temporadas de Formula 1 de todos os tempos. Além da tradicional disputa psicológica fora das pistas e das manobras arriscadas na briga por posições, culminando em um campeonato decidido por detalhes, ainda teve um dos mais sérios acidentes não fatais da categoria.

Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) foram protagonistas históricos na Formula 1, retratados com maestria tanto pelos atores quanto pelo diretor Ron Howard, explorando as características marcantes de cada um. Lauda extremamente técnico e preciso em cada detalhe, Hunt muito mais visceral e instintivo.

Independente de ser ou não fã de automobilismo, essas características dos pilotos abriram espaço para uma análise da construção dos personagens ao longo do filme. Acredito que a maioria dos que acompanharam o campeonato de 1976 acabaram torcendo pelo título de Niki Lauda, sobretudo nas últimas corridas. Voltar a correr apenas três provas depois de um acidente pelo qual chegou a receber a extrema unção costuma ser encarado como, além de loucura, um exemplo de superação.

Porém no filme, desde o começo as pessoas são empurradas para o lado do piloto austríaco, em detrimento de James Hunt. É inegável que o britânico era um playboy descompromissado e fazia questão de ficar longe da fama de bom moço, o curioso é como temos a tendência de penalizar esse comportamento e valorizar quem abre mão de uma vida de prazeres em prol do trabalho duro.

O consenso é que Lauda foi muito mais piloto que Hunt. Este último foi campeão por uma série de acasos, ou seja, chegou a Formula 1 graças à saída de Emerson Fitipaldi para a fracassada tentativa de criar uma equipe brasileira, foi beneficiado pelo acidente de Niki Lauda que comprometeu seu desempenho posterior e, muito provavelmente, não teria conseguido superar o rival não fossem as condições adversas da última corrida.

Se por um lado podemos pensar no título de Hunt como uma injustiça, por outro a aparente falta de compromisso com a seriedade, o desleixo com o preparo físico e o descaso com os treinos podem também ressaltar sua qualidade como piloto, afinal, podemos imaginar a que nível chegaria com mais dedicação ao esporte.

Entre as principais rivalidades do automobilismo, a criação de “mocinhos e bandidos” costuma ser acima de tudo lucrativa para a categoria. Uma disputa exclusivamente técnica costuma não ser tão empolgante quanto aquelas que envolvem disputas mais acirradas também fora das pistas.

Neste caso é a partir dos boxes que a torcida começa a se identificar, geralmente com aquele que apresenta mais comprometimento com o trabalho do que com a diversão. Talvez a exceção fosse um piloto intermediário, que juntasse a precisão cirúrgica de Lauda com a emotividade de Hunt, mas esse piloto só brilhou no final dos anos 90, desbancando Alain Prost sempre que os cartolas da Formula 1 permitiam.

Em uma época que o automobilismo ainda não estava plenamente dominado pelo interesse de patrocinadores, quando os pilotos, mesmo que sob influência do patrocínio, ainda podiam demonstrar um pouco de atitude além das reações mecânicas que predominam atualmente, é bastante natural que o filme seja visto com certo saudosismo.

A opinião geral é que a categoria já foi melhor e mais competitiva. Há controvérsias racionais em relação a essa ideia, afinal na temporada de 2014 a Formula 1 completará vinte anos sem uma morte de piloto na pista, o que inegavelmente torna as corridas mais agradáveis.

De fato o aumento da segurança está ligado, entre outros fatores, ao desenvolvimento da aerodinâmica, que trouxe grande aderência e dificultou a ultrapassagem nas pistas, o que não quer dizer que pilotar ficou mais fácil. Mais seguro, sem dúvida, porém o desenvolvimento da tecnologia permite que pilotos deixem para frear cada vez mais próximo das curvas, contornadas cada vez mais rápido.

O que não muda, e fica claro no filme, é a paixão pela adrenalina que as corridas proporcionam. O som dos motores, a tecnologia de ponta, a habilidade máxima levada ao extremo. Há quem encare o automobilismo como voltas monótonas em um circuito, há quem consiga identificar a magia que ronda as competições, fazendo com que toda uma equipe deixe aflorar os sentimentos mais profundos buscando a superação, pessoal e coletiva.


terça-feira, 11 de março de 2014

Flores Raras

Fazer um filme sobre duas personalidades de destaque em suas áreas tem seus prós e contras. Por um lado há um rico material produzido pelas artistas, a ser trabalhado nas telas, por outro sempre existe o risco deste material ser mal trabalhado. O diretor Bruno Barreto tem o mérito de utilizar bem as obras originais, para criar um filme biográfico com enredo fluente.

É interessante que os versos de Elizabeth Bishop (Miranda Otto) ou os traços de Lota de Macedo Soares (Glória Pires) separadamente já renderiam bons filmes, porém a união de ambas, com a inspiração mútua de cada trabalho, é o tempero que torna a história ainda mais chamativa.

A poeta norte americana chega ao Brasil em busca de inspiração e o primeiro contato não confirma as expectativas. Uma personalidade introvertida e habituada ao relacionamento mais distante de países anglo-saxônicos costuma se sentir bastante deslocada com o primeiro contato caloroso dos latinos.

Passada a primeira impressão, que nem sempre é a que fica, tanto o amor de Lota quanto a exuberância da flora fluminense fizeram com que desabrochasse em Elizabeth um dos grandes talentos literários do séc. XX. Antes de sua viagem um amigo americano alertou para o fato de uma viagem não permitir que escapemos de nós mesmos. O conselho é válido, mas falho.

De fato muitos tentam fazer uma viagem quando a vida parece não oferecer alternativas, porém depois de um período ausente, dure o tempo que durar, os velhos problemas costumam nos recepcionar com as mesmas flores murchas que deixamos para trás. A particularidade é que Elizabeth tem uma profissão muito singular, que muitas vezes precisa ser alimentada com novos ares para que possa condensar em poucas palavras uma vasta e confusa mistura de sentimentos.

Já Lota, uma arquiteta autodidata, se inspira na natureza ao seu redor, desenhando a própria casa em harmonia com a mata tropical que a cerca. As personalidades aparentemente conflitantes passaram a se completar da melhor forma possível, em um relacionamento que a despeito dos desentendimentos conseguia estimular e extrair o que cada uma tinha de mais profundo.

Como a vida é complexa e insuficiente, talento e amor não bastam. É claro que o filme é uma obra baseada na história de Elisabeth e Lota, nem tudo o que é mostrado aconteceu exatamente daquela maneira, porém o desdobramento de um relacionamento de mais de dez anos inevitavelmente traz desavenças, que nem sempre são bem trabalhadas pelo casal.

Voltando ao ponto de se tratar de duas pessoas que trabalham com criação artística, cada uma em sua área, não é difícil imaginar que a rotina de um relacionamento longo tenha efeitos colaterais. Antes de artistas, são pessoas que também agem por impulso, por interesse e muitas vezes cometem deslizes.

Quando estamos dispostos a compartilhar nossa vida, incluindo não só os bons momentos, mas por vezes nosso pior lado, que todos temos e por vezes se torna incontrolável, vivemos grandes momentos, que servem de inspiração e motivação. Evidentemente que também passamos por crises muitas vezes difíceis de serem solucionadas.

Como vemos no filme, os entraves de um relacionamento podem se tornar ainda mais sérios com a presença de egos insuflados pela fama, tanto da escritora quanto da arquiteta. Não se trata de fim do amor, na verdade o problema é até mais simples, porém mais difícil de ser contornado. Em geral, com o tempo, os caminhos que até então seguiam paralelos passam a se afastar, nenhum dos dois quer ceder e abrir mão ou de uma oportunidade ou do amor.

A maturidade de aceitar a necessidade de um afastamento temporário é mais difícil do que parece, ao menos quando se está vivendo a situação. Teoricamente é simples, basta que o casal aceite uma breve separação e trabalhe para que os caminhos voltem a estar em paralelo. Na prática, talvez até pela falta do amor que inspirava, mesmo após essa inspiração contínua ter se tornado banal com o tempo, essa simplicidade desaparece.

Diferente da maioria dos casais, Elizabeth e Lota deixaram marcas profundas por onde passaram. Tanto como casal quanto como artistas, podem ser admiradas pela determinação e atitudes inovadoras. É uma pena que cinquenta anos mais tarde algumas pessoas ainda deem mais valor para a orientação sexual do que para as obras excepcionais que ambas deixaram, principalmente o livro ‘North & South’, que rendeu à Elizabeth o prêmio Pulitzer, e o Parque do Flamengo, projetado por Lota e admirado até hoje no Rio de Janeiro.



terça-feira, 4 de março de 2014

Ela (Her)

Já não são poucos os filmes que narram a humanização de computadores como consequência da inteligência artificial. Desta vez é o amor romântico entre homem e máquina que chama a atenção, em um drama com comédia sutil, dirigido por Spike Jonze.

Computadores com tecnologia suficiente para imitar humanos são recentes em nossa história. Humanos forçados a se aproximarem de máquinas é a condição mais comum, tanto que isso nem chega a chamar muito a atenção.

Sobretudo com o surgimento de indústrias, homem e máquina passaram a trabalhar em conjunto e a grande maioria dos humanos devem doutrinar seus corpos para acordarem no mesmo horário, cumprir a mesma rotina e executar a mesma tarefa. Padronizar o consumo, a demanda, a estética. Viver de forma quase mecânica.

No filme o trabalhador humano é Theodore (Joaquin Phoenix). Sua função é escrever cartas. Em um futuro próximo casais pagam para que um desconhecido escreva cartas de amor a serem trocadas. Para organizar suas tarefas ele resolve testar um novo software. É como um computador onde se podem agendar compromissos, fazer anotações, realizar uma série de consultas, etc., com a particularidade da inteligência artificial.

Theodore escolhe que o software tenha voz feminina e esta escolhe o nome Samantha. A partir daí Theodore passa a ter a secretária que muitos executivos sonham. Disponível em tempo integral, não erra, não esquece, dá boas sugestões e faz as melhores escolhas. Muitas secretárias agem como mães subjugadas pelo poder econômico.

A consequência bastante provável de uma relação que envolva tanta cumplicidade é a paixão. Trata-se de um software, mas o que difere Samantha de uma relação à distância com alguém que tecla do outro lado do mundo? E Theodore não é uma exceção maluca. Várias pessoas do filme mantém um relacionamento com seus softwares.

Se por um lado cada relacionamento é único, por outro o roteiro costuma ser bem parecido. A fase que precede uma separação é marcada pelo casal envolvido em um tenso jogo de xadrez, no qual cada passo pode render um contra-ataque fatal. Na relação entre homem e máquina não é diferente.

Porém, como jogar com quem identifica até nuances da voz como medo, insegurança ou indiferença? Pode ser bom por não deixar dúvidas quanto a verdades ditas, mas às vezes não queremos passar nem para nós mesmos a insegurança de um sentimento confuso. Não estamos mentindo, mas perdidos em meio aos sentimentos conflitantes.

Os computadores e todos os seus recursos surgem com a função de sanar alguma necessidade humana. De simples operações matemáticas aos mais avançados programas, criamos ferramentas eletrônicas para nossas demandas. Mas em relação ao amor, o que queremos?

Samantha tem disponibilidade integral ao seu dono (ou namorado). Nunca está ocupada, indisposta ou cansada. Porém a capacidade de um computador é infinitamente superior a nossa, de forma que ela pode estar com Theodore e com mais milhares de pessoas e softwares ao mesmo tempo.

Nossa insegurança demanda controle; nosso egoísmo, exclusividade. Em casos extremos, queremos controle sobre o outro. O controle do computador é total graças à capacidade de analisar até nuances da voz, mas o nosso controle não. Isso é ruim? Em um relacionamento "de verdade" as inseguranças de ambos são confrontadas em uma dialética complexa, na qual ambos procuram as próprias verdades.

Caso Theodore pergunte a Samantha por quantas pessoas ela está apaixonada, ela é capaz de dizer um número exato, preciso. Não há dúvidas ou sentimentos confusos e ambíguos. Isso é bem pior do que pode parecer. No fundo, preferimos a doce ilusão de sermos únicos ao outro, mesmo em meio aos sete bilhões de pessoas do mundo.

Uma marca estética do filme é a distinção de cores na vida do protagonista. Quando Theodore está no trabalho ou em casa, mas sem contato com Samantha, o cenário tem cores vivas e gritantes. Feito o contato, com o qual ele esperava ser único, tudo fica mais discreto, acinzentado e apático, o que é curioso, pois o que se espera de um relacionamento é exatamente a vivacidade. Uma metáfora muito bonita é a de Theodore caminhando na neve, contra o vento, logo após uma conversa tensa e desagradável com a namorada.

É aflitiva a ideia de pessoas se relacionando com softwares, sobretudo pelo cenário factível apresentado. Talvez, espero, não chegaremos nunca a esse extremo, mas o fato é que independente de computadores, quando um encontro torna o mundo cinza e apático, é hora de rever certas prioridades.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Gloria

Uma mulher que não se contenta com a solidão. Este é o ponto de partida do diretor Sebastián Lelio. A protagonista Gloria (Paulina García) faz de tudo para viver a vida de forma intensa, mesmo que sozinha sai para dançar, canta, frequenta bares e busca um romance. Não seria uma história muito atrativa se ela não estivesse beirando os 60 anos.

A possibilidade de uma mulher dessa idade viver a vida livremente e preferir lidar com os percalços cotidianos a render-se ao papel estigmatizado para idosos é recente. Os avanços sociais em termos de igualdade de gênero e até mesmo de idade são lentos e historicamente não favorecem as mulheres.

Mesmo com os hábitos em processo de mudança, os homens, de uma sociedade machista, sempre gozaram de mais liberdade e menos censura, chegando à terceira idade com possibilidades de encontrar um novo amor, sair com mulheres mais jovens ou qualquer atividade que os faça felizes.

Às mulheres, depois de passar a vida em função do marido e filhos, restava uma velhice tranquila e insuportavelmente monótona. A prova de que essa herança cultural ainda nos persegue é que Gloria, mesmo com toda sua disposição, demonstra não ter fortes laços de amizades que poderiam ter sido cultivados ao longo da vida.

De seu passado sabemos apenas que foi casada, graças a um encontro com o ex-marido, atualmente casado, e a presença dos filhos, cuja relação com a mãe também evidencia um período de transição social. Gloria é uma mulher forte, mas ao mesmo tempo carente, demonstrando não ter superado o fato dos filhos terem crescido e não precisarem mais de seus cuidados.

A protagonista sofre os efeitos de apostar em uma relação próxima aos filhos, mas não ser correspondida. Talvez o que demandasse um pouco mais da atenção que ela tanto gostaria de proporcionar seria um neto, mas sua filha engravidou de um suíço e irá deixar o país.

É sozinha, carente e jamais entregue que Gloria encontra um novo amor, Rodolfo (Sergio Hernandez), também separado – ao menos é o que ele diz –, mas ao contrário dela, ele é extremamente conectado com as filhas, com as quais está sempre no telefone.

Apesar de cada vez mais comuns, os casais formados na terceira idade ainda não têm muitas referências históricas. Pensando nos tradicionais casais formados na adolescência, com a interferência dos pais, falta de dinheiro, inexperiência, etc., podemos esperar que os mais velhos levem vantagem e enfrentem menos problemas. Ilusão.

Gloria é a protagonista, portanto é ao redor dela que gira a história e, ainda que possamos criticar algumas nuances de seu comportamento, Rodolfo se mostra bastante despreparado, para não dizer infantil mesmo já tendo passado dos sessenta, em relação ao namoro. Tanto a insegurança ao conhecer o ex-marido de Gloria quanto à dificuldade de lidar com a dependência das filhas já adultas nos remete a um casal adolescente, que não consegue construir ou manter um relacionamento prazeroso.

Os problemas dos dois nos mostram o quanto somos complexos e como um relacionamento é difícil. Não se trata apenas de experiência e maturidade. Se hoje os casamentos têm durado menos tempo e as relações conjugais estão mais frágeis, não é por falta de empenho. A diferença é que até pouco tempo o divórcio era proibido, os casamentos arranjados e a mulher criada desde pequena para servir ao marido.

Não havia separações, mas havia satisfação? Sem dúvida Gloria tem que lidar com frustrações que não existiriam se ela aceitasse uma velhice tranquila dentro de casa, mas como iria lidar com sua carência e a sensação de vazio deixada pela independência dos filhos?

Gloria representa muito bem um novo comportamento social, adotado por pessoas que perceberam que o aumento da longevidade pode e deve ser acompanhado de qualidade de vida. Em uma sociedade que busca a juventude a qualquer preço não é nada fácil conciliar a pressão social para ser escrava da juventude e, ao mesmo tempo, trabalhar a quebra de paradigmas que permite aos mais velhos uma vida para além dos lamentos e saudosismos.

Um ponto chave que Gloria ensina para lidar com essa fase da vida é algo que deve ser bem cultivado desde cedo: as amizades. Podemos envelhecer ao lado de algumas pessoas que nos acompanharam ao longo da vida, um dando suporte ao outro, mas é claro que nunca é tarde para conhecer pessoas que, diferente de amores românticos, tem muito mais chance de corresponder às expectativas.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Redentor

O filme não chega a ser uma grande obra do cinema nacional, mas traz questões extremamente relevantes quanto ao crescimento desordenado das cidades e suas implicações. Uma pena que depois o diretor Claudio Torres cai em uma tentativa de realismo fantástico que não atinge grandes resultados.

A base da história é um edifício construído pelo pai de Otávio Sabóia (Miguel Falabella), na promissora região da Barra da Tijuca, que na década de 70 ainda não era o símbolo da ascensão social de hoje. Ao lado do condomínio, os mesmos operários que construíram o prédio construíram também uma favela para moradia própria.

Por problemas financeiros que levaram seu pai ao suicídio, Otávio não entregou os apartamentos, prejudicando o pai de Célio (Pedro Cardoso), que sonhava com o novo lar, já quitado. Este cenário, tão comum em qualquer grande cidade brasileira, costuma ser analisado como problemas distintos e as providências geralmente são tomadas contra os mais pobres.

Favelas ao lado de condomínios não é exclusividade da Barra da Tijuca, nem mesmo do Rio de Janeiro. Em grandes conglomerados urbanos, que escancaram a desigualdade social, as áreas mais ricas contratam o serviço dos trabalhadores mais pobres, para a realização de tarefas pesadas como a construção civil exibida no filme.

O problema mais evidente de manter esses trabalhadores distantes, imaginando uma divisão urbanística em que favelas e bairros pobres ficassem distantes dos condomínios, é o custo e o tempo que o trabalhador levaria para se deslocar diariamente. Com as tarifas elevadas e a malha viária mal planejada, as cidades sofrem com o transporte em horários de pico. Além disso, tem a questão da segregação social causada pela formação de guetos, com critérios econômicos.

A ponta da pirâmide social também sofre as consequências de um crescimento desordenado, com base na especulação. Uma metrópole deveria ter seu desenvolvimento guiado por critérios mais técnicos, de forma que novas áreas residenciais fossem planejadas, diferente de um aval conseguido com propinas.

Se tudo der certo, depois que os grandes condomínios forem construídos e habitados a região passa a lidar com o trânsito caótico e a falta de estrutura para acomodar tanta gente de repente. Mas toda essa estrutura de construção e venda de imóveis torna-se frágil quando a incorporação imobiliária não trabalha com margens de erro.

Na prática os empresários (como o pai de Otávio) começam a construir um prédio e a vender os imóveis na planta. O dinheiro das primeiras vendas financia a continuidade da obra e posteriormente serve de base para a construção de um novo edifício. Em pouco tempo são várias obras em andamento, uma financiando a outra com o dinheiro de apartamentos parcelados em vários anos.

Tudo anda muito bem, até que a taxa de inadimplência começa a subir e a corrente se rompe. Com a falta de dinheiro as construções param, quem já pagou fica sem o apartamento (como o pai de Célio), quem pagou parte das parcelas acaba perdendo o dinheiro investido e os trabalhadores que eram sustentados pela obra acabam sem emprego.

Nossa tendência é culpar somente os inadimplentes, por adquirirem uma dívida que não teriam condições de quitar, esquecendo assim dos corretores que na hora da venda transformam tudo em benefícios, convertem os problemas em virtudes e fazem promessas imperdíveis para quem sonha em fugir do aluguel, sem contar as frequentes propinas e ilegalidades cometidas pelas construtoras.

Entre as partes envolvidas, os empresários são os que apesar de ter ido à falência, costumam ou ter grandes reservas em contas no exterior ou condições de se reerguer, conforme Otávio tenta a todo custo, literalmente. Célio é um personagem bastante específico, pois ao mesmo tempo em que foi lesado ao não ter o apartamento entregue, é jornalista e tem acesso a um meio de comunicação, usando como chantagem sua possibilidade de publicar algo que pode salvar ou destruir definitivamente a vida de Otávio.

Quem não tem dinheiro, destaque ou poder são os trabalhadores, que além de ficarem sem salário ainda são criminalizados pela construção da favela, como se morar em um barraco ao lado de um prédio vazio fosse uma opção desejada. Para quem não tem alternativa, os operários fazem uso inconsciente da função social de um imóvel, ocupando os apartamentos que construíram.

Na vida real esse é o momento em que no meio de uma estrutura que já nasce fadada ao fracasso, a polícia apara uma das arestas com a violência física que recai sobre os mais fracos. No filme as tensões geram a intervenção do Redentor que batiza a obra e torna-se seu ponto fraco.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Com mais uma trama marcada pela tensão entre personagens nada nobres, o diretor Martin Scorsese entra no mundo milionário das ações de Wall Street através do jovem e exímio vendedor Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio). A ascensão do protagonista é rápida e o ritmo frenético do filme ajuda a da a impressão de que o sonho de ficar milionário aconteceu de repente para Belfort.

Inversamente proporcional à fortuna, os escrúpulos vão diminuindo à medida que o personagem atinge seus objetivos e funda a corretora Stratton Oakmont. Apesar do filme ser baseado em uma história real, é possível traçar um bom panorama sobre a história econômica recente dos EUA e sua relação com investidores, utilizando este como um estudo de caso.

A carreira de Belfort começou em uma pequena corretora, cujas ações valiam centavos e a comissão chegava a 50%. O problema é que negociavam papéis de empresas de fachada, que não valiam sequer centavos, que dirá os milhares de dólares que o hábil vendedor arrancava dos clientes.

Este foi basicamente o estopim para a quebra da bolsa em 1929, quando, resumindo ao extremo, a economia norte americana cresceu tanto para reconstruir a Europa do pós-guerra, que quando o velho continente se recuperou os estoques de mercadoria dos Estados Unidos foram sustentados por ações sem valor, que ao começarem a quebrar geraram uma reação em cadeia.

Apesar das crises econômicas serem cíclicas, é muito difícil que a bolsa de valores repita este erro. As empresas de fachada continuam sendo criadas e, como vemos no filme, não faltam compradores que se atolam em dívidas com a ilusão de enriquecer através de papéis sem valor. Porém os governos estão menos inocentes em relação à especulação.

Em meio ao bom humor com que o assunto é tratado por Scorsese, ora com uma ironia fina, ora com atuações escrachadas, vemos que o equilíbrio de poderes entre corretores e investigadores é tênue, extremamente tenso e por vezes beira as explosões de violência recorrente em outras obras do diretor. Aqui os impasses são mais psicológicos.

O lobo do título remete à voracidade com que Belfort encara seus negócios, desde as primeiras vendas até as palestras motivacionais para seus funcionários. Mas comparando com o comportamento dos investigadores, é possível dizer que entre esses lobos não há cordeiros.

Seria louvável que o FBI agisse de forma a proteger aqueles que investem a economia de toda uma vida em ações que não valem nem um centavo, porém a preocupação gira em torno de proteger o próprio mercado. Indiretamente cumprem o papel de agir em prol da população, pois ações descontroladas, como a história ensina, podem dar prejuízos para todo o país, porém pouco é feito diretamente em relação aos pequenos investidores.

A postura de tolerância seletiva em relação aos crimes por parte da polícia norte americana pode ser verificada também através de algumas nuances do filme. Belfort e seus sócios justificam o estereótipo de corretores viciados. Todos se entopem de álcool, barbitúricos e cocaína. Que muitos milionários fazem uso de drogas ilícitas não chega a ser um grande segredo, porém a repressão neste mercado é muito mais forte em relação aos fornecedores, traficantes de países subdesenvolvidos e as ‘mulas’, que se arriscam para levar a droga aos EUA. Ainda que esta não seja uma polêmica debatida pelo filme, vale a pena indicar os desdobramentos de um crime.

Por parte daquele que comete o delito, parece quase inevitável e universal a sedução que o sucesso econômico exerce. O poder que acompanha o dinheiro é a combinação para que a ambição não veja limites, porém eles existem mesmo entre os milionários. Ultrapassá-los com cautela pode dar direito a correções, porém a cautela não é uma característica daqueles que vivem do mercado imprevisível de ações.

Toda a rede de delitos do filme é baseada no campo econômico, o resultado não é evidente. Diferente de assassinatos, agressões, etc. os crimes financeiros não deixam sangue e suas consequências são difusas, abstratas, deixando uma camada de verniz sob seu formato ilegal.

É possível procurar culpados objetivos. Subornos, complacências, falta de caráter entre tantos fatores identificáveis, porém o inegável é que todo o sistema econômico mundial gira em torno de falso capital. Ações que da noite para o dia podem levar seus acionistas à ruína ou à glória sem que nada seja produzido fisicamente.

Os governos tentam intervenções que não rompam com a tolerância em relação aos crimes mais convenientes, porém é inevitável que periodicamente algum vulcão do mercado entre em erupção. O caso mais grave até hoje foi a quebra da bolsa em 1929, o mais recente foi a crise do setor imobiliário em 2008. Quando será a próxima crise é tão imprevisível quanto as tendências do mercado.


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